Um Defeito de Cor

Ana Maria Gonçalves · Capítulo 10 de 12 · parte 6/8

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Um Defeito de Cor

Capítulo oito

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.

Era tudo encoberto, nada dito com todas as palavras,

mas o capueira precisava saber o significado. De uma hora para outra, o toque mudou para Santa Maria e três homens se apresentaram junto ao Piripiri, um deles com um canivete, outro com um porrete e o terceiro com um facão. Gingando, eles começaram a se movimentar em torno do Piripiri, que virava de um lado para o outro quando pressentia os golpes, como se tivesse olhos em toda a volta da cabeça. Depois ele me disse que simplesmente sabia, não tinha como explicar, que, Pelo jeito como o desafiante olhava, era possível saber de onde viria o golpe.

O que me assustou foi que não parecia uma apresentação como tinha sido a dos Mestres, mesmo porque as armas eram de verdade, e o Piripiri tinha que usar de toda a malícia e rapidez para se desviar dos golpes ou acertar as mãos dos outros capueiras, usando as próprias mãos desarmadas e principalmente os pés.

Ele já tinha conseguido desarmar dois deles, que deixaram o canivete e o porrete cair, e quando restava apenas o capueira com o facão, outros cinco ou seis se apresentaram na roda, alguns armados e outros não. O

berimbau então passou do toque de Santa Maria, que avisa quando tem arma na roda, para o de cavalaria, que o Piripiri depois me contou ser o toque de alerta máximo, que avisa que o jogo está perigoso e que é melhor pensar em uma saída.

Os capueiras tinham inventado esse toque para avisar da chegada da polícia quando estavam jogando no meio da rua, o que era proibido. Ao ouvir o cavalaria, o capueira tem que lutar se defendendo enquanto tenta descobrir o adversário mais fraco, ao mesmo tempo em que corre os olhos por todo o local, esperando a hora certa de fugir na direção que oferece menos perigo. Um dos capueiras reprovados tinha passado por todas as fases, mas na hora de fugir escolheu o lado errado e foi pego por quatro homens que estavam de tocaia. Por ter conseguido escapar, o Piripiri ganhou um lenço

encarnado que, por si só, já impunha grande respeito a quem conhecia as regras, onde quer que ele estivesse.

Já era bem tarde quando as provas terminaram e o toque benguela, lento e mais parecendo música de dançar do que de jogar, serviu para que se apresentassem os capueiras que até então não tinham participado de nada.

Fizeram uma grande roda e entraram dois de cada vez, que eram substituídos quando outro que estava de fora comprava a briga de um deles, e assim todos jogaram um pouco. Se já não estivesse escurecendo, depois teria sido realizada uma grande festa, porque serviram uma bebida muito forte e gostosa chamada cogoenha e que, pelo menos a mim, deixou leve e feliz, com muita vontade de dançar e cantar.

Dancei um pouco com o Piripiri, e teria dançado a noite toda se já não estivessem sendo formados os grupos para descer o morro. Mas a volta também foi divertida, com alguém à frente carregando uma tocha e o grupo atrás, fazendo desafios de quadras e chulas, festejando os batizados e os lenços encarnados. Eu e o Piripiri, de mãos dadas, ficamos ainda mais para trás do grupo, quase ao lado de uma mulher muito séria que carregava o tição protetor que precisava manter aceso enquanto caminhávamos no meio da mata, para afastar os maus espíritos. Eu queria saber mais coisas sobre o Piripiri, mas a conversa tomou outros rumos, mesmo porque ele estava muito feliz com o lenço e queria falar sobre a capueira. Disse que o jogo tinha nascido em Angola, mas que lá não tinha esse nome, chamava-se rígolo, que era uma espécie de dança da zebra. Era por isso que usavam tanto os pés, imitando o coice da zebra. Além de dança, era também uma luta que todos os rapazes queriam vencer, pois o melhor tinha o direito de escolher uma das meninas da tribo, entre todas as que tinham acabado de se tornar mulheres.

Então, podia escolher a mais bonita, e ainda era

dispensado de pagar o dote. Foi nessa hora que ele me olhou, e mesmo no escuro senti que tinha sido de uma maneira diferente, e eu sorri de volta, me sentindo tão inocente quanto uma Mifuema (Mifuema: menina impúbere), ao ver pela primeira vez o guerreiro que a tinha escolhido, o vencedor do rigolo. Andamos em silêncio por um bom tempo e depois ele voltou a falar de capueira, dos principais golpes e seus nomes estranhos, mas eu não consegui prestar muita atenção. Fui me interessar pelo que contou sobre a alcunha do Mestre Mbanji, pois na terra dele mbanji é o mesmo que

"defensor" ou "protetor", e o Mestre tinha trabalhado como segurança do imperador D. Pedro I quando ele ainda estava no Brasil e gostava de caminhar pela cidade durante a noite.

Era interessante isso, porque o jogo da capueira era proibido em todo o Império, mas o próprio imperador se valia dele para o caso de precisar se defender. Dizem que até mesmo ele tinha tentado aprender. O Piripiri disse que homens de confiança do imperador tinham visto o Mestre Mbanji lutar contra os estrangeiros e o contrataram. Ele não soube me contar que luta tinha sido aquela, mas depois perguntei ao Omissias e fiquei sabendo que já fazia alguns anos, quando o imperador quis tomar para o Brasil alguns pedaços de terra que ficavam muito longe, nas províncias do sul. Mas não havia soldados suficientes para a luta e foram contratados alguns soldados estrangeiros que, enquanto estavam em São Sebastião, reclamavam muito por causa da falta de dinheiro e porque o imperador não tinha cumprido algumas promessas feitas quando eles ainda estavam em suas terras.

Para demonstrar esse descontentamento, saíam pelas ruas bebendo e provocando confusões. Quando o comandante da polícia de São Sebastião resolveu castigar alguns deles, os outros tomaram as dores e se rebelaram, e, por serem muitos, fizeram grande estrago.

Assaltaram casas e lojas, mataram gente e se deitaram com as mulheres dos outros, mesmo as honestas.

Como as tropas oficiais de São Sebastião estavam no sul, não havia quem defendesse a cidade contra esses estrangeiros, e então foram convocadas as maltas de capueiras que, mesmo enfrentando tropas que tinham até armas de fogo, conseguiram pôr os estrangeiros para correr. Acuados, os que não tinham sido mortos ou gravemente feridos foram presos e mantidos em segurança dentro dos quartéis, até que o imperador tomasse providências. Quando chegamos em casa, todos já estavam recolhidos aos seus quartos, e fiquei com vontade de chamar o Piripiri para o meu. Afinal de contas, ia ser divertido ver o que aconteceria se, sem saber, a Juana fosse esperá-lo no quarto ao lado.

Como eu, talvez ela também conseguisse ouvir e entender o que estava se passando, e ao perceber que o amante não ia ter com ela naquela noite, desconfiaria do paradeiro dele. Mas achei melhor não convidar, e ele também não demonstrou que queria ou, muito menos, que aceitaria. O fato era que eu estava sem homem havia muito tempo, esquecida do quanto era bom e do quanto me fazia bem, além de achar que, pelo modo como se comportava e como jogava capueira, o Piripiri seria um excelente amante. Pensando nisso e fantasiando encontros, fui dormir feliz, acordando no dia seguinte com uma sensação de que alguma coisa estava para acontecer, não necessariamente entre mim e ele. E

de fato aconteceu, mas estava relacionada ao passado, não ao futuro.

O castigo

Foi na véspera do dia de Natal, e eu tinha saído para caminhar um pouco no outro lado da Rua do Ouvidor, como sempre fazia quando queria ver coisas bonitas.

Havia um grande movimento de gente entrando e saindo

das lojas, não apenas senhores, mas também pretos que tinham ido pegar as encomendas dos seus donos, roupas e acessórios que enfeitariam as igrejas e os salões naqueles dias de missas e festas. Mais ou menos na altura da charutaria do Bernardo, vi um preto caminhando e olhando o chão, à procura de restos de cigarrilhas e charutos que alguns bons fidalgos deixavam pela metade e atiravam à rua, acreditando ter feito a boa ação do dia. Em um primeiro momento, o preto era só mais um e não me importei, mas quando ele se sentou encostado à parede, percebi que havia algo de muito familiar, só não sabia o quê.

Ele não se parecia com ninguém que eu conhecesse, e tinha uma feia cicatriz na testa que não era marca de tribo, mas sim causada pela máscara de ferro que os donos colocavam em escravos beberrões. Muitos pretos tinham aquelas marcas, e muitos andavam pela cidade usando tais máscaras, que cobriam o rosto inteiro e eram presas por uma alça de ferro fechada com um cadeado atrás da cabeça. Usando aquilo, eles não podiam beber nem comer, e não era rara a maldade de alguns donos que só abriam as máscaras a cada dois ou três dias, achando que assim o castigo era mais eficiente. Havia até pretos que usavam aquilo pela vida inteira, os que não conseguiam resistir à cachaça em horário de trabalho, e acreditei que estava diante de um deles.

Aquele preto devia ter usado a máscara durante muitos anos, pois tinha uma cicatriz enorme na testa, um calo sob a pele que já tinha sido ferida várias vezes. Foi então que reparei na roupa dele, um modelo de libré antigo, bastante raro nas ruas de São Sebastião, que me fez lembrar a roupa usada pelo Francisco e pelo Raimundo quando carregavam a liteira da sinhá Ana Felipa. Seria muita coincidência, mas possível, já que ela morava na corte, e tremi feito bicho acuado quando vi o esmaecido bordado do monograma dela, A-F-D-A-A-C-G.

Por um momento temi ser o Francisco, de quem eu não sabia o paradeiro e a quem a bebida tivesse envelhecido daquele jeito. Os amigos da Adeola tinham prometido levá-lo até Minas Gerais, mas ele podia não ter ficado lá.

Ao me aproximar, percebi que o homem era bem menor, principalmente pelo tamanho dos braços, pois eu conhecia bem os braços do Francisco. Perguntei o nome dele, mas não tive resposta, e ele só levantou os olhos para mim quando eu disse que conhecia a sinhá Ana Felipa.

Ele tentou se levantar, provavelmente para sair correndo, porque vi o medo em seus olhos quando falei o nome dela, e só não conseguiu porque estava muito bêbado. Comentei que ele não precisava se assustar, que eu tinha sido escrava dela em São Salvador, e para meu espanto, o preto ficou me olhando e depois começou a gargalhar, apontando o dedo sujo na minha direção e me chamando de Kehinde. Ele ria e falava alto, o que poderia incomodar as pessoas que passavam pela rua e que logo dariam um jeito de nos tirar dali, e então o convidei para irmos até o Beco dos Barbeiros, mais tranqüilo, prometendo pagar um copo de cachaça. Tenho certeza de que foi a promessa que o animou, e logo estávamos conversando, quando ele me confirmou que era um escravo fugido da sinhá Ana Felipa, que tinha se casado novamente e estava morando em uma fazenda na cidade imperial de Petrópolis.

A Maria das Graças, a Josefa e a Firmina continuavam com ela, mas ele tinha ouvido falar de mim por intermédio do Raimundo que estava detido na prisão do Castelo. Eu teria ficado com pena dele, mas antes que tivesse tempo, o velho me contou que o Raimundo tinha sido o culpado de a sinhá mandar me avaliar por um preço tão alto quando eu quis comprar a minha carta e a do Banjokô. Tinha sido o Raimundo quem, por ciúmes do Francisco, contou para ela que eu sabia ler e escrever e estava ganhando muito dinheiro com os cookies.

Odiei o Raimundo pela traição, porque na época ele parecia estar do nosso lado, querendo ajudar. Bom que já estava sendo castigado, condenado por matar uma preta por quem tinha se apaixonado. O velho contou que o Raimundo estava trabalhando ao ganho e que, quando conheceu a tal mulher, também ganhadeira, pegou todo o seu pecúlio e comprou a liberdade dela, confiando na promessa de que, liberta, ela teria como ganhar mais dinheiro e comprar a dele também. Mas não foi o que aconteceu, e quando se viu livre, a mulher foi morar com outro homem, abandonando o Raimundo, que a matou assim que teve oportunidade. Eu queria saber mais notícias dos outros, como estavam, onde era a tal fazenda, perguntar por que a Antônia não estava mais com a sinhá, mas o velho dormiu de bêbado em cima do balcão, e percebi que nada o faria acordar. Nunca mais o encontrei, e perguntando nas tabernas da região, ninguém sabia quem ele era, nunca o tinham visto por lá.

À

À procura

No início do ano seguinte, um mil oitocentos e quarenta e um, chegou carta do Tico avisando que não tinha conseguido encontrar sua certidão de batismo. Embora ainda não tivesse recebido qualquer resposta até aquele momento, escrevi novamente ao doutor José Manoel perguntando se havia alguma maneira de descobrir sobre o seu batizado, pelo menos onde tinha sido feito.

Contei que o seu pai queria dar a você o nome do avô, Luiz, e que isso era tudo que eu sabia. O Piripiri sempre perguntava se havia novidades e tentava me animar, dizendo que tinha certeza de que você ia aparecer, que eu nunca deveria desistir da busca. Comentei com ele que às vezes sentia vontade de voltar para São Salvador, onde tinha amigos, pois em São Sebastião me sentia muito sozinha, e ele sugeriu que eu arrumasse um trabalho. Seria uma maneira de fazer novos amigos, de me acostumar à cidade e de ter mais chances de te

encontrar, porque grande parte dos pretos se conhecia e sabia de coisas que aconteciam em quase toda a cidade.

Achei uma boa idéia, e ele prometeu falar com algumas conhecidas que trabalhavam em um canto, para ver se elas me aceitavam. Eu estava gostando cada vez mais dele, e ficava agoniada quando ouvia risos e gemidos no quarto ao lado, que continuava sem hóspede.

Procurando por você, eu percorria regularmente todos os principais mercados, onde muitos empregados já me conheciam e avisavam que não tinha aparecido nenhum moleque do jeito que eu estava querendo. O que causava maior desespero era saber que existiam tantos outros mercados clandestinos, por onde você poderia ter sido vendido ou onde ainda poderia estar esperando comprador, sem que eu sequer tomasse conhecimento deles. Por intermédio dos pretos eu ia sabendo de um ou outro, principalmente os existentes nos porões das lojas e tabernas, que serviam apenas aos conhecidos.

Eu também ia atrás de todos os moleques anunciados no jornal e dava um jeito de ver antes as peças que iam a leilão, e nada de te encontrar. Em meados do mês de abril, chegou carta do doutor José Manoel avisando que a Cecília tinha nascido, a quinta filha, e que ela e a mãe passavam muito bem. Ele só lamentava o fato de ainda não ter nascido nenhum homem, e por isso tentariam mais uma vez. Disse também que estava apenas esperando a sinhazinha sair do resguardo para contar a minha história, o que tinha acontecido com a Claudina e com você, e que, provavelmente, em breve eu receberia carta dela. Ele também prometeu que ia mandar procurar a sua certidão em todas as paróquias de São Salvador, e isso exigia paciência, pois eram muitas. Do seu pai ninguém tinha notícias, ninguém tinha visto, e o mercador também não tinha encontrado mais qualquer informação importante. Ou seja, eu me sentia de mãos atadas, sem saber o que fazer...

As festas

Não me lembro o que aconteceu primeiro, se foi a coroação do imperador D. Pedro II ou a festa da Kianda, mas logo depois desses dois acontecimentos, a minha vida sofreu uma grande mudança. Nos dias que antecederam as festas da coroação, que duraram pelo menos uma semana, a Rua do Ouvidor se encheu de gente, todos querendo saber das últimas modas de Paris para não fazer feio nos muitos bailes e recepções que aconteceram na cidade. O senhor Wallerstein, aquele da loja de sedas e acessórios, era o mais animado com a quantidade de fregueses, mantendo a loja aberta até bem tarde da noite, até mesmo na hora dos tigres. Eu vi o imperador de longe no desfile da posse, seguido de imenso cortejo de damas e cavalheiros.

Achei que não passava de um menino e de fato era, tinha apenas quinze anos. Ele saiu do Palácio e cruzou a pé a praça que estava irreconhecível naquele dia. Eu estava acostumada a vê-la nos fins de tarde, tomada pelos pretos vendedores de doces, quitutes e água, e pelos comerciantes e capitães de navios estrangeiros, que iam até lá fazer negócios. No início da noite apareciam mais pretos de ganho e os marinheiros que deixavam os navios em busca de diversão, para então serem expulsos pelas patrulhas em nome do sossego da família real. Ou seja, o largo, que costumava ser frequentado por gente simples, naquele dia estava tomado pelas pessoas mais importantes do Brasil, e diziam que até do estrangeiro, prestigiando o novo imperador. Os pobres e pretos apinhavam as ruas vizinhas e as que faziam quina com o Paço, engrossando as vozes dos infindáveis vivas que eram dados ao soberano.

Eu já tinha ouvido falar que no Palácio quase não trabalhavam pretos, e era verdade, a se confirmar pela imensa criadagem que ia atrás dos nobres, na procissão.

Quando chegaram à entrada da Igreja do Paço, houve

uma apresentação de músicos e, estes sim, para minha surpresa, eram todos pretos ou mulatos. Faziam parte de uma escola de ler, escrever e de música que D. Pedro I tinha fundado na Real Fazenda de Santa Cruz. Estavam todos muito bonitos, com um traje de veludo vermelho listrado e enfeitado com renda dourada, e foram muito aplaudidos quando terminaram de tocar uma série de valsinhas da moda.

Nós, da casa da dona Balbiana, estávamos todos juntos, e o Omissias, que também era músico, identificou cada um dos instrumentos que compunham a banda —

rabeca, rabecão, violoncelo, clarineta, flauta, fagote, trombone, trompa, pistom, requinta, bumbo, flautins de ébano, bombardinos e bombardões, se não me esqueço de algum. Tantos, que eu nunca mais cheguei a ver conjunto igual. Depois de animar um baile na corte em um daqueles dias de festa, eles também tocaram no largo, para o povo, que se divertiu com as modinhas, as marchas, as quadrilhas e os lundus. Mas não tocaram lundus iguais aos que dancei com o Piripiri na dita festa da Kianda, a sereia encantada das terras dos angolas.

Para os angolas, a Kianda é o mesmo que a Iemanjá para os nagôs, e eles também têm uma sereia de rios e lagos chamada Kituta, bem parecida com a minha Oxum. A festa aconteceu à noite, nas praias de um sítio distante chamado São José, perto de onde ficava a casa de uma kilamba, que é uma sacerdotisa devota da Kianda. Havia também vários quimbandas, homens e mulheres que recebem e interpretam as mensagens da sereia, que manda recados e dá conselhos aos devotos. Uma festa bonita, em que quase todos estavam vestidos de branco e tinham nas mãos algum presente para jogar no mar, flores, cheiros, comidas, pentes, ex-votos ou dinheiro.

Também foi feito um grande jantar para ela, servido sobre esteiras de luando que cobriam a areia da praia bem próxima à água, onde o mar podia alcançar as comidas e levá-las embora com ele. Havia de tudo,

vinhos, refrescos, quitutes, doces e muitas comidas de Angola, e festejávamos cada vez que uma onda abraçava uma tigela e não soltava mais, sinal de que a Kianda tinha gostado. O Piripiri disse que aquele era o primeiro dia de festa, um período de agradecimento que ainda ia durar mais quinze dias, e só então os pescadores poderiam voltar ao mar.

O Piripiri queria que eu consultasse uma quimbanda para saber se te encontraria, mas eu não quis, com medo de que ela dissesse que não. Enquanto a Kianda aceitava as oferendas, o tambor batia um toque especial para ela, e só depois de tudo ser levado pelo mar foi que a festa começou. Um rei e uma rainha correram o meio de uma roda formada por todos nós, fazendo com que cada um beijasse e honrasse a bandeira que exibiam com muito orgulho. Depois disso, a dança estava liberada, e o Piripiri disse que não sairia de perto de mim para que ninguém lhe roubasse a companheira.

Eu sempre soube que não sou bonita, que não represento perigo nas disputas de homens, mas tive medo dos olhares que as outras mulheres me lançaram quando perceberam que o Piripiri não pretendia dançar com elas naquela noite. Pedi proteção à minha Oxum, orixá das mais vaidosas e acostumada com a inveja das mulheres, e tratei de me divertir, porque ele era um excelente dançarino. Primeiro foi a umbigada de roda e depois o lundu. Quando começamos a dançar, eu soube que algo mais aconteceria naquela noite, desde o momento em que, na dança, eu tinha que seduzir o Piripiri e ele tinha que ficar apenas me olhando, sem poder se aproximar.

Quando, enfim, ele foi chegando perto, eu queria que não houvesse mais ninguém naquela praia, que aquele mundo de água sob estrelas fosse só nosso. Mas eu não conseguia me esquecer da Juana, não conseguia parar de pensar no motivo pelo qual ele entrava no quarto

onde ela o esperava. Eu deveria continuar me afastando dele na dança, mas não consegui, pois queria me enroscar naquele corpo de capueira, suado a ponto de fazer da roupa uma outra pele, marcando os músculos.

O corpo do Piripiri convidava o meu a se deitar e eu tinha que recusar, como se já não estivesse esperando por aquele convite havia meses, como se ele realmente tivesse que se ajoelhar na minha frente e fingir que implorava. Ainda seguindo a marcação do lundu, entrei no meio da roda dos braços dele e rodopiei, para que ele sentisse o meu desejo, e quando o cobri com a roda da saia, pareceu uma eternidade o tempo que ele ficou debaixo dela, respirando os meus cheiros. Não nos falamos, não foi preciso, e o Piripiri me pegou pela mão e fomos para um canto mais reservado da praia, onde passamos o resto da noite entre gemidos e gargalhadas, irresponsáveis e cheios de areia e de desejo. Foi bom ter um homem de novo, embora no dia seguinte eu já não tivesse tanta certeza.

Eu continuava com as aulas para o Pablo e o Esteban, e qual não foi a minha surpresa quando a Juana entrou na cozinha e perguntou se podia assistir também.

Concordei de má vontade, porque achei que tinha percebido segundas intenções no jeito dela. Imaginei que já devia saber da noite anterior e não queria deixar que eu ficasse a sós com os meninos, para o caso de o Piripiri aparecer. Mas ele só voltou do armazém tarde da noite, quando eu já tinha ido mais cedo para o quarto, justamente para não vê-lo e para tentar dormir antes de ouvir barulhos no quarto ao lado. O mesmo aconteceu nas noites seguintes, até que ele bateu na porta do meu quarto, onde não o deixei entrar dizendo que tinha andado o dia inteiro e estava muito cansada, querendo dormir. Ele ficou chateado e disse que não queria incomodar, mas apenas dizer que uma parenta tinha mandado avisar sobre uma vaga em um canto para quituteira, mas que a luva era alta e, se eu quisesse, ele

podia emprestar. Achei que tinha sido sincero ao oferecer o empréstimo, mas eu disse que não precisava e fiquei de falar com a mulher no dia seguinte.

Eleições

No dia seguinte fui falar com a parenta dele, que era a capitã do canto, paguei a luva para reservar o lugar e disse que começaria dentro de alguns dias. Fiquei muito tempo sem ver o Piripiri, que chegava em casa cada vez mais tarde, quando eu reconhecia os passos no andar de baixo. Somente depois de ouvir uma conversa dos fregueses da saleta de pasto foi que imaginei o que ele estava fazendo, que era freqüentar os treinos de capueira. O senhor Passos estava furioso porque os liberais não tinham conseguido mais espaço no gabinete do Império, tomado por conservadores mesmo depois da coroação de D. Pedro II.

Ele achava que deveria ser o oposto, porque foram os liberais que lutaram para que a maioridade fosse antecipada. Mas o poder estava todo nas mãos dos conservadores, apesar das sérias rebeliões federalistas que estavam acontecendo nas províncias do Maranhão e do Rio Grande. Atentei para o nome das duas províncias, a do Maranhão porque eu tinha saído de lá, e a do Rio Grande porque ouvi quando citaram o Bento Gonçalves, o general que tinha ficado preso no Forte do Mar, em São Salvador. Os amigos do senhor Passos disseram que as províncias de Minas Gerais e de São Paulo também estavam se manifestando, que os conservadores tinham até enviado um tal duque de Caxias para acalmar a situação, e só a do Rio de Janeiro não fazia nada. Os conservadores estavam planejando eleições para o gabinete, contando com a vitória dos nomes indicados por eles, e foi por causa do interesse do Piripiri em ficar em casa durante a saleta de pasto, escondido na cozinha para tentar ouvir a conversa, que fiquei sabendo o que estava sendo planejado.

Eu preferia que ele estivesse do lado dos liberais, porque gostava muito do senhor Passos, mas o Piripiri explicou que, para nós, os pretos, não fazia muita diferença quem estava no poder e, além do mais, os conservadores pagavam melhor. O dinheiro recebido era usado para comprar a liberdade dos pretos da malta ou de outros que levavam jeito para a capueira, mantendo assim a tradição de a malta do Mestre Mbanji ser a mais respeitada da província. A mais séria também, porque o Mestre não admitia o uso de armas que não fossem as pernas e os pés, os braços e as mãos, a cabeça e os olhos. Havia várias maltas em São Sebastião, sempre ligadas a um Mestre ou a uma freguesia, e de vez em quando se enfrentavam para valer. A malta vencedora ficava mais valorizada aos olhos dos interessados em contratá-las para resolver contendas. Como a malta do Mestre Mbanji nunca tinha perdido um enfrentamento, havia vários anos que alguém ligado ao governo a contratava em tempos de eleições, pagando o que o Mestre pedisse. No dia da eleição, aconteceu exatamente o que o Piripiri disse que aconteceria, e os conservadores só ganharam a briga porque tinham a malta maior e mais valente.

Os partidos contratavam eleitores para entrarem juntos na fila, carregando nos bolsos um grande número de chapas já preenchidas com os números dos candidatos que queriam que ganhassem. Quando o primeiro contratado estava votando, dava algum sinal para os capueiras da sua malta, que ficavam esperando ao lado da fila e começavam uma confusão. O tumulto era geral e os capueiras formavam uma grande roda em torno dos eleitores que precisavam proteger, enquanto eles tiravam dos bolso chapas já preenchidas e emprenhavam a urna. Isso acontecia o tempo inteiro e a polícia não se aproximava, com medo dos capueiras. No fim da eleição, é claro que ganhavam os candidatos que tinham contratado as melhores maltas, as que tinham defendido melhor seus eleitores e conseguido furar o cerco da

malta adversária.

E todos ainda colaboravam para que a polícia não fosse acusada de omissa, pois capueiras da malta perdedora iam para a cadeia, mas já tendo a certeza de que seriam soltos logo em seguida. Mais grave era a situação dos capueiras que se machucavam durante as lutas, porque sempre havia as maltas que não respeitavam as regras e usavam facas e canivetes. Eles ficavam jogados pelo chão até que tudo acabasse e seus companheiros pudessem recolhê-los, usando redes vermelhas para os feridos e brancas para os mortos. No dia da eleição fiquei agoniada, e só me acalmei quando ouvi os passos do Piripiri e, mais tarde, os gemidos no quarto ao lado, que me fizeram imaginar que nem ferido ele estava.

Menos de uma semana depois o resultado estava publicado em todos os jornais, dando vitória aos conservadores. No sábado seguinte, o senhor Passos estava possesso porque tinha ficado sabendo o número de votos, muito maior que o dobro do número de eleitores, sendo que a maioria nem comparecia às urnas, com medo das confusões.

O canto

Eu precisava tomar meu lugar no canto, mas, para falar a verdade, estava com 1 vergonha de vender comida, pois já tinha feito coisas muito mais importantes e rentáveis. Não queria ficar transportando tabuleiros e armando fogareiros, mas hoje até me envergonho de tal pensamento. Eu, que sempre quis ser justa, que não aceitei ser escrava porque sempre achei que um branco não podia me tratar como se fosse superior, estava me julgando melhor do que as pretas que trabalhavam de maneira humilde. As pretas de São Salvador faziam sucesso em São Sebastião, principalmente as que se vestiam à maneira da Bahia, que as outras já estavam começando a imitar. O meu canto ficava na Rua do Sabão, quase quina com a Praça do Comércio, e era

formado apenas por pretas angolas.

Elas tinham me aceitado por causa do pedido do Piripiri e depois de eu ter dito que era crioula da Bahia. Canto de quituteiras e vendedoras de frutas e verduras, onde a capitã era uma luanda bonachona chamada Benta. Era ela quem mantinha a ordem, não deixando que nenhuma outra vendedora se instalasse perto para não dividir a freguesia, e quem resolvia qualquer contenda entre nós.

Para isso, recebia uma pequena parte da nossa féria diária, e também tínhamos que pagar uma féria semanal ao inspetor da freguesia, como aluguel pelo espaço e garantia de proteção contra desordens e desmandos.

Além disso, também contribuíamos para uma caixinha mensal usada para conceder empréstimos para quem precisasse, como atender qualquer uma de nós que ficasse doente, por exemplo, e para manter um escravo que pertencia ao canto, um moleque chamado Taio.

O Taio era o moleque mais feio que eu já tinha visto, fazendo jus à alcunha, porque seu rosto era dividido ao meio por um talho, ou "taio", da testa até o queixo, quase como se ele tivesse duas metades de nariz e quatro partes de lábios, em razão de ele estar no colo da mãe quando ela foi atacada e morta a facadas. Salvo, o menino foi parar em um armazém, onde cresceu vivendo da caridade dos outros pretos, que cuidaram dele, pois ninguém queria comprá-lo com aquele rosto deformado, que realmente impressionava. Passando em frente ao armazém, a Benta ficou com dó do moleque triste e estranho que olhava o movimento da rua e resolveu fazer alguma coisa por ele, que tinha pouco mais de sete anos de idade e valia pouco, por ser mercadoria encalhada.

A Benta conversou com as companheiras de canto e elas gostaram da idéia de ter um moleque para ajudar, e desde então ele estava por lá fazendo de tudo, desde

vigiar tabuleiro enquanto precisávamos nos afastar um pouco até fazer compras e entregar pedidos de fregueses. Esperava-se que as pretas da Bahia vendessem atacaçá, acará e bolinho de canjica, que faziam um grande sucesso em São Sebastião, mas perguntei à Benta se podia vender outra coisa. Ela permitiu e as outras gostaram, pois assim eu não tirava a freguesia delas, e foi então que montei a minha banca de musselinas para blusas à baiana, xales e panos-da-costa, de que as pretas tanto gostavam e que não eram encontrados tão facilmente em São Sebastião. Escrevi para o Tico, e um mês depois recebi meus primeiros panos direto da África, depois de passarem pela Bahia, é claro. Para mostrá-los melhor, eu mesma me enfeitava toda, com roupas feitas por umas costureirinhas que moravam na Rua da Vala.

Bem-sucedida

No dia em que eu tinha alguma pista para ir atrás de você, ficava no canto apenas à tarde, e mesmo assim os negócios eram muito bons, porque quase ninguém mais tinha mercadorias iguais às minhas. A notícia de que em São Sebastião estavam sendo vendidos panos-da-costa legítimos e tecidos da África se espalhou pela cidade inteira, e aparecia gente de freguesias bem distantes, o que era ótimo para eu ficar sabendo notícias das redondezas, aproveitando para falar sobre você.

Comecei a gostar muito daquele trabalho, e da minha banca dava para ver a Praça do Comércio, sempre com muito movimento. Não apenas de pessoas da cidade; também apareciam por lá muitos estrangeiros, principalmente portugueses. Quase todos trabalhavam no Paço Real e, com o passar do tempo, aprendi a distinguir a função que exerciam pelas roupas que usavam.

Diziam que mais de quinze mil tinham desembarcado com o rei D. João e a corte, e é claro que naquela época

já não eram tantos, porque muitos já tinham voltado para Portugal. Mesmo assim, ainda havia um verdadeiro exército de mordomos, estribeiros, gentis-homens, confessores, cirurgiões, guarda-roupas, guarda-jóias, guarda-livros, manteeiros, compradores, porteiros, retretas, damas de companhia e muitos outros, fazendo daquele ponto um lugar muito bom para comerciar.

Era também na Praça do Comércio que muitos homens se reuniam para discursar sobre política, e onde os capueiras adoravam afrontar a polícia. Inclusive a malta do Piripiri apareceu por lá algumas vezes. Eles surgiam e sumiam de repente, fugindo da guarda, e deixavam o povo divertido e encantado com as exibições. As maltas podiam se encontrar por simples coincidência, mas na maioria das vezes era o sino da São Bento, invadido pelos capueiras, que chamava para o enfrentamento.

Independentemente de onde moravam ou a que nação pertenciam, os capueiras faziam juramento a uma malta, que, por sua vez, pertencia a uma freguesia. Isso era sagrado entre eles, que juravam ser fiéis àquela malta, e o lugar escolhido para isso era a torre da igreja principal da freguesia. Para uma malta, subir na torre das igrejas da freguesia alheia era chamar para a briga, e enquanto a malta da freguesia não ia defender seu território, os capueiras ficavam lá em cima, montados sobre o sino, exibindo a coragem de acompanhar com os corpos o movimento de vai-e-vem. O barulho chamava a atenção dos que passavam pelas ruas e dos que já sabiam que aquele era um código entre os capueiras, e logo uma multidão se reunia em torno da igreja, esperando pela briga.

Era uma grande decepção quando os curiosos descobriam que quem estava tocando o sino era alguém da própria malta daquela freguesia, chamando os companheiros para dar um aviso urgente. Isso acontecia se algum deles tinha um problema e precisava de ajuda, como quando um capueira era vendido para o campo.

Eles então se reuniam e decidiam o que fazer, se tinham condições de comprar o amigo, se dariam fuga a ele ou se tramariam alguma vingança contra o dono.

Os enfrentamentos de maltas também serviam de treinos, e nesses casos quem ia à frente para provocar a malta vizinha eram os caxinguelês, meninos que estavam aprendendo o jogo e que eram bons de pernas, para saírem correndo quando o enfrentamento ficava sério.

Foi depois de um desses treinos, com a participação do Piripiri, que voltamos juntos para casa e nos entendemos novamente. De novo, não foi preciso falar nada, apenas estávamos caminhando lado a lado quando ele me chamou para ir até a praia. Deixamos os meus panos em casa, que ele gentilmente carregou, e nos deitamos a noite inteira.

Depois daquela noite, isso se repetiu várias vezes, com ele indo até o canto me buscar, e ficávamos boas horas na praia, para então voltarmos para casa e eu ficar indignada, porque não sabia como ele ainda tinha fôlego e vontade para, de vez em quando, usar o cômodo ao lado com a Juana. Não sei por que me conformava com aquilo, talvez porque estivesse gostando dele mais do que imaginava. O Piripiri era um homem sempre gentil e bondoso, como muitas vezes eu pude ver nas ruas, ajudando as pessoas, principalmente os velhos e as crianças, por quem demonstrava especial carinho. Ele também era bom para mim, não tinha como negar, e talvez só por isso eu suportasse dividi-lo com a Juana.

Passado um pouco da metade do ano, recebi carta da sinhazinha, que tinha tomado conhecimento de tudo e se dizia muito sentida, oferecendo a ajuda que eu precisasse, inclusive se encarregou de ficar cobrando providências do marido. Depois daquela primeira carta dela, começamos a nos corresponder sempre que tínhamos qualquer novidade ou simplesmente quando queríamos conversar com alguém muito amigo.

Acho que era bom para nós duas, uma forma de dividirmos os problemas, bem diferentes, no nosso caso, mas sempre importantes. Menos de um mês depois ela escreveu novamente, dizendo que nenhum registro de batismo tinha sido encontrado em São Salvador, e que pediria ao doutor José Manoel para fazer buscas nas redondezas. Na resposta, contei sobre o Piripiri e ela me aconselhou a conversar com ele, mas não tive coragem, por medo de perdê-lo. Eu sabia que ele gostava de se deitar comigo e me tratava muito bem, mas não tinha prometido nada, assim como o doutor Jorge, e eu nada podia cobrar.

Eu me preocupei bastante com o fato de não terem encontrado nada sobre o batismo, porque das três pessoas que poderiam dizer onde tinha sido feito, uma estava morta e as outras duas, desaparecidas, a Claudina, você e seu pai. Foi mais ou menos por aquela época que comecei a ter o sonho da cobra, que sempre se repetia, e no qual ela estava mordendo um papel que eu tentava pegar. É claro que tal papel era a sua certidão. Pouco antes do fim do ano, quando estava procurando um outro livro de histórias, o senhor Mongie perguntou se eu conhecia a Bíblia, que mesmo se eu tivesse outra fé e não acreditasse em nada do que estava escrito nela, era o livro mais cheio de histórias que ele conhecia, e das mais bonitas. Paguei muito caro por ela, mas fiquei contente com a grossura, pois levaria bastante tempo para ler.

E por essas coincidências inexplicáveis, lá estava uma cobra nas primeiras páginas, mordendo não um papel, mas uma maçã. Achando que era mais um aviso dos voduns que eu não estava conseguindo interpretar, resolvi escrever para a sinhá Romana, no Recôncavo, narrando exatamente com que eu sonhava e quais os problemas que tinha para resolver. Não tinha certeza se

a carta chegaria até ela nem se ela teria condições de ler e responder, mas depois de enviar a carta não sonhei mais e o meu coração soube esperar tranqüilo. Também tive a idéia de, em vez de apenas olhar os anúncios de escravos vendidos ou procurados, mandar publicar um procurando por você e oferecendo uma boa recompensa para quem o encontrasse.

Umas mortes

Quando parei de sonhar com a cobra que comia o papel, comecei a ter outro sonho que não estava relacionado a você. Eu e o Piripiri aparecíamos caminhando por um lugar onde havia muitas flores, um chafariz, pessoas bonitas conversando e admirando as plantas. Fui acordada de um sonho desses pelo que achei ser uma gritaria causada por briga na rua ou nos vizinhos, já que as paredes das casas quase se encontravam de tão juntas. Da janela lateral do meu cômodo, se esticasse o braço eu poderia tocar a parede da casa vizinha. Mas logo percebi que era na nossa casa mesmo, pois primeiro ouvi as vozes do Maboke e do Firmino, e logo em seguida a do Piripiri, ao pé da escada, chamando pela dona Balbiana.

Depois ouvi baterem a porta ao lado da minha, os passos que só podiam ser os da Juana descendo a escada, e depois o grito dela. Já não havia mais dúvida de que era alguma coisa na casa; pus o vestido por cima da roupa de dormir e fui ver o que tinha acontecido, descendo ao mesmo tempo que a dona Balbiana. Cruzamos com a Juana que vinha da porta da sala e entrava no corredor, em direção à cozinha. A dona Balbiana foi direto para a rua e eu segui a Juana, pois queria saber se o Piripiri estava junto, mas ela acabou entrando sozinha no cômodo dos santos, no fundo do quintal.

Caído no primeiro degrau da escadinha que dava acesso à sala estava um homem todo ensangüentado, ainda com

vida, como pude perceber na primeira olhada, já que ele estremecia de vez em quando. Não dava para reconhecer, pois além de a rua estar escura, ele ainda estava com o rosto virado para baixo, mas o corpo musculoso parecia jovem. No portão, o Firmino segurava um outro homem e pedia que alguém tomasse a faca que ele tinha em uma das mãos. Sabíamos que era o Firmino por causa da voz, e que ele segurava alguém porque percebíamos os dois vultos, mas também não sabíamos quem era. Nas casas vizinhas, começamos a ouvir os gritos pedindo silêncio e algumas janelas se abrindo. Na verdade, ninguém se importava muito com o acontecido, apenas com a perturbação do sono àquela hora da noite, umas dez e meia ou onze horas, em uma cidade que dormia cedo. Foi o Piripiri quem primeiro se aproximou, e pedi que tivesse cuidado, mas logo ele e o Firmino carregavam o homem desarmado para perto da porta, e o reconhecemos sob a luz da lamparina que a Luzia tinha providenciado. Era o Pablo, o filho do Buremo e da Rosário, e assim que viu a dona Balbiana, ele começou a chorar e a pedir que o deixassem ir embora.

O que mais me espantou ao reconhecer o Pablo foi o tamanho do moleque; talvez por vê-lo todos os dias durante as aulas, eu tivesse deixado de reparar que já era um homem. Ele parecia maior e mais forte ainda por precisar do Firmino e do Piripiri para mantê-lo quieto. O

Pablo se debatia, chorava e implorava à dona Balbiana, a quem chamava de madrinha Balbiana, que o deixasse fugir, pois não queria ser preso e morrer na cadeia. A dona Balbiana também começou a chorar, querendo saber o que tinha acontecido, mas ele não falava, mantinha a cabeça baixa e tentava se soltar.

Quando um dos vizinhos gritou que alguém tinha ido chamar a polícia, o desespero dele aumentou, pedindo que ela pensasse nos pais dele. Ninguém entendia nada, nem o que ele estava fazendo ali, nem quem era o homem que ele tinha esfaqueado, e muito menos o

motivo, até que a dona Balbiana comentou que o desconhecido só podia ser um ladrão, agradecendo ao Pablo por não ter deixado o homem entrar. Era uma hipótese improvável, mas ninguém conseguiu pensar em outra, e muito menos entender quando a dona Balbiana pediu que o Firmino e o Piripiri soltassem o menino e que todos nós entrássemos na casa, pois ela cuidaria do problema. Fomos para a cozinha, e estávamos conversando em voz baixa, para ouvir o que acontecia do lado de fora, quando a polícia chegou. A dona Balbiana contou que o morto era um ladrão e tinha sido atingido por um homem que naquele dia tinha alugado um cômodo e estava chegando naquele exato momento para ocupá-lo. Ela tinha convidado os policiais a entrarem na sala e falava alto o suficiente para que todos nós ouvíssemos, pois sabia que ia precisar de pelo menos uma confirmação. Os policiais pediram para dar uma olhada no tal cômodo e ela os levou ao que ficava ao lado do meu, que de fato estava vazio e limpo, esperando para ser ocupado por alguém. Os policiais desceram até a cozinha e quiseram confirmar aquela história, e logo o Firmino se apresentou para contar o que tinha visto.

O Firmino mentiu que estava chegando da rua, do trabalho dos tigres, como o policial podia confirmar pela tina que ainda estava ao lado do portão, quando trombou com um homem que saía às pressas da casa. O homem carregava uma mala em uma das mãos e uma faca na outra, e ele o reconheceu como sendo alguém que tinha estado lá durante a tarde, tratando um cômodo com a dona Balbiana. O homem ia tão apressado que quase derrubou o Firmino e o tigre, e quando ele tentou tirar satisfações, o homem o ameaçou com a faca e saiu correndo em direção à praia.

Fiquei temerosa com aquilo, pois estávamos nos tornando cúmplices por ficarmos calados. Bastaria uma pequena investigação para saber que durante o dia o Firmino não poderia ter visto o hóspede inventado,

porque estava no trabalho. Mas ninguém teve coragem de falar nada, principalmente porque não conhecíamos o morto e conhecíamos o Pablo, um bom menino, e seus pais, que não mereciam um desgosto daquele. A dona Balbiana ajudou o Firmino, concluindo que o morto só podia ser um ladrão ou um desafeto do que ia se tornar hóspede, de quem ela não conseguiu se lembrar o nome.

Eles acreditaram, e um dos policiais foi atrás de uma rede para carregar o morto, pedindo que qualquer novidade fosse comunicada.

Depois que todos foram embora, comentei com o Piripiri o meu temor de que a mentira fosse descoberta, mas ele disse que não haveria problema algum desde que ninguém reclamasse o morto, porque a polícia não gostava de se envolver em problemas de pretos, ou seja, quando a vítima era um preto. Aquele com certeza já era caso encerrado, pois os policiais tinham pedido ao Firmino e ao Maboke que fossem com eles até a porta do cemitério do Valongo, onde o corpo seria deixado para que o coveiro cuidasse dele no dia seguinte.

O Piripiri achou que a dona Balbiana tinha feito o melhor, pensamento que me pareceu compartilhado por todos da casa, que não tocaram mais no assunto. Mas eu estava curiosa para saber o que exatamente tinha acontecido, e nada me tirava da cabeça que a Juana e talvez o Piripiri estivessem envolvidos naquela história.

E provavelmente também o André, porque logo na manhã seguinte eu o vi conversando com a Juana pelos cantos, e ela chorava.

Nos

dias

seguintes,

os

olhos

dela

estavam

constantemente vermelhos e inchados, sinal de muito choro, que todos fingiam não notar. Era o que eu também estava disposta a fazer, mas como fui a única que pareceu se importar em saber a verdade, mais por curiosidade do que por qualquer outra coisa, ela, a história, foi parar nas minhas mãos. Um pedaço por vez, para alívio de alguns, entre os quais me incluo, e tristeza de outros.

À noite, quando voltei do canto, a dona Balbiana estava com uma aparência muito cansada e comentou que tinha passado o dia na casa da Rosário, que enlouqueceu de vez quando soube do sumiço do filho. Nada do que costumava adiantar antes tinha surtido efeito daquela vez, e a mulher estava amarrada à cama com correias de couro, porque tentava se desprender com uma força descomunal e, antes de ser detida, tinha tentado se matar com uma faca de cozinha. Foram necessários a dona Balbiana, o Mongo, o Buremo e o Esteban para conseguir segurá-la, enquanto dois outros homens cuidaram das amarras. Tiveram que enfiar uma tampa de coco na boca dela para que não engolisse a língua, pois ninguém queria continuar enfiando a mão lá depois de ela ter quase arrancado o dedo do Buremo. Fiquei com pena, pois sabia bem o que significa ter um filho perdido por esse mundo, sem notícias de onde andava ou em que condições.

No meio dessa confusão toda, já havia se passado mais de uma semana quando a dona Balbiana deu por falta do André, que tinha sumido de casa sem avisar. De vez em quando ele ficava fora por uns tempos dizendo que precisava tratar de negócios importantes, e então ela não deu muita importância. E a vida parecia que ia seguir sem maiores preocupações, menos para o senhor Passos, que, em uma das saletas de pasto, estava exaltadíssimo com os companheiros de partido. Ele reclamou muito da falta de iniciativa dos liberais da corte, que eram roubados pelos governistas e deixavam por isso mesmo, enquanto nas províncias de Minas Gerais e de São Paulo o povo estava pegando em armas contra o duque de Caxias.

As soluções

A história do Pablo começou a ser esclarecida no dia em que o Taio começou a ler sem que nunca alguém tivesse ensinado. Eu sempre levava alguma coisa para ler quando o movimento estava fraco, e o Taio parou atrás de mim e leu em voz alta duas ou três linhas. Não sei se me assustei mais por ele ter lido ou se, ao me virar, ter visto algo de muito estranho nos olhos fixos no papel, separados por aquele talho que causava tão má impressão. As mulheres começaram a rir do meu susto, mas ele tomou o jornal das minhas mãos e continuou lendo, enquanto aumentavam as brincadeiras.

Eu disse que ele lia de verdade, mas elas não acreditaram, achando que nós dois estávamos de combinação para pregar uma peça nelas, até que um cliente que estava comprando acará olhou o papel e confirmou que eu falava a verdade, que, sem nunca ter aprendido nada, o moleque estava lendo. Não muito bem, ciscando as letras, mas lendo. Séria, a Benta desarmou o tabuleiro e disse que ia para casa mais cedo, levando o menino, e logo surgiu o comentário de que era encosto, espírito. Na manhã seguinte, a Benta me chamou de lado e disse que tinha conseguido conversa com o espírito que estava com o Taio, o de um moleque que eu conhecia, havia pouco tempo. Na hora pensei no Pablo e no quanto seria triste dar à mãe a notícia de que ele estava morto.

Depois de ouvir toda a história da Benta, foi a minha vez de ir embora mais cedo, pois queria conversar com o Piripiri. Zanzei pela casa sem lugar para ficar, sem descanso, saí para olhar vidraças, mas logo voltei, e nem as histórias do Omissias conseguiram prender o meu interesse. Quando me lembrei de que naquela noite o Piripiri ainda ia para a capueira, não agüentei mais; pedi à dona Balbiana que fosse até o meu cômodo e contei tudo para ela.

Os barulhos que eu ouvia no cômodo ao lado de fato

eram feitos pela Juana, mas não com o Piripiri, e sim com muitos homens que ela colocava para dentro de casa, amigos do André. Apaixonado por ela, e correspondido sem saber disso, o Pablo ficava parado em frente à casa na esperança de que ela se mostrasse à porta, e acabou descobrindo tudo, porque a Juana ia fechar a porta depois que os homens saíam.

Com ciúmes, armou-se de uma faca e esperou por um deles escondido do lado de dentro do portão, qualquer um, que atacou pelas costas. Ao fugir, depois de tudo aquilo na porta da casa, que você já sabe, o Pablo foi pego por dois amigos do morto, que estavam esperando por ele logo em frente à casa e se afastaram quando perceberam a aproximação do Firmino, que voltava do mar depois de ter esvaziado o tigre. De onde estavam, os homens ouviram tudo e perceberam que tinha sido o Pablo, que levaram até um lugar em São João Batista da Lagoa e o mataram por vingança, jogando o corpo em um matagal. A Benta sabia onde ficava esse matagal, e o corpo precisava ser retirado de lá e enterrado o quanto antes. Ao voltar para casa, o André soube do acontecido com o amigo por intermédio da Juana e, mais tarde, do que tinha acontecido ao Pablo por intermédio dos dois amigos, resolvendo então desaparecer por uns tempos.

Era ele quem apresentava os amigos à Juana e cobrava de quem queria se deitar com ela, que não sabia de nada disso e se deitava apenas por prazer, mas gostava mesmo era do Pablo.

Senti muita pena da dona Balbiana, que ficou muito abatida, mas logo se recuperou e pediu que eu mandasse a Juana subir até o quarto dela. Estávamos todos em casa, mas ninguém falou nada quando começamos a ouvir os gritos de dor da moça e os berros desesperados da velha, que bateu muito na Juana, a ponto de ela não conseguir se levantar por três ou quatro dias. Foi nesses dias que as outras providências foram tomadas, porque o problema não parava por aí. O

espírito do Pablo tinha descido no Taio para esclarecer tudo e fazer com que o corpo fosse encontrado, e o espírito do homem morto por ele tinha descido na mãe, na Rosário, para se vingar de toda a família. Se estivesse solta e se o Buremo não fosse um homem de muita fé, e portanto bem protegido, ela teria matado toda a família e se matado depois. A Benta cuidaria do Taio, e a dona Balbiana conversou sobre a Rosário com o Maboke, pois ele sabia o que fazer.

Continuar: parte 7 de 8