O vício dos livros

Afonso Cruz · Capítulo 2 de 33

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O vício dos livros

Contar para, mais do que viver séculos, morrer feliz

Contar para, mais do que viver

séculos, morrer feliz

Dina Diamant, a última companheira de Kafka, contou um episódio do tempo em que os dois viviam em Berlim e em que o escritor, ao passear num parque, encontra uma menina a chorar porque tinha perdido a sua boneca. Kafka decide consolá-la, dizendo-lhe que a boneca decidiu viajar e que até lhe escreveu uma carta. A menina estranha a situação e pede para ver a carta. Kafka diz-lhe que não a tem com ele, mas que a trará no dia seguinte e lha lerá. Apesar de Kafka estar muito doente, com tuberculose (haveria de morrer nesse ano), todos os dias, durante três semanas, escreveu cartas atribuídas à boneca e dirigidas à tal menina. Até que, um dia, resolveu terminar aquela tarefa auto-imposta, dando-lhe um final clássico do género «foram felizes para sempre» e casando a boneca. A criança ficou descansada. E ficou descansada porque ela, a boneca, tinha uma história, tinha vivido uma vida. A sua ausência tornara-se então aceitável e era possível lidar com a perda.

A minha avó, já demasiado cansada, tinha quase cem anos, dizia que Deus se esquecera dela e que já cá não estava a fazer nada, mas ficava particularmente feliz quando, sentada na sala ou à mesa da cozinha, contava as suas histórias, partilhava as suas memórias. Pelo sentimento de plenitude de as ter vivido e de as poder contar, havia nela uma pacificação em relação à morte.

Há uma luz que intuímos nestes momentos, uma «luz por dentro», tal como Mário Quintana titulou um dos seus textos, do livro Caderno H: «Mas há uma beleza interior, de dentro para fora, a transluzir de certas avozinhas trêmulas, de certos velhos nodosos e graves como troncos. De que será ela feita, que nem notamos como a erosão dos anos os terá deformado. Deviam ser caricaturas mas não fazem rir, uns aleijões mas não causam pena. (...) Eu gostaria de acreditar que essa inexplicável beleza dos velhos talvez fosse uma prova da existência da alma.»

Suspeito que essa «luz por dentro» sejam histórias e que a inexplicável beleza dos velhos seja precisamente a prova da existência de uma vida.

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