Um Defeito de Cor
Capítulo oito
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.
Mas eu não sabia a sua altura, nem como estava o seu cabelo e muito menos com que nome seu pai tinha te vendido. Antes de dormir, aproveitei para escrever uma longa carta ao Tico, pedindo que ele me passasse todas essas informações e que procurasse sua certidão de batismo pela casa. Em uma carta, a Claudina tinha se referido a ela, e ao mesmo tempo que eu queria que o Tico a encontrasse, torcia para que ocorresse o contrário, porque assim havia a possibilidade de ela
estar com você, para provar que era ingênuo.
Escrevi também ao doutor José Manoel pedindo que ele continuasse procurando seu pai, que perguntasse para todos os amigos e mantivesse vigilância, porque tudo poderia ser esclarecido por intermédio do Alberto.
Não havia muita coisa a fazer enquanto não tivesse pelo menos a resposta do Tico, mas, mesmo assim, saí de casa todos os dias, contando com a sorte. O ruim era que havia mercados clandestinos por todos os lados, muitos porões de mercearias que vendiam lotes de peças encomendadas ou avulsas, funcionando sem permissão das autoridades. Desses, quase ninguém conhecia a morada, pois o funcionamento dependia de ter ou não mercadoria. Andei por todas as freguesias mais importantes,
Candelária,
Santa
Rita,
Santana, Sacramento, São José, Glória, São Cristóvão, São João Batista da Lagoa. É interessante como ainda hoje me lembro de cada um daqueles locais, que devem estar bem diferentes, e até mesmo de algumas construções, que talvez já nem existam mais. Algumas que não tinham nada de especial, a não ser o fato de eu ter parado em frente a elas para tomar um refresco, ou onde vi entrar ou sair alguém que eu pensava conhecer.
Os moradores
No terceiro dia na casa da dona Balbiana, eu tinha a sensação de ter deixado a Bahia há quase tanto tempo quanto tinha deixado a África. Muitas coisas acontecendo, como também muitas eram as novidades, principalmente quando todos se reuniam na hora da ceia. A comida da dona Balbiana era muito gostosa, o que fazia com que alguns fregueses dos tempos antigos fossem até a saleta de pasto que ela oferecia aos sábados à tarde.
A dona Balbiana hospedava em grande estilo, dizendo
que não era por sermos pretos que deixaria de receber como sabia, e por isso todos faziam questão de tomar o desjejum e cear em casa, com exceção do Maboke e do Kipeio, que trabalhavam longe e nem sempre chegavam a tempo. Mas a comida deles ficava separada em um prato ao lado do fogão aceso. Outra coisa que para mim não foi problema, mas que exigia um grande esforço de alguns deles, era que a dona Balbiana fazia questão que usássemos talheres, ninguém podia comer com as mãos.
Só mesmo o Mongo, que dizia que daquele jeito a comida perdia o gosto e às vezes ia comer no quintal.
A Juana era muito calada e se limitava a responder quando perguntávamos alguma coisa, mas eu andava desconfiada de que não era tão quieta assim, que se encontrava com alguém no quarto ao lado do meu. Logo na primeira noite que passei na casa, ouvi barulho da porta sendo aberta e fechada, e logo em seguida alguns risos de mulher, e de vez em quando a voz de um homem, que desconfiei ser do Piripiri. Ele era um preto alto e forte, com alguns fios de cabelo ficando brancos, mas o rosto não denunciava idade nenhuma, principalmente porque estava sempre com boa fisionomia. Era carregador nos armazéns da Alfândega, onde, depois de pouco mais de dez anos trabalhando a ganho, tinha conseguido juntar dinheiro para comprar a carta. Diziam que era muito respeitado, não só por trabalhar firme, mas também por ser bom de briga.
Do André eu não gostei desde o primeiro momento, pois me pareceu o tipo de gente que não leva nada a sério, muito menos o trabalho. Tinha nascido livre de uma escrava amiga e comadre da dona Balbiana, e mesmo depois de estar grande o suficiente para trabalhar e comprar a liberdade da mãe, não se importou com isso, deixando-a morrer cativa. Quero dizer, ele não tinha nascido livre, mas o dono da mãe dele concedeu a liberdade em consideração aos bons serviços, e inclusive deixou que ele morasse com a mãe até certa idade,
quando então foi para a casa da dona Balbiana. Ela também parecia não gostar muito dele, mas tinha prometido à comadre que o afilhado não passaria necessidade enquanto vivesse, e lá estava ele, nem sei se pagava alguma coisa.
Outra de quem também não gostei foi a Ricardina, a cabinda que tinha dois pretos de aluguel, pois logo percebi que descontava neles tudo o que algum dia alguém tinha feito para ela, que, aliás, ainda era escrava. Reclamava de tudo, implicava com todos, queria sempre que o melhor de tudo fosse para ela.
Além de receber o jornal dos dois escravos, trabalhava como lavadeira. Não tinha medo do trabalho, isso não se pode negar, e tinha conseguido um bom acordo com a dona, que, em vez de cobrar jornal, tinha-a em casa por dois dias da semana, lavando, passando e engomando.
Corria o boato de que tinha muito dinheiro guardado, mas não parecia, porque várias vezes a vi esmolando na região da Praça do Teatro.
O Firmino, um semiliberto que ainda pagava a carta a prestação, era a alegria em pessoa, e com certeza o mais simples da casa. Era um cômico, em tudo via e fazia graça, e embora a dona Balbiana chamasse muitas vezes a atenção dele, pedindo que se comportasse, dava para perceber um grande carinho entre os dois. Ele já não era tão novo, mas muito rijo e grande de corpo, e tinha o beiço e a orelha furados, além do desenho da lua na testa, à maneira dos da tribo dele. Durante o dia trabalhava nos armazéns da Alfândega, e à noite exercia a triste função de esvaziar os tigres (Tigres: barris de madeira sem tampa onde eram depositados as águas sujas e os excrementos, e que eram esvaziados nos canais, nos rios e no mar durante a noite), tendo grande freguesia na região, inclusive a casa da dona Balbiana.
Eu já tinha sentido um cheiro horrível na Rua do Ouvidor à noite, e depois soube que era passagem dos
carregadores de tigres que iam ao mar, por ser uma rua reta até a praia do Mercado. Os carregadores de tigres começavam o trabalho às oito, quando o comércio fechava as portas, e terminavam às dez da noite, hora ansiosamente esperada no anúncio do relógio da São Bento. Mas como tinham pouco tempo para fazer o trabalho, estavam sempre correndo, o que facilitava os acidentes que despejavam o fétido conteúdo pelo chão.
Ou, pior ainda, sobre incautos que tinham o azar de trombar com eles, o que não era raro acontecer, e o Firmino adorava contar os vários exemplos. Eu não sabia como era que, fazendo um trabalho daquele, ele conseguia ser tão alegre e ainda brincar, dizendo que gostava daquilo porque se sentia importante quando todos os brancos, homem ou mulher, rico pobre, e até mesmo os janotas, todos os que encontrava pelo caminho, de imediato abriam passagem para ele.
O Kipeio trabalhava de oficial chapeleiro muito longe dali, na freguesia de São João Batista da Lagoa, onde estavam instaladas algumas fábricas, não só de chapéus.
Como era longe, muitas vezes dormia por lá mesmo, mas sempre que estava na casa era companhia muito agradável e muito discreta, quase não falava de si. Tinha sido libertado em testamento pelo antigo dono, que o considerou escravo leal e merecedor de fazer o que quisesse com a própria vida desde que a do dono não existisse mais, é claro. Em testamento também tinha deixado algum dinheiro, coisa pouca, mas que ajudava o Kipeio a pagar o aluguel do cômodo, porque o que recebia na manufatura chapeleira não devia ser muita coisa. O Kipeio se orgulhava dos chapéus que ajudava a produzir, que não eram de palha trançada como usavam os pretos, mas sim de seda ou de pele de lebre.
O Maboke tinha ponto de oficial cirurgião na freguesia de Sacramento, lugar antigo, tradicional e muito bem freqüentado, onde atendia principalmente pretos que apareciam sozinhos ou levados por seus senhores. Mas
os brancos pobres também o procuravam para sangrias, aplicação de sanguessugas e de ventosas, benzeduras, talismãs e ervas para emplastros, chás e banhos. Havia ainda o Omissias, o que gostava de contar histórias e era muito bem informado sobre tudo o que acontecia em São Sebastião do Rio de Janeiro e nas províncias vizinhas, e foi quem me deu uma boa idéia para pôr em prática enquanto esperava por informações de São Salvador. E, por último, a Luzia, mulher triste e trabalhadeira, que tinha o respeito e a confiança da maioria dos pescadores da região. Eles entregavam nas mãos dela todo o pescado do dia, para que ela distribuísse entre as outras vendedoras
ou
vendesse
direto
aos
fregueses
particulares ou donos de mercados. Diziam que ela ganhava um bom dinheiro com isso, mas também trabalhava muito, porque quando todo o peixe do dia já tinha sido comerciado, armava um fogareiro na tenda e vendia peixe frito e os quitutes preparados pela Rosário, a que era doente de santo.
Os conhecidos
Antes de falar sobre a idéia do Omissias, vou contar da saleta de pasto que a dona Balbiana abria aos sábados.
No primeiro sábado que passei na casa ela aceitou a minha ajuda, o que acabou se tornando um hábito bastante prazeroso para mim, que gostava de servir à mesa para escutar as conversas dos comensais. Todos os hóspedes estavam proibidos de circular pela sala durante a refeição, uma das regras que ela impunha quando alugava o cômodo, e cada um ia cuidar das obrigações ou se divertir na rua. Acho que aceitou a minha ajuda porque eu não tinha para onde ir e não conhecia ninguém na cidade. As refeições eram simples, geralmente cozido, peixe frito com pimentões, chouriço de porco e rim de vaca assado, servidos com pirão ou farinha, arroz e feijão, iguais a muitas oferecidas nas tabernas espalhadas pela região.
Mas havia o tempero da dona Balbiana, que, com certeza, era o melhor de todos. Ela também servia vinho do Porto, comprado especialmente para a ocasião, quando também eram levadas da cozinha para a sala a mesa e as cadeiras onde fazíamos as refeições. Mas o serviço de mesa que a dona Balbiana guardava com todo o cuidado em seu próprio quarto também era especial, de porcelana finíssima, do tempo em que o espanhol era vivo e os hóspedes eram elegantes senhores da sociedade. Quando me mudei para lá, ainda havia alguns assim, comerciantes da vizinhança ou maridos que acompanhavam suas senhoras às modistas e as deixavam lá, enquanto se reuniam com os amigos para comer e conversar sobre política. Talvez as tabernas e as confeitarias da rua fossem lugares visados pelas autoridades, mas ninguém desconfiaria de reuniões na saleta da casa de uma preta, que também alugava cômodos para outros pretos.
Quando os homens chegavam, a mesa já estava pronta, com as taças para o vinho, os copos com água, as iscas de rim e algumas quitandas, enganos para ajudar a manter a conversa enquanto esperavam pela refeição principal. Eles também a chamavam de "dona" Balbiana, faziam gracejos e pediam a opinião dela sobre vários assuntos, que ela se negava a dar, fazendo com que a chamassem de sábia dona Balbiana. Os fregueses eram homens falantes e bem-vestidos, com suas casacas vistosas e seus sapatos brilhantes, chapéus e bengalas, alguns bastante sisudos e outros, galhofeiros. Pelo jeito, aquele também era um momento de grande diversão para eles, diversão levada a sério, pois durante certas discussões quase se batiam, para logo em seguida brindarem amigavelmente.
Quem mais me chamou a atenção foi um homem baixo, de pele morena, quase gordo, de olhos muito pequenos que não paravam quietos. A cabeça podia não se mover muito, e nem o rosto tinha muita expressão, mas onde
quer que se fizesse o mínimo som ou o mais tímido movimento, lá estavam os olhos do senhor Passos. Ele tinha uma loja que vendia artigos de escritório, periódicos e papéis, e foi por isso que me interessei, porque meus papéis estavam acabando e eu não podia ficar sem escrever cartas quase semanais para a Bahia.
O senhor Passos era um dos que mais falavam, discutindo qualquer argumento que não fosse ao encontro das suas idéias, sempre as mais liberais, sobre a transformação do Brasil em uma república independente, com governantes brasileiros que tivessem em mente apenas os interesses dos brasileiros.
O senhor Passos dizia que a maioridade do D. Pedro II tinha sido uma pequena vitória, mas ainda muito longe da que o Brasil merecia. Gostei dele, principalmente porque sempre fui muito bem atendida quando ia até a loja para comprar papel, tinta, pena e tudo o mais de que precisasse. Ele nunca fez distinção ao me atender, sendo também bastante simpático todas as vezes que me encontrava na casa da dona Balbiana. A loja ficava quase na outra ponta da rua, em uma casa térrea muito simples que tinha duas portas para a rua, de onde sempre era possível vê-lo atrás do balcão. O Omissias disse que, quando ele não estava atendendo, era porque estava reunido com amigos e políticos em uma salinha nos fundos da loja, freqüentada por gente muito influente, por jornalistas e políticos importantes, todos liberais como ele. Foi por causa dos jornalistas que o Omissias se lembrou de me falar do Jornal do Comércio, que também funcionava na Rua do Ouvidor, no qual eram publicadas páginas e páginas anunciando vendas e leilões de escravos.
Comecei a comprar o Jornal do Comércio para acompanhar as ofertas dos mercados, os principais leilões, as vendas particulares e as notas de fuga, para ver se encontrava alguma descrição que pudesse me levar a você. Sempre que desconfiava de tal
possibilidade, saía atrás da morada, muitas vezes guiada por um dos moleques do Buremo. Uma das minhas primeiras diversões foi também por meio do Jornal do Comércio, que publicava histórias em folhetins, que nem eram tão boas, mas pelo menos serviam para me ajudar a passar o tempo. Lembro-me ainda dos nomes de algumas delas, bastante estranhos, como O noivo de além-túmulo ou Os tenebrosos da Torre de Londres. O
ruim era agüentar o cheiro de óleo de peixe que se vendia naquela província, para manter o lampião aceso a fim de ler à noite.
Quando descobriu que eu sabia ler e escrever, e ainda falar inglês, a dona Balbiana fez questão de espalhar para toda a vizinhança, e não era raro alguém me procurar pedindo que eu lesse cartas ou escrevesse bilhetes. Naquele tempo, sonhei muito com você, e na maioria dos meus sonhos você aparecia crescido, sentado a uma secretária, escrevendo coisas lindas de se ler. Sei que eram lindas porque você lia em voz alta, como se soubesse que eu estava por perto, escutando.
Mas isso foi depois que a dona Balbiana, pedindo segredo em relação aos outros hóspedes, transferiu para o meu cômodo uma secretária que ficava no quarto dela e estava sem uso desde a morte do espanhol. Era nela que eu te via, sentado de frente para uma janela, para onde olhava ao levantar os olhos dos papéis. Eram esses sonhos que me mantinham esperançosa de te encontrar, depois de um dia andando em vão ou de ouvir a Ricardina dizendo que eu estava perdendo tempo, que nunca te acharia, que nunca poderia ter certeza de que você estava mesmo na cidade. Sei lá por que motivo ela dizia que você poderia estar nas Antilhas, que os escravos de São Sebastião do Rio de Janeiro seriam todos mandados para as Antilhas, que os ingleses já estavam embarcando centenas e centenas, contra a vontade dos pretos e com a permissão do imperador. O
Omissias disse que aquilo não tinha fundamento algum, que a estraga-prazeres devia ter ouvido rabo de
conversa e entendido tudo errado.
Chovia muito em São Sebastião, como eu nunca tinha visto, nem em África, nem na Bahia ou no Maranhão.
Durante o dia, de uma hora para outra o céu se tornava tão escuro que só mesmo acendendo as lamparinas, como se fosse noite. As vezes chovia três, quatro, cinco dias sem parar, e as ruas de terra viravam chão de olaria, intransitáveis, e só mesmo os pretos com serviço urgente saíam de casa. Nos dias de maior aguaceiro, a Luzia, a Ricardina e o André não iam trabalhar, e mesmo eu só enfrentava a rua se tivesse visto no jornal a venda de um escravo que se parecesse muito com você. E não era raro isso acontecer, pois eu tinha a impressão de que em São Sebastião vendiam-se muito mais pretos jovens, e mesmo nos mercados onde continuavam a chegar peças de África, apesar da proibição, a grande maioria de homens e mulheres não tinha mais que vinte anos. Às vezes o Piripiri também ficava em casa, e comecei a achar que ele me olhava de maneira diferente. Não do jeito que olhava para a Juana, pois todos os homens a desejavam, mas havia uma docilidade no olhar dele que percebi como interesse. Fez-me bem demais, porque havia muito tempo que eu não me interessava por homem, desde o doutor Jorge.
Eu não queria, mas vi que estava interessada no Piripiri em um daqueles dias em que o céu tinha vindo abaixo.
Estávamos eu, ele, o Mongo, a Juana, a dona Balbiana e a Luzia conversando na cozinha, quando comuniquei que ia subir para o meu cômodo para ler um pouco. A dona Balbiana disse que bem que gostaria de ouvir umas histórias, e então me ofereci para ler em voz alta. Era exatamente aquilo que eu queria, uma oportunidade de me exibir para o Piripiri, para me fazer de importante na frente dele. Mas achei que não tinha adiantado nada, porque naquela mesma noite ouvi novamente barulhos no quarto ao lado e concluí que eu era idiota por pensar que as minhas habilidades poderiam impressionar
alguém. Nem o Piripiri e muito menos a Juana, que provavelmente nunca se interessaria em aprender a ler ou escrever, e nem via vantagem alguma em quem sabia.
Para muitas pessoas, isso era algo completamente dispensável, do mesmo jeito que era para um branco tornar-se preto; não tinha serventia alguma.
A Rua do Ouvidor
Eu comprava livros do outro lado da Rua do Ouvidor.
Digo outro lado porque morava do lado da praia, perto da Praça do Mercado, junto das casas mais simples e do ar impregnado com o cheiro de peixe, hortaliças e alagadiços, das lojas de carne-seca, toucinho e quinquilharias baratas. Ou seja, do lado pobre. Mas assim que atravessava a quina com a Rua Direita, a Ouvidor se transformava, diziam que era a França brasileira, um deslumbramento como eu nunca tinha visto e nunca voltei a ver.
Era nos momentos em que a cidade oferecia coisas que me deixavam feliz que eu tinha mais esperança de que você estivesse nela, para que também pudesse conhecer aquele tipo de felicidade. Mas era só eu pensar nisso para que a tristeza aparecesse, e a culpa que nunca me abandonou, a de, por egoísmo de querer cuidar apenas de mim, ter deixado você virar escravo. Eu queria ter passeado com você em frente àquelas vidraças, como o Omissias fez comigo, contando sobre os lugares, as pessoas, as lojas e as casas. Em geral, as lojas tinham duas ou mais portas, uma que ficava para o acesso dos fregueses e as outras eram fechadas de alto a baixo com anteparos de vidro grosso e transparente, através dos quais vi coisas que nem imaginava que existiam.
Eu ainda me lembrava admirada do que tinha visto no solar da sinhá Felipa ou no dos ingleses, em São Salvador, mas não havia modo de comparação, a começar pelas liteiras e carruagens ricamente
decoradas, carregadas por pretos ou puxadas por cavalos, que iam parando de porta em porta, nas lojas, carregando os mais elegantes senhores e as mais distintas senhoras. A maioria dos estabelecimentos pertencia aos franceses, que passaram a ser bem recebidos quando o rei resolveu fundar um Instituto de Artes em São Sebastião do Rio de Janeiro. O Omissias contou que mesmo os mais ferrenhos republicanos, se tinham alguma admiração pela arte, também admiravam o D. João VI.
Em nome da boa arte, ele se esqueceu da rinha com os franceses, porque tinha sido por causa deles que toda a família real foi obrigada a fugir para o Brasil, e quando quis montar o melhor instituto de arte em terras brasileiras, foi aos franceses que recorreu, por serem os melhores artistas do mundo na época. Atrás dos artistas seguiram os comerciantes com os produtos, as modas e os modos franceses. Aliás, o francês era a única língua falada nas casas de modas para senhoras, e as brasileiras logo trataram de aprender.
No início do trecho rico, na quina com a Rua Direita, já havia de um lado uma modista, por onde as mulheres começavam a sua peregrinação, e do outro uma charutaria, onde os homens esperavam por elas.
Lembro-me particularmente de alguns estabelecimentos, como o Jornal do Comércio, e da loja de papelaria do senhor Passos, de que já falei. Mas havia outras igualmente interessantes ou até mais, como a Confeitaria Charceller, instalada onde antes já tinha sido ponto de três irmãs de Minas Gerais, doceiras famosas que abasteciam as grandes recepções nos solares e até mesmo na corte.
Havia outros cafés e tabernas, onde se reuniam fazendeiros,
políticos,
jornalistas,
mademoiselles,
boêmios e artistas, mas nenhum tão famoso quanto o Charceller, que oferecia refrescos, cajuadas, águas
imperiais e gasosas, lunch, gelados, chás, biscoitos, petiscos e ceias feitas sob encomenda, que também podiam ser servidos em uma saleta reservada, nos fundos. Até o imperador D. Pedro I já tinha comparecido às tais ceias, em companhia de um amigo chamado Chalaça.
No início eu tinha vergonha de entrar na confeitaria, mas, dia após dia passando em frente e olhando as tentações por detrás das vidraças, perdi a vergonha e entrava para comprar um doce sempre que tinha dinheiro sobrando. Não eram melhores que os doces das freiras da Bahia, nem tão bonitos, mas havia muitos sabores diferentes, com receitas francesas. O imperador também freqüentava outras Casas da Rua do Ouvidor, em horários reservados somente para ele, e alegrava os vendedores com generosos quinhões. Dizem que ele também freqüentava serões em algumas casas que não tinham boa reputação, como um enorme sobrado de três andares que ficava quase na quina com a Rua dos Ourives. Lá moravam quatro francesas, que, à luz do dia, forneciam flores de seda para a florista madame Finot, e, à noite, recebiam distintos cavalheiros para luxúrias e diversões.
Na primeira vez que passamos em frente à loja da madame Finot, saía de lá uma alegre malta de estudantes, que o Omissias disse serem os formandos da Escola de Medicina, que tinham por costume oferecer ramos de cravos aos mestres e às pessoas importantes que compareciam à cerimônia de formatura. Olhando a vidraça, fiquei encantada com a delicadeza do trabalho da florista, que fabricava e vendia flores de seda, de penas de pássaros, de asas de borboletas e até mesmo daquela pele fininha que fica por dentro das cascas dos ovos.
A maioria das flores era para enfeitar o colo ou os cabelos das mulheres, mas havia também trabalhos
como leques e quadros, e elegantes arranjos de flores de verdade. Dentro da loja vi uma mulher que o Omissias confirmou ser a madame Finot, e comentei que não entendia como uma pessoa tão feia podia fazer coisas tão bonitas. Ele riu e disse para eu observar as floristas, as jovens raparigas que ela contratava nem tanto pela habilidade, mas, principalmente, pela beleza. Elas eram um chamariz para a loja, e havia grande rotatividade porque muitas acabavam arrumando bons casamentos, ajudadas pelo treinamento e pela educação dados pela florista.
Havia também uma outra loja da qual não me lembro o nome verdadeiro, pois era conhecida apenas como Loja das Judias. Era uma loja de modas e acessórios para senhoras, mas muito mais freqüentada pelos homens, pois as três atendentes judias eram mestras em atrair fidalgos endinheirados e fazer promessas com olhares, sorrisos e gestos, deixando que eles gastassem mais do que pretendiam, para depois negacear. Havia até apostas entre eles sobre quem conseguiria ir mais além, ou seja, tirar as judias de atrás do balcão.
Quando se falava em flores, o principal nome da Rua do Ouvidor era o da madame Finot, mas quando o assunto era moda, todos falavam da mademoiselle Joséphine.
Durante muito tempo foi ela quem determinou o que seria ou não usado pelas senhoras e senhoritas de São Sebastião do Rio de Janeiro. Era ela quem vestia a imperatriz e, portanto, tornou-se a mais desejada modista entre todas as modistas da província. Diziam que podia cobrar o que quisesse, porque as filhas e esposas usavam de todos os recursos para convencer pais e maridos de que, se não usassem vestidos feitos pela mademoiselle Joséphine, seria melhor que nem saíssem de casa.
Seu nome era tão conhecido e ela ganhava tanto dinheiro que, depois de casada, convenceu o marido de
que não era prudente começar a ser chamada de madame. O Omissias comentou que as más línguas diziam que muitas e muitas safras de café ou de cana já tinham sido trocadas pelas criações da mademoiselle Joséphine, porque a aparência das esposas e das filhas contava muito para assegurar a boa saúde financeira dos seus provedores. Depois de achar que já estava rica o suficiente, a francesa voltou para a terra dela e muitas outras tentaram tomar o seu lugar, mas nunca conseguiram.
O Omissias disse que, antes dela, uma outra modista também tinha conseguido grande prestígio, a madame Saisset, mas, por vergonha das constantes bebedeiras e dos vexames do marido, ela teve que voltar para a França. Onde antes ficava o ateliê da madame Saisset foi aberta a loja de tecidos e acessórios do senhor Wallerstein, que vendia as melhores sedas, os mais lindos leques, os mais elegantes xales. As senhoras confiavam tanto no bom gosto do senhor Wallerstein que compravam a seda e deixavam que ele escolhesse a modista e o modelo, pois, com certeza, seria o mais elogiado nos salões importantes da corte. Algumas lojas tinham produtos até mais bonitos, de melhor qualidade e mais baratos que a loja do senhor Wallerstein, mas não tinham o mesmo prestígio, pelo qual ele cobrava muito caro.
Lembro-me também de um letreiro escrito "Fábrica de Fundas (Fundas: aparelho para contenção de hérnias), do Vannet", diante da qual o Omissias se atrapalhou todo para me explicar para que serviam as tais fundas, fabricadas em ouro. Outra casa anunciava a venda dos melhores charutos cubanos, a Loja do Bernardo, ponto de encontro de senhores elegantes. Muitos deles eram de outras províncias ou de fazendas no interior, e se espalhavam pelos hotéis da Rua do Ouvidor e imediações, e alguns tinham até quartos cativos. Havia também duas ou três lojas de litografia, e nelas senhores
ou senhoritas tocavam piano e outros instrumentos para atrair os fregueses e mostrar as peças, entre as quais havia muitas modinhas e até mesmo lundus. Uma dessas lojas ostentava com orgulho uma tabuleta pendurada do lado de fora da porta, dizendo que fornecia música para S.M.I. (S.M.I.: Sua Majestade Imperial).
Lembro-me também de uma outra tabuleta com a inscrição "Cabeça de Ouro", uma loja de cabeleireiros onde se faziam penteados e que vendia tranças crescentes. Mas não era muito famosa, porque nenhuma outra loja do gênero em São Sebastião conseguia superar a Desmarais, que dava gosto só de passar em frente à porta.
A loja dos Desmarais também vendia perfumaria e artigos para o toucador de homens e mulheres, dos mais cheirosos. Passar em frente àquela loja era um presente para o olfato, com suas vidraças cheias de produtos para cabelos, barba e pele, na forma de essências, sabonetes, vidrinhos e lencinhos de cheiro, óleos, pastas, escovas, esponjas, adornos de toucador, apliques e muitas outras coisas. Engraçados e interessantes eram os pentes que se chamavam "trepa-moleques", ou seja, penteados enormes feitos com cabelos de verdade em torno de pentes maiores ainda, que as mulheres tinham que equilibrar em cima das cabeças, como nós, os pretos, fazíamos com os cestos, as trouxas e os pacotes que carregávamos. A loja também tinha cabeleireiros que ditavam as modas para mulheres e para homens, que muitas vezes iam lá todos os dias colorir os fios brancos, disfarçar a calvície, fazer escovinhas, avivar os cachos ou fazer um penteado que se usava muito na época, chamado de "à romântica", o preferido dos jovens estudantes e dos velhos que queriam se passar por jovens.
Eram vaidosos os homens daquela cidade, e o Omissias contou que alguns chegavam a dormir com papelotes,
como faziam as mulheres. Eram dois os irmãos Desmarais, e um deles era muito simpático, não se incomodando com quem simplesmente ficava a olhar do lado de fora, como era o meu caso. Quando passou a me reconhecer, sempre cumprimentava com um bonjour, e em um dia que eu estava muito bem-vestida chegou a me chamar de madame. Aliás, acho que aquele era o meu trecho preferido da rua, porque logo em frente ficava a livraria do senhor Mongie.
O senhor Mongie também era francês e tinha se mudado para o Brasil com a idéia de fazer tanto sucesso quanto o pai, que tinha uma livraria em Paris. Acho que era muito amigo do senhor Desmarais, pois muitas vezes vi os dois conversando, cada um da sua porta. Na primeira vez que entrei em sua loja, o senhor Mongie estava conversando com dois senhores, e tentei permanecer o maior tempo possível lá dentro, prestando atenção ao que diziam.
Mas também para me decidir, pois não sabia o que comprar.
Os livros que eu tinha comprado em São Salvador eram indicações do padre Heinz, que eu já levava anotadas ao alfarrabista. Mas foi me lembrando daquele quarto que ele tinha, onde os livros tinham uma certa ordem, divididos por autores ou por assuntos, que consegui encontrar o que procurava, os livros de histórias.
Espantei-me com o preço, mas saí feliz com meu livro e mais feliz ainda comigo mesma, pelo que tinha acabado de fazer. Quando voltei, pouco mais de uma semana depois, o próprio senhor Mongie foi falar comigo, perguntando para quem eu comprava livros.
Eu adorei que ele tivesse perguntado aquilo, porque me orgulhava de contar para as pessoas que sabia ler. Ele não me pareceu muito espantado, ou então foi suficientemente educado para não parecer, e perguntou de que tipo de leitura eu gostava. Abriu um meio sorriso enquanto eu tentava me lembrar de nomes que
pudessem impressionar, depois falou um "muito bem" e perguntou se poderia me indicar alguma coisa. Para mim não havia idéia melhor, mas ele disse que seria difícil encontrar livros com histórias se eu não aprendesse o francês, a língua usada na maioria dos livros da loja.
Conseguiu encontrar um bonito exemplar de O
engenhoso fidalgo D. Quixote de La Mancha feito em Portugal, que a dona Balbiana até interrompia o serviço para me ouvir lendo, por falar das terras do seu saudoso Juan.
Tal livro fez enorme sucesso apesar da grossura, e tive que lê-lo duas vezes seguidas, enquanto todos queriam dar palpites na vida do imaginoso fidalgo e na do seu escudeiro. Foram discussões muito animadas, e voltei à livraria para pedir ao senhor Mongie que conseguisse mais livros como aquele. Contei que costumava freqüentar alfarrábios em São Salvador e ele me falou com muita consideração de um alfarrabista que até poucos anos atrás tinha loja onde então funcionava o Café e Restaurante de Londres, ali mesmo na Ouvidor.
Se não me engano, o nome do alfarrabista era Albino, de quem o senhor Mongie havia inclusive comprado livros antigos e folhetos de assuntos que lhe eram interessantes, e mais uma porção de coisas que de nada serviam, só para ajudar o velho quando ele teve que fechar a loja por motivo de doença. A loja do senhor Albino tinha sido muito freqüentada por estudantes, pois oferecia as publicações a preços mais baixos, edições encadernadas e em brochura. Eu mesma adquiri do senhor Mongie um dos livros que ele tinha comprado do senhor Albino, os que ficavam em uma saleta no fundo da loja. O livro tinha sido escrito por um padre com uma alcunha bastante interessante, padre Perereca. O senhor Mongie disse que, muito tempo antes de fechar a loja de livros, o senhor Albino já estava cego e bastante surdo, mas mesmo assim fazia questão de ajudar no atendimento aos fregueses.
Dois rapazotes trabalhavam com ele, que perdia a paciência se eles não conseguissem encontrar o que era solicitado, quando então recorria a uma buzina que colocava no ouvido, onde pedia que o freguês repetisse o pedido. Depois de entender, e não se esqueça de que era cego, o senhor Albino ia certeiro até o lugar onde estava o livro, tendo às vezes que subir em uma escada para alcançar as prateleiras mais altas. O incrível era que, com uma breve passada de mão pelas lombadas, ele sempre acertava. O senhor Mongie tinha presenciado várias
vezes
fatos
como
esse,
verdadeiras
demonstrações de amor aos livros e de boa memória, de muita leitura e observação. Passei horas agradáveis com o Senhor Mongie, que também era curioso para saber da minha vida, das minhas lembranças da África, da Bahia e do Maranhão, e disse que dariam um livro. Vai ver ele tinha razão, porque acho que é exatamente isso que estou fazendo agora, um livro só para você...
A memória Eu não sabia que ainda me lembrava de todos esses nomes, mas acho que foi de tanto percorrer aquela rua olhando as vidraças em busca de coisas bonitas e surpreendentes. Algumas delas eu até podia comprar, e muitas vezes me senti tentada, mas não era realmente algo de que eu precisasse ou gostasse demais, como os livros. Será que você gosta de ler? O que será que você gosta de comer? Será que encontrou uma boa esposa?
Teve filhos? Quantos? São muitas as minhas perguntas e sei que ficarão sem resposta. E como sei que isto é ruim, tento me lembrar de cada detalhe importante da minha vida, para responder a todas as dúvidas que você pode nem saber que tem. Sabe que tenho realizado um grande sonho? Não exatamente como o sonhei, mas já é alguma coisa, porque naqueles dias em São Sebastião eu pensava muito em quantas coisas teria para te contar quando nos encontrássemos, em todos os lugares a que eu queria te levar, nas pessoas a quem queria te
apresentar. De certo modo é o que faço, embora quase nada do que estou falando faça parte da nossa memória em comum, como eu gostaria que fosse.
Em dois ou três meses eu já conhecia muito bem a cidade, sabia que, assim como em São Salvador, quase todos os pretos que andavam pelas ruas eram livres, ou cativos de ganho ou de aluguel. Os cativos morriam de medo de serem mandados para o interior, onde faltavam escravos nas fazendas de café. O governo já tinha tentado buscar em Portugal pessoas para trabalhar nos campos, pagava as passagens, dava jornal mensal e até mesmo pedaços de terra, mas elas não se acostumavam e logo iam montar comércio na cidade. Havia também um grande número de pretos fujões, tanto da província quanto de outras terras, que tentavam se passar por libertos ou, os mais precavidos, habitavam os inúmeros quilombos que havia nas redondezas.
A polícia sabia de muitos deles, mas não ousava ir até lá por medo da força e dos feitiços dos pretos. Os morros estavam apinhados de quilombos, principalmente o Catumbi e o Corcovado. Atiçados por brancos ou mulatos que eram contra a escravidão, os pretos fugiam, e o Omissias me contou a história de um desses atiçadores de fuga, de quem não me lembro o nome. Era um mulato muito conhecido pelos pretos de São Sebastião, o que era curioso, pois, na Bahia, pretos, pardos e mulatos não se davam bem. O tal mulato tinha se formado médico na França, e muitas vezes eu quis ir atrás dele. Queria ter visto as escolas de pretos que ele mantinha, ensinando a ler e escrever, e ensinando também que os pretos eram muito melhores que os brancos, tão inteligentes quanto e muito mais fortes.
Acredito que, se fosse na Bahia, os pretos já teriam se revoltado para tentar provar essa afirmação, mas em São Sebastião todos eram mais pacíficos, ou mais vigiados.
Ou viviam melhor, porque havia muito mais trabalho nas ruas e nas diversas manufaturas que negociavam produtos com comerciantes estrangeiros e de outras províncias. Os navios partiam de São Sebastião carregados de tecidos, chapéus, sapatos, vidros, móveis, cerâmicas, velas e café, que também deixavam a cidade em lombos de burros, seguindo para o interior e para a província de Minas Gerais. As fazendas de café se espalhavam por Irajá, Jacarepaguá, Inhaúma, Campo Grande, Santa Cruz e Guaratiba, e quando fiz menção de visitá-las procurando por você, logo me disseram para desistir, pois eram propriedades de difícil acesso e muito longe umas das outras; que eu só deveria visitá-las tendo um palpite certo.
Já estamos parados há dois dias, pois não há vento, e por enquanto está sendo bom para mim, pois tenho certeza de que não chegarei viva. Portanto, esses dias de paradeira são como presentes que vou aproveitando para terminar o relato. Por outro lado, isso também preocupa, pois muitos pretos morreram no mar por falta de água ou de comida, quando a provisão não era suficiente Para enfrentar longos períodos de calmaria.
Mas voltando a São Sebastião do Rio de Janeiro, os dias não eram nada calmos e o tempo passava rápido, aproximando o final do ano. Eu já tinha mandado várias cartas para a Bahia, com medo de que a primeira tivesse se extraviado, e nada de chegar resposta, do Tico nem do doutor José Manoel. Vendo-me escrever tanto, e gostando dos serões de leitura, foi por essa época que a dona Balbiana pediu que eu ensinasse os moleques do Buremo, e eu gostei da idéia, para ocupar o tempo.
As aulas tinham que ser dadas à noite, porque durante o dia os dois estavam ocupados como aprendizes. De manhã o Pablo freqüentava uma oficina de ourives para aprender a profissão e à tarde fazia companhia para a mãe, quando era a vez de o Esteban ir para uma oficina de sapateiro. Eles não recebiam nada pelo trabalho de aprendizes, e o pai se dava por satisfeito por não ter que pagar, pois era assim que acontecia em grande parte das oficinas e manufaturas, que funcionavam como escolas de novos oficiais. Devo deixar bem claro que a idéia das aulas de leitura e escrita partiu da dona Balbiana, mas ela também não teve culpa alguma, pois ninguém poderia imaginar as conseqüências daquelas aulas ministradas na cozinha, logo depois da ceia. Procurei livros de ensinar a ler e a escrever em português, mas havia apenas os que ensinavam em francês, que não serviam aos meus propósitos. Se tivesse levado a sério o conselho do senhor Mongie, deveria tê-los comprado para mim, pois falar francês teria sido muito útil mais tarde, em África, quando eu já estava velha demais para
aprender.
Um passeio
Aos domingos, todos saíam para se divertir, e até mesmo a dona Balbiana aproveitava para visitar parentes e descansar da trabalheira no preparo da saleta de pasto aos sábados. Em um domingo, pouco antes do Natal, fiquei surpresa e feliz quando o Piripiri me convidou para acompanhá-lo a um compromisso no Morro do Castelo. Logo que nos pusemos a caminho, por sinal um longo caminho, passamos por algumas regiões que não eram muito agradáveis aos olhos e aos narizes, com o chão muito úmido e escorregadio e alguns alagadiços de vegetação podre, mas assim que chegamos ao pé do morro, fiquei deslumbrada com a paisagem. À medida que subíamos por uma ladeira calçada de pedras, a paisagem ficava cada vez mais bonita, o mar, a baía, e algumas construções que o Piripiri ia me contando como eram ocupadas. A caminhada era cansativa, mas a conversa e a companhia eram boas, e por isso acho que teria chegado ao topo sem sentir, mesmo que as pernas doessem muito no dia seguinte.
Pela amostra do que cheguei a ver, adoraria mesmo ter ido até lá em cima, de onde o Piripiri disse ser possível ver toda a baía e até mesmo além dela. Mas, à meia altura, tomamos uma picada e começamos a contornar o morro. A mata era mais fechada e a trilha, mais perigosa; passávamos a pouca distância de vários despenhadeiros, e em alguns trechos era possível ver o quanto já tínhamos subido. Eu gostava quando o Piripiri se preocupava com a minha segurança e me dava a mão, ou mesmo me enlaçava pela cintura, puxando para mais perto
dele.
Também
vimos
diversos
animais,
principalmente macacos, e depois de mais de meia hora de caminhada, quase passando para o outro lado do morro, começamos a ouvir vozes e música, e ele avisou que já estávamos chegando. Era uma parte plana do
morro, uma clareira onde havia umas cabanas e uma enorme capueira (Capueira: até por volta de 1856, era como se dizia "capoeira". Uma hipótese para o termo é que ele se origina do guarani caá(ou ka'á)-puêra, que significa "mato que se foi, mato cortado", ou então mato miúdo que nasce no lugar do mato virgem derrubado.
Era em clareiras assim, abertas nas matas, que os pretos praticavam o jogo/luta. Outra origem do nome é a palavra "capu"— termo também indígena que junta "ca", que pode designar qualquer material oriundo da mata, e que significa cesto. Os capus eram usados pelos pretos carregadores, então chamados de capueiras. Eles, os carregadores, eram maioria entre os jogadores, principalmente os que trabalhavam no cais e que, nas horas de folga — até por isso a luta é chamada de
"folguedo" —, faziam as "disputas de estiva" para estabelecer uma hierarquia e definir quem ficaria com os trabalhos mais, ou menos, leves e rentáveis)., no meio da qual se exercitavam alguns pretos em bonitos balanços de corpo.
O Piripiri me instruiu a não dizer que era do Daomé, mas sim uma crioula nascida na Bahia, pois os eves e os fons, ou pretos-minas, como nos chamavam, eram minoria em São Sebastião e não se davam bem com os outros africanos. Como exemplo, ele me falou que os mais, meus parentes, mantinham a congregação de Santo Eslebão e Santa Efigênia na Igreja de Nossa Senhora da Candelária e não aceitavam a participação dos angolas.
Os de Cabo Verde, de São Tomé, de Moçambique e até mesmo os brancos e os pardos podiam se associar, mas não os angolas, os crioulos, os cabras e os mestiços. Os ogans da congregação que admitissem qualquer um desses nunca mais exerceriam cargo algum, e os ilegais eram expulsos, como também os congregados que participassem de reisados, festas ou congadas promovidos pelos angolas. Não sabendo que eu era maí, os angolas amigos do Piripiri me receberam muito bem.
Os capueiras
Muitas pessoas formavam um círculo em torno da capueira, uma grande festa, com gente sentada pelo chão, conversando e comendo, ou formando várias rodas de dança, cada qual com seu batuque. O Piripiri me apresentou para alguns conhecidos, parentes ou homens com quem trabalhava nos armazéns, usando o meu nome de branca. A certa altura, um homem saiu do meio de uma das rodas dando piruetas no ar como se não tocasse o chão, e em um piscar de olhos estava no centro da capueira. Não era alto e nem baixo, o corpo magro também não era musculoso, portanto não sei de onde tirava toda a força que mais tarde demonstrou.
Capueira também era nome dado ao preto que sabia jogar, e o Piripiri, que estava sempre ao meu lado, disse que aquele homem era o Mestre Mbanji, um dos mais famosos capueiras de São Sebastião do Rio de Janeiro.
Os que estavam de pé se sentaram, os que estavam conversando se calaram, os que tocavam instrumentos se juntaram silenciosamente a um canto, e todos nós esperamos que o Mestre Mbanji falasse.
Ele começou dizendo que aquele era um dia muito importante, pois vários capueiras seriam testados, o que era muito bom para os pretos. Só os pretos tinham jeito para a capueira, que podiam usar para se proteger do poder dos brancos, e que por isso tinha que ser muito bem aprendida e guardada. Um bom capueira nunca deve mostrar tudo o que sabe, ou pelo menos deve fazer parecer que não mostrou, e para isso nem precisa ser forte, mas estar sempre atento e ser esperto. O Mestre Mbanji disse que a capueira é como uma conversa, um faz uma pergunta de supetão e o outro tem que ter a resposta pronta, e ganha quem faz a pergunta que o outro não consegue responder. Eu achei isso bonito, e é a mais pura verdade, cada qual tem que descobrir o seu jeito de fazer perguntas, porque elas são sempre as mesmas, assim como têm as mesmas respostas.
Um bom perguntador é aquele que finge que vai perguntar uma coisa e pergunta outra, porque se o outro a adivinha, dá a resposta antes. O Mestre Mbanji chamou isso de mandinga, coisa que o branco não entende» que não nasce com ele, só com o preto. Porque a mandinga também é a humildade, é fazer-se de fraco quando não é, é lutar até deixar o outro tão cansado a ponto de errar a resposta ou de não conseguir fazer mais perguntas. Dava vontade de continuar ouvindo as palavras dele por muito mais tempo, porque tudo o que ele falava servia para outras coisas da vida da gente, não só para a capueira. Mas ele disse que tinham que começar ou não daria tempo de todos se apresentarem.
Os músicos foram divididos em três orquestras, cada qual com um atabaque, dois pandeiros e três berimbaus (Berimbau:
no
texto
original
estava
como
m'bolumbumba), e quando uma delas se cansava, a outra imediatamente começava a tocar. O Mestre Mbanji começou a bater palmas e a cantar uma ladainha, repetindo o refrão para que todos o acompanhassem. Foi uma saudação a outro Mestre que estava presente e entrou na roda, aceitando o desafio para uma exibição.
Eu fiquei empolgada, porque queria ver na prática tudo o que ele tinha acabado de falar, e não me decepcionei.
Primeiro o atabaque, depois os pandeiros e por último os berimbaus, que tinham tamanhos e sons diferentes, começaram a tomar o lugar das palmas. Os dois jogadores se benzeram ao pé do berimbau do meio e ficaram agachados na frente dele, esperando o sinal para começar.
Cada som ou toque de berimbau, o instrumento mais importante, tem o seu significado, que o Piripiri me explicava conforme eram executados. Os dois Mestres primeiro se cumprimentaram e depois tomaram distância, sempre um olhando nos olhos do outro para saber quem tomaria a iniciativa da conversa. Então, curvaram os corpos para a frente e deixaram os braços
pendendo, moles, embalados pelas pernas, que não paravam quietas, ora o apoio em um pé, ora no outro, indo para a frente, para trás e para os lados. Acho que só eu prestei atenção nesses movimentos, porque nunca tinha parado para vê-los tão de perto, já que em São Salvador passava ao largo quando via uma roda montada, com medo de confusões.
A atenção das outras pessoas estava voltada para os olhares dos Mestres, como se entre eles já estivesse sendo travada uma luta ainda mais perigosa, armada, porque aqueles olhares cortavam como facas de verdade. Cada um deles tinha lâminas saltando dos olhos, cortando o avanço do outro. O berimbau menor, que também era chamado de violinha, puxou um toque diferente, que o Piripiri disse ser o toque de iúna, tocado apenas para os Mestres, quando ninguém podia cantar ou bater palmas, em sinal de respeito e de que valia a pena prestar atenção, sem nada para distrair.
Ao mesmo tempo, como se tivessem combinado, eles apoiaram as duas mãos no chão e jogaram as pernas para cima, cruzando os corpos no ar e caindo de pé quase no lugar exato de onde o outro tinha saltado. Era apenas uma exibição e por isso não se tocavam, os movimentos eram lentos e bonitos, todos feitos bem abaixados, bem perto do chão, negaceando e avançando como se o corpo não tivesse peso algum, não ocupasse espaço algum, mas toda a roda ao mesmo tempo. Em alguns momentos eles pareciam animais, macacos, tigres, pássaros, cobras, e em outros pareciam estar trabalhando, apoiando os braços no chão e fazendo o roçado usando as pernas como foice.
O toque mudou para o de angola, em que o atabaque batia mais forte, mas mesmo assim lento e triste, como se o berimbau chorasse. O choro foi se transformando em agonia, ficando cada vez mais forte e cadenciado para o toque de São Bento, e logo era nada menos que um grito chicoteando forte os dois corpos, que começaram um jogo rápido, rasteiro, voador, mas sempre rente ao chão, onde os movimentos de um paravam a menos de uma polegada de atingir o outro. A música também entrava dentro da gente, dando vontade de sair jogando, se fosse possível tirar os olhos do que acontecia na nossa frente. Parecíamos em transe, até que, com um aú feito ao mesmo tempo, eles se cumprimentaram e deram o jogo por encerrado sem que ninguém saísse vencedor. Quero dizer, nenhum dos dois, porque nós tínhamos ganhado um belo espetáculo.
Quando consegui falar, a primeira coisa que fiz foi agradecer ao Piripiri, que disse que dentro de instantes seria a vez dele.
O Mestre Mbanji chamou ao centro da roda os capueiras que seriam batizados naquele dia, e o Piripiri comentou que aquele era um momento de grande emoção para eles, que até então não podiam ser chamados de capueiras. Para cada um havia uma madrinha ou um padrinho, que colocaram nos pescoços deles um colar trançado com fibra de bananeira e enfeitado com uma pena colorida. Um a um, os iniciantes entravam na roda e eram desafiados por um capueira experiente escolhido pelo Mestre. O berimbau começava com o toque de angola, passava pelo de angolinha, que era um pouco mais rápido, e pelo corrido, para então voltar ao de angola e terminar o jogo. Durante todo o tempo eram cantadas as quadras e as chulas, puxadas por um dos músicos e acompanhadas por todos nós, que batíamos palmas e soltávamos a voz nos refrões. Muitas das letras eram inventadas na hora e geralmente falavam alguma coisa engraçada sobre os jogadores, para ver se eles perdiam a concentração. No fim do jogo, só podiam ser batizados os que tinham conseguido manter o colar no pescoço, que o jogador mais experiente tentava tirar usando apenas os pés.
Quando o Piripiri me contou isso, ainda antes de
começar, eu achei que seria bem fácil, mas dos nove que se apresentaram, apenas dois passaram no teste e puderam receber a alcunha de capueira; os outros teriam que treinar mais e tentar de novo. Cada capueira ganhava uma alcunha, e foram engraçadas as escolhas, que podiam ser por causa do jeito de a pessoa andar, uma característica física ou uma mania, e todos quiseram dar sugestões antes que o Mestre Mbanji escolhesse a definitiva. Naquele dia descobri o motivo da alcunha do Piripiri, porque achavam que ele tinha a malícia da pimenta de angola, apiripiri, ofilefile, que de início parece ser nada, mas que pode queimar a boca de quem abusa dela. Amim ele queimou não apenas a boca; quando o vi jogando, soube que aquele homem me marcaria como se marca escravo, como ferro em brasa.
Havia cinco participantes no teste do qual o Piripiri participou, tentando merecer um lenço encarnado que significava muito para eles, mas somente ele e mais outro foram aprovados. Eram todos capueiras muito experientes, sendo testados por desafiantes ainda mais experientes, ou pelo menos mais perigosos, pois, além de jogarem em grupo, ainda usavam armas. O Piripiri, apesar de ser um homem alto, conseguia ser quase tão leve, rápido e gracioso quanto o Mestre Mbanji, pelo menos na minha opinião. Ele entrou sozinho no meio da roda e se benzeu ao pé do berimbau, que puxou um toque chamado ladainha, lento, ainda mais sofrido que o toque angola.
Na verdade, era mais uma oração puxada pelo cantador e com o refrão repetido por todos nós, e que me deu imensa agonia. Mas eu tentava prestar atenção só nele, nos movimentos que fazia, solitário, no meio da roda.
Depois ele me disse que eu devia ter prestado atenção na letra da ladainha, especial para cada jogador, porque falava do que ia acontecer, dos desafios que ele ia enfrentar e até mesmo dos desafiantes.