O vício dos livros
Feridas abertas
Partindo de uma ideia de um poeta anónimo que disse que, se fosse realmente um poeta, teria podido evitar a Segunda Guerra Mundial, Elias Canetti diz, em A Consciência das Palavras: «Esta seria, creio, a verdadeira tarefa dos poetas. Graças a um dom que foi universal e hoje está condenado à atrofia, e que precisariam por todos os meios preservar para si, os poetas deveriam manter abertas as vias de acesso entre os homens.» Estas vias de acesso entre os homens seriam a capacidade de um poeta poder transformar-se em quem quer que seja, «mesmo no mais ínfimo, no mais ingénuo, no mais impotente». E esta metamorfose deveria ser isenta de interesses, de sucesso ou prestígio, pois teria razão em si mesma e por si mesma, sendo ainda «a única e verdadeira via de acesso a outro ser humano» (que resultaria na compreensão da essência do outro).
Canetti (em La Antorcha al Oído) conta como conheceu o ódio, não por tê-lo simplesmente experimentado em si, mas por vê-lo plasmado no Outro: «Em Frankfurt, para chegar ao Museu Städel, cruzava-se o Meno. Via-se o rio e a cidade e respirava-se fundo, o que nos dava coragem para enfrentar a coisa terrível que nos esperava», que era o encontro com a obra de Rembrandt, Sansão Cego Pelos Filisteus (1636). «Com esse quadro, diante do qual fiquei parado muitas vezes, conheci o que é o ódio.» Canetti diz ter sentido algo semelhante ao que se vislumbra na expressão de Dalila no quadro de Rembrandt quando, em criança, aos cinco anos, quis atingir uma companheira de brincadeiras com um machado. Contudo, só graças à contemplação do quadro compreendeu o seu ódio, pois nós «não temos conhecimento daquilo que sentimos; é necessário que o vejamos nos outros para que o reconheçamos», e só então se torna real. Esta passagem descreve bem o que significa a possibilidade de transformação poética reclamada por Canetti como «única e verdadeira via de acesso a outro ser humano»: ela diz-nos que só quando nos encontramos no outro nos compreendemos. Talvez o poeta anónimo tenha razão, especialmente se a sua frase («se eu fosse realmente um poeta») puder ser formulada no plural e nos incluir a todos.
Porém, a História parece ter, sem qualquer pudor, desacreditado este optimismo manifestado por Canetti em relação à transformação poética. Mas, defendendo-o ainda assim, seria possível imaginar a circunstância de o tal poeta anónimo ter evitado a Segunda Guerra Mundial caso fosse um verdadeiro poeta? Na verdade, não sabemos quantas guerras foram ou são evitadas, e é bem possível que todos os dias algum poeta (e neste contexto, por poeta, entendamos qualquer pessoa capaz de se colocar no lugar do outro) impeça que várias tragédias aconteçam. Pode ser que a Segunda Guerra Mundial tenha sido uma catástrofe que escapou ao exercício poético de manter abertas as vias de acesso entre pessoas. Pode ser que, antes de se ter tornado um facto em 1939, tenha sido evitada inúmeras vezes. É também possível conceber que uma expectável Terceira Guerra Mundial tenha sido impedida em várias ocasiões, precisamente porque as vias de acesso entre seres humanos se mantêm abertas, e que a tragédia tenha sido abortada ou impedida de acontecer. Nesse sentido, Canetti poderia ter razão, e talvez a capacidade de metamorfose seja aquilo que nos salva todos os dias, até que, por distracção ou descrença, algo tenebroso começa a escapar pelos buracos dessa rede invisível que nos ampara, redundando numa desgraça qualquer.
Elias Canetti dizia ainda (Sobre os Escritores) que um escritor que não tem uma ferida constantemente aberta não é um escritor. Creio, todavia, que a formulação não deve ser limitada aos escritores, podendo ou devendo ser estendida a todos os seres humanos (um ser humano que não tem uma ferida constantemente aberta não é humano). Talvez o drama evitável, aquele que é da responsabilidade humana, seja fruto dos momentos em que alguém ou uma comunidade deixa que as suas feridas se curem e se fechem e, sem o alerta da dor, não se aperceba dos perigosos tentáculos que crescem à sua volta, descobrindo-se depois impotente para travar a hecatombe.
Se, em relação a algumas feridas, a cura total é desejável, em relação a outras, há uma obrigação moral em mantê-las abertas, pois são elas que nos lembram de, a todo custo, evitar os erros do passado.
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