O vício dos livros
Notas
[1] Abrir um livro é abrir pessoas e explorar o nosso próprio mundo através da experiência dos outros. O território inexplorado dentro de nós é acessível através dessa imersão em personagens que nunca fomos e jamais seríamos ou talvez venhamos a ser, e em vidas que nunca tivemos e jamais teríamos ou vidas que serão o nosso destino. As personagens dos livros que lemos são o meio de transporte para o que não somos, ou melhor, para o que somos sem ser. Creio que esta noção é fundamental: ser profundamente o que não somos.
[2] No caso de Balzac: «O elenco total de sua Comédie humaine chega a cerca de 3500 personagens (incluindo alguns animais) — em toda a literatura ocidental, apenas Shakespeare e Dickens» (Simon Leys, The Hall of Uselessness: Collected Essays).
[3] Avni Bavishi, Martin D. Slade, Becca R. Levy. A chapter a day: Association of book reading with longevity. https://www.sciencedirect.com/science/article/ abs/pii/S0277953616303689
[4] Um livro deve ser o machado para aceder ao mar gelado que temos dentro de nós, disse Kafka. E disse também que se um livro não nos magoa e esfaqueia não tem interesse.
Montaigne, menos áspero do que Kafka, via na leitura alguma sensualidade, chamando aos livros «prazer lânguido», enquanto Emerson inusitadamente usou o adjectivo «espermático» para os caracterizar: «Alguns livros são vitais e espermáticos, não deixando o leitor continuar a ser o que era; o leitor quando fecha o livro está mais rico.»
[5] Através da leitura, a alma que se esconde na combinação das letras do alfabeto (como um código genético) pode então passar do livro para o leitor e habitá-lo, evoluindo. É uma mistura semelhante à que se dá com o genoma. Em vez de uma fusão de duas gametas para criar um novo ser, há duas almas que se fundem para criar um novo ser. Cada vez que lemos, saímos da leitura como um novo indivíduo que resulta da combinação anímica entre o livro e o leitor. A alteração pode ser subtil, tal como a descreve Christian Bobin (Um Vestido Curto de Festa): «Os livros amados misturam-se no pão que comes» — embora aqui haja uma mistura mais carnal —, «entram para dentro de nós pela janela do sonho e esgueiram-se para um quarto onde nunca entras, o mais escondido, o mais retirado. Horas e horas de leitura para este ligeiro tingir da alma, para esta ínfima variação do invisível em ti, na tua voz, nos teus olhos, na tua forma de estar e de fazer.»
[6] «Nada se compara às palavras, a sua deturpação tortura-me como se fossem criaturas sensíveis à dor. Um escritor que não sabe disso é, para mim, um ser incompreensível.» (Sobre os Escritores, Elias Canetti)
[7] Poderia ter falado em atenção em vez de sentido poético, mas a atenção é apenas um estágio diluído do sentido poético. A atenção que desperta a experiência sensorial e permite que o mundo exista pode ser fraca, a atenção que nota algo, como de repente sentir a cadeira onde nos sentamos, mas a atenção plena, que nos tolhe de assombro ou simplesmente nos tinge a alma (para usar a expressão de Bobin), é criadora. Modifica-nos — não saímos ilesos da experiência —, porque é o machado kafkiano ou porque é uma conversa entre nós e o mundo.
Disse Mário Quintana, assegurando que num instante — como o de Blake, um instante poético — poderíamos ser eternos: «Amigos, não consultem os relógios quando um dia me for de vossas vidas... Porque o tempo é uma invenção da morte: não o conhece a vida — a verdadeira — em que basta um momento de poesia para nos dar a eternidade inteira.»
[8] É também interessante notar que a curiosidade, tipicamente felina — mas igualmente comum entre outras espécies, como os profissionais que valorizam a criatividade no seu trabalho ou os leitores ávidos de saber o que acontecerá à duquesa de Langeais —, pode ser uma virtude moral: «Agora, todos sabemos que a curiosidade é condição necessária, até mesmo a primeira das condições, para todo o trabalho intelectual ou científico. Mas quero acrescentar que, em minha opinião, a curiosidade também é uma virtude moral. Uma pessoa interessada é uma pessoa um pouco melhor, um progenitor melhor, um parceiro, vizinho e colega melhor do que uma pessoa não curiosa. Um amante melhor também. »Permitam-me sugerir que a curiosidade, juntamente com o humor, são dois antídotos de primeira linha ao fanatismo. Fanáticos não têm senso de humor e raramente são curiosos. Porque o humor corrói as bases do fanatismo, e a curiosidade agride o fanatismo ao trazer à baila o risco da aventura, questionando, e às vezes até descobrindo que suas próprias respostas estão erradas.» (Amós Oz, Como Curar Um Fanático)
[9] Alexandre dormia com a Ilíada e uma faca debaixo da sua almofada. Segundo Kafka, um livro deve esfaquear-nos ou não serve para nada. Talvez Alexandre dormisse apenas com a Ilíada e a faca não passasse de uma expressão para dizer que aquele era um desses livros.
[10] «Alexandre fez realizar as suas mais incríveis fantasias. O historial das suas conquistas, alcançado em apenas oito anos — Anatólia, Pérsia, Egipto, Ásia Central, Índia —, catapulta-o para o auge dos feitos militares. Em comparação com ele, Aquiles, que perdeu a vida no cerco de dez anos a uma única cidade, parece um simples principiante.» (Irene Vallejo, El Infinito en un Junco)
[11] A favor de Temístocles, conta-se que preferiu casar a sua filha com um homem pobre mas instruído em detrimento de um outro pretendente, que era rico mas ignorante, porque preferia um homem que precisasse de riqueza do que riqueza que precisasse de um homem.
[12] https://psyche.co/ideas/memory-involves-the-whole-body-its-how-theself-defies-amnesia
[13] «Essas distâncias astronômicas não são tão grandes assim: basta estenderes o braço e tocar no ombro do teu vizinho.» (Mário Quintana, Caderno H)
[14] Somos pó, como nos garantiu Job, mas também podemos ser tinta. Ao escrever, passamos os nossos pensamentos para outro corpo, como para uma folha de papel, por exemplo. Transferimos a alma para papel, e o mais notável é que é bem possível que essa alma, num corpo tão frágil como uma folha, nos sobreviva. Passados mil anos, o pensamento de alguém que há muito se transformou em pó subsiste numa folha de papel.
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Índice
O vício dos livros
A primeira vez que conheci um esquifobético (a neve
desaparece, mas o original não desoriginaliza)
Contar para, mais do que viver séculos, morrer feliz
Os livros que nos casam
A square
A poesia prende poetas, acidenta carros e afunda barcos
Mas a poesia também salva cidades e liberta escravos
Porém, a poesia pode matar amigos
A morte, perante os livros, fica sem poder
Para roubar como deve ser é preciso cultura
Um pão e um livro
Princípio de anti-Fermat
Liberdade
Feridas abertas
O terceiro pulmão de Bagdade
Como estar sempre a descansar
O vício dos livros
O que se esconde numa colher de sopa
A questão do gato morto
Bibliotecas
Porque não há muitos leitores
História do leitor presidiário
Gatos
A falta que faz um Homero
O poeta que foi assassinado pelos próprios livros
Como encontrar felicidade nos livros que não lemos
Por amor de um verso
Biblioteca pessoal
Gugudadismo
O que se esconde debaixo de um poema
As histórias que se estragam
A voz dos livros
Referências bibliográficas
Sobre o livro
Sobre Afonso Cruz
Créditos
Notas
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