O vício dos livros

Afonso Cruz · Capítulo 17 de 33

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O vício dos livros

O que se esconde numa colher de sopa

O que se esconde numa colher

de sopa

Num restaurante no centro de São Tomé, enquanto comia uma sopa tradicional, com sabor a coentros, informaram-me que o nome desta erva, em crioulo forro, é selo sum zon maiá, que significa «cheiro do Sr. João Maria». Diz-se, verdade ou mito, que o Sr. João Maria foi um alentejano por quem uma mulher se apaixonou e que, por este cozinhar com coentros, baptizou assim a erva. «Cheiro do Sr. João Maria.» É muito bonito que, numa colherada de sopa, estejamos a comer uma declaração de amor.

Curiosamente, os coentros, depois de florescerem, ganham outro nome, cundu muala vé, que significa «cabelo de mulher velha» (esperemos que não tenha sido o Sr. João Maria a baptizar assim a senescência dos coentros).

Ouvi da escritora guineense Odete Costa Semedo — que tem a invulgar capacidade de escavar pequenos tesouros nas expressões do quotidiano e detectar aquilo a que, pela constante utilização, nos tornamos insensíveis — alguns exemplos de como a beleza pode esconder-se nas coisas mais triviais, na linguagem de todos os dias. Disse ela que, quando alguém está feliz, quando se sente leve, usa a expressão «os meus pés não alcançam o chão» (n na ianda, ma nha pes ka na iangasa tchon / caminho, mas os meus pés não alcançam o chão). Douglas Adams tem uma frase que, de algum modo, se assemelha à expressão anterior, diz que a arte de voar é cair e falhar o chão.

Outro exemplo dado pela Odete refere-se ao modo como nos relacionamos. Quando não vemos alguém durante um tempo, diz-se que não sentimos essa pessoa (n ka sinti bu mame e dias. I ka sta?/ Não senti a tua mãe por estes dias. Ela não está?).

E ainda deu um terceiro exemplo, que combina beleza e paladar: «sabor» é sinónimo de bom. «Sabe olhar aquela rapariga» é o mesmo que dizer que ela é bonita. É também na Guiné (mas não apenas na Guiné) que, em vez de nos saudarem pela manhã com um «bom dia», nos perguntam como amanhecemos.

Por vezes, viajamos até ao outro lado do mundo para ver uma paisagem impressionante e descobrimos outros tipos de paisagem, que podem estar numa frase que encontramos na boca de alguém, ou na nossa (porque já as dizemos desde que aprendemos a falar, mas tornámo-nos imunes à sua beleza). As coisas tendem a ficar vazias se são repetidas mecanicamente e florescem quando lhes damos atenção. Ao olhar para dentro de expressões, palavras, frases, encontramos outra forma de viagem, a que se esconde numa colher de sopa e que faz com que os pés não alcancem o chão.

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