Um Defeito de Cor
Capítulo oito
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.
Bem antes da data, as associadas começavam a esmolar entre os irmãos e as irmãs e também entre a população em geral, que comparecia vestindo suas melhores roupas, feitas exclusivamente para a festa. A roupa das irmãs da Boa Morte era muito bonita, branca e preta, mais preta que branca, feita de tecidos finos, com muita renda e babado para enfeitar, além de uma faixa de cetim branco cruzando o peito, bordada a ouro, e muitas jóias, tudo em homenagem à Santíssima Virgem.
No consistório da igreja da Barroquinha era armada uma mesa com comidas e bebidas caras e finas, e os fiéis se regalavam durante toda a noite, inclusive os padres, que depois reclamavam da profanação do templo. Era principalmente uma festa de pretos, da qual os padres também participavam e depois saíam criticando, para
não perderem o respeito dos católicos mais fervorosos.
Enquanto as pessoas mais importantes se divertiam no interior da igreja, no adro se divertia o povo, com palanque de músicos, fogos, bombinhas, fogueiras, balões e tabuleiros de comidas e bebidas.
Na hora marcada saía a procissão, com o esquife carregado por quatro irmãs da confraria e seguido por um capelão, por padres usando sobre peles e pelas irmãs mais importantes, as que formavam a mesa da Irmandade, puxando a fila dupla formada por todas as outras irmãs, que carregavam tochas e entoavam benditos. Atrás delas caminhavam os membros de outras confrarias de pretos que também queriam demonstrar devoção a Nossa Senhora. Assim iam até o alto da Ladeira da Praça do Teatro, onde o esquife era entregue aos irmãos da confraria do Senhor dos Martírios, para ser conduzida por várias ruas da cidade.
Quando descia a Ladeira de São Bento, a procissão sempre encontrava com a de Nossa Senhora das Angústias, que ia subindo; as duas se saudavam e seguiam adiante. A de Nossa Senhora da Boa Morte ia então até o alto da Ladeira da Barroquinha, onde o esquife era devolvido às irmãs, que o levavam de volta para a igreja. Era então que começava a grande festa, com as melhores comidas, vinho Figueiras e deliciosos licores caseiros. Isso novamente no consistório, porque do lado de fora continuava a festa do povo, ainda com mais gente que antes e mais alegria e bebedeira, que estimulavam o povo a invadir a igreja e cantar e dançar diante da imagem de Nossa Senhora, que do altar-mor e de dentro de seu féretro, rodeada de círios e flores, abençoava os fiéis. Do lado de fora se ouviam as músicas das rodas animadas por berimbau e batuque, que continuavam até quase o romper do dia dezesseis de agosto, quando então as irmãs já começavam a esmolar para a festa do ano seguinte.
A festa de Cachoeira foi uma cerimônia simples, com quase tudo o que foi dito sobre a da capital, mas sem a presença
dos
padres
ou
de
outros
homens.
Compareceram mais convidadas e éramos umas setenta mulheres na adoração, na procissão que caminhou por todo o quintal, no coro dos benditos e na mesa dos quitutes. Mas nem assim foi uma festa menos bonita que a de São Salvador, por causa da verdadeira devoção das irmãs e da alegria com que faziam aquela homenagem. A festa acabou cedo, porque no dia seguinte elas tinham uma importante reunião, que eu e a Esmeralda acompanhamos sentadas em uma grande roda formada no meio do terreiro.
A Mãe Rosa ouvia tudo com muita atenção e quase me ofereci para tomar nota do que falavam, mas me lembrei de que nem sempre as irmandades gostam de ter suas tradições por escrito, preferindo que sejam passadas de irmã para irmã. Assim também acontecia com os cultos que, à exceção dos feitos pelos muçurumins, eram ensinados apenas oralmente, para evitar que a parte sagrada caia em mãos erradas. Acho que também era um jeito de se protegerem das autoridades, que não permitiam outro culto a não ser o dos brancos católicos.
Embora a Irmandade da Boa Morte fosse fundada em torno de um culto católico, o de Nossa Senhora, havia muito das crenças africanas, segredos que só eram revelados para as irmãs. De conhecimento de todos, sabia-se apenas que a Irmandade organizava a festa no mês de agosto, levantava fundos para a compra de cartas de alforria e organizava os enterros de suas irmãs, mas, às escondidas, ela protegia e encaminhava pretos fugidos. Devia haver outras funções, mas não fiquei sabendo. Hoje talvez até me aceitassem, mas sei que não terei tempo para isso.
As irmãs de São Salvador disseram que, para ser aceita na Irmandade, a candidata tinha que ser preta, freqüentar alguma casa de culto de orixás e ter mais de
cinqüenta anos, além de já ter demonstrado grande zelo por Nossa Senhora. Sendo assim, ela podia pedir a uma das irmãs, conhecida dela, que perguntasse às outras se podiam aceitá-la. Observei que assim elas acabavam formando uma grande família, já que as iniciadas tinham que conhecer a apresentante. Isso explicava por que entre aquelas mulheres só havia eves, nagôs e ketus, que, além de irmãs no santo e parentes, também se tornaram irmãs na devoção, e foi só algum tempo depois, em África, que entendi como estas relações eram importantes, não só no Brasil, mas também lá, entre os que retornaram.
As interessadas em fazer parte da Irmandade eram então observadas durante um tempo, para ver se eram gente do bem. Quando as irmãs achavam que a candidata era digna de estar entre elas, fazia-se então o pedido formal de entrada, e a inicianda passava três anos aprendendo os segredos, as obrigações e os deveres. Durante esse tempo, ela era chamada de irmã de bolsa, pois ficava encarregada de esmolar para a Irmandade, sendo também convidada a participar de algumas cerimônias. Só depois dos três anos ela podia se considerar aceita de verdade, e a cada três anos ia subindo de cargo.
O mais alto cargo é o de juíza perpétua, ocupado pela irmã mais velha que já tivesse passado por todos os outros. É ela quem comanda os cultos e decide sobre qualquer problema que apareça na Irmandade. Abaixo da juíza perpétua, estão as procuradoras-gerais, as provedoras, as tesoureiras e as escrivãs, e mesmo nestes cargos existe uma hierarquia, mas já não me lembro como é definida. Cada um dos cargos é responsável por determinadas tarefas na Irmandade, mas todas as irmãs são responsáveis pelos serviços de cozinha, de organização das cerimônias, da procissão do cortejo e dos funerais, que seguem regras da religião dos brancos misturada com a dos orixás. Mas mesmo ocupando
cargos diferentes e alguns mais importantes que os outros, todas se consideram simples empregadas de Nossa Senhora.
Além dos cargos ocupados por merecimento, há outros escolhidos por votação, e acho que os mais cobiçados são os das quatro irmãs responsáveis pela organização da festa de agosto. Por isso a eleição é realizada todos os anos e todas podem concorrer, desde as que têm poucos anos de Irmandade até as mais antigas. Era a primeira vez que as irmãs de Cachoeira estavam escolhendo as diretoras de festa, e havia muita expectativa. As irmãs de São Salvador sugeriram que algumas candidatas se apresentassem e, se não me engano, foram doze entre as dezenove.
Elas tinham um sistema interessante de votação, e a cada uma delas, inclusive às candidatas, foi dado um grão de milho e um de feijão. Um dos nomes era dito em voz alta, e sempre que a irmã concordasse com ele deveria colocar o grão de feijão sobre a mesa, ou o de milho quando discordasse. Depois da apresentação de cada nome era feita a contagem, e estavam eleitas as quatro que ganhassem o maior número de feijões. Com a eleição, elas esperavam que a festa do ano seguinte fosse maior do que a que acabara de acontecer, e de fato foi, pois eu estava presente. Uma coisa interessante que as irmãs de São Salvador falaram antes de ir embora foi que, a cada sete anos, a própria Nossa Senhora desce até a Irmandade e preside toda a festa, na pessoa da procuradora-geral.
As Roças
Eu estava ansiosa para começar a iniciação, e no dia seguinte a Mãe Rosa mandou chamar uma sobrinha e pediu que ela me levasse até a Casa Kwe Ceja Undé também chamada de Roça de Cima. Fui atendida por um pejigan que, se não me engana a memória, se chamava
Tixarene, e quando perguntei pela sinhá Romana, ele disse que não era naquela casa, que eu deveria procurar por ela na Roça de Baixo, e deu todas as instruções para chegarmos até lá. A Roça de Baixo funcionava em um espaço bem menor que a Roça de Cima, e com menos gente, o que mais tarde achei ótimo. A sinhá Romana, a gaiacu, tinha mais tempo para ensinar as candidatas a vodúnsi, que eram sete, um número nada significativo perto das mais de cinqüenta que já havia na Casa das Minas de São Luís.
Alguns voduns cultuados na Casa das Minas também eram cultuados na Roça de Baixo, onde havia outros que eu não conhecia, mas com os quais acabei me identificando muito mais, porque eram eve-maís. É
quase só isso o que posso falar sobre o tempo que passei na casa, onde comecei uma séria preparação sobre a qual prometi guardar segredo. Acho que ainda posso falar um pouco de como era a iniciação, na qual tive que aprender tudo sobre os voduns, como eles se manifestam, do que gostam ou não gostam, suas preferências em comidas, bebidas, devoções, cânticos, cultos, e sua descendência e ascendência. Estudávamos bastante e passávamos longos períodos isoladas, quando não tínhamos nenhum contato com quem quer que fosse, mas também aproveitei os períodos que não eram de reclusão para conhecer um pouco da vila.
Convidada pela sinhá Romana, que tinha a noche Naê como uma irmã, eu me mudei imediatamente para a Roça, onde deveria permanecer durante todo o tempo da iniciação. Com isso, tive que desistir da idéia de alugar uma casa e levar vocês para morarem comigo, o que comentei com ela, que achou melhor levá-los para lá somente depois do terceiro ano, quando eu já teria mais tempo e liberdade para deixar a Roça quando precisasse. Eu ainda não tinha me conformado com aquela solução quando escrevi para a Claudina, dando a nova morada e comentando sobre a impossibilidade de
fazer a mudança de vocês imediatamente. Mas ela me acalmou dizendo que a Esméria não estava mesmo muito disposta a sair de São Salvador, apenas conformada, e que não era para eu me preocupar com você, pois ela teria o maior gosto em cuidar de tudo.
Ela e o seu pai, que tinha voltado a morar com vocês e estava inclusive providenciando seu batizado. Pelo que sei, você também gostava muito da Claudina, a quem obedecia como se fosse a mim. Eu gostaria de ter mais coisas para contar sobre você, mas daquela época sei apenas o que me diziam, e não sei de verdade como era o seu dia, o que gostava de fazer ou de comer, por exemplo. Sei também que seu pai mantinha o hábito de contar histórias antes de você dormir, como eu sempre tinha feito. E continuava fazendo, porque mesmo de longe, antes de dormir eu me imaginava ao seu lado, contando como tinha sido o meu dia, querendo saber do seu. Foi a maneira que encontrei de amenizar a saudade, e é possível até que eu tenha conseguido entrar nos seus sonhos, como muitas vezes pedi.
Aos poucos fui me acostumando à cidade, que ficava em uma região muito bonita, com uma bela paisagem de rios e terras a perder de vista, cortadas por suaves montanhas. Saindo de São Salvador, atravessa-se a Baía de Todos os Santos até a desembocadura do largo Rio Paraguaçu, por onde navegam até mesmo embarcações que partiam da Europa ou da China. O Rio Paraguaçu deixa de um lado a Heróica Cidade de Cachoeira, é assim o nome completo, e do outro a freguesia de Senhor Deus Menino de São Félix. Muitas vezes eu gostava de me sentar à beira do Paraguaçu e ficar pensando em vocês, fazendo planos para o nosso futuro.
Depois, voltava para a Roça caminhando com calma, entrava na Igreja da Ordem Terceira do Carmo, onde tinha começado a funcionar um colégio, ou na Igreja de Nossa Senhora do Rosário, ou ainda ficava olhando as
fachadas da Santa Casa da Misericórdia e da Cadeia Pública, prédios muito bonitos. Era agradável andar pelas ruas de Cachoeira, mais vazias e limpas que as de São Salvador, e onde quase não se via gente mendigando.
A sinhá Romana disse que aquela era uma região muito rica, com grandes plantações de cana e de fumo, e também muito habitada por estrangeiros. São Félix, do outro lado do rio, era menor e parecia um pouco mais pobre, mas pode ser apenas impressão minha, pois estive lá apenas duas vezes, por ocasião de bonitas festas promovidas para Iansã no dia de Santa Bárbara.
Em Cachoeira, todos gostavam de falar da visita do imperador, alguns anos antes, para inaugurar o imponente Chafariz Imperial, que abastecia de água quase toda a região. E por falar em água, a algumas léguas da cidade, em um sítio chamado Belém, tinham sido construídos a Igreja e o Seminário de Belém, onde havia um engenho interessante para captar água. Ele foi inventado por um padre e era formado por algumas pás que empurravam a água do rio até as dependências do Seminário, poupando um grande trabalho, pois antes os pretos precisavam carregar ladeira acima barris e mais barris, para o consumo dos padres, dos mestres e dos alunos. Mas antes de falar deste padre, preciso te contar sobre um crioulo chamado Kuanza.
As notícias
O Tico ou o Hilário iam até São Félix pelo menos uma vez por semana comprar o fumo para ser enrolado na oficina que, depois da minha partida, ficou aos cuidados da Claudina. Mas nem sempre nos encontrávamos, porque nem todas as vezes eles atravessavam o rio para Cachoeira, ou então apareciam em dias em que eu não podia deixar a Roça. Em vez de mandar recados por eles, eu preferia escrever cartas para a Claudina, pois
falando apenas com a minha amiga eu tinha mais liberdade para dizer tudo que me afligia. Ela também gostava de escrever, dizendo que com isso aprendia muito mais depressa.
Então, acontecia de trocarmos cartas até duas vezes por semana, pois o transporte era bastante rápido entre as duas cidades. Foi um pouco antes do Natal que ela me escreveu contando que estava muito feliz com o Tico, e que o Hilário tinha confirmado o casamento, que seria realizado em São Jorge dos Ilhéus, e que vocês já estavam se preparando para a viagem. A cerimônia estava marcada para o início do mês de janeiro, logo após o Dia de Reis, e depois de reclamar dizendo que a família da noiva bem que podia se deslocar até a capital, a Esméria era das mais animadas. Eu estava voltando do cais, onde tinha despachado a resposta à tal carta, desejando tudo de bom para a viagem e os noivos, quando vi o velho parado na entrada da Roça.
Ele estava sempre por lá, e eu já tinha visto a sinhá Romana levar um prato de comida para ele. Mas era fim de tarde, fora do horário das refeições, e resolvi perguntar se queria alguma coisa. Muito educado, sem levantar os olhos do chão e com uma voz tão baixa que tive que me aproximar bastante para conseguir entender, ele respondeu que esperava por mim. Eu não tinha idéia do que ele podia querer comigo quando perguntou se eu tinha letras. Até hoje não sei como ele tinha tal informação, que confirmei.
Pedindo desculpas por estar incomodando, ele disse que o pai tinha deixado muitas letras para ele e que nem mais se lembrava de tudo que elas diziam, pois havia muitos anos que não encontrava alguém que soubesse ler. Depois de parecer envergonhado de fazer aquilo, perguntou se eu, por obséquio, podia ficar com os papéis e depois contar o que diziam. Eu respondi que faria isso com o maior prazer, deixando-o muito feliz, e
combinamos que ele voltaria em três dias com os tais escritos. Contei para a sinhá Romana, que me adiantou que devia ser alguma coisa de um tal Padre Voador, sem maiores detalhes, pois disse que seria melhor que o próprio velho me contasse, mas falou um pouco sobre a vida dele.
Kuanza
O Kuanza era um crioulo ingênuo e, pelo que se sabia, sempre morou na região. O pai dele, um angola, tinha sido escravo no Convento de Belém na época em que estudaram lá dois irmãos chegados da província de São Paulo, havia muitos anos. Isso era comprovado pela própria idade do Kuanza, que já devia ter entre noventa e cem anos, ele não sabia dizer. Como eu já tinha visto na Casa das Minas, era bastante comum que se confiasse nos voduns para curar pessoas loucas, e por isso o Kuanza tinha sido levado à Roça. Eu não tinha percebido a loucura dele, mas a sinhá Romana disse que era questão de tempo para ele ganhar mais intimidade comigo e começar a contar histórias que só podiam partir de idéias não muito sãs.
Mas que eu não precisava ter medo, pois ele não era perigoso e tinha um coração de ouro. O pai foi alforriado por um dos irmãos paulistas que foi continuar os estudos na Europa, mas não se sabia quase nada sobre a mãe, uma preta que tinha desaparecido ou morrido logo após o nascimento dele. Quando o pai ainda era vivo, os dois tinham onde morar, mas depois o Kuanza começou a vagar pelas redondezas, sem pouso certo. Como todos gostavam muito dele, não negavam um prato de comida ou um abrigo para passar a noite em troca de um serviço qualquer, ou nem isso. Fiquei ainda mais curiosa e bastante decepcionada quando, no dia marcado, ele não apareceu. Alguns dias mais tarde, uma vodúnsi me avisou que ele estava esperando na rua, e que provavelmente tinha estado ali todos os dias sem
chamar, pois tinha medo de incomodar. Pedi que me levasse a algum local onde pudéssemos conversar com calma e fomos até a beira do rio, onde nos sentamos embaixo de uma árvore.
Durante todo o trajeto, o Kuanza ficou abraçado a um maço de papéis que carregava como um valioso tesouro, com grande cuidado. Os papéis estavam amarrados com um fio de palha que ele demorou vários minutos para desatar, prolongando minha agonia a ponto de eu querer arrancar tudo da mão dele. Desde que tínhamos saído da Roça ele manteve uma postura muito diferente da que eu me lembrava nele, com o tronco reto e os olhos levantados, quase mirando as nuvens, o que me fez perceber o quanto aquilo era importante para ele. Antes de me contar do que se tratava, o Kuanza comentou que não se lembrava direito de todos os escritos, que só tinham sido lidos quando o pai ainda vivia. Apesar dos anos, vi que ainda estavam legíveis e bem conservados, pois a sinhá Romana tinha contado que o pai dele morreu por volta de um mil setecentos e cinqüenta, e estávamos no final de um mil oitocentos e trinta e oito.
Portanto, havia pelo menos oitenta anos desde que alguém lera aquelas folhas, e comecei a tratá-las como o Kuanza, com medo de que se esfarelassem ao simples toque, ou mesmo em contato com o ar.
O Kuanza guardava aqueles papéis na casa de uma parente, e de vez em quando ia até lá dar uma olhada neles, mais para se certificar de que ainda existiam do que por qualquer outra coisa, pois não conseguia identificar nenhuma parte da história que ele sabia estar contida ali, a não ser por alguns desenhos. Em uma simples olhada, percebi que estavam fora de ordem, e pedi ao Kuanza que me deixasse levar para a Roça para tentar organizar, separando o que eram cartas, anotações, bilhetes, recortes de revistas e jornais e pedaços de livros. Ele me garantiu que tudo era uma só história, e que depois que eu a contasse novamente para
ele, diria o que o pai tinha pedido para fazer com ela.
Infelizmente, naquele resto de dia tive muitas obrigações e não foi possível terminar o trabalho. Tinha conseguido apenas separar os papéis, quase todos escritos na letra desenhada e muito bonita de um tal padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão, mas ainda precisava colocá-los na ordem certa, descobrindo onde a história terminava em uma página e onde começava na outra. Planejei fazer isso na manhã seguinte, e acordei impressionada com um sonho em que o Kuanza me contava que o pai tinha dado a ele nome de rio, e que por causa disso sempre se sentiu como um rio, pois todos os rios correm para o mar, e o mar leva as pessoas a todos os lugares que existem, podendo então levá-lo de volta à terra de onde o pai tinha saído. Quando tive a oportunidade de perguntar se isso era verdade, ele respondeu que sim, que durante muito tempo pensou em ir até a África, mas já tinha desistido.
No meu sonho ele ia, não sei se para Aruanda, a terra do pai. E o mais interessante era que não usava embarcação nenhuma, mas sim aquelas folhas de papel que guardava com tanto cuidado. Colocava uma delas sobre as águas e logo ela se espichava, formando um tapete comprido e fino assentado sobre o mar como se fosse sobre a terra, suficientemente firme para sustentar o corpo do Kuanza. Ao chegar ao fim de uma folha ele deitava outra, que também se espichava até se perder de vista, levando-o mais adiante, e assim até a África.
Cada folha tomava o formato de um rio estreito e tranqüilo, como ele achava que o Kuanza devia ser.
Uma das coisas mais importantes que eu tinha aprendido na Casa das Minas foi prestar atenção aos sonhos, pois os voduns falavam comigo por intermédio deles. No caso do Kuanza eram os nkisis, não importa, mas me pareceu que eles queriam dizer que aquela história tinha que cruzar os mares mais uma vez. Ela Á
tinha começado quando o pai do Kuanza saiu de África para o Brasil, voltou para o outro lado do mar levada pelo padre Bartolomeu, que também a mandou de volta para o Brasil, na forma de cartas e papéis enviados para o pai do Kuanza. Um preto, um branco, um preto. Eu achava que ela deveria cruzar novamente o mar pelas mãos de um branco e fiquei imaginando como, já que sem a presença do Kuanza para explicar algumas coisas, ninguém ia entender nada. Mas na época eu não me animava a escrevê-la, como o Kuanza pediu, porque os africanos não gostam de pôr histórias no papel, o branco é que gosta. Você pode dizer que estou fazendo isso agora, deixando tudo escrito para você, mas esta é uma história que eu teria te contado aos poucos, noite após noite, até que você dormisse. E só faço assim, por escrito, porque sei que já não tenho mais esse tempo. Já não tenho mais quase tempo algum, a não ser o que já passou e que eu gostaria de te deixar como herança.
Já estávamos nos aproximando do Natal e tínhamos muito trabalho na Roça, o que me fez adiar várias vezes um novo encontro com o Kuanza. Mal tive tempo de procurar um presente para enviar ao Hilário pelo casamento, mas por sorte acabei encontrando um bonito aparelho de café muito parecido com um que a sinhá Ana Felipa tinha no solar em São Salvador. Era chinês, como garantiu o dono do armazém onde comprei e onde também estavam à venda muitas coisas de lá do outro lado do mundo, como tapetes, jóias e pequenos móveis de madeira muito trabalhada, com incrustações de ouro e pedras preciosas.
O presente conseguiu encontrar vocês antes da viagem que fizeram entre o Natal e o dia de Ano-novo. Não era uma viagem muito longa, mas ainda assim cansativa, e por causa da idade da Esméria e do Sebastião, a Claudina avisou que vocês pretendiam ficar mais alguns dias por lá, talvez quinze ou vinte dias depois do casamento, marcado para oito de janeiro. Foi também
por volta desse dia oito que finalmente consegui falar com o Kuanza, pois ele tinha parado de ir até a Roça depois que eu disse pela terceira vez que não poderia falar com ele naquele momento.
Encontrei-o em uma festa de Reis, um congado organizado pelos angolas. Uma festa bonita, mas que nem se comparava às que vi mais tarde em São Sebastião do Rio de Janeiro, onde os angolas eram maioria e preservavam todas as tradições. Eu estava curiosa para ler os papéis do Kuanza, mas, além da falta de tempo, não queria começar sem ele, pois achei que havia muitas coisas a acrescentar ao que estava escrito.
Além do mais, a parte interessada era ele, que vinha guardando tudo com imenso cuidado na esperança de que aparecesse alguém letrado e paciente.
As forças
Vou te contar a história inteira, como entendi lendo os papéis do Kuanza, conversando com ele e também com outras pessoas, e ainda hoje tenho pena de não ter tentado confirmá-la, o que acredito que não teria sido difícil, por intermédio de alguns amigos de Portugal. O
pai do Kuanza, chamado Zimbo em Angola e Ludovino quando foi batizado, e conhecido em Cachoeira apenas como Maneta, por ter perdido uma das mãos em uma moenda de cana-de-açúcar, era escravo da família do padre Bartolomeu de Gusmão, nascido em Santos, na província de São Paulo.
Quando o padre Bartolomeu se mudou para Cachoeira para estudar no Seminário dos Jesuítas de Belém, onde já estava seu irmão Alexandre, o Maneta foi com ele. O
escravo não servia mais para trabalhar na lavoura e se tornou acompanhante do padre Bartolomeu, que, na verdade, não o tratava como escravo, mas como amigo e ajudante. O padre era um homem muito instruído e inteligente, e passava horas estudando, escrevendo e
fazendo desenhos, e tinha o grande sonho de construir uma máquina voadora. Mas antes disso inventou muitas coisas, como a máquina que pegava a água do rio e empurrava morro acima, e uma pequena canoa que, para espanto dos que a viam correr o rio de um lado para o outro, não usava remos.
O vento fazia girar uma roda de pás que entrava na água e movimentava a canoa, fazendo parecer que ela andava sozinha ou estava sendo carregada nas costas dos peixes do Paraguaçu. Isso fez com que algumas pessoas achassem que o padre era um santo, enquanto outras diziam que era um feiticeiro poderoso, ainda mais quando ele começou a falar para quem quisesse ouvir que já sabia como fazer um homem voar, igualzinho aos pássaros.
Era o Maneta quem ajudava o padre Bartolomeu nos inventos, fazendo tudo o que permitia a sua deficiência de não ter uma das mãos. O padre Bartolomeu foi passar alguns anos em Portugal, onde concluiu os estudos, e o Maneta ficou esperando por ele, e foi durante este tempo que se casou com uma crioula liberta e teve dois filhos, sendo que o primeiro se chamava Kuango e o segundo morreu no parto, junto com a mãe. Quando voltou para Cachoeira, o padre Bartolomeu contou ao Maneta sobre umas pesquisas feitas na Europa que tinham aumentado nele a certeza de que não era difícil fazer as pessoas voarem, mas ainda faltava um pequeno detalhe.
Enquanto não descobria o que era, o padre continuou com seus inventos, um moinho mais veloz do que todos os que já tinham sido feitos e um experimento no qual usava algumas lentes e os raios do sol para assar carnes.
Certo dia, os dois homens estavam conversando enquanto assavam carne de caça com as tais lentes, e o Kuango brincava ao lado deles. O menino fazia bolhas usando água, sabão de coco e um cabo de mamona,
quando uma das bolhas, levada pelo vento, passou na frente das lentes e rapidamente tomou o caminho dos céus. Maravilhado, o menino se acabava de tanto rir, tentando repetir o feito, quando os dois homens começaram a prestar atenção nele.
Foi então que o padre disse ao Maneta que o menino dele era o mais inteligente do mundo, pois tinha encontrado o que faltava na máquina voadora. Mas, para isso, seria preciso muito dinheiro, de acordo com alguns cálculos que ele fez levando em consideração os desenhos iniciais, que não sei se foram seguidos. A máquina se parecia com um pássaro muito grande, que, pelo tamanho de um homem desenhado para efeito de comparação, poderia levar pelo menos cinco ou seis pessoas dentro do que seria uma barriga oca. Não sei se era para enfeite apenas, mas o pássaro também tinha asas, rabo e cabeça com bico e tudo. Dentro da barriga do pássaro ainda havia algo que parecia um varal estendido, onde estavam penduradas várias bolas de vidro, que pareciam pegar fogo.
Com esses desenhos, as contas e mais algumas idéias, o padre Bartolomeu voltou para Portugal, onde queria conseguir dinheiro com o rei, e de lá mandou muitas cartas para o Maneta. Era pura consideração, pois sabia que o preto não tinha letras. O Kuanza disse que um seminarista de confiança do padre Bartolomeu lia as cartas e tratava de respondê-las em nome do preto, a quem o padre consultava sempre que surgiam dificuldades em seu trabalho. Conquistando a confiança do rei e caindo nas graças da rainha, o padre Bartolomeu finalmente começou a desenvolver o projeto, depois de ter feito alguns experimentos, máquinas voadoras pequeninas, para serem testadas antes de construir a que levaria pessoas.
As primeiras tentativas falharam na frente do rei, da rainha e de acompanhantes, e o padre Bartolomeu temia
ficar desacreditado. Antes que isso acontecesse, pediu a ajuda do Maneta, que contou para ele que em sua terra tudo devia ter um nome. Quando as coisas ganham um nome, elas também ganham uma força vital, e por isso a máquina de voar precisava ser chamada de alguma coisa. O padre Bartolomeu começou a chamá-la de Passarola e a apresentou ao céu, que, deste modo, passou a respeitá-la, assim como ela também deveria respeitar o céu. De Cachoeira, o Maneta conduziu uma cerimônia em que foram feitas oferendas para as entidades protetoras do céu, pedindo a aceitação do novo ser chamado Passarola e a licença para que ele subisse cada vez mais alto. A partir daquele momento, os experimentos começaram a dar certo, a Passarola ficava no ar por mais tempo e o vôo ganhava mais altura, o que melhorou ainda mais quando o Maneta decidiu que os espíritos protetores do fogo também deveriam ser cultuados.
O padre Bartolomeu ficou exultante e escreveu contando que já estava bastante conhecido em todo o reino, onde era chamado de Padre Voador. Mas comentou também que isso não era de todo bom, pois começava a ser perseguido por um homem chamado marquês de Pombal, que sentia ciúmes por causa da amizade que ele tinha com o rei e a rainha e tentava prejudicá-lo de muitas maneiras, dizendo inclusive que ele tinha feito pacto com o Diabo, e não com Deus. O Maneta mandou dizer que ele não devia se preocupar, pois estava protegido pelos espíritos, e que logo surgiriam na vida dele duas pessoas que o ajudariam a entender melhor o que significa a força que todas as coisas e todos os seres devem possuir, a vontade que eles precisam ter para cumprir o destino que era próprio deles, e somente deles. O Maneta disse também que o padre compreenderia isso depois do dia em que se juntassem sete sóis e sete luas, e que uma criança fosse batizada por sete bispos, reunindo sete vontades.
Pelo jeito, o padre não tinha mesmo entendido isso das vontades das coisas e das pessoas, mas assim que encontrou tais ajudantes, como o Maneta tinha dito, eles foram imediatamente reconhecidos, dando ainda mais crédito às palavras do velho escravo. Os tais ajudantes eram um casal, Baltasar e Blimunda, sendo que ela era uma mulher que conseguia ver a força que existia dentro das coisas e das pessoas e que, desculpe-me a interferência, acho que pode ser chamada de axé ou emi.
Mas, como disse o padre, ela não a chamava assim, mas de "no de dentro das pessoas". O Baltasar, e foi isso que mais espantou o padre, também era maneta como o preto, tendo apenas a mão direita, pois a esquerda tinha perdido em uma guerra. O Maneta era o contrário, tinha a mão esquerda. O casal começou a ajudar o padre na construção da Passarola, trabalhando em um lugar desconhecido do marquês de Pombal, quando então o padre Bartolomeu decidiu ir até a Holanda para fazer mais alguns estudos.
Na volta, ele já tinha compreendido tudo sobre as vontades, sobre o sopro vital, e pediu à Blimunda que captasse todas as vontades que conseguisse enxergar, para alimentar a Passarola. Era exatamente isso o que o Maneta queria dizer, e ele ficou muito feliz porque o padre finalmente tinha entendido, mas alertou que era muito importante ele se lembrar de que essas vontades, na verdade, não pertenciam a ele ou à Passarola, e deveriam voltar à natureza assim que fossem usadas, porque senão os espíritos poderiam se zangar e provocar desgraças.
O Maneta tinha medo de que o padre começasse a se sentir muito poderoso, o próprio Criador, aquele que consegue dar vida e vontade às coisas que não as têm.
Infelizmente, foi isso que aconteceu quando o padre, a Blimunda e o Baltasar resolveram testar a Passarola, alimentada com duas mil vontades. Na carta que o padre escreveu depois do sucesso do primeiro vôo, ele contou
como se sentiu poderoso olhando a cidade e as pessoas lá de cima, e como achava que lá dentro daquela máquina ia a Santíssima Trindade. Por causa da falta de cuidado ou da vaidade do padre, que sobrevoou Lisboa e foi visto por várias pessoas, ele teve que fugir para um reino vizinho, perseguido pelo marquês de Pombal. Mas antes disso enviou para o Maneta a parte mais importante dos estudos, algumas anotações em que contava todo o planejamento e a construção da Passarola, para que ficassem a salvo. Era isso que o Maneta guardava com tanto cuidado, principalmente quando soube pelo irmão do padre Bartolomeu que ele tinha morrido louco. Da Blimunda e do Baltasar não se sabia o destino, mas o Maneta acreditava que também não deve ter sido dos melhores. Sete luas depois da morte do padre Voador, ainda antes de a notícia cruzar os mares, morreu o Kuango, o irmão do Kuanza, aquele que estava brincando com as bolhas de sabão. O Maneta ficou com medo de que todos os envolvidos naquela história tivessem um fim trágico e imediato, mas conseguiu se salvar e teve mais dois filhos. O mais velho tinha caído no mundo e o mais novo era o Kuanza, que tinha ficado por ali guardando as lembranças e os tesouros do pai.
Hoje já não me lembro mais de boa parte da história, dos ricos detalhes e dos muitos pensamentos do padre, anotados com muita sinceridade. Ele falava muito do rei, da rainha, de como eles queriam ter herdeiros e de um convento que estava sendo construído como paga de uma promessa pelo fato de a rainha ter conseguido ficar pejada. Mas são coisas que não nos interessam, isso dos reis já está por aí nos livros dos brancos, como os que a sua irmã estudou em França. Interessa-nos a história do Maneta, do padre Bartolomeu, do Baltasar e da Blimunda, que o Kuanza disse que o pai dele confirmou que só se tornaria de conhecimento de todo o mundo muitos anos depois de ter terminado, quando os homens não mais corressem o risco de serem mortos por contá-
la.
E que isso também só se daria em anos muito especiais, determinados por uma estranha conta que apontava anos que pertenciam ao número dois. O padre tinha nascido no ano de um mil seiscentos e oitenta e cinco, ou seja, um mais seis mais oito e mais cinco, que é igual a vinte, que, por sua vez, é formado pelos números dois e zero, que somados resultam no número dois. Nas anotações do padre havia uma relação de anos assim, como, por exemplo, o de um mil oitocentos e trinta e oito, exatamente o ano em que aqueles papéis foram parar nas minhas mãos. Depois vinha o ano de um mil oitocentos e quarenta e sete, quando a história foi mandada para Portugal. Coincidência ou não, foi o próprio tempo, ou o destino, que tratou de confirmar estes fatos, não eu ou qualquer outra pessoa. A relação feita pelo padre ia até o ano de um mil novecentos e oitenta e dois (Esta história do padre Bartolomeu de Gusmão, o Padre Voador, está contada no livro Memorial do Convento, de José Saramago, publicado em 1982), não sei se por achar que já era o suficiente ou se isso significava alguma coisa, o que nem eu ou você, e nem mesmo os nossos descendentes mais próximos, vamos conseguir confirmar.
Em mais uma versão da história, entre as muitas que corriam em Cachoeira, o Kuanza me contou que a mãe dele tinha enlouquecido de cachaça e se jogado no Paraguaçu, e por isso falavam que ele também era louco, que tinha puxado a ela. Mas depois de todo o tempo que passei montando esta história, remendada pelas lembranças dele, percebi que era muito lúcido.
Eu e o Kuanza nos encontramos quase todos os dias da Quaresma, quando tive bastante tempo livre, e se não estivesse tão distraída com o Padre Voador, talvez tivesse me preocupado mais com vocês e percebido que algo estava errado, pois já haviam se passado quase dois
meses do tempo em que a Claudina previa a volta de São Jorge dos Ilhéus. Eu já tinha enviado duas cartas sem obter resposta, e fiquei achando que vocês estavam se divertindo tanto que nem queriam voltar. Mas assim que vi o Tico parado no portão da Roça, olhando o chão e amassando a aba do chapéu entre os dedos, soube que alguma coisa muito grave tinha acontecido. Meu primeiro pensamento foi para você, mas meu coração de mãe logo avisou que você estava bem, e então pensei na Esméria e no Sebastião.
Órfã
O Tico contou que foi um casamento bonito, feito à maneira dos brancos, e a desgraça aconteceu cinco dias depois da festa, que durou dois dias. Não sei se você se lembra ou do quanto deixaram que você soubesse, mas aconteceu que vocês estavam de saída para conhecer as terras que o Hilário tinha comprado em sociedade com o sogro, quando a Esméria pôs a mão no peito e disse que podiam partir sem ela, pois não tinha condições de caminhar. Resolveram ficar, principalmente porque perceberam que ela não estava bem mesmo, e não melhorou nem depois que chamaram uma mulher que conhecia ervas e, mais tarde, um boticário.
Ela dormia a maior parte do tempo e, quando estava acordada, dizia que não havia nada a fazer, que tinha chegado a hora dela e era uma boa hora, pois tivera uma vida longa e feliz. Eu sabia que isso era verdade, mas não conseguia acreditar no que o Tico contava. Eu queria ter estado perto dela, queria ter cuidado dela, principalmente depois de saber que ela perguntava por mim, mas, ao mesmo tempo, pedia para não me avisarem. Eu preferia que não tivessem obedecido, pois, com os dias de suspensão nas atividades da Roça, eu poderia muito bem ter ido até lá, pelo menos para ver que ela realmente estava nos deixando. Foi difícil daquela maneira, saber que já tinha acontecido e que eu
não tinha participado de nada, sem ter ao menos a oportunidade de me despedir e de ajudar a preparar um enterro do jeito que ela merecia. O Tico não entrou em detalhes e nem eu quis ficar perguntando, porque percebi o quanto ele ainda estava sentido, mas contou que nada foi poupado para que ela tivesse uma bela despedida. Teve cerimônia de branco e cerimônia africana, com todos os ritos em que ela acreditava e os que são de costume para uma boa entrada no Orum.
Passei dias sentindo grande tristeza e o peito apertado, como se as lembranças da Esméria fossem tomando todo o espaço do meu de dentro, como diria a Blimunda. A pior sensação era a de não ter dito quanto gostava dela, quanto ela tinha sido importante para mim, como mãe, avó e grande amiga.
A Esméria representava tudo isso, tudo o que tinha perdido antes de chegar ao Brasil, e que encontrei nela no primeiro dia da minha estada na casa-grande da ilha.
Eu tinha viva, e ainda tenho, a imagem da Esméria sentada ao meu lado enquanto eu comia na porta da cozinha, olhando para mim como se dissesse que a partir daquele momento eu estaria sob a responsabilidade dela, que tudo faria para que eu sofresse o mínimo possível. Uma das primeiras coisas que ela me disse foi para não conversar nunca em línguas de África se houvesse algum branco por perto, mas foi cantando em eve que a saudade e a dor da perda foram diminuindo.
Quando ficava muito triste, eu começava a cantar coisas que nem sabia que me lembrava, as canções que a minha avó tinha cantado para o Kokumo e para a minha mãe, antes de sairmos de Savalu.
Conversei com a sinhá Romana sobre a possibilidade de passar alguns dias em São Salvador, mas ela me disse que não via necessidade, pois eu não encontraria lá nada que acalmasse meu coração. Ela estava certa, pois, na verdade, acho que eu sentia um pouco de culpa por
estar longe de vocês e estar gostando. Eu sentia saudades, queria estar por perto, mas também gostava de não ter responsabilidades em relação a ninguém, de estar cuidando apenas de mim.
A tranqüilidade voltou alguns dias depois de um sonho em que a minha avó me falava da Esméria. Não vi a Esméria, mas pude saber que estava bem, que as duas estavam juntas. Foi um pouco antes de o Tico voltar a Cachoeira e dizer que estava tendo problemas com o fornecedor de fumo, perguntando se eu não poderia procurar alguns produtores da região e enviar amostras para ele escolher. Havia muitos pequenos produtores que tinham todo o cuidado com a plantação, rendendo produtos de igual qualidade ou melhores que o fumo das grandes fazendas. O Maneta me apresentou a um amigo dele que era bar-queiro e, aproveitando minhas horas de folga, percorremos muitas léguas do Rio Paraguaçu, parando nas plantações que se estendiam às suas margens. A terra era boa, e visitei alguns sítios que estavam preparando a semeadura para meados do mês de abril.
O fumo
As sementes de fumo devem ser plantadas junto com um pouco de cinza e regadas todas as tardes até despontarem, quando então é jogada mais cinza ao redor do broto, para que os bichos não cortem as folhas, principalmente as formigas. A terra deve estar sempre úmida, e quando o tempo está muito quente ou o sol muito forte, os brotos devem ser protegidos com folhagens para que não se queimem, o que pode modificar o gosto e a cor da folha. Aliás, o frio também queima e, nesse caso, as folhagens continuam sendo boa proteção. Em alguns sítios, vi que plantavam as sementes em lugar coberto e sobre uma camada de esterco, porque assim elas brotam mais depressa e mais nutridas.
Quando o broto já está forte, com quatro ou cinco folhas, eles cavam a terra ao redor dele, lavam as raízes com muito cuidado e transplantam para o terreno onde a planta vai se desenvolver. O maior perigo nesta hora são as pragas, principalmente as lagartas, e por isso era curioso ver bandos de perus andando entre as plantas, procurando a refeição preferida. Quando as plantas já estão com mais ou menos quatro pés de altura, são podadas a uns três palmos do chão, para que nasçam folhas novas e mais bonitas. As folhas daquela primeira leva são aproveitadas para os fumos de pior qualidade, porque as que nascem dali em diante são muito mais vistosas, cheirosas e saborosas, usadas nos charutos mais caros.
É bonito ver uma plantação de fumo, que sempre tem um cheiro gostoso, embora um tanto forte. Naquelas andanças, consegui três produtores aprovados pelos meninos, e tratei com eles, ainda no pé, toda a produção, que ficaram de entregar fermentada e maturada. Os meninos tinham razão, pois comprar direto de quem planta ficava muito mais barato, mesmo com a comissão que eles estavam me pagando, já que eu ficaria responsável por todas as remessas. Para mim isto foi ótimo, porque não precisaria mais mexer no dinheiro que tinha guardado e ainda economizaria mais um pouco, já que quase não tinha despesas, morando na Roça e com os meninos fazendo questão de sustentar vocês em São Salvador.
Eles estavam bem de vida, o que me deixava muito feliz, e isto, com certeza, tinha feito a Esméria partir tranqüila. Pena que ela não chegou a conhecer o sobrado do Hilário, que era novo e muito bonito, na mesma rua onde moravam você, o Tico, a Claudina, o Sebastião, a Malena e, de vez em quando, o seu pai.
Tenho vontade de saber que lembranças você tem daquela época, se prevaleceram as boas ou as ruins.
Os rituais
Como eu já disse, a Roça da sinhá Romana era pequena se comparada à de sua irmã Ludovina, a Kwe Ceja Undé, onde assisti a belas festas. Na nossa Roça trabalhávamos mais com os ensinamentos sobre os voduns, com a feitura de vodúnsis e com as ervas que curam, preparando banhos chamados amansís, mas a Kwe Ceja Undéji se parecia mais com a Casa das Minas, com vodúnsis suficientes para o assentamento de todos os voduns, e por isso podiam se dedicar mais aos rituais.
As grandes festas, como a de São Sebastião, duravam até três dias e começavam com um período de invocação, chamado de zandro. De manhã acontecia o narrunó, com oferendas e sacrifícios para os voduns no quarto destinado a eles, assistido apenas pelas pessoas iniciadas, e à tarde ou à noite, a festa da qual todos podiam participar, quando os voduns apareciam para comemorar junto com seu povo, conversar, aconselhar e render homenagens aos outros voduns. O dia seguinte era reservado zojonu, uma espécie de agradecimento em que algumas oferendas são repetidas, principalmente as dos alimentos preferidos dos voduns. E, para terminar, o nadopé, um ritual de despedida para se comer tudo o que sobrou das oferendas antes de se lavar a louça, arrumar a casa e tomar um amansi de purificação.
O ritual que mais me impressionou foi a Prova de Sô, dedicado ao vodum Sogbô, o Xangô no culto dos orixás, aquele que governa o fogo, da mesma família que comanda os raios e os trovões. O chefe dessa família é Heviosso, e a ela também pertencem Nana e Averequete, que é devoto de São Benedito. O ritual foi no dia do santo, em agosto, e por isso a festa começou em uma sala que não estava consagrada a nenhuma família de voduns, com a montagem de um altar para a imagem de São Benedito, diante da qual rezamos e cantamos valsas, ladainhas em latim e mais alguns hinos da religião dos brancos, embora o santo fosse preto.
Depois passamos para uma sala usada nas festas dos voduns, que começaram a incorporar nas vodúnsis que cantavam e dançavam em seu louvor.
Assim que chegou, a família de Heviosso disse que queria provar a sua força. Formávamos uma roda e cantávamos para Sogbô, e uma das vodúnsis que não estavam incorporadas colocou no meio do salão uma panela de barro cheia de dendê borbulhante, de tão quente, onde outra vodúnsi começou a jogar pedaços de uma ave que não consegui distinguir qual era, pois já tinha sido cortada no quarto de sacrifícios. Logo o cheiro de carne queimada superava o do dendê, e foi então que a vodúnsi feita para Sogbô entrou no salão, rápida como o raio do seu vodum, e parou ao lado da panela.
De olhos bem abertos, mas não mais que os meus, pois eu já estava imaginando o que ia acontecer, e sem nenhuma proteção, ela enfiava os braços dentro da panela e mexia o azeite, usando as mãos como colher para catar os pedaços de carne. Aquilo me causou tão má impressão que desviei os olhos quando percebi que ela ia tirar as mãos de dentro da panela, com medo de não gostar de ver o que poderia ter sobrado delas. Mas quando percebi que as pessoas continuaram a cantar, e ainda com mais alegria, criei coragem. As mãos da vodúnsi estavam intactas, e se eu não tivesse visto o que ela tinha acabado de fazer, e nem os pedaços de carne esturricados e jogados no chão, não teria acreditado.
É interessante como a maioria das lembranças que tenho daquela época estão relacionadas a essas festas.
Aprendi muito em cada uma delas, e no mês de novembro de um mil oitocentos e trinta e nove, a sinhá Romana disse que eu já podia me preparar para assentar o meu vodum. Estávamos perto da festa de Xelegbatá, quando também seria feita a minha iniciação oficial, e como já havia muita coisa programada para aquela ocasião, resolvemos deixar o assentamento para o ano
seguinte, na festa de encerramento das atividades anuais da casa, na Quarta-feira de Cinzas. A sinhá Romana disse que iniciar mais uma vodúnsi seria uma excelente maneira de fechar o ano.
Então posso afirmar com certeza que o Sebastião morreu no dia quinze de novembro, dois dias antes da festa de Xelegbatá. Como eu estava recolhida, só fiquei sabendo mais tarde, durante uma visita do Hilário.
Talvez tenha sido impressão minha, mas achei que ele me recriminou por não estar presente nem na despedida da Esméria nem na do Sebastião. Não que ele tenha dito isso com todas as palavras, mas comentou que a vida em São Salvador já estava bem tranqüila e perguntou se eu não pensava em voltar. Disse que não estava me reconhecendo mais, eu que sempre tinha sido tão ativa e que, naquele momento, estava me importando apenas com os voduns. Confesso que pensei em antecipar a cerimônia do assentamento e voltar para São Salvador, ou pelo menos dar um jeito de levar você e a Malena para Cachoeira. Escrevi para a Claudina e comentei sobre a conversa com o Hilário, pedindo que ela perguntasse ao Tico se ele era da mesma opinião, visto que, depois das mortes da Esméria e do Sebastião, eles eram os responsáveis por você. A Claudina disse que eu podia ficar em paz, que você não dava trabalho algum, o que até me deixou um pouco preocupada, pois não sabia se isso significava que você estava me esquecendo. Ela também comentou que, desde o casamento, o Hilário estava ficando muito estranho, influenciado pela esposa.
Ela, que era mulata clara, tinha tomado ares de brancos e vivia somente no meio deles, inclusive estava freqüentando igrejas e levando o Hilário junto. O nome dela era Divina, e, pelo jeito, não estava se dando muito bem com a Claudina, mas isso era o de menos. O ruim era que a Divina estava conseguindo afastar o Hilário do Tico, justo os dois, que foram sempre tão unidos. De qualquer maneira, aumentei a freqüência com que
escrevia para a Claudina, pedindo a ela que lesse para você os longos trechos em que eu explicava por que estava ausente por tanto tempo, contava a minha vida e falava sempre do imenso amor e da saudade que sentia.
Você se lembra da história do Banquete dos Cachorros?
Na carta da Claudina que chegou logo após eu ter falado nisso, ela disse que você tinha achado interessante e até improvisou um banquete também. Na verdade, não contei para te divertir, mas sim porque sabia que você gostava de animais, e talvez não tenha contado o motivo da festa. Eu já falei do vodum Dan e da família de Danbirá, os voduns da terra, os que espalham e detêm a peste, os desprezados pelo rei Agongolo. Xelegbatá é o vodum das pestes e, no Brasil, ele é homenageado no dia de São Lázaro, que, para os nagôs, é o orixá Obaluaê ou Omolu, e para os angolas, como me contou o Kuanza, o nkisi Kaviungo, tanto faz. O que importa é que São Lázaro foi atacado pela peste e seu corpo todo coberto de chagas foi curado pelas lambidas dos cachorros que sempre o acompanhavam. É por isso que os cachorros são os grandes homenageados da festa, em que são servidas comidas especiais, do gosto da família de Danbirá.