O Mal-estar da Pós-Modernidade
IX. Sobre a verdade, a ficção e a incerteza
IX
Sobre a verdade, a ficção e a incerteza
Como expressou William James em 1912,1 o verdadeiro é “somente um
expediente na nossa maneira de pensar”. Na interpretação de Richard Rorty,
o papel que James atribuiu a esse “expediente” consistia em elogiar — e,
por meio do elogio, endossar — as crenças aceitas. Segundo esse ponto de
vista, que compartilho, a palavra “verdade” simboliza nos nossos usos uma
determinada atitude que adotamos, mas acima de tudo desejamos ou
esperamos que outros adotem, para com o que é dito ou acreditado — em
vez de uma relação entre o que é dito e determinada realidade não-verbal
(como Locke primeiro sugeriu — entre idéias e os objetos que elas correta
ou insatisfatoriamente representam). É necessário salientar, contudo, que a
forma específica de endosso efetuada pelo “expediente da verdade” consiste
precisamente em asseverar que, em determinadas crenças, existe mais do
que a nossa aprovação — sendo esse “mais”, na maioria dos casos, a
suposta identidade entre o que as crenças asseveram e esse algo sobre que
nos informam, ou uma coesão exemplar entre a crença em questão e outras
crenças comumente incontroversas; que existem, em outras palavras, razões
para aprovação mais sólidas e fidedignas do que o caprichoso e instável
acordo entre os crentes — de modo que as crenças em questão possam não
ser simplesmente aprovadas, mas aprovadas com confiança e segurança, e
adotadas com firmeza suficiente para rejeitar outros pontos de vistas
alternativos ou francamente contrários sobre o assunto.
Nesse comentário sobre James, Rorty acrescenta outras funções do
conceito de verdade: além da função de endosso, são especificadas uma
função admonitória e uma função oposta à da citação.2 No entanto, embora
aumentada, a lista de Rorty das funções do conceito de verdade está ainda
desprovida de um uso que, afirmo eu, sustenta, condiciona e endossa todos as outras funções, dentre elas a “função de endosso” — a saber, a função de
controvérsia.
A noção de verdade pertence à retórica do poder. Ela não tem sentido a
não ser no contexto da oposição — adquire personalidade própria somente
na situação de desacordo, quando diferentes pessoas se apegam a diferentes
opiniões, e quando se torna o objeto da disputa de quem está certo e quem
está errado — e quando, por determinadas razões, é importante para alguns
ou todos os adversários demonstrar ou insinuar que é o outro lado que está
errado. Sempre que a veracidade de uma crença é asseverada é porque a
aceitação dessa crença é contestada, ou se prevê que seja contestável. A
disputa acerca da veracidade ou falsidade de determinadas crenças é sempre
simultaneamente o debate acerca do direito de alguns de falar com a
autoridade que alguns outros deveriam obedecer; a disputa é acerca do
estabelecimento ou reafirmação das relações de superioridade e
inferioridade, de dominação e submissão, entre os detentores de crenças.
A teoria da verdade, segundo essa avaliação, trata de estabelecer
superioridade sistemática e, portanto, constante e segura de determinadas
espécies de crenças, sob o pretexto de que a elas se chegou graças a um
determinado procedimento confiável, ou que é assegurado pela espécie de
pessoas em que se pode confiar que o sigam. Necessita-se de uma teoria da
verdade em uma ou duas situações: ou as posições de diversos participantes
ativos, supostos ou potenciais do debate são desiguais e sua desigualdade
tem de ser justificada a fim de ser defendida e preservada, ou a dominação
deve ainda ser estabelecida e a competência de determinados agentes que
no momento afirmam falar com autoridade tem de ser, para esse objetivo,
contestada e desacreditada.
Teorizar acerca da verdade desenvolveu-se numa arte refinada e na
vocação da vida de pensadores qualificados por Nietzsche como sacerdotes
ascéticos — absorvidos em sua busca de “algum procedimento purificador
que possa torná-los aptos para a comunicação com algo Totalmente Outro”
e, assim, perseguindo “uma linguagem inteiramente desembaraçada da
atividade da tribo”.3 Se existe alguma substância na afirmação de
Whitehead de que os filófosos continuam a escrever notas de pé de página
para Platão, ela certamente se aplica aos teóricos da verdade, que
prosseguem esforçando-se para sair da caverna escura e cheia de fumaça de
Platão, povoada por mortais comuns, para o inteiramente distinto universo
das idéias puras e bem iluminadas. Não menos importante do que abrir caminho à força até aquele universo inteiramente distinto é que a trilha
desbravada não é suficientemente larga e satisfatória para acomodar a
multidão — e, portanto, só permanece acessível aos poucos escolhidos.
Toda teoria da verdade segue o modelo de Platão, em ser uma teoria sobre
por que e como os poucos escolhidos conseguem emergir da caverna e
enxergar as coisas como elas verdadeiramente são, mas também, e talvez
acima de tudo, uma teoria sobre por que todos os outros não conseguem
fazer o mesmo sem serem guiados e por que tendem a resistir à direção e
permanecer dentro da caverna, em vez de explorar o que é visível somente à
luz do sol, no lado de fora. Se os teóricos da verdade desenvolvem uma
receita inteligível para sair da caverna (como eles o exprimem, o modo de
procurar a verdade metodologicamente, a metodologia de alcançar a
verdade), eles apressam-se a acrescentar, como fez Husserl no caso de sua
redução transcendental e da epoché, que as perguntas que fazem não são do
tipo das perguntas que surgiriam da experiência dos mortais comuns — e
eles elevam o bastante as apostas e o preço dos bilhetes de saída, para
garantir que os mortais comuns se conformem com esse veredito.
Nisso eles seguem a fatal decisão de Kant, de fixar a razão no papel de
um “tribunal” que “se pronuncia contra todas as ambições e pretensões
infundadas”, para anunciar “o dever da filosofia de destruir as ilusões que
tiveram origem em concepções errôneas” — e proclamar a opinião —
definida como um ponto de vista que não apresenta cunho de razão —
como “completamente inadmissível”. “São somente os princípios da razão
que podem conferir a fenômenos concordantes a validade de leis.” Negar a
vantagem positiva ao serviço prestado pela razão, salientou Kant, “seria tão
absurdo quanto asseverar que o sistema de polícia não produz nenhum
benefício positivo, uma vez que sua atividade principal é impedir a
violência que o cidadão tem de recear do cidadão (…)”. “O posto supremo
de censor, que ela ocupa, assegura [à filosofia] a mais elevada autoridade e
importância.”4 Dos vereditos da razão cujas leis Kant procurou explorar,
não haveria nem poderia haver apelo: “A metafísica, tal como aqui
apresentada, é a única ciência que admite acabamento (…) de modo que
nada restará às futuras gerações, exceto a tarefa de ilustrá-la e aplicá-la
didaticamente.”5
Reconhecidamente, a visão de Kant da verdade filosófica, concebida no
limiar da época moderna, era democrática: essa tinha de ser uma espécie de
verdade de que se poderia assenhorear, e manejar, qualquer ser dotado de faculdades racionais — e a maioria dos seres humanos é composta, de fato,
de tais seres. “A idéia do poder legislativo [do filófoso] reside na mente de
todo homem” e, nesse aspecto, a metafísica é dirigida ao “acabamento da
cultura da razão humana”. Mais uma vez ouvimos falar de “acabamento”: a
indagação, nas leis da razão, limita-se a um só esforço; uma vez levada a
seu fim, seus frutos serão reconhecidos pelo requintado valor, absorvidos e
assimilados por todos os seres racionais e, então, não será necessário nada,
se não uma força policial, um gabinete de censura e seus porta-vozes ou
funcionários de relações públicas, para recolher ao aprisco a eventual
ovelha desgarrada. Em sua forma finalmente descoberta, a metafísica está
fadada a se livrar em breve de uma tarefa, abolindo a própria necessidade:
não só a filosofia surgirá vitoriosa da guerra de atrito empreendida contra
“meras opiniões”, como subseqüentemente as substituirá no papel de senso
comum universal.
Na outra extremidade da era moderna, não resta muito da animada
autoconfiança de Kant. A jovem ambição da filosofia moderna, de
conquistar e seduzir mentes não-filosóficas com a própria racionalidade e
extinguir completamente o tosco e caprichoso senso comum, deu lugar à
triste e sensata reflexão acerca da surdez da mente comum, ou da
consciência corrente, à voz da razão filosófica universal e sua sólida
resistência à reforma. A filosofia pode ainda estar à procura da certeza, mas
uma certeza que evidente e inexoravelmente lhe falta é a de vencer o
debate. As apostas talvez até tenham sido invertidas. E, assim, Martin
Heidegger pergunta:
Não é a questão da essência [da verdade] a mais não-essencial e supérflua que pode ser
indagada? (…) Ninguém pode esquivar-se à evidente certeza dessas considerações.
Ninguém pode levianamente negligenciar sua imperiosa seriedade. Mas o que é que fala
nessas considerações? Senso comum “judicioso”. Ele repisa a exigência de utilidade
tangível e invectiva contra o conhecimento da essência de seres, cujo conhecimento
essencial há muito tem sido denominado “filosofia” (…)
(…) a filosofia não pode nunca refutar o senso comum, pois este é surdo à linguagem da
filosofia. Nem pode sequer desejar fazê-lo, uma vez que o senso comum é cego ao que a
filosofia expõe à sua visão essencial.6
Assim é, porque o passatempo da vida cotidiana — a revelação de seres
(des Seiende), de cada ser separadamente e por si só — é sempre, e
simultaneamente, o ocultamento do “ser como um todo” (Sein). Para o
Dasein imerso em suas atividades diárias, “ser como um todo” permanece oculto. É somente o esforço do filósofo, liberto da escravidão da
cotidianidade, que pode permitir a perscrutação desse ocultamento para
alcançar o auto-revelador Sein. “A fuga do homem do mistério em direção
ao que está facilmente disponível, adiante de uma coisa usual para a
seguinte, passando pelo mistério — isto é errado (irren).” E o “homem
situado e em harmonia”, o único homem que existe, não pode deixar de
errar dessa maneira. “O homem erra. O homem não se extravia meramente
no erro. Ele está sempre extraviado no erro, porque, como ex-sistente, ele
participa e, desse modo, já está apanhado em erro. (…) o erro pertence à
constituição interna do Dasein em que o homem histórico é admitido.” E,
sendo o erro “a contraessência essencial à primordial essência da verdade”,7
o senso comum e a filosofia estão fadados a falar a partir de duas essências
separadas e contraditórias, em linguagens incompreensíveis e impenetráveis
uma para a outra, quase nunca se encontrando em conversa, e raramente
sequer se acenando ao passar.
Portanto, o que compete ao teórico da verdade fazer? Uma vez que o
tipo de erro previamente apresentado como o alvo da barragem filosófica,
sob o codinome de senso comum, é considerado além do alcance do debate
filosófico e além dos limites do âmbito legítimo da ascendência filosófica,
são cada vez mais as teorias da verdade de outros filósofos que fornecem a
causa para afiar as próprias lâminas e refinar o próprio arsenal retórico.
Essa outra linha de frente não é necessariamente nova. Os modernos
teóricos da verdade quase nunca se esquecem de fortificar essa outra
fronteira e dispor ali parte de suas tropas — embora na maioria das vezes,
como no caso de Kant, por sua preocupação com os efeitos desagradáveis
que as altercações inconvenientes entre filósofos possam exercer sobre oi
polloi que a filosofia se destinava a converter — “para evitar o escândalo
que infalivelmente as controvérsias metafísicas, cedo ou tarde, provocarão
mesmo nas massas”. Se a retirada das massas do atoleiro do erro se
manteve no alto da agenda filosófica, Kant nunca se esqueceu de salientar
que desenvolveu sua crítica da razão também para
desferir um golpe na raiz do materialismo, fatalismo, ateísmo, livre-pensamento, fanatismo
e superstição — bem como do idealismo e ceticismo. (…)
Não se deve esperar que concedamos qualquer apoio à loquaz superficialidade que se
arroga o nome de popularidade, tampouco ao ceticismo, que liquida rapidamente toda a
ciência da metafísica. (…)
Aqueles que rejeitam (…) o método da Crítica da razão pura não podem ter outro
objetivo senão livrar-se dos grilhões da ciência, transformar a labuta em diversão, a
certeza em opinião e a filosofia em filodoxia.8
Ao mesmo tempo que retrocederam as esperanças e a determinação de
converter as massas à doutrina dos filósofos, a preocupação com altercações
internas moveu-se lenta mas inexoravelmente para o centro da atenção dos
filósofos. Ela nunca permaneceu por muito tempo distante do centro — mas
então poderia obter cada vez mais horas de expediente, vagas devido ao
decrescente interesse pela reforma do senso comum (então nobilitado com
nomes de som agradável e livres de opróbrio como doxa ou phronesis, para
não mencionar as denominações, de carga extremamente positiva, de
“tradição” ou “identidade comunal”). Atualmente, raras vezes se ouvem
filósofos anunciando a sua intenção de corrigir os erros do homem ou da
mulher comum. Ouvimo-los, no entanto, proclamando ruidosamente erros
uns dos outros e a urgência de repará-los. As mais ferozes batalhas são hoje
travadas ao longo das linhas de frente interuniversitárias e
interdepartamentais.
Há uma modificação sutil, mas fecunda, nas apostas das batalhas. Se a
aversão e a cólera contra outras teorias da verdade continuam inabaladas —
e muitos filósofos repetiriam a advertência de Kant acerca das calamitosas
conseqüências de ignorar suas próprias proposições —, o mesmo já não se
pode dizer acerca da ferocidade com que opiniões filosoficamente não-
endossadas e autoconstituídas eram condenadas e sentenciadas à pena
capital. Pode-se dizer que os filósofos hoje lutam — paradoxalmente, se se
pensa a respeito — não tanto acerca da única e verdadeira (única porque
verdadeira) teoria da verdade, mas acerca da verdadeira, e por conseguinte
única, teoria das verdades (no plural); e porque a pluralidade das verdades
deixou de ser considerada um irritante temporário, logo destinado a ser
deixado para trás, e porque a possibilidade de que diferentes opiniões
podem ser não apenas simultaneamente julgadas verdadeiras, mas ser de
fato simultaneamente verdadeiras — a teoria das verdades atualmente no
centro da atenção dos filósofos parece ser privada de muito da sua função
de disputa no tocante ao status de conhecimento não-filosófico.
A tarefa da razão filosófica parece estar se deslocando de legislar acerca
do modo correto de separar a verdade da inverdade para legislar acerca do
modo correto de traduzir entre línguas distintas, cada uma gerando e
sustentando suas próprias verdades. Assim, Hilary Putnam9 desenvolve sua
teoria a partir da suposição da impossibilidade de se obter, por meios humanos, uma “visão do olho de Deus”, da qual o único sentido dos
fenômenos poderia ser contemplado; ao passo que Donald Davidson fala da
verdade relativamente a “crenças inatas”, encara a atividade dos etnógrafos
como o meio fácil para a descoberta de sentidos, e põe-se a responder à
pergunta: “Como, supondo que nós ‘não podemos escapar das nossas
crenças e da nossa língua para encontrar um teste diferente da coerência’,
podemos, não obstante, ter conhecimento e falar sobre um mundo público
objetivo que não é de nossa criação?”10
Observe-se, por favor, que a impossibilidade de “escapar de nossas
crenças e língua” é aqui tida como certa, como um “dado”; que a
possibilidade de “falar sobre”, em vez de “atingir a verdade” do “mundo
público objetivo” é explicada como o alvo da indagação filosófica e o
âmbito da arbitragem filosófica; que o qualificativo “público” aparece ao
lado do atributo de “objetividade”, quando o “mundo” como o objeto de
cognição e fala é mencionado — aludindo, assim, à natureza artificial,
forjada e mediada pelas crenças desse mundo; e que a “objetividade”
ontológica não é aqui tomada pela condição suficiente da objetividade
epistemológica (muito menos por sua equivalente), nem garante mais sua
viabilidade prática.
A obra de Richard Rorty pode ser interpretada como uma vigorosa
afirmação no sentido de que a “visão liberal-conservadora da história” (essa
descrição da história como a marcha irrefreável do erro para a verdade e da
insensatez e superstição para o império da razão, a descrição que era,
explícita ou implicitamente, adotada e colocada em ação por todos os
filósofos modernos, independente de seu entusiasmo ou desesperança
quanto a ela) foi pintada com as pinceladas do “sacerdote ascético”.
Tomando de empréstimo a Milan Kundera, Rorty fala sobre as “tapeçarias”
tecidas pelos teólogos, filósofos e homens cultos, a fim de encobrir a
ilegível confusão do transe humano com uma limpa e inteligível aparência
de sentido. Esse costume de tecer tapeçarias foi igualmente compartilhado
por filósofos modernos, como os que tomaram o partido da utopia do
progresso, e por seus diretos opositores, que escreveram sobre sinistras
distopias modernas. Exprimiu-se na combinação, por parte de Horkheimer e
Adorno, de Candide e Auschwitz no mesmo modelo de legado do
Iluminismo, mas veio também à tona na redução de Heidegger da história
da civilização à ascensão da tecnologia — impulsionada pela ânsia de
poder, e resultando no irrefreável crescimento do dessecado e árido deserto onde o “quê” é arrancado do “esse”, e onde essência e acaso, realidade e
aparência, objetivo e subjetivo, racional e irracional, científico e não-
científico separaram seus caminhos para sempre.
Em oposição a esse ímpeto sacerdotal ascético de limpar e simplificar o
histórico da civilização ocidental, Rorty apresenta outra visão mais
complexa da vida ocidental que estaria perfeitamente no seu direito se
repetisse, segundo Goethe: “Zwei Seelen wohnen Ach! in meiner Brust, die
eine will sich von der anderen trennen…” Sim, houve todas essas coisas
que os filósofos sacerdotais ascéticos observaram na aventura moderna,
mas elas não eram as únicas coisas a serem ali assinaladas. Sim, houve a
ausência de vida provocada pela tecnologia no deserto, trilhado por seres
emaciados e enquadrados, no entanto houve também o protesto moral, a
esperança de liberdade e igualdade — e estes foram e ainda permanecem,
assim assevera Rorty, “o mais importante legado do Ocidente”. Sim, a
cultura ocidental tem sido merecidamente censurada por ser racista, sexista
e imperialista, mas é também “uma cultura que está muito preocupada por
ser racista, sexista e imperialista, bem como por ser etnocêntrica,
provinciana e intelectualmente intolerante”. É precisamente esse outro
legado, ou parte de um legado complexo, que hoje cada vez mais se põe em
evidência, enquanto a parte de que os sacerdotes ascéticos se proclamavam
guardiães e executores é criticada e refutada. Tendemos hoje a “abandonar
os últimos vestígios da tentativa do sacerdote ascético de nos considerar
atores em uma peça já escrita antes de entrarmos em cena”. Parecemos estar
adquirindo a capacidade de “estar à vontade com uma multiplicidade de
diferentes espécies de pessoas” e avançando em direção a uma unicidade
em que “ninguém julga possível pensar que Deus, ou a Verdade, ou a
Natureza das Coisas, está do seu lado”.11
Esta é uma parte do legado ocidental, assim nos assegura Rorty, que os
filósofos sacerdotais ascéticos fizeram o máximo para minimizar ou
menosprezar. Exilada do discurso filosófico, ela necessitava, para
sobreviver, de outro abrigo. Adotando o exemplo de Kundera, Rorty afirma
que ela de fato encontrou outro abrigo: nessa grande invenção ocidental —
o romance, a obra de ficção. Se assim for, então um dos grandes paradoxos
de uma civilização empenhada na eliminação de paradoxos é que a verdade
do Ocidente, a verdade da modernidade, achou refúgio na mesmíssima obra
de ficção que combateu com unhas e dentes.
A auto-infligida redução de visão da filosofia ocidental originou-se do
ascetismo sacerdotal dos filósofos que buscavam o manto de cientistas,
como a mais requintada recompensa por seu auto-sacrifício, e consideravam
a auto-imolação o meio mais garantido de consegui-la. Eles retratavam a
realidade que descreviam — a realidade da sua descrição — por arremedo.
Declararam guerra à irreverência e espontaneidade, negaram direitos
domiciliares a qualquer coisa que não pudesse comprovar, ou não
comprovasse, as bases convenientemente atestadas para sua presença, e
tapavam firmemente os ouvidos ao som de riso que ecoava nos obscenos,
suspeitos ou indecorosos grupos artísticos. Eram representantes legais da
meia-verdade que se esforçavam para provar seu título de propriedade à
total e única verdade que existe. A outra metade, contudo, sobreviveu ao
julgamento e conservou o vigor muito depois de o litígio perder a força e
esgotar o prazo. Como exprimiu Kundera:
A arte inspirada pelo riso de Deus não serve, por natureza, a convicções ideológicas: ela as
contradiz. Como Penélope, desfaz a cada noite a tapeçaria que os teólogos, filósofos e
homens cultos teceram no dia anterior. (…)
O século XVIII não é somente o século de Rousseau, de Voltaire, de Holbach; é também
(e talvez acima de tudo) o período de Fielding, Sterne, Goethe, Laclos.12
Depreende-se da descrição de Kundera das tarefas da arte, descrição que
Rorty endossa, que eram — e é — a vocação da ficção artística servir de
irônica e irreverente contracultura à cultura tecnológico-científica da
modernidade, essa cultura de paixão ordenada, divisões nítidas e disciplina
retesada. No mundo que jurou buscar e alcançar a certeza e vai ao outro
extremo para transformar a palavra em carne, a ficção artisticamente
concebida de mundos alternativos impede que os projetos sejam encerrados
em gaiolas e as estruturas planejadas sejam ossificadas em esqueletos
mortos. Num mundo dominado pelo medo mortal de tudo o que é
contingente, opaco e inexplicável, a ficção artística é uma contínua sessão
de treinamento para viver com o ambivalente e o misterioso. Ela ensaia a
tolerância e equanimidade para com o inconstante, o contingente, o não
inteiramente determinado, o não inteiramente compreendido e o não
inteiramente previsível. Incentiva a reconciliação com a contingência da
vida e a polifonia de verdades.
Considere-se, porém, outra descrição bastante diferente, na verdade
oposta, da ficção artística — uma descrição proposta por outro ilustre
profissional literário, Umberto Eco.13 Lemos romances, afirma Eco, porque
eles nos oferecem a agradável impressão de habitar mundos em que a noção
de verdade é inabalável. Por comparação, o mundo real parece ser uma terra
extraordinariamente incerta e traiçoeira…
Pode-se desfrutar de uma desanuviada satisfação de certeza no tocante
ao fato de que Scarlett O’Hara se casou com Rhett Butler — uma certeza de
uma magnitude e de um grau de impassibilidade raramente atingíveis no
“mundo real”. Quer eu aceite a verdade do romance, ou a verdade do
mundo real, eu o faço — como salientaria Willard Van Orman Quine —
porque em ambos os casos já a aceitei (consciente ou inconscientemente,
tão-só por me abster de perguntar) um total e amplo conjunto de suposições
encadeadas. As suposições que preciso aceitar a fim de concordar que o
casamento entre Scarlett e Rhett efetivamente ocorreu são poucas,
convenientemente simples e incontestes: suspensão da descrença, confiança
na exclusiva e indivisa autoridade de Margaret Mitchell sobre o destino de
suas personagens bastarão perfeitamente. As razões por que confio nos
historiadores que me asseguram que Napoleão morreu em 1821 são, por
comparação, muito mais complexas e embaraçosas, afirma Eco. Para
descobrir o que, no mundo real, é verdadeiro e o que é falso, tenho de tomar
muitas decisões difíceis e nunca efetivamente garantidas a respeito da
confiança que eu investiria em algumas comunidades, mas negaria a outras
— direta ou indiretamente, dizendo-o explicitamente, ou endossando
tacitamente as suposições que confirmam suas opiniões e, assim, atestam a
correção da crença em pauta. É na ficção, afirma Eco, que procuramos a
espécie de certeza e segurança intelectual que o mundo real não pode
oferecer… Lemos romances a fim de localizar uma forma na informe
quantidade de experiências terrenas. Participamos de um jogo, mas dele
participamos a fim de instilar sentido na desordenada profusão de
fenômenos terrenos — procuramos abrigo contra a Angst, essa profunda
ansiedade que nos acossa sempre que desejamos dizer algo a propósito do
mundo, com segurança.
Depreende-se das proposições de Eco que os pontos dos mundos real e
ficcional no jogo da certeza são inversamente relacionados: quanto mais
profunda a incerteza que exaspera o mundo real, mais elevado o valor de
certeza da ficção, explicado por Umberto Eco. Podemos pressupor que o
oposto também ocorre: quanto mais o mundo real oscila sob a pressão
indômita de genuínas ou supostas certezas, mais tocante e atraente se torna esse outro aspecto da realidade imaginada e ficcional do romance, que foi
enfocada por Milan Kundera — o desmanchar das tapeçarias do mundo real
ou a revelação do que são: apenas tapeçarias, tecidos urdidos, algo que pode
ser desenredado tão facilmente, ou talvez ainda mais facilmente, quanto se
houvesse sido costurado.
É tentador explicar a diferença de ênfase nas abordagens do mesmo
tema, por parte de Kundera e de Eco, não segundo escolas filosóficas, mas
segundo as diferenças de geração entre eles. Por intermédio da teoria do
romance de Kundera, fala a experiência da geração que cresceu à sombra do
estado totalitário — essa mais radical e, por conseguinte, mais sinistra
encarnação do sonho moderno de ordem pura e de pureza ordenada. Foi
esse estado, intolerante para com toda diferença e toda contingência, que
impregnou o enredo do romance de poder emancipador e liberador, pela
exclusiva razão de ser contingente e retratar uma diferença. Eco, de outro
lado, fala por uma geração que cresceu no cada vez mais desregulamentado
e polifônico mundo da pós-modernidade. Dificilmente o romance pode
acrescentar liberdade a um mundo já aturdido pela infinidade de
possibilidades em que oscila. Mas pode, ao contrário, oferecer um ponto de
apoio para pernas que procuram, em vão, amparo na areia movediça dos
estilos mutáveis, das identidades que não sobrevivem à própria construção e
das histórias sem passado e sem conseqüência.
Contrariamente a algumas descrições da cena pós-moderna, não é
apenas a obstinada companhia da diferença, nem a contínua, talvez ainda
mais permanente, coabitação de diversas formas de vida, que se acha na
origem do desafio pós-moderno ao entendimento — à certeza, como
exprimiu Ludwig Wittgenstein, de “como prosseguir” — e, portanto, à
forma caracteristicamente pós-moderna da ansiedade. Não existe nada de
novo acerca de viver em meio à diferença, enfrentar a diferença diariamente
e ser obrigado a aceitar-lhe a permanência. Nem o mundo moderno, nem o
pré-moderno, eram homogêneos, e sequer é certo se a pluralidade das
formas de vida conhecidas e experimentadas por homens e mulheres pré-
modernos e modernos era menos pungente, ou quantitativamente mais
limitada, do que a levada diariamente por seres humanos pós-modernos.
Mas os homens e mulheres pré-modernos e modernos encontraram e
puseram em prática suas próprias maneiras (diferentes das nossas) de lidar
com os desafios propostos pela pluralidade.
José Ortega y Gasset encontrou, na crônica da cidade espanhola de
Briviesca, uma viva descrição da acolhida que os moradores prepararam
para Doña Blanca de Navarra, que percorria as ruas de Briviesca para seu
casamento com o filho do rei Juan II. Guilda após guilda de artesãos
desfilou diante da princesa, cada uma adornada com os uniformes
característicos de sua profissão, conduzindo as insígnias das corporações —
e atrás delas marcharam os judeus, conduzindo os seus pergaminhos
sagrados, e os árabes, com o Corão. Para os habitantes da Espanha do
século XV, afirma Ortega y Gasset, “todos os seres tinham o direito e o
dever de ser o que eram — dignificados ou humildes, abençoados ou
malditos. O judeu ou o árabe era, para as pessoas do século XV, uma
realidade, dotada do direito de ser, com uma posição social só sua e seu
próprio lugar na pluralidade hierárquica do mundo”. Não muito depois, já
no limiar do século seguinte, os judeus e mouros de Briviesca e de outras
cidades espanholas foram obrigados a sair do reino governado pelo
monarca espanhol. Mas isso era já, aventa Ortega y Gasset, a realização da
“primeira geração moderna. De fato, é o homem moderno que pensa ser
possível excluir determinadas realidades e construir um mundo segundo as
próprias preferências, à semelhança de uma determinada idéia
preconcebida.”14
Os homens e mulheres pré-modernos foram preparados para encarar a
diferença com equanimidade e aceitar a predeterminada pluralidade dos
seres como parte integral da criação de Deus. Examinados da nossa atual
perspectiva, eles parecem ter sido tolerantes com a diferença — mas essa
era a espécie de tolerância que se expressava, na maioria das vezes, em
desejar e incitar a todos para “se ater à própria classe”, se manter a
distância, reduzir o encontro entre as classes a padrões estritamente
institucionalizados ou ritualizados e, quanto ao mais, suprimir toda
curiosidade mórbida acerca de outras formas de humanidade, por mais
fortemente distintas que viessem a ser. Mas observemos que tal atitude só
podia ser preservada enquanto subsistissem classes mais ou menos
claramente definidas a que uma pessoa pudesse “ater-se”. Com o advento
do tumulto moderno, a fragmentação das tradições e comunidades,
colocando à deriva as categorias outrora rígidas e “desencaixando” as
identidades individuais, a solução pré-moderna para o problema da
pluralidade logo se revelou inadequada para prevenir ou mitigar a resultante
ansiedade nascida da confusão.
Para o homem ou mulher pré-modernos, verdade e realidade,
combinadas numa só, eram o produto da intenção de Deus, encarnada de
uma vez para sempre na forma da Criação de Deus. Fora concedida desde o
momento da criação e, portanto, não requeria nada além de respeitosa
contemplação, quando muito um estudo cuidadoso. A determinação, a
obviedade, a natureza atribuída e imutável do lugar de cada homem ou
mulher na cadeia do ser, tudo sugeria tal entendimento do mundo — como a
consumação de uma intenção supra-humana, divina. Não ocorre assim no
mundo moderno, de “criação permanente” (expressão de Ilya Prigogine).15
Com um lugar no mundo transformando-se na tarefa do indivíduo, em algo
a ser conseguido, fortificado e defendido, era cada vez mais difícil encarar a
realidade como concedida, como surgida de uma vez para sempre da
intenção supra-humana. O que costumava ser autenticado antecipadamente
pela forma do mundo criado devia, então, ser submetido ao processo de
autenticação no decorrer da criação do mundo. A legitimidade de diferenças
encontradas “entre classes” — diferenças que já não ligam os indivíduos
modernos “desencaixados” e, portanto, experimentadas diariamente como
flexíveis e maleáveis — não era então automaticamente assegurada; e novas
diferenças eram localizadas em volume sempre crescente, como os projetos
concebidos de uma ordem homogênea reservada para ser superposta à
realidade heterogênea e confusa. A destruição da diferença era então a
condição da ordem: essa era a nova e moderna variedade de destruição —
uma destruição coletiva, destruição indiscernível do esforço positivo de
estabelecimento da ordem. Em seu edito de expulsão, o rei Fernando da
Espanha foi pioneiro numa estratégia que seria aplicada, com mais ou
menos zelo e com maior ou menor êxito, ao longo da história moderna e em
todas as partes do globo afetadas pelo “processo de modernização”.
Seja qual for a sorte das batalhas, a guerra moderna contra a diferença e
a pluralidade tem sido, pelo menos até agora e de um modo geral, perdida.
A história moderna resultou, e a prática moderna continua resultando, na
multiplicação de divisões e diferenças; longe de se amalgamar numa
uniformidade global, as ordens regionais e parciais, invocadas com
incomparável perícia adquirida pela prática moderna, contribuem para a
pluralidade total. Enquanto o moderno modo de vida continuar, a prática
moderna não parece desnortear-se, e não é provável que pare; o método
moderno de lidar com a ambivalência ocasionada pela diferença resistente à
ordem projetada provavelmente prosseguirá inabalado, embora de um modo desregulamentado e localizado, em vez de na forma de um esforço
intensificado para levar a cabo programas de ação grandiosos, totais e
totalitaristas. Todavia, existe algo na forma contemporânea da diferença e
pluralidade que nem a prática pré-moderna nem a prática moderna
confrontaram; a nenhuma, por conseguinte, foi dada a oportunidade de
forjar e afiar as armas destinadas a repelir a confusão que tais aspectos da
heterogeneidade podem gerar.
O aspecto novo, caracteristicamente pós-moderno e possivelmente
inaudito, da diversidade dos nossos dias é a fraca, lenta e ineficiente
institucionalização das diferenças e sua resultante intangibilidade,
maleabilidade e curto período de vida. Se desde a época do “desencaixe” e
ao longo da era moderna, dos “projetos de vida”, o “problema da
identidade” era a questão de como construir a própria identidade, como
construí-la coerentemente e como dotá-la de uma forma universalmente
reconhecível — atualmente, o problema da identidade resulta
principalmente da dificuldade de se manter fiel a qualquer identidade por
muito tempo, da virtual impossibilidade de achar uma forma de expressão
da identidade que tenha boa probabilidade de reconhecimento vitalício, e a
resultante necessidade de não adotar nenhuma identidade com excessiva
firmeza, a fim de poder abandoná-la de uma hora para outra, se for preciso.
Não é tanto a co-presença de muitas classes que é a fonte de confusão, mas
sua fluidez, a notória dificuldade em apontá-las com precisão e defini-las —
tudo isso revertendo à central e mais dolorosa das ansiedades: a que se
relaciona com a instabilidade da identidade da própria pessoa e a ausência
de pontos de referência duradouros, fidedignos e sólidos que contribuiriam
para tornar a identidade mais estável e segura.
Observemos, porém, que a evidente natureza “inventada” das
personagens, sua condicionalidade e status convencional, sua contingência
inerente, são características definidoras da obra de arte em geral e da ficção
artística em particular. Pode-se, por conseguinte, dizer que, sob a condição
pós-moderna, o “mundo lá fora”, o “mundo real”, adquire em grau cada vez
maior os traços tradicionalmente reservados ao mundo ficcional da arte. O
mundo “lá fora” afigura-se ao indivíduo como um jogo, ou antes uma série
de jogos finitos e episódicos, sem nenhuma seqüência definida e com
conseqüências que não vinculam necessariamente os jogos que se seguem;
e um jogo em que o próprio mundo é um dos jogadores, em vez de o
supremo legislador ou árbitro, e um jogador que, exatamente como os demais jogadores, mantém suas cartas junto ao peito e adora jogadas de
surpresa. A vida é vivida por seus usuários (frase memorável de Georges
Perec) como um fluxo de acontecimentos nem inevitáveis, nem
inteiramente acidentais. O resultado depende exclusivamente do valor das
cartas recebidas e da habilidade ou astúcia revelada na jogada seguinte. O
mundo dá a impressão de uma contínua interação entre os artistas do jogo
da vida, diversamente habilidosos e diversamente inteligentes.
Em tal mundo, diariamente experimentado tanto como convencional
quanto como contingente, um mundo povoado pelos artistas do jogo da vida
— a exposição, pelo romancista, da imanente fragilidade e subdeterminação
do destino humano dificilmente surge como uma revelação e, assim, perde
muito do poder emancipador ou redentor que lhe atribui Kundera. Esse
poder era produto da espécie de mundo que não é mais experimentado pelos
homens e mulheres pós-modernos — o mundo de leis duras, severas e
ostensivamente inabaláveis, que deixa ao indivíduo exclusivamente o dever
de se ajustar e se conformar. Nesse mundo, a arte do romance fornecia o
escape para aflições e ansiedades do tipo descrito por Freud no livro
intitulado Das Unbehagen in der Kultur (O mal-estar da cultura): para os
mal-estares típicos de um gênero de sociedade que oferecia aos indivíduos
um pouco de segurança à custa de um pouco de sua liberdade. Das
Unbehagen in der Postmoderne — os mal-estares, aflições e ansiedades
típicos do mundo pós-moderno — resulta do gênero de sociedade que
oferece cada vez mais liberdade individual ao preço de cada vez menos
segurança. Os mal-estares pós-modernos nascem da liberdade, em vez da
opressão. São as outras características da ficção artística, aquelas explicadas
por Umberto Eco — a capacidade de simplificar a desnorteante
complexidade, selecionar um grupo finito de atos e personagens na infinda
multiplicidade, reduzir o infinito caos da realidade a proporções
intelectualmente manejáveis, compreensíveis e evidentemente lógicas,
apresentar o contraditório fluxo de acontecimentos como uma narrativa com
um enredo interessante de se ler —, que parecem talhadas sob medida para
os descontentamentos pós-modernos: das aflições e sofrimentos dos
homens e mulheres pós-modernos, aturdidos pela escassez de sentido,
porosidade dos limites, incongruência das seqüências, volubilidade da
lógica e fragilidade das autoridades.
No mundo moderno, a ficção do romance desnudava a absurda
contingência oculta sob a aparência de realidade ordenada. No mundo pós-moderno, ela enfileira unidas cadeias coesas e coerentes, “sensatas”, a partir
do informe acúmulo de acontecimentos dispersos. Os status da ficção e do
“mundo real” foram, no universo pós-moderno, invertidos. Quanto mais o
“mundo real” adquire os atributos relegados pela modernidade ao âmbito da
arte, mais a ficção artística se converte no refúgio — ou será, antes, na
fábrica? — da verdade. Mas — que seja enfatizado com toda a veemência
possível — a verdade admitida de seu exílio tem, além do nome, pouca
semelhança com aquela que se obrigou a emigrar. Essa verdade não tem
função de endosso e pouca utilidade para o debate — e, além do mais, está
ciente de suas limitações e nem um pouco preocupada. As verdades da arte
nascem num grupo de outras verdades e, desde o princípio, acostumam-se a
apreciar tal grupo. Não encaram a presença de outros
sentidos/interpretações como uma afronta, um desafio, uma ameaça ao
próprio sentido. Alegram-se em contribuir para a sua profusão.
“Na obra de arte”, afirma Heidegger, “a verdade do ser pôs mãos à
obra.”16 Para Heidegger, como sabemos, a verdade do ser está sendo
desvendada. “Seinde” é a capa, o ocultamento do Sein, sempre mais uma
vez consumado na existência — e compete à arte, está somente no poder da
arte, arrancar a cobertura e colocar em exibição o que tem sido escondido.
No mundo da existência, “um ser surge, mas se apresenta diferente do que
é. Esse ocultamento é dissimulador. (…) Que um ser seja capaz de enganar
como aparência é a condição para podermos ser enganados, não o inverso.”
“A beleza é um modo pelo qual a verdade é essencialmente encontrada
como desvendamento.” “A arte abre à força um espaço aberto, em cuja
abertura tudo é diferente do habitual.” Tome-se a obra da arte arquitetônica,
o templo, como um exemplo: “Ele não é um retrato cujo propósito seja
facilitar o compreender como o deus parece ser; é, antes, uma obra capaz de
permitir que o próprio deus esteja presente e, assim, é o próprio deus. O
mesmo se aplica à obra lingüística.” “O ato de dizer projetivo é o ato de
dizer que, ao preparar o dizível, traz simultaneamente o indizível como tal
ao mundo.”
Ora, o que é esse indizível que as artes expressam? O que é essa verdade
(ou, antes, as verdades) do Ser, que a obra de arte torna acessível,
desvenda?
Como salientou perspicazmente Jean Baudrillard, para o habitante do
mundo pós-moderno, todos os seres surgem na modalidade de simulacros.
O simulacro é a obra da simulação, mas simulação não deve ser confundida com fingimento, com aparentar que estão presentes certos atributos que, de
fato, não estão (como no caso de um homem saudável que, para se esquivar
a uma tarefa desagradável, aparenta estar doente). “Fingir ou dissimular
deixa intato o princípio da realidade: a diferença é sempre clara, está apenas
mascarada; ao passo que a simulação ameaça a diferença entre ‘verdadeiro’
e ‘falso’, entre ‘real’ e ‘imaginário’.” A simulação é mais como uma doença
psicossomática; uma vez que o paciente apresenta e experimenta todos os
sintomas esperados da enfermidade — “Ele (ou ela) está doente ou não?”17
Pode-se dizer, utilizando a linguagem heideggeriana, que a forma
especificamente pós-moderna de “ocultamento” consiste não tanto em
esconder a verdade do Ser por trás da falsidade dos seres, mas em
obscurecer ou apagar inteiramente a distinção entre verdade e falsidade
dentro dos próprios seres e, desse modo, tornar os temas do “cerne da
questão”, de sentido e de significado absurdos e inexpressivos. É a própria
realidade que agora necessita da “suspensão da descrença”, outrora a
prerrogativa da arte, a fim de ser apreendida, encarada e vivida como
realidade. A própria realidade é agora “arremedo”, embora — exatamente
como o mal psicossomático — faça o máximo para encobrir os sinais.
Tal como antes, é destino das artes opor-se à realidade e, por meio dessa
oposição, compensar a vida do que lhe foi despojado pela realidade e,
assim, indiretamente, tornar a realidade suportável, protegendo-a contra as
conseqüências de sua cegueira auto-infligida. Mas agora o significado da
oposição mudou, as frentes de batalha foram retraçadas. Resta agora, à obra
de ficção, desvendar essa variedade particularmente pós-moderna de
ocultamento, colocar em exibição o que a realidade tenta socialmente, e
com afinco, esconder — esses mecanismos que retiram da agenda a
separação entre verdade e falsidade, tornam a busca de sentido irrelevante,
improdutiva e dia a dia menos atraente. Num mundo permeado de ironia, é
a vez de a arte se tornar séria, defender essa seriedade que o mundo
socialmente produzido transformou em quase ridículo. Depois de
desmascarar as solenes e melífluas simulações dos modernos legisladores
da verdade, a ficção artística, essa grande escola da imaginação, empatia e
experimentação, pode então prestar serviço inestimável aos solitários,
freqüentemente confusos e aturdidos intérpretes pós-modernos do
significado e do sentido. Banidas da realidade, as verdades só podem
esperar encontrar sua “segunda morada,” exilada na morada da arte. Mais
sábias após a amarga experiência das aventuras modernas, rejeitando a perniciosa herança de seu “único” antepassado, plenamente cientes da
própria contingência e, assim, livres da imodesta bravata que tornou seu
antepassado tão adequado a ser empregado como a arma do instinto
totalitário moderno, não mais visando o monopólio como sua realização
ideal, e não mais procurando o consenso como a medida e a fundamental
confirmação de sua validade, as verdades nascidas na obra da ficção
artística, e por meio dela, podem — apenas podem — preencher a
deficiência, na existência humana, deixada pela espécie de realidade que faz
todo o possível para tornar a busca de significado redundante e irrelevante
para a própria autoperpetuação, assim como um objetivo indigno dos
esforços de uma vida.
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