Perspectivas educacionais e novas demandas: a telecolaboração

Daniela Nogueira de Moraes Garcia · Capítulo 5 de 15

Páginas do PDF

Perspectivas educacionais e novas demandas: a telecolaboração

1.2. Perspectivas mundiais

Bacich e Moran (2018, p. x) defendem que:

 

[é] preciso reinventar a educação, analisar as contribuições, os riscos e as

mudanças advindas da interação com a cultura digital, da integração das TDIC,

dos recursos, das interfaces e das linguagens midiáticas à prática pedagógica,

explorar o potencial de integração entre espaços profissionais, culturais e

educativos para a criação de contextos autênticos de aprendizagem

midiatizados pelas tecnologias.

 

É importante atentar que a integração dos fatores expostos na figura

1 visa a maximização do ensinar/aprender de forma a contemplar necessidades e os supracitados contextos autênticos que estão postos na atualidade. E, como afirmam os autores, reinventar a educação, tarefa longe de ser fácil, mas tão necessária diante do bombardeio digital e da flexibilização da aprendizagem, quer em ambientes físicos quer em virtuais. Dudeney et al. (2016), reconhecem, nas últimas décadas, transformações dos espaços físicos com uma estruturação rigidamente imposta para um reposicionamento e criação de espaços flexíveis, físicos ou virtuais, com vistas a abordagens que focam a participação ativa, a colaboração e a personificação. Para os autores, “[m]esmo um tímido princípio pode ser o suficiente para estabelecer uma nova direção na formatação de espaços de aprendizagem” (DUDENEY et al., 2016, p. 311).

Ainda, na consideração dos novos cenários e demandas, discorro, rapidamente, acerca de perspectivas mundiais que se alinham à compreensão do potencial das tecnologias em vista de demandas educacionais enfocada no presente livro.

 

Perspectivas mundiais

 

Nota-se relevância em uma publicação da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura), de 2015, constituindo-se em um documento gerado a partir da Consultoria Técnica sobre Educação para a Cidadania Global. Este evento, de 2013, juntamente com o Primeiro Fórum da UNESCO sobre Educação para a Cidadania Global, também, realizado em 2013, com contribuições de outros institutos especializados promoveram contextos para discussão e melhor entendimento da educação para cidadania global de forma que conhecimento, habilidades e valores integrem o processo educacional com vistas a um mundo justo e sustentável (UNESCO, 2015).

No intuito de elucidar, segue uma definição de Educação para a cidadania global (EGC).

 

[a] ECG é um marco paradigmático que sintetiza o modo como a educação pode

desenvolver conhecimentos, habilidades, valores e atitudes de que os alunos

precisam para assegurar um mundo mais justo, pacífico, tolerante, inclusivo,

seguro e sustentável.

 

Ela representa uma mudança conceitual, pois reconhece a relevância da

educação para a compreensão e a resolução de questões globais em suas

dimensões sociais, políticas, culturais, econômicas e ambientais. Também

reconhece o papel da educação em ir além do desenvolvimento do

conhecimento e de habilidades cognitivas e passar a construir valores,

habilidades socioemocionais (soft skills) e atitudes entre alunos que possam

facilitar a cooperação internacional e promover a transformação social

(UNESCO, 2015, p. 9).

 

Dessa forma, nota-se uma ampliação do escopo no qual a educação se mostra como fator de crescimento para atuar para além da sala de aula, buscando agregar conhecimento à capacitação de indivíduos para atuar no mundo que nos cerca. Nessa referida ampliação, as tecnologias e conexões promoverão um cenário mais humanizador na e pela educação. É pertinente, assim, olhar para esses estudos e possibilidades que despontam em um cenário mundial interconectado para buscar inspiração e subsídios para o cenário educacional.

 

[e]m um mundo globalizado, a educação vem enfatizando a importância de

equipar indivíduos desde cedo e por toda a vida, com conhecimentos,

habilidades, atitudes e comportamentos de que necessitam para serem cidadãos

informados, engajados e com empatia. Com essa interconectividade cada vez

maior, por exemplo, por meio de TIC e também redes sociais, as oportunidades

para respostas de colaboração, cooperação, aprendizagem compartilhada e

coletivas têm aumentado (UNESCO, 2015, p. 11).

É interessante observar, conforme documento oficial, um despertar do mundo para questões de inclusão e colaboração que se delineiam a partir das conexões a internet e possibilidades geradas. Despertar esse que muito dialoga com as inquietações do presente livro.

 

[o]portunidades de aprendizagem online também são importantes para a ECG e

podem incluir o uso de plataformas de aprendizagem, redes sociais e internet a

distância para pesquisar questões e completar projetos, incluindo trabalho

colaborativo. Abordagens inovadoras incorporam um ambiente misto de

aprendizagem, com atividades online e offline, de forma que a aprendizagem

não esteja confinada à tela do computador e que existam oportunidades para

aprendizagem colaborativa e experiências práticas (UNESCO, 2015, p. 29).

 

A expressão 21st Century Skills (Habilidades para o Século XXI) agrega-se às preocupações em compor um eficiente e diferenciado cenário educacional com base em competências, capacidades e mentalidades. Para o Glossary of Education Reform (2016, n.p.),

 

[o] termo 21st century skills se refere a uma ampla gama de conhecimento,

habilidades, hábitos de trabalho e traços da personalidade sobre os quais se

acreditam – por educadores, reformadores escolares, professores universitários,

empregadores e outros- ser criticamente importante para o sucesso no mundo

atual, particularmente em programas colegiados e carreiras e locais de trabalho

contemporâneos. Em geral, as 21st century skills podem ser aplicadas em todas

as áreas acadêmicas, em contextos educacionais, de carreira, civil por toda a

vida do aluno1.

 

Tais habilidades poderiam ser ensinadas ou promovidas de modo a potencializar o futuro dos aprendizes frente à era da internet. Stauffer (2019) lista as doze habilidades: pensamento crítico, criatividade, colaboração, comunicação, letramento de informação, letramento de mídia, letramento de tecnologia, flexibilidade, liderança, produtividade e

habilidades sociais2. A autora, ainda, estabelece três categorias para agrupá-las, a saber: habilidades de aprendizagem, habilidades de

letramento e habilidades de vida, como se pode observar na figura 2.

Figura 2 - The Three 21st Century Categories

 

Fonte: Stauffer (2019, n.p.).

 

As referidas habilidades são recorrentes em documentos e publicações internacionais (ANANIDOU; CLARO, 2009; LAMBRECHTS, 2019). Meu propósito em trazê-las para o bojo deste trabalho é fomentar um repensar para nosso cenário educacional. Com o suporte das tecnologias e mídias e as demandas de um mundo interconectado, educadores e educandos podem participar, de forma conjunta, de uma construção significativa de conhecimento para um processo que ultrapassa a escola e a vida escolar e busca humanização e integração. Stauffer (2019, n.p.) refere-se às habilidades para que os estudantes se tornem competitivos para o mercado de trabalho variável. Aqui, porém, não considero que tais habilidades privilegiem ou se destinem apenas ao mercado de trabalho mas à inserção do estudante, enquanto sujeito e cidadão, no mundo que nos rodeia, para produzir e receber significados, para interagir e crescer para além dos conteúdos escolares.

Redecker (2017, p.8) apresenta um relatório 3 intitulado European

Framework for the Digital Competence of Educators 4 (DigCompEdu) que tem por finalidade oferecer base científica para o processo de criação de políticas europeias. Segundo a autora, o DigCompEdu “atende a uma crescente conscientização dentre vários membros de estados europeus que os educadores precisam de uma gama de competências voltadas para a profissão para que possam apropriar-se das tecnologias digitais para melhorar e inovar a educação”.

O quadro DigCompEdu reflete sobre instrumentos e os sintetiza em um modelo coerente e detalhado de competências, áreas e estágios que, a partir de esforços nacionais e regionais, visa fomentar a avaliação e o desenvolvimento da competência digital do educador. Destina-se a todos os níveis da educação, aberto a adaptações e

modificações conforme as necessidades. Observe a figura 3.

 

Figura 3 - The DigCompEdu Framework

 

Fonte: Redecker (2017, p. 8).