O Milagre

Irving Wallace · Capítulo 10 de 16 · parte 2/3

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O Milagre

Capítulo 9

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Liz Finch não podia culpar Ruland pela falta de franqueza. Aparentem ente, ele cobrira todos os aspectos do problem a, m as não confessara as m anobras escusas e prom ocionais. Um pouco, m as não m uito. Um a m igalha para saborear, m as nada que pudesse saciar de verdade. Um hom em esperto, m uito esperto.

— Acho... acho que é isso m esm o o que eu queria dizer ao falar em política.

— Pois aí está toda a história. — Ruland levantou-se. — Agora, tenho de ir. Mas se houver m ais algum a coisa que queira m e perguntar, tem toda liberdade de m e procurar.

Cinco m inutos depois, quando estava parada ao sol da m anhã, diante do Palais des Congrès, Liz com preendeu que anotara apenas três linhas úteis e m esm o assim ao final da conversa. Leu o que escrevera:

"Bernadette não acreditava nas curas na gruta e foi à aldeia de Cauterets em busca de sua própria cura. Não deixe de ir até lá para falar com o Padre Cayoux."

Ela guardou o bloco de anotações na bolsa. Por nada neste m undo deixaria de ir a Cauterets. Pensando bem , iria até lá naquela m esm a tarde.

Indo ao endereço que lhe fora fornecido por Yvonne, a recepcionista do hotel, Am anda Spenser finalm ente encontrou a Agência de Aluguel de Carros Marian, num a rua transversal, um escritório na frente e um pequeno estacionam ento atrás.

Entrando, Am anda encontrou um a freguesa na sua frente, um a m ulher de aparência estranha, cabelos alaranj ados, estudando um m apa estendido sobre o balcão. O funcionário da agência, um francês m uito j ovem para ter um bigode abundante, traçava um a linha verm elha no m apa, orientando a freguesa para algum lugar. O rapaz se em pertigou depois de algum tem po e disse:

— Aí está, Srta. Finch. Basta pegar a estrada N21 e seguir para o sul. Não terá m ais problem as depois disso. É um a viagem tranquila, apenas 30 quilôm etros.

— Obrigada — disse a m ulher, pegando as chaves do carro. — Vou verificar o percurso m ais um a vez. Não, não precisa m ais m e aj udar. Pode atender a outra freguesa.

O rapaz deslocou-se para o lado e cum prim entou Am anda, com um a expressão inquisitiva, enquanto ela se aproxim ava do balcão.

— Era que posso servi-la, m adam e?

— A recepcionista do m eu hotel sugeriu-m e que viesse até aqui. Acho que poderia ter um carro para m e alugar esta tarde.

O rapaz assum iu um a expressão consternada.

— Sinto m uito, m adam e. Nosso últim o veículo disponível foi alugado há poucos m inutos.

— Mas que droga! — m urm urou Am anda.

Era um a terrível frustração. Passara a m aior parte da m anhã se entediando na gruta, enquanto Ken se entregava silenciosam ente à oração, diante daquele estúpido buraco no m orro. Depois do alm oço, ela concluíra que não poderia repetir a visita e despachara Ken sozinho para o dom ínio. Resolvera aproveitar a tarde m elhor, investigando Bernadette. Precisava provar — e quanto m ais cedo, m elhor — que a cam ponesa de Lourdes era m ais passível de ser um a paciente de um a psicóloga clínica do que um a santa cuj as visões podiam salvar pessoas. Recordando o fragm ento de inform ação histórica transm itido pelo m otorista do táxi que a trouxera de Eugénie-les-Bains, Am anda decidira passar a tarde indo de carro à aldeia que Bernadette procurara para tentar sua cura. E agora descobria que não havia carro para cobrir o percurso.

— Mas que droga! — repetiu ela, em voz alta. — Tudo o que eu queria era ir a um a cidadezinha perto daqui, cham ada Cauterets. Tem certeza de que não pode m e arrum ar um carro em algum lugar, só por um as poucas horas, se eu pagar um extra?

— Madam e, num a sem ana com o esta não se encontra carros disponíveis, por m ais que se pague.

Desolada, prestes a se retirar, Am anda ouviu o m ovim ento de outra pessoa, a seu lado. Era a Srta. Cabelos Laranj a. E ela estava lhe fazendo um a pergunta:

— Disse m esm o que quer ir a Cauterets?

— Exatam ente.

— Sou Liz Finch, a pessoa que alugou o últim o carro, o que você queria. E vou j ustam ente para Cauterets. — Ela hesitou por um instante. — Por acaso é j ornalista?

Am anda descartou a ideia com um a risada curta.

— Jornalista? Eu? Tudo m enos isso. Sou Am anda Clay ton, de Chicago. Visito Lourdes com m eu m arido, que espera por um a cura. Eu queria fazer algum a coisa... conhecer a região, no m eu tem po disponível. E m e disseram que Cauterets é um a aldeia que m erece um a curta visita.

— Nesse caso, pode ir com igo — convidou Liz Finch. — Estou com o BMW e am bas querem os ir ao m esm o lugar. Portanto, podem os ir j untas, se você quiser. Gosto sem pre de com panhia na estrada.

Am anda ficou exultante.

— Está falando sério? É m uita gentileza sua. E terei o m aior prazer em partilhar as despesas.

— É m inha convidada. E não pagarei nada pessoalm ente. Estou aqui com todas as despesas pagas. — Ela dobrou o m apa. — Vam os logo cair na estrada.

Elas se acom odaram no seda BMW, bem polido e lim po. Prenderam os cintos de segurança e Liz habilm ente levou o carro pelo tráfego. A cerca de 800 m etros da praça principal, passaram pelo Palais des Congrès e Les Halles, na Avenue du Marechal Foch, depois viraram para a esquerda e entraram na estrada N21, seguindo para o sul. Liz, que vinha se concentrando na direção, relaxou agora.

— Lá vam os nós. Trinta quilôm etros até Cauterets. Não deve dem orar m uito. Mas o rapaz m e disse que os últim os 10 quilôm etros são de subida por um desfiladeiro, o que pode nos retardar um pouco. — Ela olhou rapidam ente para Am anda, antes de perguntar: — Por que escolheu Cauterets com o um lugar para visitar? Ouvi dizer que não é grande coisa.

— Bom ... — Am anda hesitou apenas por um m om ento. — Se quer m esm o saber .a verdade... Mas prim eiro é m elhor eu descobrir um a coisa. Você é católica?

— Sou totalm ente ateia. Por quê? Am anda ficou aliviada.

— Eu queria lhe contar o m eu m otivo para ir a Cauterets e seria difícil se estivesse falando com um a crente. Tam bém não sou católica, m as apenas um a episcopaliana sem m uita convicção e por profissão um a psicóloga clínica que não acredita em m ilagres. Ou em visões sobrenaturais.

Liz sorriu.

— Creio que terem os um a ótim a viagem .

— Mas m eu m arido, Ken Clay ton... ele ainda não é realm ente m eu m arido, m as sim m eu noivo... é um católico desgarrado que voltou subitam ente à religião. Não que eu o culpe com pletam ente por procurar algum a coisa. Deixe-m e explicar... estávam os apaixonados, com o casam ento m arcado, quando se descobriu que Ken tinha um tum or m aligno na parte superior da coxa.

— Sinto m uito — m urm urou Liz. — É um a coisa terrível.

— Ele deveria se subm eter a um a cirurgia. O resultado era problem ático, m as, de qualquer form a, constituía a sua única esperança. E, de repente, ele leu nos j ornais de Chicago a história do segredo de Bernadette... de que a Virgem Maria voltará a Lourdes esta sem ana.

— Foi provavelm ente a história que eu escrevi que ele leu — com entou Liz.

Am anda ficou surpresa.

— Você é repórter?

— Trabalho no escritório em Paris da Am algam ated Press International, de Nova York. Escrevi a m atéria sobre a reaparição da Virgem Maria que foi publicada na m aioria dos j ornais dos Estados Unidos. Seu Ken provavelm ente leu a m inha história.

— Provavelm ente — concordou Am anda.

— Mas continue — exortou Liz. — O que aconteceu com Ken depois que leu m inha m atéria?

— Ele voltou à religião, cancelou a cirurgia essencial e veio a Lourdes na esperança de ser curado pela Virgem Maria.

— E você veio j unto?

— Para tentar fazê-lo recuperar o bom senso. Quanto m ais tem po ele adiar a cirurgia, m enor será sua possibilidade de sobrevivência. Não acredito que a Virgem Maria possa voltar, porque, em prim eiro lugar, não creio que ela tenha aparecido aqui antes.

Liz lançou um olhar satisfeito para a sua com panheira.

— Ei, Am anda, você é das m inhas!

— É por isso que eu queria ir a Cauterets. Desej o provar a Ken que a própria Bernadette não acreditava que a gruta pudesse curar. Ouvi a história de Bernadette; quando estava doente, não rezou na gruta. Em vez disso, foi a Cauterets para tom ar os banhos term ais. Se eu puder confirm ar que isso é verdade...

— Posso garantir que é verdade. Am anda em pertigou-se no banco.

— Sabe que é verdade? Com toda certeza?

— Posso garantir que é um fato e m e foi contado pela m aior autoridade em Bernadette que existe em Lourdes. Trata-se do Padre Ruland, um hom em im portante, intim am ente ligado ao Bispo de Tarbes e Lourdes e um especialista em nossa garota da gruta. — Liz fez um a pausa, soltando um a risada. — Posso lhe contar agora por que eu estou indo a Cauterets. Não vai acreditar, m as é a pura verdade. Estou indo pelo m esm o m otivo que você. Para provar que Bernadette era um a im postora.

— Não sei se ela era deliberadam ente um a im postora. Talvez tenha acreditado que realm ente viu todas aquelas aparições. Talvez tivesse alucinações.

— E que diferença isso faz? — Liz apontou pela j anela aberta do seu lado. — Está fazendo um dia lindo e cada vez m elhor. Olhe só para a paisagem .

Estavam passando pelo vale de um rio largo, as encostas verdej antes pontilhadas de chalés. Um pouco da Suíça na França, pensou Am anda, especialm ente com aqueles picos nevados, com o sentinelas irregulares a se erguerem a distância. Ela notara que haviam passado por um a aldeia cham ada Argelès-Gazost e estavam agora entrando em outra, cham ada Pierrefitte-Nestalas. Liz estava falando outra vez, enquanto guiava o BMW através da aldeia:

— Entrevistei o Padre Ruland em Lourdes esta m anhã. Foi ele quem m e contou que Bernadette não acreditava que a gruta pudesse curar, ou pelo m enos não tinha qualquer interesse por seus poderes curativos. Quando ela ficou doente, viaj ou para a estação de águas em Cauterets, a fim de tom ar os banhos term ais, na esperança de sair curada. Portanto, a história provavelm ente é verdadeira, tendo sido contada pelo próprio Ruland. Mas, ainda assim , é preciso haver certeza absoluta quando se está fazendo um a denúncia. Liguei para Cauterets e m arquei um a entrevista com o Padre Cay oux, que é o pároco local. — Liz pensou por um instante. — É isso m esm o, estou tentando fazer o que você tam bém quer. Desm ascarar Bernadette, m ostrando o que desconfio que ela foi. Um a doente ou um a m entirosa. As pessoas têm desej ado acreditar nela há tanto tem po que ninguém realm ente estudou os fatos de um a m aneira m eticulosa. Todo m undo aceita a sua história... na base da fé, digam os assim . Quero tirar um a história sensacional daqui... e, se conseguir, esta é a sem ana m ais apropriada. Mas quando as coisas que a gente escreve são despachadas para o m undo inteiro, é m elhor ter os fatos concretos e incontestáveis. É o que espero descobrir, algum a parte ou tudo, em Cauterets. — Ela fez outra pausa, sorrindo para Am anda. — Tem os o m esm o propósito, só que por m otivos diferentes. Portanto, será um dia dos m ais agradáveis. E estou ansiosa em chegar lá. Ei, devem os estar perto, porque com eçam os a subir!

Um a curva fechada, na saída da aldeia, levou-as a um a subida íngrem e, um a sinuosa estrada nas m ontanhas, com um penhasco de um lado, exibindo algum as pequenas quedas d'águas. Liz passou a guiar m ais devagar. Atravessaram um a ponte alta, cruzando um desfiladeiro pelo qual corria um rio... que o m apa inform ava ser o Gave de Cauterets. O vale diante delas estava agora se alargando e j á podia avistar a aldeia de Cauterets, parecendo um a aprazível estação de águas francesa, aninhada m ais além .

Não dem orou m uito e chegaram à aldeia, passando por dois prédios de banhos term ais, identificados no m apa m ais detalhado com o Therm as de César e Néotherm es.

— Aqui estão os lugares que Bernadette considerava m ais úteis para a sua saúde do que a gruta — com entou Liz.

Elas alcançaram a Place Georges Clem enceau, que era a praça principal da aldeia. Por cim a dos telhados e m ais além , podiam ver a torre da igrej a, Nôtre-Dam e de Cauterets, seu destino. Liz indicou a torre e disse:

— É para lá que estam os indo.

— Nas pegadas de Bernadette — com entou Am anda, quase alegrem ente, transbordando de otim ism o por descobrir o que queria saber.

Chegaram a um a rua estreita de m ão única, Rue de la Raillere, que subia até a igrej a. Lá no alto, descobriram que a pequena praça na frente da igrej a tam bém servia com o estacionam ento. Saltaram pelos dois lados do BMW, espreguiçando-se, enquanto contem plavam a igrej a. Era envolta por um a cerca de ferro batido, fincada nos blocos de pedra em poeirados. Liz olhou para o relógio

— Chegam os na hora... m elhor até, cinco ou dez m inutos antes do m eu encontro com o padre. Podem os entrar logo e descobri-lo.

Elas atravessaram a praça, que descobriram se cham ar Place Jean Moulin, viram a estátua de um soldado francês e a placa relacionando os m ortos da aldeia na Prim eira e Segunda Guerras Mundiais. Subiram a escadaria e entraram na igrej a.

Lá dentro, havia um punhado de fiéis e a m issa estava term inando. Elas ficaram esperando, Am anda inspecionando a igrej a. A área do altar lá na frente, além dos bancos, era surpreendentem ente clara e m oderna, degraus circulares de m árm ore levando a um a plataform a com um carpete bege e um alegre altar quadrado, pintado de am arelo.

A m issa term inara, os paroquianos e turistas se retiravam , quando Am anda viu Liz se adiantar a fim de interceptar um rapaz de rosto liso, que tinha a aparência de quem cantava no coro e se aproxim ava pela nave.

— Tem os um encontro m arcado com o Padre Cay oux — disse Liz, em francês. — Ele está por aqui?

— Creio que se encontra no presbitério, m adam e.

— Poderia fazer o favor de inform á-lo que a Srta. Finch, de Lourdes, está aqui?

— Com todo prazer, m adam e.

Enquanto o rapaz se afastava apressadam ente, Liz, acom panhada por Am anda, com eçou a estudar as decorações ao longo das paredes internas da igrej a. Ao lado de um portal, perto da área do altar, Liz parou para estudar um a curiosa Vierge — um a im agem de 35 centím etros de altura da Virgem Maria — azul e descascando, instalada sobre um a prateleira de m adeira, por baixo de um a cam pânula de vidro.

Am anda apontou para a placa por baixo.

— Dê só um a olhada.

Inclinando-se para a placa, Am anda traduziu para o inglês, em voz alta:

— No ano do Nosso Senhor de 1858, entre a 17? e a 18? aparições, a pequena lourdaise, a hum ilde profeta de Massabielle, Bernadette Soubirous, veio a Cauterets por sua cura e disse o rosário diante da im agem desta Vierge.

— Isso confirm a tudo o que o Padre Ruland m e contou — com entou Liz, com satisfação.

O rapaz voltou.

— O Padre Cay oux está no presbitério. Ele as receberá agora. Vou levá-las até lá.

Mas ele não se m exeu. Em vez disso, apontou com o dedo para a im agem da Virgem Maria.

— Estão interessadas na visita de Santa Bernadette?

— Muito — respondeu Am anda.

— Pois então m ostrarei o lugar dedicado a ela.

O rapaz subiu apressadam ente por degraus acarpetados, acom panhado por Am anda e Liz.

— Aqui está a Capela Santa Bernadette.

Era um a sala estreita, inteiram ente m oderna, com um tapete estam pado, cadeiras sem braços com estofo m arrom , um as poucas estátuas de figuras sagradas nas paredes, pintadas de m arrom claro.

— Muito bonito, m as nada significa — com entou Liz para Am anda. Ela pôs a m ão no om bro do rapaz. — Leve-m e a seu líder. — O rapaz fitou-a com um a expressão aturdida e ela acrescentou: — Vam os falar com o Padre Cay oux.

Entraram no presbitério poucos m inutos depois e encontraram o padre de pé, j unto à m esa que lhe servia de escrivaninha. Ele estava despej ando chá quente em três xícaras de Lim oges. Liz adiantou-se, estendendo a m ão e falando em francês:

— Sou Liz Finch, j ornalista am ericana baseada em Paris. E esta, Padre Cay oux, é m inha am iga Am anda Clay ton, tam bém am ericana, visitando Lourdes. Seu m arido está doente.

Depois de cum prim entá-las, o Padre Cay oux acenou-lhes para que sentassem nas cadeiras de espaldar reto j unto de sua m esa. Enquanto ele estendia as xícaras de chá e um prato de bolinhos, Am anda avaliou-o. O Padre Cay oux era bastante gordo, em sua batina preta, um pouco baixo. Um a orla de cabelos pretos im pedia que fosse totalm ente calvo. O rosto era dom inado pelos dentes salientes e am arelados. Am anda calculou que à testa franzida era perpétua. Em bora bastante am ável, o Padre Cay oux deu-lhe a im pressão de alguém que podia se tornar irritado e nervoso. Pondo o prato de bolinhos na m esa, ele escolheu um e, equilibrando sua xícara de chá, acom odou-se com um suspiro na cadeira ao lado de Am anda. Liz estava sentada ao lado dela.

— Então veio a Lourdes para ver seu m arido curado — disse ele a Am anda, falando em inglês. — O que está achando de Lourdes?

Am anda ficou desconcertada.

— Eu... ainda não tive tem po de descobrir direito com o é a cidade. Só posso dizer que é um tanto insólita.

O Padre Cay oux soltou um grunhido desdenhoso:

— É horrível. E eu detesto. Raram ente vou até lá. — Ele tinha um a m aneira abrupta. Percebendo que Liz o observava com um a expressão radiante, ele disse: — Pelo telefone, Srta. Finch, falou que o Padre Ruland lhe tinha contado que a pequena Bernadette, quando queria se curar, não foi à gruta, vindo em vez disso para os nossos banhos term ais. Queria saber se a história era verdadeira. O fato de dizer isso m e interessou, a possibilidade de especular por um m om ento sequer se o nosso conhecido Ruland estava sendo sincero.

— Com o j ornalista, eu não podia deixar de...

— Claro que não e com preendo perfeitam ente — interrom peu-a o Padre Cay oux. — E, com toda certeza, não se pode confiar em nenhum abade. Tinha todo o direito de duvidar de um vendedor com o Ruland. Quando questionou a história dele, resolvi recebê-la. Quanto a Bernadette e sua visita, eu disse que viesse até aqui e verificasse pessoalm ente. Já verificou?

Liz balançou a cabeça.

— Vim os a Vierge, padre, lem os a inscrição por baixo. O Padre Cay oux provou o chá, depois soprou-o e disse:

— No tem po de Bernadette, Cauterets era um lugar elegante, com as m elhores fontes curativas. Viram os banhos term ais?

— Vim os, sim — respondeu Am anda.

— Não constituem hoj e um a atração tão grande. Mas, no tem po de Bernadette, conferiam um a grande im portância à nossa cidade. Em contraste, Lourdes era um a pequena e pobre aldeia. Mas aquela pequena cam ponesa m udou tudo, virou o m undo pelo avesso. Transform ou Lourdes num centro internacional e nos reduziu a um a estação secundária m eio esquecida. Na verdade, seu próprio papel em tudo isso foi inocente... talvez, talvez. Seus prom otores perceberam a oportunidade e trataram de tirar o m áxim o de proveito possível. Ele tornou a tom ar o chá, tom ou um gole, m astigou um pedaço do bolinho, pensativo. — Não, Bernadette não acreditava no valor curativo de sua gruta. Sem pre foi doente, desde o início, atingida por um a epidem ia de cólera que m atou m uitas outras pessoas. Era um a triste criança, com roupas de segunda m ão, desnutrida e enfraquecida pela asm a crônica. Acho que não era capaz de im aginar que poderia ser curada por sua própria criação, a gruta sagrada. Assim , num período entre as duas últim as visões, depois de sofrer um resfriado severo e persistente, ela veio a Cauterets para tratam ento, tom ando os banhos e rezando. Mais tarde, naquele m esm o ano, quando as aparições finalm ente term inaram , ela veio aqui pela segunda vez, ainda na esperança de ser curada.

O Padre Cay oux soltou outra risada, pondo a xícara vazia em cim a da m esa.

— A inventora não acreditava em sua invenção.

— O que está querendo dizer com "sua invenção"? — perguntou Am anda bruscam ente. — Está sendo literal, padre?

— Não tenho certeza — respondeu o Padre Cay oux. Olhando para o espaço, ele repetiu: — Não tenho certeza. Sou um padre devoto, um m arianista, talvez m ais próxim o da fé do que alguns daqueles m estres-de-cerim ônias e prom otores de publicidade que pululam em Lourdes. Creio em Deus, Seu Filho, Sua Santa Mãe e todos os rituais da Igrej a, sem a m enor som bra de dúvida. Já não tenho tanta certeza em relação aos m ilagres. Eles existem , eu diria que j á aconteceram , m as ainda não vi nenhum em m eu tem po. E tenho dúvidas se Bernadette viu algum em sua época. Afinal...

A voz definhou e sum iu, ele ficou em silêncio, im erso em seus pensam entos. Am anda estava excitada e um olhar lhe revelou que o m esm o acontecia com Liz. Durante o relato do Padre Cay oux, Am anda percebera o que era responsável por aquela irritação e ceticism o. Ele ressentia-se de Lourdes, o grande espetáculo, o sucesso, ofuscando sua paróquia e fazendo com que suas boas obras fossem ignoradas. Tinha invej a de Lourdes e sentia-se furioso com sua hierarquia. Tudo por causa das fantasias de um a garota. Sua própria obscuridade, a m udança de situação de sua paróquia, tudo se devia a um a garotinha inacreditável e às m aquinações de um a cabala de prom otores da Igrej a.

Podia haver m uito m ais, refletiu Am anda, tudo o que ela e Liz desej avam , se fosse possível convencer o Padre Cay oux a continuar a falar. Talvez ele tivesse se assustado com o que estava dizendo, o que estava prestes a dizer, concluindo que era m elhor parar e desistir. Mas não, Am anda disse a si m esm a, aquele era um hom em que não se assustava facilm ente.

Ela resolveu estim ulá-lo a continuar. Rom peu o silêncio, dizendo:

— É tudo tão fascinante, padre... Estava falando sobre Bernadette e suas visões...

A cabeça do Padre Cay oux sacudiu-se para cim a e para baixo. — Eu estava pensando nos m ilagres. — Seus olhos se concentraram nas visitantes e falou-lhes diretam ente: — Visões e m ilagres ocorrem facilm ente nas aldeias destes vales dos Pireneus. E o m esm o tam bém acontece com m uitos j ovens visionários em Portugal e em regiões rem otas da Itália.

— Está querendo dizer que outras crianças, com o Bernadette, j á tiveram visões sim ilares? — indagou Am anda.

Com o o Padre Cay oux aparentem ente era incapaz de rir, recebeu a pergunta com um grunhido.

— Outros com o Bernadette? Incontáveis outros com o Bernadette antes que ela aparecesse e desde então. Eu soube que entre os anos de 1928 e 1975 houve pelo m enos 83 pessoas, som ente na Itália, que alegaram ter visto a Virgem Maria. Já ouviram falar do incidente de La Salette, perto de Grenoble?

— Tenho a im pressão de ter lido algum a coisa a respeito — com entou Liz.

— Mas eu não sei de nada — disse Am anda.

— La Salette era um a dessas típicas aldeias rústicas — com eçou o Padre Cay oux, com evidente satisfação. — A 19 de setem bro de 1846, duas crianças da aldeia, am bas pastoras, Mélanie Calvert, de 15 anos, e um garoto de 11 anos, Maxim in Girand, viram a Virgem Maria e ouviram segredos proféticos. O garoto foi m altratado pela polícia, m as recusou-se a revelar os segredos. Os dois foram interrogados por 15 horas consecutivas, m as não revelaram os segredos. Em vez disso, enviaram os segredos que a Abençoada Virgem lhes contara ao Papa Pio IX, que não os revelou. A autenticidade da visão testem unhada pela dupla foi discutida acaloradam ente. Mélanie era anorm al sob alguns aspectos, ignorante, até m esm o os apologistas católicos adm itiam que ela era preguiçosa e negligente. Maxim in era pior, um conhecido m entiroso, m as esperto e vulgar. Os dois foram caracterizados com o j ovens repulsivos. Apesar disso, os ultram ontanos, os católicos conservadores que defendiam o predom ínio da Igrej a sobre o Estado, aceitaram com pletam ente as suas histórias. Afastaram as crianças... a m enina foi colocada num convento na Inglaterra e o garoto entregue aos j esuítas... os bons padres prom overam o m ilagre de La Salette. Com as peregrinações a com unidade prosperou. Parece fam iliar?

— Incrível — m urm urou Am anda.

— La Salette foi antes de Lourdes. O m ilagre em Fátim a, em Portugal, veio depois. Três crianças pastoras, Lúcia dos Santos, de dez anos, Francisco, de nove anos, e sua irm ã, Jacinta Marto, de sete anos, a 13 de m aio de 1917, viram a Virgem Maria num a m oita e depois um a vez por m ês, nos seis m eses subsequentes. Com o sem pre, ouviram segredos. Houve ceticism o entre o clero e as crianças foram até j ulgadas. Mas as crianças e suas visões acabaram prevalecendo e Fátim a tornou-se um santuário m ilagroso, ficando em segundo lugar apenas para Lourdes.

— As crianças de Fátim a deviam ter conhecim ento de Bernadette — com entou Liz — assim com o Bernadette provavelm ente sabia de La Salette.

— É bem provável — concordou o Padre Cay oux. — No caso de Bernadette, porém , ela deve ter extraído a sua história, se é que isso aconteceu, de Bétharram .

— Bétharram ? — repetiu Am anda, aturdida.

— É um a cidadezinha no Gave de Pau, não m uito longe de Lourdes. É um lugar em que supostam ente ocorreram m ilagres, por m uitos séculos. A Virgem Maria de branco m aterializou-se ali em diversas ocasiões. A aparição m ais dram ática ocorreu quando um a garotinha caiu no rio e certam ente se afogaria. A Virgem Maria apareceu na m argem , estendeu um galho forte para ser agarrado pela m enina a afundar, que foi puxada e salva. Bétharram teve o seu fazedor de m ilagres em Michel Garacoits, que se tornou o superior de um sem inário local e foi um esplêndido m estre. Possuía tam bém a capacidade de levitar. Morreu em 1863 e foi canonizado com o um santo em 1947. É de Bétharram que Bernadette pode ter form ulado a sua história em Lourdes.

Am anda ficou intrigada.

— Com o assim ?

— Bernadette sentia-se atraída por Bétharram e costum ava visitar a igrej a de lá com frequência. A igrej a de Bétharram reconheceu que Bernadette esteve lá rezando, por alguns dias, quatro ou cinco, antes de ver a prim eira aparição. O próprio rosário que Bernadette usou na gruta foi com prado em Bétharram . Michel Garacoits ainda estava vivo durante e depois das aparições a Bernadette. Ela lhe foi encam inhada e ele acreditou em sua história desde o com eço. Alguém lhe disse: "Este evento em Lourdes pode ofuscar Bétharram ." Garacoits teria respondido: "Que im portância isso tem , se Nossa Senhora for louvada?" Ele visitou a gruta m uitas vezes, antes de sua m orte. — O Padre Cay oux fez um a pausa. — O ponto óbvio é que Bernadette poderia facilm ente ter recolhido a história da aparição da Virgem Maria em Bétharram e levado para Lourdes.

Liz inclinou-se para a frente.

— Agradecem os a sua franqueza, padre. Muitos sacerdotes não seriam tão realistas e francos. Evidentem ente, é um hom em de fé, m as tam bém acha que a história de Bernadette é suspeita.

— Infelizm ente, é essa a m inha im pressão — confirm ou o Padre Cay oux.

— As frequentes visitas de Bernadette a Bétharram certam ente constituem um m otivo para torná-la suspeita — acrescentou Liz. — Mas tem algum a outra prova que possa incrim inar Bernadette?

O Padre Cay oux recuou um pouco.

— Que possa incrim iná-la? Não, não disponho de qualquer prova concreta contra Bernadette ou sua honestidade. Apenas .suspeitas, apenas indícios circunstanciais, que tornam a sua história duvidosa.

— E gostaria de falar a respeito de m ais algum a coisa? — perguntou Liz.

— Há m ais, m uito m ais — declarou o Padre Cay oux. — Por uni lado, os pais de Bernadette, François e Louise Soubirous, são apresentados naqueles lindos folhetos coloridos que vendem em Lourdes com o pessoas pobres, lutando com dificuldades, m as trabalhadoras, talvez m uito generosas e caridosas. Tudo isso é bobagem . Os dois eram bêbados terríveis. Não estou querendo im pingir os pecados dos pais aos filhos, m as apenas m ostrar os antecedentes instáveis de Bernadette. Ela não teve um lar decente ou um a refeição decente em todos os anos que antecederam as aparições. O pai não tinha condições de ganhar a vida. Bernadette passava a m aior parte do tem po com fom e. Com ia principalm ente m ingau de m ilho, sopa de legum es bem aguada, pão de m ilho e trigo, m uitas vezes m isturado com centeio. A garota m uitas vezes vom itava a com ida. Ela talvez sofresse tam bém de envenenam ento ergótico.

— Que pode levar as pessoas a terem alucinações — interveio Am anda.

— Isso m esm o — confirm ou o Padre Cay oux. — Mas m esm o sem tal envenenam ento, seu estôm ago quase sem pre se encontrava vazio e a cabeça dom inada por vertigens. A fam ília inteira passava fom e. O irm ão de Bernadette foi visto a raspar cera de vela do chão da igrej a para com er. Bernadette, ignorante, constantem ente fam inta e doente com asm a, sem qualquer am or seguro, era certam ente um a candidata a... com o sugeriu, Sra. Clay ton... a alucinações.

— Apesar disso tudo, Bernadette foi bastante exata ao relatar o que viu e ouviu — disse Liz. — E isso causou um a im pressão favorável na m aioria dos crentes.

O Padre Cay oux assentiu.

— Vam os e xam inar com o a nossa heroína pode ter chegado ao que viu e ouviu. A Virgem Maria que Bernadette viu era m uito j ovem , até dem ais, na opinião dos céticos, para um a Mãe de Cristo. Um a cética inglesa, Edith Saunders, explicou... — O Padre Cay oux pegou um a pasta na m esa, localizou um papel lá dentro e com eçou a ler: —- "Bernadette olhou na gruta e viu a dura realidade. Era desprezada e rej eitada, não tinha m eios de se fazer adm irável. A vida a lançara desarm ada em sua arena com petitiva. Tinha 14 anos, m as era tão pequena e de aparência tão infantil que parecia ter apenas 11 anos. (...) O ideal de um a garotinha é naturalm ente um a garotinha. Assim , a aparição tinha a form a de um a garota de charm e e beleza deslum brantes. Parecia ter 10 anos; ao ser ainda m enor do que Bernadette, provava consoladoram ente que se podia ser pequena e ainda assim a própria perfeição."

Para a m ente analítica de Am anda, tudo aquilo era perfeitam ente possível. Bernadette sofria de psicose reativa, o resultado óbvio da pressão concreta do am biente em que vivia. E Bernadette tivera um a fuga total da realidade. A fim de escapar aos problem as da vida, ela se perdera em satisfações im aginárias que tornavam a sua existência m ais suportável. O Padre Cay oux m erecia um elogio e Am anda lhe disse:

— Essa inform ação é m uito boa.

— Há m ais, m uito m ais — prom eteu o Padre Cay oux. — A Virgem que Bernadette viu usava um vestido im aculadam ente branco. Isso é m ais ou m enos tradicional. E a própria Bernadette adm itiu que a Virgem se vestia de form a m uito parecida com as Filhas de Maria, um grupo de m oças católicas voluntárias que havia na aldeia, m uito am adas e vestidas frequentem ente de branco.

— O que m e diz da parte da Im aculada Conceição? — interveio Liz. — A Virgem inform ando a Bernadette que era a Im aculada Conceição, um conceito que a garota não poderia conhecer.

O Padre Cay oux soltou m ais um de seus resm ungos característicos.

— Posso garantir que Bernadette sabia da Im aculada Conceição. Podia não com preender o conceito, m as tinha conhecim ento. Afinal, quando Bernadette esteve na cidade de Bartrès, poucos m eses antes de suas visões, assistiu à Festa da Im aculada Conceição, celebrada ali com o um dia santo. A Festa da Im aculada Conceição era tam bém um dia santo na própria Lourdes. Bernadette certam ente absorveu isso.

— Contudo, Bernadette apresentou com o se fosse um a coisa inteiram ente nova para ela — com entou Liz.

— Possivelm ente com algum a aj uda — acrescentou m isteriosam ente o Padre Cay oux. Ele fez um a breve pausa e depois passou a esclarecer e am pliar o com entário: — Pode ter havido algum a adm inistração teatral.

— Com o assim ? — estim ulou-o Liz.

— O Padre Pey ram ale não perm itia que seus colegas acom panhassem as visitas de Bernadette à gruta, m as deixava que Bernadette m antivesse um contato constante com esses clérigos no confessionário — explicou o Padre Cay oux. — Esses clérigos, em Lourdes e Bartrès, eram m arianos, fortem ente pró-Maria e a favor do dogm a da Im aculada Conceição. Um deles apontou para Bernadette e declarou: "Se a Abençoada Virgem quisesse aparecer para alguém , certam ente escolheria um a criança assim ". Além disso, seu confessor em Lourdes constantem ente aconselhava Bernadette, apesar de todas as restrições, a continuar a visitar a gruta. Em sum a, houve m em bros da Igrej a pressionando pela aceitação das visões. E não se pode tam bém excluir a influência dos pais de Bernadette, por m ais distantes e inocentes que tenham sido nos acontecim entos. Certa ocasião, quando Bernadette seguia para a gruta, acom panhada por um a grande m ultidão, em torno de quatro m il pessoas, Madam e Jacom et ouviu François, o pai de Bernadette, sussurrar para a filha: "Não com eta qualquer erro hoj e. Faça tudo direito".

— Essa não! — exclam ou Liz. — Isso é realm ente verdade?

— Foi registrado devidam ente — garantiu o Padre Cay oux. Am anda, que estava pensando em Ken, precisava saber de m ais algum a coisa e perguntou ao padre:

— Mas as curas originais, com o a garota Troy , foram realm ente autênticas?

— Muitas curas não foram averiguadas — disse o Padre Cay oux. — Cito um exem plo perfeito. Eugénie Troy. Doze anos de idade. Estava cega há nove anos. Foi a Lourdes, esteve na gruta, procedente de Luz, foi abraçada por Bernadette, voltou com a vista plenam ente restaurada. Pouco depois, seu padre em Luz revelou que Eugénie nunca fora totalm ente cega, sem pre pudera ver e trabalhar. Não houve absolutam ente um a cura. Além disso, em 1858, os m édicos eram m uito lim itados em seus conhecim entos e pouco científicos.

Continuar: parte 3 de 3