Perspectivas educacionais e novas demandas: a telecolaboração

Daniela Nogueira de Moraes Garcia · Capítulo 1 de 15

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Perspectivas educacionais e novas demandas: a telecolaboração

Prefácio

 

Agora sabemos para que serve a internet.

Para se comunicar, como já era óbvio.

Não isola, mas relaciona. Não aliena, mas encoraja.

Não elimina a emoção, mas a alimenta.

Não é comida, mas sem os pedidos de suprimentos e receitas

on-line,

seria mais difícil comer agora.

Graças ao teletrabalho, as atividades econômicas e

administrativas são mantidas.

E, assim, o curso na universidade será concluído

 

(CASTELLS, 2020).

 

A epígrafe acima nos remete às reflexões sobre o papel das tecnologias em nossas vidas, agora amplificadas a seu extremo. No momento em que escrevo este prefácio, uma questão que nos é tão cara – a interação social – só nos é possível por meio das tecnologias. Assolados pela pandemia da Covid-19, passamos todos por modificações nos modos de agir e ser – tanto na vida pessoal como na profissional – que são mediados pelas tecnologias.

Na área educacional, não tem sido diferente: professores de todo o mundo foram impelidos a ressignificar suas práticas, ampliar seus conhecimentos, repensar suas disciplinas, abordagens e estratégias. Fomos “convidados” a nos reinventar neste novo cenário e buscar por alternativas pedagógicas que possam favorecer aprendizagens no espaço virtual.

E este livro é sobre isso: sobre possibilidades e alternativas que podem contribuir para que o ensino de línguas não perca uma de suas características mais relevantes para que o aprendizado aconteça: a interação. Nesta obra, Garcia compartilha do pensamento de que vivemos em uma época na qual o potencial das conexões requer preparo, cautela, escolhas e estratégias de modo a buscar o foco pretendido no processo de ensino/aprendizagem. Surge, portanto, de sua “inquietação com pacatas ações pedagógicas e com turbinadas possibilidades tecnológicas”. Parte da sua experiência como educadora em intercâmbio virtual e de princípios que lhe são caros: o uso da língua como prática social, autonomia, reciprocidade e a promoção de olhares transculturais.

A autora reconhece as demandas e dificuldades do atual cenário e propõe práticas de intercâmbio virtual como possibilidade para projetos colaborativos interculturais. Garcia defende que as ações com o suporte das tecnologias deveriam trazer propósitos pedagógicos bem delineados de modo que não se traduzam, apenas, em encontros virtuais entre pessoas de países diferentes ou em práticas educacionais que simplesmente substituam o quadro da sala de aula.

Assim, a autora revisa as ações conhecidas de intercâmbio virtual e foca na telecolaboração como ponto de partida para as reflexões que vêm sendo construídas, defendendo a ideia de que o impacto gerado pela difusão e aplicação das tecnologias tem permitido a minimização de barreiras geográficas e temporais (a baixos custos) e a reconfiguração de modo que os estudantes se beneficiem da colaboração intercultural online ou telecolaboração. Em seguida, faz um histórico das atividades de teletandem nos trazendo informações detalhadas, que são possíveis somente pela perspectiva êmica daqueles envolvidos nessas práticas. Dessa forma, a presente obra se torna referência para pesquisadores e professores interessados em pesquisar ou implementar práticas desta natureza nas suas universidades e escolas.

A concepção desta obra é inovadora ao trazer a colaboração online pela perspectiva do inglês como língua franca. A autora busca um diálogo com o referencial teórico sobre teletandem, intercâmbio virtual e língua franca com o objetivo de alcançar uma sólida compreensão para melhor orientar e capacitar professores e mediadores na condução de sessões entre estudantes brasileiros e estrangeiros. A perspectiva é narrada por meio de sua experiência como professora/pesquisadora/mediadora na nova modalidade que começou a ser praticada na unidade de Assis da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, a partir de agosto de 2016, em parceria com estudantes estrangeiros no Reino Unido (de diversas línguas maternas) estudando em Londres.

Nesta proposta, o inglês foi estabelecido como língua franca de comunicação entre participante brasileiro e participante estrangeiro durante toda a sessão, considerando que o público-alvo definido pelo exterior são alunos estrangeiros, de países variados, matriculados em instituição da Inglaterra, cuja língua oficial, como sabido, é o inglês. Essa língua, então, passa a intermediar as trocas linguísticas entre participantes que a estudam e a praticam como modalidade de língua estrangeira. Para Garcia, neste caso, ambos parceiros se afastam da zona de conforto que a língua materna lhes proporciona e lançam-se a uma nova experiência que lhes exige foco e concentração.

Para a autora, tal perspectiva representa um novo cenário para o intercâmbio virtual, porque, além de não prever a utilização de duas línguas, nem um falante mais proficiente que ajuda o outro em sua língua materna, também pressupõe a utilização do Facebook como suporte de comunicação síncrona.

O oferecimento de práticas de ensino que levem em consideração o estatuto do inglês como língua franca e que permitam que os alunos vivenciem o uso da língua inglesa com falantes não-nativos de todo o mundo é, a meu ver, condição necessária para que consigamos desestabilizar crenças enraizadas no ensino de línguas que continuam a reforçar a ideologia e supremacia do falante nativo. Essa proposta, também, abre um cenário de possibilidades para pesquisas que busquem compreender como se dão as interações entre falantes não nativos.

Para interessados em implementar o intercâmbio virtual com esse viés, esta obra é essencial. A autora, então, retrata a experiência com o foco na organização, planejamento, comunicação entre os responsáveis pelas ações e com base na percepção de alunos participantes. Exemplifica sua narrativa com excertos e imagens que expressam o ambiente que se estabelece quando os participantes se engajam em trocas linguísticas e culturais por meio do intercâmbio virtual, o exercício da autonomia entre os pares e a adoção de estratégias para que alcancem os objetivos pensados para a experiência em Inglês como língua franca (ILF) e os desafios que envolvem o uso da tecnologia. A experiência – ainda carente de estudos – evidencia potencial para desenvolvimento de aprendizagens transculturais e transcontinentais via colaboração on-line em ILF e a necessidade da importância de estudos dos processos de negociação entre os pares.

A obra é finalizada com reflexões sobre o papel do professor neste novo cenário imposto, com ênfase nas características necessárias: a capacidade de se envolver com as tecnologias digitais, desenvolver letramentos digitais, construir colaborações, propor práticas transformadoras, gerenciar os objetivos, selecionar informações, questionar os trajetos, analisar necessidades e se colocar como protagonista do processo. Para a autora, o papel do professor implica orientar caminhos, permitir e estimular a discussão e propor práticas que desenvolvam relações e ser parceiro de seus alunos na trajetória de aprendizagem. A autora termina destacando palavras-chave para este processo: interação, autonomia, ensino/aprendizagem bidirecional, sociointeracionismo, colaboração e reciprocidade.

A contribuição desta obra – ao narrar experiências de intercâmbio virtual com a perspectiva de ILE e ILF – principalmente neste momento em que vivemos, está na compreensão de que nem todas as práticas precisam ser “recriadas” e “inventadas”. Assim como defendi, juntamente com outros pesquisadores em outro trabalho (EL KADRI, EL KADRI; FINARDI, no prelo), também precisamos reconhecer o potencial de propostas colaborativas e com uso de linguagem em prática social que permeavam nossos currículos, a fim de evitar um ensino de línguas pautado na prática estrutural e no mero envio de atividades a serem realizadas pelos estudantes. Desse modo, propostas estruturadas, embasadas teoricamente e com respaldo amplo de suas potencialidades por pesquisadores da área – como é o caso das ações de telecolaboração – são significativas e não podem ser ignoradas neste momento.

Finalizo este prefácio ressaltando a necessidade de que práticas como essas, realizadas antes do momento de pandemia para o ensino de línguas são alternativas viáveis para o ensino em diferentes contextos em tempos de ensino remoto, pois, em consonância com Castells, acredito que:

nosso mundo é e será necessariamente híbrido, feito de realidade carnal e realidade virtual. É uma cultura da virtualidade real, porque essa virtualidade é uma dimensão fundamental da nossa realidade. E quando ameaças como a atual pandemia surgem sobre nossas vidas, podemos nos retirar, adaptar e recomeçar, sempre em direção ao abraço, que, é claro, não podemos e nem queremos virtualizar” (CASTELLS, 2020).

 

Michele Salles El Kadri

Doutora em Estudos da Linguagem

Universidade Estadual de Londrina

Programa de Pós-Graduação em Educação (PPEDU – UEL)

Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem

(PPGEL – UEL)

Mestrado Profissional em Letras Estrangeiras Modernas

(MEPLEM – UEL)

 

Referências

 

CASTELLS, M. O Digital é o novo normal. Fronteiras do Pensamento. Porto Alegre, 26 maio 2020. Disponível em:

https://www.fronteiras.com/artigos/o-digital-e-o-novo-normal?

fbclid=IwAR1iTxx5DuuO-

wpo4CFM3a6IeCsfgk5GLOZ6CpGxbL6gjZSaicpLLvI0Hng,%20aces

so%20em%2001/06/2020. Acesso em: 21 jul. 2020.

 

EL KADRI, A.; EL KADRI, M.S.; FINARDI, K. Affordances percebidas por professores em formação acerca do desenvolvimento linguístico nas interações de Teletandem: possibilidades para o aprendizado linguístico em tempos de pandemia. (no prelo).