O vício dos livros
As histórias que se estragam
Num conto intitulado «Conversa de quintal», Olinda Beja, escritora santomense, põe uma personagem a dizer que tem na sua cabeça um mundo de histórias a estragar-se (Eu tem um mundo de sóya aqui no cabeça a estragá).
Culpamos muitas vezes as novas tecnologias e as redes sociais pelo desinteresse a respeito de certas tradições e partilhas culturais e, por isso, as histórias ficam a estragar-se na cabeça de algumas pessoas. Eu, na altura em que poderia ter impedido uma série de histórias de se estragarem, cometi exactamente o mesmo erro, o da indiferença. Hoje tenho muita pena de não ter ouvido dos meus avós, da minha mãe, as histórias que poderia ter ouvido. Como não havia redes sociais, creio que o culpado só posso ser eu. Penso que o meu caso não será único, e muitos de nós deixaram histórias estragar-se, assim como verão muitas das suas a definhar sem se cumprirem, sem terem a possibilidade de sair e habitar outro corpo, não por causa das redes sociais, nem por causa de culpados anteriores, a televisão ou as brincadeiras de rua, mas por mero desinteresse ou, se quisermos, incapacidade para avaliar e detectar as riquezas que nos cercam. O que nos interessa na juventude não é o mesmo que nos interessa na maturidade ou na velhice, e isso é um problema difícil de sanar. Em África, repete-se muito um conhecido adágio: quando morre um velho, desaparece uma biblioteca.
Podemos fazer grandes viagens, Samarcanda, Bagdade, Wadi Rum, Agra, podemos subir as montanhas mais altas, deixar pegadas num deserto africano, dormir com leões e nadar com tubarões, fotografar auroras boreais, cavalos selvagens e vulcões zangados, mas há viagens mais próximas, demasiado próximas, que têm mais grandiosidade do que as maiores e mais belas quedas-d’água ou picos nevados ou selvas luxuriantes ou imponentes túmulos de pedra. A grande viagem começa, por vezes, ao nosso lado, pode estar a um pequeno percurso de carro ou de autocarro ou a pé ou de bicicleta, pode ser facilmente encontrada no interior do país, por exemplo, onde a solidão se cultiva com mais zelo do que os campos de searas, pode estar no café de uma
esquina ou no quintal. Pode estar sentada na nossa sala.[13] Há grandes viagens que se deitam todos os dias em nossa casa e sonham sozinhas. A essas viagens fundamentais, as mais belas de todas, chamamos simplesmente «disponibilidade para ouvir».
É isso que salva as histórias de se estragarem: não é preciso gastar uma fortuna num hotel charmoso nem levar passaporte ou boletim de vacinas, basta sentarmo-nos e fazer com que esse mundo, esse mundo imenso de histórias, não se esboroe. É evidente que isso pode ser feito na Cochinchina ou no Japão ou em Moçambique, e que essa Cochinchina, esse Japão e esse Moçambique serão uma viagem muito mais espessa e rica do que simplesmente passar por esses lugares como turistas-fantasmas, atravessando tudo, sem nos determos em nada, mas não será surpresa para ninguém perceber que há mundos de uma vastidão assombrosa no nosso quotidiano ou muito perto, a uns passos, a uns minutos, a umas horas.
Disse Antonio Basanta, no livro Leer Contra la Nada: «A primeira biblioteca que conheci na minha vida foi a minha mãe (...) Cada noite, antes de dormir, visitávamos as estantes da sua memória.» Ouvi Juan Villoro dizer que as histórias não deviam começar por «era uma vez», mas sim por «era uma voz». E acrescentou: «As histórias são muito diferentes se contadas pela voz de quem nos ama.» É a ouvir que damos os primeiros passos para a construção da nossa própria essência, através da partilha de histórias.
Porque tudo se resume a isto: a maior viagem possível é ouvir.
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