Perspectivas educacionais e novas demandas: a telecolaboração
1.2. Perspectivas mundiais
Bacich e Moran (2018, p. x) defendem que:
[é] preciso reinventar a educação, analisar as contribuições, os riscos e as
mudanças advindas da interação com a cultura digital, da integração das TDIC,
dos recursos, das interfaces e das linguagens midiáticas à prática pedagógica,
explorar o potencial de integração entre espaços profissionais, culturais e
educativos para a criação de contextos autênticos de aprendizagem
midiatizados pelas tecnologias.
É importante atentar que a integração dos fatores expostos na figura
1 visa a maximização do ensinar/aprender de forma a contemplar necessidades e os supracitados contextos autênticos que estão postos na atualidade. E, como afirmam os autores, reinventar a educação, tarefa longe de ser fácil, mas tão necessária diante do bombardeio digital e da flexibilização da aprendizagem, quer em ambientes físicos quer em virtuais. Dudeney et al. (2016), reconhecem, nas últimas décadas, transformações dos espaços físicos com uma estruturação rigidamente imposta para um reposicionamento e criação de espaços flexíveis, físicos ou virtuais, com vistas a abordagens que focam a participação ativa, a colaboração e a personificação. Para os autores, “[m]esmo um tímido princípio pode ser o suficiente para estabelecer uma nova direção na formatação de espaços de aprendizagem” (DUDENEY et al., 2016, p. 311).
Ainda, na consideração dos novos cenários e demandas, discorro, rapidamente, acerca de perspectivas mundiais que se alinham à compreensão do potencial das tecnologias em vista de demandas educacionais enfocada no presente livro.
Perspectivas mundiais
Nota-se relevância em uma publicação da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura), de 2015, constituindo-se em um documento gerado a partir da Consultoria Técnica sobre Educação para a Cidadania Global. Este evento, de 2013, juntamente com o Primeiro Fórum da UNESCO sobre Educação para a Cidadania Global, também, realizado em 2013, com contribuições de outros institutos especializados promoveram contextos para discussão e melhor entendimento da educação para cidadania global de forma que conhecimento, habilidades e valores integrem o processo educacional com vistas a um mundo justo e sustentável (UNESCO, 2015).
No intuito de elucidar, segue uma definição de Educação para a cidadania global (EGC).
[a] ECG é um marco paradigmático que sintetiza o modo como a educação pode
desenvolver conhecimentos, habilidades, valores e atitudes de que os alunos
precisam para assegurar um mundo mais justo, pacífico, tolerante, inclusivo,
seguro e sustentável.
Ela representa uma mudança conceitual, pois reconhece a relevância da
educação para a compreensão e a resolução de questões globais em suas
dimensões sociais, políticas, culturais, econômicas e ambientais. Também
reconhece o papel da educação em ir além do desenvolvimento do
conhecimento e de habilidades cognitivas e passar a construir valores,
habilidades socioemocionais (soft skills) e atitudes entre alunos que possam
facilitar a cooperação internacional e promover a transformação social
(UNESCO, 2015, p. 9).
Dessa forma, nota-se uma ampliação do escopo no qual a educação se mostra como fator de crescimento para atuar para além da sala de aula, buscando agregar conhecimento à capacitação de indivíduos para atuar no mundo que nos cerca. Nessa referida ampliação, as tecnologias e conexões promoverão um cenário mais humanizador na e pela educação. É pertinente, assim, olhar para esses estudos e possibilidades que despontam em um cenário mundial interconectado para buscar inspiração e subsídios para o cenário educacional.
[e]m um mundo globalizado, a educação vem enfatizando a importância de
equipar indivíduos desde cedo e por toda a vida, com conhecimentos,
habilidades, atitudes e comportamentos de que necessitam para serem cidadãos
informados, engajados e com empatia. Com essa interconectividade cada vez
maior, por exemplo, por meio de TIC e também redes sociais, as oportunidades
para respostas de colaboração, cooperação, aprendizagem compartilhada e
coletivas têm aumentado (UNESCO, 2015, p. 11).
É interessante observar, conforme documento oficial, um despertar do mundo para questões de inclusão e colaboração que se delineiam a partir das conexões a internet e possibilidades geradas. Despertar esse que muito dialoga com as inquietações do presente livro.
[o]portunidades de aprendizagem online também são importantes para a ECG e
podem incluir o uso de plataformas de aprendizagem, redes sociais e internet a
distância para pesquisar questões e completar projetos, incluindo trabalho
colaborativo. Abordagens inovadoras incorporam um ambiente misto de
aprendizagem, com atividades online e offline, de forma que a aprendizagem
não esteja confinada à tela do computador e que existam oportunidades para
aprendizagem colaborativa e experiências práticas (UNESCO, 2015, p. 29).
A expressão 21st Century Skills (Habilidades para o Século XXI) agrega-se às preocupações em compor um eficiente e diferenciado cenário educacional com base em competências, capacidades e mentalidades. Para o Glossary of Education Reform (2016, n.p.),
[o] termo 21st century skills se refere a uma ampla gama de conhecimento,
habilidades, hábitos de trabalho e traços da personalidade sobre os quais se
acreditam – por educadores, reformadores escolares, professores universitários,
empregadores e outros- ser criticamente importante para o sucesso no mundo
atual, particularmente em programas colegiados e carreiras e locais de trabalho
contemporâneos. Em geral, as 21st century skills podem ser aplicadas em todas
as áreas acadêmicas, em contextos educacionais, de carreira, civil por toda a
vida do aluno1.
Tais habilidades poderiam ser ensinadas ou promovidas de modo a potencializar o futuro dos aprendizes frente à era da internet. Stauffer (2019) lista as doze habilidades: pensamento crítico, criatividade, colaboração, comunicação, letramento de informação, letramento de mídia, letramento de tecnologia, flexibilidade, liderança, produtividade e
habilidades sociais2. A autora, ainda, estabelece três categorias para agrupá-las, a saber: habilidades de aprendizagem, habilidades de
letramento e habilidades de vida, como se pode observar na figura 2.
Figura 2 - The Three 21st Century Categories
Fonte: Stauffer (2019, n.p.).
As referidas habilidades são recorrentes em documentos e publicações internacionais (ANANIDOU; CLARO, 2009; LAMBRECHTS, 2019). Meu propósito em trazê-las para o bojo deste trabalho é fomentar um repensar para nosso cenário educacional. Com o suporte das tecnologias e mídias e as demandas de um mundo interconectado, educadores e educandos podem participar, de forma conjunta, de uma construção significativa de conhecimento para um processo que ultrapassa a escola e a vida escolar e busca humanização e integração. Stauffer (2019, n.p.) refere-se às habilidades para que os estudantes se tornem competitivos para o mercado de trabalho variável. Aqui, porém, não considero que tais habilidades privilegiem ou se destinem apenas ao mercado de trabalho mas à inserção do estudante, enquanto sujeito e cidadão, no mundo que nos rodeia, para produzir e receber significados, para interagir e crescer para além dos conteúdos escolares.
Redecker (2017, p.8) apresenta um relatório 3 intitulado European
Framework for the Digital Competence of Educators 4 (DigCompEdu) que tem por finalidade oferecer base científica para o processo de criação de políticas europeias. Segundo a autora, o DigCompEdu “atende a uma crescente conscientização dentre vários membros de estados europeus que os educadores precisam de uma gama de competências voltadas para a profissão para que possam apropriar-se das tecnologias digitais para melhorar e inovar a educação”.
O quadro DigCompEdu reflete sobre instrumentos e os sintetiza em um modelo coerente e detalhado de competências, áreas e estágios que, a partir de esforços nacionais e regionais, visa fomentar a avaliação e o desenvolvimento da competência digital do educador. Destina-se a todos os níveis da educação, aberto a adaptações e
modificações conforme as necessidades. Observe a figura 3.
Figura 3 - The DigCompEdu Framework
Fonte: Redecker (2017, p. 8).