O vício dos livros

Afonso Cruz · Capítulo 25 de 33

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O vício dos livros

Por amor de um verso

«Por amor de um verso», escreveu Rainer Maria Rilke em Os Cadernos de Malte Laurids Brigge, «têm de se ver muitas cidades, homens e coisas, têm de se conhecer os animais, tem de se sentir como as aves voam e de seguir o gesto com que as flores se abrem pela manhã. É preciso poder tornar a pensar em caminhos em regiões desconhecidas, encontros inesperados e despedidas que se viram vir de longe.» Assim começa um trecho que é uma espécie de definição da inspiração, de como surge, de onde vem. Se Rilke aponta, em primeiro lugar, a viagem como fonte da inspiração, logo percebemos que é insuficiente para que nasça um verso. Há também que pensar ou tornar a pensar «em dias de infância ainda não esclarecidos, nos pais que tivemos de magoar quando nos traziam uma alegria e nós não a compreendíamos (era uma alegria para outro), em doenças de infância que começam de maneira tão estranha, com tantas transformações profundas e graves, em dias passados em quartos calmos e recolhidos, e em manhãs à beira-mar, no próprio mar, em mares, em noites de viagem que passaram sussurrando alto e voaram com todos os astros — e ainda não é bastante poder pensar em tudo isto». Não me lembro de quem disse que para escrever basta ter sido criança, ter tido uma infância — sentença que ouço repetidas vezes na boca de vários escritores —, mas Rilke, pelo contrário, garante não ser suficiente. E continua: «É preciso ter recordações de muitas noites de amor, das quais nenhuma foi igual a outra, de gritos de mulher no parto e de parturientes leves, brancas e adormecidas que se fecham. Mas também é preciso ter estado ao pé de moribundos, ter ficado sentado ao pé de mortos no quarto com a janela aberta e os ruídos que vinham por acessos.» Talvez o amor e a dor pudessem ser melhores candidatos, talvez pareçam mais capazes de nos inspirar, ou talvez o somatório de todas estas experiências e recordações antes mencionadas possam ser o lugar de onde vêm os poemas, mas, mais uma vez, com precisão rítmica, Rilke nega essa possibilidade, sempre por insuficiência: «E também não é ainda bastante ter recordações.» O trecho chega então à sua conclusão: «É preciso saber esquecê-las quando são muitas, e é preciso ter a grande paciência de esperar que elas regressem. Pois que as recordações mesmas ainda não são o que é preciso. Só quando elas se fazem sangue em nós, olhar e gesto, quando já não têm nome e já não se distinguem de nós mesmos, só então é que pode acontecer que, numa hora muito rara, do meio delas se erga a primeira palavra de um verso e saia delas.»

Esta última parte da passagem citada levou o filósofo Mark Rowlands a cunhar o termo «memórias rilkeanas».

Somos feitos de experiências que já esquecemos, que constantemente esquecemos, do mesmo modo que somos feitos daquelas que recordamos — as tais que Rilke diz não serem suficientes por si mesmas —, sendo a inspiração fruto de tudo o que foi experimentado, com a condição de este «experimentado» ter sido entranhado e transformado em corpo e sangue e potência e acto («sangue em nós, olhar e gesto, quando já não têm nome e já não se distinguem de nós mesmos»). Assim, quando toda a experiência, qualquer tipo de experiência, se encarna e se converte em natureza, na nossa, é nessas circunstâncias que as palavras podem emergir metamorfoseadas em qualquer coisa rara, como um poema.

A questão das memórias rilkeanas é também iluminadora no que respeita à identidade, e é por esse motivo que a perda de memória, pelo menos uma parte dela, não implica uma erosão total da personalidade, pois, como escreveu Ben Platts-Mills, precisamente sobre este assunto, «a identidade não é propriedade exclusiva da mente ou do cérebro ou de quaisquer funções destes. A identidade é uma propriedade de todo o corpo, e todo o corpo está implicado no modo como a personalidade e o indivíduo podem persistir face

ao esquecimento contínuo».[12]

A memória rilkeana diz-nos que a identidade é um sistema complexo que não pode ser confinado a um órgão específico, mas à totalidade do indivíduo, sangue, olhar e gesto, porque as recordações (como funções ou manifestações do cérebro) não são suficientes. É desse lugar total que nascem coisas raras. E, seguramente, versos.

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