Perspectivas educacionais e novas demandas: a telecolaboração

Daniela Nogueira de Moraes Garcia · Capítulo 14 de 15

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Perspectivas educacionais e novas demandas: a telecolaboração

Considerações finais

 

O intuito do presente livro consolida-se a partir da inquietação com pacatas ações pedagógicas e com turbinadas possibilidades tecnológicas. Assim, esquadrinhando as questões aqui discutidas e as perspectivas apresentadas, a globalização, tecnologias e mídias impelem a educação a redimensionamentos de práticas e papéis, de forma a contemplar as demandas despontantes.

O momento mundial de pandemia e suas decorrentes inúmeras incertezas têm desestabilizado cenários e práticas. Mais do que nunca, as tecnologias têm marcado sua presença como forma de conectar pessoas confinadas em seus espaços em distanciamento ou isolamento social. A atual época, sem precedentes, potencializa conexões e compele descobertas para agregar conhecimento. Porém, para além dos benefícios, potencializa, também, desnivelamentos e exclusões de longa data já conhecidos, mas que agora etão escancarados à sociedade.

Trata-se de um período que evidenciará diferenças, semelhanças, esforços, descobertas, empatia, mas, acima de tudo, conhecimento. Este livro constituiu-se de uma tentativa de retratar desbravamentos com vistas às práticas passíveis de exequibilidade, mediante acesso à tecnologia e conexão à internet. Assim, com o objetivo de empreender esforços rumo à maximização de acesso aos povos, culturas, línguas e troca de conhecimentos.

A partir do diálogo com autores e estudos que se ocuparam de ações pedagógicas em contextos conectados, busquei conjecturar tendências passíveis de implementação e flexibilidade para contextos e áreas multifacetados. A trajetória pretendida perpassou a conscientização, inclusão, humanização, rupturas e inovações na construção conjunta do processo de ensinar/aprender por professores e estudantes.

As ações de intercâmbio virtual exploraram o cenário das línguas estrangeiras mas, como já afirmado, podem ser empregadas em demais áreas do conhecimento. No caso do teletandem, minha familiaridade e atuação no projeto desde seu início me permitem transitar com segurança por prismas diversos da experiência de colaboração on-line e pelas questões que envolvem sua logística. Toda essa bagagem foi muito necessária para explorar a telecolaboração estabelecida em inglês como língua franca e a desafiadora perspectiva de utilização de apenas uma língua por um período maior de tempo.

Diante dos inúmeros acompanhamentos de interações e condução de mediações que realizei, presenciei “borboletas no estômago”, risos escondidos e espalhafatosos, frustrações no semblante, alegrias na alma, motivações nos olhos e um barulho indescritível gerado pela conversa tímida ou empolgante dos parceiros brasileiros quando em colaboração on-line. E, mesmo reconhecendo que há sim um processo organizacional que demanda grande comprometimento, entendo que a modernização nos engloba e nos impulsiona para a integração de tecnologias, contextos, aplicativos, mídias e um renovar de concepções para ensinar/aprender.

Na condução e no compartilhamento de experiências de intercâmbio virtual, deparei-me com cenários instigadores de desenvolvimento de questões, muitas vezes, despercebidas quando nos colocamos à frente do quadro verde ou da lousa branca digital, questões essas que permitem o exercício de uma língua, de uma postura crítico-reflexiva, de autonomia, reciprocidade, de promoção de olhares transculturais e nacionais e, acima de tudo, da perspectiva humanizadora da educação. Assim, ainda que identificando muitos desafios, como apontados ao longo do texto, compreendo que esta seja uma perspectiva em ascensão, que requer disposição e engajamento mas, ainda, carente de olhares destemidos.

Esclareço que, durante a pandemia, ações de intercâmbio virtual têm se estabelecido a partir do grande engajamento de professores/ pesquisadores/mediadores brasileiros e estrangeiros. As sessões têm sido organizadas pelas instituições, segundo logística descrita, e os participantes, cada qual de seu próprio contexto em distanciamento social, têm interagido de forma autônoma, nos ambientes e horários que lhes são convenientes. O suporte dos professores/pesquisadores /mediadores está disponível por e-mail, Whatsapp ou Facebook, dependendo dos acordos estabelecidos com os participantes. Apesar de a situação demandar a extrapolação da presença física dos participantes nos laboratórios das instituições, a possibilidade de trocas pautadas na aprendizagem supera as adversidades físicas com o suporte das tecnologias e constituem-se opção para driblar os encontros físicos e contextos de ensino/aprendizagem.

A ilustração a seguir contempla o mundo que se expande pelos limites de uma máquina conectada à internet e, dessa forma, há um entrecruzar de possibilidades que podem auxiliar na configuração de cenários distintos. No âmbito da educação, como propôs o presente livro, podemos observar, nas tecnologias, opções e caminhos diversos, em consonância com propósitos bem delineados. A ilustração sugere a multiplicidade de conjunturas possibilitada pela conjugação de um notebook e a internet ou a nuvem e, a partir daí, intenções de promover construção significativa de conhecimento podem operar de modo a concretizar objetivos diante de alunos e professores.

Ilustração 8 - Multiplicidade de conjunturas

 

Fonte: Ilustração de Felipe dos Santos Ribeiro.

 

Reconhecendo, também, que o cenário tecnologizado não irá dar conta de todas as situações de desacertos e dificuldades educacionais que vivenciamos, destaco os desafios e impasses listados por Telles (2009). Ainda que reportados há mais de uma década, merecem um olhar de cautela, pois podem preservar e/ou maximizar contextos ou propostas. Na concepção do pesquisador,

 

Problemas comuns dentre os muitos encontrados até o momento são: as limitações tecnológicas de conexão e dos aplicativos de teleconferência, a preparação do aprendiz para um modo tão autônomo, individualizante e, ao mesmo tempo, colaborativo de aprendizagem (preparação esta que inclui desde instruções para lidar com o novo meio de teleconferência às estratégias de ensino e aprendizagem, via teletandem), choques de relações interculturais entre os parceiros, o trabalho de mediação entre os pares (a ser exercido pelo professor de LE), pontualidade dos pares para estarem presentes no meio virtual e buscas de redefinições do papel e de preparação profissional do professor de línguas estrangeiras para este novo contexto de ensino/aprendizagem (TELLES, 2009, p. 72).

 

Entendo, como o autor, que não estamos diante de fácil solução para questões que exigem multidisciplinaridade de olhares. Todavia, para educadores engajados em novas ações, essas indagações podem constituirse inspiração.

Como apontam Souza e Santos (2019, p. 46-47), “a tecnologia, por si só, não se apresenta como um diferencial, mas o modo como a utilizamos é que vai determinar a sua influência na educação”. Assim, diante da maximização de possibilidades tecnológicas que têm permeado os diversificados âmbitos da sociedade, identificamos, atualmente, no ambiente de ensino/aprendizagem, componentes que podem se fazer presentes, integrando linguagens, semioses e suportes, mas que, para isso, requerem competência e habilidades de uso sob a ótica social.

Diante da pluralidade identificada, vislumbramos que novos papéis exigem novas posturas. Portanto, não podemos conceber multiletramentos, multimodalidades e uma conectividade mundial sem precedentes para a condução de atividades descontextualizadas ou que enfoquem a perpetuação de conteúdos com fim em si mesmo. Professor e aluno devem assumir a desafiadora jornada de adentrar ambientes desconhecidos em prol de uma construção significativa de conhecimento. Para tal, faz-se relevante preparo e pré-disposição para aprender em todos os momentos.

Este livro nos mostrou que a compreensão de que todos aprendem e todos ensinam pode auxiliar muito a efetuar ajustes e remanejamentos, a começar pela sala de aula, ambiente rico, que abriga questionamentos, compartilhamentos e que impulsiona novas relações de ensino/aprendizagem. A extrapolação das paredes e do cenário de ensinar/aprender constitui-se o primeiro passo para o entendimento de que estamos todos inseridos em um mundo globalizado, internacionalizado e muito conectado e que, diante disso, o panorama se expande para a construção de seres humanos que co-participam de uma educação valiosa.

Isso nos permite afirmar com segurança que, a partir de práticas exitosas, integradas e integradoras, poderemos apreciar exponenciais mudanças pela dinamização da formação de alunos e professores e, acima de tudo, atender peculiaridades e gerar protagonistas, pessoas melhor preparadas para atuar em nossa sociedade.