O vício dos livros
A morte, perante os livros, fica sem poder
A morte, perante os livros, fica
sem poder
Em Jalan Jalan, escrevi sobre um episódio especialmente espirituoso — contado por Rosa Montero, em A Louca da Casa —, passado com uma escritora argentina, Gabriela Cabal, sobre a possibilidade de a leitura, através da curiosidade, do entretenimento e da distracção, afastar a morte. Gabriela Cabal disse numa conferência que «um leitor tem a vida muito mais longa do que as outras pessoas, porque não morre até acabar o livro que está a ler. O seu próprio pai, explicava Gabriela, tinha demorado imenso a falecer, porque vinha o médico visitá-lo e, abanando tristemente a cabeça, garantia: “Não passa desta noite”; mas o pai respondia: “Não, nem pense, não se preocupe, não posso morrer porque tenho de acabar O Outono do Patriarca.” E, assim que o médico se ia embora, o pai dizia: “Tragam-me um livro mais grosso.”
»“Enquanto isso, amigos do meu pai, que eram saudáveis, fartavam-se de morrer. Por exemplo, uma pobre senhora que só foi ao médico fazer um check-up já não saiu”, acrescentava Gabriela.
»“É que a morte também é leitora, por isso, aconselho a que andem sempre com um livro na mão, porque, quando a morte chega e vê o livro, espreita para ver o que estamos a ler, tal como eu faço no autocarro, e distrai-se.”»
Devemos levar esta ideia a sério e não, como tantas vezes se faz, como uma historieta espirituosa sobre o milagre da leitura. Existem estudos para corroborar aquilo que deveria ser chamado de «efeito
Xerazade»: um estudo de Yale[3] (há mais, mas limito-me a este exemplo), realizado entre pessoas com mais de 50 anos, adianta que ler 30 minutos por dia fará viver, em média, mais dois anos. Se não for pelo prazer de ler, talvez devamos ler pela nossa saúde.
OceanofPDF.com
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