O vício dos livros
A falta que faz um Homero
A certa altura, alguém perguntou ao general ateniense Temístocles (conta Plutarco) se preferia ser Aquiles ou Homero. A resposta de Temístocles, talvez precipitada, veio em forma de pergunta: «Preferias ser um vencedor dos Jogos Olímpicos ou o arauto que conta os seus feitos?»
O desprezo por Homero é infundado. Na verdade, talvez Temístocles preferisse ser um guerreiro valente e intrépido, mas seguramente, na sua vida, faltou-lhe Homero. Hoje, poucos se lembram dele. Devidamente cantado, mesmo que a sua vida se resumisse a um beijo, a um esgar, a um passeio pelo campo, hoje seria lido e relembrado. E ser lido é uma ressurreição, é fazer voltar à vida. Ler é um «levanta-te e anda».
Sóstrato de Cnido, arquitecto do farol de Alexandria, acreditava que o seu nome haveria de perdurar. O farol da ilha de Faros seria a sua eternidade, e o arquitecto fez o seguinte (segundo Luciano de Samósata): gravou o seu nome na pedra da torre e, por cima, pôs uma camada de gesso onde escreveu o nome do rei (Ptolomeu I) que mandou construir essa que seria uma das sete maravilhas do mundo antigo. O gesso caiu anos depois, ficando à vista a assinatura do arquitecto na pedra e desaparecendo o nome de Ptolomeu I. Bom, nem tudo dura para sempre, caro Sóstrato, e o farol de Alexandria não foi excepção (com um pouco de Homero, teria ficado mais enraizado na História). Mas a ideia, a crença de que a autoria sobrevive ao acto, de que o espírito sobrevive à matéria, de que a poesia sobrevive às contas que temos de pagar (incluindo as da luz, tão a propósito do tema arquitectónico) era inerente ao raciocínio de Sóstrato. Luciano corrobora a atitude do arquitecto, dizendo que ele «não olhava simplesmente para o tempo e espaço da sua curta vida, mas para a eternidade, ou, pelo menos, até à duração do farol. Essa deveria ser a preocupação do historiador, a verdade e não a lisonja, olhar para a esperança do futuro e não para a gratificação dos vaidosos».
Alexandre, o Grande, apesar de muito mais clarividente do que Temístocles, não teve o privilégio de contar com o Homero de que precisava, porque os homeros são muito raros, mas o facto de se aperceber da importância do poeta para a sobrevivência do herói mostra como compreendia o tempo e como era capaz de olhar para a sua vida através dele, tal como nós olhamos para uma paisagem através de uma janela. Uma noite, Alexandre viu — talvez uma aparição — um mensageiro a correr para ele, felicíssimo, de mão
estendida.[9] Perguntou-lhe que novidades trazia, se Homero havia retornado dos mortos. Porque, explica-nos Plutarco, a Alexandre só faltava, depois de tantas conquistas, quem as contasse com a mestria de Homero. Havia o perigo de, sem a poesia devida e proporcional a essa grandeza, todas as suas vitórias se perderem.
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Numa outra ocasião, Alexandre foi ferido no tornozelo e muitos acorreram, crentes de que ele era um deus, para tentar perceber o que se passava. A sorrir, Alexandre disse-lhes que era sangue, que deitava sangue, e não aquilo que Homero descreveu como «o líquido que distila de deuses sagrados». E aqui não cumpriu a sua crença na transmutação que a palavra opera. Escorria apenas sangue. Não deixa de ser bela esta proximidade ao barro e aos homens e ao século, mas a verdade é que apareceram poetas suficientes (mesmo com défice de Homero) para converter o seu sangue em substância sagrada, augusta e veneranda.
Todos deitamos sangue, mas, graças aos poetas, alguns passam a distilar «aquele líquido sagrado». A presença de Homero opera a transmutação radical e a sua deficiência causa esquecimento. Temístocles preferia ser Aquiles, mas somente porque Homero o
imortalizou, ou, de outro modo, nem saberia da sua existência.[11]
Todos deitamos sangue, mas um bocadinho de Homero nas veias faz-nos viver um pouco mais. Um bocadinho de Homero, e existimos com mais convicção, ou como disse Canetti: «O que um poeta não vê não aconteceu.»
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