Um Defeito de Cor
Capítulo oito
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.
As comidas são colocadas em potes de barro sobre uma esteira coberta com uma toalha branca, no chão, em volta da qual ficam dançando as vodúnsis que recebem os voduns Danbirá, que vão chegando, a família completa. Entram então sete cachorros e se servem à vontade, e só depois que estão satisfeitos é que a mesa pode ser tirada. Os voduns seguem para o salão, onde mais comida é servida e onde cantam e dançam por muitas horas. Acho que os brancos também festejam desse jeito o dia de São Lázaro, com banquetes oferecidos por pessoas que querem pagar promessas, que se curaram de doenças de pele ou algo assim. O
Kuanza me contou que entre os angolas há pouca diferença, mas a maior semelhança é quanto ao número
sete, e ficamos pensando nisso por um bom tempo. Os sete cachorros, os sete sóis, as sete luas e os sete bispos daquela história do Padre Voador.
Para sempre
O meu ritual de iniciação foi um dos momentos mais felizes que já vivi, quando finalmente pude receber meu vodum, que me disse coisas lindas por intermédio de uma das hunjaü da Roça. À noite, sonhei com a minha avó e a minha mãe, quando ainda tive notícia de que a Esméria e o Sebastião estavam felizes. Escrevi uma carta emocionada para a Claudina, que respondeu dizendo que queria me dar um abraço e perguntando se teria algum problema se vocês fossem me visitar. Não poderia haver melhor notícia, e eu até mesmo já tinha arrumado uma casa para vocês ficarem, perto da Roça, quando, dias depois, chegou outra carta dela contando que estava pejada e de repouso, pois não se sentia muito bem. A Claudina era mais velha que eu, e fiquei preocupada, pois sabia que era perigoso ter o primeiro filho depois de certa idade. Combinamos então que eu faria a viagem, mas sempre que estava ficando quase tudo certo, alguma coisa me impedia de ir. A lguma coisa não; hoje sei que foi o próprio destino, pois, se tivesse ido, saberia o que de verdade estava acontecendo com ela e provavelmente teria evitado o que aconteceu com você. Não sei se era o meu destino ou o seu que tinha que se cumprir, ou os dois juntos, mas só fiquei a par da gravidade da situação da Claudina quando já não tinha mais jeito. Ela estava proibida de se levantar, botando sangue, e assim ficou por mais de quatro meses, quando perdeu a criança, um menino, e morreu dias depois. Durante todo aquele tempo ela não me contou nada disso nas cartas que trocávamos, dizendo que já estava boa e cada dia mais feliz, por ela e pelo Tico. Por certo não queria me preocupar ou realmente acreditava que não era chegada a hora de
partir, por gostar tanto de viver. A Claudina foi uma das pessoas mais alegres que já conheci, e sempre que me lembro dela é por meio das imagens que eu fazia sobre as histórias dos batuques que ela freqüentava e dos homens com quem se deitava, quando ainda morávamos na loja do alufá Ali.
É ainda assim que a vejo hoje, dançando e sorrindo, mesmo porque só fui tomar consciência da morte dela algum tempo depois, já em São Sebastião do Rio de Janeiro. Não tive tempo e nem expediente para honrar a minha amiga e para consolar o Tico em sua tristeza, quando ele apareceu em Cachoeira com as notícias da morte dela e do seu desaparecimento.
Na verdade, tudo que eu queria era ouvir de você esta história, porque sei muito pouco do que aconteceu, mesmo depois de tantos anos tentando juntar um pedaço aqui e outro ali. Nem digo repará-la, porque sei que não é possível, mas nunca me perdoei por tê-la deixado acontecer. Sei da minha negligência, sei como foram tristes todos os momentos que deveriam ter sido alegres e como foi difícil disfarçar essa tristeza diante das pessoas que estavam próximas a mim, para não magoá-las. Digo isso não para que você me perdoe, mas para que pelo menos tente entender o meu medo de já ser tarde demais.
Para mim eu sei que é, e gostaria que ainda não fosse para você. Quando o Tico começou a falar sobre a Claudina, sobre como ela cuidava de você, mesmo com todas as atribulações para tentar segurar aquela criança na barriga, achei que ele também fosse me recriminar por não estar presente, como tinha feito o Hilário. E antes tivesse sido isso mesmo, apenas uma recriminação pela minha ausência em um momento tão difícil, e não a participação de algo definitivo. O funeral já tinha acontecido havia nove dias, e quando perguntei por que não tinham mandado me avisar, ele respondeu que era
porque ainda tinham esperanças de saber do seu paradeiro. Desde a morte da Claudina, ninguém mais tinha visto você ou o seu pai.
A Malena foi a última pessoa a ter contato com vocês, quando chegaram as mulheres encarregadas de preparar o corpo da Claudina. Ela viu quando seu pai te pegou pelo braço, pôs o chapéu na cabeça e saíram os dois, o que para ela foi um alívio, pois o ambiente estava muito triste para uma criança. O seu pai continuava morando com vocês, apesar de todos os problemas que vinha causando ao Tico, como fiquei sabendo mais tarde.
Mas a Claudina o defendia, dizendo que ele era bom para você, que precisava dele por perto. É doloroso falar dessas coisas, dói demais a lembrança daqueles dias, pois voltei imediatamente para a capital, aproveitando a companhia do Tico. De repente, tudo o mais perdeu a importância, os muçurumins, os federalistas, a Cemiterada, a fuga para Itaparica, a viagem para o Maranhão, a Roça da sinhá Romana, os voduns. Tudo aquilo só tinha feito com que eu me afastasse, permitindo que você fosse tirado de mim. Ao mesmo tempo que eu tinha esperança de te encontrar, achava que era para nunca mais. Talvez a esperança fosse apenas o meu axé, o emi que fazia a vida circular dentro de mim, impulsionando, como tinha feito com a Passarola. Seu desaparecimento foi pior que a morte do seu irmão, muito pior, porque ele eu sabia onde e como estava. Mas foi bom ter esperanças, pois acho que o destino resolveu aliviar a mão agora, e por isso não hesitei em deixar tudo para trás e partir.
O Tico não sabia o que tinha acontecido; por mais perguntas que eu fizesse, no estado em que ele se encontrava pela perda da Claudina e do filho, ele dizia apenas que sentia muito, que você simplesmente tinha sumido. Tentei confiar no meu vodum, mas era como se a fé também tivesse me abandonado, restando só tristeza e preocupação. Quando chegamos à casa do Tico, a Malena também não foi de grande ajuda, pois só chorava e se lamentava por não ter perguntado aonde vocês iam.
Eu tinha vontade de mandá-la embora, não porque a achasse culpada, pois sei que você e seu pai passeavam bastante, mas por não me dar apoio, por não tomar iniciativas ou dizer pelo menos o que achava que tinha acontecido. Ela não sabia de nada, não sabia onde vocês costumavam ir, por onde começar a procurar, e apenas dizia que sempre que saíam voltavam no mesmo dia, e que alguma coisa de muito grave devia ter acontecido.
Naquela primeira noite, fui dormir no seu quarto e pedi aos voduns que me deixassem sonhar com você, que me mostrassem o caminho, mas passei a noite em claro, assim como as dez noites seguintes.
A busca
O doutor José Manoel ficou bastante preocupado e disse que me ajudaria em tudo que fosse preciso, que inclusive passaria na casa da Ressequida e de amigos portugueses para ver se tinham notícias de vocês, ou pelo menos do seu pai. O doutor Jorge disse que, desde a mudança de vocês, tinha perdido um pouco o contato, mas que um dia o seu pai tinha aparecido na Escola de Medicina procurando por ele. Como não o encontrou, deixou um bilhete pedindo dinheiro emprestado. O
doutor Jorge disse que estava disposto a emprestar mesmo sabendo que não o teria de volta, mas o seu pai nunca voltou para saber disso.
Comentei essa história com o Tico, que confirmou que havia muito tempo que seu pai vivia desesperado atrás de dinheiro, que ele mesmo já tinha emprestado muito, além de pagar algumas dívidas cobradas na porta da casa. Perguntei por que não tinha me contado isso e ele disse que tinha vergonha, que já tinha recebido muita ajuda minha na época dos cookies e por isso se via na obrigação de me ajudar por intermédio do Alberto, por ele ser o pai do meu filho. O Tico comentou que talvez o seu pai sentisse vergonha de morar de favor e ter algumas dívidas pagas com o dinheiro de um preto, e por isso tinha fugido levando você, aproveitando que todos estavam preocupados com o funeral da Claudina.
Achei que era uma hipótese possível, e foi nela que me fiei até descobrirmos a triste e inaceitável verdade.
Pedi ajuda a todos os conhecidos, à Adeola, à Esmeralda, às mulheres que tinham trabalhado na padaria, visitei todo mundo, até mesmo o preto que trabalhava no escritório daquele doutor Amleto Ferreira, no Terreiro de Jesus, e também as irmãs da Boa Morte. Para os que não os conheciam, descrevi vocês, pedindo que ficassem atentos ao sair às ruas, observando as pessoas. Foi o que eu fiz, andando por toda a cidade, ficando com o coração disparado cada vez que via pessoas parecidas com vocês. Sabe o que foi o pior de tudo? Não saber se eu estava falando o certo quando te descrevia, confiando nas informações do Tico e da Malena, pois haviam se passado quase três anos desde a última vez que eu tinha te visto. Não incomodei a sinhazinha, pois quando o doutor José Manoel me procurou para dizer que nenhum dos patrícios sabia de vocês, contou que ela estava pejada e não seria bom saber da morte da Claudina, para não se impressionar. O doutor Jorge procurou em todas as cadeias, em hospitais, sanatórios e casas que recebiam órfãos ou pessoas doentes, e também não conseguiu informação alguma. A única coisa de que eu tinha medo era de adoecer, pois não dormia e não conseguia comer direito, e foi quase com alívio que recebi do doutor José Manoel uma das piores notícias que eu poderia imaginar, ou melhor, que eu nunca imaginaria. Alívio sim, embora aquilo fosse cruel demais, mas pelo menos eu tinha uma pista, um fio de história que deveria ter começo e fim, que eu ainda esperava ser feliz.
O doutor José Manoel tinha falado com os portugueses que ele sabia que conheciam o seu pai, e quase todos disseram que havia um bom tempo que não o encontravam, mas que sabiam que ele tinha enormes dívidas de jogo. Foi então procurar algumas casas de empréstimos e particulares que também faziam esse tipo de serviço e descobriu que a situação era muito mais grave do que ele pensava. Algumas daquelas pessoas chegaram a ameaçar o doutor José Manoel, querendo cobrar dívidas que já tinham dado como perdidas e que, juntas, chegavam a mais de dois contos de réis.
Em uma destas firmas disseram que havia três semanas que o seu pai tinha amortizado a quantia de duzentos réis, depois de uma conversa com um dos cobradores, o que, para o doutor José Manoel, significava ameaça de morte. E eram pessoas perigosas, que não ficavam apenas nas ameaças. Enquanto ele me contava isso, a idéia do Tico me parecia cada vez mais provável, mas o doutor José Manoel foi além, pois tinha pensado em algo que meu coração de mãe simplesmente teria se recusado a pensar. Sabendo que aquele não seria o primeiro caso, ele começou a procurar os mercadores de pretos e descobriu que um deles tinha comprado um mulatinho de um homem cuja descrição se parecia com a do seu pai.
O mercador se lembrava disso porque você chamava a atenção, estava bem-vestido, falava corretamente e parecia ter sido muito bem criado, e também porque percebeu que o homem hesitava bastante em fechar a venda e o tratava de maneira carinhosa. O doutor José Manoel disse que não tinha como afirmar com certeza, mas estava bastante desconfiado de que era mesmo você, principalmente porque a dívida de duzentos réis foi paga naquele dia da venda, a mesma quantia que o mercador disse ter dado pelo mulatinho.
Achei aquela história muito absurda e tentei argumentar
que seu pai nunca poderia ter te vendido porque você não era escravo, tinha nascido quando eu já era livre, e também porque ele gostava muito de você. O doutor José Manoel então disse que para ser escravo bastava encontrar quem comprasse, pois se algum branco dissesse que tal preto ou mulato lhe pertencia, a afirmação era aceita sem necessidade de provas. E que quanto ao seu pai gostar de você, o desespero poderia muito bem tê-lo feito se esquecer disso, que a ameaça do cobrador podia inclusive ter sido feita em relação a você, pois a melhor forma de pressionar um devedor é ameaçar a vida dos parentes.
Para salvar a sua vida, seu pai pode ter preferido transformá-lo em escravo. O doutor José Manuel tinha dado dinheiro ao mercador para que ele tentasse descobrir com que nome você tinha sido vendido e para quem, o que talvez não fosse muito difícil e desconfiava que você tinha ido para a província de São Paulo ou para a do Rio de Janeiro, onde faltava gente para trabalhar nas lavouras de café e onde pagavam um bom dinheiro por novas peças, já que estava cada dia mais difícil fazê-las chegar da África.
Antes mesmo de esperar essas possibilidades se confirmarem, fui até o cais e me informei sobre navios de partida para a província do Rio de Janeiro, porque depois que aceitei a idéia, tive certeza de que você tinha mesmo ido para lá, e agora percebo que estava certa.
Depois passei pelo escritório do doutor José Manoel e pedi que resgatasse todo o meu dinheiro, pois eu estava decidida a viajar dentro de três dias. Ele me disse para esperar, pois você ainda poderia estar na Bahia ou em qualquer outro lugar mais perto, como Minas Gerais ou mesmo Pernambuco, Pará ou Maranhão. Pedi que ele continuasse procurando, que desse todo o dinheiro necessário ao tal mercador, pois eu estava de partida e nada me faria mudar de idéia. Eu não queria perder tempo, para poder te encontrar ainda em algum
mercado, porque a busca ficaria muito mais difícil se você já tivesse sido vendido. Procurei novamente a Adeola e a Esmeralda, que tinham muitos conhecidos na cidade, pedindo que continuassem atentas para o caso de você não ter saído da Bahia. No mais, eu também confiava em você, que sabia seu nome e que era ingênuo, e daria um jeito de voltar para casa se ainda estivesse por perto.
No rastro
Comprei um baú e coloquei nele todas as coisas que me eram caras. Deixei de fora os vestidos de que tanto gostava, os mais luxuosos, por serem volumosos e chamarem muita atenção, e peguei as roupas mais simples, as imagens Oxum e dos Ibêjis e uma toalha bordada que eu tinha ganhado da sinhá Germana no dia em que me tornei vodúnsi. Peguei também o livro do padre Antônio Vieira dado pelo Fatumbi, o tabuleiro que tinha sido presente do Francisco e do Raimundo, e mais alguns objetos de estimação, e todo o resto mandei para a Adeola. Ela podia vender e usar o dinheiro para o orfanato. Quando o doutor José Manoel me entregou o dinheiro, costurei tudo dentro de sacolinhas de tecido e amarrei pelo corpo. Acho que essa era uma maneira de me dizer que eu nunca mais deveria me separar do que era meu, do que era realmente importante para mim.
O doutor José Manoel disse que sempre havia embarcação para São Sebastião do Rio de Janeiro, e sugeriu que eu esperasse mais uma semana, pois queria tomar algumas providências para que eu não tivesse problemas ao viajar sozinha. Ele estava bastante constrangido quando, três dias depois, me entregou alguns papéis necessários para o embarque, entre os quais havia um passe igual ao que a sinhá Ana Felipa tinha me dado quando virei escrava de ganho, dizendo que eu estava autorizada a trabalhar na rua e morar fora de casa, só que em nome dele.
O doutor José Manoel tinha amigos que faziam aquele serviço e, portanto, não foi difícil conseguir um passe dizendo que era meu dono e tinha pedido autorização aos governos da Bahia e do Rio de Janeiro para que eu fosse morar e trabalhar a ganho na corte, servindo a uma viúva, irmã dele, que na verdade nem existia. Tudo isso porque o governo do Rio de Janeiro tinha proibido a entrada de pretos livres naquela província, sobretudo os procedentes da Bahia.
Nunca fui tão grata ao doutor José Manoel, e por algo que nunca achei que pudesse merecer gratidão, pois eu tinha sido novamente transformada em escrava. Eu o admirei
por
ter
se
arriscado,
por
estar
se
responsabilizando e emprestando o nome para que eu fizesse algo fora da lei. O doutor José Manoel disse que, dos homens estavam exigindo, logo ao desembarcar, uma espécie de carta em que a polícia da Bahia afirmava que aquele escravo não era suspeito de participar de rebeliões, mas que, por ser mulher, isso provavelmente não aconteceria comigo.
Mesmo assim, durante a viagem seria recomendável que eu fizesse amizade com algum branco, melhor ainda se fosse mulher e distinta, Para me fingir de companhia.
Assim que vi o patacho, percebi que ali não entraria nenhuma senhora distinta, e confesso que só embarquei por extrema Precisão, porque era muito difícil acreditar que algo tão prejudicado agüentasse a viagem. Mas agüentou, e se houve algum tipo de problema, eu nem percebi, pois assim que subi a bordo arrumei um canto, estendi a esteira e tratei de dormir. Eu tinha pagado um pouco mais caro para ter um espaço só para mim, mesmo sem cama ou qualquer outro conforto, apenas com uma fina divisória de madeira que me proporcionava um pouco de privacidade. Levei um farnel de carne-de-sol, farinha, pães, bolos e água, e nem para comer precisava deixar o meu espaço, só mesmo para fazer as necessidades, quando já não dava mais para
adiar.
Quando percebi a movimentação de cargas sendo arrastadas e de pessoas correndo para o convés, soube que estava chegando a São Sebastião do Rio de Janeiro e tinha que começar logo a busca, se quisesse te encontrar ainda em algum mercado. Eu não tinha como provar que você era ingênuo, e isso nem era o mais importante ou a única solução, porque tinha dinheiro suficiente para comprá-lo. O doutor José Manoel também tinha me orientado quanto a isso, para eu não demonstrar muito interesse ao te reconhecer e muito menos revelar que era sua mãe, pois o mercador elevaria o preço. Era para eu te tratar com total descaso, como mais um mulatinho escravo entre tantos outros, e chamar a sua atenção caso me chamasse de mãe, dizendo que você tinha inventado aquilo para ser escolhido. Eu me lembrei de quando o sinhô José Carlos me comprou, de como me achei esperta fazendo de tudo para ser vendida, e rezei para que você não tivesse usado o mesmo expediente.
São Sebastião do Rio de Janeiro
Vista do mar, São Sebastião do Rio de Janeiro era uma baía de águas calmas e praias de areia clara, e logo depois uma faixa de terra tomada por galpões ou casas, e logo em seguida os morros, muitos deles. Não era como na Bahia, a cidade baixa e a cidade alta, a escarpa dividindo as duas. Em São Sebastião não havia escarpa alguma, apenas a cidade ao longo do mar e as montanhas como cuidadosas vigilantes. Algumas eram pontiagudas como pedras talhadas, mas outras eram suaves, altas e suaves, parecendo terem sido moldadas no barro com o uso de uma cabaça cortada ao meio. Um pouquinho só, elas me lembraram as montanhas do caminho de Savalu até Uidá, e no momento em que pensei isso me senti quase feliz, ou aliviada, sabendo que os dias ali me trariam um pouco de alento e
felicidade, apesar de tudo.
Desembarcamos em Santa Rita, que, de acordo com um marinheiro, ficava bem perto de onde eu queria ir, um famoso mercado de pretos. O único problema era o baú, grande e pesado para andar com ele de um lado para outro, e ainda a bordo consegui um preto para carregá-lo até alguma pensão próxima ao cais. Mas logo percebi que precisava aprender novas regras, pois assim que cruzamos Com o grupo de pessoas que esperavam pelo desembarque dos viajantes, tive que mudar de guia. O
preto ia à minha frente e logo foi cercado por quatro carregadores que perguntaram a quem ele pertencia.
Não acreditaram quando ele hesitou um pouco e depois me apontou, por eu ser preta ou por não estar vestida como uma dona de escravos, não sei, ou se pelo fato de ele ter demorado para responder. Mas um dos carregadores disse que ali quem fazia aquele serviço eram somente eles, que o meu guia teria que compreender que aquele ponto já tinha dono.
Ele olhou para mim, por certo esperando que eu tomasse uma atitude, mas eu não estava com vontade de criar problemas justo na chegada, e o dispensei sem mesmo dar algum dinheiro. Não porque fui mesquinha, mas porque, tomada de surpresa, fiquei com medo de mostrar onde guardava a quantia que tinha separado para as despesas de viagem. Assim que ele pôs o baú no chão e se afastou contrariado, começou uma discussão entre os outros quatro para ver quem me acompanharia, o que, para minha sorte, logo teve fim, pois mais pessoas estavam desembarcando, e mesmo quem tinha um único pacote de mísero tamanho merecia a atenção dos carregadores. Merecer a atenção é modo de dizer, pois o trabalho deles era quase imposto, visto que lá também, como na Bahia, carregar uma pena que fosse era trabalho de preto. Aliás, trabalho sempre era coisa de preto, imposto aos que tinham donos e exigido pelos libertos e os de ganho, que precisavam garantir o jornal
ou o sustento, ou as duas coisas juntas.
Pedi ao carregador que me levasse para uma boa pensão nas redondezas, de preferência que servisse refeições, pois eu não pretendia sair à procura de um lugar onde comer em uma cidade desconhecida. Ignorando o peso, ele colocou o baú na cabeça e saiu quase correndo, e tive que me esforçar para acompanhá-lo no meio da multidão de vendedores de comida, de roupa, de galinhas, de cestos e tudo o mais que se pudesse imaginar. Eu sabia que seria bom prestar atenção às pessoas em qualquer lugar por onde andasse, pois você poderia estar entre elas, mas tive medo de me perder.
Ao deixarmos o cais, passamos por várias portas com a tabuleta que informava do aluguel de quartos, e comecei a me preocupar quando percebi que, pelo passo apressado, ele não pretendia parar em nenhuma delas, afastando-se da região de maior movimento. Quanto mais andávamos, mais as ruas se tornavam feias, sujas e malcheirosas, com casas de onde saía um bafo úmido e quente, cheirando a peixe podre e excrementos.
Eu tentava caminhar com cuidado para não pisar nas valas a céu aberto, mas também não podia ser tão cuidadosa a ponto de não manter os olhos no baú. Assim que o ambiente começou a melhorar um pouco, com vielas mais largas, ele parou em frente a uma das portas e deu um assovio. Conversou com o velho que o atendeu e que, depois de me olhar de cima a baixo, voltou para dentro da casa. Eu disse ao carregador que não tinha gostado muito daquele lugar, que tínhamos passado por outros melhores e que eu provavelmente poderia pagar, mas ele afirmou que naqueles lugares não aceitavam pretos, que eu teria que ficar ali mesmo ou, se realmente quisesse, poderíamos procurar outra casa, mas seria pior que aquela ou muito mais longe. Resolvi pelo menos dar uma olhada no que tinham a me oferecer, pedindo que ele mesmo levasse o baú até o quarto. Se eu não quisesse ficar, poderíamos sair em seguida.
O velho voltou e nos guiou através de um cômodo que era um verdadeiro labirinto formado por baias de paredes baixas construídas com folhas de madeira, dentro das quais pude ver redes, esteiras, roupas e panos amontoados pelo chão. Subimos uma escada e a parte de cima era bem melhor, dividida em pequenos cômodos onde cabiam apenas um baú e uma esteira, mas fechados até o teto e com portas. Escolhi um que tinha uma pequena janela bem no alto da parede, mais claro e arejado, onde o carregador colocou o baú a um canto e estendeu a mão para receber o dinheiro, dizendo que seria melhor manter a porta fechada.
Não pelas pessoas da casa, que ele conhecia e eram de confiança, mas pelos que alugavam cômodos ali de vez em quando e não se sabia de onde tinham surgido ou quem eram. Agradeci e pedi ao velho que voltasse dentro de duas ou três horas com alguma coisa para eu comer, e até gostei bastante da refeição, cozido de peixe, pirão e farinha, uma banana e doce de goiaba, refresco e café. Bem alimentada, achei que uma boa noite de sono me faria bem, pois precisava me preparar para os dias seguintes, mas logo compreendi o que o carregador quis dizer com ser mais seguro manter a porta fechada, pois a noite inteira foi de entra-e-sai, de bater de portas, de gritos e gemidos, de brigas com quem não queria pagar o quarto alugado ou os serviços das diversas mulheres que faziam a vida por ali. Na manhã seguinte, cansada e irritada pela noite mal dormida, resolvi sair à procura de outro lugar para ficar.
Peguei um pedaço de papel, consegui um toco de carvão com o velho e tomei nota de todos os lugares por onde passei, para depois saber voltar, principalmente porque o baú estava trancado dentro do cômodo. Vi grupos de pretos acorrentados a caminho de algum mercado, e achei que mais tarde deveria segui-los, mas primeiro precisava de um lugar para me estabelecer. Andei por várias ruas e cheguei a entrar em três ou quatro casas,
mas nenhuma me agradou.
Percebi então que deveria me afastar um pouco mais da região do porto, porque, como também acontecia em São Salvador, era onde havia mais comércio e casas velhas e malcuidadas. Já estava começando a desanimar quando um homem muito bêbado caiu quase aos meus pés, surgindo de repente de uma casa onde, da porta, uma preta velha esbravejava. Eu quis desviar, mas ele agarrou a minha saia enquanto tentava se levantar. Foi então que a mulher se aproximou e, com tapas e pontapés, fez com que ele me largasse, pedindo desculpas e dizendo que aquele era um imprestável, que havia mais de três meses que comia e dormia de graça na casa dela alegando que não tinha dinheiro para pagar, mas sempre arrumava um jeito de comprar bebida.
Enquanto eu procurava uma tabuleta que confirmasse que ali era uma casa de cômodos, ela continuou insultando o velho, que finalmente conseguiu se levantar e saiu cambaleando pela rua. Perguntei e ela me disse que sim, que alugava cômodos e tinha dois vagos, o do velho e outro deixado por um estudante já havia quase dois meses, sem que ela tivesse conseguido alguém para pôr no lugar, pois escolhia muito bem os hóspedes. A mulher ficou me olhando por algum tempo e disse que para mim alugaria, se eu pudesse pagar. Pedi para ver os cômodos e acabei ficando com o que era do estudante, talvez impressionada com a bagunça e a sujeira que o velho tinha deixado.
Mais tarde percebi que, embora o quarto do velho fosse maior, eu tinha feito a escolha certa. O meu ficava no fim de um corredor, muito mais tranqüilo, além de ter três janelas e não apenas duas, como os outros. Os quartos do meio do corredor tinham janelas somente para a frente da casa, enquanto o meu, que ficava em uma das pontas, tinha também uma janela lateral. Era uma bela
casa, embora velha e com muitas coisas por arrumar, mas em muito me lembrou o sobrado do seu pai em São Salvador. Acho que por isso eu soube que tinha que ficar ali, por causa de uma certa familiaridade, além de ter gostado da dona Balbiana, a hospedeira.
Depois que acertamos o preço, comentei sobre o baú e ela chamou um preto que não teria forças para fazer o serviço, com as pernas arqueadas e a virilha quebrada de tanto carregar peso, como eu já tinha visto muitos em São Salvador. A dona Balbiana então pediu que ele me acompanhasse até algumas casas adiante, onde chamamos dois moleques que tinham por volta de doze ou treze anos, mas bastante fortes e desenvolvidos para a idade. Tive medo que você fosse como eles e tivesse crescido muito desde a última vez que nos vimos, pois não te reconheceria se nos encontrássemos por acaso.
A volta foi muito mais rápida do que a ida, mesmo com os dois moleques dividindo o peso do baú. A dona Balbiana tinha mandado arrumar o quarto um pouco melhor, e até colocado um jarro com flores, que disse ser do próprio jardim. Ela queria conversar, mas eu estava cansada demais, precisando me lavar, comer alguma coisa e dormir, pois sabia que dias longos me esperavam. Ela então pediu que uma moça me levasse uma bacia com água, e tomei o primeiro banho desde a saída de São Salvador. À noite me lembrei de que o Ifasen, o filho do Babalaô Gumfiditimi, tinha dito que eu passaria por um período de calmaria, mas que depois viria outro de grande peregrinação. Ele não pôde dizer o motivo das minhas andanças, pois ainda não estava claro no destino, mas me via andando muito atrás da minha missão. Você se lembra? Quando acordei, tive certeza de que a minha missão era te encontrar, a missão mais importante da minha vida, na qual não podia falhar. Se falhasse, poderia te condenar a ser escravo pelo resto dos seus dias, mesmo tendo nascido ingênuo.
A casa de cômodos
Acho que ainda não te falei direito sobre a casa que ficava na Rua do Ouvidor. A frente era protegida por uma grade de ferro trabalhado, já bastante enferrujado, que deixava ver o pequeno jardim que media não mais que cinco ou seis passos, mas sempre impecável, livre de mato e florido. Esse jardim era cortado ao meio por um estreito corredor de pedras que levava à porta da sala, com a pintura verde bastante desbotada e descascada, com um visor de vidro muito bem conservado, sem um arranhão sequer. A sala era espaçosa, não muito grande, mas parecia maior por quase não ter móveis, apenas uma arca de couro um canapé, duas cadeiras e uma poltrona. Da sala subia a escada que levava a seis quartos, três para cada lado, sendo que o meu era o último virando à esquerda.
No andar de baixo havia mais dois quartos saindo de um pequeno corredor que levava à cozinha, mais bem composta que a sala, com uma grande mesa para doze cadeiras, outra mesa pequena onde eram colocadas as panelas para que nos servíssemos, um móvel cheio de coisas de cozinha, a pia e o imenso fogão a lenha. O
quintal era quase três vezes maior que o jardim, com poço próprio, e no fundo do terreno, mais três quartos.
Foi na cozinha que encontrei a dona Balbiana naquela manhã, e percebi que era ali que todos da casa gostavam de ficar, apesar do calor quase insuportável quando o fogão estava aceso.
A dona Balbiana tomava o desjejum junto com o Omissias, um preto liberto que era oficial barbeiro e atendia perto dali, em um ponto que tinha junto com o moçambique Buremo, o pai dos moleques que tinham ido buscar meu baú. Aliás, os moleques se chamavam Pablo e Esteban, e a mãe deles era uma quituteira crioula e liberta chamada Rosário. O Omissias era um benguela que achava ter mais de setenta anos, mas não
sabia direito, um velho magro e muito sério, que freqüentava igreja de branco e não botava uma gota de cachaça na boca, o que de início até me fez pensar que ele era muçurumim. Também não fumava, pois dizia que isso era coisa de quem recebia espíritos. Foi bastante simpático comigo, querendo saber de onde eu estava chegando e o que tinha ido fazer na cidade, pondo-se à disposição para ajudar.
A dona Balbiana ficou curiosa com a minha história, mas guardou todas as perguntas para depois que o velho saiu para trabalhar. Ela se interessou quando eu disse que chegava da Bahia, pois tinha morado lá durante alguns anos, emprestada para a irmã de sua dona. Na Bahia, tinha sido alugada para o Juan, um espanhol dono de uma hospedaria no Maciel, perto daquele casarão onde conheci o Porcristo. A dona Balbiana começou a se deitar com o espanhol, e quando a mulher para quem ela tinha sido emprestada faleceu e a dona a chamou de volta para São Sebastião, o Juan resolveu ir junto.
Não só por causa dela, mas também porque achou que poderia ganhar mais dinheiro, pois corriam notícias de que na corte faltavam casas e hospedarias na época da chegada da corte. Mesmo tendo dinheiro para comprar a carta, que o espanhol se propôs a dar, a dona Balbiana preferiu continuar como escrava, porque achava que assim a vida seria mais fácil. Além do mais, a dona pedia um jornal muito baixo, do qual a dona Balbiana sabia que ela precisava. Assim, um pouco por comodismo e um pouco por lealdade à dona que sempre a tinha tratado muito bem, sem nunca interferir na sua vida, não quis se libertar.
Quando o Juan abriu a hospedaria, a Rua do Ouvidor já tinha muitos comerciantes portugueses e ingleses, e como grande parte deles chegava ao Brasil Sem família alguma, alugavam quartos em vez de montarem casa. A simpatia do espanhol também ajudava, pois todos na rua
o conheciam e gostavam muito dele, e a dona Balbiana disse que nunca precisaram colocar tabuleta na porta pois os cômodos viviam ocupados.
Depois dos portugueses e dos ingleses chegaram os franceses, ou melhor, as francesas, montando casas de modistas muito bem freqüentadas, dando prestígio à Rua do Ouvidor. Era com modista estabelecida lá que a imperatriz fazia seus vestidos, sendo copiada por todas as damas da sociedade. Mas, infelizmente, as modistas colocaram casa somente na parte da Rua do Ouvidor que ficava além da Rua Direita, levando para lá o comércio mais importante e deixando os pontos de menor prestígio para o lado em que ficava a casa da dona Balbiana. Os comerciantes solteiros foram se casando com brasileiras e montando casa, e novas hospedarias e até mesmo hotéis de muito luxo surgiram na rua e nos arredores, e a dona Balbiana foi perdendo freguesia.
A situação piorou quando o Juan morreu, porque os brancos não quiseram mais se hospedar na casa de uma preta, restando então alugar para pretos. Quando o companheiro morreu sem deixar herdeiros e sem ser casado com ela no papel, a dona Balbiana perdeu todo o dinheiro que tinham no banco e em uns papéis que ele chamava de ações, pois ficou tudo para a Coroa. A casa é uma outra história, que eu te conto mais tarde.
A dona Balbiana disse que, mesmo tendo pedido muito a Oxum, Naná e Iemanjá, não teve filhos, o que a deixava muito triste, e emocionada com a minha história. O Juan já tinha morrido havia mais de dez anos, e a sorte dela foi que, bem antes disso, tinha conseguido uma menina para criar. Na verdade, ele tinha comprado a menina para ela, filha de uma preta escrava de uns portugueses que moravam na vizinhança. A escrava e a dona portuguesa tinham dado à luz na mesma época, e como a branca não tinha leite para alimentar a criança, a preta foi tomada como ama-de-leite e proibida de
amamentar a própria filha, para que o leite não raleasse.
Também não deixavam que ela cuidasse da criança e não havia mais ninguém na casa que pudesse fazer isso, e a menina adoeceu. Assim que soube dessa história, a dona Balbiana pediu ao Juan para ir até a casa dos portugueses e pedir ao dono que pusesse preço na menina, que foi vendida por quase nada. Não era de grande inteligência, porque tinha passado por muitas dificuldades, mas era boa pessoa, trabalhadeira e bonita como só ela, a moça que tinha levado a bacia com água ao meu quarto naquela primeira noite, que se chamava Juana em homenagem ao espanhol.
Esteban e Pablo também eram nomes espanhóis dados pelo Juan, que era padrinho dos dois moleques, ingênuos de pia (Ingênuos de pia: libertos na pia batismal, geralmente pelo padrinho branco e/ou rico, que se envergonhava de não comprar a liberdade dos afilhados). O próprio Juan tinha se oferecido para apadrinhá-los, ganhando a gratidão eterna do Buremo e da Rosário, Que na época ainda eram escravos a ganho.
Gratidão que se estendia à comadre, a dona Balbiana, para quem faziam de tudo para agradar e ajudar. Todos os dias os moleques iam até a casa dela tomar a bênção e perguntar se precisava de alguma coisa. Muitas vezes também iam pedir ajuda, porque a Rosário não era certa da cabeça, ainda pior do que a Juana. Do nada, começava a babar e a se bater, correndo o risco de engolir a língua e morrer se não tivesse alguém por perto para colocar uma colher na boca dela. Era por isso que os moleques não trabalhavam, para ficarem com a mãe enquanto o pai tinha uma boa renda como oficial barbeiro. A dona Balbiana achava que a doença da Rosário era porque ela tinha abandonado a religião dos orixás. Tinha o santo muito forte para a cabeça que não era honrada, e por isso toda aquela perturbação, mas não acreditavam nela.
Imagine você que de tudo isso eu fiquei sabendo em
poucos minutos de conversa, e já estava aflita para que aquilo terminasse logo e eu pudesse começar a procurá-lo com a ajuda do Mongo, que nos ouvia sentado no chão da cozinha. A dona Balbina disse que o velho já não era mais tão útil na casa e que, se eu quisesse, ele podia sair comigo, mostrar onde ficavam os mercados, os cantos e as feiras de escravos. Aceitei, mesmo achando que ele não conseguiria me acompanhar, visto que mal conseguia andar, puxando aquelas pernas. Era um cabinda chegado da África ainda criança, na época da mudança do imperador, e recolhido da rua pelo Juan depois de ter sido abandonado pelo dono, doente e sem conseguir andar, por tanto peso que as pernas já tinham suportado quando ele era carregador no porto.
A dona Balbiana não nos deixou sair enquanto não falou um pouco sobre cada uma das pessoas que alugavam cômodos na casa, sempre puxando para a positiva, para mostrar que eu devia me orgulhar por ter sido aceita. O
quarto ao lado do meu estava vazio, era o que tinha sido ocupado pelo velho bêbado. O seguinte, ao lado da escada, estava alugado para um velho angola liberto chamado Kipeio, que trabalhava como oficial chapeleiro em uma fábrica na freguesia de Sacramento.
Do outro lado da escada ficava a Ricardina, uma escrava lavadeira e dona de dois escravos que trabalhavam a ganho como carregadores de palanquim e moravam em uma loja próxima à nossa casa, na Rua de São Pedro. O
quarto entre o da Ricardina e o da dona Balbiana era ocupado pela Luzia, uma liberta calava vendedora de peixe. Na verdade, não era bem um quarto, mas o trocador da dona Balbiana, que tinha mandado fechar a porta que dava para dentro dos aposentos dela e abrir uma outra que saía para o corredor. Na parte de baixo da casa, ocupando os dois quartos que ficavam no corredor a caminho da cozinha, moravam o Maboke, um angola liberto que era oficial cirurgião e feiticeiro, como cochichou a dona Balbiana, e o Firmino, um
moçambique semiliberto e carregador.
Nos fundos da casa ficavam os quartos do André, um crioulo que era filho de uma parenta da dona Balbiana, vendedor, e do Jindungo, um angola carregador que também era chamado de Piripiri. O terceiro quarto era dos orixás da dona Balbiana e nunca seria alugado, nem que disso dependesse o sustento dela. Sei que é muita gente e com certeza você não vai guardar todos os nomes, mas preciso dizer, porque alguns foram muito importantes para mim, como vai saber mais adiante.
Busca e histórias
Como eu imaginava, o Mongo andava devagar, muito devagar, parando de tempos em tempos para aprumar as pernas. Mas isso foi bom, porque pude gravar um pouco os caminhos da cidade e observar as pessoas, que me pareceram muito mais tristes que as pessoas da Bahia.
Não sei se era bem tristeza, mas os pretos da Bahia pareciam ter mais esperanças de felicidade, não sei se dá para entender, e os de São Sebastião pareciam mais conformados. Acho que essa é até uma palavra melhor que tristeza, a palavra conformismo, porque é uma palavra que acaba com os sonhos das pessoas. Para o lado do mar, a Rua do Ouvidor terminava em uma praça chamada Praça do Mercado, onde a Luzia comprava e vendia peixes.
De lá pegamos a Rua da Praia no sentido da freguesia de Santa Rita, onde ficava o Valongo, o maior mercado de pretos de São Sebastião, famoso até mesmo em São Salvador. O Mongo disse que era raro aparecerem pretos da Bahia por aqueles sítios, pois nenhum senhor queria saber de escravo que arrumava confusão, mas havia muitos da província de Gerais, comprados ou fugidos.
Ele gostava de contar histórias, e quando falou dos
mineiros, lembrou-se de um caso que tinha acontecido na Rua do Ouvidor, perto de onde morávamos. Ele disse que se eu precisasse de confirmação podia pedir ao Omissias, que era menino e já trabalhava na Rua dos Barbeiros quando tudo aconteceu. Ou então podia ter a prova com meus próprios olhos, os vistosos canteirinhos de perpétuas roxas que chamavam a atenção na frente de uma casinha térrea simples, de porta e janela, que ficava entre a Rua Direita e a Detrás do Carmo. Os tais canteiros tinham sido plantados por uma antiga moradora nos idos de um mil setecentos e oitenta, entrando pelos noventa, e que tinha por nome Perpétua e por alcunha Mineira. Perpétua Mineira, como era conhecida.
A Perpétua Mineira tinha sido abandonada ainda criança, em Minas Gerais, à porta de uma família muito rica que lhe deu criação como se fosse filha. Mas não era, e por não ser irmã do filho legítimo da tal família, os dois se apaixonaram quando ela tinha dezoito anos, para desconsolo dos pais, que queriam que o rapaz fizesse um bom casamento. O moço queria se casar com a Perpétua Mineira mesmo assim, mas, em consideração, ela não quis, sacrificando a honra e lembrando que ele devia obediência aos pais. Desonrada e posta para fora de casa, a Perpétua Mineira foi para São Sebastião do Rio de Janeiro e alugou a tal casinha, começando a trabalhar como costureira.
Quem a conheceu naquela época dizia que era moça muito séria e trabalhadeira, que, para complementar o sustento, abriu a saleta da sua casa para servir refeições. Além da beleza da moça, a gostosura e o capricho da comida correram de boca em boca, e logo era grande a freguesia para os guisados e assados de porco, as lingüiças caseiras, os bolos e os quitutes.
Muitos foram os homens que se apaixonaram por ela, mas nenhum foi retribuído, pois a Perpétua Mineira secretamente ainda tinha esperança de que o tal rapaz,
o que tinha ficado em Minas Gerais, desobedecesse ao pedido dela e fosse buscá-la em São Sebastião; até que um dia aparecerem fregueses de Minas Gerais que contaram à moça sobre o casamento do amado.
Dando tudo por perdido, a Perpétua Mineira adoeceu e esteve à beira da morte, passando mais de dois meses na Santa Casa de Misericórdia, e dizem que só se salvou por milagre. Foi então que resolveu recuperar o tempo perdido e aceitou todos os homens que tinha rejeitado, e atraiu muitos outros com seu riso fácil, sua alegria por estar viva, seus modos e trejeitos. Entre os novos pretendentes estava o homem que seria seu segundo e último grande amor, também mineiro, que, aproveitando a passagem por São Sebastião, quis conhecer a moça de quem todos falavam. Diziam que ele não era bonito, mas era corajoso, arrebatado, decidido, ardente, e caiu de amores pela Perpétua, o Joaquim José da Silva Xavier, alcunhado de Tiradentes. De acordo com o Mongo, a Perpétua Mineira voltou a ser honrada e fiel, sempre à espera do Tiradentes, mesmo com suas prolongadas ausências, indo e voltando de São Sebastião para Vila Rica de Minas Gerais.
Uma vez, às vésperas de partir de São Sebastião do Rio de Janeiro, ele contou à Perpétua sobre uma conspiração da qual participava, marcada para dali a pouco tempo. A moça ficou desesperada, com medo de perder novamente seu amor, porque os dois sabiam que se algo desse errado, se não acontecesse o que os conspiradores esperavam, o Tiradentes poderia ser preso e condenado à morte.
Ele então pediu à Perpétua Mineira que lhe desse uma flor do seu jardim, uma flor que tinha o mesmo nome que ela, para que ela estivesse sempre junto dele.
Ela tentou substituir a prenda, que achava de mau agouro, oferecendo um cacho do seu cabelo, que o moço aceitou, mas sem desistir da flor. Quando ele partiu,
deixou a Perpétua aflita por notícias que nunca chegavam. Até que um dia chegou o próprio Tiradentes, não para a casa dela, porque sabia que o procurariam lá, mas para a casa de alguns amigos, que avisaram a Perpétua que ele estava na cidade, fugido, depois de ter dado tudo errado em Minas Gerais. Mas não adiantou ele se esconder, e algum tempo depois foi capturado e preso, acusado de traição à pátria. A essa altura da história, eu e o Mongo estávamos passando em frente à Ilha das Cobras, onde ele quis parar um pouco para descansar e aproveitou para me mostrar a cadeia que ficava naquela ilha, onde o Tiradentes tinha permanecido preso por quase dois anos, nas masmorras.
A Perpétua tentou de várias maneiras livrar seu amor da condenação, apelando até para seus encantos, esperando que amolecessem o coração do vice-rei, e dizem que ela teria conseguido se nesse meio tempo ele não tivesse sido substituído.
Sabendo que a Perpétua tinha sido amante do Tiradentes e que os amigos dele freqüentavam a saleta de pasto, a casa dela passou a ser vigiada, espantando toda a freguesia e os conhecidos. Por isso ela estava completamente sozinha quando, da quina da Rua do Ouvidor com a Rua Direita, assistiu ao triste fim do amado, enforcado no Campo do Rosário.
Depois do repicar dos sinos anunciando que a lei tinha sido cumprida, algumas pessoas disseram ter visto uma mulher se aproximar do corpo e procurar algo em seus bolsos, talvez o cacho de cabelos ou a flor roxa, mas ninguém teve coragem de se aproximar para saber quem era ela. Só podia ser a Perpétua Mineira, como também deve ter sido ela que encontraram alguns dias depois em Minas Gerais, morta ao lado do lugar onde tinha sido exposto um pedaço do corpo do Tiradentes, esquartejado para servir de exemplo aos rebeldes que ainda pensavam como ele. Quando o Mongo parou de falar, era eu quem estava cansada.
Cansada de sofrer por aquela mulher, pelo homem enforcado e esquartejado, pelos duros anos passados nas masmorras da prisão da Ilha das Cobras, que já devia ter abrigado muitas outras pessoas com histórias tão tristes quanto aquela. Acho que preferia não ter sabido de nada, porque uma sensação muito estranha me perseguia por horas e horas sempre que eu passava em frente à tal casa da Perpétua Mineira, sem ter coragem de olhar para os canteiros sempre floridos e bem cuidados, mesmo que ninguém morasse lá.
Foi com o coração apertado que cheguei ao Valongo, que não era muito diferente dos mercados de escravos de São Salvador, com o mesmo tipo de gente tomando conta e os mesmos procedimentos para avaliar as peças.
Olhando para aqueles escravos pulando, correndo, gritando e apanhando, eu me lembrava de que já tinha passado por tudo aquilo, e era bem possível que você também. Sorte que não presenciei, porque não sei descrever o que vi nos olhos de uma mulher enquanto um pretinho que parecia ser seu filho estava sendo examinado.
Quase comprei algumas crianças, que nem eram tão caras, mas não saberia o que fazer com elas depois, e também gastaria um dinheiro de que poderia precisar quando te encontrasse. Pelo caminho, tínhamos passado por outros armazéns que o Mongo foi apontando, onde também voltei muitas vezes.
Toda aquela região era feia e triste, e muitas casas ainda conservavam as rótulas (Rótulas: grades feitas de ripas de madeira que eram colocadas na frente das janelas, para barrar a luz e o calor muito fortes; e também para impedir que quem passasse na rua, visse o interior das casas), que tinham sido proibidas havia muito tempo. E, para piorar, perto do Valongo também havia o cemitério onde eram enterrados os pretos que chegavam mortos de África, ou que morriam antes de serem comprados.
Tudo padecia de esperança, de vida, e a morte cheirava muito mal.
Os pretos
Os pretos de São Sebastião eram diferentes dos de São Salvador, por causa da procedência. Para São Salvador iam principalmente os da região de onde eu tinha saído, os fons, os eves, os iorubás e mais outros que, por lá, eram todos chamados de minas, porque embarcavam na Costa da Mina. Para São Sebastião iam os angolas, os moçambiques, os monjolos, os benguelas e mais alguns.
Os monjolos tinham marcas ao comprido do rosto, os angolas tinham o rosto fino e eram muito bonitos, e os benguelas usavam cortes de cabelo bastante estranhos, formando desenhos muito trabalhosos, que podiam pegar a cabeça inteira ou apenas o alto, perto da testa, formando um topete com trancinhas.
Havia moçambiques aos montes, e eles variavam muito de uma região para outra, mas os preferidos eram os capturados nas tribos que ficavam longe da costa, por serem mais altos e mais fortes. Estes geralmente tinham o beiço de baixo e a orelha furados, e um desenho na testa que lembrava muito uma lua. Os moçambiques do litoral eram mais baixos e tinham a pele mais clara, da mesma cor da pele dos calavas. A Luzia, a vendedora de peixe que morava na casa da dona Balbiana, também era calava, e me explicou que eles tinham bocas estranhas porque, ainda crianças, apertavam e esticavam os lábios usando pedacinhos de madeira como se fossem um tipo de torniquete. Ao andar pelas ruas e mesmo pelos mercados, eu tinha a mania de ficar olhando para esses pretos e tentando adivinhar de onde eram.
Depois de algum tempo já nem tinha mais graça, porque acertava sempre. Com as mulheres era mais difícil porque nem todas tinham marcas no rosto, e a maioria usava os cabelos penteados à maneira das sinhás ou
cobertos com lenços e turbantes. Eram quase todas criadas de portas adentro, e se vestiam e se comportavam como tal. Por isso, logo percebi que as que tinham marcas ou faziam penteados de África eram quase todas de ganho. Os homens usavam cortes de cabelo
diferentes,
de
acordo
com
o
serviço,
principalmente os que trabalhavam nas ruas, facilitando a contratação. Precisando de carregadores, por exemplo, podia-se chamar com certeza qualquer preto usando um corte que deixava um chumaço de cabelo bem na frente, no alto da testa, e uma risca de cabelo de mais ou menos dois polegares de grossura, indo de orelha a orelha, a quatro polegares da nuca. Quem fazia esses cortes eram os oficiais barbeiros, que conheciam os costumes de cada nação e trabalhavam nas ruas e nas praças, ou em pontos como o do Omissias.
Naquele primeiro dia, voltei do Valongo bastante desanimada e subi para o quarto assim que cheguei. A dona Balbiana me chamou porque queria que eu conhecesse os outros hóspedes, e pedi que ela se desculpasse por mim, pois ia ficar para outro dia, pois eu estava exausta e preocupada, achando que seria impossível encontrar você naquela cidade. Ou pior, eu nem tinha certeza de que você estava mesmo em São Sebastião do Rio de Janeiro. Uma coisa boa que eu tinha percebido era que os mercadores anotavam tudo sobre o escravo vendido, as características, a procedência, o nome e se tinha alguma marca de tribo.