Um Defeito de Cor
Capítulo oito
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.
Eu estava ficando com medo por ter sido envolvida naquela história, e me repreendi por não ter aceitado a mentira inventada pela dona Balbiana, como os outros.
O Piripiri me tranqüilizou dizendo que se os trabalhos fossem bem-feitos, e tinha certeza de que seriam, nada aconteceria comigo. Aquela foi a primeira vez que dormimos juntos na casa, pois a dona Balbiana não permitia esse tipo de coisa. Mas como todos já tinham ido dormir e eu estava com medo de ficar sozinha, achamos que não haveria problema. Em algumas outras noites também achamos a mesma coisa, e era cada vez melhor estar com ele, depois de ter acreditado durante todo aquele tempo que era ele quem se deitava com a Juana. Nunca contei isso a ele, para que não descobrisse o meu ciúme.
Naquela noite, o Piripiri me disse que, apesar de o André ser seu amigo, não era boa pessoa. Inclusive era um dos capueiras covardes que andavam armados, pois não se garantia na luta limpa, e por causa disso tinha sido expulso da malta do Mestre Mbanji. O trabalho dele também não era dos mais honestos, pois dizia que não era homem para ficar carregando peso nas costas, tendo se especializado no comércio. De fato era mesmo comerciante, comprando barato as mercadorias que os pretos roubavam dos armazéns ou de suas casas e revendendo para comerciantes tão desonestos quanto ele. Temi então que voltasse e descobrisse o meu envolvimento naquela história, e este medo me
perseguiu durante mais de um ano, enquanto ele esteve sumido.
Foi bom só porque me reaproximou do Piripiri, que me buscava no canto quase todos os dias. Mas já que a história tinha caído nas minhas mãos, eu quis participar o máximo possível dos desdobramentos, para saber o que estava sendo feito. O Maboke disse que não seria bom para mim, que não conhecia direito a religião do povo dele, e não permitiu que eu acompanhasse nada do que ele e a Benta fizeram para afastar os espíritos incorporados no Taio e na Rosário. A Benta era uma tatá nkisin (Tata nkisi: equivalente à mãe-de-santo do candomblé, quimbanda), e o Maboke era um tatá kisaba (Tata kisaba: colhedor de folhas, curandeiro).
Depois de tirar o espírito do homem morto do corpo da Rosário, a quimbanda disse que talvez conseguisse curá-la, indicando umas folhas que o tatá kisaba precisava colher perto da nascente do Rio Carioca, na Serra do Corcovado. Como essa cura não tinha nenhuma relação com a história, o Maboke me deixou acompanhá-lo, desde que o Piripiri pudesse ir junto para me instruir, porque durante todo o tempo ele teria que fingir estar sozinho.
O tatá kisaba
Saímos ainda antes de o sol nascer, em um dia de semana, pois precisávamos chegar cedo à serra, com folga para o meio-dia, quando algumas folhas mudam de nkisi. Os nkisis são para os angolas e congos o mesmo que os orixás são para os nagôs, ou os voduns para o meu povo, e a cada nkisi é dado um dom e consagrado um tipo de folha. Então, somente aquela folha consagrada àquele nkisi é capaz de resolver determinado problema. As folhas não podem ser colhidas à noite, porque também dormem, a não ser por motivo muito sério, quando devem ser colhidas uma a
uma e acordadas na palma da mão. A Benta tinha perguntado ao oráculo dos angolas, através do Kasumbenkd, quais folhas colher e o que fazer com elas, e para isso o Maboke receberia a ajuda de Katende, a divindade das folhas. O Maboke tinha se preparado desde o dia anterior, quando não pôde conversar com ninguém, nem comer nada de que os nkisis não gostavam, nem beber ou se deitar com mulher, para estar totalmente puro.
Chegamos à Serra do Corcovado depois de quase três horas de caminhada, e amarramos uma umbigueira feita de palha-da-costa e algodão, para nos protegermos dos nkisis Panzo e Zacai, brincalhões que gostam de fazer as pessoas se perderem nas matas. Eu e o Piripiri seguíamos o tatá kisaba a alguns passos de distância, devendo fazer silêncio até sairmos da mata, e, como ele, também tínhamos levado oferenda de fumo, mel e um cachimbo de barro. Imitando o Maboke, colocamos as oferendas no chão e esperamos ele pedir Permissão para entrar, por meio de umas cantigas mágicas.
A permissão foi concedida por um fino assovio saído do meio das árvores, o que também indicava a presença de Katende. Segurei a mão do Piripiri e entramos na mata atrás do Maboke, que tirou alguma coisa do bolso e começou a mastigar, cuspindo na direção dos quatro pontos cardeais. Sorte que no momento eu não sabia o que era, senão poderia estragar o ritual caindo no riso.
Depois o Piripiri me contou que era pimenta, a própria que tinha dado a ele a alcunha, a pimenta piripiri ofelefele, que aumenta o poder das cantigas mágicas entoadas pelo tatá kisaba. E assim fomos, andando com respeito e cuidado pela mata, com o Maboke de vez em quando se abaixando e revirando folhas caídas no chão levantando raízes e cipós e guardando o que lhe interessava em uma sacola de pano com a alça atravessada no peito.
À
Às vezes ele parava e cantava alto, pedindo ao Katende que indicasse o caminho do que procurava, o que nos levou a lugares muito bonitos, como nascente de rios, e se ali não fosse território sagrado, eu gostaria muito de ter voltado em outro dia, para diversão. Quando finalmente saímos, o tatá kisaba ainda não podia falar conosco, fazendo todo o caminho da volta cantando agradecimentos.
Mas eu e o Piripiri já podíamos conversar, e achei muito bonito tudo o que ele me contou, pois os angolas sabem respeitar e louvar a natureza muito mais do que qualquer outro povo. Para eles, todas as folhas têm seu nome, seu nkisi e seu motivo de ser até o meio do dia, quando então podem mudar completamente, para dar ainda mais alternativas a quem sabe usá-las. Há folhas para lavar fios de contas, para combater o mal e para fazer o bem, para curar e para chamar doenças, para pôr na comida como tempero e para invocar a pessoa amada. Folhas para sacudimentos e para curar a desordem espiritual, para trazer riqueza, para acalmar e para excitar, para banho de proteção. Todas podem ser combinadas entre si para outros resultados, desde que na quantidade certa, senão acontecem as coisas mais terríveis. As folhas também podem ser masculinas ou femininas, positivas ou negativas, e um tatá kisaba tem que saber equilibrar tudo isso, e saber também que algumas delas não podem ser misturadas com mel ou dendê, enquanto outras só podem ser usadas se forem misturadas com mel e dendê.
Os nkisis, a quem as folhas são consagradas, têm nomes bonitos, como Lemba, Dandalunda, Kaiaia, Kitembu, Matamba ou Mametus, e achei que alguns também se parecem muito com alguns orixás ou voduns, como Pambu Njila com a minha Oxum, ou Kavungu com os voduns Caviunos lá da Casa das Minas. O Piripiri disse que podia ser, pois entre os nkisis existem alguns que são chamados de njize, "aqueles que servem os povos
vizinhos".
Isso
cada
vez
mais
me
fascinava,
principalmente depois de ter encontrado mais algumas coisas bem interessantes na Bíblia dos brancos, mas depois falo disso, se der tempo. Nunca fiquei sabendo o que o Maboke fez com aquelas folhas, não pude presenciar, mas a Rosário começou a melhorar, e em menos de dois meses colocou tabuleiro de quitutes na Praça do Mercado, ao lado da Luzia.
Segue a vida
Eu achava que aquele meu sonho com o Piripiri, nós dois passeando de mãos dadas em um lugar florido e com muito verde, tinha sido para avisar da ida à Serra do Corcovado. Mas não, aquele lugar de sonhos existia mesmo e nem era tão longe de onde morávamos, um pouco além dos Arcos da Carioca. Era um lugar chamado Passeio Público, como também havia em São Salvador, mas muito mais bonito. Apesar de todas as incertezas, tive muitos momentos de felicidade em São Sebastião, e, como já te disse, só não foram de plena felicidade porque você não estava comigo.
Era difícil olhar para as mães e seus filhos, e mesmo para moleques da sua idade, e ficar imaginando por quais provações você estaria passando naquele momento. Eu só tinha certeza de uma coisa, de que você era esperto e inteligente e que, se soubesse que eu estava te procurando, daria um jeito de me encontrar.
Por isso, e também porque alguém poderia me ajudar, eu mantinha os anúncios no jornal uma vez por semana, mesmo sabendo que você não tinha letras. Naquela primeira ida ao Passeio Público com o Piripiri, havia muitas famílias, quase todas brancas, que nos olharam com certo desconforto, mas não nos importamos, e muitas e muitas vezes repetimos o divertimento. A Fonte dos Amores, o Chafariz das Marrecas, o terraço que caía sobre o mar, as construções, as estátuas e até mesmo a senzala para os escravos do Passeio, tudo me fazia
lembrar alguma coisa sobre você, que o Piripiri ouvia com muito interesse, fazendo perguntas e me incentivando a continuar a busca.
Como também era fim de ano, as lembranças e a falta pareciam mais dolorosas, porque eu pensava também no seu irmão, o Banjokô, que tanto gostava de música e de rancho de pastoras. Lembrei-me ainda mais do Banjokô quando, pouco depois da virada do ano, recebi carta da sinhazinha avisando que o doutor José Manoel já tinha mandado percorrer as matrizes das freguesias vizinhas, e que ela estava novamente pejada, na tentativa de ter pelo menos um filho homem. Ela disse que aquela seria a última tentativa, porque logo provavelmente já teria netos, pois já estavam pensando em arrumar noivado para a Carolina, a filha mais velha. Seu irmão era um pouco mais velho que a Carolina, e era bem possível que também já pensasse em se casar se não tivesse voltado para o Orum.
O ano de um mil oitocentos e quarenta e três foi movimentado, com toda São Sebastião se mobilizando para o casamento do D. Pedro II, e alegro-me de, naquele ano, ter sido também a pessoa que apresentou o primeiro selo postal à sinhazinha e ao doutor José Manoel, o Olho-de-Boi, lançado pelo imperador.
A cidade estava crescendo e cada vez mais cheia de gente de outras províncias e do estrangeiro, a passeio ou a trabalho, porque muitas manufaturas e oficinas artesanais estavam sendo abertas, como eu lia nos jornais. Eram manufaturas e oficinas de chapéus, tecidos, sabão, velas, rapé, calçados, fundição, móveis, carruagens ou ornamentos militares. Para trabalhar em todos esses locais precisava-se dos pretos, que, segundo comentou o Omissias depois de ouvir falar na barbearia, eram
muito
mais
engenhosos,
inteligentes
e
trabalhadores que os brancos brasileiros e portugueses.
Então, quem tinha pretos de aluguel estava ganhando
um bom dinheiro. A Ricardina, que já tinha dois, estava pensando em comprar mais alguns, e quanto mais novos, melhor e mais baratos, pois ela podia acabar de criar do jeito que queria e ainda mandar ensinar um ofício desde cedo. Além disso, falava-se bastante nas plantações de café que se estendiam até cada vez mais longe da cidade, avançando rumo à província de São Paulo.
O Omissias dizia que era bem possível que, em breve, todos os pretos do Império estivessem trabalhando nas províncias do Rio de Janeiro e de São Paulo, mesmo porque a cana-de-açúcar já quase não dava mais dinheiro algum. Em uma carta, comentei isso com a sinhazinha e ela disse ser verdade, que o que não faltava na Bahia e em outras províncias mais acima eram senhores de engenho quase ou totalmente falidos. Mas o meu negócio de venda de pano-da-costa e de musselina ia cada vez melhor, pois o Tico conseguia comprá-los por um preço muito bom diretamente dos marinheiros que aportavam na Bahia. E, para ajudar, as pretas minhas freguesas, libertas ou de ganho, também estavam ganhando mais dinheiro, o que fazia com que gastassem mais, pois adoravam novidades. Se eu quisesse, a cada seis meses poderia comprar um moleque e colocar ao ganho, mas não queria, pois nunca admiti ter escravos.
O cômodo ao lado do meu finalmente foi ocupado, o que me fez perder um pouco do medo que sentia quando me lembrava do espírito do morto e achava que ele podia estar por lá. O Piripiri garantiu que não, que ele já tinha sido despachado, mas muitas vezes acordei assustada, achando ter ouvido risos e gemidos. A Juana não poderia ser, porque desde aquela noite ela estava dormindo junto com a dona Balbiana e, se quisesse sair do cômodo para o que quer que fosse, tinha que passar por cima da velha que se gabava de ter o sono mais leve que o vento.
A minha nova vizinha era a Tomásia, uma crioula lavadeira, engomadeira e passadeira, que trabalhava para duas modistas ali na Rua do Ouvidor. Foi uma
destas modistas que indicou a Tomásia para cuidar das roupas de uma cantora italiana que fazia grande sucesso em São Sebastião, a Augusta Candiani. Até o senhor Passos e seus amigos às vezes se esqueciam da política para falar sobre ela, sobre a linda voz da moça, "mais doce que o mais doce dos açúcares".
A alegria do povo com a Rouxinol Candiani, como figurava em todos os jornais, serviu para amenizar um pouco a tristeza causada pela morte de um grande número de pessoas em um surto de febre amarela. Em todos os cantos tentava-se isolar os doentes, e as santas casas já não tinham mais vagas para receber ninguém, nem os que podiam pagar. A toda hora os sinos dobravam informando de cerimônias fúnebres e expulsando os capueiras das torres das igrejas.
Ouvíamos gritarias nas ruas e sabíamos que lá ia mais um cortejo, e fiquei penalizada com o de um anjinho que vi passar bem em frente à nossa casa.
O corpinho, coberto da cintura para baixo com um pano branco e tendo amarrado às mãos um pequeno ramo de flores, ia sobre uma bandeja de madeira carregada na cabeça de um preto, que tive a impressão de ser o pai.
Atrás do homem seguiam dezenas de pretas e de crianças, cantando, dançando e se lamentando, sacudindo no ar fitas brancas, vermelhas e amarelas. De vez em quando o homem parava e também fazia alguns passos de dança, e depois seguia adiante.
Muitos desses cortejos passavam pela nossa rua levando os corpos para a Igreja da Lapa dos Mascates, e eu também acompanhei um deles, de um parente do Piripiri. Mas, ao contrário do cortejo do anjinho, não teve nada de triste, foi uma verdadeira festa real. Digo real porque o morto era um príncipe africano, e a casa onde estava sendo velado não poderia estar mais cheia, com representantes de várias tribos que queriam prestar homenagens. Nem por um minuto sequer ficamos sem o
espocar de bombinhas, sem a dança, sem a música dos tambores e do bater de palmas, às vezes acompanhadas pelo canto de alguém que fazia elogios ao morto e o recomendava ao Orum.
Não sei se os angolas também chamam de Orum, não me recordo, mas isso não tem importância. No final da tarde, um mestre-de-cerimônias fez a despedida e abriu o cortejo pelas ruas, onde mais e mais gente ia sendo arrebatada para a festa, que só foi parar na igreja. Como já estava tarde, o padre abriu a porta muito a contragosto e não quis fazer cerimônia alguma àquela hora, até porque já estava em roupas de dormir. Ainda na porta, antes de irmos embora, o mestre-de-cerimônias puxou alguns cantos e danças de despedida, e, em louvor, até disse duas ou três cantigas em latim. A procissão então deixou o morto por lá e tomou o caminho de volta, ainda mais alegre, e a festa estava programada para prosseguir noite adentro, na casa de onde tinha saído o cortejo. Mas eu e o Piripiri preferimos ir até a praia, para ficarmos a sós.
Desgosto
Foi naquela noite que, ao voltarmos para casa, encontramos a dona Balbiana chorando na saleta, onde nos contou que o André tinha voltado. Perguntei se tinha sido por minha causa e ela respondeu que não, que provavelmente ele já tinha se esquecido daquilo tudo. O
que ele queria era tomar posse da casa, com grandes chances de conseguir. Eu já sabia como isso funcionava desde aquele problema com a Ressequida, em São Salvador, quando o doutor José Manoel explicou que os escravos não podiam ter bens, e a dona Balbiana ainda era uma escrava. Tudo o que ela possuía, ou achava possuir, na verdade pertencia à dona dela. O doutor José Manoel tinha me explicado com jeito, apesar de eu não ser mais escrava naquela época, mas o que ele disse foi que o escravo é considerado uma coisa pela qual o dono
dele pagou e que, portanto, tudo o que ele tivesse também pertenceria ao dono. Inclusive, um escravo nem ao menos se pertencia. Não era dono das suas vontades, da sua vida, de nada, quanto mais de bens. Era por isso que os filhos das escravas também nasciam escravos, pertencentes aos donos delas, como foi o caso do seu irmão.
É claro que havia acordos e exceções, como no caso dos escravos que possuíam escravos, e alguns que até continuaram no direito de possuir outros bens, mas tudo isso era de combinação com o dono, e tinha que ser muito bem documentado, para que não ficasse palavra contra palavra. Mas depois que foi feita a lei, naquela época em que queriam expulsar do Brasil todos os africanos livres, nenhum bem poderia ser colocado no nome do escravo. Então, a casa da dona Balbiana deveria, por lei, ter passado para a corte, como tinha acontecido com o dinheiro deixado em nome do Juan, já que ele não tinha herdeiros. Tendo a dona Balbiana tomado posse dela, na verdade a casa pertencia à sua dona, e não a ela.
Sabendo de toda a situação, o André tinha se juntado a um branco espanhol, de caráter tão vil quanto o dele, que estava disposto a se declarar herdeiro do Juan, um sobrinho chegado ao Brasil depois da morte dele. É claro que o espanhol ia ganhar algum dinheiro com aquilo, não soubemos como tinha sido feito o acordo. Sugeri à dona Balbiana que procurasse um advogado ou que desse um jeito de comprar a carta logo e tentasse pôr a casa em seu próprio nome, já que era crioula, ou no nome de alguém de confiança. Mas ela disse que não conhecia nenhum advogado nem confiava neles, e nem tinha dinheiro suficiente para a carta.
Então nos lembramos do senhor Passos e dos outros liberais que, sendo contra o governo e a favor de mudanças no sistema de escravidão, provavelmente
poderiam ajudar a encontrar uma saída. O André tinha dado alguns dias para que ela desocupasse a casa ou, se preferisse, poderia continuar trabalhando lá, mas como empregada e em troca de moradia e comida, sem receber salário. Mas o pior de tudo foi que ele disse isso de um jeito que pareceu estar fazendo um grande favor a ela. Disse ainda que, se as coisas não fossem resolvidas do jeito dele, o governo tomaria a casa e poria a dona Balbiana na rua sem direito a nada, nem aos móveis.
No dia seguinte, quando ainda pensávamos no que fazer e a quem pedir ajuda, percebi que não era só a dona Balbiana que não confiava em advogados e na justiça. O
Piripiri chegou em casa dizendo que ela não precisava mais se preocupar, que alguns capueiras tinham dado um jeito no André e no tal espanhol. Ela agradeceu e não disse mais uma palavra, nem perguntou como, nem onde, nem nada.
O silêncio também foi a atitude do Piripiri quando mais tarde pedi que me contasse mais detalhes e ele apenas fez um sinal com as mãos, querendo dizer que aquilo já era passado. Dias depois, ele apareceu no canto e disse à Benta que precisava se consultar com ela, e quando pedi para ir junto ele não deixou. Eu já sabia que depois de matar alguém, era preciso que algum quimbanda fizesse um trabalho pela alma do morto, como tinha sido feito para o Pablo e para o homem que ele matou, e foi muito fácil relacionar uma coisa à outra. Só sinto muita pena de não ter me importado mais com isso. Todos na casa tinham sido alertados pelo André de que logo passariam a pagar o aluguel para ele, mas ninguém perguntou nada quando ele sumiu outra vez, e para sempre.
O assunto também foi rapidamente esquecido com a ajuda da Tomásia, que a cada dia tinha uma história ainda mais interessante sobre a cantarina italiana, a
Candiani. Ela se apresentava no Teatro São Pedro de Alcântara, bem próximo à nossa casa, e a Tomásia ficava um tempo enorme por lá, ajeitando as roupas da apresentação e observando. Eram histórias dos absurdos que os homens faziam para conquistá-la, ou para receberem pelo menos um olhar que fosse, e de como a italianinha
estava
se
aproveitando
disso,
da
generosidade dos que tinham muito a oferecer. A Tomásia costumava passar pelo canto no fim da tarde, quando fazia entregas das roupas de alguns fregueses, e foi em uma dessas tardes que, junto com ela, conheci o doutor Joaquim. Ele tinha vinte e poucos anos e era estudante de Medicina, mas, na verdade, gostava mesmo era de escrever. !
O doutor Joaquim
Estávamos tão entretidas com as histórias da Tomásia que nem demos por ele, parado em meio aos tabuleiros, todo ouvidos na nossa conversa. Foi a Benta quem perguntou se o sinhozinho queria alguma coisa, e ele respondeu que o que mais queria na vida era conhecer a cantarina, a Candiani, e então começou a fazer muitas perguntas à Tomásia, que não cabia em si de tanta importância. O jovem doutor quis saber onde ela morava, e quando a Tomásia respondeu que era na Rua do Ouvidor, ele comentou que só podia ser mesmo obra da Divina Providência, que os santos estavam colaborando para que ele chegasse mais perto da sua musa, pois naquele exato momento estava de passagem para a Rua do Ouvidor, mais precisamente para o Jornal do Comércio, onde ia deixar a amostra de um romance que estava acabando de escrever.
Ele parecia simpático, e resolvi perguntar se queria publicar o livro no jornal e ele respondeu que sim, que o jornal precisava começar a publicar histórias escritas por brasileiros. Eu comentei que acompanhava todos os folhetins, e depois do espanto inicial ele quis saber a
minha opinião sobre eles. Na verdade, as opiniões não eram bem minhas, porque eu prestava atenção em todas as discussões sobre os folhetins que ocorriam na livraria do senhor Mongie. Não que me achasse incapaz de ter boas opiniões, mas com certeza eles sabiam falar muito melhor das tais histórias, principalmente das que já tinham sido publicadas em francês.
Eu prestava atenção no que eles diziam e, na maioria das vezes, relia parte da história para saber se concordava ou não. Sobre as coisas que eu não sabia, como, por exemplo, os lugares que as histórias citavam, já tinha intimidade suficiente para perguntar ao senhor Mongie, que pacientemente me explicava, muitas vezes usando livros com mapas ou pinturas. O doutor Joaquim ficou muito impressionado com o que eu disse e resolveu nos acompanhar, já que faríamos o mesmo trajeto, e foi dividindo a atenção entre a curiosidade a respeito da cantarina e a vontade de me falar do seu livro.
Quando o doutor Joaquim soube que morávamos no mesmo lugar para o qual o senhor Passos costumava convidá-lo a fim de participar de momentos de confraternização com os amigos liberais, disse que daquele dia em diante não recusaria o convite, mesmo não compartilhando de muitas idéias. E assim foi, com ele chegando bem mais cedo todos os sábados, e caso a Tomásia não estivesse em casa, pedia a minha opinião sobre o livro que também estava sendo lido pelo responsável do jornal.
Sabe de uma coisa da qual muito me orgulho? De ter dado o nome à mocinha do livro, que ele chamava apenas de "moreninha", por não ter conseguido ainda encontrar um nome que combinasse com ela. Não sei o motivo, mas enquanto ele lia para mim os trechos que descreviam a moça, eu a imaginava como sendo a Carolina, a filha mais velha da sinhazinha, já que naquela época as duas tinham a mesma idade. E assim
ficou sendo, a moreninha que conquistou o coração do mocinho que se fazia de durão ficou sendo Carolina.
É uma história romântica e bonita, que tanto a Carolina como a sinhazinha poderiam ter vivido, ainda mais por se passar quase toda em uma ilha que eu logo imaginei sendo a Ilha de Itaparica. Mas não vou falar mais nada da história, vou deixar que você mesmo leia no livro que me foi dado pelo próprio doutor Joaquim, de uma edição que ele mandou reproduzir apenas para poucos amigos, assim que todo o folhetim foi publicado no Jornal do Comércio. Isso só aconteceu mais de um ano depois daquele nosso primeiro encontro, mas já digo agora para não me esquecer, pois encontrará o livro com a assinatura do autor entre os tesouros do baú que levo para você. Eu gostaria que soubesse da minha parte nele, que, além de ter uma história, também faz parte de uma outra, a minha. Ou a nossa, porque foi por sua causa que eu tinha ido parar em São Sebastião do Rio de Janeiro e conhecido o doutor Joaquim.
Notícias
Quando eu já nem mais esperava, chegou a resposta à carta que eu tinha escrito para a sinhá Romana perguntando sobre os sonhos com a cobra. Eram poucas linhas cheias de erros, em que ela dizia para eu tentar me lembrar se já tinha sonhado com cobras antes, e o que acontecia logo em seguida. Só assim eu teria mais chances de encontrar a resposta que procurava porque, de longe ela não tinha condições de ajudar. Naquela mesma época eu ainda estava lendo a Bíblia, e qual não foi a minha surpresa quando abri uma página e nela estava escrito: Dã.
O vodum do Daomé, o vodum cultuado pela minha avó ou o nome de um chefe que fundou a tribo de Dã, onde morava um povo que fugiu do Egito guiado por um deus chamado Javé. Essas duas coisas fizeram com que os
sonhos voltassem, e comecei a aplicar alguns conhecimentos que tinha aprendido com a sinhá Romana, mesmo incompletos, pois dos seis anos de estudo necessários para me tornar uma vodúnsi completa, eu tinha feito menos de três. Um dia, passeando pelo outro lado da Rua do Ouvidor, imaginei ter visto o desenho da cobra na parede de uma casa, e imediatamente procurei saber o que funcionava lá. Pedi ajuda ao Omissias, que descobriu que tinha sido feito o pedido de licença para funcionar ali uma casa de consignação e de leilões para venda de escravos, o que interpretei como um sinal para que eu não desistisse.
Pouco tempo depois disso, chegou carta da sinhazinha dando a notícia de que a Carolina estava de partida para Portugal, para estudar, hospedando-se na casa de parentes do doutor José Manoel. A menina tinha dezessete anos e não queria saber de casamento, pelo menos por enquanto, mas a Mariana, que tinha quinze, não queria nem ir para o convento, doida para que lhe arrumassem um noivo. Eu e a sinhazinha trocávamos longas cartas, que às vezes eu demorava duas ou três noites para escrever, mas era muito bom assim.
Confiávamos tanto uma na outra que pôr as idéias no papel era como conversar na frente de um espelho, só com a própria companhia. Pelo menos para mim era, e acredito que para ela também, pois muitos segredos, temores, erros e acertos foram revelados sem pudor algum, durante mais de trinta anos, em pelo menos uma carta por mês.
Quando contei para ela que tinha vontade de começar a escrever a história que estava naqueles papéis do Kuanza, ela nunca deixou de cobrar até que eu o fizesse, algum tempo depois. Mas eu tinha pensado em começar a escrever naquele momento, em São Sebastião do Rio de Janeiro, para, quem sabe, aproveitar a ajuda do doutor Joaquim. Não foi possível, mas sei que foi tudo no tempo certo, no lugar certo, e que depois de escrita ela
não ficou em minhas mãos nem um dia a mais do que o necessário.
Tenho pena de não ter mandado também para o Kuanza, que eu não sabia se ainda estava vivo, mas era muita coisa para ser copiada. Além do mais, o que ele queria, atendendo a um pedido do pai, era que a história seguisse o seu destino, e isso foi cumprido. Páginas e páginas com tudo o que eu me lembrava de ter lido e ouvido, porque na pressa de voltar a São Salvador, depois da terrível notícia dada pelo Tico, eu tinha deixado todos os papéis na casa da sinhá Romana, como você pode perceber, acho que posso confiar na memória.
Diversões No ano de um mil oitocentos e quarenta e quatro, com o sucesso da companhia de ópera italiana da cantarina Candiani, muitos outros artistas dos mais diversos locais do estrangeiro fizeram temporadas em São Sebastião. O
aparecimento de outra companhia de ópera da Itália, com outra cantarina, foi o que bastou para o doutor Joaquim mudar de paixão e a cidade se dividir entre os fãs da Candiani e os da que tinha acabado de chegar, chamada alguma coisa Delmastro. Lembro-me do nome da Augusta Candiani por ter sido a primeira, e de que o apelido da outra era Delmastro porque começou uma verdadeira guerra entre os candianistas e os delmastristas, como eles se chamavam.
Os primeiros diziam que a voz da Candiani não tinha rival, e os outros diziam que a interpretação e a técnica da Delmastro eram muito superiores, e as duas se revezavam em temporadas no mesmo teatro, sob os aplausos dos fãs e as vaias dos desafetos, que mal deixavam que as moças chegassem ao final das apresentações. Muitas vezes fui para a porta do teatro acompanhar as manifestações na chegada ou na saída das seges das prima-donas e da sociedade, que lotava
todos os espetáculos, para os quais a muito custo se conseguiam ingressos com menos de um mês de antecedência.
Os que não eram tão ricos passavam necessidade em outras coisas e economizavam muito apenas para estarem lá dentro participando da torcida contra ou a favor, divididas de um lado e de outro da platéia. Acho que ninguém prestava muita atenção às óperas, e mesmo se prestasse, seriam poucas as pessoas que saberiam dizer com conhecimento de causa qual das duas moças era de fato a melhor. Todos os dias a Tomásia aparecia com novidades, desde gente que tinha desmaiado de emoção até finos cavalheiros que, no calor do momento, chegavam às vias de fato com os insultos e rolavam sobre as cadeiras e os tapetes, quando não despencavam dos camarotes. Tudo isso dava para se ouvir a uma boa distância do São Pedro, e também do lado de fora os candianistas e os delmastristas se dividiam de um lado e do outro, tendo a porta como mediadora.
Como não tinham dinheiro para entrar e saber o que acontecia lá dentro, acompanhavam atentos a reação da platéia, ora atacando, ora defendendo. Quem gostou muito desta briga foram a florista madame Finot e os franceses que vendiam os muitos presentes enviados às cantarinas, porque até nisso os fãs competiam, buscando o título de torcida mais devotada e mais generosa. A dona Balbiana queria flores para enfeitar a casa em uma saleta encomendada pelo senhor Passos para comemorar a volta dos liberais ao governo e não conseguiu, pois a florista disse que todo o estoque já estava vendido, e também tudo o que seria produzido nos dois meses seguintes.
Em meio à temporada de ópera, outra novidade levou grande movimento à Rua do Ouvidor, mas desta eu passei longe. Era o Teatro de Fantasmagoria, ou de
Lanterna Mágica, do qual ouvi contar e não achei a menor graça, pois mexia com coisas que deveriam ser sagradas, os espíritos dos mortos. O doutor Joaquim, novidadeiro como só ele, foi assistir e também não gostou, por causa do pânico que causava na platéia, que, uma vez lá dentro e em meio à apresentação, ficava apavorada e queria sair a todo custo e ao mesmo tempo, causando grande rebuliço.
Ele disse que tudo não devia passar de ilusão, embora não soubesse como. Deve ter descoberto mais tarde, porque era um moço curioso e muito inteligente, que também ficou maravilhado ao saber que eu e a Tomásia éramos companheiras de casa do Omissias, em cuja loja ele ia cortar o cabelo de vez em quando, apenas para saber de histórias da Rua do Ouvidor, sobre a qual pretendia escrever um livro. As pessoas que iam assistir à fantasmagoria se sentavam em um quarto escuro que era tomado por muita fumaça, anunciando a chegada dos espíritos que ficavam contra uma das paredes, bem no meio de uma luz, e que até mesmo podiam voar de um lado para outro.
Os donos do teatro afirmavam que podiam fazer aparecer o espírito de qualquer morto, desde que tivessem um desenho ou uma pintura dele. Algumas pessoas levavam as imagens de seus mortos e logo depois os espíritos deles estavam lá, andando pela parede como se fossem vivos. Eu achava aquele assunto sério e evitava até mesmo passar em frente ao teatro.
Achei bom quando foi fechado, depois de se espalhar pela cidade a notícia de que a rainha D. Maria, já morta havia bons anos e avó do imperador D. Pedro II, tinha aparecido em uma sessão. Algumas modinhas e lundus foram compostos sobre esse assunto e suas letras espalhadas por postes e muros de toda a província, e em menos de uma semana a tal Fantasmagoria tinha ido embora dali, para alívio de todos nós.
Uma pista
Sempre que chegava carta da Bahia, eu ficava olhando para ela durante um bom tempo, retardando o momento de abrir e aproveitando um pouco mais a idéia de que ali poderia estar o seu nome e a morada da pessoa para quem você tinha sido vendido. Mas as cartas só levavam outro tipo de boa notícia, como a do noivado da Mariana, a segunda filha da sinhazinha, que estava marcado para o fim do ano. Por sorte eu não sabia quão importante seria a festa, pois não sei como teria sobrevivido a todos aqueles meses, porque o ano se arrastou sem grandes novidades, sem progresso algum.
Muitas outras cartas foram trocadas, carregando mais desabafos do que notícias, e principalmente as minhas descrições sobre São Sebastião, que a sinhazinha adorava ler. Eu sempre tive vontade de reler aqueles escritos, mas nunca tive coragem de pedir às filhas dela, pois podia ser que a sinhazinha nem os guardasse, com medo de que alguém pudesse saber das nossas conversas, algumas muito particulares. Naquele ano, também contei para ela sobre o nascimento do primeiro filho do imperador, ocasião em que quase ficamos surdos com o repicar dos sinos, e houve festa durante três dias para comemorar a chegada do herdeiro do trono.
Também transcrevi para a sinhazinha o folhetim do conde de Montecristo, e ficamos extremamente decepcionadas quando a publicação foi interrompida porque parte da história se perdeu em um navio saído da França. A sinhazinha ficou muito contente com o livro da moreninha que enviei para ela, e concordou que a mocinha se parecia muito com a Carolina, que também ganhou um exemplar assinado pelo doutor Joaquim. Ele estava feliz com o sucesso do livro e a publicação do segundo, que tem o título de O Moço Loiro, e uma personagem chamada Tomásia.
Uma homenagem, porque ele usou algumas histórias contadas por ela sobre a guerra e as apresentações das cantarinas, e também se inspirou nos saraus que a Tomásia presenciou nos salões da Candiani e de outras damas que ajudava a vestir. Eu e o Piripiri continuávamos juntos, às vezes nos deitando na praia, às vezes no meu cômodo, às escondidas, mas eu achava que todos já sabiam, pois sempre davam um jeito de nos deixar sozinhos. Ele tinha falado em alugar uma casa, mas não tive coragem de perguntar se era para morar sozinho ou comigo, e a conversa não foi adiante. Eu tinha a sensação de que a nossa história era passageira, apesar de me fazer bem, e acredito que também a ele.
Foi entre o Natal e o início do ano que as coisas começaram a acontecer, todas de uma vez. Primeiro, sonhei com a Taiwo caminhando em uma praia que reconheci ser na Ilha de Itaparica, e ela estava sendo seguida por uma cobra que levava um papel entre as presas. A partir daquele sonho, tive certeza de que era mesmo a sua certidão, e que ela só poderia estar na ilha.
No mesmo dia escrevi para a sinhazinha, pedindo que ela avisasse o doutor José Manoel para procurar nas igrejas de lá.
Três dias depois chegou carta dela, escrita antes de receber a minha. Daquela vez eu abri imediatamente, porque sabia que estava portando boas notícias, as que eu esperava havia anos e que tinham sido descobertas de uma maneira que ninguém poderia imaginar. Para o noivado da Mariana, que foi uma grande festa, tinham sido convidados todos os patrícios, mesmo os que moravam fora de São Salvador. Era a primeira filha a ficar noiva e eles queriam que a data fosse bem comemorada.
E foi um desses patrícios, um que tinha se mudado para o Recôncavo havia algum tempo, que perguntou se o doutor José Manoel tinha notícias do Alberto. Diante da
negativa, o homem disse que também não, desde o dia em que o Alberto tinha procurado por ele levando um mulatinho pela mão e pedindo o saveiro emprestado para providenciar um batizado na Ilha de Itaparica. Só podia ser você, pois as datas se encaixavam perfeitamente, e como o homem tinha se mudado logo em seguida, para nunca mais ter contato com o doutor José Manoel, não tinha ficado sabendo do acontecido e nem das buscas.
A carta da sinhazinha foi escrita ainda na noite da festa, após a saída dos convidados, e no dia seguinte o doutor José Manoel iria até a ilha, onde havia poucas igrejas.
Mandei a resposta imediatamente, uma carta comovida e agradecida por tudo o que a sinhazinha e a família dela representavam na minha vida. Acho que ninguém entendia a nossa amizade, e às vezes nem mesmo eu, quando me recordava dos nossos primeiros dias na fazenda.
Quanta ansiedade e alegria, e quantas cartas trocadas até que, em meados de fevereiro, finalmente recebi não uma simples carta, mas uma caixinha de presente com a sua certidão de nascimento, o nome e a morada do negociante que tinha comprado você das mãos do seu pai, o nome do navio em que você tinha embarcado para São Sebastião e a data, mais o nome e a morada de três comerciantes que poderiam ter recebido você. Os três comerciantes tinham arrematado o lote para dividi-lo somente quando ele chegasse a São Sebastião, de acordo com o valor de cada peça.
Hoje percebo a importância que dei a um pedaço de papel pelo qual nunca tinha me interessado. Um papel que, aliás, eu tinha recusado quando me neguei a ser batizada, antes de descer na Ilha dos Frades. Não pelo papel em si, mas pelo que ele significava, que era trocar meu nome e, de certa forma, aceitar a religião dos brancos. E lá estava o seu nome, que para mim sempre
seria e sempre será Omotunde Adeleke Danbiran, o nome com o qual eu te apresentei aos seus parentes no sítio do Babalaô Gumfiditimi.
A primeira morada era de um mercado em Santana, a segunda, de uma casa de secos e molhados em São José, e a terceira, de uma loja de velas ali mesmo na Candelária, quina com a Rua do Sabão. Quantas vezes eu já tinha passado por aquela loja sem ter me interessado em entrar, porque nunca me pareceu um lugar que pudesse vender escravos. Foi a primeira que procurei, não só por ser mais perto, mas também por não ter pernas para ir até as outras que, por sinal, nem ficavam tão longe. Durante anos eu tinha esperado por aquele momento, e quando ele finalmente chegou, fiquei com as pernas bambas de medo do que poderia descobrir. Entrei com muito cuidado, como se de uma hora para outra fosse te encontrar tão perto de mim, depois de tanta procura.
Tão perto
Fui atendida com muita má vontade por um caixeiro magro e alto, enfiado em roupas nas quais provavelmente caberiam dois ou três dele. Demorou muito para que me desse atenção e entendesse o que eu estava procurando, depois de ter tentado me despachar dizendo que havia mais de três anos que não comerciavam escravos, somente velas. Mas eu insisti, e quando disse que podia pagar pela informação, ele se interessou, olhou com mais atenção os papéis que eu mostrava, com as datas e os nomes, e ficou de ver o que conseguiria com o tio, que era o dono da loja.
Disse que talvez ainda tivessem os livros de controle onde poderia encontrar alguma anotação feita mais de cinco anos antes. Fiquei de voltar em dois dias, tempo pedido pelo caixeiro, que se vendeu por bem menos do que eu estava disposta a pagar por qualquer informação que me levasse a você. Nesse meio tempo, procurei nas outras duas moradas, mas algo me dizia que seria mesmo a da Rua do Sabão, fato confirmado quando, mais organizados e ainda ativos na venda de pretos, os registros de Santana e São José foram logo examinados, descartando a sua passagem por lá. No dia combinado, eu já estava na porta da loja de velas quando o caixeiro chegou para abri-la, carregando alguns livros debaixo do braço e perguntando se eu estava com o dinheiro. Era a confirmação que eu precisava de que ele tinha encontrado o seu rastro.
Não sei o que senti naquela hora, pois, além da felicidade de uma missão quase cumprida, havia o medo de estar sendo enganada por ele, que poderia querer apenas o dinheiro. E também medo de que ele tivesse apenas o registro de entrada, mas não o de saída, que poderia ter acontecido em troca de mercadorias, pagamento de dívidas ou algo assim. Com o livro fechado sobre o balcão, o caixeiro queria que eu desse mais dinheiro, dizendo que o trabalho tinha sido grande.
Mas eu sabia que não era verdade, depois de todas as informações que eu tinha passado.
Com o nome do patacho e a data da saída de São Salvador, a única coisa que ele teve que fazer foi calcular o tempo da viagem e procurar pelo seu nome.
Arrisquei dizendo que só daria mais dinheiro se ele me desse mais informações do que tinha prometido, que eram o nome e a morada da pessoa para quem você tinha sido vendido, o que acabou funcionando.
Contrariado, ele abriu o livro longe das minhas vistas, sentado a uma secretária no fundo da loja, e passou algumas informações para um pedaço de papel que me entregou dobrado, depois de contar o dinheiro que eu tinha deixado no balcão.
Não tive coragem de abrir o papel ali, no meio da rua, e fiz o caminho mais longo até chegar em casa, enquanto pensava em todas as etapas daquela busca que parecia estar chegando ao fim. Quando entrei, a dona Balbiana, o Mongo, a Juana, o Maboke e o Omissias estavam à minha espera na cozinha. Durante os dois dias anteriores, não se tinha falado de outro assunto naquela casa, todos felizes com a notícia. Fiquei decepcionada por não ter visto o Piripiri entre eles, porque ele ainda estava em casa quando eu saí.
Antes que eu desdobrasse o papel, o Maboke tirou uma erva de trás da orelha e passou sobre ele, dizendo que estava certo, que o que estava escrito ali realmente me levaria até você, mas ainda haveria um longo caminho a percorrer. Quando o abri, acho que todos perceberam a grande decepção nos meus olhos ao ler que você tinha passado apenas quinze dias em São Sebastião do Rio de Janeiro, na própria loja de velas, e depois tinha sido vendido para um comerciante de Santos, na província de São Paulo. Todos me disseram para não desanimar, pois, estando no rumo certo, era apenas uma questão de tempo para chegar até você. Disseram também que Santos era uma cidade menor que São Sebastião, onde seria até mais fácil procurar. Tentei acreditar nisso, mas, à noite, chorei muito nos braços do Piripiri, quando ele subiu às escondidas para se deitar comigo. Acho que ele também ficou triste com a notícia e perguntou quando eu pretendia partir. Para falar a verdade, eu não tinha pensado na partida, ou melhor, ainda não tinha pensado no que deixaria para trás ao partir, e com certeza a falta do Piripiri seria das mais sentidas. Não havia dúvidas de que eu deveria deixar a cidade o mais rápido possível, mas preferia ter ficado. Preferia ter encontrado você em São Sebastião, ter alugado uma casa onde talvez até convidássemos o Piripiri para morar, se você se desse bem com ele.
Despedidas
Mesmo contrariado, foi o Piripiri quem providenciou a
minha partida, pois, trabalhando nos armazéns da Alfândega, ele facilmente conseguiu informações sobre navios que partiriam para Santos. Havia um que poderia transportar passageiros dentro de dois dias e outro dentro de dez dias, o que me deixou bastante dividida, pois eu tanto queria ir logo como queria ficar. A dona Balbiana começava a chorar assim que me via, dizendo que ia sentir muito a minha falta, como eu também sentiria não somente a dela, mas de todos que moravam naquela casa, até mesmo da Tomásia, com quem tinha convivido menos tempo.
Eles conseguiram me convencer de que oito dias a mais não fariam diferença, e foi com um pouco de remorso que concordei, mesmo porque precisava de algum tempo para tomar providências, como vender o estoque das mercadorias e cancelar o envio de outras, que o Tico fazia quase semanalmente. Resolvido isso, aproveitei os últimos dias na cidade para me despedir dos amigos que tinha feito, como as vendedoras do canto, e para me divertir um pouco, aceitando todos os convites para festas, sempre acompanhada do Piripiri. Só nos divertíamos quando estávamos na companhia de outras pessoas ou em ambientes alegres, porque quando estávamos apenas os dois e pensávamos que em breve teríamos que nos separar, mesmo que fosse por pouco tempo, a tristeza era maior que qualquer outra coisa. Eu pretendia voltar assim que te encontrasse, e ele me fez prometer isso várias vezes.
O Piripiri desapareceu na hora da partida. Nos três últimos dias, tínhamos ficado juntos o máximo de tempo possível, e ele nem disfarçou quando subiu para o meu cômodo na última noite. Eu também não me importei em desobedecer à dona Balbiana, talvez porque já soubesse que não voltaria. Apenas dormimos abraçados, lembrando de coisas engraçadas que tinham acontecido nas
últimas
festas
que
tínhamos
freqüentado, principalmente a de coroação de rei e rainha do Congo e
o desfile do entrudo, de onde voltamos imundos de terra, água e farinha que os foliões jogavam em todas as pessoas que encontravam pela frente.
No entrudo, para se garantir em caso de confusão, o Piripiri foi usando o lenço que tinha ganhado do Mestre Mbanji e que impunha grande respeito entre os capueiras que se divertiam arrumando briga. Não era uma festa tranqüila, pois de uma hora para outra alguém podia achar que um folião tinha se excedido na brincadeira e partir para a briga, mas nos divertimos muito com uma turma da Folia do Zé Pereira, que saiu pelas ruas tocando bombos e tambores, seguida por um grande número de pessoas. A coroação também foi bonita, com a presença de comitivas de várias tribos de África, todas muito bem vestidas e com ricos presentes para os novos monarcas.
O rei e a rainha também foram abençoados por um padre, que nos recebeu na porta da igreja, jogou água benta nas duas coroas e disse que os soberanos estavam consagrados com o poder de Deus e de seus compatriotas. Boa mesmo foi a festa que houve depois, com muita comida, bebida e a apresentação de dois feiticeiros que tinham até torcida na disputa de um jogo chamado quimbumbia. Foi com esse jogo que mais me surpreendi, mas o Piripiri disse que os parentes dele sabiam de coisas que, se não fossem vistas, ninguém acreditaria que eram de verdade.
Foram formados dois grupos, cada qual com seu feiticeiro, sua torcida e seus tambores, fazendo duas grandes rodas no meio do terreiro. No centro de cada roda, os feiticeiros plantaram uma muda de bananeira, as duas bem pequenas e do mesmo tamanho, e começaram a dançar e a cantar em volta delas, cada um com a sua. Eles bebiam cachaça e jogavam um pouco para a bananeira e na terra em volta dela, faziam evoluções, cantavam, se ajoelhavam, deitavam no chão e
conversavam com a terra.
Ficaram naquilo mais de duas horas, enquanto o povo se divertia ao redor e corria de uma roda para outra, para ver o que estava acontecendo. Os feiticeiros não se cansavam, e o Piripiri disse que eles seriam capazes de permanecer naquele jogo durante muitos dias, até que um deles saísse vencedor. Eu não estava acreditando muito no que ele disse que aconteceria, mas, diante dos olhos de todos, um dos feiticeiros finalmente conseguiu fazer a bananeira crescer um pouco e dar frutos, não em cachos, como era de costume, mas uma banana por vez, uma atrás da outra.
Ele foi aclamado vencedor e toda a sua torcida pôde comer um pedacinho de banana que, segundo diziam, continha muitos poderes. Como eu e Piripiri não estávamos torcendo para ninguém, não comemos nada, mesmo porque senti um pouco de medo daquela magia, não sei se teria coragem de experimentar.
A partida foi na manhã seguinte a essa festa, e o Piripiri deixou o meu cômodo dizendo que ia buscar um presente que queria que eu levasse na viagem, para dar sorte e para eu não me esquecer dele. As minhas coisas já estavam arrumadas, o dinheiro costurado no fundo do baú e no avesso da roupa, e fiquei um bom tempo sozinha no cômodo, com o coração batendo pequenininho por deixar aquelas pessoas de quem tanto gostava e aquela cidade que, de certa forma, tinha sido boa para mim.
Também estava temerosa pelo que estava por vir, em outra cidade, em outra província, com outras pessoas.
Quando achei que o Piripiri estava demorando e eu poderia me atrasar, desci atrás dele. Quase todos os outros estavam na cozinha para se despedirem de mim, e não preciso nem falar que foi uma grande choradeira.
Aquela amizade era o mais perto de uma família que
muitos podiam chegar. O Buremo, a Rosário e o Esteban também foram se despedir, sendo que ela já estava completamente curada, depois do tratamento com as ervas do Maboke, que, na saída, me deu um gris-gris de ervas, para proteção. Quase todos me deram presentes, desde um dente de tigre de África até um farnel para ser comido durante a viagem.
Fiquei decepcionada quando corri os olhos pela cozinha e não vi o Piripiri, mas também não quis perguntar por ele, pois tinha medo que as pessoas pensassem que tínhamos discutido ou algo assim, ou então que ele não estivesse se importando com a minha partida. Adiei a saída o máximo que pude na esperança de ele ainda aparecer, até que ouvi o chamado do carregador contratado para levar o baú, um dos que trabalhavam na cooperativa de carregadores do cais, para evitar o problema que tive na chegada.
Entendi a atitude do Piripiri quando, ao sair da casa, vi o lenço encarnado de capueira preso à maçaneta da porta, e concordei com ele que foi melhor daquele jeito. A princípio fiquei com pena de pegar o lenço para mim, por saber o quanto Piripiri se orgulhava dele, o quanto tinha treinado para conseguir colocá-lo no pescoço. Mas também seria uma grande desfeita não pegar, já que ele tinha dito que queria me dar um presente, e nenhum outro seria mais caro e mais significativo do que aquele.
Peguei o lenço e deixei no mesmo lugar uma bolsinha de tecido brocado que me acompanhava havia anos, uma das primeiras compradas com o dinheiro da venda de cookies, e que eu também já tinha mostrado para o Piripiri como um dos meus pertences de estimação.