O Mal-estar da Pós-Modernidade
VIII. O significado da arte e a arte do significado
VIII
O significado da arte e a arte do significado
Dois notáveis analistas e profissionais da cultura contemporânea, Michel
Foucault e Pierre Boulez, se encontraram em 1983 para debater o sentido da
nova música e sua recepção pública.1 Disse Foucault:
Não se pode falar de uma única relação da cultura contemporânea com a música em geral,
mas de uma tolerância, mais ou menos benevolente, com relação a um grande número de
músicas. A cada uma é concedido o “direito” à existência e esse direito é sentido como
uma igualdade de valor.
Boulez admitiu que de fato a reticência atual em tomar uma posição, a
aceitação incondicional do pluralismo e certa generosidade liberal que
caracterizam o nosso tempo criam uma situação em que “tudo é bom, nada
é ruim; não há quaisquer valores, mas todos são felizes”. E assim, disse ele,
“esse discurso, tão liberalizante quanto pode querer ser, reforça, ao
contrário, os guetos, consola a consciência das pessoas por estar num gueto,
especialmente se de quando em quando elas excursionam nos guetos das
outras”. A intolerância pode matar, mas a tolerância, mesmo se
reconhecidamente menos cruel, isola: uma espécie de música da outra, um
artista do outro, a música e o artista de sua platéia.
O que quer que o significado da nova música possa trazer não é
facilmente captado por aqueles que a ouvem. E Boulez explica por que
acontece isso:
Na música clássica e romântica (…) há esquemas a que se obedece, que podem ser
seguidos independentemente da própria obra. (…) Elas têm a eficiência e segurança dos
sinais; estes voltam de uma peça para outra, assumindo sempre a mesma aparência e as
mesmas funções. Progressivamente, esses elementos reanimadores desapareceram da
música “séria”. (…) As obras musicais tenderam a se tornar eventos únicos, que (…) não
são redutíveis a qualquer esquema orientador reconhecido por todos, a priori. Boulez prossegue até sugerir que a formação musical — que, observemos, é
sempre uma formação de atendimento das normas e identificação dos
padrões — é uma desvantagem, mais do que um trunfo, para a
compreensão. Pode-se falar aqui de um fenômeno similar à “incapacidade
treinada” na prática das grandes organizações, notórias pela promoção de
padrões de conduta regulares. Paradoxalmente (ou não tão paradoxalmente,
afinal), são os recém-chegados, os “estrangeiros” na música, os amadores
que se acham menos inibidos e, assim, mais capazes de ouvir
atentamente… Foucault concordou com essa explicação:
(…) cada audição se apresenta como um evento. (…) Não há nenhuma deixa que permita
[ao ouvinte] esperá-lo e reconhecê-lo. Ele ouve o que acontece. É uma modalidade muito
difícil de atenção, que se contradiz com a familiaridade elaborada por uma repetida audição
da música clássica.
Reconhecidamente, a nova música “séria” apresenta o caso mais
extremo e radical do “ruído de canal” — a dificuldade encontrada em
transmitir a mensagem. Mas este caso só exacerba e estende o problema
amplamente reconhecido da arte contemporânea em geral. Ludwig
Wittgenstein demonstrou de maneira convincente a impossibilidade de uma
“linguagem privada”. É a aceitação social de conexões necessárias entre os
signos e certos significados que faz uma linguagem. Mas a arte
contemporânea parece preocupar-se, mais do que qualquer outra coisa, em
desafiar, reptar e derrubar tudo o que a aceitação social, o aprendizado e a
formação solidificaram em esquemas de “necessária” conexão; é como se
todo artista, e toda obra de arte, lutasse para construir uma nova obra de arte
privada, esperando e desesperando convertê-la numa linguagem consensual
e genuína, isto é, dentro de um veículo de comunicação — mas retrocedesse
em pânico num novo deserto, ainda não domesticado pela compreensão, no
momento em que o sonho chega perto de sua realização… Como François
Lyotard o exprimiu, se desde o começo da modernidade as artes
procurassem os caminhos da representação do “sublime”, o que por sua
natureza desafia a representação, a procura do sublime pelos artistas
modernos moldaria uma “estética nostálgica”: eles postulariam o não-
representável apenas como um “conteúdo ausente”. Os artistas pós-
modernos, por outro lado, lutam por incorporar o não-representável na
própria apresentação. Mas esse esforço tem as suas conseqüências:
Um artista ou escritor pós-moderno está numa situação de um filósofo: o texto que escreve
e a obra que apresenta não estão, em princípio, norteados por regras estabelecidas, e eles
não podem sujeitar-se a um determinado julgamento pela aplicação de categorias
conhecidas. São essas regras e essas categorias que o texto ou a obra procura. O artista e o
escritor, portanto, trabalham sem regras, com o fim de estabelecer as regras do que terá
sido feito. Por isso, a obra e o texto têm a característica de um evento; surgem tarde demais
para seus autores ou — o que equivale à mesma coisa — sua realização sempre começa
cedo demais. O pós-moderno precisa ser compreendido através do paradoxo do tempo
futuro anterior.2
As normas pelas quais a obra foi construída podem ser encontradas, caso
possível, só ex post facto: no fim do ato da criação, mas também no fim da
leitura ou exame — uma vez que cada ato de criação é único e sem
precedentes, não se referindo a quaisquer antecedentes, a não ser citando-
os, isto é, arrancando as citações de sua situação original e, assim,
arruinando, em vez de reafirmar, seu significado original. As regras estão
perpetuamente se fazendo, sendo buscadas e encontradas, cada vez de uma
forma analogamente única e como um evento analogamente único, em cada
sucessivo encontro com os olhos, os ouvidos e a mente do leitor,
espectador, ouvinte. Nada da forma em que acontece tais regras serem
encontradas foi de antemão determinado pelas normas ou hábitos
existentes, autorizadamente sancionadas ou aprendidas a se reconhecerem
como sendo corretas. Nem tais regras, uma vez encontradas ou compostas
ad hoc, se tornarão obrigatórias para leituras subseqüentes. A criação e a
recepção, do mesmo modo, são os processos da descoberta permanente e
nunca será provável uma descoberta descobrir tudo o que há para ser
descoberto, ou descobri-lo de uma forma que frustre a possibilidade de uma
descoberta inteiramente diversa… A obra do artista pós-moderno é um
esforço heróico de dar voz ao inefável, e uma conformação tangível ao
invisível, mas é também (obliquamente, através da recusa a reafirmar os
cânones socialmente legitimizados dos significados e suas expressões) uma
demonstração de que é possível mais do que uma voz ou forma e, desse
modo, um constante convite a se unir no incessante processo de
interpretação, que também é o processo de criação do significado. Como
Maaretta Jaukkuri o exprimiu uns poucos meses atrás no seminário de
Bodo, o significado da obra de arte reside no espaço entre o artista e o
espectador.
Pode-se rastrear essa nova liberdade interpretativa, com que as pinturas
ou esculturas da atualidade acenam diante dos olhos de seus espectadores, até o corte do cordão umbilical que ligava as artes plásticas à “realidade”
que supostamente representavam — ou, mais precisamente, que as ligava à
série de normas e símbolos convencionais que, quando observados,
garantiam o status representativo da criação artística. Está certo: a arte
moderna desde o berço devastou as regras e símbolos herdados, rejeitanto
com insolência a autoridade de toda tradição, depreciando os herdados
instrumentos da representação, incansavelmente buscando novos códigos e
novas técnicas, desafiando a maneira convencional e costumeira de ver o
mundo — e forjando novos elos entre o objeto e o que quer que deva ser
reconhecido como sua imagem. O que ela não fez, contudo, foi contestar o
valor da representação como tal; o que quer que os artistas modernos
tenham feito foi sob os auspícios de uma representação melhor do que
antes, e motivados pelo impulso de chegar sempre mais perto da “verdade”,
só temporariamente desfigurada ou escondida pelas convenções existentes.
Cada sucessiva ruptura na era da revolução permanente disparou uma
rajada de agudas e estridentes manifestações e declarações de fé, todas
proclamando a descoberta e a iminente norma da nova verdade e os novos
princípios que de agora em diante guiarão o que procura a verdade. A arte
contemporânea, por outro lado, já não tem nada a ver com a
“representação”: ela já não admite que a verdade que precisa ser captada
pela obra de arte se ache em ocultação “exterior” — na realidade não-
artística e pré-artística — esperando ser encontrada e receber expressão
artística. Tendo sido, assim, “liberada” da autoridade da “realidade” como
juiz genuíno ou putativo, mas sempre supremo do valor da verdade, a
imagem artística reclama (e desfruta!), no agitado processo da elaboração
do significado, o mesmo status que o resto do mundo humano. Em vez de
refletir a vida, a arte contemporânea se soma a seus conteúdos. Como Jean
Baudrillard o exprimiu, “não há nenhum objeto privilegiado. (…) a obra de
arte cria seu próprio espaço.” As imagens não representam, mas simulam —
e a “simulação se refere ao mundo sem referência, de que toda referência
desapareceu”. A arte cria não exatamente as imagens, mas também seus
significados: ela “dá um significado ou um sentido de identidade a algo que
não é significativo, que não tem nenhuma identidade”.3
Assim, a arte e a realidade não-artística funcionam nas mesmas
condições, como criadoras de significado e portadoras de significado, num
mundo notório por ser simultaneamente afortunado e flagelado pela
insuficiência e pelo excesso de significados. Já não há uma posição vantajosa, se elevando acima do território inteiro de experiência da vida,
cuja totalidade podia ser avistada, mapeada e copiada, de modo que alguns
significados pudessem ser concedidos como reais e outros desmascarados
como errôneos ou espectrais. Num mundo como esse, todos os significados
são sugestões, permitindo convites ao estudo e demonstração, à
interpretação e reinterpretação. Nenhum significado é produzido
explicitamente, e nenhum é explicitado depois de produzido. Pode-se dizer
que, nesse nosso mundo, os signos flutuam em busca de significados e os
significados se deixam levar em busca dos signos, enquanto os escritórios
de registro matrimonial foram dissolvidos e as funções do juiz de paz
desregulamentadas. Sob tais circunstâncias, as taxas tanto de casamento
quanto de divórcio alcançaram proporções inauditas. E o papel do agente de
casamento na unificação de sinais e significados em seu — já não sagrado
— matrimônio precisa ser reavaliado.
Uma sutil polonesa que é analista e intérprete da arte contemporânea e
pós-moderna, Anna Jamroziak, tem a seguinte e apropriada indicação: as
imagens artísticas, diz ela,
prontas para absorver sentidos e significados, enfrentam o espectador contemporâneo como
fantasmas: intrigantes e intensas, embaraçosas e sedutoras pelo que elas próprias são e
pelas cadeias em que podem ser colocadas e em que aparecem graças a seus criadores e a
seus receptores inclinados à interpretação. (…)
O autor de imagens pós-modernas é um animador ou apresentador, mais do que criador.
(…) A autoria consiste no ato de montar o processo em movimento, enquanto o processo
assim originado não tem em mira algum ponto de objetivação final numa forma reificada,
funcionando, em vez disso, de maneira livre e desabrida, através de muitos caminhos — e
continua incompleto e aberto…4
O significado da arte pós-moderna, pode-se dizer, é estimular o processo
de elaboração do significado e defendê-lo contra o perigo de, algum dia, se
desgastar até uma parada; alertar para a inerente polifonia do significado e
para a complexidade de toda interpretação; agir como uma espécie de
anticongelante intelectual e emocional, que previna a solidificação de
qualquer invenção a meio caminho para um cânone gelado que detenha o
fluxo de possibilidades. Em vez de reafirmar a realidade como um
cemitério de possibilidades não provadas, a arte pós-moderna traz para o
espaço aberto o perene inacabamento dos significados e, assim, a essencial
inexauribilidade do reino do possível. Pode-se mesmo dar um passo adiante
e sugerir que o significado da arte pós-moderna é a desconstrução do significado; mais exatamente, revelando o segredo do significado, o segredo
que a moderna prática teórica tentou firmemente esconder ou deturpar. Esse
significado só “existe” no processo da interpretação e da crítica, e morre
completamente com ele.
É isso que transforma a arte pós-moderna numa força subversiva — em
sentido oposto às acusações muitas vezes enunciadas (especialmente por
Habermas) de conservadorismo. Tais acusações revertem à moderna
concepção do progresso, orientada por Tânatos, como sendo essencialmente
a introdução de uma ordem de plano mais alto, uma autorizada seleção de
possibilidades e exclusão das outras, não selecionadas, como se estendendo
na direção de um estado em que toda mudança posterior ou não seja vista
com bons olhos, ou seja ilegal. À luz dessa concepção, a arte pós-moderna,
que recusa bravamente o compromisso com qualquer solução autorizada e
insiste em fazer do barulho o próprio intuito de cada canal de comunicação,
pode ser considerada conservadora; está, afinal, ridicularizando toda
esperança de encerrar a dissidência e de assegurar a regra do consenso onde
a polifonia e a infinidade de possibilidades uma vez viveram e continuam a
viver. Mas o conservadorismo, somos tentados a dizer, existe unicamente
aos olhos dessa concepção…
Uma vez que a liberdade toma o lugar da ordem e do consenso como
critério da qualidade de vida, a arte pós-moderna de fato ganha muitos
pontos. Ela acentua a liberdade por manter a imaginação desperta e, assim,
manter as possibilidades vivas e jovens. Também acentua a liberdade ao
manter os princípios fluidos, de modo que não se petrificassem na morte e
nas certezas enceguecedoras. Como uma dedução da experiência de arte
contemporânea, Piotr Kawiecki, filósofo estético polonês, inclui o desafio
ao saber habitual na própria definição da atividade artística:
Indubitavelmente, no reino da cultura artística, entra esse fragmento cujas criações não
podem ser sensivelmente compreendidas em função da consciência simbólico-estética
atual, e é para esse fragmento que se reserva o nome de “arte”. Por assim decidir,
admitimos que a totalidade da arte constitui precisamente esse fragmento da cultura
artística cujo significado, para a percepção estética comum, é obscuro.5
Kawiecki desenvolve aqui a observação de Hans Gadamer de que é
incriminador para um objeto de arte simplesmente evocar nos espectadores
os cânones de sua educação estética, ou fazer-lhes recordar outros artistas,
em vez de enfrentá-los com nova e original “energia de ordenação espiritual” que tanto desafia os cânones que eles aprenderam como os
hábitos memorizados da visão. Sobre René Magritte, o pintor que ela
corretamente chama de “o precursor” (ele antecipou, como ressalta ela, “os
problemas que preocuparão sucessivas gerações”), Susan Gablik diz que,
para ele,
todos os atos possíveis da mente (…) são indiferentes, a menos que evoquem mistério,
diretamente. Pintar manifesta esse momento de lucidez, ou de gênio, em que o poder da
mente se declara pela revelação do mistério das coisas que parecem, até aquele momento,
familiares. Este momento de lucidez é algo que, segundo Magritte, nenhum método pode
pôr em execução.6
Não exatamente a ausência de esquemas a serem reproduzidos e
reafirmados, dos caminhos já traçados por outros artistas e que se podem
seguramente seguir, ou das convenções, que ficaram habituais, de expressar
significados e de interpretá-los — mas, em acréscimo, métodos não aceitos
e dignos de confiança de chegar a novos significados e aos modos de
expressá-los. Os artistas pós-modernos estão condenados a viver, pode-se
dizer, a crédito. A prática produzida por suas obras ainda não existe como
um “fato social”, deixa intocado o “valor estético”, e não há nenhum modo
de decidir antecipadamente que algum dia haverá de tornar-se isso. Afinal,
só se pode acreditar no futuro dotando o passado da autoridade que o
presente é obrigado a obedecer. Não sendo isso verdade, só resta aos artistas
uma possibilidade: a de experimentar.
A experiência que é o seu destino, porém — como Anna Zeidler-
Janiszewska, importante filósofa da arte polonesa, mostrou admiravelmente
—, partilha a sorte dos significados, dos meios de expressão, e dos
métodos: ela desafia e vira de cabeça para baixo a idéia da experimentação
herdada e institucionalizada. Tradicionalmente, as experiências foram
construídas sob a orientação de uma teoria que se esperava provar: serviam
ao propósito de confirmar ou corrigir essa teoria e eram, por isso, períodos
bem incorporados e necessários de ação contínua e coletiva. Nada mais,
nada menos do que passos seguidos pela multidão, ao longo da estrada
claramente marcada por placas de sinalização legíveis para todos. O que
hoje se entende por experimentação é uma atividade totalmente distinta. O
artista que experimenta age no escuro, esboçando mapas para um território
de existência ainda não comprovada e que não se garante se emerge do
mapa ora esboçado. Experimentação significa admissão de riscos, e admitir riscos em estado de solidão, sob sua própria responsabilidade, contando
apenas com o poder de sua própria visão como a única chance de a
possibilidade artística obter o controle da realidade estética. Nas próprias
palavras de Zeidler-Janiszewska, é ainda a tarefa da arte pós-moderna,
como era a tarefa dos artistas modernos,
resistir ao mundo exterior, quebrar o consenso e ampliar, através da experimentação, as
possibilidades que a razão de informação lingüística e instrumentalizada, juntamente com a
“política cultural” feita sob sua medida, não pode antecipar, [mas] a esperança do consenso
futuro é substituída pelo elogio da final e irredutível diferençação: a justiça para com a
diferença só pode ser preenchida negativamente e assim é obrigada a se fazer sem a visão
da totalidade; a cultura emancipada da prisão da metafísica e suas extensões ideológicas,
elas próprias aspirantes a prisões.7
A tarefa permanece tão formidável como o foi através da era do
modernismo e da vanguarda, mas agora ela requer ainda mais coragem e
determinação da parte do artista. Os atos de dissensão solitária têm de ser
empreendidos sem a esperança de serem recompensados pela nova
coletividade. Os artistas pós-modernos são, como os seus predecessores,
uma “vanguarda”, mas num sentido inteiramente diverso de como os
modernistas pensavam sobre seu papel e de como desejavam que este fosse
considerado. Em poucas palavras, pode-se dizer que, se a vanguarda
modernista se ocupava de marcar as trilhas que levavam a um consenso
“novo e aperfeiçoado”, o vanguardismo pós-moderno consiste não
exatamente em desafiar e debilitar a forma existente e reconhecidamente
transitória de consenso, mas em solapar a própria possibilidade de qualquer
acordo futuro, universal e, desse modo, sufocante.
Michel Foucault distinguiu duas espécies de estratégia crítica e
potencialmente emancipadora: “Pode-se optar por uma filosofia crítica que
se apresentará como uma filosofia analítica da verdade em geral, ou pode-se
optar por um pensamento crítico que tomará a forma de uma ontologia de
nós mesmos, uma ontologia do presente.”8 Quero sugerir que os artistas
pós-modernos, por força da situação cultural, se não necessariamente por
sua própria escolha deliberada, se acham simultaneamente envolvidos nas
duas estratégias críticas. Sua obra se situa no ponto de convergência em que
a discussão da verdade e a discussão do presente subjetivamente vivido se
encontram, se animam e se reforçam uma à outra.
Deixem-me dar uns poucos exemplos, todos extraídos do maravilhoso
Artscape, iniciativa assumida e executada por Maaretta Jaukkuri, seus
amigos e os artistas a que ela fez encomendas, em Norland, na Noruega.
Tomemos primeiro os enormes blocos de pedra lançados em meio da
acidentada e áspera paisagem da baía Bodo, por Tony Cragg. Cada pedra foi
perfurada em muitas direções entrecruzadas, com brocas de diferentes
diâmetros; olhemos para dentro da pedra, em qualquer das trilhas deixadas
conforme os combinados efeitos da perfuração, e veremos as mais
emocionantes paisagens, com cadeias de montanhas, vales, picos e
desfiladeiros. Paisagem por dentro, paisagem por todos os lados… Arte em
paisagem, paisagem em arte? Como uma paisagem é conhecida para ser
uma paisagem? É a obra do olhar humano que é diferente, em sua obra, da
obra da mão humana? A ontologia da verdade e a ontologia de nós mesmos
se acham aqui reconciliadas. Duas questões se fundem numa, nenhuma
pode ser atacada sem se encarar a outra. A verdade do mundo e a obra do
seu residente (ou é o seu transportador? seu invocador?) se misturam:
também exigem ser enfrentadas em sua indivisível unidade.
Ou tomemos o enorme, pesado, imóvel Protractor (Transferidor) de
Kristjan Gudmundsson, que domina soberbamente o lago e as colinas de
Skjerstad. Um transferidor, como até uma criança sabe, é um instrumento
para medir os ângulos entre as linhas, as superfícies, os aclives e declives
das coisas no mundo “exterior” cada ato de utilização do transferidor
confirma que as coisas têm suas qualidades, que as qualidades são atributos
inalienáveis das coisas, e que a única tarefa deixada para nós, os usuários de
transferidores, é descobrir o que elas são. O transferidor de Skjerstad
apresenta todas essa tarefas, e com a sólida, imponente autoridade da pedra
em que foi cortado. Mas vejamos: há um estreito conduto perfurado através
da base do transferidor, tão pequenino que só pode acomodar um olho
humano. Se olhamos através dele, vemos que uma pintura é criada pelo
nosso olhar, pré-selecionada e pré-moldada pela nossa visão e a atenção que
se lhe segue… Dessa maneira, de onde vêm as qualidades das coisas que
olhamos? Na verdade, não muito espaço foi deixado para as expedições dos
nossos olhos, em parte pela sufocante e impenetrável gravidade do
transferidor de pedra. E, apesar disso, um pequeno furo trespassado através
dessa gravidade é bastante para lançar dúvida sobre seu caráter soberano,
ridiculariza sua realeza, devolve ao cadinho toda a questão da autoridade e da autoria… Novamente, a ontologia da verdade leva à ontologia do sujeito.
Desse encontro, nasce a percepção crítica.
Ou tomemos as Four Expositions (Quatro exposições), de Gediminas
Urbonas, escavadas numa encosta de colina perto de Saltdal. Quatro
contêineres haviam sido colocados uns quatro metros acima do nível da
estrada. Os carros param, intrigados motoristas galgam a colina para ver o
que se acha dentro deles. Eles encontram objetos dentro dos três — um
objet d’art deliberadamente feito, um readymade e um objeto encontrado; o
quarto contêiner está vazio. Os embaraçados exploradores passam a maior
parte do tempo contemplando o vazio. Obviamente, não há nada dentro
dele, mas esse nada está transbordante de significado, de um significado
talvez mais profundo e surpreendente que o dos outros contêineres: ele
contesta, reavalia, revê os outros significados. Sabemos agora que as outras
coisas, exatamente como a vacuidade do quarto contêiner, devem seus
significados ao fato de estar numa exposição; sabemos que penetraríamos
em seus significados, se esquecêssemos os atos de convertê-los em
exposição e de contemplá-los como exposição. A ontologia da verdade e a
ontologia do motivo e da vontade humanas piscam uma para a outra, cada
uma abraça a outra e em seu abraço nenhuma delas se sente a salvo…
Deixem-me repetir: a arte pós-moderna é uma força crítica e
emancipadora até compelir o artista, então despojado de esquemas
enceguecedores e métodos infalíveis, e o espectador ou ouvinte, então
deixado sem os cânones de ver e a consoladora uniformidade do gosto, a se
empenharem no processo de compreensão, interpretação e elaboração de
significado que inevitavelmente reúne as questões da verdade objetiva e os
planos subjetivos da realidade. Mas, assim fazendo, ela liberta as
possibilidades da vida, que são infinitas, da tirania do consenso, que é —
deve ser, não pode senão ser — excludente e incapacitante. O significado da
arte pós-moderna, sugiro eu, é abrir amplamente o portão às artes do
significado.
Deixem-me concluir essa reflexão citando Foucault de novo:
Uma crítica não é uma questão de dizer que as coisas não estão certas como estão. É uma
questão de ressaltar em que espécies de suposição, em que espécies de modo de pensar
familiares, não discutidos, irrefletidos se baseiam as práticas que aceitamos. (…)
A crítica é uma questão de fazer jorrar esse pensar e tentar mudá-lo: mostrar que as
coisas não são evidentes por si mesmas quanto se acreditava, perceber que o aceito como
sendo por si mesmo já não será aceito como tal. Praticar a crítica é uma questão de fazer
gestos difíceis se tornarem fáceis.9
Cerca de quarenta anos antes de serem escritas essas palavras de
Foucault, Magritte observou, em seu esboço autobiográfico publicado em
abril de 1940 pela revista belga L’invention collective:
Esse nosso mundo contraditório e desordenado permanece mais ou menos unido à força de
explicações perifrásticas, complexas e engenhosas alternativamente, que parecem justificá-
lo e desculpar os que infortunadamente prosperam nele. (…)
Essa experiência pictórica que põe à prova o mundo real me dá a crença na infinidade
de possibilidades até agora desconhecidas da vida. Sei que não estou sozinho ao afirmar
que sua conquista é o único propósito e a única razão válida para a existência do homem.
É por isso, presumo, que Suzi Gablik escreveu sobre René Magritte
como o Precursor. E é pelo que soa tão verdadeiro e evidente tão logo ela o
escreveu.
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