O vício dos livros

Afonso Cruz · Capítulo 4 de 33

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O vício dos livros

A square

Stefan Zweig conta sobre Balzac o seguinte episódio, em O Mistério da Criação Artística: «Um dia, um amigo de Balzac entrou sem avisar no seu estúdio. Balzac, que na época trabalhava num romance, deu meia volta, ergueu-se num salto, pegou no amigo pelo braço e, num estado de grande exaltação, exclamou com lágrimas nos olhos: “Que horror! A duquesa de Langeais está morta.“ O visitante olhou para ele, perplexo. Conhecia bem a sociedade de Paris, mas nunca ouvira falar da tal duquesa de Langeais, e, de facto, não existia uma duquesa com esse nome: era apenas uma das personagens do romance de Balzac. No instante em que o amigo entrou, Balzac descrevia o momento da morte da duquesa, e tendo aquela morte tão presente, como se a tivesse visto com os próprios olhos, ainda não tinha acordado do seu sonho criativo. Só quando notou a surpresa do visitante é que se apercebeu de que estava novamente neste mundo, no da realidade.»

Em Sobre os Escritores, Elias Canetti sente aproximadamente o mesmo que Balzac, dizendo que «alguns personagens de romances são tão fortes que mantêm o seu autor aprisionado e o sufocam». De facto, a solidez de uma personagem bem construída consegue arrebatar-nos, sejamos seus criadores ou seus leitores, e de algum

modo transforma-nos.[1]

Há na literatura personagens de todo o tipo, um leque vasto que

está longe de se limitar a humanos.[2] Há personagens que são animais, há outras que são objectos, sentimentos, ideias. Pode, por exemplo, uma personagem tão plana quanto um quadrado ter a capacidade de nos emocionar?

O escritor e sacerdote anglicano Edwin Abbott Abbott (1838-1926) imaginou um mundo plano, na obra Planilândia (Flatland), composto de duas dimensões. Nesse mundo habitado por figuras geométricas, cuja quantidade de lados determina o escalão social — que culmina no círculo —, encontramos uma alegoria engenhosamente concebida e que pode ser interpretada de inúmeras maneiras e por várias disciplinas. Nesse mundo, um quadrado é um dia visitado por uma esfera, um ser tridimensional, inconcebível para o protagonista. Isto fará com que este quadrado, chamado A Square (que pode ser traduzido por «Um Quadrado» ou «Quadrado A», e que há quem especule ser uma alusão ao nome do autor), se torne uma espécie de Sócrates ou Prometeu ou Cristo.

Não devem existir muitas coisas mais aborrecidas do que um quadrado — ou mais planas ou mais frias —, e, no entanto, partindo de tão pouco, é possível construir uma personagem inesquecível. Não creio que, neste caso específico, o Quadrado A emocione como a duquesa de Balzac, mas apenas porque não era essa a intenção de Abbott Abbott, que pretendeu, creio, afectar a razão mais do que o sentimento. Mas a construção de uma personagem como esta garante-nos que até um quadrado é capaz de levar um leitor a gritar, escandalizado, à semelhança de Balzac: «Que horror! Prenderam o Quadrado A!»

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