O Mal-estar da Pós-Modernidade
Posfácio: A última palavra — e ela pertence à liberdade
Posfácio: a última palavra —
e ela pertence à liberdade
Em todo jogo há vencedores e perdedores. No jogo chamado liberdade,
todavia, a diferença tende a ser toldada ou completamente obliterada. Os
perdedores são consolados pela esperança de uma próxima etapa vitoriosa,
enquanto a alegria dos vencedores é nublada pela premonição da perda. A
ambos, a liberdade indica que nada foi estabelecido para sempre e que a
roda da fortuna ainda pode virar ao contrário. As excentricidades do destino
fazem tanto os vencedores como os perdedores se sentirem incertos; mas a
incerteza transmite diferentes mensagens às diferentes pessoas: ela diz aos
perdedores que nem tudo ainda foi perdido, enquanto murmura aos
vencedores que todos os triunfos tendem a ser precários. No jogo chamado
liberdade, os perdedores param logo de se desesperar e os vencedores
param logo com a autoconfiança. Ambos os lados têm uma baliza na
liberdade — e ambos têm motivos de queixa. Nenhum dos dois aceitaria
levianamente o cerceamento da liberdade — mas nenhum dos dois é
totalmente surdo aos atrativos da certeza, que promete curar as dores da
liberdade matando o paciente.
A experiência dos que se empenham no jogo chamado liberdade é tão
incerta, contingente e inconclusiva como seu destino. Traz alegria e tristeza,
alimenta a solidariedade e o egoísmo, promove o amor à mudança e seu
ódio. É essa ambivalência do destino, e as atitudes contraditórias que ela
nutre, que leva muitos observadores (ver, por exemplo, “Un monde sans
cap”, de Ignacio Ramone, em Le Monde Diplomatique, de outubro de 1995)
a falarem da “crise de inteligibilidade”. As raízes da ambigüidade de
experiência são seguidas até o colapso da ordem em todos os seus níveis
teóricos — global, nacional, institucional, ambiental — e até a ausência da
visão de uma boa sociedade capaz de dispor de um consenso. Faltam-nos os
meios conceituais — é o que se está dizendo — para endireitar o quadro
disperso e retorcido, para invocar um modelo coeso da experiência confusa
e incoerente, para enfiar consecutivamente as espalhadas contas dos
acontecimentos. Na verdade, se o que estamos procurando é a lógica das coisas (leia-se: a determinação das coisas, sua destinação a priori, certeza
do fim obtida antes do começo), então “as leis do mercado” são um pobre
sucedâneo para “as leis da natureza” ou “as leis da história”, sem se falar na
“lei do progresso”. Não admira que a ambigüidade da experiência e a
resultante incoerência dos desejos e atitudes sejam projetadas como a
derrocada da ordem mundial, a falência da energia e compreensão
intelectual.
Admiramo-nos, porém. Admiramo-nos de que sejam necessários meios
conceituais (e o que os meios conceituais satisfariam) para voltarem os
exilados e saudosos pensadores ao Paraíso Perdido da certeza. Não eram
“as leis da história” tão intimamente óbvias, tão fáceis de assinalar e
compreender, graças à presença de poderes decididos a fazer respeitar a lei
da história e determinados a formular as leis pelas quais ela teria de se
respeitar? Não estava “a lei do progresso” em tanta evidência graças a
poderes suficientemente hábeis, engenhosos e inescrupulosos, ou
insensíveis, para fazer o “progressista” viver e expandir-se, e o “retrógrado”
encolher-se e morrer”? Não era verdade que as leis da história e do
progresso chegaram a governar o pensamento quando tais poderes
chegaram a governar o mundo? E não é verdade que, necessitada do retorno
de tais poderes, a certeza moderna do progresso e, mais generalizadamente,
da direção histórica, é de improvável ressurreição a partir das cinzas pós-
modernas?
Por numerosos motivos, a restauração da certeza moderna não aparece
nas cartas. É melhor, ou pior? É possível que a discussão seja interminável
e, com toda a probabilidade, inconclusiva, não obstante todos os
indubitáveis atrativos da certeza; e não porque não esteja claro se as
vantagens do ato de desaparecimento da certeza contrabalançam ou não as
perdas, mas porque gente demais aprendeu os custos da guerra contra a
ambivalência e o preço a ser pago pelos confortos da certeza, e porque
gente demais saiu chamuscada (pelo menos!) do processo e toma cuidado
para não assumir de novo esses custos. Se a história prova alguma coisa,
provou — e abundantemente — uma coisa que qualquer futuro balanço de
contas deve ter em mente: como Odo Marquard, autor de Apologie des
Zufälligen (1987) e de Abschied vom Prinzipiellen (1991), o exprimiu na
sua própria maneira inimitável, “Se — relativamente a um texto sagrado —
dois intérpretes, contradizendo-se um ao outro, afirmam: eu estou certo,
minha compreensão do texto é a verdade, e a verdade imperativa para a salvação, isso pode custar um pugilato.” Mas, se eles concordam, em vez
disso, que “o texto pode ser compreendido de um modo diferente e, se isso
não é bastante, de outro modo, e ainda outro”, pode-se dizer que eles podem
principiar a negociar, “e quem negocia não mata”. A “hermenêutica
pluralizadora”, ao contrário da “hermenêutica singularizadora”, prenuncia
um “ser voltado para o texto”, no lugar do “ser voltado para o assassínio”.
A história está cheia de assassínios de massa cometidos em nome de
uma e única verdade. (A última expressão é um pleonasmo, sem dúvida: a
verdade só pode ser “uma e única” ou inverídica; a idéia da verdade precisa
ser empregada quando a falsidade de todas as outras crenças está implícita;
“verdade” no plural é uma contradição em termos.) É difícil ressaltar,
porém, um único caso de um ato cruel em nome da pluralidade e da
tolerância. Os intrépidos conquistadores dos infiéis, os cardeais da Santa
Inquisição, os comandantes de guerras religiosas não foram mais notórios
por seu relativismo e amor à pluralidade do que Hitler ou Stalin. E no
entanto se ouve repetidamente que “Se não há nenhum Deus, tudo é
permitido”, embora se aprenda com a história que acontece o oposto: se há
Deus, então não há nenhuma crueldade, ainda que atroz, que não se permita
ser cometida em Seu nome. E, mais decisivamente, não são então os
humanos perpetradores de crueldade que assumem a responsabilidade,
temendo assim serem censurados por sua consciência pela crueldade
cometida.
Não estamos empenhados, aqui, numa disputa teológica sobre a
existência ou não-existência de Deus. No que foi dito acima (e, mais
significativamente, no uso e abuso tanto político quanto filosófico de seu
nome), “Deus” representa a idéia do “um e único”, a idéia do “não terás
outros deuses diante de mim” em todas as suas inumeráveis versões e
indumentárias: do Ein Volk, ein Reich, ein Führer, do partido único, de um
veredicto da história, uma linha de progresso, um modo de ser humano,
uma ideologia (científica), um significado verdadeiro, uma filosofia própria.
Em todos esses casos, o “um e único” transmite a una e única mensagem: o
direito ao monopólio do poder para alguns, o dever da total obediência para
os outros.
É apenas na luta contra tal uno-unicidade que o indivíduo humano, e o
indivíduo humano como sujeito moral, um sujeito responsável e um sujeito
que assume a responsabilidade por sua responsabilidade, pode nascer. A
“variedade”, diz Marquard, “exatamente a variedade é a possibilidade da liberdade humana”. Marquard usa a semelhança do alemão Zweifel (dúvida)
com zwei (dois): a presença de duas (ou mais) crenças — que através de sua
controvérsia perdem muito de sua força — permite ao ser humano, “como
um Terceiro que ri ou chora, se emancipar do poder de cada um”. É
benéfico para o indivíduo como indivíduo “ter muitas convicções”, “ter
muitas tradições e histórias, e muitas almas — oh! — num peito”, “ter
muitos deuses e muitos pontos de orientação”.
Se o monoteísmo significa falta de liberdade, a liberdade nascida da
realidade politeísta não implica, em oposição a seus detratores, niilismo. Ser
livre não significa não acreditar em nada: significa é acreditar em muitas
coisas — demasiadas para a comodidade espiritual de obediência cega;
significa estar consciente de que há demasiadas crenças igualmente
importantes e convincentes para a adoção de uma atitude descuidada ou
niilista ante a tarefa da escolha responsável entre elas; e saber que nenhuma
escolha deixaria o escolhedor livre da responsabilidade pelas suas
conseqüências — e que, assim, ter escolhido não significa ter determinado a
matéria de escolha de uma vez por todas, nem o direito de botar sua
consciência para descansar.
A voz da consciência — a voz da responsabilidade — é audível, por
assim dizer, só no tumulto de melodias não-coordenadas. O consenso e a
unanimidade prenunciam a tranqüilidade do cemitério (a “perfeita
comunicação”, de Habermas, que mede a sua própria perfeição pelo
consenso e exclusão do desacordo, é outro sonho de morte que cura
radicalmente os males da vida de liberdade); é no cemitério do consenso
universal que a responsabilidade, a liberdade e o indivíduo exalam seu
último suspiro.
A voz da responsabilidade é o grito de recém-nascido do indivíduo
humano. Não necessariamente, porém, é sinal de uma vida feliz — se a
felicidade significa ausência de inquietações (por certo, uma definição
altamente discutível, embora largamente difundida, de felicidade). A
aceitação da responsabilidade não aparece facilmente — não exatamente
porque ela leva aos suplícios da escolha (que sempre impõe a privação de
alguma coisa, assim como o ganho de outra), mas também porque ela
anuncia a permanente ansiedade de estar — quem sabe? — errando.
E, desse modo, a liberdade do livre, a individualidade do indivíduo são
ameaçadas não apenas pelos detentores do poder. Estes últimos sustentam a
liberdade individual como o laço sustenta o homem enforcado — o homem ou mulher que assume a responsabilidade com suas próprias mãos vive o
pesadelo de todo poder. Os detentores do poder, contemporâneos e em
perspectiva, não reconhecem senão uma forma da responsabilidade dos seus
súditos: ser responsável, na linguagem do poder, é seguir o comando,
enquanto “ter poder” significa, essencialmente, tirar o direito de alguém
mais a qualquer outra responsabilidade, que é a sua liberdade. A
dificuldade, contudo, não acaba aqui. As forças ávidas de tirar liberdade
nem sempre precisam da coerção para alcançar seu fim. Como demonstrou
a experiência do nosso tempo de totalitarismo para além da dúvida
razoável, com uma demasiada freqüência o desejo de tirar a liberdade se
encontra com o desejo de concedê-la. Com uma demasiada freqüência, a
liberdade é usada para fugir da liberdade: para fugir de ter consciência na
consciência do ser, e da necessidade de defender a posição de alguém, na
crença de que todas as posições dignas de consideração já foram
consideradas.
Mas a tarefa supliciante de resistir aos atrativos da fuga também não é o
fim da história. Há ainda outra armadilha, outra tentação, e uma tentação a
que é mais difícil resistir, a que todos nos rendemos repetidamente: uma
tentação de ter e devorar ao mesmo tempo, provar em cheio a alegria de
escolher sem medo de pagar a multa por escolha errada, procurar e obter
uma receita infalível, patenteada e garantida de escolha certa — para a
liberdade sem ansiedade… Deve haver alguém, em algum lugar, que saiba
como separar a decisão certa da errada — um grande mestre da arte de ser
livre, um/a praticante supremo/a, ou um/a supremo/a teórico/a da escolha
certa… O segredo é encontrar a ele ou ela, arranjar ou comprar a fórmula
mágica, aprendê-la e segui-la em cada detalhe…
O problema, porém, é que as receitas infalíveis são, para a liberdade,
para a responsabilidade e a liberdade responsável, o que a água é para o
fogo. Não há coisa alguma como uma prescrição para a liberdade, ainda que
sua constante procura dê origem a uma oferta cada vez maior de pessoas
que querem fornecê-la. E não há coisa alguma como uma liberdade sem
ansiedade, embora, sendo este o sonho perene de tantos entre nós,
surpreenda pouco que tantos entre nós desejem que se realize, enquanto
tantos outros achem proveitoso conservar o desejo vivo.
No todo, não é certo de modo algum o que a maior parte de nós teria
preferido (se lhe fosse a escolha concedida): a ansiedade da liberdade ou o
conforto da tal certeza que só a falta de liberdade pode oferecer? A questão, porém, é que a escolha não nos foi concedida, e é improvável que no-lo
seja. A liberdade é o nosso destino: uma sorte de que não se pode desejar o
afastamento e que não se vai embora por mais intensamente que possamos
desviar dela os nossos olhos. Vivemos num mundo diversificado e
polifônico, onde toda tentativa de inserir o consenso se mostra somente uma
continuação do desacordo por outros meios. Este mundo foi submetido, por
muito tempo (e com toda probabilidade continuará a ser submetido por
longo tempo adiante) a um processo de completa e inexorável
“incertização”1 (o amplamente descrito “desaparecimento do emprego” é
apenas uma dimensão, altamente sintomática, do processo — e que exerce
um enorme impacto psicológico, enquanto tende a ser projetada sobre a
percepção de todos os outros aspectos da existência. Na França, por
exemplo, 70% de todos os novos empregos em 1994 eram temporários ou
de prazo fixado; nesse ano, a proporção de empregos com algum grau de
estabilidade implícita caiu de 76% da população ativa em 1970 para 58%.2
Nos Estados Unidos, 90% das vagas oferecidas em 1993 eram de tempo
parcial, sem direitos de seguro e de pensão incorporados.)3. É com um
mundo tão crescentemente incerto que seus habitantes se debatem para lutar
corpo a corpo, e é para viver em tal mundo que eles concentram as energias
e desejam preparar-se, quando procuram febrilmente as habilidades com
que “tirem o melhor partido” de sua liberdade talvez não escolhida, mas
real demais.
Alguns autores retratam o mundo de indivíduos livres, “desatados” e
cada vez mais confiantes como uma utopia que se realiza; alguns outros
preferem falar sobre a queda de uma distopia. Nenhuma das duas milícias
padece de uma escassez de argumentos convincentes para apoiar seu
veredicto. A disputa entre os elogiadores e os detratores não pode deixar de
permanecer inconclusiva, mais ou menos como o processo de
“incertização” não pode deixar de continuar. Mais do que tentar inutilmente
resolver as diferenças da avaliação, é mais razoável fazer um balanço dos
ganhos e perdas trazidos pela nova situação — e aceitar que fosse o que
fosse o que se pudesse pensar da cura ou da melhora parcial, ter-se-ia de
partir do mundo já totalmente “individualizado”; ter-se-á de confiar, em
outras palavras, nas estratégias que os indivíduos inseridos na condição da
liberdade e autoconfiança têm probabilidade de escolher e meios de
perseguir. Aonde quer que desejemos ir, todas as estradas partem desse
ponto.
Um efeito colateral universalmente admitido do progressivo
desligamento da liberdade individual da escolha4 é a divisão cada vez mais
profunda entre os que têm e os que não têm. Tanto na escala intercomo na
intra-societária, ela alcança agora proporções inauditas durante quase um
século e até pouco tempo atrás “culturalmente esquecidas” (ver capítulos III
e IV). A pobreza relativa dos excluídos da festa do consumidor está
crescendo, como a esperança de seu alívio na próxima volta de uma
“seqüência” de prosperidade; daí o desespero dos excluídos, que se
aprofunda, e os veementes esforços de todos os outros, preservados até
agora de sua sorte, para “anular culturalmente” o significado moral do
retorno dos pobres e desamparados — por meio da sub-repticiamente
induzida brutalização do pobre e da subseqüente “criminalização” e
“medicalização” da pobreza de acordo com o modelo amplamente praticado
no século XIX, porém mais tarde, durante o episódio do estado de bem-
estar, condenado e abandonado. O desmantelamento pós-moderno das
instituições modernas remove as últimas barreiras à iniciativa daqueles que
podem causar isso. Mas também revela uma vez mais a face inaceitável da
desumanidade e falta de compaixão do início da modernidade.
Como são cortadas as despesas com o bem-estar coletivo e individual, e
com as remunerações sociais, os custos da polícia, da prisão, dos serviços
de segurança, dos guardas armados e de proteção da casa, do escritório, do
carro crescem ininterruptamente. Os cortes do bem-estar, uma vez
iniciados, logo se tornam autopropulsores, enquanto a pobreza redefinida
como problema médico ou da lei e da ordem desenvolve um inesgotável
apetite de recursos. Os já excluídos ou à beira da exclusão são como uma
conseqüência arremessada dentro das invisíveis, mas excessivamente
tangíveis, paredes dos seus campos de exclusão, e firmemente trancados lá.
Mas a liberdade individual dos já livres também não ganha nada mais do
desvio dos recursos. A sensação de insegurança, universalmente partilhada
e esmagadora, parece ser a única vencedora.
A redução nas liberdades dos excluídos nada acrescenta à liberdade dos
livres; ela diminui uma boa parte da sua sensação de estar livre e da sua
capacidade de se deleitar com as suas liberdades. A estrada dos cortes do
bem-estar pode levar a toda parte, menos a uma sociedade de indivíduos
livres. No que se refere às necessidades dos livres, esta é, em geral, um
beco sem saída. Ela distorce o equilíbrio entre os dois lados da liberdade:
em algum lugar ao longo dessa estrada, a alegria da escolha livre se estiola, enquanto o medo e a ansiedade ganham força. A liberdade do livre requer,
por assim dizer, a liberdade de todos.
Na clássica formulação de Guido de Ruggiero,5 “a liberdade é a aptidão
de fazer aquilo de que se gosta, uma liberdade de escolha que implica o
direito do indivíduo de não ser tolhido pelos outros no desenvolvimento da
sua própria atividade”; a liberdade se expressa, pois, na resistência à
opressão — na “energia crítica”. Permitam-me observar que, aqui, o papel
decisivo vem sendo concedido à aptidão de fazer e à aptidão de resistir,
mas que a aptidão requer mais do que a outorga de direitos — a aptidão é
uma qualidade prática, que não se apresenta em idênticas proporções em
todos os indivíduos que participam dos direitos iguais do cidadão.
Sustentei, em outro lugar,6 que a liberdade é uma relação social; sustentei
também, neste livro, (ver capítulo 2) que a opressiva, paralisante,
incapacitante força dos “outros” não é tanto o aspecto das condições
externas, da característica abominável dos “outros” quanto o resultado ou
uma projeção da falta de recursos dos submissos à incapacitação. É no
reconhecimento desse elo da liberdade com a engenhosidade que Sir
William Beveridge7 proclamou seus grandes projetos de bem-estar
garantido pelo estado como sendo “coisas essencialmente liberais — um
transporte para o novo mundo das grandes tradições vivas do liberalismo”.
Ele acrescentou que é em nome da liberdade de cada um, e não exatamente
dos incapazes, por uma razão ou outra, de exercer sua liberdade, que se
precisa garantir que todo cidadão “tenha uma renda suficiente para a
subsistência honrada de si próprio e de todos os que dependam dele, uma
renda suficiente embora ele não tenha nada mais de si próprio, e não
reduzida por qualquer investigação financeira se ele tiver algo de seu”. Tal
garantia — estendida a cada um, inclusive àqueles que em tal momento
estejam andando firmemente com suas próprias pernas e aos quais a
necessidade de segurança coletiva pareça irrelevante ou mesmo remota —
era, na opinião de Beveridge, o único remédio preventivo contra o medo da
privação e da falta de emprego, o medo que começa a consumir as almas
muito antes de a própria privação e a falta de emprego principiarem a
morder, e que devora antes e acima de tudo aquela confiança, ousadia e
determinação que fornecem a “energia crítica” de Ruggiero e são
necessárias para manter a privação e a falta de emprego a uma distância
segura.
Era óbvio para Beveridge, o “liberal radical”, que a liberdade individual
precisa de proteção coletiva. Os atuais e autoproclamados porta-vozes do
liberalismo tentam fazer igualmente óbvio o oposto: que a liberdade
individual precisa do despedaçamento de todas as redes protetoras
coletivamente tecidas — parcialmente, porque as redes dificultam os atos
autoprotetores, mas, principalmente, porque elas são dispendiosas (isto é,
seus custos de manutenção reduzem o montante de dinheiro à mão
disponível para os indivíduos voltados para a autoproteção). Como se para
provar o assunto, os autoproclamados políticos liberais tornam as redes
cada vez mais rotas, reles e sórdidas, de sorte que cada vez mais as pessoas
se admiram com a espécie de alegria ou benefício que se podia conseguir ao
cair dentro delas. Se “o dinheiro no seu bolso” cresce enquanto as redes
protetoras se desintegram, é uma questão discutível; o que é indubitável é
que a privação e falta de emprego voltam em grandes proporções, deixando
os desafortunados sem teto e assombrando as casas dos afortunados.
Estou tão longe quanto se pode estar de sugerir que os defeitos de uma
estratégia são provas suficientes das límpidas virtudes da outra. Acredito
que a arduamente adquirida, triste, mas libertadora sabedoria pós-moderna
nos diz que nenhuma estratégia é infalível — e muito menos tais estratégias
enquanto pretendem ser tais e são em conseqüência desatentas para com os
perigos que acarretam e os danos em que podem incorrer. Nosso zelo no
legislar foi atenuado ao aprender, de maneira árdua, a verdade contida na
advertência de Thomas Mann, em 1939, de que a conciliação da liberdade
com a igualdade “jamais se completa e se consuma definitivamente.
Continua uma tarefa humanitária a ser solucionada repetidas vezes”, ou na
conclusão de Michael Walzer de que a moralidade é e continuará sempre
“algo a respeito do qual temos de argumentar”, e isso podemos — e
devemos — fazer, encarregando-nos de que haja uma contínua
possibilidade de argumentar.8
O ponto que precisa ser sublinhado repetidas vezes, visto que é
deturpado ou esquecido com excessiva facilidade, é que o presente debate
não é uma versão atualizada do antigo, estéril e, afinal, duvidoso raciocínio
sobre o alegado conflito entre o indivíduo e a sociedade e sobre a linha ao
longo da qual uma conciliação, compromisso ou armistício entre eles podia
ou devia ser estabelecido. Poucos participantes do debate, se tanto,
exigiriam hoje o sacrifício das liberdades individuais “em benefício da
sociedade”; é a sociedade que precisa legitimar-se em função do serviço prestado à liberdade individual — não a liberdade individual em função de
sua utilidade social. Na política pós-moderna, a liberdade individual é o
valor supremo e o padrão pelo qual todos os méritos e vícios da sociedade
como um todo são medidos. Mas, graças a muitas e intensas experiências e
mesmo a erros mais onerosos, nós agora temos bastante probabilidade de
compreender, aceitar e admitir que a liberdade individual não pode
efetivamente ser atingida por esforços apenas individuais; que, para alguns
poderem assegurar e desfrutar disso, algo deve ser feito para assegurar a
todos a possibilidade de seu desfrute, e que fazer isso é a tarefa em que os
indivíduos livres só devem empenhar-se conjuntamente e mediante sua
realização comum: mediante a comunidade política.
A comunidade política devia ser concebida como uma superfície discursiva e não como um
referencial empírico. A política refere-se à constituição da comunidade política, não a algo
que ocorre dentro dela. A comunidade política (…) requer uma idéia correlata do bem
comum, mas um bem comum concebido como um “ponto de fuga”, alguma coisa a que
devemos constantemente referir-nos, mas que pode não ser alcançada nunca. (…)
(…) uma comunidade política inclusiva pode não ser nunca realizada. (…) a condição
de possibilidade da comunidade política é, ao mesmo tempo, a condição de impossibilidade
da sua plena realização.9
É neste sentido que Chantal Mouffe interpreta o que pode ser tentado e
como se pode fazê-lo, se tem de ser empreendido o esforço interminável,
para sempre inconclusivo, mas indispensável e salutar, de criar e manter
viva a comunidade política dos indivíduos livres. Agora, a idéia do “bem
comum”, que tem bastante probabilidade de servir como aquele “ponto de
fuga” que constitui tal comunidade (talvez a única idéia que tem tal e tanta
probabilidade) é, indubitavelmente, não a idéia do sacrifício da liberdade
individual, em benefício dos genuínos ou supostos “interesses do todo”,
mas a idéia de que a liberdade de todo indivíduo, e o livre desfrute dessa
liberdade, requer a liberdade de todos; e que a liberdade de cada um precisa
estar assegurada e garantida pelos esforços conjuntos de todos. Para cada
indivíduo livre estar livre do medo da privação e da falta de emprego, é
necessário que todos estejam livres da genuína privação e da falta de
emprego.
Temos razões mais do que suficientes para tomar cuidado com os apelos
ao sacrifício do indivíduo no altar do “todo social” — invariavelmente um
codinome para dominação e opressão. E acumulamos, ao longo dos anos,
argumentos mais do que suficientes com que resistir e rechaçar as exigências de tal sacrifício. Sabemos que as tentativas de construir uma
“comunidade política” sobre essas bases resumem-se, em geral, em
imposição de poderes indesejados sobre alguns, mas também na prática
retirada dos poderes de todos. Evacuar a cena política das nossas
lembranças compartilhadas, com o fim de encenar uma vez mais o drama da
felicidade por projeto legislativamente reforçada, parece ser, em tais
circunstâncias, uma perspectiva irrealista e improvável; se empreendida,
pode mostrar-se uma ordem exagerada. Mas não é tal comunidade,
poeticamente descrita pelo pensamento moderno como “algo maior do que
a soma das suas partes” e, por esse motivo, autorizado a exigir brandura e
submissão de cada uma e de todas as suas partes, que se acha em jogo na
política pós-moderna. Uma política inspirada pela sabedoria pós-moderna
só pode ser orientada para a reafirmação do direito de os indivíduos livres
se assegurarem e perpetuarem as condições da sua liberdade.
A política pós-moderna, voltada para a criação de uma comunidade
política viável, precisa ser guiada (como sugeri nas conclusões de
Modernidade e ambivalência) pelo tríplice princípio de Liberdade,
Diferença e Solidariedade, sendo a solidariedade a condição necessária e a
contribuição coletiva essencial para o bem-estar da liberdade e diferença.
No mundo pós-moderno, os primeiros dois elementos da fórmula tríplice
têm muitos aliados abertos ou encobertos, quando nada nas pressões de
“desregulamentação” e “privatização” dos crescentes mercados
globalizados. Uma coisa que é improvável a condição pós-moderna
produzir sob sua responsabilidade — isto é, não sem uma intervenção
política — é a solidariedade. Mas sem solidariedade, como mostramos
acima, nenhuma liberdade é segura, enquanto as diferenças, e o tipo de
“política de identidade” que elas tendem a estimular, como David Harvey
ressaltou10, de um modo geral terminam na internacionalização da opressão.
É fácil demais abusar do princípio da solidariedade. Não é fácil, e é
talvez impossível, declarar confiantemente onde a exigência da
solidariedade com a diferença acaba e onde a conivência com a opressão
começa. Como em toda política de princípios, também a política pós-
moderna arrisca-se bastante a desafiar os seus próprios princípios. A esse
respeito, sua única vantagem sobre outras modalidades de política é que ela
é toda consciente de tal perigo e, desse modo, inclinada a acompanhar
cuidadosamente suas realizações. Acima de tudo, harmoniza-se com a
ausência de soluções perfeitas e estratégias garantidas, com o infinito das suas próprias tarefas e com a provável inconclusividade dos seus esforços: é
talvez esta a proteção mais acessível contra a armadilha em que as
tentativas da política moderna na construção da comunidade se
acostumaram a cair tão freqüentemente — a de promover a opressão sob o
disfarce da emancipação.
“Há a beleza e há os humilhados”, observou Albert Camus em 1953, no
Retour à Tipasa. “Ainda que isso possa ser difícil, eu não gostaria de ser
desleal quer à primeira, quer aos outros.” Só se podia acrescentar, a essa
profissão de fé, que tentar a deslealdade seletiva seria uma condenação,
como dificilmente pode haver qualquer beleza sem a solidariedade com os
humilhados.
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