O Mal-estar da Pós-Modernidade

Zygmunt Bauman · Capítulo 12 de 18

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O Mal-estar da Pós-Modernidade

XI. Sobre a redistribuição pós-moderna do sexo: a História da sexualidade, de Foucault, revisitada

XI

 

Sobre a redistribuição pós-moderna do sexo: a

 

História da sexualidade, de Foucault, revisitada

 

A “revolução educacional” que acompanhou o nascimento da sociedade

moderna teve lugar na Europa ocidental, entre os séculos XVI e XVIII,

embora precisasse de um século mais para que seus frutos amadurecessem

plenamente. A revolução consistiu em três desvios fundamentais: primeiro,

em separar uma certa parte do processo da vida individual como o estágio

da “imaturidade”, isto é, uma fase repleta de perigos, mas também

caracterizada por necessidades especiais e que requer, assim, um ambiente,

um regime e processo todo seu; segundo, na separação espacial daqueles

que precisam de tal tratamento peculiar e na sua submissão ao cuidado de

especialistas deliberadamente instruídos; e, terceiro, em conferir à família

especiais responsabilidades de supervisão no processo de

“amadurecimento”.

Como foi observado por Philippe Ariès,1 não exatamente as telas

populares de Breughel, mas todos os testemunhos iconográficos salientam

que, até aproximadamente o século XVI, as crianças, na Europa, eram

tratadas de modo não muito diferente do que “adultos de tamanho menor”.

Diferiam do resto das pessoas meramente por terem os músculos e o juízo

mais fraco. Não havia nenhuma noção de acomodações para as crianças ou

de separação dos quartos dos pais; nem havia jogos especificamente de

criança ou de adulto: a vida adulta não detinha nenhum segredo para as

crianças. A cegueira peculiar para com as distinções de geração também se

expressava simbolicamente: não havia quaisquer sinais culturalmente

reconhecidos quanto à roupa, demarcando um especial “status da infância”

— em regra, as crianças usavam roupas grandes demais ou abandonadas por irmãos mais velhos ou pelos pais e, mesmo se novos trajes eram

encomendados para elas, seguiam as modas dos adultos da época.

Tudo isso começou a mudar com a aurora do século XVII. Primeiro no

topo, e depois gradualmente — através da osmose, um efeito obtido gota a

gota, por emulação ou competição de status —, também em estratos sociais

sempre mais baixos. Partes das casas familiares foram separadas e

reservadas para as atividades dos adultos e declaradas “áreas proibidas” às

crianças abaixo de certa idade; um regime separado e atividades especiais

foram concebidas para as crianças; e, para marcar isso simbolicamente, seus

trajes foram desenhados para acentuar-lhes o status inferior ou

“incompleto”, a princípio imitando as roupas usadas pelas classes mais

baixas ou, no caso dos meninos, os trajes das mulheres.

Segundo Ariès e outros estudiosos dos hábitos populares2, a mudança no

tratamento das crianças veio juntamente com a “descoberta” da criança

como uma criatura por si mesma e de um tipo um tanto diferente, dotado de

atributos peculiares. Esta descoberta estava intimamente ligada à nova — e

moderna — percepção da realidade social, que apresentava a carreira dos

indivíduos humanos como o processo de “amadurecimento”, algo que não

aconteceria por si mesmo, sem ajuda e não-supervisionado, não podendo

ser deixado à mercê da sabedoria da natureza. Para assistir ao processo e

assegurar-lhe o fluxo regular, é preciso um ambiente especial e orientado

para a criança, isolado dos rombos acidentais do mundo dos crescidos.

Quanto mais tempo durasse o fechamento das crianças nesse ambiente

especial, melhor: juntamente com a idéia positiva do amadurecimento, uma

idéia negativa da “criança precoce” apareceu, trazendo um aroma

decididamente patológico. A criança era considerada um ser frágil, que

requer estreita e constante vigilância e interferência; um ser inocente mas

que, pela própria razão de sua inocência, vivia sob uma constante ameaça

de ser “estragada”, incapaz de evitar e combater os perigos por sua conta. O

que para os adultos era um desafio a combater ou arrostar, para a frágil

criança era um engodo a que ela não podia resistir ou uma armadilha em

que ela só podia cair. A criança precisava da orientação e do controle do

adulto: uma supervisão refletida e cuidadosamente planejada, calculada

para desenvolver a razão da criança como uma espécie de fortificação

deixada pelo mundo do adulto dentro da personalidade da criança. As

necessidades de orientação e controle convergiram para a idéia de um

ambiente especialmente projetado em que o processo de crescimento devia acontecer. Idealmente, cada etapa do desenvolvimento da criança devia ter

seu ambiente próprio e feito sob medida.

Joseph Kett3 descobriu que, exceto para a aristocracia e para os mais

ricos das classes médias empreendedoras, as condições ambientes das

crianças de todos os estratos sociais, no começo do século XIX, eram ainda

acidentais e destituídas de estrutura, em vez de planejadas e reguladas. Esse

estado de coisas veio a ser compreendido, contudo, como de frouxidão

inadmissível, potencialmente perigoso e que exigia urgentes reformas.

Colocar previamente crianças “não-supervisionadas” (isto é, crianças das

classes mais baixas) sob o olho vigilante de capatazes de fábrica foi

amplamente considerado, sob tais circunstâncias, um desvio educacional

salutar; a única tarefa que restava era excogitar os meios de controlar o

comportamento das crianças durante as horas em que estivessem fora do

alcance da vista do capataz. Daí a força rapidamente mobilizadora do

movimento pelas escolas paroquiais de domingo, introduzidas em todo o

país com o fim, ostensivo, de proporcionar de outra maneira a instrução que

faltasse, mas inspirada, em primeiro lugar, pelo desejo de manter a criança

longe da travessura durante seu tempo “livre”, isto é, não-supervisionado.

Havia uma categoria de adultos que ocupava uma posição

potencialmente capaz de facilitar o controle contínuo, ubíquo e meticuloso

de cada aspecto da vida das crianças — os pais. A responsabilidade dos pais

pelo desenvolvimento das crianças está hoje na boca de todo o mundo, e

seu papel essencial no “amadurecimento” da criança parece ser um fato da

natureza. Mas, no começo do século XIX, isso estava longe de ser óbvio:

não era uma realidade, mas uma sonhada solução para os problemas da

realidade, tarefa para legisladores, para os defensores e pregadores da

moral. Afinal, em tempos ainda não muito distantes, quando a corporação

— a paróquia, a casa senhorial, a propriedade ou a guilda — cuidava da

integração social e da ordem, enquanto a ubíqua vigilância dos vizinhos era

o meio mais importante (e suficiente) de controle social, não se confiava

particularmente na família. As crianças da nobreza eram iniciadas nas

habilidades secretas da vida nobre servindo em cortes de outros nobres,

enquanto os filhos dos artesãos passavam seus dias de aprendizado nas

casas de outros amos, freqüentemente muito afastadas da residência dos

pais. A partir do século XVIII, professores contratados, academias para os

jovens nobres e colégios internos para os filhos dos endinheirados

começaram a tomar o lugar das cortes de outras pessoas, oficinas e escritórios, mas essa mudança de outro modo dramática ainda não dispunha

a família no centro do esforço educacional. E havia outros desvios,

paralelos, que pressionavam numa direção precisamente oposta: a separação

da casa dos negócios mantinha os pais longe do lar por uma parte maior do

dia e, mais adiante, empobreceu os contatos face a face das crianças com os

pais. Enquanto para as classes mais baixas, pobres ou necessitadas,

dificilmente se podia falar de qualquer vida familiar. Tanto o pai como a

mãe passavam a maior parte do tempo longe da casa familiar (se havia uma

casa familiar), ganhando a vida; o mesmo se esperava das próprias crianças,

que principiavam a partir de uma idade mais tarde considerada tenra e de

modo algum adequada às rudes condições do trabalho assalariado.

O fechamento da família na casa familiar — afastando a residência da

vigilância dos vizinhos, tecendo uma rede intricada de ligações intensas,

mútuas, emocionalmente saturadas com os pais e irmãos — e a elevação da

família à posição de controladora no processo da educação da criança não

eram o resultado de um processo natural e espontâneo. O desenvolvimento

das famílias no papel dos “canais capilares” do sistema societário de

controle mediante vigilância, descrito pormenorizadamente por Michel

Foucault, carecia de um profundo esforço legislativo, de ação social

coordenada e intensa propaganda dos novos padrões de coabitação íntima.

A reorganização do espaço social e a remodelação das relações sociais

movimentaram muitos fatores não-coordenados anteriormente, numerosos

demais para serem aqui relacionados. Concentrar-me-ei, portanto,

justamente num dos muitos fatores da reorganização total (embora

indubitavelmente um dos mais eficientes): na redefinição do sexo e das

práticas sexuais. Em sua introdução à História da sexualidade, Michel

Foucault sustentou convincentemente que, em todas as suas manifestações,

quer aquelas conhecidas desde tempos imemoriais, quer as que foram

descobertas ou denominadas pela primeira vez, o sexo serviu à articulação

dos novos — e modernos — mecanismos do poder e do controle social.

Os discursos médico e educacional do século XIX também construíram,

entre outras noções, o fenômeno da sexualidade infantil, a ser convertido

mais tarde, ex post facto, na pedra angular da psicanálise. O papel central,

nessa articulação, foi desempenhado pelo pânico criado em torno da

propensão da criança a se masturbar — considerada simultaneamente uma

inclinação natural e uma doença, um vício impossível de se erradicar e um

perigo com incalculável potencial de dano. Era tarefa dos pais e professores defender as crianças desse perigo mas, com o fim de tornar a proteção

eficaz, era necessário abrir os olhos da criança para o problema, espreitar

sua presença em toda mudança de comportamento, todo gesto e expressão

facial, submeter toda a ordem das vidas das crianças à necessidade de tornar

impossível a mórbida prática, interpretar todos os direitos e deveres das

crianças com referência a sua fatal inclinação. Em torno da luta

interminável contra a ameaça da masturbação, foi construído um sistema

completo de fiscalização e vigilância dos pais, médica e pedagógica. Nas

palavras de Foucault, o “controle da sexualidade infantil esperava atingi-la

através de simultânea propagação do seu próprio poder e do objeto sobre o

qual se aplicava”. O inabalável e impiedoso controle dos pais precisava ser

justificado em função da universalidade e insistência do vício infantil.

 

Onde quer que houvesse a oportunidade [de a tentação] poder aparecer, mecanismos de

vigilância eram instalados; eram preparadas armadilhas para confissões irresistíveis;

discursos incansáveis e corretivos eram impingidos; pais e professores eram alertados,

deixados com a suspeita de que todas as crianças são culpadas, e com o medo de estarem

eles próprios errados se suas suspeitas não fossem suficientemente fortes; eram mantidos

em prontidão diante do perigo que se repetia; sua conduta era prescrita e sua pedagogia

recodificada; um completo regime médico-sexual se apoderava do meio familiar. O “vício”

da criança não era tanto um inimigo como um apoio…

 

Permitam-nos observar que o tipo de poder de supervisão posto em

prática e continuamente revigorado pelo pânico que cercava o fenômeno da

masturbação infantil trazia a ressonância da tendência geral de poder

panóptico, tipicamente moderno. Sintetizava todos os traços cruciais deste

último, a um grau que permite seu tratamento como um espécime

clinicamente puro, através do qual as características de um padrão

institucional mais amplo podem ser mais bem examinadas.

 

Mais do que os antigos tabus, essa forma de poder exigia presenças constantes, atentas e

curiosas para seu exercício; pressupunha proximidades; agia por meio do exame e

observação insistente; requeria uma troca de discursos, através de perguntas que

extorquiam confissões, e confidências que estivessem além das perguntas que eram feitas.

Isso implicava uma proximidade física e a ação recíproca de intensas sensações… O poder

que, desse modo, tomava conta da sexualidade se punha a estabelecer contato com o corpo,

acariciando-o com os olhos, intensificando áreas, eletrificando superfícies, dramatizando

momentos agitados. Ele envolvia o corpo sexual em seu abraço.

 

O sexo era mais apropriado a essa finalidade do que qualquer outro

aspecto do corpo e da alma humana; natural, ainda eriçado de tentações inaturais, iniludível ainda que cheio de perigos e acima de tudo onipresente

e partilhado por todos os seres humanos, o sexo era como que feito sob

medida para o poder total e que em tudo penetrasse, concentrado na

administração do corpo e do espírito humanos — um espírito são num

corpo são… Oferecia tudo o que tal poder podia ter precisado para se

estabelecer e reproduzir, simultaneamente, seu mecanismo e seu objeto.

Foucault falou da “utilização” do sexo como um apoio da hierarquia do

poder; às vezes, ele recorreu a uma metáfora militar, falando do

“desenvolvimento” de várias noções construídas no curso do discurso

médico-pedagógico, nas etapas sucessivas da articulação dos modernos

poderes panópticos.4

O sexo foi desenvolvido na construção de numerosos segmentos da

estrutura social moderna. Seu papel, no entanto, foi particularmente grande

na edificação das famílias modernas, essas extensões capilares que

alcançam mais longe, e que tudo penetram, do sistema de poder panóptico,

total. As células da família eram reconhecidamente diminutas e não

particularmente profícuas, mas decisivas para o sucesso global do

empreendimento como um todo, sendo as únicas instituições que

conduziam a pressão combinada do sistema panóptico até cada simples

membro da sociedade. (Especialmente aqueles indivíduos que escapavam à

pua disciplinadora das duas mais poderosas das instituições panópticas — a

fábrica e o exército.)

Antes e acima de tudo, na verdade, a família foi o único terreno para o

aprendizado e disciplina para as mulheres e as crianças; que seu papel em

relação ao homem, “cabeça da família”, provedor do pão e dono da casa,

não fosse senão secundário confirmava o modo pelo qual a sexualidade

masculina fora articulada. Se a predisposição natural das mulheres para a

histeria e das crianças para a masturbação requeria seu fechamento no

espaço estreitamente vigiado da casa da família, onde estariam sempre

disponíveis para a inspeção, e justificavam a exigência contínua de

confissão, fiscalização e cuidado médico, a noção da tendência natural do

homem para a poligamia e intercurso sexual com mais de uma mulher

demandava, ao contrário, um espaço mais amplo do que o da casa familiar,

bem como o direito ao sigilo e a um espaço privativo não controlado por

outros membros da família. Dentro dessas paredes, o papel do dono era

análogo ao do capataz na fábrica ou do sargento no exército.

Segundo a sugestão contida em Making of the Modern Family, de

Edward Shorter, em alguma fase do meio deste século, o mundo ocidental

entrou na “segunda revolução sexual”. Essa segunda revolução consiste,

aproximadamente, no desmantelamento de tudo o que a primeira revolução,

resumida acima, construiu. Testemunhamos hoje uma gradual, mas

aparentemente inexorável, desintegração (ou, ao menos, considerável

enfraquecimento) do outrora sacrossanto e imperturbável “ninho familiar”.

O correlato cultural desse processo é o descascar do envolvimento

romântico do amor erótico e que lhe desnuda a substância sexual.

Permitam-nos observar, porém, que ao contrário das crenças populares

incutidas à medida que essa mudança é apresentada e discutida, tal

transformação indubitavelmente profunda não é, de modo algum,

equivalente à “emancipação sexual” — à libertação da atividade sexual das

respectivas funções sociais que constrangiam, com resultados muitas vezes

nocivos, o impulso libidinal. Ela pressagia, em vez disso, uma sucessiva

“redisposição” do sexo a serviço de um novo padrão de integração social e

reprodução. Como antes, o sexo “tem uma função”; como antes, é

“instrumental”; só a função mudou, assim como a natureza do processo em

que o sexo “redisposto” desempenha seu papel instrumental.

Como na era da primeira revolução sexual, as transformações atuais não

são uma aventura histórica que acontece só ao sexo, mas parte integrante de

uma mudança social muito mais ampla e completa. Se há 200 anos

profundas mudanças nos padrões sexuais associaram-se à construção do

sistema panóptico de integração e controle social, hoje, mudanças

igualmente profundas acompanham a dissimulação desse sistema: um

processo de desregulamentação e privatização do controle, da organização

do espaço e dos problemas de identidade. A segunda revolução sexual

também pode ser vista como intimamente relacionada com a passagem da

produção social do “produtor/soldado” para o cultivo do tipo do

“acumulador de sensações” (descrito no capítulo “Um catálogo dos medos

pós-modernos” do meu Life Fragments).

Se, no curso da primeira revolução sexual, o sexo converteu-se num

maior material de construção das estruturas sociais duráveis e das extensões

capilares do sistema global de construção da ordem, hoje o sexo serve,

antes e acima de tudo, ao processo da atomização em andamento; se a

primeira revolução relacionava a sexualidade com a confissão e preservação

das obrigações, a segunda transferiu-a para o reino da coleção de experiências; se a primeira revolução dispunha a atividade sexual como a

medida de conformidade com as normas socialmente promovidas, a

segunda a redispunha como o critério de adequação individual e aptidão

corporal — os dois maiores mecanismos de autocontrole na vida do

acumulador e colecionador de sensações.

Um lado da transformação dos nossos dias é o desemaranhamento do

sexo do denso tecido de direitos adquiridos e deveres assumidos. Nada

retém melhor esse aspecto do que os conceitos de “sexualidade plástica”,

“mero relacionamento” e “amor confluente”, todos cunhados por Anthony

Giddens.5 Nada resulta do encontro sexual, salvo o próprio sexo e as

sensações que acompanham o encontro; o sexo, pode-se dizer, saiu da casa

familiar para a rua, onde apenas os transeuntes acidentais encontram quem

— enquanto encontram — sabe que mais cedo ou mais tarde (antes mais

cedo do que mais tarde) seus caminhos são obrigados a se separar

novamente. Como Henk Kleijer e Ger Tillekens resumiram a nova situação,

“as práticas sexuais não unidas pelo dever, mas pelo prazer, são exportadas

para o domínio entre a casa e o local de trabalho”.6 Somos tentados a tomar

por hipótese que testemunhamos, atualmente, o divórcio entre o sexo e a

família, semelhante ao divórcio entre a família e o negócio, detectado por

Max Weber como um dos principais processos constitutivos do início da

modernização. Como os Beatles cantaram profeticamente em 1965, “Não

estou querendo dizer que ando infeliz com você/Porém, a partir de hoje,

bem, conheci uma pessoa nova/Não sou boboca nenhum: não aceito o que

não quero/pois achei outra garota.”

Deste “lado único” da presente mudança, ouve-se mais. É o aspecto da

revolução sexual em curso mais amplamente discutido na imprensa comum

e nos estudos acadêmicos do mesmo modo, freqüentemente representado

como a essência da transformação atual dos costumes sexuais. Na maioria

das vezes, também é aclamado como o estágio indispensável no processo da

emancipação individual. E este, porém, não parece ser o único aspecto da

redisposição do sexo; nem o seu aspecto mais fecundo. Enfatizar este

aspecto, e apenas este, à custa de outros, parece ser mais uma manifestação

de precária, “falsa consciência”. A ênfase ajuda a voltar os olhos para longe

das conseqüências e efeitos colaterais “não-antecipados” ou, antes, latentes

(desde que ausentes dos cálculos dos atores) da nova sexualidade.

Acontece que o outro lado da questão é que o isolamento do sexo de

outras formas e aspectos do relacionamento social e, acima de tudo, das relações maritais e com os pais, é um poderoso instrumento, não

exatamente a conseqüência, dos processos de privatização e

mercantilização. Atualmente, os indivíduos são “socialmente empenhados”,

em primeiro lugar, através de seu papel como consumidores, não

produtores: o estímulo de novos desejos toma o lugar da regulamentação

normativa, a publicidade toma o lugar da coerção, e a sedução torna

redundantes ou invisíveis as pressões da necessidade. Nessa espécie de

contexto, as estruturas firmes e elásticas do tipo de “até que a morte nos

separe”, indispensáveis no sistema de poder panóptico, perdem sua

utilidade: elas se tornam até “disfuncionais”, se medidas pelos pré-

requisitos da integração do tipo “de mercado”. Desse modo, a emancipação

sexual dos nossos dias faz lembrarmo-nos de chutar um adversário que já

caiu. Por outro lado, porém, parece um murro mais poderoso que o

derruba…

O sexo está sendo completamente purificado de todas as “poluições” e

“corpos estranhos” tais como obrigações assumidas, laços protegidos,

direitos adquiridos. Por outro lado, porém, todas as outras coisas das

relações humanas são — afiadamente, vigilantemente, obsessivamente, às

vezes de uma maneira atacada de pânico — purificadas mesmo das mais

pálidas sugestões sexuais que permitam a mais leve possibilidade de

condensar essas relações em permanência. As sugestões sexuais são

pressentidas e farejadas em toda emoção que chegue além da escassa

relação de sentimentos permitidos no arcabouço do desencontro (ou quase

encontro, encontro fugaz, encontro inconseqüente) — ver o capítulo

“Formas de acompanhamento”, em Life Fragments), em todo oferecimento

de amizade e toda manifestação de um interesse mais profundo do que a

média, por uma outra pessoa. (Muito antes de Oleanna ser escrita e

apresentada, um amigo meu, sociólogo eminente, contou-me que havia

resolvido manter a porta de seu escritório inteiramente aberta sempre que

garotas estudantes viessem consultá-lo — para evitar acusações de assédio

sexual. Como ele descobriu muito depressa, a porta tinha também de ser

mantida aberta durante as visitas dos rapazes estudantes.) Saudar a beleza

ou o encanto de um/a colega de trabalho é provavelmente censurado como

provocação sexual, e o oferecimento de uma xícara de café como

importunação sexual. O espectro do sexo, agora, assombra os escritórios

das empresas e as salas dos grupos de estudo dos colégios: há uma ameaça

encerrada em todo sorriso, olhar atento ou maneira de tratar. O resultado total é o rápido definhamento das relações humanas, despindo-as de

intimidade e emotividade, e o esmorecimento do desejo de entrar nelas,

conservá-las vivas.

O desvio do sexo, de cimentar a parceria para seu enfraquecimento, para

garantir a transitoriedade de um relacionamento e sua disposição de se

anular com uma pequena notícia ou sem notícia, está provavelmente no que

tem de mais conspícuo e mais conseqüente: no reino da vida familiar.

Afinal, era precisamente nesse reino que o sexo costumava proporcionar o

tijolo e a argamassa essenciais para a construção da estrutura: quer em sua

versão positiva, articulando os laços conjugais, quer negativamente (como a

força elementar que precisa ser domada e controlada), ao articular a

intimidade entre pais e filhos. Hoje, o sexo está-se convertendo num

poderoso instrumento de desagregação da estrutura da família, em todas as

suas dimensões.

Os tribunais de um país atrás do outro legalizam o conceito de “estupro

conjugal”; os serviços sexuais já não são direitos e deveres conjugais, e

insistir neles pode ser classificado como crime punível. Visto que é

notoriamente difícil interpretar com “objetividade”, de forma não ambígua,

o comportamento do parceiro de uma pessoa, como consentimento ou

recusa de cada um (sobretudo se os parceiros dividem uma cama à noite), e

visto que definir um evento como um estupro requer a decisão de um único

parceiro, virtualmente cada ato sexual pode, com um pouco de boa (ou

melhor, má) vontade, ser apresentado como o ato de estupro (que certas

autoras feministas radicais se apressaram a proclamar como “a verdade da

questão”). Os parceiros sexuais precisam lembrar-se, pois, em cada ocasião,

que a discrição é a melhor parte do valor. A obviedade ostensiva e o caráter

não-problemático dos direitos conjugais, que outrora se destinavam a

encorajar os parceiros a preferirem o sexo conjugal ao sexo fora do

casamento, um caso supostamente mais arriscado, são agora cada vez mais

freqüentemente considerados uma armadilha. Como resultado, os motivos

para associar a satisfação das necessidades sexuais com o casamento se

tornam cada vez menos evidentes ou convincentes — em particular quando

as “relações puras”, no sentido giddensiano, são de tão fácil obtenção

alhures.

A sexualidade manifesta ou latente, despertada ou adormecida da

criança também costumava ser um poderoso instrumento na articulação das

modernas relações de família. Proporcionava a razão e o ímpeto para a interferência compreensiva e impertinente dos pais na vida das crianças. Ela

solicitava dos pais estar constantemente “em contato”, manter as crianças

constantemente sob os olhos, travar conversas íntimas, estimular confissões,

exigir confidência e partilha de segredos. Hoje, a sexualidade das crianças

está se tornando, ao contrário, um fator igualmente poderoso na separação

entre pais e filhos e na “manutenção da distância duma pessoa”. Os medos

de hoje provêm do desejo sexual dos pais, não das crianças: não é no que as

crianças fazem com o seu próprio impulso, mas no que fazem ou podem

fazer a mando dos pais, que tendemos a desconfiar de sugestões sexuais; é o

que os pais gostam de fazer com (e a) seus filhos que assusta e requer

vigilância — só que esta é uma espécie de vigilância a que se recomenda

cautela, afastamento e reticência dos pais. As crianças, agora, são

consideradas principalmente objetos sexuais e vítimas potenciais de seus

pais como sujeitos sexuais e, visto que os pais são por natureza mais fortes

do que os filhos e colocados na posição do poder, a sexualidade dos pais

pode facilmente levar ao abuso desse poder, a serviço dos instintos sexuais

dos pais. O espectro do sexo, portanto, também assombra as casas de

família. Para exorcizá-lo, precisamos manter as crianças a distância — e,

acima de tudo, abstendo-se de intimidade e manifestação tangível, aberta,

do amor dos pais…

Algum tempo atrás, a Grã-Bretanha presenciou uma virtual epidemia de

“exploração sexual das crianças”. Numa campanha amplamente divulgada,

assistentes sociais, em cooperação com médicos e professores, acusaram

dezenas de casais (principalmente pais, mas também um crescente número

de mães) de investidas incestuosas contra os filhos. As vítimas infantis

eram forçosamente retiradas das casas dos pais, enquanto os leitores da

imprensa popular eram obsequiados com histórias pavorosas acerca dos

antros de devassidão em que se haviam convertido os quartos e banheiros

da família. Os jornais trouxeram notícias sobre abuso sexual dos tutores de

criança numa casa de custódia ou reformatório após outro.

Apenas alguns dos casos publicamente discutidos eram levados a

julgamento. Em certos casos, os pais acusados conseguiam provar sua

inocência e tinham os filhos de volta. Mas o que aconteceu aconteceu. A

ternura dos pais perdeu sua inocência. Fora levada a público a consciência

de que as crianças são sempre e em toda parte objetos sexuais, de que há

um fundo sexual potencialmente explosivo em qualquer ato de amor dos

pais, de que toda carícia tem seu aspecto erótico e em todo gesto de amor

pode esconder-se um assédio sexual. Como observou Suzanne Moore,7 um

relatório da NSPCCa noticiou que “um em cada seis de nós foi vítima de

‘interferência sexual’ quando era criança”, enquanto, segundo o relato de

Barnardo, “seis de cada dez mulheres e um quarto dos homens ‘sofreram

alguma espécie de assédio ou interferência sexual antes dos 18 anos’“.

Suzanne Moore acrescenta que o “o abuso sexual é muito mais difundido

do que estamos preparados para aceitar”, porém ela ressalta, apesar disso,

que “a palavra abuso, agora, é tão exageradamente empregada que quase

toda situação pode ser imaginada como abusiva”. Nos outrora não-

problemáticos amor e cuidado dos pais, um abismo de ambivalência vem

sendo revelado. Nada mais é claro e óbvio: tudo é atirado com ambigüidade

— e de coisas ambíguas se é aconselhado a lhes passar ao largo.

Num caso amplamente divulgado, Amy, de três anos de idade, foi

encontrada na escola fazendo objetos, com massa de modelar, em forma de

lingüiça ou de cobra (que o professor identificava como pênis) e falava de

coisas que “esguichavam substância branca”. A explicação dos pais, de que

o misterioso objeto que esguichava substância branca era um borrifador

contra congestão nasal, enquanto as coisas em forma de lingüiça eram

imagens dos doces de gelatina preferidos por Amy, não ajudaram. O nome

de Amy foi colocado na lista das “crianças em perigo”, e os pais entraram

numa batalha para limpar seus nomes. Como Rose Waterhouse8 comenta

sobre este e outros casos,

 

Apertar nos braços, beijar, dar banho, e mesmo dormir com os seus filhos são padrões

naturais de comportamento dos pais ou são atos de abuso inapropriados, exageradamente

sexuados?

E o que são passatempos infantis normais? Quando as crianças fazem pinturas de

feiticeiras e cobras, isso significa que são símbolos de acontecimentos assustadores e

abusivos? São estas perguntas fundamentais com as quais os professores, os assistentes

sociais e outros profissionais envolvidos no cuidado das crianças freqüentemente têm de

enfrentar.

 

Permitam-me observar que mesmo os casos de masturbação e de

interesse das crianças pelos seus próprios órgãos genitais são agora

constantemente redefinidos de maneira mais ampla como o produto da

sexualidade dos pais, mais do que as próprias inclinações sexuais das

crianças, e interpretados como indicadores de abuso sexual.

Para resumir: no discurso dos nossos dias, a criança aparece como o

objeto, em vez de sujeito, do desejo sexual. Se o lançamento da criança no molde do sujeito sexual justificava a proteção compreensiva e íntima dos

pais, a criança como objeto sexual requer reticência, distância e reserva

emocional dos pais. O primeiro fato servia ao fortalecimento (alguns

diriam: estreitamento) dos laços familiares. E o segundo?

O segundo serve ao enfraquecimento dos laços, uma condição

importante da “monadização” do futuro colecionador de sensações e

consumidor de impressões. Como em suas outras dimensões (por exemplo,

a “purificação” do sexo da contaminação de outros aspectos das relações

inter-humanas — o processo destinado a garantir melhor possibilidade de

explorar o potencial hedonístico do sexo), o presente discurso sexual

propaga, neste caso, o “esfriamento” da interação humana e sua libertação

de todo sabor erótico (e, mais generalizadamente, afetivo) —, em suma, sua

nova e mais radical “impessoalização”. Se em tempos passados a separação

do negócio da casa permitiu ser aquele submetido às exigências severas e

serenas da competição, enquanto se conservava surdo a todas as outras

normas e valores, sobretudo morais, a separação atual do sexo das outras

relações inter-humanas permite-lhe ser submetido, sem restrição, aos

critérios estéticos da experiência forte e da satisfação sensual. Primeiro,

mediante a “purificação” da parceria, o amor erótico foi reduzido a sexo;

depois, em nome da purificação das intenções sexuais impuras, a parceria é

“purificada” do amor…

 

a National Society for the Prevention of Cruelty to Children (Sociedade Nacional de Prevenção da Crueldade contra as Crianças), instituição inglesa. (N.T.)

 

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