Psicologia Para Leigos
01 Psicologia
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 16 partes.
RE-SE
MB
LE
Filhos do divórcio
Tem havido muita controvérsia sobre os efei- tarão um divórcio é a natureza do casamento. tos do divórcio nas crianças. Muitos pais fi- Se os pais sempre brigam e têm uma relação cam juntos “pelos filhos”. A maioria das pes- tumultuada quando casados, o divórcio pro-quisas tende a mostrar que as crianças não vavelmente também será ruim. Os pesquisa-são afetadas necessariamente de modo ad- dores geralmente aconselham os casais a verso pelo divórcio de seus pais. Porém, os não brigarem ou discutirem os problemas re-meninos ficam um pouco piores do que as lacionados ao divórcio na frente das crianças meninas a longo prazo. Portanto, o indicador e manterem os conflitos gerais em um mínimo mais importante de como as crianças enfren- absoluto.
psicologia01.indd 150 22/02/2011 16:35:42
Capítulo 12: Pegando o Primeiro Barco da Ilha do Isolamento 151
Baumrind assumiu a tarefa de tentar reduzir o parentesco a algo um pouco mais gerenciável. Ela propôs três estilos principais de parentesco: autoritário, impositivo e permissivo.
� Autoritário: Estes pais são rígidos e ditadores. Algumas crianças se
sentem como prisioneiras em suas próprias famílias – seus pais são
rígidos em excesso, duros e não ouvem nada que elas têm a dizer. São
como sargentos de treinamento do parentesco. O que eles dizem fica e
não há nenhuma discussão sobre isso. Infelizmente, toda essa dureza
tende a sair pela culatra. Os pais autoritários tendem a ter filhos que
são passivos em excesso ou excessivamente rebeldes e algumas vezes
hostis. Eles poderiam aprender muito com o próximo estilo de
parentesco.
� Impositivo: Estas pessoas tendem a abordar o parentesco com um
estilo mais democrático. Os pais das gerações anteriores geralmente
criticam como os pais “de hoje” tentam raciocinar demais com seus
filhos. “O que essa criança precisa é de umas boas palmadas!”. Os pais
impositivos ouvem seus filhos e permitem que eles falem, ao passo que
mantêm a autoridade e o controle parentais. As crianças parecem
desenvolver-se neste ambiente e tendem a agir de modo mais sociável,
sentem-se mais capazes e são mais bem ajustadas em geral quando
crescem.
� Permissivo: Há dois tipos de pais permissivos:
� Indulgente: Você foi a uma daquelas festas de quintal com
cerveja no Ensino Médio? Bem, eu também não, mas pelo que ouvi falar, elas podem ficar bem loucas. Sempre imaginei onde os pais daquelas crianças estavam. Ah, entendi; eles têm “pais legais”. Os pais indulgentes estão envolvidos com seus filhos, mas têm medo de assumir um papel impositivo e incutir disciplina. Algumas vezes, eles até permitem que seus filhos se envolvam em um comportamento questionável porque não querem alienar as crianças.
� Indiferente: Estes pais são mais negligentes. Esta indiferença pode
ser devido a muitos fatores, inclusive carreira, drogas ou
egocentrismo. De qualquer modo, os pais permissivos tendem a ter filhos que geralmente relatam sentimentos mal estruturados para lidar com as demandas do crescimento.
Abraçando o seu rival: Irmãos
Já pensou para que servem os irmãos? As pessoas que são filho único podem até ter fantasiado sobre ter um irmão ou uma irmã. Alguns de nós acham que os irmãos são bons apenas para lutar ou roubar sua namorada, mas os psicólogos realmente acham que há mais do que isso.
Os irmãos têm um efeito poderoso em nosso desenvolvimento como pessoas. Eles criam um ambiente familiar que seria muito diferente sem eles. Eles também são boas fontes de amizade, companheirismo e afeto. Algumas vezes, eles podem até ser modelos. Três outras funções distintas que os irmãos fornecem um para o outro são:
psicologia01.indd 151 22/02/2011 16:35:42 152 Parte V: Ficando Íntimo da Psicologia Social
� Regulação mútua: Agindo como caixas de ressonância e teste de
campo para um novo comportamento, como praticar um discurso de
rompimento antes de falar com o namorado
� Serviços diretos: Facilitar as aflições domésticas e algumas vezes
fornecer apoio prático, tais como, passeios, ajuda com o trabalho de
casa ou conselho de moda
� Lidar com os pais: Os irmãos geralmente ajudam formando alianças e
construindo coalizões; isso envolve ficar junto nas horas de
necessidade.
Muitas pessoas estão familiarizadas com a rivalidade dos irmãos e com a discórdia. A pesquisa mostrou que as qualidades mais negativas comuns associadas aos irmãos são o antagonismo e a briga. Algumas pessoas acham que a luta acaba quando ficamos mais velhos. Na verdade, o caráter emocional básico das relações dos irmãos permanece bem estável. As interações podem mudar, mas os sentimentos permanecem bastante iguais.
Ficando íntimo
Como é aquele velho ditado? “Amigos para sempre?”. Ou é “Os diamantes são para sempre?”, nunca consigo lembrar. Não tenho muitos diamantes, portanto, realmente não importa muito. Neste capítulo, minha intenção foi demonstrar como nossas vidas sociais crescem e se expandem. Fui do eu, até as pessoas que cuidam, pais, irmãos e, agora, cheguei aos amigos. As amizades são importantes. Por que nos lembramos do nome de Tonto? Porque ele é o amigo de Zorro.
Os psicólogos Willard Hartup e Nan Stevens fornecem uma bela revisão da pesquisa relacionada à amizade. Basicamente, eles definem a amizade como uma relação entre pessoas mutuamente atraídas e engajadas em uma relação recíproca de troca. Os amigos são diferentes dos não-amigos no sentido de que nossas relações são geralmente mútuas. Há muito sobre dar, receber e dar de novo.
Os bons amigos nos apoiam e nos ajudam a lutar contra todos os problemas da vida. Fazer amigos não é necessariamente fácil – requer uma boa quantidade de habilidade social. Não prejudicará se você for bem ajustado socialmente também. (Veja o Capítulo 13 para saber mais sobre o ajuste social.) Ser igual e justo ajuda. Saber como lidar com os conflitos quando eles surgem também ajuda a manter as amizades.
Quem são nossos amigos? Nossos amigos tendem a ser pessoas muito parecidas conosco. Geralmente, são parecidos na idade, sexo, etnia e habilidade. Muitas vezes, eles têm um estilo de vida parecido. Especialmente quando ficamos mais velhos, nossos amigos tendem a ser pessoas com as quais trabalhamos, significando que são normalmente da mesma classe sócio-econômica também. Droga, nada de amigos ricos para mim!
Por que temos amigos? Para pedir dinheiro emprestado, o que mais? Na verdade, as amizades têm um efeito positivo sobre nosso bem-estar psicológico. As pessoas que têm boas amizades tendem a ser mais sociáveis, prestativas e confiantes. Os amigos são bons para sua saúde. Portanto, saia e faça alguns!
psicologia01.indd 152 22/02/2011 16:35:42
Capítulo 13
Conhecendo a Si Mesmo
e aos Outros
● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ●
Neste Capítulo
Desenvolvendo as habilidades sociais para pagar as contas
Explicando o comportamento de seu vizinho
Conhecendo você
Comunicando-se como um profissional
● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ●
Uma coisa é certa – vivemos em um mundo bem complicado. O ambiente é como uma sinfonia feita de um monte de instrumentos diferentes, cada um tocando sua própria parte para criar um tom coerente. Nossa percepção de uma canção coerente depende muito de nossas capacidades de percepção. Se nossas capacidades de percepção não estiverem em ordem prática, podemos achar que a sinfonia está fora do tom. Alguns dos instrumentos mais altos na sinfonia, que é o nosso ambiente, são as outras pessoas. Elas parecem dominar a música, destacando-se como aspectos centrais de nossas percepções do ambiente.
O que é tão especial sobre perceber o mundo de uma maneira organizada? Já ficou perdido em uma cidade sem um mapa? Não é muito divertido. Mas, a diversão é a razão menos importante que torna a habilidade de organizar nossas percepções tão importante. Perceber o ambiente de um modo coerente é necessário para a nossa sobrevivência. Parece que a sobrevivência humana sempre dependeu de compreender a complexidade de nosso ambiente.
As outras pessoas compõem uma força extremamente poderosa dentro de nosso ambiente, que é aparentemente mais importante do que o tempo. Os seres humanos são, afinal, seres sociais. Nossa sobrevivência, então, parece depender de nossa habilidade em compreender o nosso ambiente humano, sem falar do tempo. A compreensão social é vital. As alianças, inimigos, alocações de recursos, divisões de trabalho, relações, e comunicação de autocompreensão são aspectos importantes de nossa compreensão social. Cada um de nós deve possuir um nível básico de habilidade social para se entender com o nosso ambiente humano. Phillips fornece uma boa definição prática de habilidade social: a habilidade de se comunicar e interagir com as outras pessoas de um modo que permita que as necessidades de uma pessoa e os objetivos sejam atendidos sem interferir nos objetivos do outro.
psicologia01.indd 153 22/02/2011 16:35:42 154 Parte V: Ficando Íntimo da Psicologia Social
As seguintes seções contêm uma análise de quatro habilidades sociais muito importantes: compreender o comportamento das outras pessoas, entender o nosso próprio comportamento, entender-se com as outras pessoas e ajudar, e comunicar-se.
Observação de Pessoas
A área da Psicologia dedicada a entender como entendemos as pessoas, inclusive nós mesmos, é conhecida como cognição social. A palavra cognição é usada porque o foco está nos processos específicos do pensamento envolvidos quando observamos as pessoas e fazemos inferências sobre elas com base nessas observações.
Sempre somos pessoas observando. Você já foi a um lugar público, tal como, um parque ou um shopping movimentado, e simplesmente observou as pessoas? Pode ser bem interessante. Você pode notar as roupas das pessoas, as bolsas que estão carregando, as conversas que estão tendo etc. Você está notando todos os tipos de coisas sobre elas e usando essas observações para chegar a conclusões.
Não pensa assim? Quantas vezes você chamou aquele garoto de terno dirigindo uma BMW de riquinho? Alguma vez já disse para si mesmo que o adolescente com cabelo roxo e um piercing no nariz só está chamando atenção? Como você sabe essas coisas? Talvez, o riquinho seja realmente um ladrão de carro bem vestido ou aquele garoto de cabelo roxo esteja conduzindo um experimento de Psicologia. Como saber? Você já teve uma conversa com eles? Provavelmente não, mas você não tem que falar com eles para começar a chegar a conclusões sobre eles com base no que vê, ouve e experimenta.
RE-SE O processo complexo de chegar a conclusões sobre as intenções e as
LE MB características das pessoas, com base em nossas observações delas, é
chamado de percepção da pessoa. Todos nós usamos suposições no processo de percepção da pessoa:
� Supomos que as pessoas são agentes causais – elas desempenham uma
parte ativa ao produzirem seu próprio comportamento. Esta afirmação
parece óbvia, mas supomos que uma nuvem flutue no céu porque ela se
fez flutuar? As ervas daninhas crescem em meu canteiro porque
querem, apenas para me irritar? Espero que não; elas seriam ervas bem
rudes se crescessem. O ponto é que quando vemos alguém agindo de
um determinado modo, geralmente deduzimos que a pessoa pretendia
fazer isso. (Veja o Capítulo 1 para saber mais sobre como entender por
que as pessoas fazem o que fazem.)
� Outra suposição automática no processo de percepção da pessoa é que
achamos que as outras pessoas são como nós, que pensam e sentem da
mesma maneira como nós. Pensar assim permite-nos usar a nós
mesmos ao tentar entender as outras pessoas. Sei que choro quando
fico triste, como quando os Yankees perderem as finais do beisebol em
2001. Portanto, quando vejo outra pessoa chorando, suponho que
esteja chorando porque está triste também e, talvez, tenha visto os
Yankees perderem também.
psicologia01.indd 154 22/02/2011 16:35:42
Capítulo 13: Conhecendo a Si Mesmo e aos Outros 155
Como um cientista do comportamento humano e processos mentais, sei como pode ser difícil entender e organizar minhas observações das outras pessoas. Os psicólogos propuseram técnicas especializadas e instrumentos para medir e organizar suas observações. Barker e Wright achavam que o comportamento é como um rio, com seu fluxo contínuo de ações conectadas sem nenhuma marca aparente. Seria bem difícil tirar uma peça do rio. Portanto, como tiramos uma peça do fluxo do comportamento humano, o fluxo comportamental? Newston e Engquist afirmavam que todos nós possuímos a habilidade natural de selecionar “pontos de interrupção” ou quadros congelados do comportamento como unidades naturais de informação.
Extraímos amostras do comportamento das pessoas que parecem ter intenções separadas. É como ver o cabelo de alguém e ver a massa dele mover-se em uníssono. Não supomos que cada fio de cabelo se move com a batida de seu próprio baterista; eles todos se movem em resposta ao movimento da cabeça inteira. Talvez, um modo melhor de ver é pensar em observar um jogo de futebol americano. É mais fácil prestar atenção nos jogadores na linha de frente que se movem como uma grande massa descuidadamente, no zagueiro, que volta correndo, ou no recebedor que se move independentemente da linha? Notamos os “movimentos independentes”.
Também temos uma tendência natural para notar mudanças abruptas ou alterações no comportamento. (Veja o Capítulo 16 para saber mais sobre as alterações no comportamento.) Se alguém andando, mover-se gradualmente em nossa direção, há menos probabilidade de notarmos o movimento do que se a pessoa pulasse 3 metros para o lado em nossa direção. Os comportamentos que se destacam são provavelmente mais notados.
Explicando os outros
Tentar explicar o comportamento de outras pessoas é bem difícil. Você não consegue ver dentro de suas mentes e pode apenas adivinhar o que está acontecendo lá. Isso não impede as pessoas de tentarem explicar as ações dos outros.
Julgando de modo independente
Você já experimentou o amor à primeira vista? Sempre imaginei como isso funciona. Como você pode se apaixonar por alguém com base apenas em sua aparência? Talvez, a pesquisa na área dos julgamentos instantâneos possa ajudar a responder essa pergunta. Os julgamentos instantâneos das pessoas
RE-SE são avaliações imediatas, automáticas e inconscientes.
MB
LE Baseamos nossos julgamentos instantâneos em dois tipos de dicas:
� Dicas estáticas: As coisas que são realmente inalteradas sobre uma
pessoa, como, por exemplo, sua aparência, sexo, tipo físico (sem incluir
a roupa). Usamos essas informações para fazer julgamentos de
avaliação sobre a pessoa. Esses julgamentos podem ser certos ou
errados. Posso avaliar uma pessoa usando gravata borboleta como um
amante divertido e calmo ou posso vê-lo como fora de moda e nervoso.
De qualquer modo, estou usando um aspecto da aparência física de
alguém para fazer um julgamento sobre que tipo de pessoa ela é.
psicologia01.indd 155 22/02/2011 16:35:42 156 Parte V: Ficando Íntimo da Psicologia Social
� Dicas dinâmicas: As coisas que tendem a mudar dependendo da
situação, tais como, expressões faciais e maneirismos. Quando vejo um
sorriso, posso avaliar a pessoa como geralmente feliz ou posso achar
que ela simplesmente ouviu uma piada engraçada. O ponto é que
usamos informações relativamente básicas para fazer avaliações
rápidas das personalidades das pessoas ou sobre suas vidas.
Criando uma impressão
Os julgamentos rápidos são realmente apenas o começo de nossas tentativas de entender as outras pessoas. Todos nós fazemos julgamentos rápidos, mesmo que não estejamos conscientes disso. No processo da formação da impressão, vamos além dos julgamentos rápidos e fazemos deduções mais profundas sobre o tipo de pessoa que alguém é. Considere os seguintes adjetivos que descrevem uma pessoa: trabalhadora, tensa, habilidosa, fria, esforçada. Que tipo de pessoa é esta? Independentemente de sua conclusão, você está tentando reunir essas palavras, com base em sua experiência e conhecimento, de um modo que pinte uma imagem resumida.
Solomon Asch propôs uma teoria popular de formação da impressão que focava na existência de traços centrais que colorem nossas interpretações e os significados de outros traços observados. É como termos um senso interno de que certos traços se reúnem. Por exemplo, uma pessoa atraente tem mais facilidade de conseguir alguém para ajudar a trocar um pneu furado do que uma pessoa pouco atraente. Provavelmente, é porque supomos que o atributo da atração é conectado automaticamente ao atributo do agradecimento. Não irei ajudar uma pessoa pouco atraente e mal-agradecida a trocar o seu pneu.
Teoria da personalidade implícita
Bruner e Tagiuri consideravam o nosso senso interno de traços como pertencendo juntos, como parte de uma teoria da personalidade implícita. Aprendemos que certos traços se reúnem porque fomos informados que ficam juntos ou os observamos juntos. Fui informado milhares de vezes que as pessoas educadas não interrompem, portanto, acho que sou muito rude porque interrompo sempre. Interromper e ser rude “pertencem”, juntos, à minha teoria da personalidade implícita.
Basicamente, as teorias da personalidade implícita são estereótipos. Os estereótipos são uma consequência inevitável de nossa tentativa de entender o nosso mundo social. Os estereótipos são como atalhos para o pensamento. Não podemos armazenar, possivelmente, avaliações independentes de cada pessoa que já encontramos. Isso ocuparia espaço demais em nossas memórias. Ao contrário, colocamos as pessoas em categorias e algumas vezes essa categoria resulta na formação de estereótipos. Infelizmente, em nossa tentativa de simplificar o mundo, geralmente generalizamos em excesso os aspectos negativos das pessoas, o que leva, com muita frequência, ao preconceito e ao racismo.
Entendendo as causas do comportamento dos outros
Não só fazemos julgamentos rápidos sobre as pessoas com base em informações limitadas, como também determinamos por que as pessoas fizeram o que fizeram ou o que causou um determinado comportamento. Segundo Heider, todos nós temos uma tendência a perceber o
psicologia01.indd 156 22/02/2011 16:35:42
Capítulo 13: Conhecendo a Si Mesmo e aos Outros 157
comportamento como sendo causado pela pessoa em si (causa interna) ou pelo ambiente (causa externa).
A última vez em que fui para Las Vegas, testemunhei uma mulher idosa ganhar uma bolada progressiva de $50.000. Quando recuei e observei as pessoas amontoadas à sua volta, eu a ouvi contar para seu clube de fãs recém-adquiridos sobre sua estratégia. Eu não pude deixar de rir, pensando que sua estratégia não tinha nenhuma relação. Era pura sorte. Naquela situação, eu atribuí seu sucesso a uma causa externa e ambiental, a programação da determinada máquina que ela estava usando. Ela atribuía à
RE-SE sua habilidade. Talvez, ela devesse escrever Máquina caça-níqueis para leigos.
LE Ao fazer uma atribuição, tendemos a focar em três partes importantes da MB
informação:
� Consistência: Geralmente, as pessoas se comportam do mesmo modo
em diferentes situações. Esse mesmo comportamento nos dá um senso
de sua consistência. Quando alguém exibe um comportamento
consistente, atribuímos esse comportamento à sua personalidade. Algo
que pertence internamente a essa pessoa causa o comportamento.
Quanto mais alguém é inconsistente, mais atribuímos o comportamento
à circunstância. Não perco em Las Vegas porque sou um perdedor;
perco por causa da circunstância. Espero.
� Distinção: Eu costumava achar que um amigo meu tinha um problema
real com as mulheres. Antes de eu me dar conta, ele sempre levava um
tapa e se arrastava até mim para reclamar. Foi só depois de eu ver
como ele tratava as outras pessoas, inclusive os homens, que percebi
que ele era abominável com todos. Seu comportamento era distinto
porque ele agia igualmente com todas as pessoas. Ele respondia a todas
as pessoas do mesmo jeito, não a uma pessoa específica. Como seu
comportamento não variava segundo o contexto ou o ambiente,
provavelmente era um traço interno.
� Consenso: Quando Tom vai ao cinema, ele compra pipoca e soda, dá seu
ingresso para o porteiro, pega um lugar, senta-se, olha para frente, não
fala e assiste o filme. O que isso diz sobre Tom? Absolutamente nada. Por
quê? Provavelmente porque Tom está engajando-se em um
comportamento de cinéfilo típico. Há um consenso de que todas as
pessoas agem do mesmo modo em particular quando vão ao cinema. Isso
me leva a considerar que o comportamento de Tom é devido à situação.
Se Tom ficasse de pé e começasse a gritar quando o filme começasse, ele
estaria agindo fora do consenso e, assim, possivelmente mostrando mais
de sua verdadeira personalidade através deste ato único.
Existem várias combinações possíveis destas três partes de informação: alta consistência, alta distinção, baixo consenso etc. Consistentemente, achamos que a combinação da alta consistência, baixa distinção e baixo consenso leva a uma atribuição pessoal (causa interna ou explicação por seu comportamento). Quando eu ajo consistentemente nas situações, respondo aos mesmos estímulos do mesmo modo todas as vezes, e ajo de modo diferente das outras pessoas nessa mesma situação, provavelmente sou eu. A alta consistência, alta distinção e alto consenso levam a uma atribuição externa. Quando ajo igualmente nas situações, mas respondo de modo diferente aos mesmos estímulos e todas as outras pessoas estão fazendo isso, provavelmente é a situação ou o ambiente externo. Então, a que você atribuiria minha paixão por polca? Todos não adoram polca?
psicologia01.indd 157 22/02/2011 16:35:42 158 Parte V: Ficando Íntimo da Psicologia Social
Cometendo erros
A Com todo este julgamento ocorrendo, é necessária a pergunta sobre se
DIC somos precisos ou não em nossas atribuições. Um erro consistente que todos
nós cometemos é chamado de erro de atribuição fundamental. Na maioria das vezes, subestimamos o papel das causas externas como determinantes do comportamento das outras pessoas. Temos uma tendência para ver o que elas fazem como inerentes a elas, como causados pelo ator. Podemos pensar que como não temos informações significantes sobre seu comportamento nas situações, e também no caso de dúvida, atribuímos ao ator. Quanto mais informações temos, melhores juízes nos tornamos.
Também temos uma tendência para ver nosso próprio comportamento como devido às causas externas mais do que vemos o comportamento das outras pessoas como devido às causas externas (Jones e Nisbett). Novamente, essa tendência provavelmente existe porque temos acesso a mais informações quando é para nós mesmos. Também tendemos a atribuir nossos sucessos às causas internas e nossas falhas às causas externas, e vice-versa para as outras pessoas. Se eu tivesse ganhado $50.000 no caça-níqueis em Vegas, provavelmente faria a mesma coisa que a senhora idosa que ganhou – atribuiria a vitória à minha capacidade inata de puxar a alavanca realmente bem. E ela provavelmente sentaria e riria de mim, pensando que era pura sorte.
Explicando a si mesmo
As pessoas famosas que endossam os produtos nos comerciais de televisão realmente usam os produtos que promovem? Michael Jordan realmente usa aquela marca de cueca? Tiger Woods realmente dirige o carro que ele endossa? Talvez sim e talvez não. Não conheço Michael ou Tiger, portanto, tudo que posso fazer é imaginar. Mas, digamos apenas, para esta análise, que eles usam os produtos que endossam. Se eu perguntasse a eles por que endossam aqueles produtos, o que eles diriam e o que essas respostas nos diriam sobre o quanto eles se conhecem?
Festinger e Carlsmith realizaram um experimento clássico que nos dá uma visão da “questão Tiger Woods”. Eles pediram às pessoas da pesquisa para que realizassem uma tarefa difícil e chata, então, ofereceram às pessoas dinheiro para dizer às outras pessoas que a tarefa era realmente interessante. Havia dois grupos. Um grupo recebeu $1 cada e o outro, $20 cada. As pessoas que receberam apenas $1 disseram que a tarefa era mais interessante do que as pessoas com $20 quando perguntadas sobre seus verdadeiros sentimentos, em oposição a seus sentimentos de “endosso”. Os $20 criaram uma lacuna maior entre as ações das pessoas e o que elas pensavam que sentiam. Este experimento demonstra a dissonância cognitiva, o processo de mudar as crenças de alguém para coincidir com as ações de alguém. Se eu fizer algo que contradiz minhas crenças, irei alterar minhas crenças para coincidirem com meu comportamento.
As pessoas que receberam $1 devem ter percebido que, se fossem apenas subornadas com um mísero dólar, elas não foram tão chateadas afinal. Quanto maior o suborno, mais percebemos que a tarefa está sendo contrária às nossas verdadeiras crenças. Neste caso, o dinheiro extra representa uma explicação fácil para nosso comportamento.
psicologia01.indd 158 22/02/2011 16:35:42
Capítulo 13: Conhecendo a Si Mesmo e aos Outros 159
O que isso nos diz sobre nossos famosos endossantes de produtos? Se eles usam os produtos que endossam, podem fazer isso porque não desejam admitir que apenas endossam os produtos por dinheiro. Michael Jordan pode não querer admitir para si mesmo que realmente não acha a sua cueca confortável porque adora o dinheiro que o fabricante lhe dá para dizer que elas são. Portanto, ele pode mudar sua atitude para coincidir com seu comportamento. De fato, eu realmente não sei por que MJ usa uma determinada marca de cueca, mas serve como uma boa ilustração.
A dissonância cognitiva nos diz muito sobre como sabemos coisas sobre nós mesmos e engajamos no processo de autoatribuição. Daryl Bem desenvolveu uma teoria de autopercepção que afirma que conhecemos nossas próprias atitudes fazendo deduções com base na observação de nosso próprio comportamento, do mesmo modo que observamos as outras pessoas. Conhecemos a nós mesmos do mesmo modo como conhecemos os outros – observando o comportamento. Quando encaramos a dissonância entre o que fazemos e o que acreditamos, geralmente mudamos nossa crença porque usamos as observações de nosso comportamento externo como um modo de saber o que acreditamos.
Ao tentar nos entender e julgar o nosso próprio comportamento, muitos de nós somos culpados de algumas distorções bem interessantes. Três distorções particularmente interessante são:
� Efeito do falso consenso: Esta distorção é uma tendência a
superestimar como nossas opiniões e comportamentos são comuns,
especialmente os indesejáveis. “Todos fazem isso!”. Tendemos a ver um
consenso que é consistente com nossa opinião, existindo ou não. Eu
comprei um tênis de cano alto rosa-choque na sexta série porque
achava que eles entrariam na moda. Eles duraram um dia de escola.
� Efeito da falsa exclusividade (EFE): Há um ditado nos Alcoólicos
Anônimos: “Você é terminantemente único!”. A frase é usada para as
pessoas que acham que seus problemas são tão diferentes dos
outros que possivelmente ninguém poderia entendê-las. O EFE é a
tendência de subestimar como são comuns as crenças de alguém,
especialmente as desejáveis. Depois de eu jogar longe o meu tênis
rosa, saí e comprei um par totalmente exclusivo de $100. Você pode
imaginar o meu choque quando vi quase todos os garotos na escola
usando o mesmo tênis?
� Autolimitação: Quando eu estava na faculdade e sabia que tinha um
teste difícil aproximando-se, um que eu tinha certeza de que levaria
bomba não importando o quanto estudasse, eu não estudava nada.
Assim, quando tirava uma nota baixa, poderia culpar por não estudar
em vez de culpar minha falta de habilidade ou inteligência. Quando as
pessoas criam desculpas para o fracasso para se protegerem de sua
autoestima ou autoimagem, elas estão engajando-se na autolimitação.
Algumas vezes, acho que os atletas profissionais fazem isso. Se eles
desistem do passe que vence o jogo, podem cair no chão e fingir que
estão machucados ou reclamam com um juiz que o defensor interferiu.
Sim, sim, sim – sabemos que foi você quem estragou, pura e
simplesmente. Mas, é você quem tem que conviver consigo mesmo.
psicologia01.indd 159 22/02/2011 16:35:42 160 Parte V: Ficando Íntimo da Psicologia Social
A Comunicação É Mais Fácil
de Dizer do que Fazer
Um dos apelidos de Ronald Reagan era “O Grande Comunicador”. Supostamente, ele realmente conseguia comunicar-se e as pessoas realmente respondiam aos seus discursos. Pessoalmente, não reservei um tempo para analisar as habilidades de comunicação de Reagan. Mas, se você é o presidente dos Estados Unidos ou apenas tenta pedir um hambúrguer no drive-thru local, as habilidades de comunicação são vitais para ser uma pessoa com habilidade social.
Hargie, Saunders e Dickson desenvolveram um modelo de comunicação interpessoal que identificava vários componentes importantes do processo de comunicação. Cada pessoa envolvida em uma comunicação traz com ela motivos particulares, conhecimento, atitudes, características pessoais e emoções para a situação que influenciam o processo de comunicação. Diferentes situações trazem estilos diferentes ou aspectos da comunicação. Posso me comunicar de modo diferente se estou em um ambiente formal, em oposição a um informal. Geralmente, evito usar palavras de baixo calão em uma entrevista de emprego, por exemplo, mas as uso prontamente quando assisto a um evento esportivo.
Todos os episódios de comunicação são direcionados a um objetivo e vários objetivos podem ser buscados simultaneamente. Uma conversa varia como uma função do objetivo pretendido. Se meu objetivo é visitar um velho amigo, posso falar sobre coisas diferentes de quando estou conduzindo uma avaliação psicológica.
Existem também vários processos mediadores que formam o processo de comunicação. Qualquer processo psicológico que afeta a satisfação de um objetivo de comunicação ou o resultado da comunicação pode ser um processo mediador. Um processo importante é chamado de foco (aquilo no qual alguém presta atenção), que pode ter um impacto maior. Como você conecta a informação atual da conversa ao conhecimento anterior também é importante, e a dedução – ir além da informação superficial sendo comunicada – também é importante.
Um outro aspecto importante do processo de comunicação é o feedback – as informações fornecidas para mim pela outra pessoa sobre o quanto estou me comunicando com eficiência – e como uso isso. Uso esse feedback para mudar o modo como me comunico para melhor atender os objetivos da conversa. Algumas pessoas parecem simplesmente continuar falando, distraídas dos sinais, da outra pessoa na conversa, de que não estão fazendo nenhum sentido. Essas pessoas não estão se dando conta do feedback. Eis uma sugestão: Quando alguém adormece enquanto você está falando, esse é um feedback importante.
Ser um grande comunicador envolve ser bom em três habilidades específicas de comunicação: fazer perguntas, explicar e ouvir.
psicologia01.indd 160 22/02/2011 16:35:42
Capítulo 13: Conhecendo a Si Mesmo e aos Outros 161
Fazendo perguntas
Um recurso importante de toda comunicação eficiente é o processo de questionar (Hargie, Saunders e Dickson). As perguntas são um bom modo de começar uma conversa, reunir informações e expressar para a outra pessoa que estou interessado sobre aquilo que ela está falando. Existem vários tipos diferentes de perguntas. “Onde você estava na noite de 12 de novembro, às 10:00 da noite?”. Apenas um aviso se a polícia fizer esta pergunta – chame um advogado. Este exemplo é uma pergunta de lembrança, pedindo para você se lembrar sobre informações básicas. As outras perguntas pedem a quem responde para analisar, avaliar ou resolver o problema. As perguntas fechadas requerem apenas um sim ou um não, ou a resposta de identificação. As perguntas abertas requerem descrição e elaboração.
A Há uma arte em ser um bom questionador. Dar a quem responde um contexto
DIC e uma estrutura para emoldurar a pergunta geralmente ajuda. Você pode
começar dizendo: “Tenho três perguntas principais”. Algo assim geralmente ajuda. O ponto é dar uma dica para a pessoa sobre o que você irá falar, é como fornecer um tipo de mapa da conversa. Algumas vezes, precisamos de uma dica para responder devidamente uma pergunta; isso é chamado de incitar e repensar. As frases anteriores também podem ajudar a quem responde.
Explicando
Além de ser bom ao perguntar, o dom da fala geralmente requer um certo nível de habilidade ao se explicar. As explicações fornecem informações, esclarecem e geralmente são usadas para demonstrar um ponto.
A Ao sustentar uma opinião em uma conversa, geralmente um indivíduo pode
DIC reforçar seu argumento fornecendo uma explicação sólida da posição sendo
assumida. As boas explicações são claras, focadas e ligadas à base de conhecimento de quem ouve. Ser breve e evitar muitos “uns”, “ers” e “você sabe” também ajuda. Esses termos interrompem a fluência da comunicação e podem levar as pessoas a perderem o interesse.
Algumas vezes, ajuda fazer uma pausa e uma revisão para que o ouvinte possa organizar e absorver o que já foi explicado. Também é muito importante usar uma linguagem apropriada ao público e a quem ouve. Se você for técnico demais, grosseiro demais ou básico demais, o público pode se desinteressar.
Ouvindo
Um terceiro aspecto muito importante da comunicação eficaz é ouvir. Conversas de uma via são justificativas pobres para a comunicação. Se ninguém está ouvindo, não há nenhum “co” na comunicação. Hargie, Saunders e Dickson dão algumas sugestões para ser um bom ouvinte:
psicologia01.indd 161 22/02/2011 16:35:42 162 Parte V: Ficando Íntimo da Psicologia Social
� Estar preparado fisicamente e preparar o ambiente. Desligue o rádio;
reduza o barulho externo. Sente-se para que possa ouvir a pessoa
falando.
� Tenha consciência de seus preconceitos e ideias pré-concebidas e
A prepare-se mentalmente para prestar atenção.
DIC
� Mantenha-se focado fazendo perguntas para si mesmo sobre o que o
orador está falando.
� Não interrompa se puder evitar.
� Identifique mentalmente o ponto principal da comunicação do orador e
organize o que ele está falando em categorias, tais como, quem, o que,
quando, por que e como.
� Não use técnicas de bloqueio, tais como negar os sentimentos de alguém
ou mudar o tópico.
� Mantenha contato visual.
� Faça sinal com a cabeça.
� Oriente seu corpo em direção ao orador e mantenha uma postura
aberta. Não cruze seus braços ou desvie o olhar.
� Não fique inquieto ou mexa nas coisas à sua volta. Calcular seus
impostos enquanto alguém está falando é uma revelação fatal de que
você realmente não está ouvindo.
Afirmando a si mesmo
Um dos problemas mais comuns que vejo em minha prática clínica é que as pessoas não sabem como lutar por si mesmas e comunicar suas necessidades de uma maneira direta e confiante. Reclamações sobre colegas de trabalho controladores, chefes estúpidos e cônjuges nervosos são comumente o resultado de uma falta de assertividade. Para algumas pessoas, a assertividade parece ser natural; elas são boas em dizer às pessoas o que pensam de um modo que não chateia ninguém.
RE-SE Não estou falando sobre ser agressivo – isso geralmente envolve certo nível
LEMB de hostilidade e uma negação dos direitos da outra pessoa na interação.
Estou falando sobre algo um pouco mais suave do que a agressão, a assertividade.
A assertividade pode ser definida como defendendo os direitos de uma pessoa e expressando os pensamentos, sentimentos e crenças de alguém de uma maneira direta, honesta e adequada que respeita os outros. Alguém já furou a fila enquanto você estava na mercearia? Você lhe disse para ir para o final da fila ou continuou com os seus pensamentos apenas para ficar com raiva mais tarde, desejando ter dito algo? E ao pedir comida em um restaurante e receber algo que não pediu? Você comeu de qualquer modo ou retornou? Parece fácil, mas muitas pessoas não dirão nada por medo de serem vistas como bobas, serem malvistas ou magoarem os sentimentos da outra pessoa.
psicologia01.indd 162 22/02/2011 16:35:42
Capítulo 13: Conhecendo a Si Mesmo e aos Outros 163
A assertividade é uma habilidade social que você pode aprender. Geralmente, quando as pessoas melhoram ao serem assertivas, a qualidade geral de suas relações melhora. Elas não sentem mais que não podem dizer o que realmente pensam ou que têm que ficar quietas pelas amizades. Quando as pessoas aprendem a se comunicar de modo assertivo, elas despertam para um novo reino de possibilidades na comunicação.
Deseja ser mais assertivo? As asserções básicas são expressões, como, por exemplo: “Não, não gosto desse filme” ou “Obrigado, mas já comi bastante torta de frutas”. As asserções empáticas são afirmações usadas para transmitir que você entende a posição da outra pessoa, mesmo que não esteja concordando com ela. “Compreendo que você prefere fast food a comida italiana, mas realmente desejo espaguete”. Quando alguém começa com uma asserção básica e, então, progride para afirmações mais diretas com pouca ambiguidade, a pessoa se engaja na assertividade de ascensão. Esta é uma boa habilidade a usar com os vendedores impositivos, como este exemplo demonstra.
Vendedor: Posso ajudar?
Cliente: Não, obrigada.
Vendedor: Bem, temos ótimas coisas no vestuário feminino hoje.
Cliente: Realmente não estou interessada.
Vendedor: Que tal...
Cliente: Pela terceira vez, você pode me deixar sozinha? Não desejo
nenhuma ajuda.
A Uma ferramenta útil final ao ser assertivo é usar a “linguagem do eu” – fazer
DIC afirmações a partir da posição pessoal em vez de apontar o comportamento
da outra pessoa e usar a palavra “você”. Em vez de dizer a meu chefe que ele está me perseguindo e está começando a me aborrecer, posso dizer: “Acho que você colocou uma pressão injusta sobre mim em comparação com os outros funcionários. Quando percebo o que está acontecendo, tenho raiva”. É mais fácil dizer do que fazer, eu sei, mas funciona bem. Experimente!
A
DIC Fry desenvolveu uma lista rápida de estratégias de defesa verbais que podem
ser usadas contra pessoas manipuladoras e grosseiras:
� Disco quebrado: Simplesmente repetir a si mesmo várias vezes. “Eu
disse não! Qual parte do não você não compreende? Direi novamente:
Não! Não!”
� Obscura: Concordar com o que alguém está dizendo, mas não mudar a
posição. “Você está certo. Devo observar o que eu como. Ganhei peso”.
E ao mesmo tempo você está pensando para si mesmo: “Irei comer o
que sentir vontade de comer.”
� Metanível: Ter uma conversa com um nível mais abstrato do que
englobado na conversa original. “Acho isto um bom exemplo de como
pode ser difícil entender outra pessoa. Tenho pensado com frequência
sobre como podemos superar isso”. Gosto de chamar isso de velha
terapia da mudança súbita! “Qual é o peso ideal, então? Ser pesado
costumava ser um sinal de beleza e prosperidade. Sou belo e próspero,
não gordo”.
psicologia01.indd 163 22/02/2011 16:35:42 164 Parte V: Ficando Íntimo da Psicologia Social
psicologia01.indd 164 22/02/2011 16:35:42
Capítulo 14
Conforme um Contorcionista:
Psicologia Social
● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ●
Neste Capítulo
Atendendo as expectativas
Seguindo o fluxo
Sendo uma tiete
Persuadindo com poder
Sendo hostil
Ajudando os outros
● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ●
Eu nunca esqueci quando vi a notícia de um filme de dois grupos de monges budistas lutando com as mãos pelo controle em um monastério. Fiquei chocado ao ver pessoas que eu considerava, de modo estereotipado, como pacíficas agindo tão violentamente. A imagem era perturbadora, mas também uma forte demonstração de como nosso comportamento individual pode ser dominado por uma situação ou pela força de um grupo. Esses indivíduos geralmente pacíficos foram aparentemente dominados por uma situação, com alguns deles engajando-se no comportamento que eles próprios não poderiam explicar, se perguntados.
A Psicologia estaria incompleta sem levar em conta as influências sociais sobre por que fazemos o que fazemos. Somos empurrados e puxados pela dinâmica de nossas personalidades. Agimos instintivamente com base em nossa constituição genética. Nosso comportamento varia como uma função de como pensamos sobre as coisas, e estamos sujeitos às influências sociais também.
A Psicologia social é o estudo das causas sociais e das influências sobre nosso comportamento. O poder dessas forças não deve ser subestimado, como demonstra este capítulo. O estudo dessas influências sociais completa o aspecto final do modelo biopsicossocial do comportamento humano. (Veja o Capítulo 1 para saber mais sobre o modelo biopsicossocial.) Os psicólogos sociais têm sugerido há algum tempo que muitas das respostas para a pergunta do comportamento humano estão na compreensão de coisas, tais como, nossas normas de grupo, papéis do gênero, conformidade e pressão do
psicologia01.indd 165 22/02/2011 16:35:42 166 Parte V: Ficando Íntimo da Psicologia Social
grupo. Este capítulo explora algumas das influências sociais sobre nosso comportamento e como estar com outras pessoas tem um efeito poderoso sobre nosso comportamento individual.
Fazendo Sua Parte
A menos que você seja um eremita e viva em uma cabana no meio do deserto, você existe dentro de uma matriz social – uma configuração de multicamadas das relações sociais que varia desde as relações entre pai-filho até colegas de trabalho. Imagine-se no meio de um círculo enorme com diversos anéis, com cada anel representando um nível da organização social.
Cada um desses círculos tem um conjunto de comportamentos esperados, regras que ditam o que cada indivíduo deve fazer. As regras de cada grupo social ou expectativas comportamentais são chamadas de normas. As culturas têm normas, as famílias têm normas e até as subculturas têm normas. Uma subcultura pode consistir em um pequeno grupo social, geralmente organizado em torno de uma atividade recreativa. Uma gangue pode ser considerada um subgrupo com sua própria subcultura. As gangues têm sua própria linguagem, estilo de vestir e rituais que delineiam regras claras para o comportamento de cada membro individual.
Os americanos preferem se ver como indivíduos rudes; nós recuamos com a ideia de seguir normas. Mas as normas não são tão ruins. Elas simplificam situações sociais complexas, permitindo-nos pensar sobre as coisas em vez de pensar sobre como devemos agir e o que devemos dizer. As situações sociais operam mais suavemente quando as normas são claras. Argote, por exemplo, achava que os grupos que trabalham juntos fazem isso com mais eficiência e eficácia quando há normas claras e acordadas.
Acho que você ficaria bastante pressionado para encontrar uma cultura neste mundo que tenha uma norma de socar alguém no rosto ao cumprimentar esse indivíduo. Na verdade, algumas normas parecem ser universais, ao contrário de socar alguém no rosto. Brown, em 1965, percebeu que as pessoas falam, quase que universalmente, com mais respeito com as pessoas de status mais alto e mais casualmente com aquelas de status mais baixo. Essa maneira de se dirigir aos outros pode até ser vista na estrutura de alguns idiomas, tais como, o espanhol e o francês, nos quais o modo como um verbo é conjugado depende do quanto você conhece a pessoa com a qual esteja falando.
Certamente, as normas universais existem, mas algumas variações existem também. Se você for um cristão palestino, resistirá firmemente a qualquer comida oferecida ao visitar a casa de alguém e aceitará apenas depois de muita insistência do anfitrião. Os americanos, por outro lado, podem até pedir algo para comer ou beber sem pensar duas vezes. Uma outra variação comum em uma norma cultural é relacionada a aguardar na fila. Algumas culturas não parecem apreciar a ordem de aguardar em uma fila única ao pedir comida em um estabelecimento de fast food, mas outras sim. A norma do espaço pessoal (o espaço físico ou a área à nossa volta) pode variar muito segundo a cultura. Algumas culturas parecem precisar de menos espaço pessoal do que outras.
psicologia01.indd 166 22/02/2011 16:35:43
Capítulo 14: Conforme um Contorcionista: Psicologia Social 167
Um papel é um tipo específico de norma que define como uma pessoa deve agir em uma situação específica. Cada um de nós tem certos papéis que desempenhamos (estudante, funcionário, irmão, irmã, pais etc.) que ditam os diferentes comportamentos para as diferentes situações. Normalmente, são papéis claros a serem desempenhados. Um exemplo clássico dessas regras claras sendo adaptadas é quando um pai tenta ser “amigo” de seu filho adolescente. Ser pai não é a mesma coisa que ser amigo e quando as linhas são misturadas, o chamado pai está violando a norma parental. Naturalmente, isso levanta a questão de por que um adulto desejaria um adolescente amalucado como um amigo em primeiro lugar.
Um papel poderoso que determina nosso comportamento individual é o nosso papel do gênero – as expectativas comportamentais descritas para os machos e as fêmeas. Meninos usam azul; meninas usam rosa. Os meninos são fortes; as meninas são suaves. As meninas são cuidadosas; os meninos são egoístas. A lista continua. A sociedade está cheia de papéis do gênero que determinam o devido comportamento para meninos e meninas. Eu sempre me divirto observando os filmes antigos nos quais as mulheres tinham que se sentar de lado quando andavam a cavalo. Aparentemente, não era apropriado uma mulher separar as pernas para montar no cavalo. Acho que eles não tinham muitas estrelas femininas de rodeio naqueles tempos – seria bem difícil montar um touro sentando de lado.
Muitas mudanças ocorreram nas definições dos papéis do gênero com o passar dos anos. Homens com brinco ou homens usando cosméticos são bons exemplos. Mulheres vestindo calças? Que coragem! Hoje, as mulheres trabalham fora de casa e eu já vi um homem chorar uma ou duas vezes. Deve ter sido algo em seu olho. Independentemente das particularidades de cada papel do gênero, percorremos um longo caminho desde os papéis andrógenos, tanto para os homens quanto para as mulheres.
RE-SE
MB
LE
Empolgando-se
As definições do papel são um determinante Cada um de nós parece saber naturalmente o poderoso de nosso comportamento, e as defi- que envolve os papéis do presidiário e do guar-nições algumas vezes superam nossas per- da. Zimbardo teve que interromper o experi-sonalidades individuais e preferências. Em mento após uma semana por causa do que ele 1972, Phil Zimbardo conduziu um famoso ex- viu acontecer. Os alunos da faculdade normais perimento conhecido como o experimento da e saudáveis começaram a desempenhar seus prisão Stanford que mostrava o poder dos pa- papéis muito seriamente. Os guardas tratavam péis. Alunos da faculdade foram recrutados os presidiários desumanamente e com um para participarem de uma situação de prisão desprezo cruel, e os presidiários começaram simulada, na qual, eles eram atribuídos alea- realmente a odiar os guardas e a focar apenas toriamente para serem guardas ou presidiá- na fraude do sistema da “prisão” e na sobrevi-rios. O experimento ocorreu em uma prisão vência. Em outras palavras, eles realmente se provisória no porão do prédio de Psicologia envolveram com seus papéis e esqueceram na Stanford University. sobre a realidade da situação.
psicologia01.indd 167 22/02/2011 16:35:43 168 Parte V: Ficando Íntimo da Psicologia Social
Formando um Grupo
Em um episódio clássico do Além da Imaginação, todos fazem cirurgia plástica quando chegam à adolescência e todos têm a mesma transformação para que todos pareçam iguais, Ken para homens e Barbie para as mulheres. Uma garota decide manter sua aparência natural e é, consequentemente, atormentada e ridicularizada por querer isso. Ela ficou sob uma pressão enorme para se adequar, para entrar na pressão do grupo e seguir junto. Os grupos exercem todos os tipos de pressão sobre seus membros individuais. Algumas vezes, os grupos têm regras explícitas que mantêm as pessoas na linha. Outras vezes, as regras ou as pressões são sutis.
Conformidade
A conformidade é definida como uma mudança no comportamento que resulta da pressão do grupo real ou percebida. Para a surpresa de muitas pessoas, nós nos adequamos muito mais do que pensamos. Quantas casas roxas existem em seu quarteirão? Não muitas, aposto.
Em um antigo estudo de 1937, Sherif viu como as pessoas mudaram seus julgamentos com base nas respostas das outras pessoas. As pessoas eram solicitadas a estimar a distância que uma luz se movia em um cômodo escuro. Sherif viu que, quando outras pessoas estavam presentes e davam uma estimativa diferente, a pessoa mudava sua resposta para ficar mais próxima dos outros. As respostas das outras pessoas influenciavam a pessoa. Asch, em 1955, viu a mesma coisa quando colocou pessoas em um grupo e pediu que elas estimassem os comprimentos das linhas. As pessoas mudaram suas respostas para coincidirem com o consenso do grupo. Ambos os experimentos são bons exemplos de como um indivíduo irá adequar-se sob a pressão do grupo, mesmo que a pressão seja sutil.
A obediência é uma forma extrema de conformidade, geralmente envolvendo ir contra o melhor julgamento ou intenções mais verdadeiras de alguém. Quando penso em obediência, visões da escola de treinamento de cães saltam em minha cabeça – eu lá, com uma correia em volta do meu pescoço, pulando para conseguir minha guloseima por realizar o truque solicitado. Parece um extremo, não é?
A maioria de nós adoraria pensar que abandonaríamos um experimento no qual temos de torturar alguém com choques elétricos. A maioria das pessoas em um estudo famoso não parou de aplicar o tratamento de choque em tal situação (veja a seção “Chocante, não?”, neste capítulo). Por quê? Oito fatores foram identificados como parecendo aumentar a conformidade e a obediência:
LE MB RE-SE � Distância emocional da vítima: Quanto mais contato pessoal alguém tenha com um indivíduo, menos provavelmente ele irá agir sem
compaixão. É mais difícil ser cruel quando a vítima tem um rosto.
� Proximidade e legitimidade da autoridade: Quando uma autoridade
está próxima, a obediência é mais provável. A autoridade também tem
que ser vista como legítima. Há mais probabilidade de sermos
obedientes a um indivíduo que vemos como possuindo uma autoridade
genuína, em oposição a um que finge.
psicologia01.indd 168 22/02/2011 16:35:43
Capítulo 14: Conforme um Contorcionista: Psicologia Social 169
� Autoridade institucional: Quando uma autoridade faz parte de uma
instituição reconhecida, a obediência é mais provável. Há mais
probabilidade de eu cumprir as sugestões de um juiz do que de um cara
ao meu lado no ponto de ônibus. A autoridade institucional
reconhecida tem um efeito poderoso na obediência.
� Tamanho do grupo: Grupos de três a cinco pessoas têm um efeito
máximo sobre a pressão da conformidade, menor ou maior do que isso,
o efeito é menos poderoso.
� Unanimidade: Quando os grupos estão em completo acordo, é mais
difícil para um único indivíduo resistir à conformidade.
� Coesão: Quanto mais um grupo sente que está ligado e organizado
firmemente, mais poder ele tem sobre seus membros. Eu costumava
jogar softbol em um time sem uniformes e simplesmente não parecia
certo. Precisávamos de uniformes para que fôssemos um time “real”. Os
uniformes são o único modo de aumentar a coesão porque quando
parecemos iguais, temos um senso de unidade.
� Status: As pessoas com status mais alto têm mais influência.
� Resposta pública: As pessoas se adaptam mais quando seus
comportamentos se tornam públicos. É mais fácil discordar de modo
privado ou anônimo.
RE-SE
MB
LE
Chocante, não?
Stanley Milgram, em 1965, conduziu um expe- branco insistindo que a pessoa real continue rimento de obediência que beira ao extremo. com o experimento e continue a administrar As pessoas eram colocadas diante de um os choques, apesar dos protestos e da dor painel de controle com uma chave para en- óbvia “da pessoa”.
viar choques elétricos para uma “pessoa” do Na verdade, as “pessoas” não receberam outro lado de uma divisória. As “pessoas” re-qualquer choque, elas apenas fingiam rece-almente eram pesquisadores fingindo estar ber o choque. Agora, pergunte a si mesmo: participando como pessoas reais. A premis-“Quando eu teria parado de dar os choques?”. sa: A “pessoa” deve receber um choque Talvez, você ache que teria parado no mo-sempre que errar uma pergunta. Com cada mento em que a “pessoa” começou a gritar e resposta errada subsequente, o choque fica pediu para você parar. Estou certo que as mais forte. Os choques começam com 75 volts pessoas no estudo de Milgram pensaram o e aumentam até 450 volts. Em um dado mo-mesmo. Contudo, o resultado chocante (des-mento, a “pessoa” está gritando e implorando culpe-me por isso) foi que 63 por cento das para a pessoa real parar de administrar o pessoas reais foram até 450 volts no aparelho choque. Um pesquisador fica ao lado de cada em conformidade (ou obediência) com o pes-pessoa real com uma prancheta e jaleco quisador. Agora, quanta obediência!
psicologia01.indd 169 22/02/2011 16:35:43 170 Parte V: Ficando Íntimo da Psicologia Social