Perspectivas educacionais e novas demandas: a telecolaboração
1.1. Extrapolando contextos e pensamentos
em contextos institucionais que se tornam mais desafiadores em relação às
formas científicas de produção de inteligibilidade.
A sociedade tecnologizada e os desafios educacionais nos direcionam para um olhar atento para as novas demandas, que perpassam o ensinar e o aprender, a língua, o desenvolvimento de competências e um manejo das informações. Coscarelli e Kersch (2016) destacam os celulares, leitura dos textos da internet, mecanismos de navegação e estratégias. Neste livro, compartilhamos o pensamento das autoras de que vivemos em uma época na qual o potencial das conexões requer preparo, cautela, escolhas e estratégias de modo a buscar o foco pretendido no processo de ensino/aprendizagem.
Como apontam Souza e Santos (2019, p. 46-47), “a tecnologia, por si só, não se apresenta como um diferencial, mas o modo como a utilizamos é que vai determinar a sua influência na educação” Assim, diante da maximização de possibilidades tecnológicas que têm permeado os diversificados âmbitos da sociedade, identificamos, atualmente, no ambiente de ensino e aprendizagem, componentes que se fazem presentes, integrando linguagens, semioses e suportes e que requerem competência e habilidades de uso sob a ótica social.
Gomes (2016) reconhece uma “escola fora da escola” quando afirma que, com as tecnologias, o processo de aprendizagem perpassa todos os lugares. Dessa forma, é possível vislumbrar os novos cenários que se estabelecem diante de nossos olhos. A modernidade perpassa integração de conhecimento e tecnologias em prol de um consciente entendimento de práticas educacionais. Assim, abordo, em seguida, os espaços que têm sido observados para o processo de ensino/aprendizagem, perspectivas mundiais e o momento transitório atual.
Extrapolando contextos e pensamentos
O processo de ensino e de aprendizagem amplia horizontes e não pode apenas se restringir às paredes da sala de aula. Para Dudeney et al (2016, p. 309):
[r]ealmente, os atuais contextos de aprendizagem são um híbrido de espaços
físicos e virtuais que vão se sobrepondo, fluindo um para dentro do outro,
amarrados pelas novas tecnologias. Num cenário ideal (e num crescente
número de cenários do mundo real), espaços de aprendizagem físicos e virtuais
fortalecem a plasticidade uns dos outros. As tecnologias digitais nos dão acesso
a espaços virtuais de aprendizagem customizáveis, na medida em que
desamarram a educação das salas fixas, dos calendários estabelecidos e dos
programas de ensino pré-formatados dos tradicionais espaços físicos de
aprendizagem. Mas na medida em que nos deslocamos dos computadores de
mesa e dos notebooks e vamos tendo acesso crescente a nossos espaços
virtuais de aprendizagem por meio dos dispositivos móveis (…), nossos espaços
físicos de aprendizagem, também podem ir se tornando mais flexíveis e
customizáveis, com as salas de aula sendo reconfiguradas aula por aula e a
aprendizagem se difundindo pelos espaços em redes sem fio por todos os
cantos do mundo.
Além da compreensão da sala de aula como único ambiente para a aprendizagem, é imprescindível, também, que nossa compreensão acerca das tecnologias no cenário escolar extrapole pensamentos ligados, apenas, ao manejo das máquinas, aparelhos, aplicativos. Behrens (2013, p.106) reconhece que “[o] recurso por si só não garante a inovação, mas depende de um projeto bem-arquitetado, alimentado pelos professores e alunos que são usuários. O computador é ferramenta auxiliar no processo de ‘aprender a aprender’”. Fica claro que o domínio dos procedimentos, conexões ou acesso não garante, por si só, inovação nas práticas pedagógicas.
Moran (2004) utiliza o termo ‘verniz de modernidade’ em referência a uma capa de inovação para práticas antigas. A recorrência às tecnologias como forma de camuflar a mesmice ainda é, muitas vezes, identificada e não permite avanços e entrosamento no cenário escolar.
Assim, alinho-me a Roque (2018, p. 79), que pondera que,
[q]uando falamos sobre o uso da tecnologia na educação, não pensamos em
simplesmente dominar as “técnicas”, mas em considerar a sua potencialidade
para modificar as formas de ensino. Não há dúvidas de que o desafio é enorme,
mas é um esforço necessário, precisamos antes de tudo abrir mão da forma de
pensar o ensino segundo uma perspectiva hierárquica (centrada no professor) e,
sobretudo, depositária e passiva, para empreender uma fórmula que permita
instituir uma nova ordem mais colaborativa, coletiva e participativa por parte de
professores e, principalmente, aprendizes.
Além do domínio das técnicas, a percepção do processo e das potencialidades das tecnologias permitirá que ações pedagógicas mais robustas se concretizem rumo às demandas do presente século. Os currículos devem extrapolar o espaço físico, os livros didáticos e um processo educacional que, muitas vezes, ainda reconhece o protagonismo do professor e o papel coadjuvante dos alunos. A autonomia tem sido cada vez mais descoberta com as tecnologias e com a agilidade à informação propiciada por redes móveis, por exemplo. Não se pode, dessa forma, balizar o ensinar e o aprender às aulas de 50 minutos e nem apenas aos conteúdos previamente estabelecidos.
De acordo com Moran (2013, p. 30):
[a]s tecnologias digitais móveis desafiam as instituições a sair do ensino
tradicional, em que o professor é o centro, para uma aprendizagem mais
participativa e integrada, com momentos presenciais e outros com atividades a
distância, mantendo vínculos pessoais e afetivos, estando juntos virtualmente.
A valorização tanto do professor, quanto do aluno, como detentores de conhecimento e componentes primordiais do processo, fará toda a diferença, no que tange à compreensão dos novos cenários de aprendizagem física e virtual do século XXI.
É possível afirmar que os novos cenários, que se instauram a partir das questões já mencionadas, merecem prudência. Destaco a relevância de buscar um compasso entre a escola e as práticas educacionais tecnologizadas, pois o processo de ensino/aprendizagem se estabelece, de forma contínua, dentro e fora dos limites escolares. Sendo assim, observa-se a pertinência em driblar dificuldades e desafios inerentes aos ambientes e práticas em prol de ações inclusivas e humanizadoras na educação.
A inovação e flexibilização nos circundam, em casa, na escola, na rua e, robustecem a educação. A maximização de oportunidades deve ser cogitada em prol de uma educação inovadora, como aponta Moran:
[u]ma educação inovadora se apoia em um conjunto de propostas com alguns
grandes eixos que lhe servem de guia e de base: o conhecimento integrador e
inovador; o desenvolvimento da autoestima e do autoconhecimento (valorização
de todos); a formação de alunos empreendedores (criativos, com iniciativa) e a
construção de alunos-cidadãos (com valores individuais e sociais) (MORAN,
2013, p. 13).
Apreendo, assim, que os novos cenários aqui mencionados se
relacionam a várias questões, como ilustro na figura 1.
Figura 1 - Constituição dos novos cenários educacionais
Fonte: Do autor.
Os novos cenários educacionais que vislumbro remetem aos variados fatores expostos na figura. Pelo aspecto circular, compreendo as interrelações entre eles, fatores que se mesclam e co-participam do processo. Dessa maneira, olhando para as duas direções, como indicam as setas, é possível perceber conexões estabelecidas entre eles, com o todo e com parte do todo. Ensino/aprendizagem, professor e aluno, dentro e fora da escola, tecnologias e globalização apresentam interferências uns com os outros no cenário educacional. O processo de ensino/aprendizagem contempla professor e aluno, na escola e fora da escola. E, em todas as instâncias, as tecnologias e a globalização mostram-se presentes e integrantes do cenário.
Professor e aluno integram esse todo que se dialoga, quer simultaneamente, quer em momentos distintos, estando inseridos no cenário geral que se abraça, em tempos globalizados e tecnológicos. São atuantes no processo de ensino/aprendizagem quer na escola, quer fora da escola. Compreendo, assim, que cada esfera apresenta interferências e interrelações em prol da (co)construção de conhecimento e que compõe/deveria compor o panorama educacional no século presente.