O vício dos livros
O vício dos livros
Edith Wharton achava que o vício da leitura se compara ao desenvolvimento tecnológico, como, por exemplo, o advento do vapor, ou a evoluções civilizacionais como o sufrágio universal. Dizia ainda que «o vício mais difícil de erradicar é aquele que o vulgo considera virtude. Geralmente, considera-se que ler lixo é um vício, sim, mas hoje em dia a leitura em si mesma — o costume de ler, que de certo modo não deixa de ser um fenómeno novo — é colocada ao mesmo nível de virtudes tão necessárias como a poupança ou a sobriedade ou madrugar ou fazer exercício».
Mais, a leitura, para Wharton, a leitura deliberada ou volitiva, seria diferente do simples acto de ler. Assim como a sabedoria e o conhecimento não devem ser confundidos ou usados como sinónimos, também os modos de ler devem ter gradações. Neste ponto, afirma que a verdadeira leitura é como respirar. A eficiência da respiração deve-se ao facto de ser natural e de não ser preciso estar constantemente a pensar nela. O leitor lê como respira. Se pensar no mérito daquilo que faz, interrompe ou suspende a virtude do acto.
Outro argumento usado por Wharton é a ideia de que a leitura é um diálogo entre autor e leitor e que, se não houver um abalo qualquer naquele que lê, então tudo terá sido em vão. A leitura deve resultar numa transformação e um leitor deverá saber que aquele
que abre um livro não é a mesma pessoa que o fecha.[4] A dimensão da transformação dá-se proporcionalmente às capacidades do leitor, dentro daquilo que poderíamos considerar a
potência do livro, a espessura do conteúdo.[5]
Mas devemos ser todos leitores? Wharton diz que não e compara com a música. «Ninguém espera que sejamos todos músicos.» (Falando de leitura alfabética, talvez seja verdade, mas, se alargarmos as definições de leitor e de músico, então talvez devamos considerar a ideia de que somos todos leitores e músicos, uns melhores, outros piores, e que a nossa vida depende da nossa capacidade de ler o mundo, que muitas vezes exige perceber o ritmo, a harmonia, as comparações, a melodia, as metáforas, os compassos, as analogias.)
Quando nos perguntam se deveríamos ser todos músicos, talvez a pergunta devesse ser se a música ou a leitura é importante para as nossas vidas.
Se antes usei a leitura não alfabética para defender um tipo generalizado de leitura (que não se limita à humanidade), também é importante considerar que a leitura alfabética tem, ela própria, gradações. Como disse Wharton, «ler não é uma virtude, mas ler bem é uma arte», resumindo assim a ideia de a leitura depender da capacidade de interpretação, o que coloca o leitor literal na base gradativa.
Para uns, o livro é um fóssil, com um conteúdo definido e isento de mais interpretações, para outros, é um florescimento contínuo, como
um ser vivo.[6]
Lewis Carroll dizia que há vários tipos de alimentos para o ser humano, sendo que alguns são mais urgentes, outros menos, mas todos igualmente importantes, levando a analogia a posicionar-se como uma questão de saúde. «Haverá uma mente obesa?», perguntava Carroll. A resposta não é clara, até porque, como dizia Virginia Woolf, um livro deve ser entendido como uma pergunta, e a leitura enquanto alimento não é uma resposta a coisa nenhuma, mas a inquietação necessária a uma resposta efémera. Como se inscreve num território em que a certeza se erode, a leitura deve pertencer às actividades mais livres do ser humano e ter as mesmas características do amor, da amizade, do passeio. Mas não devemos imaginar por isso que todos se passeiam da mesma maneira ou amam da mesma maneira. Um amante que lê o seu amor com mais sabedoria ou profundidade é um amante diferente daquele que o faz na superficialidade («ler bem é uma arte»). Pousar um pé ou pousar um pé tem diferenças radicais. É a diferença de quem lê e de quem lê. Há muitos tipos de pegadas. Há muitos tipos de passeios. Ao contrário de tantos outros vícios, o dos livros é, na verdade, uma virtude. De facto, ter livros não é o mesmo que, por exemplo, ter dinheiro. Ter livros é como ter amigos, ter dinheiro é como ter com que pagar a amigos.
OceanofPDF.com
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