Perspectivas educacionais e novas demandas: a telecolaboração

Daniela Nogueira de Moraes Garcia · Capítulo 6 de 15

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Perspectivas educacionais e novas demandas: a telecolaboração

1.3. A transição 2019-2020

De acordo com Redecker (2017, p. 12),

 

[a] onipresença das tecnologias digitais tem profundamente alterado quase

todos os aspectos das nossas vidas: a maneira pela qual nos comunicamos,

trabalhamos, apreciamos o tempo de lazer, organizamos nossas vidas e

buscamos conhecimento e informação. Tem alterado como pensamos e nos

comportamos. As crianças e os jovens estão crescendo em um mundo onde as

tecnologias digitais são onipresentes. Eles não conhecem e nem podem

conhecer nada diferente. Isso não significa, entretanto, que estejam

naturalmente equipados com as habilidades corretas para usar as tecnologias

digitais de forma eficaz e consciente.

 

Considerando que o propósito aqui não foi o de se aprofundar nas perspectivas mundiais, mas apenas trazê-las de modo a identificar metas no caminho da educação e do uso das tecnologias, como inspiração para trabalhos futuros. Aconselho uma leitura mais dedicada das temáticas em caso de interesse.

 

A transição 2019-2020

 

A partir do panorama de globalização de influências tecnológicas no processo de ensino/aprendizagem, conforme retratado até então, fazse imprescindível abordar a situação que se instaurou, mundialmente, no final do ano de 2019, seguindo em 2020. A pandemia causada pelo novo coronavírus - Covid-19 - se espalhou por todos os continentes. De contágio extremamente ágil e facilitado, tem, ainda, suspendido expedientes, eventos, reuniões e afetado o mundo, como jamais visto. Com seu início na Ásia, o avanço da doença foi inacreditavelmente veloz, trazendo grande devastação para os mais variados setores da sociedade. Depois de ter se espalhado para a Oceania, África, Europa e, finalmente, para a América, o Brasil começou a ser atingido em meados de fevereiro/março de 2020.

A referida pandemia impactou nosso país sobremaneira no início do mês de março, gerando caos num cenário sem precedentes. Após quatro meses, o país, ainda, vivencia uma conjuntura de obscuridade, marcada por óbitos, pânico, perdas nas mais diversas esferas, instabilidade econômica, política e emocional em proporções imensuráveis.

O foco aqui se assenta sobre o ambiente educacional como forma de deslindar perspectivas favoráveis para amparar realidades postas. A partir da suspensão de quaisquer encontros presenciais e aglomerações, a internet e as tecnologias passaram a se constituir sustentáculos na educação, assumindo o protagonismo para viabilizar ações em muitos contextos e trazendo desafios para escolas, professores e alunos diante de improteláveis reconfigurações.

Ross e DiSalvo (2020, p. 4) apresentam importantes considerações acerca do momento atual e do contexto educacional. Apesar de olharem para sua própria instituição, a Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, entende que, pela pandemia, educadores, alunos e instituições se familiarizam/solidarizam com os apontamentos realizados. Os pesquisadores afirmam que

 

[…] nosso foco deveria recair sobre nossos alunos; muitos de nós em papéis de

apoio concentramos nossos esforços em preparar nossos colegas docentes

para ensinar de forma bem sucedida neste contexto sem precedentes (…)

professores são multiplicadores de efeito para a informação e formação que os

laboratórios de línguas concebem e distribuem. Nossos estudantes, no entanto,

não estão necessariamente preparados para aprender nesta circunstância.

Muitos nunca fizeram um curso on-line; alguns têm acesso limitado à tecnologia

que irá providenciar o suporte para essa empreitada. Alguns sem um espaço

próprio para trabalhar. Alguns são sem teto. Nós tomamos a iniciativa de

oferecer conselhos para alunos que estão, como nós, deslocados de nosso

campus, preocupados com nossos amigos e colegas e tendo que remediar-se

com espaços e recursos que nos cercam em nossas casas. Sugerimos técnicas

para gerenciamento, estratégias para comunicação com docentes e alunos,

auto-cuidado e dicas para melhor aproveitar as atividades síncronas que uma

aula de língua requer. Muitas dessas recomendações não se destinam apenas a

aprendizes de línguas mas antes constituem-se estratégias essenciais para

nossos alunos utilizarem enquanto prevemos a possibilidade um semestre online

e esperamos um bom engajamento dos nossos alunos nas tarefas em questão.

 

Em horas, dias e meses, a realidade educacional tem sido alterada num processo de (re)descoberta de ferramentas, aplicativos, plataformas que auxiliem educadores e educandos a cumprir a jornada acadêmica em curso. De forma desvairada, também, se dá a corrida por soluções para garantir o acesso à educação em um contexto onde a escola é provedora de conhecimento, alimentação, bem-estar. As desigualdades sociais, de forma acentuada no Brasil, afloraram com a pandemia e, enquanto muitos caminham a passos largos nas atividades remotas, outros empenham-se para garantir condições (mínimas) de energia elétrica, equipamentos e tecnologias e, também, conhecimento para operá-los como forma de acessar o direito básico à educação, em curso.

Na esperança de um olhar público para minimizar o caótico panorama, o presente trabalho busca esperança em teorias e práticas que possam iluminar caminhos e tempos desditosos.

As próximas ilustrações5 se baseiam em realidade ampla e incansavelmente revelada em jornais, noticiários e redes sociais e aqui são compartilhadas de modo a exemplificar o novo cotidiano recorrente da presente época.

A partir de diversificados suportes e mídias, deparamo-nos com a descomunal necessidade da tecnologia e conexões à internet de modo

inesperado. A ilustração 1 demonstra o uso da tecnologia móvel para atender demanda emergencial dentro de um centro hospitalar de tratamento intensivo de forma a propiciar uma visita virtual, por meio de aplicativo de videochamada, na tentativa de aproximar um paciente de sua família, considerando o impedimento de contato físico.

Ilustração 1 - Utilização de tecnologia móvel para realizar visita

virtual em ambiente hospitalar

 

Fonte: Ilustração de Felipe dos Santos Ribeiro.

 

A ilustração 2 refere-se ao cenário educacional esvaziado conforme orientações mundiais, nacionais e estatais, em consonância com a Organização Mundial da Saúde (OMS) na tentativa de minimizar a contaminação pelo Covid-19. Dentre as notícias, a ênfase recai na suspensão das aulas, especulações da pandemia e dos possíveis danos de medidas adotadas à educação.

 

Ilustração 2 - Esvaziamento das salas de aula no país e no

mundo

Fonte: Ilustração de Felipe dos Santos Ribeiro.

 

As próximas ilustrações demonstram ambientes de homeschooling, termo em inglês destinado à educação domiciliar cuja responsabilidade recai nos pais ou responsáveis e que suspende o comparecimento à escola. Transportando tal conceito para a realidade vigente, compreende-se a permanência do aluno em sua própria casa, geralmente assistido pelos pais/responsáveis, com aulas/instruções/orientações oferecidas pelas escolas e seus professores de modo que os conteúdos possam ser retomados/revisados/ensinados por meio de aulas síncronas ou assíncronas com o suporte de computadores, celulares, tablets ou canais abertos na televisão.

A situação de um aluno, em seu quarto, com a organização de um ambiente educacional para suas atividades pode ser visualizada na Ilustração 3. Como se pode observar, a instrução é oferecida por meio de um aparelho de televisão.

 

Ilustração 3 - Instrução realizada pela televisão

 

Fonte: Ilustração de Felipe dos Santos Ribeiro.

 

Como forma de exemplificação e esclarecimento, a rede pública estadual de ensino de São Paulo tem produzido videoaulas, transmitidas em plataforma digital e em um canal aberto da televisão e, por meio de um aplicativo, a interação com professores é viabilizada. Dessa forma, o conteúdo escolar de ensino fundamental e médio tem sido disponibilizado como forma de minimizar os efeitos da impossibilidade dos encontros presenciais. Perspectivas futuras apontam para a elaboração de conteúdos para atender, também, a educação infantil.

Além da organização interna das escolas com oferta de blogs, lives, palestras, entrega e recebimento de alimentos e trabalhos/avaliações, observam-se, também, as ações referentes às aulas promovidas pelo

governo estadual. A figura 4 apresenta um exemplo de cronograma de turmas, horários, meio e disciplinas de um determinado dia de aulas de uma escola estadual do estado de São Paulo. A escola se responsabiliza por estabelecer um canal de comunicação com os alunos por meio do Facebook, no qual tal cronograma é atualizado diariamente e divulgado com o lembrete de que o acesso pode ocorrer por lá, pelo aplicativo, YouTube e TV.

 

Figura 4 - Exemplo de cronograma diário de aulas de uma

escola pública do estado de São Paulo

 

Fonte: https://www.facebook.com/PEIjoseaugusto (Escola José

Augusto Ribeiro, 2020)

A ilustração 4, abaixo disposta, revela, em um ambiente interno, uma criança de menor idade, acompanhada de um adulto/responsável, recebendo instrução por meio de um notebook.

 

Ilustração 4 - Criança durante aula em casa, acompanhada por

um responsável

 

Fonte: Ilustração de Felipe dos Santos Ribeiro.

 

Na ilustração 5, observa-se um estudante, quando em aula online frequentada por demais pessoas na tela do computador. A utilização de aplicativo de videoconferência, quer em versões pagas ou gratuitas, tornou-se muito recorrente como tentativa de promover o processo de ensino/aprendizagem de via remota realizada por várias instâncias educacionais. A imagem, porém, contrasta com reincidentes notícias de dificuldades de acesso a equipamentos e conexões, disponibilizadas nas mídias.

Ilustração 5 - Ensino remoto por aplicativo de videoconferência

 

Fonte: Ilustração de Felipe dos Santos Ribeiro.

 

Dada a facilidade e portabilidade, o celular constitui-se equipamento muito tradicional acessível à maioria da população. Dessa forma, designa, também, suporte para o andamento das atividades

pedagógicas realizadas virtualmente. A ilustração 6 enfoca a utilização do celular pelo aluno no acompanhamento de uma aula sendo transmitida em ambiente virtual. É possível observar que o professor utiliza uma lousa para explicação de conteúdo. Na emergente troca de ambiente físico para virtual, muitos educadores, também, precisaram buscar conhecimentos técnicos/tecnológicos e, também, remanejar seus acessos e espaços de forma a driblar desafios e ministrar suas aulas de forma mais apropriada.

 

Ilustração 6 - Acompanhamento de ensino remoto pelo celular

Fonte: Ilustração de Felipe dos Santos Ribeiro.

 

 

E, sobre educadores e condução de ações, a ilustração 7 retrata um professor, de posse de uma lousa, utilizando seu notebook. No exercício da docência, ele está transmitindo ou gravando uma aula por meio de uma câmera associada a demais equipamentos. O manejo de aparelhos, suportes e mídias aliado à autonomia têm sido amplamente exercitado, mediante tecnologias, de modo a realizar atividades, ainda que sob a forma de isolamento, fora do contato com a equipe gestora escolar e alunos.

Ilustração 7 - Professor em processo de transmissão ou

gravação de aula

 

Fonte: Ilustração de Felipe dos Santos Ribeiro.

 

Enfocando o indefinido cenário em tempos de pandemia, descrevo ações educacionais que vêm sendo realizadas de forma a manter o contato, ainda que virtual, entre professores, alunos e conteúdos. Tratase de medida para atender necessidades imediatas, concentrando esforços para minimizar perdas pedagógicas uma vez que a escola, enquanto ambiente físico, foi abruptamente suspensa.

Ferdig et al. (2020) apresentam um vasto trabalho que compilou questões e perspectivas emergentes em cenário educacional mundial a partir do Covid-19. Posto em uma intersecção entre a tecnologia e a educação de professores, o livro agrega pesquisas e pesquisadores de vários países como Alemanha, Austrália, Áustria, Canadá, China, Estados Unidos, Finlândia, Grécia, Holanda, Índia, Inglaterra, Irlanda, Israel, Marrocos, Nova Zelândia e Suécia. As temáticas retratadas perpassam estratégias pedagógicas on-line, colaboração, formação inicial e continuada de professores, métodos e pedagogias e ferramentas digitais, às quais retornarei em breve.

Em variadas instâncias, aulas têm sido ministradas em tempo real ou gravadas para posterior compartilhamento e acesso. Sem precedentes, buscam-se maneiras para possibilitar encontros e o alcançabilidade a conteúdos. As tecnologias passam, assim, inesperadamente, do dia para noite, a integrar o cotidiano educacional de forma bastante intensa. A disponibilidade e o domínio das ferramentas, também, passam a ser prioritários. Certamente que, nesse atropelo de necessidades, um planejamento, de várias ordens, se faz necessário para que professores, conhecimento e alunos possam, regularmente, estabelecer encontros sistemáticos por meio da internet ou transmissões via sinal digital de antena. Assim, imprevistos com acesso, equipamentos e conexões constituem-se os desafios da nova rotina escolar, quer a nível infantil, fundamental, médio, municipal, estadual, ou privado, quer a nível superior, estadual, federal ou privado.

Como já mencionado, Ross e DiSalvo (2020, p. 1) reconhecem a descontinuidade na educação gerada pela crise do Covid-19 e apresentam, no estudo, um panorama de ações para atenuar os efeitos da transição para o ensino e aprendizagem remotos na Universidade de Harvard (Estados Unidos). Os autores abordam mudanças em estratégias de comunicação e políticas de atuação às quais retornarei mais adiante.

 

[a] crise do COVID-19 tem interrompido práticas de ensino e aprendizagem em

muitas instituições de ensino superior com uma alta população residencial. O

presente artigo resume a situação da Harvard University e detalha as ações do

Centro de Línguas para atenuar os efeitos da transição para o ensino e

aprendizagem remotas. Estas incluem mudanças nas estratégias de

comunicação, mecanismos de suporte para docentes e estudantes e

modificações nas políticas operacionais do Centro. Os autores oferecem um

número de recomendações concretas para unidades de suporte acadêmico em

transições deste tipo.

 

Considerando-se o quadro que aqui se compõe, em uma trajetória de anos e, também, dias mais recentes, vislumbro um cenário profícuo na associação de mecanismos e atividades de potencial comprovados que podem atender, também, necessidades emergenciais na educação diante de crise instaurada. Não as vejo como forma de extinguir dificuldades, mas como possível meio de minorar situação vigente e coadjuvar em processos transitórios.

Diante do exposto, apresento, a seguir, ações de intercâmbio virtual que vêm sendo realizadas no ensino superior, no contexto de aulas de língua inglesa, como forma de atender carecimentos de formação de ensino/aprendizagem no Câmpus e que podem, também, ser utilizadas em momento de isolamento social. Embora, em muitas vezes, a teoria aqui trazida enfatize o ensino de línguas, dado o caráter de parcerias internacionais e as experiências que serão compartilhadas, esclareço que uma ampliação de áreas é muito pertinente e exequível em

variados contextos. Estabeleço, assim, no capítulo 3, a teoria consonante às práticas telecolaborativas como ponto de partida para as reflexões que vêm sendo construídas.