O vício dos livros
Biblioteca pessoal
Um vizinho do meu avô, dono de uma fábrica, mandou serrar os seus livros para estes caberem na estante que tinha acabado de comprar.
Ouvi esta história em criança, mas haveria de a reviver, de outra forma muito mais sofisticada, cerca de uma década depois, quando um grande amigo — daqueles com os quais construímos a nossa personalidade na adolescência —, tendo uma colecção de BD relativamente grande, decidiu um dia vender os livros pois queria tê-los em capa dura. Eu e outros amigos (todos muito próximos) comprámos-lhe então aqueles que não tinham capa dura. Com o dinheiro que recebeu da venda, refez o que conseguiu da sua colecção, desta feita em capa dura (sendo estes bem mais caros do que os outros que tinha vendido, que eram usados e com acabamentos mais humildes). Passado pouco tempo, a sua colecção de BD era muito menor. Mas rapidamente se apercebeu de que os livros nas edições portuguesas não tinham todos o mesmo tamanho, variando a altura das lombadas em alguns milímetros. Irritado com a imperfeição, vendeu os livros todos e com o dinheiro da venda comprou edições francesas, cujas medidas eram exactas e exibiam a linha recta paralela à prateleira que muitos bibliófilos gostam de ver nas suas estantes. A colecção de BD, claro, minguou consideravelmente. No entanto, as lombadas estavam perfeitamente alinhadas numa rectidão comovente.
É possível organizar uma biblioteca de modo a representar um ser humano: os livros que lemos construíram-nos, constroem-nos, construir-nos-ão. O modo como os juntamos denuncia-nos: os preferidos todos juntos, ou a dialogarem com os inacabados, com os por abrir, tentando fazê-los melhores; poetas ao lado de cientistas ou, pelo contrário, na prateleira mais afastada. Há também que contar com a desordem e a surpresa que ela permite. Arnoldo Kraus escreveu, em Apología del Libro: «A minha entropia contagiou os meus livros. Apesar de não deixar de me incomodar, é bem-vinda. Ler o que não pretendia ler nesse momento, reler um livro colocado no sítio onde devia estar o livro que procuramos possibilita encontros inesperados. É a lei do acaso: Deus inventou-o para explicar determinadas situações, ou o acaso inventou Deus para facilitar a aceitação do inexplicável?»
Borges dizia que uma biblioteca é uma autobiografia.
A minha autobiografia já não me cabe em casa.
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