O Mal-estar da Pós-Modernidade
VII. A arte pós-moderna, ou a impossibilidade da vanguarda
VII
A arte pós-moderna, ou a impossibilidade da
vanguarda
Avant-garde significa, literalmente, vanguarda, posto avançado, ponta-de-
lança da primeira fileira de um exército em movimento: um destacamento
que se move na frente do corpo mais importante das forças armadas — mas
permanece adiante apenas com o fim de preparar o terreno para o resto do
exército. Um pelotão, diz-se, que capturou um ponto de apoio no território
ainda controlado pelo inimigo, será seguido por batalhões, regimentos e
divisões. A vanguarda dá à distância que a separa do grosso da tropa uma
dimensão temporal: o que está sendo feito presentemente por uma pequena
unidade avançada será repetido mais tarde, por todas. A guarda é
considerada “avançada” na suposição de que “os restantes lhe seguirão o
exemplo”. Sem falar que sabemos, com toda certeza, de que lado está a
frente e onde a retaguarda, onde é “na dianteira” e onde “atrás”. (Sabemos,
igualmente, que a extensão entre um e outro ponto ainda não pára — a
própria linha de frente se acha em movimento.) O conceito de vanguarda
transmite a idéia de um espaço e tempo essencialmente ordenado, e de um
essencial interajustamento das duas ordens. Num mundo em que se pode
falar de avant-garde, “para a frente” e “para trás” têm, simultaneamente,
dimensões espaciais e temporais.
Por esse motivo, não faz muito sentido falar de vanguarda no mundo
pós-moderno. Certamente, o mundo pós-moderno é qualquer coisa, menos
imóvel — tudo, nesse mundo, está em movimento. Mas os movimentos
parecem aleatórios, dispersos e destituídos de direção bem delineada
(primeiramente, e antes de tudo, uma direção cumulativa). É difícil, talvez
impossível, julgar sua natureza “avançada” ou “retrógrada”, uma vez que o
interajustamento entre as dimensões espacial e temporal do passado quase se desintegrou, enquanto os próprios espaço e tempo exibem repetidamente
a ausência de uma estrutura diferençada ordeira e intrinsecamente. Não
sabemos, com toda certeza (e não sabemos como estar certos de o saber),
onde é “para a frente” e onde “para trás”, e desse modo não podemos dizer
com absoluta convicção que movimento é “progressivo” e qual é
“regressivo”. Já em 1967 Leonard B. Meyer sugeria que as artes
contemporâneas tinham atingido um estado de constância e mutabilidade,
uma espécie de móvel estagnação (ele chamava essa condição de “estase”):
toda unidade isolada está em movimento, mas há pouca lógica nesse mover-
se para a frente e para trás: mudanças fragmentárias não indicam corrente
unificada; e a totalidade não sairia de onde está — o efeito que todo
colegial conhece pelo nome de movimento browniano.
Podemos dizer que o que hoje se acha ausente é a linha de frente que
outrora nos permitia decidir qual o movimento para frente e qual o de
retirada. Em vez de um exército regular, as batalhas disseminadas, agora,
são travadas por unidades de guerrilha; em vez de uma ação ofensiva
concentrada e com um objetivo estratégico determinado, ocorrem
intermináveis escaramuças locais, destituídas de finalidade global. Ninguém
prepara o caminho para os outros, ninguém espera que os outros venham
em seguida. Usando a metáfora de Iuri Lotman (mais apropriada do que o
tropo “rizomático” de Deleuze e Guattari), podemos visualizar a diferença
como a existente entre a da energia concentrada de um rio poderoso — que
escava uma fissura na superfície da pedra quando se precipita em direção ao
mar, de modo que no futuro todas as águas se sustentarão dentro do mesmo
leito de rio — e a energia dispersa de um campo minado, em que de quando
em quando, aqui e ali, se dão explosões, mas ninguém pode dizer com
certeza quando e onde a próxima mina explodirá.
Se as artes da virada do século experimentassem sua própria inquietude
e suas inovações como uma ação de vanguarda, elas o fariam graças à
perspectiva do modernismo — o movimento intelectual alimentado pelo
nojo e impaciência para com o preguiçoso e indolente passo da mudança
que a modernidade ensinou as pessoas a esperar e prometeu cumprir. O
modernismo foi um protesto contra promessas descumpridas e esperanças
frustradas, mas também um testemunho da seriedade com que as promessas
e as esperanças foram tratadas. Os modernistas engoliram o anzol, a linha, a
chumbada — e talvez com mais prazer do que todo o resto dos homens e
mulheres modernos —, os valores que a mentalidade moderna açulou e a sociedade moderna jurou servir. Eles também acreditavam firmemente na
natureza de sua época como vetor, convencidos de que o fluxo do tempo
tem uma direção, de que tudo o que vem depois é também (ou tem de ser,
deve ser) melhor, enquanto tudo o que reflui para o passado é também pior
— atrasado, retrógrado, inferior. Os modernistas não travaram sua guerra
contra a realidade que encontraram em nome de valores alternativos e de
uma visão de mundo diferente, mas em nome da aceleração: em suas
insígnias de batalha, escreveram Hic Rhodos, hic salta (Quem prometeu
cumpre a palavra). Eles podiam declarar e travar a guerra contra a realidade
encontrada da vida moderna apenas porque aceitaram em tudo suas
premissas: confiaram na natureza progressiva da história e acreditaram,
assim, que o aparecimento do novo torna o existente, o legado e herdado
redundantes, convertendo-os em relíquias e privando-os do direito de
persistir. Os modernistas desejavam esporear a modernidade trotante para
um galope; adicionar fogo à locomotiva da história.
Stefan Morawski, o grande filósofo da arte polonês, fez o exaustivo
inventário das características que uniram todos os grupos, sob outros
aspectos inteiramente distintos, da vanguarda artística: todos estavam
imbuídos de espírito pioneiro, todos olhavam fixamente para a condição
presente das artes com nojo e aversão, todos eram críticos a propósito do
papel atualmente atribuído às artes na sociedade, todos zombavam do
passado e ridicularizavam os cânones que este acalentava, todos teorizavam
a respeito de seus próprios recursos, atribuindo um sentido histórico mais
profundo a suas realizações artísticas; todos seguiram o modelo dos
movimentos revolucionários, preferiram agir coletivamente, criaram e
coordenaram irmandades semelhantes a seitas, discutiram ardentemente
programas comuns e escreveram manifestos; todos olharam para além do
reino das artes propriamente dito, encarando as artes e os artistas como
tropas avançadas do exército do progresso, precursoras coletivas dos
tempos ainda por vir, esquemas preliminares do modelo universal de
amanhã — e, às vezes, um aríete destinado a pulverizar as barreiras
empilhadas no caminho da história.
Segue-se da descrição acima que os modernistas eram plus modernes
que la modernité elle-même, eles agiram em nome da modernidade, por sua
inspiração e permissão. Exatamente como a própria modernidade, só que
talvez ainda mais, eles viveram na linha de frente; exatamente como a
modernidade como um todo, embora talvez ainda mais dogmaticamente, acreditavam que o único uso da tradição é que se sabe com o que se tem de
romper, e as fronteiras estão ali para serem violadas. Muitos deles
receberam sugestões e ânimo (e a confiança em si mesmos que lhes
permitiu repartir louvor ou condenação) da ciência e da tecnologia, os mais
desafiadores, aventurosos e irreverentes entre as tropas de assalto do
moderno despedaçamento da tradição: impressionistas da ótica
antinewtoniana, cubistas da anticartesiana teoria da relatividade, surrealistas
da psicanálise, futuristas dos motores de combustão e das linhas de
montagem. Sem a modernidade e todos os seus trabalhos, os modernistas
seriam inconcebíveis. Eles desejavam servir à modernidade: não tinham
culpa de ter de se impor com sua proposta a uma sociedade relutante ou
indiferente. Depositaram a culpa na porta dos muitos que se prenderam aos
cânones já deixados para trás; pessoas de gosto fora de moda (isto é, na
linguagem modernista, pessoas sem gosto), incapazes ou sem vontade de
alcançar as percepções da vanguarda. Eles construíram tais seres atrozes e
desprezíveis para uma imagem coletiva do bourgeois, rotularam-nos de
filisteus, depreciaram-nos como vulgares, grosseiros, incultos ou diletantes.
Recusaram ao inimigo assim construído o direito ao julgamento artístico —
um inimigo, em tal caso, não pode ser nada senão antiquado, uma expressão
do passado que perdeu o direito de existir, sem falar no direito de se
exprimir com essa autoridade que o presente pode garantir.
Aos considerados imaturos, não completamente desenvolvidos,
retardatários, os modernistas queriam mostrar a luz, ensinar, educar e
converter; os modernistas só podiam, afinal, permanecer na posição de
vanguarda quando tratando os outros como ainda não realizados, afundados
nas trevas, esperando pelo esclarecimento. Ocasionalmente, eles se sentiram
oprimidos pela raiva — perplexos e perturbados (como à maior parte dos
professores acontece ficar, num ou noutro assunto) pela evidente obtusidade
ou estupor mental de seus pretensos pupilos. Em geral, os alunos (enquanto
continuam alunos) não podem alcançar as habilidades de seus mestres, ao
mesmo tempo que os prosélitos (enquanto ainda não iniciados) não podem
competir com a fé dos missionários — e, desse modo, havia um constante
suprimento de motivos para ficar com raiva. Mas, verdadeiramente
aterrados e horrorizados, os modernistas se sentiam naquelas (e raras)
ocasiões em que as lições pareciam ser demasiadamente fáceis e pouco
exigentes, visto que suas proposições contavam com a aprovação comum e
seus trabalhos adquiriam popularidade: a própria distinção entre professores e alunos, a vanguarda e o resto, esmorecia, então, sob a ameaça da rasura.
Se os que estavam sendo educados, no meio de seu processo aplaudiam
alegremente os educadores em vez de resistir a seus esforços, se deixavam
de se sentir chocados e perplexos, isso podia ter sido o resultado de um
radicalismo insuficiente, falta de vigilância, imperdoável compromisso com
o gosto (ou, antes, com a falta de gosto) que devia ter sido combatido até a
morte. Seja qual fosse a razão, a identidade vanguardista da vanguarda seria
contestável — juntamente com sua habilitação para a liderança espiritual,
para descompor o presumido, e assumir a postura missionária.
O paradoxo da vanguarda, portanto, é que ela tomou como sucesso o
signo do fracasso, enquanto a derrota significasse, para isso, uma
confirmação de que estava certa. A vanguarda sofria quando o
reconhecimento público era negado — mas ainda se sentia mais
atormentada quando a sonhada aclamação e o aplauso surgiam finalmente.
A justeza de suas próprias razões, e o caráter progressista dos passos que
estava dando, a vanguarda media pela profundidade do seu isolamento e
pelo poder de resistência de todos os que ela planejava converter. Quanto
mais era vituperada e atacada, mais se assegurava de que a causa estava
certa. Aguilhoada pelo horror da aprovação popular, a vanguarda
febrilmente sempre encontrava mais difíceis (por isso, possivelmente menos
digeríveis) formas artísticas. O que não devia ser senão um meio para um
fim e uma condição temporária era, desse modo, imperceptivelmente
transformado no objetivo último e num estado de permanência. Como
resultado, e numa gritante oposição às francas declarações modernistas, ela
dá a impressão (como John Carey recentemente observou em seu
Intellectuals and the Masses, que provocou unânime clamor entre seus
cultos leitores que gostam do manto da vanguarda) de que os mais
avançados destacamentos das classes intelectuais européias empreenderam
um esforço combinado de excluir as massas da cultura; de que a função
essencial da arte moderna era dividir o público em duas classes — a que
pode compreender e a que não pode. Não há nenhuma outra baliza, como
sugere Carey (endossando inconscientemente descobertas não citadas de
Bourdieu), exceto manter a distância e reafirmar a superioridade do que é
culto e criativo: a significação da minoria era calculada para ser diretamente
proporcional à sua habilidade de maltratar e confundir as massas.
Nesse paradoxo, lançava-se a semente da perdição (foi com boas razões
que Benjamin escreveu, sobre a modernidade, que nasceu sob o signo do suicídio). A ruína estava por chegar provindo, simultaneamente, de dois
lados.
Para começar, a aceleração não ajuda: por mais fortemente que a
vanguarda tentasse, ela não podia separar-se inteiramente da “populaça”,
que ela temia e tentava esclarecer ao mesmo tempo. O mercado
rapidamente farejou o enorme potencial estratificante que as “artes
incompreensíveis” levavam consigo. Logo se teve conhecimento de que
todo aquele que desejasse informar seus pares sobre seu progresso no
mundo e tivesse meios adequados para sustentar o seu desejo, podia fazê-lo
facilmente decorando sua residência com as últimas invenções das artes da
linha de frente, que desafiavam e amedrontavam os mortais comuns e não-
refinados. Em prova disso, podia-se simultaneamente exibir o seu próprio
bom gosto e sua distância do resto feito de incultos e sem gosto. Na opinião
de Peter Bürger, foi seu assombroso sucesso comercial que desferiu o golpe
mortal na arte de vanguarda, agora “incorporada” pelo “mercado artístico”.
Devido a seu caráter endemicamente controverso, essa arte veio manifestar
a distinção social: foi nessa qualidade que a arte de vanguarda encontrou
clientes entre os empreendedores, os arrivistes de classe média, incertos de
sua posição social e ávidos de se armar com infalíveis símbolos de
prestígio. Em sua capacidade estética e principal, a arte de vanguarda, como
antes, podia desconcertar seus espectadores, chocar e espantar; em sua outra
capacidade, de conferir distinção e estratificar, ela atraiu sempre um número
crescente de admiradores acríticos e, o que é mais importante, de
compradores. O aplauso que a vanguarda simultaneamente desejava e temia
finalmente de fato apareceu (não o aplauso justo — uma piedosa adoração e
um culto) — mas, inesperadamente, pela porta dos fundos: ele
materializou-se não tanto como o cobiçado triunfo da missão
modernizadora, não como uma manifestação tangível da conversão bem-
sucedida, mas como uma conseqüência imprevista da procura febril de
símbolos portáteis e compráveis de posição superior num mundo que
desarraigou as identidades herdadas e tornou a construção da identidade a
tarefa dos desarraigados. A arte de vanguarda foi absorvida e assimilada
não pelos que (sob sua influência nobilitadora) se voltaram para o credo que
ela ensinava, mas por aquelas pessoas que desejavam aquecer-se na glória
refletida do recôndito, exclusivo e elitista.
Por outro lado, parecia, aos poucos, que a fuga à armadilha do
consentimento e da aceitação popular tinha seus limites. Mais cedo ou mais tarde, tinha-se de alcançar o muro: o fornecimento de fronteiras para a
transgressão e de modelos para a violação era tudo menos infinito.
Seguindo a sugestão de Umberto Eco, pode-se dizer que o limite natural
para a aventura da vanguarda foi atingido na tela em branco ou queimada,
nos desenhos raspados de Rauschenberg, na galeria vazia de Nova York
quando do vernissage de Yves Klein, no buraco desencavado por Walter de
Maria em Kassel, na composição silenciosa para piano de Cage, na
“exibição telepatética” de Robert Barry, com páginas vazias de poemas não
escritos. O limite das artes vivido como uma permanente revolução foi a
autodestruição. Chegou um momento em que não havia nenhum lugar para
onde ir.
O fim, por conseguinte, veio tanto de fora como de dentro da arte de
vanguarda. O universo do mundano se recusou a ser mantido a distância.
Mas o fornecimento de locais para sempre novos refúgios de um outro
mundo estava finalmente esgotado. Pode-se dizer que as artes de vanguarda
demonstraram ser modernas em sua intenção, mas pós-modernas em suas
conseqüências (suas imprevistas, mas inevitáveis, conseqüências).
No cenário pós-moderno do presente, falar de uma vanguarda não faz
sentido. Um artista ou outro pode agora assumir uma atitude recordada dos
tempos do Sturm und Drang da alta modernidade — mas, sob as
circunstâncias presentes, isso seria mais uma pose do que uma posição.
Despido da significação do passado, não predizendo nada e não impondo
nenhuma obrigação — um símbolo mais de bravata do que de rebeldia, e
certamente não de fortaleza espiritual. A expressão “vanguarda pós-
moderna” é uma contradição em termos.
A multiplicidade de estilos e gêneros já não é uma projeção da seta do
tempo sobre o espaço da coabitação. Os estilos não se dividem em
progressista e retrógrado, de aspecto avançado e antiquado. As novas
invenções artísticas não se destinam a afugentar as existentes e tomar-lhes o
lugar, mas a se juntar às outras, procurando algum espaço para se mover por
elas próprias no palco artístico notoriamente superlotado. Num cenário em
que a sincronia toma o lugar da diacronia, a co-presença toma o lugar da
sucessão e o presente perpétuo toma o lugar da história, a competição
domina desde as cruzadas. Já não se fala de missões, de advocacia, de
profetização, de uma e única verdade firmada para estrangular todas as
pseudoverdades. Todos os estilos, antigos e novos sem distinção, devem
provar seu direito de sobreviver aplicando a mesma estratégia, uma vez que todos se submetem às mesmas leis que dirigem toda a criação cultural,
calculada — na frase memorável de George Steiner — para o máximo
impacto e obsolescência imediata. (Num mercado com excesso de oferta, a
tarefa mais urgente é atrair a atenção do cliente; uma segunda, bem perto,
vem a ser a tarefa de desocupar as prateleiras do mercado para novos
produtos que rapidamente chegam.) E, quando a competição domina, há
pouco espaço ou tempo deixado para ação de grupo, confraria de idéias,
escolas disciplinadas e disciplinadoras — todas essas “forças de associação
e alinhamentos confinantes” tão característicos dos tempos de guerras
santas. Há pouco espaço, portanto, para normas e cânones coletivamente
negociados e coletivamente proclamados. Toda obra de arte recua diante do
quadrado e não pensa em criar família, esquecida do preceito de Baudelaire
de que as invenções modernas devem ser as clássicas in spe.
Conceitos tais como filisteísmo, pedantismo, vulgaridade soam
estranhos e estrangeiros no meio da cacofonia da publicidade comercial dos
nossos dias. Como traçar a linha divisória, se a novidade já não se liga à
revolução, as inovações não equivalem ao progresso e a rejeição da
novidade não se liga necessariamente ao obscurantismo e à reação? A visão
do progresso, se universalmente aceita, permitiu respostas aparentemente
objetivas às perguntas como “O que é e o que não é a arte?” ou “O que é
arte boa, e má?” — e emprestou inabalável autoridade aos julgamentos
proferidos em seu nome. Uma vez que a visão seja rejeitada ou posta em
dúvida, uma pessoa está fadada (como, por exemplo, pressentem Howard
Becker ou Marcia Eaton) a se fiar, nos seus julgamentos, em indicações tão
clamorosamente não-objetivas como o relativo prestígio das galerias ou
casas de concerto, e os respectivos preços das obras que elas vendem. (Com
demasiada freqüência, os dois critérios se fundem num só.) O poder
estratificante pertence, hoje, não tanto às criações artísticas, quanto ao local
em que são contempladas ou compradas. A esse respeito, porém, as obras
de arte não diferem de outras utilidades mercáveis. Onde buscar, portanto, a
condição característica das artes no universo pós-moderno e pós-
vanguarda?
O legado da era da vanguarda (e, mais comumente, dos tempos dos
movimentos modernistas) é a imagem das artes e dos artistas como as
tropas de assalto da história que se faz avançar. A vanguarda artística vivia
seus trabalhos como uma atividade revolucionária. (A intensa simpatia, com
pretensão de parentesco espiritual e identidade de propósito, que a maior parte dos artistas de vanguarda sentiu pela política revolucionária
igualmente da esquerda e da direita, tanto mais profunda e mais entusiástica
quanto mais radicais e mesmo totalitárias fossem estas, é bem documentada
e conhecida. Essa simpatia, no entanto, em retrospecto parece uma história
de amor não-correspondido; os revolucionários políticos desconfiavam, é
claro, de todos os que apresentavam princípios e cânones acima das
exigências da disciplina do partido; além disso, as predisposições elitistas
dos artistas só podiam pôr em perigo a solicitação, por parte dos políticos,
de apoio maciço, mais parecido com o elogio do “gosto popular”, que a
vanguarda julgava demolir.) Esperava-se que a arte metesse a realidade
social num molde em que, por si própria e sem ajuda, a realidade fosse de
assunção improvável.
As artes dos nossos dias, ao contrário, não se mostram inclinadas a nada
que se refira à forma da realidade social. Mais precisamente, elas se
elevaram dentro de uma realidade sui generis, e de uma realidade auto-
suficiente nesta. A esse respeito, as artes partilharam a situação da cultura
pós-moderna como um todo — que, como Jean Baudrillard o exprimiu, é
uma cultura de simulacro, não de representação. A Arte, agora, é uma entre
as muitas realidades alternativas (e, inversamente, a chamada realidade
social é uma das muitas artes alternativas), e cada realidade tem seu próprio
conjunto de presunções tácitas, de procedimentos e mecanismos
abertamente proclamados para sua auto-afirmação e autenticação. É cada
vez mais difícil indagar, e mesmo mais difícil decidir, qual é primário e qual
é secundário, qual deve servir como ponto de referência e critério de
correção ou adequação para o resto. Mesmo se perguntas como essas
continuam sendo feitas por força do hábito, não é claro onde dar início à
busca de uma resposta. (A simulação, como insiste Baudrillard, não é
falsificadora ou falsa pretensão; é, antes, parecida com a doença
psicossomática, em que as dores do paciente são inteiramente reais e a
pergunta sobre se sua moléstia também é real não faz muito sentido.)
As artes pós-modernas alcançaram um grau de independência da
realidade não-artística com que seus antecessores modernistas só podiam
sonhar. Mas há um preço a ser pago por essa liberdade sem precedentes: o
preço é a renúncia à ambição de indicar as novas trilhas para o mundo. Não
se trata, para as artes, de perder a sua “utilidade social”, genuína ou
putativa. Schoenberg radicalizou a divisa de Gautier da “arte por amor à
arte”, afirmando que nada que seja útil pode ser arte — mas mesmo nessa forma radical a declaração não apreende completamente a situação das artes
no cénário pós-moderno, em que a verdadeira noção de “artes úteis” é
destituída de sentido claro, uma vez que no reino das artes é obscuro como
a presença ou ausência da utilidade podia ser averiguada: enquanto a
questão da utilidade versus nocividade a respeito da realidade não-artística
se tem tornado altamente controversa.
Em outras palavras, a liberdade do tipo conquistado pelas artes no
cenário pós-moderno dificilmente preenche o postulado de Gautier.
Independência não significa necessariamente autonomia, enquanto a divisa
“a arte por amor à arte” reclamava precisamente autonomia: o direito ao
autogoverno e à auto-afirmação, sem cortar os laços com a vida social e
renunciar ao direito de influenciar o seu curso. Como sugere Baudrillard, a
importância da obra de arte é medida, hoje, pela publicidade e notoriedade
(quanto maior a platéia, maior a obra de arte). Não é o poder da imagem ou
o poder arrebatador da voz que decide a “grandeza” da criação, mas a
eficiência das máquinas reprodutoras e copiadoras — fatores fora do
controle dos artistas. Andy Warhol tornou essa situação uma parte integral
de sua própria obra, inventando técnicas que deram cabo da própria idéia do
“original” e produziram unicamente cópias desde o início. O que conta,
afinal, é o número de cópias vendidas, não o que está sendo copiado.
A vanguarda não reconheceria em tudo isso a realização de suas idéias.
Um sociólogo, porém, pode reconhecer nela a conseqüência (não-
antecipada, sem dúvida) de seus feitos.
OceanofPDF.com