Um Defeito de Cor

Ana Maria Gonçalves · Capítulo 10 de 12 · parte 2/8

Páginas do PDF

Um Defeito de Cor

Capítulo oito

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.

Ela disse que ali estava o segredo do sonho, e com muito cuidado abriu a manta para me mostrar um pote exatamente igual ao que eu tinha visto no meio do rio.

Diante do meu espanto, comentou que o mundo era só uma aldeia e que aquele pote pertencia mesmo à Nega Florinda. Ela e a Mãe Assunta tinham se conhecido na ilha e eram muito amigas, embora não fossem da mesma região.

Um dia a Nega Florinda apareceu na casa da Mãe Assunta com o embrulho e perguntou se podia guardá-lo ali, pois estava dividindo a casa com uma mulher pejada e, por conta disto, recebendo muitas visitas, inclusive de brancos. Tinha medo de que não tomassem o devido cuidado com o pote ou até mesmo que o destruíssem, não sabendo da importância que ele tinha para ela. A Mãe Assunta tinha guardado o pote e não se lembrava mais dele, e, pelo jeito, nem a Nega Florinda.

Comentei com a Mãezinha que eu sabia onde a Nega Florinda estava, e nós duas tivemos o mesmo pensamento, concluindo que eu precisava levar o pote até ela. Eu não tinha a mínima idéia de onde ficava a província do Maranhão e nem a quanto tempo de viagem, mas nem pensei em não ir. Naquele mesmo dia, a Mãezinha jogou os búzios e confirmou que a mensagem do sonho era mesmo esta, que eu deveria partir o mais depressa possível. O jogo que a Mãezinha fazia era diferente do jogo do Babalaô Gumfiditimi, e ela me explicou que às ialorixás, como ela e a Mãe Assunta, só era permitido o jogo com os dezesseis búzios separados, e não com as oito metades de opelê ligadas por um fio, como faziam os babalaôs.

No dia seguinte, comecei os preparativos para a viagem e queria ir visitar o Babalaô Gumfiditimi, que provavelmente me daria notícias da Nega Florinda. Mas a Mãezinha foi contra, mesmo não sabendo o motivo pelo qual eu tinha fugido da cidade, e disse que eu deveria ir direto ao meu destino, e que, a caminho, ele mesmo trataria de me guiar. O Dumé foi até São Salvador levar um bilhete em que eu pedia ao doutor Jorge que procurasse o doutor José Manoel e pedisse para ele me mandar algum dinheiro, do que tinha aplicado para mim.

O Dumé teve que dormir na cidade, esperando a casa financeira abrir na manhã seguinte, e me levou uma generosa quantia e a notícia de que todos estavam bem e que o nome da quarta filha da sinhazinha era Maria Luísa, em minha homenagem. O doutor José Manoel também queria saber onde eu estava, pois a sinhazinha ainda não tinha batizado a menina, querendo que eu fosse a madrinha. Apesar de eu nunca ter considerado Luísa como sendo o meu nome, era por ele que muitos brancos me chamavam, e fiquei muito honrada com a notícia. Eu sentia uma certa inveja da sinhazinha, que podia criar suas quatro filhas enquanto eu não podia ter

junto de mim nenhum dos que tinha gerado.

Tive que mandar o Dumé novamente à cidade, para dizer que eu precisava fazer uma longa viagem e não sabia quando ia voltar, e que por isso não seria prudente deixar a pagãzinha esperando. Disse também que me sentia muito honrada e comovida, que eles nem imaginavam quanto. Aproveitando a ida do Dumé, mandei também um bilhete para ser entregue à Esméria, por intermédio do doutor Jorge, contando sobre a viagem, dizendo que eu estava muito feliz por fazê-la e que assim que chegasse ao Maranhão mandaria notícias.

Disse à Esméria que também pedisse ao Alberto para providenciar o seu batizado, que eu já deveria ter feito há muito tempo. Tinha passado a ser obrigatório para todos os habitantes da província da Bahia, e você poderia ter problemas se não portasse a certidão fornecida pelos padres.

A viagem

Menos de duas semanas depois do sonho eu estava tomando um saveiro para o Maranhão. De início, não tinha a mínima idéia de como fazer para chegar até lá, com o cerco a São Salvador. Primeiro pensamos que seria mais fácil ir por terra, como a Agontimé tinha feito, mas o Zé Manco disse que seria penoso e demorado. Foi um conhecido dele que me arrumou lugar em um saveiro que estava de partida para aqueles lados, mas avisou que a embarcação era pequena e a viagem não seria confortável.

Concordei em ir assim mesmo, porque não poderia achar desconfortável qualquer outra viagem depois de ter feito a de África para o Brasil. O Zé Manco me acompanhou até Itapuã, para onde fomos de barco depois de contornar a ilha, fugindo da vigilância. Quando chegamos, meus companheiros de viagem já esperavam para zarpar. Lembro-me apenas do nome do mestre

saveirista, Tibúrcio, um crioulo que aparentava ter por volta de cinqüenta anos e que, assim que me viu, disse que eu não precisava ter medo, que podia confiar na sua experiência de mais de trinta anos navegando pela costa do Brasil.

Além dele, havia três pretos, todos empregados ou escravos, não sei, com os quais tive pouco contato. Eu era a única passageira e a única mulher, mas em momento algum me senti intimidada, pois o mestre Tibúrcio era bastante rígido com seus homens, que foram muito respeitosos comigo, chegando mesmo a baixar os olhos quando eu estava por perto. Imaginei até que fossem muçurumins, mas com certeza não confirmariam se eu perguntasse, porque, depois do fracasso da rebelião, todos estavam tentando esconder que professavam a crença do profeta.

Nos primeiros momentos no mar, tive que me segurar várias vezes para não cair, e o mestre Tibúrcio disse que a viagem ficaria mais tranqüila assim que passássemos a arrebentação e nos afastássemos um pouco da terra.

Mas não foi o que aconteceu, e fiquei a viagem inteira esperando que o saveiro parasse de jogar. O mestre Tibúrcio tentava me animar, dizendo que estávamos com sorte por não pegarmos nenhuma tormenta, e que o mar estava muito tranqüilo em relação ao que ele já tinha visto, mas nos dois primeiros dias eu não consegui fazer com que nada parasse no estômago. Vomitei o que comi e o que não comi, e até gostei quando o corpo fraco só queria ficar deitado dia e noite, sob uma lona que estenderam para me proteger do sol quente.

De espaço coberto no saveiro havia apenas uma pequena cabine, que o mestre só deixava a cargo de algum dos homens quando realmente precisava descansar, mas todos os outros ficavam ao relento. O sol não parecia castigá-los tanto, pois suas peles tinham o aspecto de um couro duro, ressecado e repuxado, mas sofri

bastante com os ardores que a brisa e o reflexo do sol deixaram na minha. Enfim, eu só tinha um pouco de paz durante a noite, e depois de alguns dias vi que era melhor inverter o horário, para dormir durante o dia. Às vezes aceitava a cachaça que o mestre Tibúrcio oferecia, e poucos goles eram suficientes para fazer com que o corpo pedisse descanso.

Eu passava as noites encostada nos montes de caixas de vela e sabão que o mestre Tibúrcio levava para vender na província do Pará, de onde voltaria com um carregamento de castanhas e especiarias. O pote tinha sido cuidadosamente embalado, e todos no saveiro sabiam como era importante que aquela caixa chegasse intacta ao Maranhão. Eu estava curiosa com a reação da Nega Florinda, e esperava apenas que ela ainda estivesse viva e com boa saúde, para conversarmos bastante. A partir do meio da viagem, o mar ficou mais calmo e as noites, mais escuras, e eu conseguia até mesmo sentir um certo conforto com o movimento do saveiro, como se estivesse sendo embalada pelas ondas.

Naquelas noites, era interessante perceber como, depois do sonho com a minha avó, as histórias que ela contava voltavam mais facilmente à memória. Não me lembro se na época eu e a Taiwo prestávamos mesmo atenção, acho que nos distraíamos mais com a voz do que com o significado das palavras.

É por isso que também acredito que o sonho com o pote da Nega Florinda pode não ter sido simplesmente um sonho, mas sim uma recordação de algo real, de algo que a minha avó pode ter falado e que, na época, não prestei atenção. Eu me lembrava dela falando de Nana Buluku, a mais velha das mães, a que deu à luz o casal de ibêjis Mawu e Lissa, de quem todos nós viemos, e que tiveram sete filhos, sendo que um deles foi Xangô, o quarto rei de Oyó, e outro foi Ogum. Essas histórias me confundiam, porque na Bahia os nagôs falavam que Ogum era filho de Iemanjá.

O mestre Tibúrcio era filho de Iemanjá, e por isso não conseguia viver longe das águas, longe do mar, onde se sentia muito mais em casa do que quando estava em terra. Todas as manhãs eu o via saudar a rainha do mar, pedindo passagem e proteção para o saveiro e seus viajantes. Certa noite ele me contou que já tinha visto Iemanjá surgir das águas em uma noite de tempestade, quando já tinha certeza de que o saveiro ia adernar. Mas Iemanjá foi nadando na frente, acalmando as águas, abrindo um rio no meio do mar, barrando as ondas para que ele pudesse seguir em segurança. Quando ele me contou esta história, a noite já estava indo embora, e o dia surgiu de uma chuva muito leve, parecendo respingos do mar. Como o sol também já estava nascendo, um bonito arco-íris cruzou o céu de ponta a ponta, nascendo e morrendo no mar. O mestre Tibúrcio comentou que aquele era um bom sinal, que Iemanjá e Oxumaré estavam abençoando a nossa viagem.

A minha avó gostava de desenhar arco-íris nos tapetes que tecia, e me lembro de que a minha mãe tinha vendido um deles no mercado poucos dias antes de tudo acontecer. No centro do tapete estava Dan, com uma serpente em cada mão, protegido por um círculo formado por vários guerreiros de Xangô que usavam faixas vermelhas e brancas cruzando o peito e carregando o osé (Osé machado de Xangô, com duas pontas cortantes). Na parte de baixo do círculo havia uma árvore em homenagem a Ossaim, o que conhece o segredo de todas as plantas, ao lado de outro guerreiro segurando um instrumento feito de ferro, representando Ogum, o ferreiro, o grande caçador das florestas, o que pega em armas e nunca perde uma luta.

Envolvendo-os de um lado a outro do tapete, havia uma grande cobra vestida de arco-íris. E todas as figuras estavam olhando para o inimigo, um dragão branco com grandes asas, cauda comprida e garras afiadas. Algumas pessoas acreditam que o arco-íris é uma serpente das

profundezas que vai beber água no céu, mas a minha avó dizia que ele é Oxumaré, o que controla o bom tempo. Nos dias de sol, o orixá se transforma em arco-íris e sobe até o céu, levando água para o castelo de Xangô, que fica acima das nuvens. A chuva é a água que ele deixa respingar sobre a terra, porque as mãos estão sempre ocupadas, carregando duas serpentes de ferro.

Oxumaré não é homem nem mulher, mas as duas coisas juntas. Durante seis meses ele vive como homem e mora perto das árvores, e durante os outros seis é uma mulher muito bonita que vive nas matas e nas lagoas. No corpo de mulher, Oxumaré é Dani, que é o nome feminino da cobra Dan, e a minha avó desenhava Dani como a cobra enrodilhada que come o próprio rabo. Ela dizia que essa cobra, sem começo ou fim, é a mesma coisa que o trabalho de Oxumaré, que não pode parar de levar as águas até o céu, de onde elas tornam a cair, e para onde ele torna a levá-las, sem descanso. Era uma Dani que a minha avó estava tecendo no dia em que os guerreiros apareceram na nossa casa, em Savalu.

São Luís

Fiquei nervosa quando o mestre Tibúrcio comentou que a qualquer momento avistaríamos as terras da província do Maranhão. Eu não tinha idéia do que encontraria, mas queria muito rever a Agontimé, pois tinha gostado demais dela no dia em que a conheci em São Salvador, principalmente depois de perceber o carinho que ela tinha pela minha avó. Eu me lembrava da sensação de estar perto da Agontimé, uma mulher mais forte e mais sábia do que todas as que eu já tinha conhecido, uma rainha em África e no Brasil, e queria muito agradecer o presente que ela tinha me dado.

Só por causa daquela Oxum eu tinha conseguido comprar a minha carta e a do seu irmão, e ainda presentear algumas pessoas muito queridas, como o

Fatumbi e o padre Heinz. O mestre Tibúrcio disse que São Luís era muito parecida com São Salvador, apesar de bem menor. A cidade ficava em uma ilha, na entrada de uma baía formada por dois rios, sendo que eu ainda me lembro do nome de um deles, o Rio Anil. Havia mais duas ou três povoações nessa mesma ilha, mas bem menos habitadas que a capital da província. A cor das águas me decepcionou, pois esperava encontrá-las azuis ou verdes, como as águas da Bahia, mas tinham um tom de terra, que o mestre Tibúrcio disse ser por causa dos rios que desaguavam justo ali. Ele disse também que, para navegar pela baía de São Luís, era preciso conhecê-la bem, pois tinha mais lugares de encalhe do que a Baía de Todos os Santos, bancos de areia que se moviam e aumentavam ou diminuíam de tamanho de acordo com as chuvas e as marés.

O saveiro ficou no porto apenas o tempo suficiente para que eu desembarcasse, pois o mestre tinha pressa de chegar ao seu destino, distante mais dois ou três dias de viagem. A movimentação não era muito diferente da que havia no cais de São Salvador, e logo que desembarquei, alguns pretos se ofereceram como carregadores. Eu tinha pouca bagagem, apenas uma trouxa pequena com algumas roupas e o embrulho com o pote da Nega Florinda, que abracei junto ao peito e não tive coragem de confiar a ninguém. Contratei um guia e pedi que me levasse primeiro ao mercado da Praia Grande, em um lugar chamado Praça do Comércio, pois queria comprar presentes para a Nega Florinda e a Agontimé. Teria sido viagem perdida se lá eu não tivesse encontrado quem me indicasse os locais de encontro do povo eve do Daomé, o meu povo, porque não achei nada que pudesse ser do agrado delas, apenas um grande comércio de alimentos, principalmente de Portugal, móveis e muitos tecidos da Inglaterra.

Os ingleses buscavam algodão em São Luís, levavam para as fábricas da Inglaterra e voltavam para vender o

tecido pronto, aproveitando para também comerciar outras coisas. Foi o guia quem teve a idéia de perguntar se alguém conhecia o paradeiro do povo eve, ou jeje, como se falava na Bahia, pois ele era crioulo e católico.

Pelo jeito, assim como na Bahia, os crioulos do Maranhão também não se misturavam com os pretos.

Quem me indicou o lugar foi uma preta, que ficou muito feliz por conversar comigo em eve. Mas ela teve que repetir em português para que meu guia entendesse, porque eu não conhecia nada na cidade e, mesmo se conhecesse, confesso que não tinha entendido algumas palavras, depois de tanto tempo sem falar aquela língua.

Acho que desde os dias na senzala grande, em Itaparica.

De fato, e à primeira vista, a cidade era bem parecida com São Salvador, muitos casarões com as fachadas revestidas de azulejos, algumas ruas calçadas com o mesmo tipo de pedra, as soleiras e as portas de cantaria, os sobrados com mirantes, sacadas e balcões protegidos por grades que mais pareciam rendilhados de ferro. O

guia me mostrou a Casa das Tulhas, o maior armazém de pretos da cidade, e passamos também por algumas igrejas antes de sairmos da parte mais povoada e pararmos em frente a um sítio onde o crioulo disse que não entraria, para depois estender a mão à espera do pagamento combinado.

Puxei um arame que saía por um buraco feito no portão de madeira e um sino ecoou do lado de dentro. Quem me atendeu foi uma jovem aparentando não mais que quinze anos, e sem saber direito o que dizer, perguntei pela Agontimé. Ela disse que não conhecia ninguém com aquele nome, e me lembrei que havia outro, mas nada de ele me vir à memória. Mas quando perguntei pela Nega Florinda, que eu não tinha certeza se continuava com o mesmo nome, ela me convidou para entrar.

A Casa das Minas

Do lado de fora do muro não dava para imaginar o tamanho daquele terreno, que não era dos mais largos, mas, de comprido, ia muito além do alcance dos olhos. O

chão era de terra alaranjada, alegre, viva, ainda mais em contraste com os diversos tons de verde das árvores enormes e das inúmeras plantas rasteiras. Algumas tinham flores ou frutas, o que não era muito comum em pleno calor do mês de janeiro. São Luís parecia ser mais quente do que São Salvador, o que também podia ser uma falsa impressão minha, que me sentia mais acalorada e com a boca seca por causa do nervosismo.

Somente quando pisei aquele terreno foi que compreendi o que significava estar ali, um lugar tão perto, mas, ao mesmo tempo, tão longe de casa. Até por serem lugares parecidos, eu estava com a sensação de ter andado por uma rua da Bahia e, de repente, ter encontrado um atalho para a África. O lugar não tinha nada de Savalu ou mesmo de Uidá, mas ali estava uma pessoa que tinha convivido com a minha avó, com seus voduns e suas crenças, e que possivelmente também tinha conhecido a minha mãe. Percebi como tinha me afastado disso tudo, como parecia distante o dia em que eu tivera uma família ou mesmo um lugar que pudesse dizer que era meu, a minha gente na minha terra.

Quando tive, era muito pequena para saber como era importante e seguro.

A mocinha que tinha me recebido voltou do fundo do terreno e me levou para um galpão mobiliado apenas com dois bancos, um de frente para o outro em paredes opostas, e perguntou se eu estava me sentindo bem.

Imagino que, além de encalorada, minha aparência não era das melhores, depois de dias no mar sem tomar banho e sem trocar de roupa. Disse que queria apenas um copo de água, que ela levou em seguida e depois pediu que eu esperasse, pois logo alguém falaria comigo.

Quem apareceu foi a própria Agontimé, e apesar de

todos os anos passados desde o nosso encontro, não tive dúvida de que era ela. Estava ainda mais bonita, vestindo uma blusa branca e uma saia estampada que ia até os pés descalços, e os cabelos estavam cobertos por um lenço, também branco. A Agontimé era alta, magra, e mesmo de longe podia-se ver que era uma rainha, onde quer que estivesse. Fiquei olhando para ela, achando que não ia me reconhecer, mas antes de falar qualquer coisa, ela se ajoelhou e saudou o vodum da minha avó.

Pedi desculpas por não saber fazer o mesmo com o dela, mas ela respondeu que não tinha importância, que eu logo aprenderia. Uma mulher entrou carregando duas esteiras, nas quais nos sentamos para conversar. Contei as partes da história que realmente interessavam, desde a chegada à casa da Mãezinha até aquele momento, e ela ouviu sem me interromper. Agradeci muito pela Oxum, contando o quanto tinha sido importante, e ela disse que, na verdade, não tinha planejado me dar toda aquela fortuna, que conseguira com muito trabalho e que seria usada na construção da Casa das Minas. Não disse isso para que eu me sentisse culpada, o que salientou logo em seguida, mas para que eu visse que o destino também pode nos reservar boas surpresas.

Ela tinha mais ouro guardado dentro de outras estátuas e queria me dar um pouco, mas não se lembrava de que a maior parte estava dentro da Oxum. Quando percebeu, já tinha chegado no Maranhão e achou que estava certo daquele jeito, que tudo se ajeitaria de outra maneira, como de fato aconteceu. A primeira boa surpresa foi encontrar aquele terreno por um preço muito baixo e com tudo o que uma casa, ou convento, de vodum precisa ter: espaço, árvores, inclusive uma gameleira branca que era rara por ali, e o mais valioso, um córrego que fazia o limite dos fundos. Ela também disse que ali era conhecida pelo nome de Maria Mineira Naê, que quase ninguém sabia sobre a Agontimé, a rainha do Daomé.

Ela estava feliz porque, no Daomé, alguns anos antes seu filho Guezo tinha sido coroado rei no lugar de Adandozan e mandado alguns emissários atrás dela.

Dois deles conseguiram chegar muito perto, mas ela preferiu não ser encontrada porque não podia mais retornar, seu destino já estava traçado ali, onde tinha um trabalho começado. De longe, orava pelo filho e pedia um longo período de paz e prosperidade para o reino e os súditos, para que eles esquecessem o tempo em que tinham sido governados por Adandozan. O Guezo dera fim a tudo que fizesse recordar o antigo rei, e até seu trono tinha sido enviado ao Brasil e dado de presente na coroação do imperador Pedro I. Depois que pusemos parte da conversa em dia, ela mandou chamar a Nega Florinda.

Acho que depois de uma certa idade as pessoas param de envelhecer, e se não fosse por estar com as costas um pouco mais curvadas, eu diria que o tempo não tinha passado para aquela mulher que contava alôs como ninguém. Ou talvez as marcas que ele deixava já não coubessem mais no rosto extremamente vincado, e nem houvesse mais qualquer peso a ser adicionado às pernas que davam passos miúdos, embora decididos. Ela não me reconheceu, talvez porque tinha a atenção desviada para o pano que envolvia o pote, que a Maria Mineira Naê disse que tinha sido levado pela neta da lyánlá Dúrójaiyé, apontando para mim. Eu me levantei para receber um abraço carinhoso e para ouvi-la dizer que sempre soubera que o seu tesouro estava em boas mãos, mas que não teria imaginado melhor portadora.

A Maria Mineira Naê nos deixou a sós, e novamente contei toda a história, que deixou a Nega Florinda bastante ressentida com a doença da amiga, a Mãe Assunta. Perguntou pela Mãezinha, pelo Zé Manco e por outras mulheres daquele terreiro, e também pelo Babalaô Gumfiditimi, de quem eu não tinha notícias.

Quis saber da minha vida em São Salvador e não

demonstrou muito espanto quando contei sobre a morte do Banjokô, que ela disse ser bastante previsível. Ele não tinha chorado ao ser tocado pela água na cerimônia do nome, o que não foi bom sinal, principalmente por se tratar de um abiku. Já estávamos conversando havia um bom tempo quando ela começou a demonstrar cansaço e me pediu para tirar o pano que cobria o pote.

Contou que tinha conseguido embarcar com ele escondido no navio que a trouxera ao Brasil, um pote trazido com muito sacrifício da África e que serviria para assentar um dos mais importantes voduns que habitaria aquela Casa. Até então esse vodum ainda não tinha aparecido, esperando pela chegada do pote. Ela também disse que a minha visita não tinha sido apenas para levar o pote, que chamava de vaso, mas que eu deveria conversar melhor com a Maria Mineira Naê, ou melhor, com a noche (Noche: sacerdotisa do vodum, em eve-fon, na Casa das Minas. Significa também "mãe ancestral", o que às vezes provoca confusão com o culto das lydmí Òsorongd, do culto gelédé) Naê. Naquela hora percebi que ficaria muito mais do que estava planejando, o que de certa forma era bom, pois dava tempo de a situação em São Salvador realmente se acalmar. De acordo com as últimas notícias do doutor Jorge, a cidade não suportaria o cerco por muito mais tempo, e as tropas rebeldes seriam obrigadas a se render. Isso aconteceu quase três meses mais tarde, quando eu já não pensava em voltar tão cedo. Para falar a verdade, eu estava querendo ficar lá para sempre e pensava em uma maneira de mandar buscar você, a Esméria e quem mais quisesse ir.

A noche Naê disse para eu não ficar preocupada em ir embora, pois se um sonho tinha me levado até lá, outro me diria até quando ficar, e que eu deveria me sentir à vontade, como se estivesse na casa da minha avó, que tinha sido uma das suas mais sábias e fiéis companheiras de culto. Eu quis saber se algum vodum

da minha avó já estava assentado na casa e ela disse que não, que somente a minha avó poderia fazer isso, perguntando se eu queria aprender um pouco mais.

Quando ela me encontrou pela primeira vez, em São Salvador, disse que aquele não era o meu destino, mas que talvez isso pudesse ter mudado em razão de algum acontecimento passado ou futuro. Resolvi esperar para saber, durante um tempo em que ela me ensinou tudo o que podia ser dito sem comprometer o segredo, tudo o que a minha avó teria me ensinado mesmo que eu não me tornasse uma vodúnsi.

Eu me tornei uma espécie de secretária da noche Naê e passava os dias junto dela, acompanhando-a em todas as atividades que podiam ser observadas por qualquer pessoa e em outras mais reservadas, em consideração à minha origem. Acho que vou ser breve ao contar os seis meses que vivi na Casa, mesmo porque há muitas coisas que não podem ser ditas. E também porque estou me aproximando da parte mais importante desta história e quero chegar logo a ela. Éramos umas vinte mulheres, todas com uma ou mais funções dentro da Casa.

Já não me lembro mais quantos voduns estavam assentados naquela época, mas depois soube que chegaram a quase cinqüenta, divididos em cinco famílias, sendo que três dessas famílias eram as principais e as outras duas eram convidadas das principais, todos voduns eves. Como a noche Naê era rainha, a principal família de voduns era a de Davice, a família real do Daomé, que estava representada por dois ramos, o ramo dos Dadarro, o rei mais velho, e o ramo de Zomadonu, o dono da Casa e vodum da noche Naê.

Os reis também tinham levado esposas, irmãos e filhos, sendo que Dadarro era tio de Zomadonu, irmão de seu pai.

A segunda família principal era a de Danbirá, os reis da terra, os que combatem a peste e são chefiados pelo

vodum Xelegbatá, o que cura doenças. A terceira família era a de Heviosso, os voduns que controlam os ventos e as tempestades, chefiada por Badé. A família de Sanvalu, que era hóspede Zomadonu, também era formada por nobres e chefiada por Agon-golo, o rei que tinha sido o marido da noche Naê quando ela ainda era a Agontimé.

E por último havia a família de Aladanu, hóspede de Heviosso, chefiada por Ajautó. No galpão onde a noche Naê me recebeu havia portas que davam em diferentes cômodos, um para cada família, onde cada vodum tinha seu assentamento, que, na Casa das Minas, era feito em vasos cheios de água.

Entre os voduns da Casa havia muitas crianças que, sendo meninos, são chamados de toquenos, e quando os voduns se manifestam, são eles que aparecem primeiro, chamando os adultos. Se são meninas, são as tobossis.

As vodúnsís, que são as sacerdotisas iniciadas no culto, recebem apenas um vodum ou um toque no, mas as que são completamente iniciadas, o que depende do tempo de preparação, as vodúnsis-hunjaís, também recebem uma tobossi. É bonito ver uma tobossi manifestada, porque ela fala, dança e se comporta como se fosse mesmo uma criança, e para parecer ainda mais real, a vodúnsi-hunjaí se veste de maneira especial, como uma sinhazinha. Não aconteceu enquanto eu estava lá, mas quando uma vodúnsi morre, outra pode ser iniciada para receber o seu vodum ou toqueno, mas o mesmo não acontece em relação a uma tobossi. Quando sua vodúnsi-hunjaí morre, a tobossi morre junto, nunca mais se manifesta. É uma grande ajuda que se perde, porque os voduns são poderosos, fazendo por nós tudo de bom que é permitido por Deus, ou Orunmilá, ou como você quiser chamar.

Os voduns Tenho a impressão de que você não sabe muitas coisas sobre voduns, o que não é bom, porque poderia ter se

valido da proteção deles. Os da nossa família são muito fortes. Portanto, espero que ainda não seja tarde, e peço um pouco mais de paciência para contar o que sei e posso. Assim que cheguei a São Luís, foi feito o assentamento do vodum da Nega Florinda, em uma cerimônia que não pude acompanhar por ainda não estar preparada.

Mas vi muitas outras cerimônias e vou contar parte de algumas delas, que com certeza não parecerão tão bonitas quanto de fato são, pois muito se perde ao descrever algo que só os olhos podem aprisionar, quase nunca as palavras. Eu me sentia feliz e protegida na Casa das Minas, e tal sensação contribuía para que gostasse muito de tudo que via lá dentro. A cada dia que passava eu admirava mais a noche Naê e sentia ainda mais orgulho da minha avó, porque a noche Naê não perdia uma oportunidade de falar muito bem dela.

Lamento não ter aproveitado mais a companhia da minha avó, de não tê-la visto e conhecido a não ser através dos meus olhos de criança.

A noche Naê era a gaiacu, a mãe e dona da Casa, e abaixo dela havia os ogãs, e entre eles, os tocadores de tambor, que são muito importantes para o culto. Na Casa, eram os únicos cargos ocupados por homens, que eram três, primeiro, segundo e terceiro tambor, chamados de run, runpi e lé. Além dos três tambores, ainda havia uma gantó, ou ferreira, que tocava um instrumento de ferro chamado gan e era acompanhada por mais quatro ou cinco mulheres que tocavam instrumentos feitos de pequenas cabaças vestidas com contas coloridas. Ekedi é o feminino de ogã, e são elas as que mais trabalham na arrumação do barracão, das roupas e das cerimônias, e na Casa das Minas as ekedis eram as próprias vodúnsis.

Eu ajudava no que me pediam e aprendi um pouco de tudo, seja fazendo ou apenas observando. Durante a

estada, também reaprendi a falar eve-fon, a língua utilizada em todos os cultos e também no dia-a-dia. Se houvesse um sacerdote homem, ele seria chamado de toivoduno, e aquele espaço que ocupávamos, ou seja, todo o terreno, é chamado de runpane, que em português pode ser algo como "fazenda". O barracão onde são realizados os cultos tem o nome de kwe, e dentro dele ficam os sabajis, os quartos sagrados que guardam os kpos (Kpo: pote) com assentamento dos voduns, e ainda o rundeme, quarto usado pelos voduns, e o ronco, quarto sagrado de iniciação das sacerdotisas.

Se na Casa houvesse um bokunó, que é como são chamados os babalaôs em eve-fon, haveria um outro quarto onde ele interpretaria o aírun-ê (Aírun-ê: em eve-fon, aírun-ê é o mesmo que odú, em iorubá: destino), com a ajuda do Vodum-fá (Vodum-fá: deus do destino, correspondente ao Ifá, em iorubá). O babalaô usa o opelê-ifá, mas o bokunó o chama de agú-magá, que é aquele rosário com meias sementes usado pelo Baba Ogumfiditimi. Mas na Casa não havia o culto a Vodum-fá, porque senão o vodum Legba também teria que ser cultuado, pois ele é o elo entre os homens e o Vodum-fá, o mesmo que os iorubás chamam de Exu. Zomadonu, o vodum da noche Naê e chefe da Casa, tinha proibido o culto a Legba, depois de tê-lo acusado de ser o responsável pela expulsão das vodúnsis do Daomé. A noche Naê não gostava de falar sobre isso e obedecia ao seu vodum, sendo, porém, autorizada a oferecer um cântico a Legba no início de cada culto, para que ele não atrapalhasse.

A primeira vez que assisti a um culto foi no mês de maio, em comemoração ao dia do Divino Espírito Santo.

Depois daquele houve outros até maiores e mais bonitos, mas, por ser o primeiro, foi um dos que mais me impressionaram. Além do Divino Espírito Santo, a Casa também fazia cultos nos dias de São Jorge, São João, São Benedito, São Sebastião, São Lázaro, São Raimundo, São Ivíiguel Arcanjo, Santa Bárbara e de mais alguns santos, e ainda nos dias de encantamento, ou seja, de morte dos voduns assentados, que eram também chamados de encantados. Por isso, eram muitas as nossas obrigações, e eu não sentia o tempo passando.

Na época do Divino, eu já tinha recebido duas cartas dando notícias de vocês, e mandado três, contando tudo o que estava acontecendo comigo e como estava feliz.

Foi um pouco antes da Festa do Divino que o doutor Jorge disse que a rebelião tinha terminado e que aos poucos a cidade voltava ao normal, como sempre acontecia. A Esméria e você estavam bem, e eu ficava tranqüila porque a Claudina cuidava de tudo. Ela não tinha letras, mas o Tico queria que aprendesse, porque, como ele e o Hilário sabiam bem pouco, seria de grande ajuda. Sempre que os negócios exigiam algo escrito que fosse mais elaborado, recorriam a mim. Voltando à Festa do Divino, estranhei quando soube do acontecimento dela, e mais ainda quando, pouco tempo antes, soube que a noche Naê freqüentava missas nas igrejas de brancos.

Não tive coragem de perguntar a ela o motivo disso, mas algum tempo depois soube que era por pedido dos próprios voduns, que às vezes eram devotos de um santo ou outro. Aliás, eram também os voduns que pediam a realização das festas em homenagem aos santos. Dizem que estas homenagens começaram por causa de uma rainha dos brancos que, quando acabava a Quaresma, mandava distribuir esmolas aos pobres, e talvez tenha ela própria virado vodum, não sei.

Muitos reis e rainhas que não eram de África, como um rei branco português chamado D. Sebastião, tinham virado voduns, e a Nega Florinda contou que eram cultivados ali mesmo em São Luís, em uma casa que também cultuava voduns índios, brasileiros, a quem chamavam de caboclos. Eu estava curiosa para assistir a um dos cultos, pois logo depois que cheguei começou uma época em que todos estavam suspensos. A Casa obedecia aos quarenta dias de guarda dos brancos, a Quaresma, quando não podem ser realizados cultos, festividades ou celebrações.

A noche Naê disse que um dia ainda faria da Festa do Divino uma grande festa, mas, naquela época, ainda não tinha condições. Eu não entendia direito o que era o Divino Espírito Santo, mas quando vi que era representado por uma pomba, ou seja, um pássaro, não me atrevi a perguntar, achando que a relação estava mais do que clara, remetendo às íyámis. Hoje já sei que não, mas muitos dos nossos voduns de África também são representados por pássaros ou outros animais, como a cobra, o crocodilo, a pantera, o elefante, o sapo e a tartaruga. A noche Naê dizia que o Espírito Santo merecia ser celebrado como um rei, e que para isso ela não pouparia esforços. Mais adiante pretendia encenar uma grande corte e seus nobres, em uma representação que não ficaria restrita à Casa, mas que seria para toda a população da cidade. Naquele ano fomos todas à Igreja da Sé para assistir à missa dos brancos e, vestidas também de branco, louvar o Divino Espírito Santo.

Louvação que continuou ao voltarmos para a Casa, quando a noche Naê fez uma comovente oração em latim, a língua dos sacerdotes brancos; não tanto pelo que ela disse, já que não entendíamos aquela língua, mas pelo modo como disse.

Eu gostaria que você já tivesse visto um culto vodum, que é de rara beleza quando bem-feito. Acho que eu já disse isso, mas os primeiros que aparecem são os toque nos, e logo em seguida vão chegando os adultos. Eu já tinha visto transe de orixás, mas de voduns é bem diferente, quase não se percebe que as vodúnsis estão agindo de maneira diferente, mesmo porque elas mantêm os olhos abertos durante todo o tempo. Elas sabem os nomes secretos dos voduns que recebem, mas isto nunca deve ser revelado, é um dos grandes segredos

do culto. Os voduns vão chegando aos poucos, primeiro o chefe da família e depois os descendentes, e as vodúnsis que os recebem amarram uma toalha de renda branca na cintura ou logo acima dos seios, conforme a preferência dos voduns.

Como já falei, nenhum jogo de adivinhação é realizado na Casa das Minas, e as pessoas aproveitam a presença dos voduns para perguntar o que querem saber. Os voduns acompanham a vida dos seus protegidos e sabem tudo sobre eles, dando sábios conselhos, e ajudam a interpretar os sonhos, que são todos muito reveladores, como também usam um método de interpretação do destino pela observação da chama de uma vela que nunca entendi direito como funciona.

Cada vodum tem um cântico próprio, colares com contas da cor e do tamanho da preferência deles, e também bebidas e comidas. Mas quando estão incorporados, eles passam quase todo o tempo dançando, cantando e conversando entre si e com as visitas, as pessoas que estão assistindo. Cada vodúnsi fica durante mais ou menos quatro ou cinco horas com o vodum, menos as hunjaís, que podem ficar muitos dias com suas tobossis.

Alguns voduns da Casa são mudos, os da família de Heviosso, que se comunicam por meio de sinais traduzidos pelos toquenos da mesma família, os únicos que podem falar. Mas há outras casas, as nagôs de culto a orixás, que recebem estes mesmos voduns, e lá eles falam. A noche Naê disse que, por serem voduns nagôs, ou orixás, eles não podem falar para não revelar os segredos do povo nagô. Isso visto pelo lado deles, pois, pelo nosso lado, eles também estão relacionados a Legba, ou Exu, que não é tolerado por Zomadonu.

Aprendi muitas coisas, mas ainda havia muitas outras para aprender, e quando conversei com a noche Naê sobre isso, ela comentou que o meu aprendizado não se

completaria na Casa das Minas, que havia um outro local onde eu me desenvolveria melhor, e falou de uma casa em Cachoeira, no Recôncavo. Eu gostava muito das amizades que tinha feito na Casa e, se pudesse escolher, preferia ficar. Mas além de não ser o local mais indicado, no Recôncavo eu estaria muito mais perto de São Salvador, que, àquela altura, já estava tranqüila. Por isso também resolvi que passaria para ver vocês, e quem sabe levá-los comigo.

Não gosto de despedidas, então deixei para avisar da minha partida somente um dia antes, depois de ter pedido para uma das moças que trabalhavam na Casa, e que tinha marido pescador, para me informar sobre a partida de alguma embarcação para a Bahia. Parti pensando que voltaria não só para a Casa, mas também para a África, onde achava que poderia começar de novo, viver o que não tinha vivido.

A viagem durou quase sete dias em um saveiro que transportava carga, que não me interessei em saber qual era, mais cinco passageiros, quatro homens e uma mulher. Não me senti confortável, porque ela fazia mal de si, deitando-se com os homens em troca de qualquer coisa que eles tivessem à mão ali, no meio do mar. Dei-me por feliz por ela ter preferido a companhia deles à minha, mesmo porque eu tinha muitas coisas em que pensar antes de chegar a São Salvador.

De passagem

Eu pensava principalmente se poderia levar você e a Esméria comigo para Cachoeira, embora não soubesse se era uma boa idéia, pois não tinha certeza do que encontraria por lá, se seria bem recebida na casa de voduns. Decidi que a melhor coisa a fazer era ir na frente e me estabelecer, para depois buscá-los. Eu tinha medo de como seria nosso reencontro, pois havia quase um ano que não nos víamos, apesar das notícias

constantes por meio de cartas. A Claudina realmente tinha se empenhado em aprender a escrever, e quase já não precisava de ajuda na correspondência, o que era bom, apesar de me ter feito perder o contato com o doutor Jorge.

A idéia de sair de São Salvador era providencial, acabavam-se as perseguições, ficávamos por seis ou sete anos no Recôncavo, a depender da minha iniciação, e talvez depois partíssemos para a África. Se eu soubesse que nem metade daqueles planos daria certo, incluindo na parte errada o que era mais importante, teria ficado em São Salvador ou voltado imediatamente para São Luís com vocês. O Recôncavo era a melhor solução, pois a Esméria não iria querer se mudar para longe, deixando o Tico e o Hilário. Mas os dois estavam sempre no Recôncavo, pelo menos um deles ia até lá uma vez por semana, e talvez nos víssemos até mais do que quando morávamos em São Salvador.

Foi estranho não ter uma casa minha para onde voltar, embora considerasse o Tico e o Hilário como sendo da família. Mas não era a mesma coisa, e talvez tenha sido esse o motivo que me fez ficar por tão pouco tempo. Eu queria ir logo para Cachoeira, me estabelecer e voltar para buscá-los, quem sabe dentro de três ou quatro meses, a tempo de passarmos o Natal juntos na nossa própria casa. No início você estava muito mais distante do que eu gostaria, mas era compreensível e, para reverter a situação, ficávamos o tempo inteiro juntos.

Todos queriam saber como tinham sido aqueles meses no Maranhão, província que nem cheguei a conhecer direito, pois mal saí da Casa.

Contei o que pude e o quanto era importante para mim continuar o aprendizado. A Esméria não gostou muito da idéia de se mudar para Cachoeira, mas acabou convencida de que seria uma boa opção para nós. Na verdade, acho que ela tinha um pouco de medo de sair

de São Salvador, mas também disse que estava para morrer, e que para isso qualquer lugar servia. Eu não acreditava que ela morreria logo, mas a achei envelhecida, talvez pelo longo tempo sem nos vermos.

A Claudina, que tratava a Esméria e o Sebastião como pais de quem gostava muito, dizia que os dois tinham excelente saúde, apesar da idade e da vida que tinham levado, e achava que ainda teriam longos anos pela frente. Fiquei feliz de ver os laços que haviam nascido entre os três, e também com você, o que me fez planejar a mudança com muito mais tranqüilidade, sabendo que estava em boas mãos. Seu pai também não gostou muito da idéia, dizendo que seria difícil se acostumar com a nossa ausência. Disse isso no segundo dia depois da minha chegada e desapareceu nos dias seguintes, alegando que tinha assuntos importantes para resolver.

Foi a última vez que o vi.

Durante os dez dias que passei em São Salvador, você me acompanhou a todos os lugares que fui. E andamos bastante, visitando a Adeola, que cuidava de mais de cinqüenta crianças e estava feliz vivendo com outro padre, um espanhol que tinha chegado à Bahia havia menos de um ano. Foi muito bom também passar um dia inteiro na casa da sinhazinha, conversando e brincando com as meninas. Passamos também no escritório do doutor José Manoel, de onde saí muito feliz sabendo que ainda tinha quase quatro contos guardados na casa financeira, em nome dele. Sempre confiei no doutor José Manoel,

talvez

influenciada

pela

confiança

na

sinhazinha, nunca quebrada. Ela estava curiosíssima para saber o verdadeiro motivo da minha ausência durante tanto tempo, e contei tudo, desde o motivo da viagem até o que tinha feito na Ilha de Itaparica e no Maranhão. Rimos muito naquele dia, porque foi a primeira vez que comentei com ela sobre a acusação da sinhá Ana Felipa, quando me expulsou da casa-grande ao me encontrar fazendo roupas para a boneca.

Quase contei também tudo que aconteceu na fazenda naquela época, mas depois achei que não valia a pena, pois não havia nada que pudesse mudar o passado. Acho que ela entendeu eu ter parado de falar de repente como sendo por causa do seu irmão, o Banjokô, que sabia que era filho do pai dela, e da tragédia que aconteceu com ele. A sinhazinha estava querendo ficar pejada novamente para ver se conseguia dar o filho que o doutor José Manoel tanto queria depois de quatro meninas, ou cinco, com a que não tinha vingado.

Fomos também à casa do mestre Agostino, que adorou a visita e disse que a vizinhança não tinha mais graça sem a nossa presença. Eu gostava dele, principalmente por causa de todo o amor que ele dedicava ao seu irmão, mesmo depois de tanto tempo. Fui até lá também na esperança de encontrar o doutor Jorge, que não estava em casa. Comentei com o mestre Agostino que ficaria apenas alguns dias na cidade, na esperança de que ele contasse ao filho, imaginando que ele queria me ver.

Mas os dias se passaram e ele não me procurou. Fomos também até a loja da Esmeralda, que comentou que estava de partida para o Recôncavo dentro de três dias, para assistir às comemorações na Irmandade da Boa Morte, e decidi que iria com ela, pois seria mais fácil chegar a Cachoeira com uma conhecida.

A partida assim de repente não nos deu tempo de ir até o sítio do Babalaô Gumfiditimi, que eu queria ter visitado não só porque estava com saudades do povo dele, mas também porque queria dar notícias da Nega Florinda.

Achei que poderia fazer isso quando voltasse para pegar vocês, e cuidei de me preparar para a viagem, já que pretendia levar a maior parte das nossas coisas, para que a bagagem não ficasse tão grande quando tivesse que levar você e a Esméria. Você não imagina como eu estava feliz, cheia de planos, achando que teríamos um futuro maravilhoso.

Combinei de me encontrar com a Esmeralda já no cais, para onde fui acompanhada do Tico, da Claudina e de dois carregadores levando grandes baús com roupas e mais algumas coisas para a casa que eu pretendia montar. Foi difícil fazer você acreditar que a nossa nova separação seria por pouco tempo, talvez porque naquele momento a sua intuição estivesse mais apurada que a minha, tão cheia de novas idéias. A Esméria, que tinha ficado em casa com você, prometeu mandar um recado para que seu pai aparecesse, pois acho que você precisava ter pelo menos um de nós dois por perto. Não consigo nem imaginar o que pode ter passado pela sua idéia e pelo seu coração quando teve fortes motivos para perder a confiança. Em mim, quando não voltei em poucas semanas, como tinha prometido, e no seu pai, quando tudo aquilo aconteceu.

Eu sentia um certo alívio por estar deixando a cidade; era como tirar das costas o peso de estar clandestina em um lugar onde não podia mais ficar, apesar de ter sido levada para lá contra a vontade. Sei que ninguém se importava com o caso, eu não faria falta alguma, mas vi a partida como uma vingança, como se eu dissesse àquele povo que não precisava mais dele. Era como dizer que tinham me obrigado a viver lá e eu tinha me saído muito bem, muito melhor que grande parte dos brancos que não conseguiam se tornar nada além do que já eram quando nasceram, apenas brancos. Brancos que se orgulhavam disso porque viviam em uma cidade servida por pretos, crioulos e mulatos. Mas também sentia uma certa frustração por não poder comemorar direito a partida, porque vocês ainda iam ficar. E uma certeza eu tinha, a de que, daquele momento em diante, nossa vida mudaria completamente.

Rumo ao Recôncavo

Durante a viagem havia muito vento a favor, o que me fez lembrar dos voduns da família de Heviosso, os que

controlam os ventos e as tempestades, e acreditei que aquele era um sinal de que estava indo para o lugar certo. Fiquei conversando com algumas amigas da Esmeralda que iam para a festa de Nossa Senhora, o que me ajuda a lembrar a data da partida, quatorze de agosto, véspera do grande dia para elas. Perguntei sobre a Irmandade, que elas disseram ainda estar se formando em Cachoeira, mas que já era bastante ativa em São Salvador, na Barroquinha.

Estavam um pouco tristes por deixarem a festa da capital a cargo das outras irmãs, mas gostariam que nenhum detalhe fosse esquecido ao ser montada a Irmandade no Recôncavo, e por isso faziam aquela viagem, para garantir que tudo funcionasse do jeito que tinha que ser. A Esmeralda não fazia parte da Irmandade da Boa Morte porque todas as participantes tinham que ter mais de cinqüenta anos, mas estava sendo preparada para ingressar assim que tivesse idade.

Mesmo de fora ela fazia questão de ajudar, e acredito que tinha alguns privilégios por conhecer de longa data a maioria daquelas senhoras. Eram quase todas libertas que tinham comprado a carta por intermédio da confraria coordenada por ela. As senhoras me convidaram para assistir à festa e também afirmaram que poderiam conseguir pouso para mim durante alguns dias na casa de uma das irmãs de Cachoeira. Fiquei sem jeito de aceitar porque carregava muita bagagem, mas a Esmeralda disse que não havia problema algum.

Eu tinha outra idéia de Cachoeira, mas era uma cidade bem desenvolvida, embora pequena. Era perto da capital, e isso fez com que as duas cidades ficassem bastante parecidas, pois acabaram sendo construídas pelas mesmas pessoas, que viviam de um lugar para o outro. Lá, por exemplo, havia bonitos casarões pertencentes aos grandes fazendeiros que também tinham casarões em São Salvador, muitas vezes

idênticos. Uma das irmãs quis saber o que eu estava indo fazer em Cachoeira e contei sobre a Casa que a noche Naê tinha indicado. Por isso acabei descobrindo que duas das companheiras de viagem também eram eves, e tinham se tornado devotas de Nossa Senhora por causa de Nana, mas a grande maioria das irmãs era de nagôs ou ketus, de origem ou descendência.

Quando aportamos, havia alguns vapores no cais, e aquela foi a primeira vez que vi um de perto. Mas nem pude admirá-los muito, pois já nos esperava um animado grupo de irmãs, todas muito alegres e bem-vestidas, que não me deixaram nem contratar carregador, dividindo a bagagem entre elas. Também foi fácil conseguir uma casa para ficar, pois antes mesmo que a Esmeralda dissesse alguma coisa, a que me pareceu ser a líder delas perguntou se eu estava de mudança e se já tinha pouso certo, oferecendo-se para me abrigar pelo tempo que fosse preciso.

Foi também na casa dela que ficaram hospedadas muitas visitantes de São Salvador, e onde também já estavam alojadas algumas moradoras de São Félix e da própria Cachoeira, o que facilitaria a conversa entre elas. Não era uma casa grande, apenas quatro cômodos, mas tinha um enorme quintal com muitas árvores de frutas e muitas flores, e era lá que ficávamos durante o dia. No cômodo principal havia um altar que abrigava uma bonita estátua de Nossa Senhora, talhada em madeira pintada, na frente da qual todas se ajoelhavam, rezavam e cantavam. Eu me encantei com a imagem, que nunca tinha visto tão bonita, e a Mãe Rosa, a dona da casa, contou que tinha sido levada de Vila Rica, Minas Gerais, por um liberto, obra do pai dele. A noche Naê já tinha falado das estátuas de Minas Gerais, as mais lindas cópias de Nossa Senhora e sua mãe, tão bem-feitas que pareciam conversar com a gente e se mexer dentro de roupas de verdade, de puro ouro.

A Boa Morte

No primeiro dia, fomos todas para o quintal, e uma das irmãs de São Salvador contou como era a festa de lá, que estava no vigésimo ano. A festa de Cachoeira ainda não tinha a intenção de sair do terreno da Mãe Rosa, mas a de São Salvador já tinha se transformado em uma grande procissão que tomava as ruas, acompanhada não só pelas senhoras da Irmandade, mas também por outros pretos e crioulos, e até mesmo por brancos, principalmente os fiéis da igreja da Barroquinha. Os padres não gostavam muito, mas acabavam aceitando desde que não houvesse excessos na celebração da data que marcava a elevação aos céus do corpo e da alma de Nossa Senhora, e era por isso que a Irmandade se chamava Boa Morte. Em São Salvador, a festa também era prestigiada pelos irmãos da Confraria do Nosso Senhor dos Martírios, formada somente por homens. A imagem de Nossa Senhora entrava na igreja da Barroquinha ainda no dia quatorze, e era velada durante toda a noite em meio a muito luxo, mesmo para o padrão dos brancos.

Continuar: parte 3 de 8