O Mal-estar da Pós-Modernidade
II. A criação e anulação dos estranhos
II
A criação e anulação dos estranhos
Todas as sociedades produzem estranhos. Mas cada espécie de sociedade
produz sua própria espécie de estranhos e os produz de sua própria maneira,
inimitável. Se os estranhos são as pessoas que não se encaixam no mapa
cognitivo, moral ou estético do mundo — num desses mapas, em dois ou
em todos três; se eles, portanto, por sua simples presença, deixam turvo o
que deve ser transparente, confuso o que deve ser uma coerente receita para
a ação, e impedem a satisfação de ser totalmente satisfatória; se eles poluem
a alegria com a angústia, ao mesmo tempo que fazem atraente o fruto
proibido; se, em outras palavras, eles obscurecem e tornam tênues as linhas
de fronteira que devem ser claramente vistas; se, tendo feito tudo isso,
geram a incerteza, que por sua vez dá origem ao mal-estar de se sentir
perdido — então cada sociedade produz esses estranhos. Ao mesmo tempo
que traça suas fronteiras e desenha seus mapas cognitivos, estéticos e
morais, ela não pode senão gerar pessoas que encobrem limites julgados
fundamentais para a sua vida ordeira e significativa, sendo assim acusadas
de causar a experiência do mal-estar como a mais dolorosa e menos
tolerável.
O mais opressivo dos pesadelos que assombraram o nosso século,
notório por seus horrores e terrores, por seus feitos sangrentos e tristes
premonições, foi mais bem captado na memorável imagem de George
Orwell da bota de cano alto pisando uma face humana. Nenhuma face
estava segura — como cada uma estava sujeita a ser culpada do crime de
violar ou transgredir. E, uma vez que a humanidade tolera mal todo tempo
de reclusão, os seres humanos que transgridem os limites se convertem em
estranhos — cada um teve motivos para temer a bota de cano alto feita para
pisar no pó a face do estranho, para espremer o estranho do humano e manter aqueles ainda não pisados, mas prestes a vir a sê-lo, longe do dano
ilegal de cruzar fronteiras.
Botas de cano alto fazem parte de uniformes. Elias Canetti escreveu
sobre os “uniformes assassinos”. Em algum momento do nosso século se
tornou comum a compreensão de que os homens uniformizados devem ser
mais temidos. Os uniformes eram o símbolo dos servidores do estado, essa
fonte de todo o poder e acima de tudo do poder coercitivo ajudado e
favorecido pelo poder que absolve da desumanidade. Envergando
uniformes, os homens se tornam esse poder em ação; envergando botas de
cano alto, eles pisam, e pisam em ordem, em nome do estado. O estado que
vestiu homens de uniforme, de modo que estes pudessem ser reconhecidos
e instruídos para pisar, e antecipadamente absolvidos da culpa de pisar, foi o
estado que se encarou como a fonte, o defensor e a única garantia da vida
ordeira: a ordem que protege o dique do caos. Foi o estado que soube o que
a ordem devia parecer, e que teve força e arrogância bastante não apenas
para proclamar que todos os outros estados de coisas são a desordem e o
caos, como também para obrigá-los a viver sob essa condição. Foi este, em
outras palavras, o estado moderno — que legislou a ordem para a existência
e definiu a ordem como a clareza de aglutinar divisões, classificações,
distribuições e fronteiras.
Os estranhos tipicamente modernos foram o refugo do zelo de
organização do estado. Foi à visão da ordem que os estranhos modernos não
se ajustaram. Quando se traçam linhas divisórias e se separa o assim
dividido, tudo o que borra as linhas e atravessa as divisões solapa esse
trabalho e destroça-lhe os produtos. A sob- e sobredeterminação semântica
dos estranhos corrompeu divisões nítidas e arruinou balizas. Simplesmente
por estar nas proximidades, eles se intrometeram no trabalho que o estado
jurou realizar e desmancharam seus esforços por realizá-lo. Os estranhos
exalaram incerteza onde a certeza e a clareza deviam ter imperado. Na
ordem harmoniosa e racional prestes a ser constituída não havia nenhum
espaço — não podia haver nenhum espaço — para os “nem uma coisa, nem
outra”, para os que se sentam escarranchados, para os cognitivamente
ambivalentes. Constituir a ordem foi uma guerra de atrito empreendida
contra os estranhos e o diferente.
Nessa guerra (para tomar emprestados os conceitos de Lévi-Strauss),
duas estratégias alternativas, mas também complementares, foram
intermitentemente desenvolvidas. Uma era antropofágica: aniquilar os estranhos devorando-os e depois, metabolicamente, transformando-os num
tecido indistinguível do que já havia. Era esta a estratégia da assimilação:
tornar a diferença semelhante; abafar as distinções culturais ou lingüísticas;
proibir todas as tradições e lealdades, exceto as destinadas a alimentar a
conformidade com a ordem nova e que tudo abarca; promover e reforçar
uma medida, e só uma, para a conformidade. A outra estratégia era
antropoêmica: vomitar os estranhos, bani-los dos limites do mundo ordeiro
e impedi-los de toda comunicação com os do lado de dentro. Era essa a
estratégia da exclusão — confinar os estranhos dentro das paredes visíveis
dos guetos, ou atrás das invisíveis, mas não menos tangíveis, proibições da
comensalidade, do conúbio e do comércio;a “purificar” — expulsar os
estranhos para além das fronteiras do território administrado ou
administrável; ou, quando nenhuma das duas medidas fosse factível,
destruir fisicamente os estranhos.
A expressão mais comum das duas estratégias foi o notório entrechoque
entre as versões liberal e racista-nacionalista do projeto moderno. As
pessoas são diferentes, dá a entender o projeto liberal, mas são diferentes
por causa da diversidade das tradições locais e particularísticas em que elas
crescem e amadurecem. São produtos da educação, criaturas da cultura e,
por isso, flexíveis e dóceis de serem reformadas. Com a universalização
progressiva da condição humana, que significa nada mais do que a
erradicação de todo paroquialismo junto com os poderes empenhados em
preservá-lo, e que conseqüentemente deixa o desenvolvimento humano
livre do imbecilizante impacto do acidente de nascer, essa diversidade
predeterminada, mais forte do que a escolha humana, se enfraquecerá. Não
é assim — objetou a opinião racista-nacionalista. A reconstrução cultural
tem limites que nenhum esforço poderia transcender. Certas pessoas nunca
serão convertidas em alguma coisa mais do que são. Estão, por assim dizer,
fora do alcance do reparo. Não se pode livrá-las de seus defeitos: só se pode
deixá-las livres delas próprias, acabadas, com suas inatas e eternas
esquisitices e seus males.
Na sociedade moderna, e sob a égide do estado moderno, a aniquilação
cultural e física dos estranhos e do diferente foi uma destruição criativa,
demolindo, mas construindo ao mesmo tempo; mutilando, mas
corrigindo… Foi parte e parcela da constituição da ordem em curso, da
constituição da nação, do esforço de constituição do estado, sua condição e
acompanhamento necessários. E, inversamente, onde quer que a planejada ordem de constituição esteja em andamento, certos habitantes do território a
ser ordeiramente feito de maneira nova convertem-se em estranhos que
precisam ser eliminados.
Sob a pressão do anseio da moderna constituição da ordem, os estranhos
viveram, por assim dizer, num estado de extinção contida. Os estranhos
eram, por definição, uma anomalia a ser retificada. Sua presença era a
priori definida como temporária, tanto quanto a etapa, atual e fugaz, na pré-
história da ordem ainda por vir. Uma coexistência permanente com o
estranho e com o diferente, e a pragmática de viver com estranhos, não
precisaram ser enfrentadas à queima-roupa, como uma perspectiva séria. E
isso não seria necessário, enquanto a vida moderna continuasse nas mãos de
um estado bastante ambicioso e bem dotado para prosseguir na tarefa. Não
é em toda parte, porém, que essas condições parecem, hoje, estar
prevalecendo: é numa época que Anthony Giddens chama de “modernidade
tardia”, Ulrich Beck de “modernidade reflexiva”, Georges Balandier de
“supermodernidade”, e que eu tenho preferido (junto com muitos outros)
chamar de “pós-moderna”: o tempo em que vivemos agora, na nossa parte
do mundo (ou, antes, viver nessa época delimita o que vemos como a
“nossa parte do mundo”…).
DO DESENCAIXE À NAVEGAÇÃO
Em suas buscas de constituição da ordem, o estado moderno tratou de
desacreditar, de repudiar e erradicar les pouvoirs intermédiaires das
comunidades e tradições. Se realizada, a tarefa “desencaixaria” (Giddens)
ou “desimpediria” (MacIntyre) os indivíduos, dar-lhes-ia o benefício de um
começo completo, deixá-los-ia livres para escolher a espécie de vida que
desejam viver, bem como controlar e administrar a sua existência na
estrutura das normas legais reconhecidas pelos únicos poderes de legislação
legítima — os do estado. O projeto moderno prometia libertar o indivíduo
da identidade herdada. Não tomou, porém, uma firme posição contra a
identidade como tal, contra se ter uma identidade, mesmo uma sólida,
exuberante e imutável identidade. Só transformou a identidade, que era
questão de atribuição, em realização — fazendo dela, assim, uma tarefa
individual e da responsabilidade do indivíduo.
Em grande parte como essa ordem global que coletivamente subscreveu
os esforços individuais pela vida (abrangente, coesa, coerente e contínua), a
identidade do indivíduo foi lançada como um projeto, o projeto de vida
(como o enunciou Jean-Paul Sartre, com sabedoria que logo se tornou
retrospectiva). A identidade devia ser erigida sistematicamente, de degrau
em degrau e de tijolo em tijolo, seguindo um esquema concluído antes de
iniciado o trabalho. A construção requeria uma clara percepção da forma
final, o cálculo cuidadoso dos passos que levariam a ela, o planejamento a
longo prazo e a visão através das conseqüências de cada movimento. Havia,
assim, um vínculo firme e irrevogável entre a ordem social como projeto e a
vida individual como projeto, sendo a última impensável sem a primeira. Se
não fossem os esforços coletivos com o fim de assegurar um cenário de
confiança, duradouro, estável, previsível para os atos e escolhas individuais,
construir uma identidade clara e duradoura, bem como viver a vida voltada
para essa identidade, seria quase impossível.
Os cenários parecem de confiança, (1) se sua calculada expectativa de
vida for mais ou menos coincidente com a duração do processo de
construção da identidade individual, e (2) se sua forma é vista como sendo
imune às extravagâncias das modas e fraquezas promovidas como uma
coisa só ou separadamente (em jargão sociológico, se o “macronível” é
relativamente independente do que continua no “micronível”), de modo que
os projetos individuais possam ser sensatamente arrolados num rijo,
fidedigno, tenaz sistema interno. De um modo geral, porém, era verdade,
através da maior parte da história moderna, a notória aceleração moderna da
mudança. As “estruturas” (das comunidades concretas até as moedas
correntes) pareciam dotadas de suficiente elasticidade e solidez para resistir
a todas as incursões dos esforços individuais e sobreviver a toda escolha
individual, de sorte que o indivíduo podia medir forças com o conjunto de
oportunidades finito e duro como a rocha (isto é, convencido de que suas
escolhas, em princípio, podiam ser racionalmente calculadas e
objetivamente avaliadas). Quando comparadas à extensão biologicamente
limitada da vida individual, as instituições que encarnam a vida coletiva e
os poderes que garantem sua autoridade parecem verdadeiramente imortais.
Profissões, ocupações e habilidades correlatas não envelheciam mais
depressa do que os seus titulares. Nem o faziam os princípios do sucesso:
recompensas que demoravam saldavam-se afinal de contas e a caderneta de
poupança sintetizava a prudência e sabedoria do planejamento a longo prazo. Na sociedade moderna, que comprometeu seus integrantes
principalmente com os papéis de produtores e soldados,1 o ajustamento e a
adaptação indicavam apenas um caminho: era a volúvel escolha individual
que precisava inventariar sua vida, assim como observar os “pré-requisitos
funcionais” do conjunto — que, em diversos sentidos, tinha de encarar, para
usarmos a apropriada frase de Durkheim, como “maior do que si próprio”.
Se essas são realmente as condições de fidedignidade dos cenários, ou
da aparência dos cenários dignos de confiança, o contexto da vida pós-
moderna não passa na prova. Os projetos de vida individuais não encontram
nenhum terreno estável em que acomodem uma âncora, e os esforços de
constituição da identidade individual não podem retificar as conseqüências
do “desencaixe”, deter o eu flutuante e à deriva. Alguns autores
(especialmente Giddens) ressaltam os esforços muito elegantes de
“reencaixe”: sendo, no entanto, mais postulados do que pré-oferecidos, e
sustentados tão-somente pelas provisões notoriamente erráticas da energia
emocional, as situações do procurado “reencaixe” são atormentadas pela
mesma insegurança e excentricidade que induz os eus desencaixados a
procurá-las antes de tudo. A imagem do mundo diariamente gerada pelas
preocupações da vida atual é destituída da genuína ou suposta solidez e
continuidade que costumavam ser a marca registrada das “estruturas”
modernas. O sentimento dominante, agora, é a sensação de um novo tipo de
incerteza, não limitada à própria sorte e aos dons de uma pessoa, mas
igualmente a respeito da futura configuração do mundo, a maneira correta
de viver nele e os critérios pelos quais julgar os acertos e erros da maneira
de viver. O que também é novo em torno da interpretação pós-moderna da
incerteza (em si mesma, não exatamente uma recém-chegada num mundo
do passado moderno) é que ela já não é vista como um mero inconveniente
temporário, que com o esforço devido possa ser ou abrandado ou
inteiramente transposto. O mundo pós-moderno está-se preparando para a
vida sob uma condição de incerteza que é permanente e irredutível.
DIMENSÕES DA INCERTEZA PRESENTE
Muitos aspectos da vida contemporânea contribuem para se superar a
sensação de incerteza: para uma visão do futuro do “mundo como tal” e do
“mundo ao nosso alcance”, essencialmente indeterminável, incontrolável e por isso assustador, e da corrosiva dúvida sobre se as constantes de ação do
contexto atual continuarão constantes por tempo suficiente para permitir o
cálculo razoável de seus efeitos… Vivemos hoje, para tomar emprestada a
feliz expressão cunhada por Marcus Doel e David Clarke,2 na atmosfera do
medo ambiente. Especifiquemos alguns dos fatores responsáveis.
1. A nova desordem do mundo. Após meio século de divisões bem
definidas, tanto interesses evidentes como indubitáveis desígnios e
estratégias políticas privaram o mundo de estrutura visível e de qualquer —
por mais que sinistra — lógica. A política dos blocos de poder, que não há
tanto tempo dominou o mundo, assustado com o caráter horripilante de suas
possibilidades: o que quer que venha a lhe tomar o lugar assusta, no
entanto, por sua falta de coerência e direção — e também pela vastidão das
possibilidades que pressagia. Hans Magnus Erzensberger, da Alemanha,
teme a iminente era da guerra civil (ele contou cerca de quarenta de tais
guerras sendo atualmente empreendidas, desde a da Bósnia, passando pela
do Afeganistão, até a de Bougainvilleb). Na França, Alain Minc escreve
sobre o advento de nova Idade das Trevas. No Reino Unido, Norman Stone
pergunta se não estamos de volta ao mundo medieval dos mendigos, pragas,
conflagrações e superstições. Se esta é ou não é a tendência do nosso tempo
continua, é claro, uma questão aberta, a que só o futuro responderá, mas o
que efetivamente importa, no momento, é que prognósticos como esses
possam ser publicamente feitos a partir dos mais prestigiosos centros da
vida intelectual contemporânea, ouvidos, considerados e debatidos.
O “Segundo Mundo” não existe mais: suas antigas nações-membros
despertaram, para usar a feliz expressão de Claus Offe, para o “túnel no fim
da luz”. Mas, com o desaparecimento do Segundo Mundo, o “Terceiro
Mundo” também, que outrora, na época de Bandung,c constituía uma
terceira força, uma força de oposição a ambos os blocos de poder e ao
princípio mesmo dos blocos de poder (e que mostrou ser tal força mediante
o destaque dos medos e futilidades dos dois impérios mundiais sequiosos de
poder), abandonou o palco político do mundo. Hoje, uns vinte países ricos,
mas aflitos e incertos de si próprios, enfrentam o resto do mundo, que já
não se inclina a venerar as suas definições de progresso e felicidade, mas
cresce a cada dia mais dependente deles, para preservar qualquer felicidade
ou meramente a sobrevivência que possa conseguir, penosamente, com seus
próprios meios. Talvez o conceito da “barbarização secundária” englobe melhor o impacto global do metropolitanato dos nossos dias sobre a
periferia do mundo.
2. A desregulamentação universal — a inquestionável e irrestrita
prioridade outorgada à irracionalidade e à cegueira moral da competição de
mercado —, a desatada liberdade concedida ao capital e às finanças à custa
de todas as outras liberdades, o despedaçamento das redes de segurança
socialmente tecidas e societariamente sustentadas, e o repúdio a todas as
razões que não econômicas, deram um novo impulso ao implacável
processo de polarização, outrora detido (apenas temporariamente, como
agora se percebe) pelas estruturas legais do estado do bem-estar, dos
direitos de negociação dos sindicatos, da legislação do trabalho e — numa
escala global (embora, neste caso, de modo muito menos convincente) —
pelos primeiros efeitos dos órgãos internacionais encarregados da
redistribuição do capital. A desigualdade — intercontinental, entre os
estados e, mais fundamentalmente, dentro da mesma sociedade (sem levar
em conta o nível do PNB exaltado ou lastimado pelo país) — atinge uma
vez mais proporções que o mundo de há pouco tempo, confiante em sua
habilidade de auto-regular-se e autocorrigir-se, parecia ter deixado para trás
uma vez por todas. Segundo cálculos cautelosos e, se faz diferença,
conservadores, a rica Europa conta entre seus cidadãos cerca de três
milhões de desabrigados, vinte milhões de expulsos do mercado de
trabalho, trinta milhões que vivem abaixo da linha de pobreza. O desvio do
projeto da comunidade como defensora do direito universal à vida decente e
dignificada para o da promoção do mercado como garantia suficiente da
universal oportunidade de autoenriquecimento aprofunda mais o sofrimento
dos novos pobres, a seu mal acrescentando o insulto, interpretando a
pobreza com humilhação e com a negação da liberdade do consumidor,
agora identificada com a humanidade.
Os efeitos psicológicos, porém, vão muito além das crescentes fileiras
dos despojados e dos redundantes. Apenas os poucos poderosos para
chantagear os outros poderosos na obrigação de um dourado aperto de mão
podem estar certos de que sua casa, não obstante possa agora parecer
imponente e próspera, não é assombrada pelo espectro da ruína de amanhã.
Nenhum emprego é garantido, nenhuma posição é inteiramente segura,
nenhuma perícia é de utilidade duradoura, a experiência e a prática se
convertem em responsalibidade logo que se tornam haveres, carreiras
sedutoras muito freqüentemente se revelam vias suicidas. Em sua versão presente, os direitos humanos não trazem consigo a aquisição do direito a
um emprego, por mais que bem desempenhado, ou — de um modo mais
geral — o direito ao cuidado e à consideração por causa de méritos
passados. Meio de vida, posição social, reconhecimento da utilidade e
merecimento da auto-estima podem todos desvanecer-se simultaneamente
da noite para o dia e sem se perceber.
3. As outras redes de segurança, tecidas e sustentadas pessoalmente, essa
segunda linha de trincheiras outrora oferecida pela vizinhança ou pela
família, onde uma pessoa podia retirar-se para curar as contusões deixadas
pelas escaramuças do local de trabalho — se elas não se desintegraram,
então pelo menos foram consideravelmente enfraquecidas. A pragmática
em mudança das relações interpessoais (o novo estilo de “política da vida”,
como o descreveu com grande persuasão Anthony Giddens), agora
permeada pelo dominante espírito do consumismo e, desse modo, dispondo
do outro como a fonte potencial de experiência agradável, em parte merece
censura: para o que quer que a nova pragmática ainda seja boa, ela não tem
como gerar laços duradouros nem, mais seguramente, laços que se
suponham duradouros e tratados como tais. Os laços que ela gera, em
profusão, têm cláusulas embutidas até segunda ordem e passíveis de
retirada unilateral; não prometem a concessão nem a aquisição de direitos e
obrigações.
A lenta, mas implacável, dissipação e esquecimento induzido das
habilidades sociais conduz à outra parte da censura. O que costumava ser
apresentado e mantido conjuntamente pelas habilidades individuais e com o
uso de recursos inatos tende agora a ser mediado por ferramentas
tecnologicamente produzidas e que podem ser compradas no mercado. Na
ausência de tais ferramentas, as parcerias e os grupos se desintegram (caso
tenham tido a oportunidade de emergir antes). Não exatamente a satisfação
das necessidades individuais, mas a presença e elasticidade das equipes e
coletividades se tornam, em proporções cada vez maiores, dependentes do
mercado, refletindo assim, convenientemente, o caráter caprichoso e
errático do local de trabalho.
4. Como David Bennett recentemente observou,3 “a incerteza radical a
propósito dos mundos material e social que habitamos e dos nossos
métodos de atividade política dentro deles (…) é o que a indústria da
imagem nos oferece (…).” Na verdade, a mensagem hoje carregada de
grande poder de persuasão pelos mais ubiquamente eficazes meios de comunicação cultural (e, vamos acrescentar, facilmente lida até o fim pelos
receptores contra o pano de fundo de sua própria experiência, auxiliados e
favorecidos pela lógica da liberdade do consumidor) é uma mensagem da
indeterminação e maleabilidade do mundo: neste mundo, tudo pode
acontecer e tudo pode ser feito, mas nada pode ser feito uma vez por todas
— e o que quer que aconteça chega sem se anunciar e vai-se embora sem
aviso. Neste mundo, os laços são dissimulados em encontros sucessivos, as
identidades em máscaras sucessivamente usadas, a história da vida numa
série de episódios cuja única conseqüência duradoura é a sua igualmente
efêmera memória. Nada pode ser conhecido com segurança e qualquer
coisa que seja conhecida pode ser conhecida de um modo diferente — um
modo de conhecer é tão bom, ou tão ruim (e certamente tão volátil e
precário) quanto qualquer outro. Apostar, agora, é a regra onde a certeza,
outrora, era procurada, ao mesmo tempo que arriscar-se toma o lugar da
teimosa busca de objetivos. Desse modo, há pouca coisa, no mundo, que se
possa considerar sólida e digna de confiança, nada que lembre uma
vigorosa tela em que se pudesse tecer o itinerário da vida de uma pessoa.
Como tudo o mais, a imagem de si mesmo se parte numa coleção de
instantâneos, e cada pessoa deve evocar, transportar e exprimir seu próprio
significado, mais freqüentemente do que abstrair os instantâneos do outro.
Em vez de construir sua identidade, gradual e pacientemente, como se
constrói uma casa — mediante a adição de tetos, soalhos, aposentos, ou de
corredores —, uma série de “novos começos”, que se experimentam com
formas instantaneamente agrupadas mas facilmente demolidas, pintadas
umas sobre as outras: uma identidade de palimpsesto. Essa é a identidade
que se ajusta ao mundo em que a arte de esquecer é um bem não menos, se
não mais, importante do que a arte de memorizar, em que esquecer, mais do
que aprender, é a condição de contínua adaptação, em que sempre novas
coisas e pessoas entram e saem sem muita ou qualquer finalidade do campo
de visão da inalterada câmara da atenção, e em que a própria memória é
como uma fita de vídeo, sempre pronta a ser apagada a fim de receber
novas imagens, e alardeando uma garantia para toda a vida exclusivamente
graças a essa admirável perícia de uma incessante auto-obliteração.
Estas são algumas das dimensões, certamente não todas, da incerteza
pós-moderna. Viver sob condições de esmagadora e auto-eternizante
incerteza é uma experiência inteiramente distinta da de uma vida
subordinada à tarefa de construir a identidade, e vivida num mundo voltado para a constituição da ordem. As oposições que nessa outra experiência
asseguram e sancionam o significado do mundo, e da vida vivida neste,
perdem na nova experiência muito de seu significado, bem como muito de
seu potencial heurístico e pragmático. Baudrillard escreveu profusamente
acerca dessa implosão das oposições de busca do sentido.
No entanto, ao lado do colapso da oposição entre a realidade e sua
simulação, entre a verdade e suas representações, vêm o anuviamento e a
diluição da diferença entre o normal e o anormal, o esperável e o
inesperado, o comum e o bizarro, o domesticado e o selvagem — o familiar
e o estranho, “nós” e os estranhos. Os estranhos já não são autoritariamente
pré-selecionados, definidos e separados, como costumavam ser nos tempos
dos coerentes e duráveis programas de constituição da ordem administrados
pelo estado. Agora, eles são tão instáveis e protéicos como a própria
identidade de alguém, e tão pobremente baseados, tão erráticos e voláteis.
L’ipséité, essa diferença que coloca o eu separado do não-eu e “nós”
separados d’“eles”, já não é apresentada pela forma pré-ordenada do
mundo, nem por um comando vindo das alturas. Ela precisa ser construída e
reconstruída, e construída uma vez mais, e de novo reconstruída, nos dois
lados ao mesmo tempo, nenhum dos lados se gabando de maior
durabilidade, ou exatamente da “gratuidade”, do que o outro. Os estranhos
de hoje são subprodutos, mas também os meios de produção no incessante,
porque jamais conclusivo, processo de construção da identidade.
LIBERDADE, INCERTEZA, E LIBERDADE DA INCERTEZA
O que faz certas pessoas estranhas e, por isso, irritantes, enervantes,
desconcertantes e, sob outros aspectos, “um problema”, é — vamos repetir
— sua tendência a obscurecer e eclipsar as linhas de fronteira que devem
ser claramente vistas. Em diferentes épocas e em diferentes situações
sociais, são diferentes as fronteiras que devem ser vistas mais claramente do
que outras. Em nossos tempos pós-modernos, por motivos acima
esmiuçados, as fronteiras que tendem a ser ao mesmo tempo mais
fortemente desejadas e mais agudamente despercebidas são as de uma justa
e segura posição na sociedade, de um espaço inquestionavelmente da
pessoa, onde possa planejar sua vida com o mínimo de interferência,
desempenhar seu papel num jogo em que as regras não mudem da noite para o dia e sem aviso, agir razoavelmente e esperar pelo melhor. Como
vimos, é característica muito difundida dos homens e mulheres
contemporâneos, no nosso tipo de sociedade, eles viverem
permanentemente com o “problema da identidade” não-resolvido. Eles
sofrem, pode-se dizer, de uma crônica falta de recursos com os quais
pudessem construir uma identidade verdadeiramente sólida e duradoura,
ancorá-la e suspender-lhe a deriva.
Ou se pode, porém, ir mais adiante e ressaltar um traço mais inutilizante
da situação de sua vida, um genuíno dilema que desafia os mais ardentes
esforços para tornar a identidade bem delineada e digna de confiança.
Enquanto é uma necessidade intensamente sentida e uma atividade
eloqüentemente encorajada por todos os meios de comunicação cultural
autorizados a própria pessoa fazer uma identidade, ter uma identidade
solidamente fundamentada e resistente a interoscilações, tê-la “pela vida”,
revela mais uma desvantagem do que uma qualidade para aquelas pessoas
que não controlam suficientemente as circunstâncias do seu itinerário de
vida; um fardo que dificulta o movimento, um lastro que elas devem jogar
fora para permanecer à tona. Isso, pode-se dizer, é um traço universal dos
nossos tempos e, portanto, a angústia relacionada com os problemas da
identidade e com a disposição para se preocupar com toda coisa “estranha”
— sobre a qual a angústia possa concentrar-se e, ao se concentrar, dar-lhe
sentido —, é potencialmente universal. Mas a gravidade específica desse
traço não é a mesma para todo o mundo: ele afeta as diferentes pessoas em
diferentes graus e traz conseqüências de significação variável para as
procuras de suas vidas.
Em seu esclarecedor estudo Purity and Danger,4 Mary Douglas ensinou-
nos que o que percebemos como imundície ou sujeira e nos ocupamos de
esfregar e lavar é essa anomalia ou ambigüidade que “não deve ser incluída
se o padrão deve ser mantido”. Ela acrescentou uma perspectiva sociológica
à brilhante e memorável análise de Jean-Paul Sartre de le visqueux, o
“viscoso”.5 O viscoso, diz Sartre, é dócil — ou assim parece.
Só no próprio momento em que acredito que o possuo, eis que, por uma inversão curiosa,
ele me possui… Se um objeto que seguro nas mãos é sólido, posso soltá-lo quando quiser;
sua inércia simboliza, para mim, o meu poder total… Mas aqui está o viscoso invertendo os
termos: [meu ego] é subitamente comprometido, abro as mãos, quero desfazer-me do
viscoso e ele se cola em mim, me puxa, me chupa… Já não sou o senhor… O visgo é como
um líquido visto num pesadelo, em que todas as suas propriedades são animadas por uma
espécie de vida, e volta-se contra mim…
Se mergulho na água, se afundo nela, se me deixo submerso nela, não experimento
nenhum mal-estar, pois não tenho qualquer medo de seja lá como eu possa nela dissolver-
me; continuo um sólido em sua liquidez. Se me deixo submergir no viscoso, sinto que vou
perder-me nele… Tocar o viscoso é arriscar-se a ser dissolvido na viscosidade.
Sentir a alteridade da água em que nado (se sei nadar, isto é, se as ondas
não são fortes demais para as minhas habilidades e músculos) não é apenas
liberdade do medo: é possivelmente agradável. A alegria obtida a partir de
uma experiência incomum ou rara e sensual não é anuviada pela apreensão
de que algo importante para mim e mais duradouro do que o prazer possa
ser deixado de lado como conseqüência. Talvez até submergir-me no lago
ou no mar reafirme o meu poder de guardar intacta a minha forma, o
controle sobre o meu corpo, minha liberdade e domínio: em algum
momento, se o desejar, posso voltar, secar-me, não receando nem por um
instante o compromisso, a descrença do meu próprio ser, sendo aquilo que
me penso ou quero ser. Mas imaginemos um banho num barril repleto de
resina, alcatrão, mel ou melaço… Ao contrário da água, a substância
grudar-se-á, aderirá a minha pele, não me soltaria. Mais do que
exuberantemente invadindo um elemento novo e estrangeiro, sinto-me
invadido e conquistado por um elemento do qual não há como fugir. Já não
estou sob controle, já não sou senhor de mim mesmo. Perdi minha
liberdade.
Assim, a viscosidade implica a perda de liberdade, ou o medo de que a
liberdade esteja ameaçada e possa perder-se. Mas, observemos, a liberdade
é uma relação — uma relação de poder. Sou livre, se, e somente se posso
agir de acordo com a minha vontade e alcançar os resultados que pretendo
alcançar; isso significa, porém, que algumas outras pessoas serão
inevitavelmente restringidas em suas escolhas pelos atos que eu executei, e
que elas deixarão de alcançar os resultados que elas desejavam. De fato, eu
não posso medir a minha própria liberdade em termos absolutos — só posso
medi-la relativamente, comparando-a com a capacidade de outra pessoa de
consegui-la a seu modo. Assim, fundamentalmente, a liberdade depende de
quem é mais forte — da distribuição das habilidades e recursos materiais
requeridos pela ação eficiente. Resulta daí que a “viscosidade” (aderência,
teimosia, elasticidade, capacidade de se comprometer, de transformar a
posse em ser possuído, o domínio em dependência) de outra substância (e
esta inclui, mais do que qualquer outra coisa, outra pessoa) é uma função
das minhas próprias habilidades e recursos. O que parece viscosamente resina a alguns pode ser fresca, deleitosa, estimulante água do mar para
outros. E a mais pura das águas pode fazer o “estilo viscoso” contra uma
pessoa desconhecedora da arte de nadar, mas também para uma pessoa
fraca demais para desafiar o poderoso elemento, para resistir à torrente,
orientar-se com segurança através das corredeiras, persistir na rota entre os
remoinhos e macaréus. Há a tentação de dizer que, tanto quanto a beleza
está no olho do observador, a viscosidade do viscoso está nos músculos (ou
no bolso?) de seu ator.
O estranho é odioso e temido da maneira como o é o viscoso, e pelos
mesmos motivos (não em toda parte, certamente, e não em todos os
momentos; como Max Frisch causticamente observou em seu ensaio
“Foreignization 1”, refletindo sobre os nossos sentimentos a respeito dos
estrangeiros que vêm estabelecer-se em nossas cidades, “há deles demais,
exatamente — não nos locais de construção e não nas fábricas e não no
estábulo e não na cozinha, mas depois do expediente. Sobretudo no
domingo, subitamente há deles demais”). Se tal acontece, então o mesmo
princípio de relatividade que governa a constituição da “viscosidade” regula
a constituição dos estranhos ressentidos, dos estranhos como pessoas a se
ressentirem: a acuidade da estranheza e a intensidade de seu ressentimento
crescem com a correspondente falta de poder e diminuem com o
crescimento da correspondente liberdade. Pode-se esperar que quanto
menos as pessoas controlem e possam controlar as suas vidas, bem como
suas fecundas identidades, mais verão as outras como viscosas e mais
freneticamente tentarão desprender-se dos estranhos que elas experimentam
como uma envolvente, sufocante, absorvente e informe substância. Na
cidade pós-moderna, os estranhos significam uma coisa aos olhos daqueles
para quem a “área inútil” (as “ruas principais”, os “distritos agitados”)
significa “não vou entrar”, e outra coisa aos olhos daqueles para quem
“inútil” quer dizer “não posso sair”.
Para alguns moradores da cidade moderna, seguros em suas casas à
prova de ladrões em bairros bem arborizados, em escritórios fortificados no
mundo dos negócios fortemente policiado, e nos carros cobertos de
engenhocas de segurança para levá-los das casas para os escritórios e de
volta, o “estranho” é tão agradável quanto a praia da rebentação, e
absolutamente não é viscoso. Os estranhos dirigem restaurantes,
prometendo experiências insólitas e excitantes para as papilas gustativas,
vendem objetos de aspecto esquisito e misterioso, apropriados como assuntos de papo na próxima festa, oferecem serviços que outras pessoas
não se rebaixariam ou se dignariam a oferecer, acenam com guloseimas de
sensatez, revigorantemente diversas da rotina e da chateação. Os estranhos
são pessoas que você paga pelos serviços que elas prestam e pelo direito de
terminar com os serviços delas logo que já não tragam prazer. Em nenhum
momento, realmente, os estranhos comprometem a liberdade do
consumidor de seus serviços. Como o turista, o patrão, o cliente, o
consumidor dos serviços está sempre com a razão: ele ou ela exige,
estabelece as normas e, acima de tudo, resolve quando o combate principia,
e quando acaba. Inequivocamente, os estranhos são fornecedores de
prazeres. Sua presença é uma interrupção do tédio. Deve-se agradecer a
Deus que eles estejam aqui. Assim, para que todo esse tumulto e todo esse
clamor?
O tumulto e o clamor chegam, não haja nenhum engano, de outras áreas
da cidade, que os consumidores em busca de prazer jamais visitam, deixam
viver em paz. Essas áreas são habitadas por pessoas incapazes de escolher
com quem elas se encontram e por quanto tempo, ou de pagar para ter suas
escolhas respeitadas; pessoas sem poder, experimentando o mundo como
uma armadilha, não como um parque de diversões; encarceradas num
território de que não há nenhuma saída para elas, mas em que outras podem
entrar ou sair à vontade. Uma vez que as únicas senhas para defender a
liberdade de escolha, moeda corrente na sociedade do consumidor, estão
escassas em seu estoque ou lhes são inteiramente negadas, elas precisam
recorrer aos únicos recursos que possuem em quantidade suficientemente
grande para impressionar. Elas defendem o território sitiado através (para
usar a expressiva descrição de Dick Hebdidge) de “rituais, vestindo-se
estranhamente, inventando atitudes bizarras, quebrando normas, quebrando
garrafas, janelas, cabeças, e lançando retóricos desafios à lei”. Reagem de
maneira selvagem, furiosa, alucinada e aturdida, como se reage ao
inutilizante poder do viscoso, que arrasta e desagrega. A viscosidade dos
estranhos, repitamos, é o reflexo de sua própria falta de poder. É essa sua
carência de poder que se cristaliza nos seus olhos como a terrível força dos
estranhos. O fraco encontra e enfrenta o fraco, mas ambos se sentem como
Davi combatendo Golias. Cada um é “viscoso” para o outro; mas cada um
combate a viscosidade do outro em nome da sua própria pureza.
As idéias, e as palavras que as transportam, mudam de significado
quanto mais longe elas viajem — e viajar entre as casas dos consumidores satisfeitos e as moradas dos sem poder é uma travessia de longa distância.
Se os contentes e seguros se tornam líricos a propósito da beleza da
nacionalidade, da Nova Jerusalém, da glória de uma herança e da dignidade
da tradição, os inseguros e perseguidos lamentam a corrupção e e
humilhação da raça. Se os primeiros se deleitam com uma porção de
convivas e se orgulham de suas mentes abertas e suas portas abertas, os
últimos rangem os dentes ao pensar na pureza perdida. Salienta-se o
patriotismo benigno do primeiro, como o racismo do segundo.
Nada incita tão exaltada, licenciosa e desordenadamente à ação como o
medo da dissolução da ordem, encarnada pela figura do viscoso. Mas há
muita energia fervendo nesse caos. Com um pouco de habilidade e astúcia,
ela pode ser reunida e de novo desenvolvida para dar ao desgoverno uma
direção. O medo da parte do viscoso, desencadeado pela falta de poder, é
sempre uma arma tentadora a se acrescentar ao arsenal dos ávidos de poder.
Alguns destes últimos vêm das fileiras dos apavorados. Podem tentar usar
as porções de medo e ira acumulados para cair fora do gueto sitiado ou,
como Ervin Goffman espirituosamente sugeriu, para vir a ser uma muleta,
em vez de um taco, num clube de golfe. Eles podem tentar condensar o
difuso ressentimento dos fracos numa investida contra os estranhos
igualmente fracos, fazendo assim do medo e da ira a argamassa para os
alicerces do seu próprio poder, tão tirânicos e intolerantes quanto é capaz de
ser o poder, ao mesmo tempo que afirmando, a todo momento, defender os
fracos contra os seus opressores. Mas também outros que procuram o poder
são atraídos. Só se precisa, afinal, dirigir uns poucos quilômetros para se
encher o tanque vazio do nacionalismo com um combustível racista. Nem é
necessária muita habilidade na navegação para fazer as velas nacionalistas
colherem o vento que sopra do ódio racista; para alistar, com o mesmo
sinal, os sem poder a serviço dos ávidos de poder. O que se precisa é tão-
somente lembrar-lhes a viscosidade dos estranhos…
A TEORIA DA DIFERENÇA, OU O SINUOSO CAMINHO PARA A
HUMANIDADE PARTILHADA
A diferença essencial entre as modalidades socialmente produzidas de
estranhos modernos e pós-modernos, pelos motivos acima relacionados, é que, enquanto os estranhos modernos tinham a marca do gado da
aniquilação, e serviam como marcas divisórias para a fronteira em
progressão da ordem a ser constituída, os pós-modernos, alegre ou
relutantemente, mas por consenso unânime ou por resignação, estão aqui
para ficar. Parafraseando o comentário de Voltaire a propósito de Deus, se
eles não existem, teriam de ser inventados. E são de fato inventados,
zelosamente e com gosto — improvisados a partir de protuberantes,
salientes, minuciosas e não-importunas marcas de distinção. Eles são úteis
precisamente em sua qualidade de estranhos: sua estranheza deve ser
protegida e cuidadosamente preservada. São indispensáveis marcos
indicadores sobre o itinerário sem nenhum plano ou direção: devem ser
como muitos, e como protéicos, e como as sucessivas e paralelas
encarnações da identidade na interminável busca de si mesmo.
Num aspecto importante, e por importantes razões, a nossa era é
heterofílica. Para os coletores de sensações ou colecionadores de
experiências que somos, pelo menos os mais ricos entre nós, preocupados
(ou, mais exatamente, obrigados a se preocuparem) com a flexibilidade e a
abertura, mais do que com a fixidez e o autofechamento, a diferença vem
com ágio. Há uma ressonância e uma harmonia entre a maneira como nos
ocupamos dos nossos problemas de identidade e a pluralidade e
diferençação do mundo em que os problemas de identidade são tratados, ou
em que escamoteamos no processo desse tratamento. Não é justo que
precisemos dos estranhos à nossa volta, porque, devido ao modo como
somos culturalmente modelados, perderíamos preciosos valores de
aceitação da vida num mundo uniforme, monótono e homogêneo; mais do
que isso: tal mundo sem diferença não podia, por nenhum rasgo de
imaginação, evoluir a partir do modo pelo qual as nossas vidas são
modeladas e conduzidas. A questão já não é como se livrar dos estranhos e
do diferente uma vez por todas, ou declarar a diversidade humana apenas
uma inconveniência momentânea, mas como viver com a alteridade, diária
e permanentemente. Seja qual for a estratégia realista de competição com o
desconhecido, o incerto e o desconcertante podem ser reconsiderados: é
preciso partir do reconhecimento deste fato.
E, na verdade, todas as estratégias intelectualmente concebidas e ainda
em competição parecem, hoje, aceitar isso. Pode-se dizer: um novo
consenso teórico e ideológico está emergindo para substituir um outro, que
tem mais de um século. Se a esquerda e a direita, os progressistas e os reacionários do período moderno concordam em que a estranheza é anormal
e lamentável, e em que a ordem do futuro, superior (porque homogênea),
não teria espaço para os estranhos, os tempos pós-modernos estão marcados
por uma concordância quase universal de que a diferença não é meramente
inevitável, porém boa, preciosa, e precisando de proteção, de cultivo. Nas
palavras dessa eminente figura da direita intelectual pós-moderna, Alain de
Benoist:6 “Só vemos razões de esperança na afirmação das singularidades
coletivas, na reapropriação espiritual das heranças, na clara consciência das
raízes e das culturas específicas.” O guia espiritual do movimento
neofascista italiano, Julius Evola, é ainda mais direto:7 “Os racistas
reconhecem a diferença e querem a diferença.” Pierre-André Taguieff
resume o processo de rearticulação pós-moderna do discurso racista,
cunhando a expressão “racismo diferencialista”.
Observemos que, nessa ala auto-reconhecidamente de direita, e até
fascista, as profissões de fé, ao contrário das de seus predecessores, já não
sugerem que as diferenças entre as pessoas sejam imunes à interferência
cultural, e que esteja além do poder humano transformar alguém em outra
pessoa. Sim, eles dizem, as diferenças — tanto as nossas como as dos
outros — são todas produtos humanos, culturalmente produzidos. Mas,
dizem, diferentes culturas fazem seus integrantes com diferentes formas e
cores, e isso é bom. Não misturarás o que as culturas, em sua sabedoria,
separaram. Ajudemos, antes, as culturas — qualquer cultura — a seguir
seus separados e, melhor ainda, inimitáveis caminhos. O mundo, então, será
tão mais rico…
A coisa surpreendente, é claro, é que um leitor desavisado, como era o
autor da primeira citação, podia ser perdoado de interpretá-la mal como
uma declaração programática de esquerda; e que a sentença de Evola não
perderia nada de sua persuasão se a palavra “racista” fosse substituída por
“progressista”, “liberal” ou — neste caso — “socialista”… Hoje não somos
todos bona fide “diferencialistas”? Multiculturalistas? Pluralistas?
E acontece, desse modo, que tanto a direita quanto a esquerda
concordam hoje em que a maneira de viver preferível com os estranhos é
mantê-los à parte… Embora talvez por diferentes motivos, uma e outra se
ressentem das ambições universalistas, imperialistas e assimilacionistas do
estado moderno (hoje desmascaradas como essencialmente
protototalitárias), e as denigrem publicamente. Desencantada ou repugnada
pela idéia da uniformidade legislada, a esquerda que, sendo esquerda, não pode viver sem esperança, volta os olhos para a “comunidade”, aclamada e
gabada como a verdadeira família da humanidade, há muito perdida e agora
redescoberta. Ser um comunitário nascido de novo é hoje amplamente
considerado o sinal de um ponto de vista crítico, do esquerdismo e do
progresso. Voltar à comunidade, do exílio a que o estado moderno vos
confinou; tudo é perdoado e esquecido: a arbitrariedade do paroquialismo, a
tendência genocida do narcisismo coletivo, a tirania das pressões comunais,
a belicosidade e despotismo da disciplina comunal. É, naturalmente, um
incômodo que se achem nessa cama alguns companheiros indesejáveis e
inteiramente repulsivos… Como guardar a cama para si mesmo, como
mostrar que os companheiros indesejáveis não têm nenhum direito de estar
nela? Parece ser este o problema…
Estou sugerindo que os bedfellows racistas, na cama do comunitarismo,
talvez sejam um incômodo para seus novos ocupantes, mas não
absolutamente uma surpresa. Eles estavam ali primeiro, e têm o direito
inato de ali estar. Os dois elencos de ocupantes, o antigo e o novo, foram
aliciados para aquela cama pela mesma promessa e pelo mesmo desejo: de
reencaixe do que foi “desencaixado”, de liberação da formidável tarefa de
autoconstrução individual, e de responsabilidade ainda mais terrível e
fatigante pelos seus resultados.
O velho racismo voltou as costas para a oportunidade emancipadora
vinculada ao projeto moderno. Sugiro que, real por natureza, ele agora volta
as costas para a oportunidade emancipadora que o modificado contexto pós-
moderno da vida impõe. Só agora, por curiosa amnésia ou miopia, não está
sozinho em fazê-lo. Canta em coro com as vozes líricas de um número
crescente de cientistas sociais e filósofos da moralidade, que celebram a
tepidez do lar comunal e lastimam os infortúnios e tribulações do eu
desobstruído e sem família.
Este tipo de crítica do malogro emancipador da modernidade não
mantém, por si mesmo, esperança de emancipação: é uma crítica induzida
e, diria ainda, retrógrada do projeto moderno, enquanto só propõe a
transferência do ponto de incapacitação e subordinação do estado
universalista para a tribo particularista. Só substitui um “essencialismo”, já
desacreditado, por outro ainda não totalmente desmascarado em todo o seu
potencial de desapoderamento. De fato, a autodeterminação comunal pode
auxiliar as etapas iniciais do longo processo de reapoderamento dos sujeitos
humanos, em sua resolução de suportar as pressões disciplinares atualmente experimentadas como as mais desagradáveis e esmagadoras. Mas há um
ponto perigoso e facilmente despercebido, em que o “reapoderamento” se
converte num novo “desapoderamento”, e a emancipação numa nova
opressão. Uma vez nesse caminho, é difícil perceber onde parar e, em regra,
é tarde demais parar assim que o ponto for reconhecido, depois do fato.
Seríamos todos bem aconselhados a observar a recente advertência de
Richard Stevers:8
Martin Luther King Jr. compreendeu perfeitamente bem que as relações raciais e étnicas se
deteriorariam acentuadamente se o valor cultural da integração decaísse. Na verdade, é
precisamente o que aconteceu nos Estados Unidos. Os vários grupos étnicos, raciais e de
papel sexual quase vieram a ocupar conjuntamente exclusivos espaços sociais. (…) a luta
pela igualdade se torna uma luta pelo poder — mas o poder, por conta própria, não
reconhece a igualdade.
Há, porém, uma genuína oportunidade emancipadora na pós-
modernidade, a oportunidade de depor as armas, suspender as escaramuças
de fronteira empreendidas para manter o estranho afastado, desmontar o
minimuro de Berlim erigido diariamente e destinado a manter distância,
separar. Essa oportunidade não se acha na celebração da etnicidade nascida
de novo e na genuína ou inventada tradição tribal, mas em levar à conclusão
a obra do “desencaixe” da modernidade, mediante a concentração no direito
de escolher a identidade de alguém como a única universalidade do cidadão
e ser humano, na suprema e inalienável responsabilidade individual pela
escolha — e mediante o desnudamento dos complexos mecanismos
administrados por estado ou tribo e que têm em mira despojar o indivíduo
dessa liberdade de escolha e dessa responsabilidade. A unicidade humana
depende dos direitos do estranho, não do problema sobre o que — o estado
ou a tribo — está habilitado a decidir quem são os estranhos.
Entrevistado por Robert Maggiori para o Libération a 24 de novembro
de 1994, Jacques Derrida insistiu em que, em vez de se abandonar, se
repense na idéia moderna do humanismo. O “direito humano”, como
começamos a vê-lo hoje, mas acima de tudo como podemos e devemos vê-
lo, não é o produto da legislação, mas precisamente o oposto: é aquilo que
estabelece o limite “à força, às leis proclamadas, aos discursos políticos” e
aos direitos “instituídos” (sem levar em conta quem tem, ou exige, ou
usurpa, a prerrogativa de “instituí”-los autoritariamente). “O humano” da
filosofia humanista tradicional, inclusive o sujeito kantiano, é — assim indica Derrida — “ainda ‘fraternal’ demais, subliminalmente viril, familiar,
étnico, nacional etc.” O que — como sugiro — resulta daí é que a moderna
teorização sobre a essência humana e os direitos humanos se enganou no
sentido de se afastar demais, antes do que de menos, do elemento
“embaraçado” ou “encaixado” em sua idéia do humano — e é por essa
falha, mais do que por tomar o partido, tão acriticamente, das ambições de
homogeneização do estado moderno e, por isso, colocar a autoridade
“embaraçadora” ou “encaixadora” no lugar errado, que ela deve ser
submetida à inquirição crítica e à reavaliação.
Essa reavaliação é uma tarefa filosófica. No entanto, proteger a
possibilidade de a emancipação abortar-se também apresenta, por trás da
filosófica, uma tarefa política. Observamos que a odiosa “viscosidade” do
estranho progride, enquanto declina a liberdade dos indivíduos que se
defrontam com o dever da auto-afirmação. Também observamos que o
cenário pós-moderno não amplia tanto a dimensão total da liberdade do
indivíduo, quanto a redistribui duma forma crescentemente polarizada:
intensifica-a entre os alegre e solicitamente seduzidos, enquanto a aguça
quase para além da existência entre os despojados e panopticamente
dirigidos. Com essa polarização desenfreada, pode-se esperar que a atual
dualidade do status socialmente produzido dos estranhos continue
inalterada. Num pólo, a estranheza (e a diferença, em geral) continuará
sendo edificada como a fonte da experiência agradável e da satisfação
estética; no outro, como a aterradora corporificação da viscosidade
desabridamente ascensional da condição humana, e como a efígie para toda
a futura calcinação ritual de seus horrores. E o poder político oferecerá sua
habitual partilha de oportunidades para o curto-circuito dos pólos: para
proteger sua própria emancipação através da sedução, os próximos do
primeiro pólo procurarão o domínio pelo medo sobre os do segundo pólo,
ajudando e favorecendo, assim, sua indústria suburbana de horrores.
A viscosidade dos estranhos e a política de exclusão originam-se da
lógica da polarização — da condição crescentemente de “duas nações, de
tipo dois”;9 e isso é verdade porque a polarização detém o processo de
individualização, de genuíno e radical “desencaixe” para a outra nação —
para a oprimida a que foram negados os recursos de construção da
identidade e, assim (por todas as intenções e propósitos práticos), todos os
instrumentos da cidadania. Não é meramente renda e riqueza, expectativa
de vida e condições de vida, mas também — e talvez mais fundamentalmente — o direito à individualidade, que está sendo
crescentemente polarizado. E, uma vez que continua dessa maneira, há
pouca oportunidade para se desenviscarem os estranhos.
a Na acepção primeira, ou seja, de relacionamento social, intercâmbio de emoções, idéias etc. (N.T.)
b Ilha do arquipélago que compõe o território da Papua-Nova Guiné e cujos habitantes, nos últimos dez anos, vêm-se insurgindo contra o governo desse país, da Comunidade Britânica das Nações. (N.T.)
c Cidade de Java, na Indonésia, onde em 1955 se realizou uma conferência de 30 países asiáticos e africanos tanto contra o racismo e o colonialismo, como a favor do compromisso dos países ricos com o combate ao subdesenvolvimento. (N.T.)
OceanofPDF.com