O vício dos livros
Para roubar como deve ser é preciso cultura
Para roubar como deve ser é
preciso cultura
Passeava à noite pelas ruas de Tunes, acompanhado por um grupo de escritores tunisinos, quando começámos a falar sobre os perigos de certas zonas da cidade. Fiz notar que achava Tunes uma capital segura, onde podia andar tranquilo à noite, mas Mohamed, um dos escritores que me acompanhava, garantiu-me que eu era demasiado ingénuo. Apontou para umas ruas e contou-me um episódio recente em que ele e dois amigos tinham sido assaltados. Levaram-lhes os telefones e as carteiras. Quando Mohamed chegou a casa com os amigos, um deles, que levava às costas um alaúde caríssimo, comentou, aliviado, o facto de não lhe terem roubado o instrumento musical e terem apenas levado a carteira — que tinha pouco dinheiro — e o telefone, que valia pouco. Como é que os assaltantes não viram o alaúde?, interrogava-se ele, atribuindo a sua sorte (se é que se pode chamar assim) à distracção dos ladrões. Eu tenho uma teoria diferente: os meliantes repararam no instrumento (que não é propriamente pequeno), mas acharam que não valia nada, por isso, limitaram-se a roubar os telemóveis e as carteiras. Até para roubar é preciso cultura; sem ela, não se rouba com eficácia. O ignorante nunca saberá o que vale a pena roubar. Isso é tão válido para o ladrão de rua como para quem queira levar uma vida honesta, seja especulador, lojista, político, taxista ou arquitecto. Qualquer bom profissional precisa de cultura, e um ladrão que se preze não será excepção. Aliás, era possivelmente por isso que aqueles ladrões estavam na rua; se soubessem um pouco mais, estariam sentados na administração de um banco. Mas há uma contradição evidente quando se trata de fazer valer este argumento: é muito difícil, senão impossível, explicar a um néscio a importância da cultura, pois ele não tem cultura para perceber a falta dela.
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