O vício dos livros

Afonso Cruz · Capítulo 27 de 33

Páginas do PDF

O vício dos livros

Gugudadismo

Não é incomum ler artigos sobre livros para crianças com críticas mais ou menos semelhantes, apontando o dedo a qualquer texto ou imagem que não corresponda àquilo que um adulto conservador considera como adequado para crianças, criticando qualquer tema ou abordagem que tenha alguma frescura ou criatividade e que permita que a criança se divirta tanto quanto aprenda, pelos seus meios e pela sua capacidade de interpretação, mais do que por um excesso de didactismo. Os livros pensados desse modo não são para crianças, são para uma ideia de criança que certos adultos têm. Mais, os bons livros não são dirigidos a nenhum leitor presente, mas a leitores futuros, porque devem encontrar-se com o leitor, não naquilo que ele é ou conhece, mas precisamente num lugar que lhe é ainda desconhecido.

Um exemplo recorrente é a crítica que se faz ao uso de cores escuras. Não devemos usá-las, dizem. (Quando comecei a ilustrar, a cor negra era «proibida». Até que saiu o belíssimo Livro Negro das Cores e tudo mudou.) Imagino que seja terrível que uma criança tenha contacto com o anoitecer, as sombras, a escuridão e com coisas tão abomináveis como o xisto, a terra, alguns cabelos, alguma tez, chocolates, etc., todas elas de cores pouco claras. Eu sei que nem toda a realidade é boa, mas tenho dificuldade em qualificá-la pela escuridão dos seus matizes. Curiosamente, comidas muito pouco saudáveis têm embalagens alegres, com cores vivas e garridas. As mesmas pessoas que se incomodam com o entrevamento das cores não parecem importar-se com a histeria tonal destas embalagens nem com o que elas representam.

Entre as críticas mais comuns apontadas a alguns livros de literatura infantil-juvenil, há uma que me comove particularmente: as crianças não devem ler nos livros que lhes são dirigidos palavras que não conhecem. Eu próprio já cometi a ousadia de ter na capa de um álbum ilustrado a palavra «misantropo», que obviamente não pertence à lista de vocábulos aceites por gugudadistas. Não é uma «palavra infantil» e não devemos expor as crianças a tamanho perigo. Pode dar-se a fatalidade de, depois disso, ficarem a conhecer o significado de mais uma palavra e chegarem a adultas sabendo mais do que gugudadá.

«Misantropo» não é difícil de explicar (pessoa que não gosta de outras pessoas), mas o mais assustador, muito mais do que cores escuras, é o facto de alguém acreditar que um leitor, criança ou adulto, deve conhecer tudo o que lê, que não deve encontrar novidade nenhuma, que não deve deparar-se com situações novas, palavras novas, frases novas. Os livros, dependendo da sua qualidade, têm características perturbadoras e inovadoras. Quando não acontece, deixam muito a desejar. Como antes disse, um bom livro dirige-se ao futuro de cada leitor e não ao seu presente. Quando abrimos um livro, disse Graham Greene, abrimos um futuro.

Se as crianças nos pedem rebuçados para o jantar, pode ser que lhes façamos a vontade, porém, a maior parte de nós insistirá nos brócolos. As crianças podem querer somente palavras que conhecem, aquelas que pertencem ao índice gugudadista das palavras aceites ou toleradas, mas as palavras-brócolos (sem qualquer desprimor para as palavras-rebuçados, que também fazem falta) garantem um crescimento saudável. Pelo menos para quem ambiciona chegar aos oitenta balbuciando um pouco mais do que gugudadá.

OceanofPDF.com