O vício dos livros
A primeira vez que conheci um esquifobético (a neve desaparece, mas o original não desoriginaliza)
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«Não há nenhuma diferença entre
a leitura e a escrita.
Quem lê é autor daquilo que lê.»
Christian Bobin
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A primeira vez que conheci um
esquifobético
(a neve desaparece, mas o
original não desoriginaliza)
Há livros que ficam perdidos nas estantes, mais ou menos esquecidos, até que um acaso nos empurra para um reencontro. Quando procurava um livro de Kundera, descobri um outro do mesmo autor, que comprei e li no Brasil nos anos 90 (A Brincadeira). Ao folheá-lo, encontrei na última página uma nota escrita a esferográfica. A letra era claramente minha, mas o conteúdo soou-me estranho, não parecia ser a minha voz.
Há leitores que anotam os livros, que sublinham, que arrancam páginas, que os enrolam como se fossem revistas, há leitores que dobram os cantos (como eu, mas esse é o gesto mais violento que imponho a um livro. Escrever nas margens, por exemplo, parece-me uma espécie de tatuagem de que me envergonharei no futuro, quando voltar — ou se voltar — a encontrar-me com ele). Por isso, a descoberta de uma página de um romance anotada de alto a baixo pareceu-me especialmente estranha. Virando a folha, apercebi-me de que a página anterior estava também escrita, mas com uma caligrafia indecifrável e que não me pertencia. Ao olhar com mais atenção, concluí que a minha incapacidade de ler aquele texto se devia, não à letra, mas ao facto de não haver nada ali escrito: era um conjunto de gatafunhos que simulava escrita. Recordei-me então da tarde em que anotei esse livro. Estava em Pernambuco, em Olinda, quando um homem se aproximou, sentando-se ao meu lado, dizendo que era esquifobético. Falava do seu corpo como um filósofo platónico, com um certo desdém pela matéria: chamava-lhe neve. Apontava para si e dizia «esta neve», querendo com isso salientar o carácter transitório do corpo. Quando reparou que eu segurava um livro, quis ver a capa e, tirando-mo das mãos, pegou numa caneta e escreveu qualquer coisa ilegível. Perguntei-lhe o que havia escrito e ele, em voz alta, ditou a tradução da algaravia enquanto eu a anotava na página seguinte: «Tem certo tipo de pessoa que devia ter nascido daqui a cem ou duzentos anos, quando o pessoal tivesse uma criatividade mais rápida e mais bonita. Porque o coração sente e o olho conta. Life after death. Porque o original nunca desoriginaliza. Porque nunca foi desoriginalizado. Se algum dia ele for desoriginalizado, nunca vai existir o original. Seja louco contra uma loucura. Lembre-se que foi aqui que você conheceu um esquifobético.»
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