Psicologia Para Leigos
01 Psicologia
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 16 partes.
portanto, pode parecer uma tortura. Se você tem medo de cobras, pule
em um tanque cheio delas. Você morrerá ou irá superar seu medo de
cobras! Não há nenhuma exposição gradual aqui. Simplesmente pule
em um buraco com cobras e supere!
Fica melhor! O paciente não só é exposto aos seus piores medos, como
também é impedido de correr, deixar ou engajar-se em um
comportamento de escape que geralmente foi usado no passado para
evitar o medo. Isso é chamado de prevenção da resposta.
RE-SE A inundação parece horrível, mas realmente é uma das formas mais
LE MB poderosas da terapia comportamental. Se um paciente confia em seu médico,
pode ser um modo rápido de superar algumas fobias poderosas e debilitantes. Pode parecer cruel, mas os pacientes devem consentir com todo o tratamento e normalmente as pessoas não são forçadas a irem a nenhum tipo de terapia, a menos que seja pelos tribunais. (Para saber mais sobre o papel da terapia no sistema de justiça criminal, veja o Capítulo 17.)
Aplicando um Pouco de Suborno em Sua
Mente com a Terapia Cognitiva
Os Alcoólicos Anônimos usam o termo “pensamento ruim” para descrever os tipos de pensamento que um alcoólatra em recuperação tem quando pensa negativamente e pensa em tomar uma bebida. A simplicidade desta frase não deve ser equivocada por uma falta de sabedoria. O poder do pensamento nunca deve ser subestimado.
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Capítulo 20: Mudando o Comportamento, Mudando o Pensamento 271
Ficando bem com germes
Um bom exemplo de inundação (veja a seção minha fobia de germes da lata do lixo. Ele “Terapias baseadas na exposição” neste ca- apontou uma pilha de lixo e disse-me para pu-pítulo) vem do tratamento de pessoas com lar nela. “O quê?”, eu disse. “Você me ouviu”, fobias a germes. Digamos que eu tenha medo ele respondeu “pule nela!”. O resto é história. de germes e de pegar doenças em latas de Eu pulei na pilha de lixo e comecei a rolar. De-lixo. Com isso, enchi meu apartamento inteiro pois de minha sessão de nado no lixo, o tera-de lixo porque estava com muito medo de to- peuta recusou-se a me deixar a tomar um car no lixo para retirá-lo. Estava ficando mui- banho até o próximo dia. Eu obedeci e não te-to repugnante e meu senhorio estava amea- nho mais medo de lixo.
çando me despejar. Felizmente, encontrei um Lembre-se de que isso não é uma história bom terapeuta comportamental na vizinhan-verdadeira e é um exemplo muito extremo de ça e ele concordou em me ajudar. inundação, mas não é muito distante da ver-Quando encontrei o terapeuta, ele me disse dade. Os terapeutas que usam a inundação que iria fazer a terapia em meu apartamento. pedem para seus pacientes se exporem com-Eu achei muito legal. Quando o terapeuta pletamente às coisas que mais têm medo. apareceu, ele explicou que iria curar-me de Acredite se quiser, realmente funciona!
A terapia cognitiva é uma forma de Psicoterapia popular e bem pesquisada que enfatiza o poder do pensamento. Da perspectiva dos terapeutas cognitivos, os problemas psicológicos, tais como, dificuldades interpessoais e desordens emocionais, são o resultado direto do “pensamento ruim”. Em outras palavras, os processos do pensamento inadaptado ou as cognições causam esses problemas. O “pensamento ruim” pode ter um impacto tremendo em nossa psique porque analisamos e processamos as informações sobre cada evento que ocorre à nossa volta e nossas reações a todos esses eventos. Pode ser algo assim:
A (perder meu emprego) → B (meus pensamentos sobre ser demitido)
→ C (meus processos de pensamento das emoções sobre o evento)
RE-SE Nossas reações são o produto de como e o que pensamos sobre uma situação
LE MB ou evento. Em muitas situações, tais como, a experiência de perda, um insulto, um fracasso, ou encontrar algo assustador, é bem natural sentir
alguma emoção negativa. As reações negativas não são necessariamente anormais. É só quando nossas reações emocionais e comportamentais ficam extremas, fixas e repetitivas que entramos no caminho do distúrbio psicológico.
Algumas vezes, o nosso pensamento pode ser preconceituoso ou distorcido e isso pode trazer problemas. A terapia cognitiva aborda a realidade de uma perspectiva relativista, a realidade de um indivíduo é o subproduto de como ele a percebe. Porém, os terapeutas cognitivos não veem a Psicopatologia como simplesmente uma consequência do pensar. Ao contrário, é o resultado de certo tipo de pensamento. Erros específicos ao pensar produzem problemas específicos.
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A
DIC
Peale é muito positivo
O livro The Power of Positive Thinking (O Po- sitivo produz resultados nas vidas das pesso-der do Pensamento Positivo) de Norman Vin- as. Peale não é a única pessoa que acredita cent Peale (Ballantine Books) é um dos livros que nossos pensamentos desempenham um de autoajuda mais famosos no mercado. A papel central na produção e na manutenção ideia básica de Peale é que o pensamento po- do comportamento.
Aaron Beck identificou seis distorções cognitivas específicas que levam a problemas psicológicos:
� Inferência arbitrária: A distorção ocorre quando alguém chega a uma
conclusão baseada em informações incompletas ou imprecisas. Se um
casal de cientistas for solicitado a descrever um elefante, sendo que
tudo o que podem ver do elefante é o que está visível através de um
pequeno buraco em uma cerca, a descrição do elefante de cada
cientista provavelmente será diferente. Um cientista olha pelo buraco e
vê um rabo. O outro olha e vê uma tromba. O primeiro cientista
descreve um elefante como um animal com rabo e o outro diz que é um
animal com tromba. Nenhum deles tem a imagem completa, mas ambos
pensam que sabem a verdade.
� Catastrofismo: Meu avô costumava se referir a esta distorção como
“fazer tempestade em um copo de água”. Beck o definiu como ver algo
como sendo mais importante do que realmente é.
� Pensamento dicotômico: A maioria de nós sabe que pensar apenas em
termos de preto e branco, sem considerar as áreas cinzas, pode trazer
problemas. Quando categorizamos os eventos ou as situações em dois
extremos, estamos pensando de modo dicotômico. Ao trabalhar em
prisões, descobri que os presidiários geralmente separam as pessoas
em dois grupos – amigo ou inimigo. “Se você não é meu amigo, é meu
inimigo”.
� Generalização exagerada: “Meu namorado terminou comigo; ninguém
me ama”. Este é um exemplo de generalização exagerada – quando
alguém pega uma experiência ou regra e a aplica inteiramente em um
conjunto maior e não relacionado de circunstâncias.
� Personalização: Uma de minhas peças favoritas é A tempestade. Quase
no final da peça, o personagem principal pensa que foi ele quem
chamou uma tempestade que virou o barco de seus inimigos. A
personalização ocorre quando alguém pensa que um evento está
relacionado a ele, quando realmente não está.
� Abstração seletiva: Uma vez conheci um cara na faculdade que
acreditava que as mulheres sempre riam dele quando ele andava no
campus. Mal sabia que a maioria das mulheres provavelmente não
notava sua existência. Muito provavelmente, elas estavam rindo de uma
piada ou de alguma outra situação divertida que não tinha qualquer
relação com ele. Ele chegou a uma conclusão tirando o comportamento
das mulheres do contexto.
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Capítulo 20: Mudando o Comportamento, Mudando o Pensamento 273
Como na terapia comportamental, a teoria da terapia cognitiva subjacente é bela em sua simplicidade. Se os problemas psicológicos são produtos de erros ao pensar, a terapia deve buscar corrigir esse pensamento. Algumas vezes, é mais fácil dizer do que fazer. Felizmente, os terapeutas cognitivos têm uma grande variedade de técnicas e uma abordagem altamente sistemática à sua disposição.
O objetivo da terapia cognitiva é mudar o pensamento preconceituoso usando a análise lógica e experimentos comportamentais designados a testar as crenças disfuncionais. Muitos erros do pensamento consistem em suposições falhas sobre si mesmo, o mundo e as outras pessoas. Geralmente, a terapia cognitiva ocorre assim:
1. O terapeuta e o paciente realizam uma avaliação completa das
crenças e suposições falhas, e como esses pensamentos se conectam
aos comportamentos e às emoções disfuncionais específicos.
A Christine Padesky e Dennis Greenberger, em seu livro Mind Over Mood
DIC (Mente Sobre o Humor) (Guilford Press), fornecem ao paciente um
sistema para identificar esses erros do pensamento que os psicólogos
cognitivos comumente chamam de pensamentos automáticos – os
pensamentos que ocorrem automaticamente como uma reação a uma
determinada situação. O paciente é solicitado a acompanhar situações
específicas que ocorrem entre as sessões de terapia e a identificar e
descrever em detalhes suas reações a essas situações.
2. O terapeuta e o paciente trabalham juntos, usando o registro do
pensamento automático, para identificar as distorções cognitivas
mediando as situações e suas reações.
Este processo geralmente difícil pode levar de várias semanas a vários
meses, mas no final do processo, as distorções já foram identificadas
totalmente.
3. O paciente e o terapeuta trabalham em cooperação para alterar suas
crenças distorcidas.
O terapeuta e o paciente colaboram em um processo de refutação
lógica, questionamento, desafio e teste dessas premissas e conclusões
falhas. Este esforço tenta tornar o cliente um pensador melhor e acabar
com o hábito do processamento de informações ruins.
RE-SE
MB
LE
Mais do que pessimismo
Certas desordens mentais (veja o Capítulo 16) conseguirei encontrar um outro trabalho”. Esse são consequência de distorcer a realidade tipo de pensamento pessimista está vinculado através do pensamento preconceituoso. Se eu a produzir uma reação emocional negativa perdi meu emprego, seria natural pensar: “Pre- mais forte do que o usual. Há uma diferença ciso encontrar um outro trabalho”. Mas, estaria enorme entre “eu preciso de um novo trabalho” distorcendo a realidade se pensasse: “Nunca e “nunca conseguirei um outro trabalho”.
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Trabalhando Bem Juntas: Terapias
Comportamental e Cognitiva
Albert Ellis é fundador de uma forma combinada de terapia que apropria-se da terapia comportamental e da terapia cognitiva. A terapia do comportamento emotivo racional ou TCER é baseada na premissa de que os problemas psicológicos são resultado do pensamento irracional e do comportamento que apoia esse pensamento irracional; portanto, podem ser enfocados por aumentar a capacidade de um paciente em pensar mais racionalmente e de se comportar de maneira que apoie o pensamento mais racional.
RE-SE Ellis é um psicólogo carismático cujo estilo e personalidade acentuam as
LE MB principais ideias da TCER. Os terapeutas comportamentais emotivos
racionais acreditam que a maioria de nossos problemas é autogerada e que nos preocupamos agarrando-nos a ideias irracionais que não se mantêm sob um exame detalhado. O problema está no fato de que a maioria de nós não examina nossos pensamentos com muita frequência. Fazemos afirmações irracionais para nós mesmos regularmente.
“Não suporto isso.”
“Isso é terrível demais.”
“Não sirvo para nada porque não posso lidar com isso.”
A
DIC
Pensamentos depressivos
Um das aplicações mais conhecidas da terapia � O mundo é um lugar injusto e cruel. Não cognitiva vem da Terapia Cognitiva da Depres- há nada nele para mim.
são de Aaron Beck. Beck propõe que os sinto- � Não há esperança para o futuro. Meus mas depressivos, tais como, tristeza e falta de problemas atuais nunca acabarão.
cas que o paciente tem sobre si mesmo, o ável e saudável, e no processamento das in-formações concernentes aos eventos na vida mundo e o futuro. Beck chamava essas cren-do paciente. O desafio para o paciente e o te-ças de tivas baseadas em três crenças muito específi- Essas crenças interferem na adaptação razo-motivação, são resultado de distorções cogni-existem em uma rapeuta é propor modos de identificar, desa-suposições depressogênicas e elas nitiva dos indivíduos que sofrem de depressão fiar e alterar essas crenças para reduzir seu tríade cognitiva. A tríade cog-
consiste nas seguintes crenças básicas: impacto nas emoções e nas motivações do paciente. Sou inadequado, abandonado, despreza-�
do e sem valor.
Estes são exemplos do pensamento irracional. Os terapeutas do comportamento emotivo racional definem essas afirmações como irracionais porque argumentam que as pessoas podem, de fato, lidar ou “suportar” os eventos negativos. Esses eventos raramente são, se forem, tão ruins quanto as pessoas pensam que são. E mais, geralmente nos mantemos nas regras do
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Capítulo 20: Mudando o Comportamento, Mudando o Pensamento 275
“deve”, aumentando nossa culpa por estarmos sobrecarregados, tristes, ansiosos etc. “Não devo ficar com raiva”. “Não devo importar-me com o que ela pensa”. “Não devo preocupar-me com isso”. Ellis costumava chamar isso de “dever tudo sobre si mesmo”. Os terapeutas TCER desafiam veementemente afirmações como essas.
RE-SE A postura desafiadora da TCER não deve ser considerada como implacável
LEMB ou sem cuidados. A TCER enfatiza os mesmos níveis de empatia e aceitação
incondicional de muitas outras terapias. Os terapeutas TCER não estão tentando necessariamente discutir com seus pacientes o sentimento de como eles se sentem. Eles estão tentando ajudar os pacientes a experimentarem suas emoções de uma maneira mais atenuada e gerenciável. Há níveis saudáveis de emoção e, então, há níveis irracionais de emoção. O objetivo da terapia é ajudar o paciente a aprender a experimentar suas emoções e outras situações desta maneira mais racional.
Os aspectos da terapia comportamental da TCER envolvem o paciente engajando-se em experimentos designados a testar a racionalidade ou a irracionalidade de suas crenças. Um terapeuta pode pedir a um paciente que está morrendo de medo de falar com estranhos para abordar dez estranhos por semana e iniciar uma conversa. Se o paciente pensava originalmente que iria morrer de vergonha, o terapeuta pode iniciar sua próxima sessão com: “Que bom ver você, acho que falar com estranhos não matou você afinal, matou?”
A TCER tem a posição de que duas abordagens podem trazer mudanças no pensamento – falar com um terapeuta e disputar racionalmente ideias irracionais, e engajar-se em comportamentos que “provam” ser ideias irracionais erradas. Ellis afirma que as pessoas raramente mudam seu pensamento irracional sem agir contra ele. Seu pensamento não mudará, a menos que seu comportamento mude.
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Capítulo 21
Ser uma Pessoa É Difícil:
Terapias Centradas no Cliente,
Gestalt e Existenciais
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Neste Capítulo
Aceitando a pessoa
Conseguindo o que preciso
Encarando a morte
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Uma mulher de 35 anos, irei chamá-la de Sra. Garcia, recentemente foi ao funeral de sua mãe e estava enfrentando problemas para voltar a trabalhar e interagir com sua família. Ela foi ao seu médico de família por medo de estar deprimida. Em vez de lhe dar uma medicação, seu médico de família a encaminhou para um psicólogo.
Considere a seguinte troca de abertura entre a Sra. Garcia e o psicólogo:
Terapeuta: Olá, Sra. Garcia, prazer em conhecê-la. O Dr. Huang
mencionou que você tem tido problemas para trabalhar e que foi
recentemente ao funeral de sua mãe. Por favor, sente-se.
Paciente: Obrigada. Antes de tudo, quero dizer que estou um pouco
desconfortável com isto. Já fiz Psicanálise antes e não gostei. Meu
médico era impessoal e frio demais.
T: Sinto que você tenha tido uma experiência ruim. Então, como você
sabe, não sou um psicanalista. Você gostaria de falar sobre essa
experiência?
P: Na verdade não, não agora. Estou sentindo-me muito mal
recentemente, na realidade, desde que minha mãe ficou doente. Eu ia e
ajudava minha irmã a tomar conta dela e saía sentindo-me condenada e
melancólica.
T: Condenada e melancólica? Como tristeza? Isso estava relacionado à
condição de sua mãe?
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P: Sim a ambos. Mas, eu não estava triste com o fato de que ela estava
morrendo; ela tinha sofrido por um longo tempo e aceitei que sua
morte provavelmente seria um alívio. Foi sua vida, não sua morte, que
parecia estar me chateando.
T: Sua vida estava chateando você. Você tinha aceitado sua morte. Fale
mais.
P: Lá estava aquela mulher de 68 anos de idade que tinha trabalhado
como empregada desde a idade de 16. Ela era uma mãe amorosa e
esposa dedicada, e eu quase senti vergonha dela. É horrível dizer, mas é
como eu sentia.
T: Você não aprovava seu estilo de vida?
P: Mais ou menos. Era como se ela estivesse vivendo para outra pessoa,
o patrão, meu pai, os filhos, os netos. Eu me sentia realmente mal ao
julgá-la, especialmente quando comecei a perceber que eu estava
vivendo exatamente a mesma vida.
T: Você vem vivendo do mesmo modo como sua mãe?
P: Não exatamente, mas quase. Dr. Cash, passo quatro horas por dia na
autoestrada indo e vindo de um trabalho onde não me sinto estimada.
Preciso de dinheiro. Quando chego em casa, tenho que preparar o
jantar e cuidar de meu filho. Meu marido chega à casa e espera o jantar
ficar pronto. Sei que parece egoísmo pensar em minha própria vida
quando minha mãe estava morrendo, mas sua doença e morte levaram-
me a refletir sobre minha própria vida e não gostei do que estava
vendo.
Os sentimentos e a experiência da Sra. Garcia ilustram os tipos de problemas com os quais os teóricos desses tipos de terapia estão preocupados. Ela está questionando sua vida, sua verdadeira identidade, seu senso do eu. Para quem ela está realmente vivendo? Ela está sendo verdadeira consigo mesma?
Embora cada um tenha feito contribuições únicas para a teoria e a prática da psicoterapia, Carl Rogers, Fritz Perls, Rollo May e Irvin Yalom tinham uma coisa em comum. Cada um deles via um grande potencial em todos nós. Eles acreditavam que todas as pessoas lutam pelo desenvolvimento máximo de si mesmas e seu potencial, e assumem a responsabilidade por suas vidas.
Muitas das formas da psicoterapia que apresento neste livro (Psicanálise no Capítulo 19 e as terapias comportamentais e cognitivas no Capítulo 20) foram criticadas por serem técnicas demais, estéreis ou fora do alcance da experiência real do paciente ou do cliente. Há pouco espaço para a pessoa real em muitas dessas teorias. As terapias analisadas neste capítulo têm a “personalidade” do paciente que busca ajuda como um tema central.
Brilhando no Holofote do Terapeuta
Reserve um minuto para fazer um pequeno exercício. Pegue um pedaço de
VOLUNTÁRIA papel e uma caneta, faça uma lista de todas as pessoas que você admira e
O
ÇÃ mantém sob uma luz positiva. Quem está na lista - professores, esposas, IA
C celebridades, pais? E você mesmo? Você está em sua lista de pessoas que SO
AS você vê positivamente? Você seria um membro de seu próprio fã clube?
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Capítulo 21: Ser uma Pessoa É Difícil: Terapias... 279
Neste mundo grande e caótico de mais de 6 bilhões de pessoas, algumas vezes parece que eu não importo, como se minha identidade individual fosse pequena demais, insignificante demais. Mesmo assim, todos nós andamos por aí com o sentimento de sermos um indivíduo. Algumas vezes, sentimo-nos tão independentes que realmente nos sentimos sozinhos e isolados, como se ninguém se importasse conosco. “E eu? Eu não importo?”
Carl Rogers se importava. Sua influência na psicoterapia foi profunda. Ele colocou a pessoa de volta no processo, tentando entender e valorizar cada um de seus pacientes como indivíduos únicos com problemas reais e não apenas como teorias e modelos abstratos. Você pode dizer algo com certeza sobre a terapia centrada no cliente de Carl Rogers – ela colocou um grande valor na “humanidade” de cada e todo paciente. Rogers acreditava que todos os humanos lutam inerentemente pelo desenvolvimento mais completo de sua capacidade para manter um nível otimizado de sobrevivência. É como o slogan do Exército dos EUA: “Seja tudo o que puder ser.”
Todos nós começamos a vida com uma necessidade humilde de termos nossas necessidades básicas por comida, abrigo e proteção atendidas. A partir dessa base, buscamos melhorar nossas vidas e expandir nossas habilidades em sua maior extensão. Crescimento é um grande jargão para os terapeutas centrados no cliente. O crescimento pessoal de um paciente está antes de tudo na mente do terapeuta e é central para o processo da terapia. Sempre que leio algo da perspectiva centrada no cliente ou algo que Carl Rogers tenha escrito, começo a refletir e a perguntar a mim mesmo: “Estou crescendo?”. Se você levar em conta a minha cintura, a resposta é definitivamente sim. No que diz respeito ao crescimento pessoal e a expandir as habilidades...
Qual é a relação da crença de Carl Rogers no valor inerente de cada um de seus pacientes como ajudá-los a melhorar? Os pacientes da terapia centrada no cliente estão pagando para alguém gostar deles, para valorizá-los? Mais ou menos, mas isso seria uma supersimplificação grosseira. É um pouco mais do que uma terapia “Eu amarei você até que você possa amar a si mesmo” ou “Aceitarei você até que você possa aceitar a si mesmo”.
RE-SE O mecanismo de cura ou de ajuda na terapia centrada no cliente é
LEMB encontrado no processo da terapia que trabalha para entender as
experiências únicas, pensamentos, comportamentos e sentimentos do cliente. Da mesma forma como o terapeuta luta para entender de onde está vindo o paciente, o paciente aprende a experimentar a si mesmo de uma maneira nova, mais produtiva e que melhora a vida.
Teoria da pessoa
Por que Carl Rogers pensou que fazer uma conexão genuína com seu paciente e realmente tentar entender como é esse determinado indivíduo tem um efeito de ajuda ou de cura? A resposta para essa pergunta pode parecer óbvia: Todos nós gostamos de nos sentir entendidos. (Veja o Capítulo 13 para saber mais sobre a importância das relações.) Ter pessoas “entendendo” o que somos parece nos dar uma sensação de bem-estar, um sentimento de estarmos mais vivos e presentes na tela de fundo de um mundo escuro e indiferente.
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Embora ele não seja considerado um terapeuta centrado no cliente, Eric Fromm introduziu um conceito que tenta explicar por que ser entendido é tão importante para todos nós. Fromm acreditava que fazemos tentativas constantes para verificar nossas percepções e experiências com as percepções e experiências dos outros à nossa volta, particularmente as pessoas cuja opinião valorizamos. Você pode ter ouvido sobre o conceito de uma verificação da realidade – como perguntar a alguém se ele viu um OVNI aterrissar no campo ao lado da autoestrada. “Você viu o que eu acabei de ver?”. Se a outra pessoa viu também, você experimenta algo que Fromm chamou de validação. A validação é a experiência de ter alguém para concordar ou apoiar sua experiência da realidade. A validação nos dá um sentimento de presença; faz com que sintamos que existimos. Segundo Fromm, sentiríamos como se não existíssemos sem validação.
Portanto, ser entendido parece ser central para o sentimento de que realmente existimos – que estamos vivos! Você já falou com alguém enquanto ele não estava entendendo o que você estava tentando dizer, como se ele não entendesse você? Esse tipo de experiência pode ser bem ruim. Em situações como esta e muitas outras, podemos sentir-nos desconectados e, em casos extremos, isolados.
Por que ser compreendido ou compreender os outros é tão difícil às vezes? Rogers acreditava que cada um de nós tem um quadro de referência único a partir do qual experimentamos o mundo. Pense nisso. Outra pessoa neste mundo pode parecer com você, ter o mesmo nome e ser exatamente como você em quase todos os aspectos. Os gêmeos biologicamente idênticos compartilham o mesmo código genético! Mas, segundo Rogers e os terapeutas centrados no cliente, até os gêmeos idênticos não são exatamente iguais. Eles são, na verdade, duas pessoas separadas. Gosto de ver isso assim. Nenhuma outra pessoa pode ocupar o mesmo espaço físico que eu ocupo ao mesmo tempo em que o ocupo. E elas não podem ocupar o mesmo espaço mental também! As pessoas podem “andar um milha em meus sapatos” abstratamente, mas só quando não os estou usando.
Você é único! Nossa experiência individual está especificamente separada dos outros, e conforme diferimos nossa experiência das experiências dos outros, começamos a desenvolver um sentimento do eu, um sentimento de quem somos. No entanto, nosso sentido do eu depende primeiro de como as outras pessoas nos veem e se relacionam conosco. Quando crianças, nossa experiência é entrelaçada e mesclada com as experiências de nossos pais, famílias e pessoas que cuidam de nós. Elas servem como um tipo de guia experimental, fornecendo-nos nossos primeiros modelos de compreensão e experiência no mundo. Posteriormente, começamos a diferenciar nossa experiência das experiências dos outros.
RE-SE Entretanto, este processo de diferenciação da experiência é possível apenas
LE MB dentro de um ambiente de visão positiva e de apoio daqueles à nossa volta.
Se eu vejo um OVNI e a outra pessoa não, ela ainda pode me apoiar em minha experiência dizendo que não viu o OVNI, mas que não significa que eu não o tenha visto. Se ela não apoiasse, poderia dizer: “Você está louco! Você não viu um OVNI!”. De modo mais real, muitas vezes testemunhei uma criança que se machuca ou fica chateada e vai para o pai buscando conforto, e o pai diz apenas: “Você não está machucada. Você está bem”. Esta situação é o oposto da validação; é uma experiência de não validação. A criança pode ficar confusa, pensando: “Sinto-me machucada, mas papai disse que não estou. Realmente estou machucada ou não?”. Muito confuso para uma criança.
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Capítulo 21: Ser uma Pessoa É Difícil: Terapias... 281
Rogers chamava nossa experiência de nós mesmos, já que depende das visões dos outros, de nossas condições de valor. Contanto que continuemos a atender as condições do valor definidas pelos outros, estaremos bem. Mas, quando não recebemos a aceitação incondicional, podemos ter problemas. Então, podemos começar a buscar a aceitação condicional dos outros porque ainda experimentamos sua aceitação incondicional. Ao buscar a aceitação condicional, vivemos um tipo de mentira, adotando uma abordagem experimental confusa e não diferenciada para viver. Se nossas experiências forem diferentes das experiências daqueles à nossa volta, poderemos distorcer nosso próprio pensamento, sentimentos ou comportamento para ficarmos alinhados com os deles. Passamos por uma crença que, se pensarmos, sentirmos e nos comportamos de acordo com as pessoas à nossa volta, teremos o respeito positivo que esperamos.
Mesmo que não recebamos a aceitação incondicional, ainda temos este sentimento subjacente de individualidade e exclusividade. Quando há uma desconexão e uma inconsistência entre minha experiência do meu eu e minha experiência de meu eu como a distorci para estar alinhada com as visões dos outros, estou incongruente. Isto envolve ter duas visões de si mesmo: como você realmente é e como você pensa que os outros pensam que você é. Rogers acreditava que o que fica no centro do desajuste psicológico é a incongruência entre minha experiência total e meu autoconceito distorcido. Essa incongruência leva a um sentimento alienado, desconectado e sem inteireza. Então, estamos apenas vivendo parte de nosso ser total e, portanto, não estamos satisfazendo nossa necessidade básica para experimentar, aperfeiçoar e expandir nosso ser.
Conforme viajamos ao longo deste caminho comprometedor, usamos diferentes mecanismos de defesa para manter o ato. Processamos seletivamente as informações sobre nós mesmos, os outros e o mundo à nossa volta para não derrubar o carrinho de maçãs da realidade. Por exemplo, muitas famílias têm uma ovelha negra que se destaca. Às vezes, essa pessoa pode fazer algo deliberadamente contra a natureza para ficar alinhada com o seu eu derivado da família e a imagem que todos têm dela. Algumas vezes, podemos manter este plano de uma maneira tão rígida que podemos realmente perder o contato com a realidade. Você já esteve em uma situação na qual algo aconteceu e todos tentaram fingir que não tinha acontecido? Chamo isso de “experiência da Zona do Crepúsculo”. Todos parecem saber o que está acontecendo, mas ninguém está querendo reconhecer a realidade.
Reconectando na terapia
Um dos principais objetivos da terapia centrada no cliente é ajudar o paciente a reintegrar essas diferentes versões do eu. No centro deste processo está, talvez, a contribuição mais importante de Rogers para a psicoterapia – a visão positiva incondicional. Isto envolve aceitar o paciente como uma pessoa sem julgar suas experiências, sentimentos, pensamentos ou comportamentos em um sentido moral. O terapeuta não deseja repetir a experiência de invalidação que o paciente provavelmente passou ao crescer ou continua passando.
Os terapeutas centrados no cliente engajam-se no que Rogers chamou de reflexão – comunicar ao paciente que ele ouve o que o paciente está dizendo
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e que está tentando entender de onde o paciente vem. Rogers enfatizava a empatia precisa. Os terapeutas que adotam esse conceito evitam impor suas próprias compreensões e estruturas na experiência do paciente. Isso ajuda os pacientes a começarem a ver como eles distorceram suas próprias experiências sem introduzir qualquer nova distorção em relação às expectativas do terapeuta.
O terapeuta “reflete” você em você mesmo ao estar atento e ao descrever para você o eu que você está apresentando para ele. Durante esse processo, sua autoconsciência aumenta e você começa a se ver de um modo que nunca foi capaz antes. O terapeuta centrado no cliente é como um espelho ou um “autoamplificador”. Anderson e Wexler viam esse processo como terapeutas que ajudam os pacientes auxiliando e melhor organizando suas próprias experiências e pensamentos.
RE-SE Uma outra contribuição enorme que Rogers fez para a psicoterapia foi a
LE MB introdução de suas seis condições necessárias e eficientes que devem existir
para a terapia ser útil:
� Uma relação profissional, respeitosa e de aceitação formada entre o
cliente e o terapeuta.
� A disposição do paciente em ser vulnerável e experimentar fortes
sentimentos, tais como, ansiedade, e a capacidade do terapeuta em
motivar o paciente a buscar e a ficar envolvido na relação da terapia.
� Genuinidade – o cliente deve ser ele mesmo “livre e profundamente”,
sem distorcer como se sente ou o que pensa.
� Visão positiva incondicional.
� Empatia precisa.
� Percepção da genuinidade – o terapeuta tem que ser uma pessoa real
(com sentimentos, pensamentos e comportamentos próprios), não
apenas uma pessoa desempenhando um papel, agindo ou fingindo para
o cliente.
RE-SE
MB
LE
Sim, mas funciona?
A terapia rogeriana ou centrada no cliente já nidade e apreciação (percepção positiva in-existe de uma forma ou de outra há cerca de condicional), são valiosas, mas não necessá-50 anos. A pergunta fundamental para qual- rias ou suficientes (sozinhas) para levar a quer forma de psicoterapia, intervenção psi- uma mudança terapêutica. Ou seja, um tera-cológica ou medicação é se ela funciona ou peuta não tem que possuir ou fazer essas coi-não. A pesquisa na eficiência da terapia cen- sas para ser útil.
as condições específicas da “necessidade e Orlinsly e Howard, porém, achavam que a trada no cliente geralmente tem investigado
suficiência”. cordialidade, empatia e genuinidade facilitam o processo da terapia. Isto é, a terapia pode A maioria dos estudos, inclusive um conduzi- ser um pouco melhor se o terapeuta criar es-do por Beutler, Crago e Arezmendi, mostrou sas condições. Não parece prejudicar, por-que três das seis condições, empatia, genui- tanto, por que não?
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Capítulo 21: Ser uma Pessoa É Difícil: Terapias... 283
Organizando-se com Gestalt
Quero iniciar esta seção com um pequeno enigma filosófico. Você se lembra do transportador “luminoso” na série Jornada nas Estrelas? A partir de agora, você faz parte da tripulação na nave Enterprise. Você está em uma missão extremamente perigosa para o planeta Rumaliano e as coisas começam a ficar realmente fora de controle, portanto, você se comunica com Scotty para transportá-lo para a nave imediatamente. Scotty o transporta e você está programado para um interrogatório da missão com o capitão Kirk. Mas, primeiro, você tem que pegar uma autorização médica com Bones, o doutor da nave. Você vai para a enfermaria para o seu exame.
Durante o exame de Bones, você o ouve dizer: “Oh, oh!”. Ele fala para você que, durante uma varredura computadorizada de mapeamento da mente, descobriu que está faltando parte do seu cérebro. Ele explica que o processo de emissão de luz é conhecido por falhar na reconfiguração de algumas partes do corpo e, às vezes, coisas são perdidas.
“Com que frequência isso acontece, doutor?”, você pergunta.
“As chances são uma em um milhão. Não se preocupe; não é uma parte
muito importante do seu cérebro. Você não sentirá falta dela”, responde
Bones.
Nesse momento, o Dr. Spock entra na enfermaria.
“Espere um momento Bones. Não lhe diga que não importa. Ele nunca
será a mesma pessoa novamente”, Spock diz.
“Claro que será”, Bones responde. “Tenho um cérebro protético seção
45 pronto para instalar. Ele nunca saberá que sumiu”.
“Sim, saberá”, acrescenta Spock. “Você já ouviu falar sobre o conceito
que o todo é mais do que a soma de suas partes? Mesmo que você
substitua a parte do cérebro que falta, ele nunca será a mesma pessoa
porque a pessoa original que ele era, era mais do que a soma das
muitas partes do corpo”.
Neste ponto, você está totalmente fora de si. Spock está certo? Quem “você” é com essa parte que falta? Você ainda será “você” quando Bones substituir a parte? O novo “você” com as novas partes será o mesmo “você” como o antigo “você” com as antigas partes?
Parece que o Dr. Spock andou lendo alguma coisa sobre Psicologia Gestalt. Os psicólogos da Gestalt acreditam que a mente humana organiza o mundo em partes inteiras significativas, chamadas Gestalts, e que o todo organizado é basicamente diferente da soma de suas partes.
Inteiramente necessitado
Eu gostava de beliscar tarde da noite. Nunca falhava – todas as noites, por volta das 22:00, eu tinha vontade de comer algo. Algumas vezes era um sanduíche de pasta de amendoim e geleia, e outras era um burrito congelado. Então, um dia ouvi algo que realmente me surpreendeu. Eu ouvi que muitas pessoas confundem desidratação com fome. Portanto, quando senti vontade
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de comer tarde da noite novamente, eu bebi uma garrafa de água. Funcionou! Eu não fiquei mais com “fome”. Qual é a moral desta história? Nenhuma; eu pensei que lhe contaria sobre as minhas farras de comida tarde da noite. Na prática, isso não é verdade. Há uma moral nessa história – eu estava distante do que meu corpo precisava e troquei uma necessidade por outra. Como pude confundir fome com desidratação?
RE-SE A terapia Gestalt, fundada por Fritz Perls, embora não esteja preocupada
LE MB especificamente com o meu problema PA&G (sanduíche de pasta de
amendoim e geleia), foca nos pacientes que não estão em contato com suas necessidades como um organismo vivo. Cada um de nós é um organismo vivo que respira, come e defeca, existindo em um ambiente. Somos organismos autorreguladores. Sabemos inerentemente quais são nossas necessidades e quando não temos obstáculos, atendemos satisfatoriamente essas necessidades de modo natural.
Nossas necessidades biológicas estão no centro de todos os nossos comportamentos e, como Fritz Perls enfatizou, somos entidades biológicas. Perls chamava essas necessidades biológicas de objetivos finais – nossas necessidades básicas por comida, água, sexo, proteção e habilidade para respirar. Tudo mais que fazemos e todas as outras necessidades que satisfazemos estão conectadas a servir a essas necessidades básicas. Essas necessidades são os meios para o fim da existência biológica. Quando uma necessidade surge da deficiência, sentimos um desejo ou uma condução para restaurar nosso equilíbrio natural, nossa inteireza. Essa necessidade domina nossa consciência até ela ser satisfeita.
Até o momento, parece que a terapia Gestalt está preocupada com a organização, e não quero dizer com isso que Fritz Perls era um maluco beleza. O propósito Gestalt é bem simples: organizamos nossas vidas, comportamentos, pensamentos, sentimentos e atividades em torno de nossas necessidades. Nossas necessidades finais e os meios pelos quais tentamos satisfazê-las estão no centro de nossa organização pessoal.
Sou um monte de partes organizadas em torno de uma necessidade (necessidades básicas e necessidades secundárias). Para os psicólogos Gestalts preocupados com a percepção humana, quando algo é central em nosso campo da percepção, é chamado de figural. Tornar-se uma “figura” bem definida contra um segundo plano menos claro e mal definido, chamado fundo. Em qualquer ponto em particular, tenho uma necessidade que é figural, definida contra um fundo. Minha vida está organizada em torno do que é figural para mim. Perls e os terapeutas Gestalts chamavam a figura e o fundo juntos, inclusive todas as várias partes da pessoa e do ambiente, de campo.
VOLUNTÁRIA Para experimentar e entender como este conceito baseado na figura funciona,
O tente o seguinte exercício. No Capítulo 5, analiso como os conjuntos da
ÇÃ
IA percepção consistem em percepções figurais definidas contra um pano de C
SO fundo ou segundo plano. Algumas vezes, focamos na figura, e outras, no AS
fundo. Experimente. Segure uma caneta ou um lápis a cerca de 10 polegadas de seu rosto. Foque nela. Depois foque nas coisas atrás da caneta. Mova para frente e para trás para ter a ideia de figura e fundo. O mesmo conceito se aplica em um sentido metafórico às nossas necessidades. Algumas necessidades estão em foco, e outras não.
O campo é separado em figura e fundo com base na necessidade que mais demanda satisfação (figura) e as necessidades que já estão satisfeitas
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(fundo). Em um processo chamado ciclos de experiência, uma necessidade fica figural até ser satisfeita e, então, enfraquece no fundo, permitindo a próxima necessidade mais urgente emergir. Segundo Clarkson e Mackewn, o ciclo é assim:
1. Primeiro contato: Um organismo (você e eu) torna-se consciente de
uma necessidade.
2. Contato: Os recursos são mobilizados e utilizados para atender a
necessidade, assim, o organismo toma uma ação para superar qualquer
coisa que fique em seu caminho.
3. Contato final: O organismo fica totalmente investido no processo de
satisfação da necessidade. Qualquer necessidade não figural
enfraquece no fundo e a necessidade atual mais urgente do organismo
aponta e brilha em seu campo.
4. Pós-contato: A satisfação é conseguida e a figura enfraquece.
Os terapeutas Gestalts são prósperos ao serem conscientes. Perls definiu consciência como estando em contato com o campo inteiro, que inclui o que é figural e o que é fundo. Os terapeutas Gestalts chamam o fato de estar consciente do campo inteiro, de estar em contato – o processo da interação contínua e do ajuste entre um organismo e seu ambiente. Crescemos e amadurecemos através do contato.
Perls geralmente usava o ato de comer como um exemplo. Comer é um processo de se sentir com fome, buscar comida, ter alimento e crescer a partir de seu benefício. Quando conectamos e mantemos contato com o mundo, inclusive conosco, captamos o que é alimento e rejeitamos as coisas que são venenosas ou tóxicas. O contato não é um processo indiscriminado. Toda comida precisa ser decomposta, mastigada e digerida para ser útil, e não podemos encher nossas bocas com tudo que vemos. Portanto, pare de examinar aquele arbusto – não é comestível, não importa o quão figural seja sua necessidade de mastigar suas belas flores rosas.
Perls parecia ter um grande respeito pela capacidade autorreguladora em
RE-SE todos nós. Ele esperava que seus pacientes lutassem pela integração e pela
LEMB maturidade, evitando uma dependência desnecessária dos outros. Ele
esperava e respeitava a independência e a autonomia de cada indivíduo. Seu famoso mantra Gestalt diz bem isso:
Faço minha parte e você faz a sua.
Não estou neste mundo para cumprir suas expectativas.
E você não está neste mundo para cumprir as minhas.
Você é você e eu sou eu.
Se por acaso nos encontrarmos, ótimo.
Se não, não há nada a fazer.
Gestalts saudáveis
Os terapeutas Gestalts geralmente usam diagnósticos tradicionais e categorias da psicopatologia, o que não significa que eles pensam que nada
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está errado com os pacientes que buscam ajuda. Com todas essas partes, necessidades, figuras e fundos à nossa volta, pode ser fácil ver como a vida
RE-SE de alguém pode ficar bagunçada.
MB
LE Alguns problemas que os terapeutas Gestalts identificam em um paciente
típico são os seguintes:
� Quando paramos de crescer e amadurecer, e cessamos de funcionar
como organismos eficientes que atende às necessidades, temos uma
desordem do crescimento. O processo normal da formação do fundo da
pessoa é interrompido e, em vez da satisfação real, tudo que temos é
um monte de necessidades não resolvidas.
� Quando uma necessidade não é atendida, ela fica figural e é referida
como negócio inacabado. As representações para cada uma dessas
necessidades diferentes exigem finalização. Tudo que fazemos,
dizemos, sentimos, pensamos etc., é interpretado em relação a esta
peça ou peças de negócio inacabado.
É como o velho ditado: Quando tudo o que você tem é um martelo,
tudo parece ser um prego. Bem, quando tudo que tenho é um negócio
inacabado, tudo parece ser uma oportunidade comercial.
Eis um exemplo: Recentemente, fiz uma entrevista para um novo
trabalho. As pessoas que me entrevistaram, disseram-me que elas me
enviariam uma carta ou ligariam dentro de um prazo de duas semanas a
partir da data da entrevista. Não consegui tirar o pensamento “ligar
para mim ou correspondência para mim” de minha cabeça, eu fui
incessantemente até a caixa de correio e atendia o telefone pensando
que era o empregador em potencial! Minha necessidade de conseguir o
trabalho estava organizando a minha experiência. Conforme escrevo
isto, ainda é um negócio inacabado; eles ainda não entraram em
contato comigo.
� Temos duas estratégias para tentar lidar com esta necessidade
insatisfeita: esquecer ou suprimir a necessidade. Perls acreditava que
suprimir uma necessidade insatisfeita exige um preço em nossa energia
vital. Pode nos enfraquecer. Ficamos descentralizados e inconscientes
do campo através do processo de supressão.
� Um outro modo de lidar com as necessidades insatisfeitas é criar um
substituto ou necessidades substitutas. Este processo pode servir para
satisfazer alguma parte nossa, mas nunca realmente resolve o
problema. Ficamos presos em uma representação fixa, onde nenhuma
figura enfraquece e nenhuma nova emerge.
Nunca estamos muito satisfeitos pela supressão ou pela substituição.
Nosso negócio inacabado sempre volta para nos assombrar. Lembra-se
da música dos Rolling Stones “(I Can’t Get No) Satisfaction”.
� Atingimos um impasse ou um bloco em nosso crescimento, o ciclo
natural da experiência é interrompido e o contato é rompido. Ficamos
parados nas soluções comprometedoras para o negócio inacabado.
Perls e os Gestaltistas propuseram cinco camadas diferentes de ficar
preso. São cinco formas diferentes de interrupção de crescimento
quando vivemos uma vida sem contato e não autêntica. Quando
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estamos nesse ponto preso, adotamos uma abordagem
comprometedora e ineficiente para satisfazer nossas necessidades
orgânicas. Estamos sem contato com o nosso ciclo de experiência mais
verdadeiro. Eis as camadas:
� Camada falsa: Este é o nível de funcionamento no qual
construímos um eu irreal para nos engajarmos no mundo. Adotamos papéis e identidades que não são refletivas de nossas necessidades mais verdadeiras. Lutamos para cumprir um conceito de quem pensamos que somos, não quem realmente somos.
� Camada da fobia: Aqui, estamos com medo de quem realmente
somos, abaixo da camada falsa. Temos medo de que se
mostrarmos quem realmente somos, todos se afastarão com horror. Possivelmente, ninguém poderia amar meu eu real!
� Camada do impasse: Este é o ponto onde ficamos parados.
Começamos a desistir de ter nossas necessidades satisfeitas porque pensamos que somos incapazes de prosseguir ou fornecer nossas próprias soluções. Normalmente, um medo de
independência está envolvido.
� Camada implosiva: Esta é uma experiência de separação das
várias partes do nosso eu que renegamos ou negamos. É como se estivéssemos congelados com o medo de nos mover na vida. Estamos quase paralisados.
� Camada explosiva: É uma liberação de toda a energia implodida e
presa. Alguns pacientes descrevem isso como uma sensação de ter um peso retirado de suas costas. Eles se sentem energizados e há um ganho enorme de energia.
Cada um de nós tem vários mecanismos de defesa que interrompem o
contato. Lembre-se de que contato é a utilização e a mobilização dos
recursos para satisfazer uma necessidade e estar em contato com o
campo inteiro. Usamos esses mecanismos de defesa para sobreviver,
mesmo que sobrevivamos em uma posição comprometedora. São
chamadas de perturbações limítrofes.
� Introjeção: Este é um processo de pegar as informações no
ambiente sem assimilá-las em nossas personalidades. É como engolir uma comida inteira, sem mastigá-la primeiro. Você fica com uma barriga cheia de substância indigerível. Se nada é digerido, sua alimentação não pode ser extraída. Isso pode acontecer quando nos sentimos derrotados ou esmagados por nosso ambiente. Se eu introjetei a opinião de meu pai dominador de que nunca atingirei nada, crescerei acreditando nisso.
� Projeção: Você já sentiu culpa sobre algo? Naturalmente que sim.
Você já acusou outra pessoa de algo que você sabia que o culpado era você? Se já, você foi culpado duas vezes – culpado de ter feito o que fez e culpado da projeção. A projeção é mais do que acusar. É o processo no qual atribuímos algo sobre nós mesmos a outra pessoa. Algumas vezes, a projeção ocorre quando pensamos, sentimos ou experimentamos algo que é “inaceitável” para nós ou para as pessoas que são importantes para nós. A projeção nos permite evitar a responsabilidade. “Não fiz isso, eu juro. Você é quem fez!”
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� Confluência: Se falhamos em fazer uma distinção entre nosso
próprio limite de contato e o limite de contato de outra pessoa, podemos evitar o contato inteiro. Contato resulta em fricção. Se não há “você” e “eu”, então, não há fricção e, assim, nenhum contato. Estamos misturados, sem saber onde eu começo e você termina, e vice-versa. Isso parece um processo suave, e é. Os terapeutas Gestalts não são pretensiosos sobre as relações suaves porque acreditam que as necessidades das pessoas não são atendidas de modo otimizado sob essas condições.
� Retroflexão: A proclamação da retroflexão: “Faça para si mesmo o
que deseja fazer para os outros”. Este é um processo de virar os sentimentos, pensamentos e comportamentos que saem para fora de volta para si mesmo. Em vez de ter raiva de meus pais, por exemplo, posso começar a ter raiva de mim mesmo. A retroflexão também descreve o processo de fazer para si mesmo o que você deseja que os outros façam para você. Lembra de Stewart do filme Como salvar sua família? Ele ficava na frente de um espelho e fazia para si mesmo afirmações positivas. “Você é bom o bastante, você é esperto o bastante e, por Deus, as pessoas gostam de você!”. Se ninguém amar você, ame a si mesmo!
� Dessensibilização: Nós nos adormecemos para o mundo à nossa
volta através do processo de dessensibilização. Lembra da música do Pink Floyd, “Comfortably Numb”?
� Egotismo: É quando somos paralisados pela autoanálise extrema.
Tentamos controlar o caos de nossos mundos sendo perfeitos e tomando todas as decisões “certas”. Neste caso, a análise é a paralisia.
Felizmente, você não ficou sem esperança depois de ouvir todos esses impasses e mecanismos de defesa. Se ficou, tudo bem. Os terapeutas Gestalts têm sua própria abordagem única para a terapia que enfoca ficar preso e sem contato.
Fazendo na terapia
Eu percebo que estou fora de contato com minhas necessidades e que adotei todos os tipos de manobras de defesa e adaptações em camada. E agora? Terapia Gestalt, aqui vou eu. Fritz Perls me mostra o erro de meus caminhos, apontando onde fiquei parado e onde perdi o alvo? Bem, não exatamente. Se vou a um terapeuta Gestalt à procura de um “médico” enquanto me sento passivamente e desempenho o papel de “paciente”, eu vou conseguir outra coisa.
RE-SE
LE MB Os terapeutas Gestalts começam a terapia com algumas expectativas muito
básicas. Os pacientes são responsáveis por:
� Conduzir o processo
� Decidir quando estão se sentindo melhor
� Encontrar suas próprias soluções
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Capítulo 21: Ser uma Pessoa É Difícil: Terapias... 289
Neste momento, você pode estar se preguntando: “Então, o paciente está pagando pelo o quê?”. Os terapeutas Gestalts propiciam uma relação de colaboração, que é acompanhada pela especialização na teoria da personalidade Gestalt e pela psicopatologia como um meio para guiar o paciente em direção a uma consciência mais completa de si mesmo e de suas necessidades. O terapeuta e o paciente devem estar em uma base mais igual do que as outras formas de terapia (a Psicanálise enfatiza os papéis do médico-paciente, por exemplo). O paciente não fica em uma poltrona – o terapeuta proporciona um contato mais humano. O terapeuta deve ser tão genuíno e real com o paciente conforme for apropriado. Os dois objetivos principais da terapia gestalt são:
� Melhorar a consciência do mundo do paciente
� Restaurar o ciclo saudável da experiência
O terapeuta Gestalt aponta o negócio inacabado do paciente quando ele emerge através do conteúdo e do processo da relação terapêutica. O terapeuta direciona o paciente para focar em sua experiência imediata, em uma tentativa de ajudar o indivíduo a se reconectar com suas necessidades descartadas e romper com o antigo comportamento.
Uma das contribuições mais singulares para a terapia dos Gestaltistas é o seu uso de “experimentos” e técnicas especiais de aperfeiçoamento da consciência. Esses experimentos e técnicas ajudam os pacientes a verem como os seus meios atualmente comprometidos para atender suas necessidades foram de uma técnica de tentar satisfazer as necessidades até um obstáculo ao satisfazer as necessidades.
A A técnica da cadeira vazia é um exemplo excelente. Se um paciente tiver um
DIC conflito com um determinado indivíduo que se qualifica como negócio
inacabado, o terapeuta pede ao paciente para imaginar que a pessoa está sentada em uma cadeira vazia na sala. Então, o paciente fala com o indivíduo, dizendo qualquer coisa que ele sempre quis dizer. Eis mais alguns experimentos e técnicas usadas pelos terapeutas Gestalts:
� Assumo a responsabilidade: Pedir aos pacientes para terminarem tudo
que dizem com “... e eu assumo a responsabilidade por isso”.
� Desempenhando a projeção: Pedir aos pacientes para desempenharem
o papel da pessoa que eles projetam, tais como, uma esposa
representando o marido.
� Reversões: Pedir aos pacientes para agirem exatamente da maneira
oposta como eles geralmente agem para explorar os aspectos ocultos e