O Milagre
Capítulo 9
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
— Mas são científicos hoj e e supostam ente as curas continuam a ocorrer — desafiou-o Liz.
Am anda virou-se para ela.
— Há um a realização de desej o, um a auto-hipnose. E não podem os esquecer que há m uitas doenças que os m édicos ainda não conhecem suficientem ente. Não são poucas as que acabam ... sob determ inados estím ulos... curando-se por si m esm as.
— Exatam ente — concordou o Padre Cay oux. — Pode haver curas, m as não precisam ser encaradas com o m ilagrosas. — Com um grunhido, ele levantou o corpo volum oso da cadeira e ficou parado acim a das duas m ulheres. — Depois que as curas com eçaram e Lourdes teve seu acesso à fam a, havia um problem a. E esse problem a era a j ovem Bernadette, que estava se tornando um a legenda. O que fazer com ela? A contínua exposição ao público, m uito depois que as visões cessaram , podia levá-la a contradições, um com portam ento em desacordo, prej udicando a legenda. Os donos de Lourdes encoraj aram -na a se afastar dos olhos do público, a tornar-se um a freira relativam ente anônim a. E acabaram por estim ulá-la a deixar Lourdes para sem pre. Ela decidiu ir para Nevers, ingressar no convento de Saint-Gildard, tornar-se um a freira enclausurada. Antes de Bernadette ir para Nevers, um rapaz atraente, aristocrata e estudante de m edicina, que se apaixonara por ela, veio a Lourdes para pedi-la em casam ento. Bernadette nunca foi inform ada disso. O rapaz foi repelido por seus guardiães e ela foi rapidam ente despachada para o convento.
As m ulheres se levantaram e Liz indagou:
— Pode haver algum a coisa que nos interesse em Nevers?
— Não sei — respondeu o Padre Cay oux. — É verdade que a responsável pelas noviças em Nevers, Madre Vauzou, não acreditava nas visões de Bernadette. Madre Vauzou tam bém tratava a sua pequena freira de m odo brutal, quase sadicam ente, porque considerava Bernadette m uito presunçosa e vaidosa. Mas isso foi nos velhos tem pos. Não tenho a m enor ideia de com o as freiras de lá consideram Bernadette hoj e. Provavelm ente com o m aior respeito, j á que ela foi elevada a santa depois de sua m orte, em 1879. — Ele estava agora m exendo nos papéis em cim a da m esa, obviam ente ansioso em voltar às suas ocupações norm ais. — Mas podem ir até lá e verificar pessoalm ente.
— Talvez acabem os indo — disse Liz. — Padre, não sei com o lhe agradecer o suficiente, pela Sra. Clay ton e por m im , o tem po que nos concedeu e o relato equilibrado que nos ofereceu de Bernadette.
— O prazer foi m eu — respondeu o Padre Cay oux, bruscam ente. — Tentei aj udar da m elhor form a possível. Boa sorte para as duas.
Depois que deixaram o presbitério, saindo pela porta da frente da igrej a para a tarde a definhar, elas pararam por um instante para acender cigarros e se entreolharem .
— O que acha? — perguntou Am anda.
— O que você acha?
— Para m im , foi um a coisa fascinante, um a visão m ais saudável de Lourdes — disse Am anda. — Talvez eu repita algum a coisa para Ken. Mas...
— Mas o quê?
— Mas não tenho certeza absoluta do nosso gordo am igo padre '
— explicou Am anda. — Ocorreu-m e que boa parte de seu ceticism o e m aledicência pode ter sido causada por ressentim ento e invej a de Lourdes, que liquidou Cauterets com o um a atração.
— Quanto a isso, não resta a m enor dúvida — concordou Liz. ,
— Mas não faz com que pareça m enos verdade o que ele nos contou..
— Mas ainda não m e disse o que você realm ente pensa.
— Verdade ou não... e eu diria que a m aior parte do que Cay oux nos disse tem algum a base em fatos... é apenas um a conversa, m aterial secundário — com entou Liz. — Não pode constituir o fundam ento para um a m atéria de denúncia da API. Ainda preciso de um a prova concreta de que Bernadette foi um a charlatã, um a adolescente m aluca. A m enos que eu consiga isso, não tenho nenhum a m atéria.
— Talvez você tenha razão.
Liz com eçou a descer os degraus para a Place Jean Moulin e o carro estacionado, acom panhada por Am anda.
— Vam os voltar a Lourdes antes de escurecer — disse Liz. — Depois que chegarm os lá, descobrirei com o ir a Nevers. Creio que fica m ais perto de Paris do que Lourdes. Se quiserm os ir até lá am anhã, talvez tenham os de partir esta noite. Aceita?
— Por que não?
— Não podem os perder qualquer possibilidade — acrescentou Liz. — Nevers pode nos proporcionar a chave... a chave que abrirá a gruta e nos m ostrará o grande segredo de Bernadette.
— Se é que existe algum segredo — com entou Am anda.
— Está brincando?
Poucas vezes em sua vida Mikel Hurtado se sentira tão frustrado quanto naquela noite, ao voltar para o Hotel Galha & Londres.
Pela terceira vez naquele dia, ele fora bloqueado em seus esforços para colocar a dinam ite e o detonador ao lado da gruta.
Retornando lentam ente ao hotel, Hurtado reconstituiu suas incursões e fracassos, tentando encontrar algum sentido. No início da tarde, m unido com a sacola de com pras em que estavam os explosivos, ele se lançara. confiante ao prim eiro esforço do dia. Avançara pela m ultidão na apinhada Avenue Bernadette Soubirous até a esquina, determ inado a seguir o fluxo de peregrinos atravessando a rua para a ram pa e descendo para o dom ínio.
Ao deixar a calçada, estacara abruptam ente. No outro lado, no alto da ram pa, havia guardas, j unto a um dos carros de patrulha, verm elho e branco, um a luz azul no teto. Os guardas se espalhavam pelo acesso à ram pa e ao dom ínio, observando visitantes, aparentem ente detendo e interrogando alguns. Hurtado não fora capaz de determ inar exatam ente o que a polícia procurava, m as os guardas ali estavam , exatam ente onde os vira reunidos na noite anterior. Com preendendo que não podia chegar m ais perto, por causa do conteúdo da sacola, ele recuara, voltando ao hotel.
Em seu quarto, tirara um baralho da m esa e se dedicara a interm ináveis partidas de paciência. Cansando daquela m asturbação com as cartas, ele pegara um rom ance de Kafka, estendera-se na cam a e lera até cochilar. Despertara com o barulho de canto lá fora, da procissão do final da tarde. Ele olhara para o relógio. Cinco e m eia. Calculara que, àquela altura, a polícia j á term inara com o que estava fazendo, o que quer que fosse. Lavara o rosto e as m ãos, pegara, a sacola e pela segunda vez naquele dia seguira pelo Boulevard de Ia Grotte. A cena ali era um a réplica do que testem unhara cerca de quatro horas antes. Lá estava a m ultidão im paciente, protestando pela redução da velocidade de acesso ao dom ínio, enquanto guardas exam inavam cada fiel e turista na passagem por um a barreira tem porária, na entrada da ram pa. Mais um a vez, Hurtado com preendera que não podia correr o risco, tinha de esperar que a polícia fosse em bora.
Só depois que o j antar term inara e os outros se levantavam para ir à procissão noturna é que Hurtado tentara falar com Natale. Oferecera-se para acom panhá-la ao quarto e ela agradecera e aceitara. No elevador, subindo para o segundo andar, Natale lhe perguntara o que fizera durante o dia. Ele inventara um a m entira sobre horas de com pras, procurando um presente para a m ãe em San Sebastián. Saindo do elevador, Hurtado indagara polidam ente com o ela passara o dia. Na gruta, é claro, inform ara Natale, na gruta, rezando. Hurtado vira a oportunidade de descobrir algum a coisa sobre a presença de tantos guardas e perguntara se ela tivera algum a dificuldade para chegar à gruta. Natale respondera que não houvera qualquer problem a e quisera saber o m otivo da pergunta. Hurtado com entara que ouvira falar da presença de guardas na ram pa e a dem ora para se alcançar o dom ínio; estava curioso com a súbita concentração da polícia. A porta de seu quarto, Natale lem brara que isso fora rapidam ente discutido no início do j antar por vários de seus com panheiros à m esa. Era verdade, havia m uitos guardas, todos presum iam que a polícia tentava descobrir veteranos punguistas e prostitutas. Em bora as especulações à m esa nada provassem , Hurtado ainda achava que havia algo m ais. Mas sentira-se m ais anim ado depois de deixar Natale em seu quarto, desej ando-lhe boa noite, e voltar ao seu, que ficava ao lado.
Resolveu tentar outra vez, convencido de que desta vez daria certo. A esta altura, certam ente, ao cair da noite, a polícia j á teria descoberto os seus pequenos crim inosos e se dispersado, perm itindo que o m ovim ento dos peregrinos retom asse o seu ritm o norm al. Preparando-se para a terceira tentativa de entrar no dom ínio, tencionando levar a sacola com os explosivos, Hurtado hesitara por um m om ento, sentindo-se inexplicavelm ente cauteloso. E acabara resolvendo fazer um reconhecim ento, a fim de certificar-se de que o cam inho estava livre; depois de confirm ar isso, voltaria rapidam ente ao quarto para pegar a sacola e levar para o dom ínio e a gruta, a fim de realizar o trabalho preparatório.
Pela terceira vez ele fora até a esquina e pela terceira vez a cena não m udara. Avistara as filas vagarosas de visitantes avançando lentam ente e os guardas de Lourdes na frente da ram pa. Consternado, m as livre dos explosivos, sentindo-se m ais seguro, Hurtado decidira que desta vez iria até lá para descobrir exatam ente o que acontecia. Avançara pela rua até o café Le Roy al, encontrara um a m esa vazia perto do m eio-fio, pedira um Cacolac e ficara observando a cena no outro lado da rua. Tom ando a bebida pelo canudo, conseguira finalm ente com preender algum a coisa do que estava acontecendo. A polícia detinha apenas os peregrinos e turistas com em brulhos e sacolas de com pras, abrindo os em brulhos e vasculhando as sacolas, depois perm itindo que as pessoas seguissem pela ram pa. Muito estranho, pensara Hurtado. O que estariam procurando? Um a coisa era certa: estava satisfeito por não ter tentado entrar no dom ínio com a sua sacola.
Agora, ainda aturdido, ele voltava ao hotel.
Entrando e pegando sua chave, do quarto 206, ele viu a recepcionista solitária, a francesa gorda cham ada Yvonne, por trás do balcão, ocupada com o sem pre com suas contas. E nesse instante ele com preendeu o que poderia fazer. A recepcionista saberia o que estava acontecendo — quase sem pre o pessoal de hotel sabia de tudo, estava a par de todas as notícias da cidade — e lhe contaria.
Hurtado desviou-se do elevador e foi até a recepção com um sorriso am ável.
— Olá, Yvonne.
Ela levantou a cabeça e retribuiu o sorriso.
— Boa noite, Sr. Hurtado. Por que não está na procissão? Era um a abertura perfeita e ele tratou de aproveitar.
— Está m uito difícil chegar lá. Há guardas dem ais na entrada. O que está acontecendo?
— Bom ...
A recepcionista estava visivelm ente relutante em responder. Hurtado exibiu o seu sorriso m ais cativante.
— Ora, Yvonne, você sabe de tudo.
— Nem tudo... m as algum as coisas.
— E não vai contar nada a um pobre peregrino?
— É confidencial... se ficar absolutam ente entre nós dois...
— Tem a m inha prom essa, pela cabeça da Virgem .
— Ora, Sr. Hurtado...
— Em troca pelo esclarecim ento, prom eto convidá-la para um drinque esta sem ana. Se eu não cum prir a palavra, então lhe deverei dois drinques, ou m esm o três.
Ela se levantou e se inclinou por cim a do balcão, num a atitude de conspiradora. Hurtado cooperou, tam bém inclinando a cabeça. Baixando a voz, Yvonne disse:
— Não vai espalhar, não é m esm o? É absolutam ente confidencial. Fui inform ada por m inha am iga m ais íntim a, Madeleine... ela... hã... tem um relacionam ento especial com o Inspetor Fontaine, que é chefe da gendarmerie de Lourdes...
— Mas o que houve? Yvonne sussurrou:
— A polícia recebeu o aviso de que um terrorista pode tentar explodir a gruta esta sem ana.
Hurtado sentiu um a súbita pressão no coração. Tentou m anter a voz calm a:
— Não acredito. Ninguém seria capaz de fazer isso, m uito m enos nesta sem ana. Um aviso, hem ?
— Foi um telefonem a anônim o. O inspetor não revelou m ais nada a Madeleine. Mas ele postou guardas em todos os acessos à gruta, revistando todos os que entram no dom ínio, à procura de explosivos. Estão levando o caso a sério. E tem m ais... — A recepcionista fez um a breve pausa, dram ática, baixou ainda m ais a voz ao acrescentar: — Estão agora investigando todos os estrangeiros em cada hotel. Eu... eu não deveria lhe dizer isso, m as estão no Gallia & Londres neste m om ento. O próprio inspetor e um grande contingente de guardas. Dispõem de chaves de todos os quartos. Abrirão os que se encontrarem desocupados neste m om ento e os revistarão. E tam bém exam inarão as coisas dos hóspedes que estiverem presentes.
Hurtado sentia a garganta ressequida.
— Quer dizer que a polícia está aqui?
— Com eçaram a revistar tudo há cerca de 15 m inutos, pelo prim eiro andar.
Hurtado sacudiu a cabeça.
— Não posso acreditar num a revista policial em Lourdes num a sem ana com o esta...
Yvonne deu de om bros.
— Sem pre pode haver algum m aluco à solta.
— Obrigado pela inform ação, Yvonne. Eu lhe devo um drinque. — Prestes a se virar, Hurtado lem brou-se de outra coisa. E disse a Yvonne, casualm ente: — Já ia esquecendo de lhe avisar. Tenho de passar um ou dois dias fora da cidade. O aniversário de um am igo. Mas guarde o m eu quarto. Voltarei para usá-lo. E se a polícia quiser saber por que o 206 está vazio... pode lhe assegurar que ainda se encontra desocupado. Está bem ?
— Não há problem a.
Ele virou-se para o elevador, tentando dar a im pressão de que não tinha qualquer pressa. Mas, na verdade, suas pernas pareciam de chum bo. Ocorreu-lhe no m esm o instante o que provavelm ente acontecera. Quase esquecera o telefonem a que Julia dera de San Sebastián na m anhã anterior, confessando que revelara ao líder, Augustín López, o que ele estava tentando fazer. Lem brou-se de ter lançado um desafio a Augustín na conversa com Julia, lem brou-se de que ela o advertira de que o líder faria tudo para detê-lo, se ele insistisse em prosseguir com seu plano. Pois ele insistira e o filho da puta do Augustín López telefonara anonim am ente para a polícia de Lourdes, avisando-os de um possível ato terrorista.
Hurtado sabia que precisava chegar a seu quarto no segundo andar antes da polícia. Precisava livrar-se dos explosivos.
O perigo era grande.
Ele podia sentir o suor na testa.
Ficou esperando pelo elevador.
Hurtado estava dentro do quarto, a porta fechada, encostando-se nela para controlar a respiração.
Espiara do elevador, cautelosam ente, rezando para que a polícia ainda não tivesse chegado. Se os guardas j á se encontrassem no segundo andar, teria de descer, pegar o carro e fugir. Poderia obter um a boa dianteira antes que descobrissem a dinam ite e o detonador em seu quarto. E antes que em itissem um aviso geral para a sua prisão. Mas quando saíra do elevador, esquadrinhando o corredor do segundo andar, constatara que se achava vazio. Estava m om entaneam ente seguro. Avançara apressadam ente para o seu quarto, abrira a porta e entrara.
Agora, respirando fundo, ofegante, esperou que o corpo recuperasse um pouco de norm alidade. Naqueles poucos segundos, tentou determ inar o que faria em seguida. A prim eira providência era tirar os explosivos e sua própria pessoa do quarto e do hotel. E depois? Outro hotel? Um a pensão? Nenhum a das duas coisas seria um refúgio m ais seguro. Pegaria o carro alugado, deixaria Lourdes e iria para algum a cidade próxim a, talvez Pau, ali se escondendo. Poderia voltar em segurança a Lourdes, fazer um reconhecim ento do dom ínio. Não dem oraria m uito para que a polícia, sem nada descobrir, suspendesse a vigília, concluindo que o telefonem a anônim o fora obra de um m aníaco. No m om ento em que os guardas se dispersassem , ele entraria com os explosivos e faria o trabalho.
Você é um grande filho da puta, Augustín López, gritou ele, em sua cabeça, para o hom em que o traíra. Mas eu disse que não poderia m e deter e não vai m esm o conseguir.
Mas, antes de qualquer outra coisa, ele precisava se distanciar o m ais possível do hotel. Afastando-se da porta, Hurtado pegou a m ala, colocou-a em cim a da cam a e abriu-a. Foi buscar a sacola com a dinam ite. Aj eitando os seus escassos pertences, arrum ou espaço para os explosivos. Correu os olhos pelo quarto, a fim de verificar se não esquecera algum a coisa. Lem brou-se da escova e pasta de dentes e o aparelho de barba no banheiro. Recolheu tudo e guardou na m ala.
Não havia um segundo sequer a perder.
Pegando a m ala, ele foi abrir a porta. Olhou para um lado e outro do corredor. Vazio. O tem po ainda estava de seu lado. Aliviado, saiu para o corredor, fechou a porta, com eçou a se encam inhar rapidam ente para o elevador. Torcia para que o elevador estivesse ali; m as não estava, alguém o usava. Não tinha alternativa a não ser descer pela escada ao lado, dois andares até o saguão. Ao se aproxim ar da escada, ouviu sons, o barulho de passos subindo, um a voz, falando em francês. Encostou-se no lado da escada e espiou pelo poço. Vislum brou uniform es azuis um lanço abaixo.
Em bora acuado, Hurtado não entrou em pânico. Escapara de pelo m enos m eia dúzia de perigos sim ilares na Espanha, durante os seus anos no m ovim ento clandestino basco. Não havia tem po para pensar. Restava agora o instinto de sobrevivência. Se não havia saída e nenhum lugar para esconder a m ala, ainda poderia encontrar um refúgio incerto.
Apressadam ente, com eçou a voltar para o seu quarto. Mas parou um a porta antes, a do quarto 205. Só podia torcer para que ela ainda se encontrasse lá dentro, onde a deixara depois do j antar. Só podia torcer para que ela não tivesse saído outra vez para ir tateando até a gruta.
Ele bateu de leve na porta de m adeira. Não houve resposta. Prestes a tentar de novo, teve a im pressão de ouvir algum m ovim ento por trás da porta.
E tam bém , com m ais certeza, podia ouvir os passos pesados à sua esquerda, subindo os degraus para o corredor do segundo andar. E foi nesse instante que ouviu a voz de Natale no outro lado:
— Quem está aí?
Ele tentou m anter a voz baixa, pouco m ais que um sussurro. Com prim indo-se contra a porta, ele disse, em tom de urgência:
— Natale, sou eu, Mikel... Mikel Hurtado. Preciso de sua aj uda. Abra a porta.
Quase que no m esm o instante, enquanto as vozes francesas à esquerda se proj etavam pelo corredor, a porta foi aberta. Sem dizer m ais nada, Hurtado entrou no quarto e fechou a porta, trancando-a por dentro. Virou-se e viu-a parada a poucos passos, usando apenas um a diáfana cam isola branca, decotada e sem m angas. Não estava agora com os óculos escuros. Apenas os olhos vazios, que nada viam , voltados em sua direção.
— É você, Mikel?
— Sou eu...
Ele largou a m ala encostada na parede.
— Você parecia tão... com o se estivesse m etido em algum a encrenca. Está bem ?
Ele adiantou-se, segurando-a pelo braço nu.
— Estou m esm o num a encrenca, Natale. A polícia local foi avisada de que há um terrorista à solta em Lourdes. Está revistando os hotéis, quarto por quarto. E se encontra agora aqui. Acaba de chegar a este andar. Se m e encontrarem , um basco... podem m e tom ar com o suspeito. Um engano. Mas eu ficaria num a encrenca. Tinha de encontrar algum lugar para m e esconder. Há algum lugar em seu quarto no qual eu possa m e esconder?
— Mikel — m urm urou ela, desam parada — não sei o que realm ente tem neste quarto. O que você vê?
Ele esquecera a cegueira da m oça e agora usou os seus olhos. O quarto tinha quatro paredes que nada ofereciam . Um arm ário, com o o do seu quarto, tam bém pequeno.
— Talvez o banheiro — m urm urou ele. — O chuveiro... Natale sacudiu a cabeça.
— Não. Quando eles chegarem , é o prim eiro lugar em que vão olhar. — O rosto de Natale se ilum inou de repente. — Já sei com o pode se esconder. Faça o que eu m andar e depressa. Tire todas as roupas...
— Com o?
— Não tem im portância, Mikel, pois não posso vê-lo. Dispa-se logo. A cam a j á está desfeita. Deite-se. Puxe as cobertas e finj a que está dorm indo. Ponha suas roupas num a cadeira...
— Eu trouxe m inha m ala.
— Ponha debaixo da cam a.
Ele pegou a m ala e em purrou-a para baixo da cam a.
— As luzes estão acesas, Mikel?
— Estão, sim . O lustre.
— Apague.
Ele apagou a luz do teto.
— Ainda tem um abaj ur aceso no outro lado da cam a.
— Deixe aceso. Está se despindo?
— Estou.
Ele tirou o casaco esporte. Desabotoou a cam isa, pendurou-a na cadeira m ais próxim a. Tirou os sapatos e desafivelou o cinto.
Constrangido, tirou a calça e largou na cadeira. Só estava agora de cueca e m eias.
— Já estou despido.
— Pois deite-se agora. E cubra-se. Feche os olhos. Finj a estar dorm indo.
Ele foi para a cam a e estava se acom odando quando a viu tateando pelo pé da cam a e contornando-a para o outro lado. Ela sentou-se na cam a.
— Vou m e deitar com você. Som os casados. Quando a polícia bater na porta, eu levantarei e atenderei. Você continuará dorm indo. Deixe o resto com igo.
Ela estava sob as cobertas, estendida a seu lado. Hurtado podia sentir a proxim idade, im aginar-lhe o corpo. Teria sido erótico, excitante, se ele não estivesse tão tenso e preocupado para perm itir que a m ente fosse estim ulada.
— Tenho um senso agudo de audição e sei que eles estão bem perto — sussurrou Natale. — Finj a estar dorm indo e não se m exa quando eles baterem na porta. Deixe tudo com Natale. Lem bre-se que eu era atriz.
O suspense com prim ia a garganta de Hurtado, quase sufocando-o. Mas ele ficou im óvel, com o se estivesse dorm indo, aguardando pela batida na porta.
Talvez um ou dois m inutos transcorreram em silêncio.
E depois aconteceu. Três batidas bruscas na porta. E logo m ais três batidas. Um a voz de hom em , falando em francês:
— Tem alguém no quarto? Se tem , abra a porta. É a polícia. Natale sentou-se na cam a.
— Já vou. Eu estava dorm indo...
— Abra logo a porta. É a polícia. Só querem os trocar algum as palavras com os hóspedes. Não precisa se preocupar.
— Já estou indo — disse Natale, saindo da cam a. — Só um instante.
Hurtado m anteve-se de olhos fechados, puxando as cobertas até o queixo. Ouviu Natale contornando a cam a e se encam inhando para a porta. Ouviu a chave girando. Ouviu a porta do quarto se abrir devagar, um a réstia de luz do corredor se estendendo pelo pé da cam a.
Por um olho sem icerrado, Hurtado teve um vislum bre da confrontação. Podia ver Natale, em sua cam isola transparente, na porta parcialm ente aberta, dois policiais se erguendo à sua frente, no corredor. Um deles, o m ais velho, disse a Natale:
— Sou o Inspetor Fontaine, do Comissariat de Police de Lourdes. Lam ento incom odá-la, m adam e, m as é necessário. Recebem os o aviso de que há um terrorista na cidade, provavelm ente arm ado, e devem os tom ar as providências cabíveis. Com a aj uda de colegas de Pau e Tarbes, estam os efetuando um a revista geral em Lourdes, em todos os hotéis. Natale reagiu com pavor.
— Um terrorista?
— Não precisa se preocupar, m adam e. Tem os m uitos hom ens na busca. Não há nada a tem er. Está sozinha no quarto? Ou há outras pessoas?
— Som ente o m eu pobre m arido, tão exausto de um a longa viagem de avião para vir se encontrar com igo em Lourdes que j á pegou no sono. Mas se é necessário, é claro que podem entrar e acordá-lo. Há m uitos para revistar o quarto? Não posso dizer. Não posso... eu sou incapaz de... de...
Ela deixou a voz definhar e sum ir, desam parada. Na cam a, sob as cobertas, fingindo dorm ir, Hurtado contraiu os m úsculos, à espera do que poderia acontecer em seguida. Mas ele calculava, sem poder observar, que Natale conseguira de algum a form a indicar o seu estado.
Ele ficou escutando. Aparentem ente, Natale conseguira, pois ele ouviu um a segunda voz de hom em , estridente, provavelm ente do prim eiro policial, dizer:
— Inspetor, creio que a m oça é cega. Natale confirm ou, tristem ente:
— Infelizm ente, é verdade. Vim a Lourdes em busca de aj uda da Virgem . Mas isso não im pede...
A voz do inspetor interrom peu-a:
— Não se preocupe, m adam e. Perdoe-nos. — Ele tentou ser j ovial. — Tenho certeza de que não é o nosso terrorista.
— Nem m eu m arido — disse Natale, friam ente.
— Nenhum dos dois, estou certo — disse o inspetor. — Lam ento tê-la acordado. Mas estávam os apenas cum prindo o nosso dever. Pode voltar para a cam a agora. Desculpe o incôm odo. Vam os term inar de verificar o resto do andar. Boa noite, m adam e.
Hurtado ouviu-os se afastarem e abriu os olhos, enquanto Natale fechava e trancava a porta. Na sem i-escuridão, observou-a contornar a cam a outra vez e se m eter por baixo das cobertas.
— O que achou? — perguntou ela, orgulhosa. Ele se virou.
— Bravo, Natale. Você foi m aravilhosa. — Um a pausa e Hurtado acrescentou: — Nunca assisti a um desem penho m elhor.
Ela estava sorrindo.
— Foi fácil. Nem precisei de m uita encenação. Os outros sem pre ficam em baraçados e contrafeitos na presença de um a pessoa cega. — Ela fez um a pausa. — Você m esm o?
— Se fico em baraçado e contrafeito? Claro que não.
— Não, não é isso... estava querendo saber se é você m esm o quem eles procuram . É algum terrorista, Mikel?
— Não sou exatam ente o que a palavra insinua. Mas a polícia pode pensar que sim . Sou realm ente...
— Não precisa m e contar.
— ...um com batente pela liberdade da m inha terra, a pátria basca, atualm ente sob o dom ínio da Espanha. — Os olhos de Hurtado contem plavam o delicado rosto pálido, em oldurado pelos cabelos pretos lustrosos, sobre o travesseiro. — Tem m edo de m im ?
— Com o posso ter m edo de alguém que m e salvou de um estuprador?
— Era natural querer protegê-la. Eu nunca perm itiria que alguém lhe fizesse m al.
— Da m esm a form a, eu nunca deixaria que alguém fizesse m al a você.
— Você é m aravilhosa, Natale. — Ele soergueu-se, apoiado num cotovelo. — Quero agradecer m ais um a vez.
Hurtado inclinou-se, a fim de dar-lhe um beij o no rosto. Mas, nesse instante, ela virou a cabeça e o beij o encontrou os lábios cheios e m acios.
Ele recuou bruscam ente. Em purrando para o lado a sua parte das cobertas, sentou-se na cam a.
— O que está fazendo, Mikel?
— É m elhor eu m e vestir e deixá-la sozinha. Tenho de partir.
— Mikel... — Ela estendeu a m ão, encontrando-lhe o braço, segurando. — Não pode. Ainda é perigoso. Para onde iria?
— Ainda não sei, m as é m elhor deixá-la.
— Não — disse ela, segurando seu braço m ais firm em ente. — Não precisa sair. Pode ser detido no corredor, no saguão, na cidade. Não perm itirei que corra esse risco. Pode ficar aqui até de m anhã e sair então, se for seguro. Se não for, poderá continuar com igo até que não haj a m ais qualquer perigo.
Hurtado hesitou.
— Bom ...
— Por favor.
A m ão dele cobriu a de Natale.
— Bom ... talvez eu possa dorm ir no chão.
— Não diga bobagem . Pode ficar na cam a com igo.
Por um instante, Hurtado ficou desconcertado com o convite e a franqueza. Não era o que acontecia com as m ulheres que conhecera em sua terra.
— Tem certeza de que pode confiar em m im ? Natale disse sim plesm ente:
— Tem certeza de que quero confiar em você?
Ela retirou a m ão de seu braço, pegou o seu lado das cobertas e em purrou-as para o lado. Sentou-se na cam a e depois, no que parecia um único m ovim ento, levantou a cam isola, puxou-a por cim a da cabeça e dos cabelos e deixou-a cair ao lado. Virou-se na direção de Hurtado, inteiram ente nua, os seios pequenos m as cheios à m ostra, a dobra na barriga lisa, as coxas generosas, apenas a parte superior dos cabelos púbicos visível.
Ele ficou atordoado, incapaz de se m exer.
— O que foi, Mikel? A m inha cegueira o inibe?
— Oh, Deus, não...
— Porque não precisa. No am or, não tenho de ver. Sentir é suficiente.
Natale estendeu os braços. Ele tirou a cueca, ficou de j oelhos e abraçou-a. Todo o seu corpo trem ia quando se com prim iu contra ela. Natale sentiu-o.
— Você está trem endo, Mikel. Por quê? Por causa da polícia?
— Por sua causa — balbuciou Hurtado, apertando-a com força, sentindo os m am ilos rígidos, consciente de seu desej o cada vez m ais intenso.
A boca de Natale estava em seu ouvido, sussurrando:
— Não se preocupe com a virgindade. Eu... eu não sou exatam ente um a virgem ... houve episódios j uvenis, m as foi tudo coisa de criança. Nunca fiz am or com um hom em ... um hom em tão bonito...
— Eu... eu não sou nada... — ele balbuciou, a voz estrangulada.
As pontas dos dedos de Natale deslizavam por seu rosto.
— Para m im , você é lindo, o que eu quero.
A m ão de Hurtado guiou a dela por suas próprias feições, continuou a guiar por seu pescoço e os cabelos do peito. Quando ele a largou, a m ão de Natale continuou a descer, por sua própria iniciativa.
— Você é j ovem , forte e m aravilhoso — sussurrou ela, a respiração se acelerando.
Os dedos quentes de Natale encontraram a sua ereção, enroscaram -se em torno do pênis.
— Você m e quer — sussurrou ela.
— Eu quero você... m ais do que qualquer outra coisa no m undo... quero você...
— Am e-m e — m urm urou ela, arriando na cam a e no travesseiro, puxando-o por cim a. — Am e-m e, Mikel querido.
Ela ergueu os j oelhos, as pernas se abrindo. Hurtado estendeu a m ão para tocar os cabelos púbicos m acios, acariciar o clitóris, encontrar a um idade entre as coxas.
Seu pênis estava m ais intum escido e duro do que em qualquer outra ocasião anterior. Ele guiou-o para a vulva úm ida e penetrou-a, bem fundo, sem qualquer dificuldade, gem endo enquanto o fazia, ouvindo os seus gritos baixos e ofegos, enquanto subia e descia dentro dela.
As m ãos de Natale estavam lhe segurando os om bros, m as agora os braços envolveram -no pelas costas, ela com prim iu as coxas roliças contra o perpétuo m ovim ento dele, até que levantou as pernas e enroscou-as em torno de sua cintura.
Estavam j untos agora, com o um só, em perfeita harm onia, subindo e descendo, Natale se desm anchando por baixo, Mikel suando e ofegando.
Ele j á conhecera m uitas m ulheres intim am ente, desfrutara os relacionam entos sexuais, o estím ulo físico e o excitam ento, o gozo. Mas sentiu a diferença agora. As outras ocasiões haviam sido um am or pela m etade, físico, nada m ais. O que experim entava com aquela m oça, porém , era o am or total.
Não havia um a atenuação no ato, apenas um crescendo contínuo, Natale m exendo os quadris incontrolavelm ente, as nádegas se contraindo, com prim indo e puxando, Mikel entrando e saindo, quase chegando ao orgasm o, os dois quase chegando ao orgasm o, quase explodindo.
E, depois, a explosão.
Com gritos, suspiros, plena satisfação. Abraçando-se e beij ando-se, am ando, cada um m ais próxim o do que nunca antes de outro ser hum ano do sexo oposto.
Longos m inutos depois, esgotados, estendidos na cam a, separados, m as j untos, as m ãos se tocando, carícias trocando, Mikel percebeu que sua Natale estava em silêncio. Observou atentam ente e constatou que ela m ergulhara num sono profundo, em sua eterna escuridão, com um sorriso nos lábios. Sorrindo para ela, ternam ente, ele puxou as cobertas até os seus om bros.
E, finalm ente, tam bém se recostou. Há m uitos anos que não conhecia um m om ento de paz tão profunda. Adm irou-se com a ausência de sua ira. Só restava nele, im pregnando todo o seu ser, o resíduo do am or que sentira por aquela m oça.
Gradativam ente, em sua sonolência, ele procurou o propósito de estar naquela cam a, naquela cidade de Lourdes. A realidade, a realidade m aior, lentam ente aflorou.
Não era fácil sobrepor a realidade ou sufocar por um m om ento o am or que sentira. Foi difícil trazer de volta à consciência o ódio im placável e o m otivo para sua presença ali. Mas im agens de sua infância e adolescência basca, o assassinato do pai, os senhores de sua escravidão, provocaram m ais um a vez a ira e o ódio.
Com intenso pesar, ele pensou naquela criança-m ulher que adorava, adorm ecida ao seu lado. O que estava sentindo contestava tudo o que sentia por ela. Aquela j ovem m aravilhosa e tão querida era um a pessoa de fé im aculada num a história de fada, acreditando fervorosam ente que poderia restaurá-la à norm alidade e vida plena. Ele, por necessidade, perm anecia um inim igo dessa fé, que estava agora desviando seu povo para a subm issão à traição inevitável e continuação da escravidão. Para libertar seu povo, precisava destruir o sím bolo da fé que poderia levar à sua ilusão e interm inável servidão. Por esse ato de destruição, tam bém destruiria para sem pre a tola esperança de Natale e seu am or.
Mas ele sabia que tinha de ser feito. Devia isso a si m esm o — e a perda teria de suportar — a um am or ainda m aior.
Oh, Natale, Natale, quando tudo acabar e eu tiver conseguido, tente com preender.
Mas Mikel sabia que ela nunca com preenderia.
Ao m esm o tem po, ocorreu-lhe subitam ente que, considerando que fora obrigado a se esconder, talvez nunca conseguisse. A polícia estava por toda parte e assim poderia continuar até que term inasse o período de oito dias.
Com o ele poderia explodir a gruta se não tinha condições de levar a dinam ite para o dom ínio?
E, de repente surgiu um a ideia, um a inspiração, um m eio de conseguir, algo que poderia fazer no dia seguinte. Se desse certo, consum aria o seu intento, afastando a Virgem Maria dali para sem pre.