Um Defeito de Cor
Capítulo oito
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.
Achei que seria uma troca justa, levando em conta o que aqueles presentes significavam para nós. No caminho até o cais, fui tentando me despedir das lembranças, porque queria deixar todas elas em São Sebastião do Rio de Janeiro. A prioridade dali em diante era a sua busca,
e talvez um dia voltássemos os dois para viver naquela cidade de que eu tinha gostado tanto, mais do que de São Salvador. Hoje penso se isso era mesmo verdade ou se apenas a lembrança dos acontecimentos tristes vividos em São Salvador me fizeram acreditar que São Sebastião era melhor, mas não chego a nenhuma conclusão, porque teria que experimentar novamente.
Santos
Bastante tranqüila, a viagem foi feita em um pequeno paquete que levava mais cargas do que passageiros. Eu tinha a sensação de ser sempre uma viajante, por causa de tantos lugares que conheci sem adotar nenhum em definitivo, enquanto a maioria dos pretos quase nunca se afastava da casa dos donos, principalmente os que iam para as fazendas. Santos era uma cidade pequena, menor do que São Salvador e São Sebastião, e se eu tinha achado que os pretos de São Sebastião eram tristes, os de Santos eram mais ainda, sem contar que desembarquei em um dia chuvoso.
O cais era grande e movimentado, e foi interessante que a primeira coisa que me veio à lembrança, ao chegar à cidade, foi que ali tinha morado o Padre Voador, o amigo do pai do Kuanza. Foi ao passar em frente a uma igreja, e achei que aquilo era um aviso para escrever a história, principalmente por estar naquela cidade que, menos de três semanas antes, eu nunca teria pensado em conhecer. Durante a viagem eu já tinha reparado, e andando a caminho de uma hospedaria, pareceu ainda mais evidente o quanto eu chamava a atenção. Não só por ser uma mulher viajando sozinha, mas também uma preta que podia pagar por alguns pequenos luxos, quando permitidos aos pretos, o que despertava a inveja dos pretos que não podiam.
O amuleto que o Maboke tinha me dado também servia para afastar os maus olhos, e desde aquele momento eu
nunca mais o tirei, e sei que ele deve ter me valido, porque mais tarde a inveja foi ainda maior. Eu sempre tive medo da inveja, mas era um medo misturado com orgulho, porque ter nascido preta não me impediu de conseguir muitas coisas com as quais alguns brancos nem ousavam sonhar. Eu fui melhor do que muitos deles, embora não gostassem de reconhecer isso.
No mesmo dia da chegada a Santos aluguei um quarto e contratei um guia que me levasse até o armazém indicado pelo caixeiro da Rua do Sabão. Tive mais dificuldade do que em São Sebastião porque o armazém tinha mudado de dono havia pouco mais de três anos, e primeiro precisei conseguir o nome e a morada do antigo proprietário, para depois fazer com que ele me atendesse. Bati à porta da casa dele em uma manhã de quinta-feira e foi bastante desanimadora a notícia de que ele tinha viajado para São Paulo, com retorno programado para a semana seguinte, sem dia certo.
Fiz uma extravagância, comprei e paguei muito caro por papéis encadernados como se fossem um livro e comecei a escrever sobre o Padre Voador, já que não tinha mais nada a fazer enquanto esperava pelo homem. Do pequeno quarto que ocupei, só saía para comer e fazer as necessidades, porque o resto do tempo passei sentada no chão escrevendo, com o caderno apoiado sobre o baú.
Gostei da experiência e, se tivesse condições, eu mesma estaria fazendo isso agora. Na semana seguinte, quando estava programada a volta do comerciante, peguei minhas coisas e fui escrever em frente à casa dele, pois gostaria de encontrá-lo assim que chegasse.
Virei atração e algumas pessoas me atiravam dinheiro, pensando que eu vivia daquilo, uma preta que sabia escrever e se exibia em locais públicos. Confesso que achei divertido e que me fez bem, não o ato de ter recebido o dinheiro, de que eu não precisava e nem era essa a intenção, mas me senti orgulhosa de mostrar que
sabia fazer uma coisa que não era muito comum, nem entre os brancos.
Quando o comerciante chegou, na quarta-feira, minha vontade de falar imediatamente com ele não foi correspondida. Assim que os carregadores e a cadeirinha o deixaram em frente à casa, um criado se adiantou para falar com ele, apontando na minha direção. Ele olhou com curiosidade durante alguns segundos e depois entrou, como se toda aquela minha espera não tivesse importância alguma. O sol estava quente e não havia onde me abrigar em caso de chuva, pois eu tinha apenas um encerado para proteger o livro, e mesmo assim o homem me deixou esperando por quase dois dias. Só me atendeu na sexta-feira, e mesmo assim porque acredito que estava começando a se sentir incomodado pelo número cada vez maior de pessoas que apareciam para me ver escrevendo.
Ele me recebeu na cozinha, e tive que falar que estava ali a mando do meu senhor, que procurava um escravo fujão pelo qual ele estava disposto a pagar uma boa recompensa se fosse encontrado, pois quando insinuei que o interesse era meu, ele quase me pôs porta afora.
Ficou combinado que eu voltaria na terça ou quarta-feira da semana seguinte, dando um tempo para que ele mandasse levantar os papéis. Quis saber mais alguns detalhes sobre o suposto dono, que eu descrevi como sendo o doutor José Manoel, dando inclusive a morada do escritório em São Salvador, para onde enviei naquele dia mesmo uma carta tornando o assunto do conhecimento dele, para o caso de precisar confirmá-lo.
Andei um pouco pela cidade, reparando em cada casa onde eu percebia haver escravos, em cada loja, em cada comércio, mesmo com alguma coisa me dizendo que não seria ainda naquela cidade que eu te encontraria. Aliás, o novo proprietário do armazém já tinha me dito isso, que era bem provável que você tivesse sido vendido para
São Paulo ou arredores, para trabalhar nas plantações de café. Era possível até uma venda para mais ao sul do Brasil, ou mesmo para fora do Brasil, para a região do Prata.
Preocupada com essas duas últimas hipóteses e esperando o pior, recebi a grata notícia de que você tinha sido vendido para Campinas, uma cidade que não ficava tão longe assim para quem tinha saído de São Sebastião do Rio de Janeiro, como me disse o comerciante, mas que tinha acesso difícil, somente por terra. Foi ele quem disse também que eu deveria ir até São Paulo e lá me informar sobre o melhor caminho, advertindo que o meu dono deveria ter mandado um homem em meu lugar, pois aquela não era uma viagem para mulheres.
Ele também me informou sobre uma tropa que estava para sair dentro de quatro dias, à qual eu poderia me juntar. Depois de ter me recebido tão a contragosto, estranhei a atenção dele, achando que todas aquelas informações eram de graça. Ele não falou comigo sobre dinheiro, mas também tudo o que me deu foram pistas a seguir, que poderiam ou não levar a você, o que não era caso de se pagar recompensa alguma.
Mas anos depois eu soube que tais pistas foram muito bem pagas pelo doutor José Manoel, que pode ter ficado me achando uma aproveitadora. Mas quando eu soube já era tarde demais para repor o dinheiro ou mesmo para agradecer.
São Paulo
Conversei com os tropeiros que, de início, não queriam me levar, mas mudaram de idéia depois que me ofereci como cozinheira e disse que pagaria pelo transporte do baú. Eram uns quinze homens, dos quais só me lembro do nome de dois, o chefe da tropa, o Aparecido, e o preto
que carregou meu baú, o Pierre. O nome dele me fez ter ainda mais saudades de São Sebastião, dos franceses da Rua do Ouvidor, dos amigos deixados por lá. Tive muito tempo para pensar neles durante a viagem, que fizemos quase toda em silêncio para poupar o fôlego e, segundo o Aparecido, para não chamar muito a atenção dos animais e dos selvagens.
Era uma trilha estreita aberta no meio da mata, quase tão íngreme quanto as mais íngremes ladeiras de São Salvador, que levamos vários dias para percorrer. Teria sido menos tempo se não fosse a chuva, que deixava o caminho escorregadio, fazendo com que andássemos com muito cuidado, não só por nossa causa, mas também para poupar as mulas, que a todo momento ameaçavam escorregar morro abaixo com carga e tudo.
Havia também o frio, que se tornava pior quanto mais subíamos o que eles chamavam de Serra do Mar, com bonitas cachoeiras que eram vistas ao longe. Eu nunca tinha subido serra tão alta, o máximo foi naquele dia da capueira, com o Piripiri, e quando eu via o mar de lá de cima, me lembrava do Akin, que olhava o mar e dizia que do outro lado ficava o estrangeiro.
Nos dois últimos meses em São Sebastião, eu tinha me lembrado bastante da África, das pessoas, dos lugares, dos acontecimentos, e não era raro ser acometida por uma grande vontade de voltar. Talvez não em definitivo, mas para ver como é que estava, se ainda correspondia às minhas lembranças, se a casa onde moramos em Savalu ainda estava lá, sob o iroco. Mas era uma viagem que eu tinha vontade de fazer com você, no dia em que conseguisse enfrentar as lembranças da travessia para o Brasil. E para me desanimar ainda mais, havia também a possibilidade de não conseguir voltar para o Brasil, de ter que ficar para sempre em África. Não você, que era brasileiro e podia provar com a sua certidão, mas eu era africana liberta, e estava proibido o desembarque de africanos libertos em qualquer porto do Brasil.
No princípio da viagem, fiquei um pouco temerosa de seguir com os tropeiros, todos homens desconhecidos, mas eles se mostraram bastante respeitosos, o que também pode ter sido por causa do cansaço. Em alguns pontos do caminho tínhamos que parar, descarregar as mulas, atravessar um lamaçal e depois carregá-las novamente. Somente três pretos faziam esse serviço, enquanto os brancos e mulatos apenas olhavam ou aproveitavam para dormir ou descansar.
Muitas vezes permiti que o Pierre os ajudasse, embora ele tivesse sido contratado apenas por minha causa, e às minhas expensas, para dar conta do baú, que não era dos mais leves. Chegamos a São Paulo parecendo mais bichos do que as mulas, exaustos e cobertos de lama, e sob o tempo chuvoso a cidade me pareceu a mais feia e fria que poderia existir. Era estranho ver uma cidade que não tinha mar, e gostei quando paramos em uma pensão na freguesia de Pinheiros, onde finalmente consegui tomar um banho e tirar as roupas molhadas.
E não foi só disso que gostei, mas também porque estávamos ao pé de um rio largo, o Rio Pinheiros, que me lembrava os rios de Savalu. São Paulo era uma cidade tranqüila e pequena, como pude ver no passeio que fiz ao centro, no dia seguinte. Até os pretos se vestiam de maneira diferente, e embora tivessem me dito que o frio ainda não tinha começado, quase não se via nenhum deles de tronco nu pela rua, mas usando calças e camisas de mangas compridas, e os brancos também andavam mais vestidos, com casaca completa.
O Pinheiros era mais afastado, mas a cidade parecia estar protegida também por outros três rios, o Anhangabaú, o Tamanduateí e o Tietê, sendo que fora do espaço limitado por eles havia quase que apenas chácaras. Esse Tamanduateí era interessante, porque parecia fazer as construções dançarem às suas margens, tantas eram as voltas que dava. Quem me chamou a
atenção para isso foi um mendigo mulato a quem dei esmola, nem sei por que, pois eu costumava dar esmolas somente para pretos. Mas o mendigo me chamou a atenção, muito bêbado e digno em suas roupas surradas, fazendo com que eu me lembrasse do Porcristo, aquele que conheci no Maciel. Eu tinha esse costume, e tenho até hoje, de ficar comparando as pessoas e os lugares que conhecia para achar algum tipo de relação. Pois bem, o homem me lembrou o Porcristo e não só no jeito, mas depois vi que tinha muito mais em comum do que eu podia imaginar, pois ganhei um bom guia para me mostrar São Paulo.
Na noite da minha chegada à cidade, ainda na pensão, tomei conhecimento de uma tropa que seguiria para Campinas em quatro ou cinco dias, a depender do recebimento de encomendas que tinham que levar e que subiriam do porto de Santos. Meus companheiros de viagem
retornariam
no
dia
seguinte,
levando
encomendas que já estavam esperando por eles na pensão, que funcionava quase como um mercado. Os tropeiros e comerciantes da capital, do litoral e do interior se encontravam por lá e trocavam produtos, muitas vezes sem usar dinheiro, entregando as mercadorias que produziam ou revendiam, e pegando as de que necessitavam.
E aí se incluía de tudo, tecidos, comida, café, escravos, óleo e até jornais de outras províncias, do reino e de outros países da Europa, que às vezes eram datados de dois ou três meses atrás, por causa das viagens demoradas. Os jornais mais procurados eram os da França, e alguns até chegavam de lá escritos em português, produzidos por brasileiros que moravam em Paris. Como o chefe da tropa para Campinas também estava hospedado na pensão, e por lá ficaria até conseguir todas as encomendas, resolvi aproveitar o tempo para conhecer a cidade, coisa que sempre gostei de fazer. À noite, continuava trabalhando na escrita da
história do padre de Santos, porque queria te mostrar assim que te encontrasse, mesmo se você não soubesse ler. Achei que era algo que faria você sentir orgulho de mim.
Percebi que aquele mendigo, o meu guia, não me era familiar apenas pela lembrança do Porcristo, mas também do Jacinto, o preto que invadiu a cozinha da casa do padre Heinz, onde eu estava fazendo os cookies.
Ele também se chamava Jacinto e tinha uma cicatriz na testa, do mesmo jeito que deve ter ficado a testa do Jacinto da Bahia. Fiquei sabendo que tinha conseguido aquela cicatriz em um tombo às margens do Tamanduateí, pois as voltas do rio faziam com que ele sentisse vertigens só de olhar.
É claro que não era isso, pois ele todo cheirava a cachaça, mas achei interessante aquela história e quis saber mais sobre o tal Caminho das Sete Voltas, que ficava entre dois becos da cidade, o do Colégio e o do Porto Geral. O Jacinto me contou que deixara a família na província de Goiás e tinha se mudado para São Paulo para cursar a Escola de Direito, ainda nos seus primeiros anos, por volta de um mil oitocentos e trinta.
Mas não tinha gostado e, por causa de outros contratempos, acabou indo viver nas ruas, sem coragem de voltar para casa ou de mandar notícias. Ele se sentiria humilhado se não voltasse doutor e, àquela altura, a família já devia até ter se esquecido dele, dando-o por morto. Sua casa era o Beco do Sapo, onde conhecia todos os moradores, que sempre lhe davam um prato de comida ou um abrigo da chuva. Isso quando o beco não estava inundado, porque chuva era o que não faltava naquela cidade.
Perto do Beco do Sapo ficava um morro interessante, todo coberto com plantações de chá, que eu nunca tinha visto tão grandes, pois tínhamos as ervas de chás no
fundo das casas, em pequenos canteiros. Havia um enorme contraste entre o morro verde de folhas e a sujeira das ruas ao redor, principalmente porque, antes de subirmos até lá, passamos por um lugar onde despejavam quase todo o lixo da cidade, atrás da cadeia.
O cheiro era quase insuportável, e o Jacinto disse que à noite ficava ainda pior, porque à fedentina se misturava o cheiro do óleo de peixe que alimentava os lampiões pendurados em postes de madeira ou nas paredes das casas.
Outro lugar também bastante feio era onde estava localizada a Igreja da Consolação, com muito barro e poças de água ao redor da construção até simpática, que ficava no caminho para o sítio onde eu estava hospedada, Pinheiros. Na Consolação, e eu não sei se o nome era por causa disso, havia uma irmandade que acolhia morféticos, tirando das ruas aquelas figuras tristes de se ver. A cidade também tinha muitos outros charcos, por causa dos rios que a cruzavam ou margeavam, causando muitas inundações. Muitas ruas eram calçadas, mas, mesmo assim, ficavam cobertas de lama, quase intransitáveis, principalmente nas regiões ribeirinhas, e acho que isso explicava o grande número de pontes.
Era também perto da Consolação que havia um mercado onde os homens vendiam os peixes que apanhavam no Tamanduateí e no Tietê, usando umas cercas de taquara ou de cipó estendidas de um lado ao outro dos rios. Isso eles tinham aprendido com os índios, que ainda habitavam muitas aldeias nos arredores da cidade, como não acontecia nos muitos outros lugares pelos quais passei.
Quando eu disse que tinha morado na corte, o Jacinto me mostrou o Convento do Carmo, uma construção grande e bonita, ao lado da estrada que levava à província do Rio de Janeiro. Percorremos o início dessa
estrada depois de atravessarmos uma várzea coberta por um matagal e ficarmos sobre uma ponte de cantaria observando o Tamanduateí correr abaixo dos nossos pés.
O Jacinto quis saber como era a corte e contei muitas coisas, inclusive que algumas ruas e becos de São Paulo tinham irmãos de nome em São Sebastião, até uma Rua do Ouvidor.
No caminho para a corte ficava uma Irmandade da Boa Morte, baseada na Igreja do Carmo, que o Jacinto disse ter imagens de santos muito bonitas. Havia também todas aquelas irmandades de brancos, como a da Santa Casa, mas me interessei mesmo por uma que ali parecia ter mais importância do que nas outras províncias. Talvez não mais que em Minas Gerais, aí já não sei dizer, porque dizem que lá a tal irmandade tinha planejado toda aquela rebelião do Tiradentes, o homem da Perpétua Mineira. Se bem que na Bahia também tinha ajudado o Bento Gonçalves a escapar do Forte do Mar, mas, pelo que o Jacinto disse, em São Paulo os irmãos pareciam mais organizados e tinham grande força política.
Era a Maçonaria, onde os irmãos se chamavam de maçons e marcavam reuniões em templos batizados de lojas, assim como nós também chamávamos de lojas as casas alugadas só pelos pretos, ou mulatos, ou crioulos, escravos ou não. Não sei se uma coisa se relaciona com a outra, e nem poderia saber, pois o próprio Jacinto chegou a frequentar uma daquelas lojas, quando era estudante, e disse que todos precisavam manter absoluto segredo sobre tudo o que era dito ou feito.
Somente homens podiam se associar, e em São Paulo quase todos tinham alguma relação com a Faculdade de Direito. Fiquei pensando que você bem poderia ter se tornado um deles se os planos do seu pai tivessem se realizado, de você ir estudar Direito em Coimbra, porque eles aceitavam mulatos e pretos, não faziam distinção de cor ou de crença. Só não havia estrangeiros, porque os
maçons se importavam muito com a liberdade, em todos os sentidos, tanto a liberdade do Brasil em relação a Portugal quanto a liberdade dos pretos em relação aos brancos. Eles diziam que o Brasil só poderia ser um país livre no dia em que os homens também fossem livres, inclusive para se governar.
O Jacinto contou que a cidade estava crescendo bastante, principalmente depois que começaram a surgir muitas plantações de café nos arredores, onde moravam alguns estrangeiros. Mas eram estrangeiros diferentes, não apenas de Portugal ou de passagem, como nos outros lugares, mas muitos deles estavam ali para morar, junto com suas famílias, em terras doadas pelo governador da província. Eles eram muito engraçados, principalmente os da Alemanha, que o governo pensou que poderiam substituir os pretos nas lavouras. Mas a pele muito branca não aguentava o trabalho ao sol e nem o corpo suportava o número de horas a que os pretos estavam acostumados na lida. O
s alemães moravam nas freguesias de Santo Amaro e do Bom Retiro, que eram duas das muitas que cercavam a cidade e que, com o passar do tempo, estavam quase se juntando a ela. Passei por algumas dessas freguesias quando estava saindo da cidade, e enquanto algumas já tinham muitos moradores, outras eram ocupadas por imensas chácaras ou fazendas, como a Fazenda das Palmeiras, bonita e muito bem cuidada, com casa-grande, senzala, armazéns, cocheiras, plantações de chá e de café, além de capinzais a perder de vista, para alimentar o gado.
Desculpe a pausa, mas preciso te dizer que neste ponto minha acompanhante me interrompe e pergunta se é somente isso que tenho a dizer sobre a passagem por São Paulo. A resposta que dei a ela foi que por enquanto sim, levando em conta que daquela vez fiquei poucos dias na cidade, e também porque quero me adiantar.
Você ainda não sabe quem é a minha acompanhante, mas vai saber no tempo certo, pois ela ainda não entrou nessa história. Mas comento isso porque acabo de perceber a semelhança entre o que eu sentia naquela época e o que sinto neste exato momento e já senti em outros, quando relembro tudo que aconteceu. Cansaço, muito cansaço.
Você já percebeu que a vida da gente pode ser dividida em espaços de tempo, ou por lugares, ou os dois juntos, da mesma maneira que dividimos uma história? E
quantas vezes, na vida de verdade, abreviamos uma situação porque estamos cansados dela? Pois bem, eu estava cansada quando cheguei a São Paulo e assim continuei durante todo o tempo que fiquei lá, como se a cada dia de busca eu acumulasse mais e mais frustrações, que acabavam ficando pesadas demais para carregar, fazendo com que me cansasse mais ainda. É claro que outras coisas aconteceram, que deixei de falar de muitas situações, de pessoas e lugares, mas não me apetece discorrer sobre tudo, pois, no momento em que estou te contando, volto a sentir todo o cansaço daquela época e, agoniada, quero acabar logo.
Quero mudar de fase, mudar de lugar, como se isso representasse um novo começo, em que as esperanças se renovam. Sempre fui assim, e talvez você já tenha percebido antes mesmo desse comentário, mas poder começar de novo, em outro lugar, com outras pessoas, com novos planos, é algo que não recuso nunca. Já deve ter percebido como pulo detalhes e conto com mais pressa os momentos que precedem, por exemplo, uma mudança, como a que vai acontecer daqui a pouco, talvez a mais significativa até então. Tudo novo, tudo absolutamente novo, e já anseio por acabar logo com este período do qual falo agora e dar passagem ao destino.
Seguir adiante
Voltando à história, a viagem até Campinas foi muito mais fácil que a de Santos até São Paulo, o que você também deve saber; fez o mesmo trajeto quase sete anos antes de mim. Fico imaginando se também foi a pé e o quanto deve ter sofrido para acompanhar com seus passos curtos de criança, os passos dos adultos, longos e acostumados ao caminho. Eu estava com a morada do mercador para o qual você tinha sido vendido e, como na caravana todos a conheciam, me deixaram na porta do armazém. Fiquei parada do lado de fora por longos minutos, sem ter coragem de entrar, porque mais uma vez estava diante da possibilidade, mesmo remota, de te encontrar lá dentro.
Era bem provável que você tivesse sido vendido para alguma fazenda, e eu não desistiria depois de já ter ido tão longe. Por mais que eu já tivesse pensado no momento de nos encontrarmos, ainda não tinha decidido o que dizer, quais as palavras certas, se deveria te abraçar, te beijar, ou esperar que você tomasse a iniciativa. Era bem possível que você não se lembrasse de mim, por ter me visto mais de dez anos antes, e eu tinha medo de também não te reconhecer, um rapaz já tão diferente da criança de que eu me lembrava.
Durante todos aqueles anos, e principalmente a cada vez que eu achava estar perto de te encontrar, isso era uma grande tortura para mim; tentar imaginar seu rosto e saber que não conheci a maioria das fisionomias que ele teve, não vi nenhuma das modificações causadas pelo tempo.
Certa vez comentei isso em uma carta para a sinhazinha, e ela disse que era uma boa coisa, que eu sempre me lembraria de você criança, o que ela não conseguia fazer em relação a nenhuma das filhas sem se valer dos quadros. Talvez essa seja mesmo a única coisa boa, pois, para mim, você sempre teve sete anos, sempre teve olhos que me seguiam com carinho e atenção, sempre teve o sorriso que não vi falhar mesmo quando teve
motivo. Como disse a sinhazinha, a memória é mesmo o mais generoso dos retratistas.
Desapontamento
Talvez eu tivesse ficado mais tempo do lado de fora se soubesse que lá dentro descobriria que aquela viagem tinha sido em vão. O dono do armazém, um português, até que foi simpático e atencioso, e imediatamente foi olhar nos livros que se referiam às datas que forneci. Ele teve certa dificuldade para encontrar o seu nome, principalmente relacionado à data de saída, e eu sabia que aquele não era um bom sinal. Cinco meses depois de tê-lo recebido, lá estava você novamente, sendo devolvido para São Paulo.
Demorei para acreditar, mas ele disse que era verdade, que achava que até sabia quem era você, um mulatinho calado e com cara de inteligente que foi mandado de volta para o mercador de São Paulo depois de ser considerado mercadoria encalhada. Se não fosse pelo baú, que eu nunca conseguiria carregar sozinha, teria voltado naquela hora mesmo, mas tive que ficar mais de uma semana esperando para seguir junto com outra tropa, trancada no quarto de uma hospedaria indicada pelo dono do armazém. Pelo menos, quase terminei de escrever a história do Padre Voador, o que foi uma boa maneira de passar o tempo.
Eu estava com a nova morada para onde você tinha sido enviado, uma hospedaria. Tento imaginar o que deve ter passado pelo seu coração e não consigo, principalmente quando o homem disse se lembrar de você e de que todos o recusavam ao saber que era baiano, mesmo sendo apenas uma criança. Ele tinha pedido a você que mentisse, porque talvez assim fosse comprado, mas você não mentia. Fiquei muito orgulhosa dessa sua atitude, porque foi algo parecido com o que fiz quando não quis ser batizada. Não neguei meu nome e você não negou
sua origem. Eu quis saber se você comentou alguma coisa sobre a família e o homem disse que não se lembrava, e disse também que depois de tantos anos, era quase impossível conseguir te encontrar.
Mas eu não podia desistir, não enquanto houvesse uma mínima chance, não enquanto ainda estivesse sendo remetida de morada em morada. Não sei se fazia isso mais por mim ou por você, o que é triste dizer, mas é necessário. E de novo acho que falo isso mais por mim do que por você, para estar em paz com a minha consciência, pois algo de que nem eu posso me acusar é de não estar sendo sincera nessa história; benesses da velhice. Todas aquelas viagens em tão pouco tempo tinham perdido a graça, e às vezes eu queria poder retornar ao Rio de Janeiro, procurar o Piripiri e aceitar que eu e você tínhamos sido separados para sempre, como acontecia com quase todos os pretos. A exceção era a família conseguir ficar junta, como eu queria, não o contrário.
A morada em São Paulo era uma hospedaria no centro da cidade, perto de lugares por onde eu tinha andado, e já não esperava encontrar você naquele lugar, como tinha acontecido em Campinas. Aliás, eu já não esperava muita coisa, principalmente a reação do comerciante quando contei que estava procurando por você. Primeiro ele quis mandar me prender, e só depois de muitas perguntas aceitou que eu estava chegando de Campinas, embora antes tivesse passado por São Paulo, vindo de Santos e de São Sebastião, tudo por conta de uma busca a mando do meu dono, que tinha ficado em São Salvador. Ou seja, contei a ele a mesma história, sobre nós dois sermos propriedade do doutor José Manoel, como eu podia provar com o documento que ele tinha me dado antes de começar a viagem. Somente depois que o homem se acalmou um pouco e parou de dizer coisas terríveis sobre você foi que entendi o que tinha acontecido.
Entendi e nunca aceitei, porque o medo que eu tinha de ter passado por você no meio da rua e não tê-lo reconhecido, poderia muito bem ter fundamento. O
homem tinha recebido você de volta do comerciante de Campinas e o tinha tomado como criado na própria hospedaria, de onde você tinha fugido não havia nem um mês, ou seja, pouco antes de eu ter chegado a São Paulo.
Se aquela viagem tivesse começado um mês ou pelo menos alguns dias antes, eu chegaria àquela pensão em São Paulo e ainda te encontraria lá.
Foi uma derrota muito grande, e não cansei de me amaldiçoar, muitas vezes e por muitos motivos, mas principalmente por ter permanecido em São Sebastião quando já tinha a morada do mercador de Santos.
Aqueles dias poderiam ter feito diferença, nunca saberemos. Se tudo tivesse acontecido mais depressa, se eu não tivesse perdido tempo quando não era necessário, se eu tivesse perguntado ao mercador de Santos se haveria alguma possibilidade de você estar em São Paulo, teríamos nos encontrado, e sabe-se lá o que mais teria acontecido nas nossas vidas.
Era o mercador de São Paulo que comprava as peças em São Salvador ou no Rio de Janeiro e mandava para o interior da província, onde, pela dificuldade de acesso, porque alguns caminhos eram difíceis, o comércio era mais lucrativo. Os comerciantes do interior ficavam com as peças durante um tempo, e se não conseguissem vendê-las, devolviam para a capital, onde sempre se arrumava uma solução.
Mas como você era baiano e tinha um jeito não muito dócil, como ele disse, não conseguiu vendê-lo e o tomou como criado da hospedaria, encarregado dos serviços de limpeza. Ele gostava de você deu para perceber pelo jeito como falava, bravo, mas por causa de uma possível ingratidão. Elogiou seu trabalho, dizendo que você era muito inteligente que aprendia com rapidez tudo o que
ensinavam e até o que não devia aprender. Não quis me dizer o quê, mas depois fiquei sabendo.
Desencontros
Eu e aquele homem não conseguíamos nos entender muito
bem,
porque
eu
estava
completamente
desorientada, sem saber que rumo tomar, e ele de tempos em tempos me acusava de ter participação na sua fuga. A pensão estava cheia, com vários hóspedes fixos, mas consegui alugar um quartinho minúsculo que havia no fundo da construção. Um lugar que ele normalmente não alugava, pois servia de depósito, mas deve ter achado que era melhor me manter por perto para tentar descobrir se eu sabia de mais alguma coisa.
Para mim foi bom porque, à noite, fui procurada por um hóspede, um estudante chamado Afonso, com quem pude conversar com calma.
O Afonso contou que todos na hospedaria gostavam muito de você, inclusive o dono, e que você tinha fugido depois de descobrir uns documentos que disse serem as provas de ter nascido livre. Tais documentos estavam escondidos no escritório da hospedaria, e também por isso o dono estava tão bravo, pois te acusava de roubo.
Não sei que documentos poderiam ser, mas desconfio da sua certidão, embora não veja por que o seu pai a teria entregado aos mercadores de São Salvador. Talvez tenha dado a você, na esperança de que um dia você soubesse o que significava, embora nela não constasse o nome do pai nem da mãe. Quando vi isso fiquei horrorizada, porque você tinha os dois.
Quanto ao seu pai, não sei, mas será que ele não tinha colocado meu nome porque achava que eu tinha abandonado vocês? Que nunca mais voltaria? O Afonso disse que você comentou com ele sobre esses documentos sem entrar em detalhes, e que ia fugir porque merecia a liberdade, de nascença, mas antes foi
agradecer por ele ter te ensinado a ler e a escrever, pois só por causa disso você tinha descoberto sua real situação.
Você não imagina como fiquei feliz com aquela notícia, e mais ainda quando ele me contou que o mérito foi todo seu, que sempre ficava por perto quando eles, os estudantes, estavam às voltas com os livros da Escola de Direito. Disse que, ao contrário de muitos deles, que não queriam saber de estudos e sim de farra, você era muito interessado, e mesmo antes de ter aprendido a ler e a escrever, ao fazer a limpeza dos quartos, muitas vezes pegava um livro qualquer e ficava com ele nas mãos, curioso para saber o que continha. Eu sei bem como é essa sensação, por causa dos meus tempos na fazenda, assistindo às aulas que o Fatumbi dava para a sinhazinha, e foi muito bom descobrir essa nossa semelhança. De quantas outras nunca saberemos?
Talvez você saiba, ao ler tudo o que estou contando.
O Afonso foi muito paciente comigo, respondendo a todas as perguntas que fiz sobre você, como você era, como agia, o que pensava. Bom moço, que também deve ter sido muito paciente com você ao te ensinar as primeiras letras, que ele disse que foram muito poucas perto do que você aprendeu sozinho depois, muito mais rápido do que seria normal. Ele disse que, de tão inteligente, você nem parecia preto, e recebi isso como um grande elogio, e disse também que você tinha dito que um dia seria advogado. Mas, de tudo, o que me fez mais feliz foi o último comentário do Afonso, sobre você falar sempre da Bahia, do quanto tinha sido feliz, livre, e tive certeza de que era para lá que você tinha fugido, para a sua terra, para a sua família.
A volta
Dois dias depois eu estava novamente a caminho de Santos, descendo aquela serra com a mesma dificuldade
com que tinha subido e pensando em pegar o primeiro navio para São Salvador. Percebo agora como aqueles dias foram de impulsividade, sem tempo para pensar direito, sem consultar os orixás ou os voduns, sem prestar atenção em nada do que as pessoas me diziam.
Hoje sei o motivo e já nem me recrimino tanto, porque não tive culpa, não tive mesmo. Peguei um pequeno paquete por falta de paciência para esperar mais tempo, mesmo sabendo que a viagem seria demorada e difícil.
Mas eu queria chegar logo. Às vezes eu pensava que você já estaria por lá me esperando, e que não sabiam como avisar. Na minha última carta para a sinhazinha, e também na carta para o Tico pedindo para suspender as remessas de tecidos, eu tinha dito que mandaria notícias, que esperassem por uma morada fixa para as respostas.
Naquele momento foi que percebi que minha última carta tinha sido enviada de Santos, quando eu ainda não sabia da viagem para Campinas. Eu queria muito chegar a São Salvador e te encontrar na casa do Tico, ansioso por saber notícias minhas. Confesso que gostava muito dessa idéia, não só por causa do reencontro, mas porque eu achava que, sabendo das minhas andanças, que alguém te contaria por lá, você ficaria sensibilizado e poderia me perdoar mais facilmente.
Eu também pensava em chamar sua atenção, porque, depois que aprendeu, você bem que poderia ter escrito para a Bahia. Inteligente como era, haveria de encontrar uma maneira de fazer a carta chegar até mim. A menos que não quisesse ser encontrado, que não quisesse me ver nunca mais. O que será que o seu pai falou para você quando te deixou com o mercador? Será que ele disse que eu concordava com aquilo? O paquete parou por algumas horas em São Sebastião, e o que a princípio era uma vontade de ir até a casa da dona Balbiana ou de visitar o Piripiri na Alfândega se transformou em um medo muito grande de ser vista por algum conhecido. Eu
tinha fracassado, tinha ido à sua procura e estava voltando sem você, e não queria que ninguém soubesse disso. Eu estava de volta e levava apenas a esperança de reencontrá-lo na Bahia, nada mais. E se isso acontecesse, de modo algum seria mérito meu, apenas seu.
Fiquei em São Salvador durante seis meses, de maio a outubro, seis longos meses de muita inquietação, que me pareceram ainda mais longos por causa da grande movimentação dos três meses anteriores. Todos se surpreenderam com a minha chegada sem você, principalmente a sinhazinha e o doutor José Manoel, que, por terem participado tanto, estavam tão esperançosos quanto eu. Só três ou quatro dias após a chegada foi que tive ânimo para visitá-los, e mesmo assim por consideração, pois eles iam querer saber tudo e eu não estava com vontade de contar. Pela experiência que tive com o Tico, percebi que contar me cansava e entristecia muito mais do que ter vivido.
Provavelmente, não teria sido assim se tivesse dado certo, se nós dois estivéssemos retornando juntos, pois aí eu faria questão de contar para todo mundo, em detalhes. Só tive a verdadeira noção de quanto tempo tinha ficado fora quando prestei atenção no Tico e depois em mim. Estávamos velhos, não tínhamos quase mais nada daquelas crianças que sempre arrumavam algum motivo para serem felizes, mesmo em condições tão adversas. Conversamos muito sobre isso e lamentamos os vários acontecimentos que nos tinham levado a ficar sozinhos. Talvez a solidão tenha sido mais difícil para o Tico, não sei, morando naquela casa que já não tinha mais a presença da Esméria, do Sebastião, do Hilário e, principalmente, da Claudina. A Malena ainda continuava por lá, mas tinha ficado triste também, justo ela, que antes não parava de sorrir.
Quieta, andava pela casa tal como um vento brando, sem
fazer barulho, sem falar com ninguém, cuidando da limpeza. A casa parecia a mesma, o Tico disse que não tinha tirado um único móvel do lugar e nem tinha deixado trocar as toalhas de mesa e coisas assim, como o mestre Agostino, porque elas o faziam se lembrar da Claudina. Mas é claro que já não tinham mais vida alguma, nem cores, nem nada, eram apenas recordações que deviam ter sido enterradas há muito tempo e que só causavam sofrimento, porque era possível ver o estrago que o tempo fazia nelas. Igual ao que também fez em mim e no Tico, que eu achei muito parecido com o Sebastião, apesar da enorme diferença de idade entre eles, se o Sebastião ainda estivesse vivo.
Com pouco mais de quarenta anos, o Tico já estava com quase todos os cabelos brancos, e embora o rosto não tivesse tantas rugas, o corpo já estava muito vincado, combinando com o andar de cabeça baixa e braços pendendo de ombros frouxos. Mas ele não reclamava de nada, nem mesmo do irmão, com quem era evidente que estava muito magoado. O Hilário foi até a casa dele me visitar, e quem se sentou na sala conosco não era mais a pessoa que eu tinha conhecido. Essa diferença devia ser ainda maior para o Tico, já que os dois eram tão unidos.
Pelo menos para mim eles eram inseparáveis, e sempre que eu queria dizer alguma coisa sobre um deles, era inevitável citar o outro também.
Já reparou que até aqui, recordando, eu sempre disse o Tico e o Hilário, mesmo se pudesse dizer apenas o Tico ou apenas o Hilário? Pois é, eles eram assim, quase um, como eu também tinha sido com a Taiwo, como você, mesmo muito novo, tinha sido com o seu irmão, e como os seus outros irmãos foram durante um bom tempo.
Mas o casamento do Hilário tinha feito com que ele tomasse caminhos que não foram seguidos pelo Tico. A Divina, mulher dele, fez com que mudasse bastante, a ponto de não mais aceitar a simplicidade do Tico, pois não combinava com as novas amizades e com o novo tipo
de vida que levavam.
Continuavam tendo negócios juntos, mas o Hilário recebia uma porcentagem maior por estar à frente de tudo que o Tico foi abandonando devagar, conforme a casa e a vida iam ficando vazias. Ele me contou que quase não ia ao escritório que tinham montado no Terreiro de Jesus, e que o Hilário não se importava e até mesmo gostava disso, dizendo que o Tico precisava modernizar as idéias, ser mais arrojado. Isso significava se vestir com roupas caras e ter muitos escravos ou empregados, que nem sempre tratavam bem.
Se o Hilário tinha passado a tratar mal os empregados, por outro lado se humilhava para freqüentar alguns ambientes de brancos, que o aceitavam somente por causa do dinheiro. Não fiz a menor questão de ir até a casa dele, mas soube que a Divina tinha contratado até uma criada branca. Definitivamente, eu não gostava dela, e tenho comigo que a morte da Esméria pode ter sido de desgosto, por ter adivinhado o estrago que aquela mulher faria com os dois irmãos, o fim da amizade entre os seus dois meninos.
Quando finalmente tive ânimo para ir até a casa da sinhazinha, as novidades por lá eram muitas, a começar pelas meninas. A única que eu tinha visto crescida era a mais velha, a Carolina, que tinha se mudado de Portugal para a França, Paris, onde estava estudando Belas-Artes.
A Mariana, a segunda mais velha, estava noiva e com o casamento marcado para o mês de julho com um português que tinha idade para ser o pai dela, mas que, de acordo com o doutor José Manoel, era boa pessoa, advogado também.
A Amélia estava no mesmo colégio onde a sinhazinha tinha estudado, e no ano seguinte a Maria Luísa começaria os estudos. Ela, cujo nome me homenageava,!
eu ainda não conhecia, pois tinha nascido quando eu
estava de partida para o Maranhão. E também não conhecia a Cecília nem a Angélica, que tinha esse nome em homenagem à mãe da sinhazinha. Era uma família muito bonita e feliz, e me alegrava demais vê-los tão bem. Fiquei surpresa com a notícia de que estavam considerando a idéia de se mudarem para a corte depois do casamento da Mariana. O marido dela ficaria cuidando do escritório de São Salvador, onde o volume de trabalho tinha diminuído bastante, enquanto o doutor José Manoel trabalharia com os clientes das províncias do Rio de Janeiro e de São Paulo, pois, segundo ele, era para onde tinha ido o dinheiro, nascendo junto com os pés de café. Achei que a sinhazinha ia gostar da vida em São Sebastião, principalmente porque adorava teatro e música, e os espetáculos eram muito mais freqüentes na corte do que em São Salvador. Ela me convidou para ir junto com eles, para voltar a morar em São Sebastião, e até achei a idéia boa, pois tinha encontrado uma São Salvador muito diferente da que tinha deixado, muito pior, muito mais triste.
Fui também visitar a Adeola, que estava enfrentando grandes dificuldades para cuidar de todas as crianças que recebia. A dona Maria Augusta tinha morrido e, desde então, as pessoas que antes costumavam ajudar o padre Heinz, estavam mais colaborando, e quem muito a ajudava era a Trindade, a que tinha vivido com o padre Heinz e depois se tornado uma das esposas do Babalaô Gumfiditimi. No dia em que fui visitar a Adeola, a Trindade estava por lá e contou da morte do babalaô, o que a deixava duplamente viúva.
Ela estava bastante conformada, dizendo que os dois tinham levado uma vida produtiva e seriam bem recebidos no Orum, principalmente o Babalaô Gumfiditimi, por ter morrido velho e cheio de filhos.
Quem estava cuidando da família dele era o filho mais velho da primeira esposa, mas, como eram muitos os parentes, já não havia mais tanta paz entre eles como no
tempo em que o Babalaô Gumfiditimi era vivo. A única que estava bem, melhor do que antes da minha partida, era a Esmeralda, vivendo de portas adentro com um santeiro liberto muito mais velho, mas trabalhador, honesto, e que dava a vida por ela.
Às origens
Quase todos os dias eu ia até o cais e ficava sentada em alguma amurada olhando o mar, o movimento dos barcos e das pessoas que chegavam, esperando ver você entre elas. Muitas vezes me aproximei de algum rapaz e perguntei de onde vinha e quem era, com medo de que pudesse estar perguntando isso ao meu próprio filho. As vezes, o Tico ia comigo e ficávamos conversando sobre os velhos tempos, sobre os dias em que nos sentávamos na praia, na fazenda de Itaparica, e tentávamos adivinhar de onde chegavam ou para onde partiam as embarcações que cruzavam a Baía de Todos os Santos.
Muitas vezes falávamos que estaríamos em uma delas a caminho da África, por um motivo que o Tico me fez recordar. Ele, que era crioulo, contou que sempre teve vontade de conhecer a África por minha causa, por causa do que eu contava sobre Savalu, sobre o rio e o iroco, sobre Uidá e a família da Titilayo. Ele me lembrou que, se eu tivesse ficado por lá, provavelmente estaria casada com o Akin, eu e a Taiwo.
Estranhei ele se recordar daquelas histórias com tantos detalhes, mas ele disse que era porque eu as contava muito bem, descrevendo tudo de uma maneira que fazia os lugares e as pessoas parecerem muito interessantes.
Depois daquela conversa, fiquei imaginando se a África era realmente um bom lugar ou se apenas as minhas lembranças eram boas. Foram tais pensamentos que me levaram aos sonhos, que, por sua vez, me levaram de volta à África.
Durante quase dois meses, todas as noites sonhei com a minha avó, a minha mãe, a Taiwo, o Kokumo, A Titillayo, a Aina, o Akin, a Nilaja, a Nourbesse, o Ayodele e até com o homem que tinha nos presenteado com orikis no dia em que nos mudamos para a casa de cômodos. Foi mais uma decisão tomada de repente, sem pensar muito, daquelas que mesmo anos depois a gente fica tentando entender, encontrar um motivo, uma justificativa, e simplesmente
não
consegue.
Foram
decisões
empurradas pelo destino ou por uma alteração nele. Eu tinha feito muitas amizades no cais, principalmente com as vendedoras de comida, e sabia de todos os navios que ancoravam ou partiam, mesmo os clandestinos que chegavam à noite com carregamento de escravos, ali mesmo ou nas redondezas. Foi assim que fiquei sabendo do Sunset, um patacho de bandeira inglesa que tinha acabado de chegar de Trinidad e estava esperando carga para seguir até a África.
Achei bonito e triste aquele nome escrito em vermelho sobre o casco onde a madeira ainda reluzia de tão nova.
Disseram que o capitão estava aceitando passageiros, e só por curiosidade fui olhá-lo mais de perto. Um dos marinheiros disse que não era navio de pretos, só de carga, e que estava esperando carregamentos de fumo e de cachaça para vender em Lagos. Ele me perguntou se eu estava interessada em seguir junto eeu respondi que sim, mas ainda não levava essa hipótese muito a sério. À
noite contei ao Tico e rimos muito planejando a viagem juntos, planejando ir até a África para ver como estava tudo por lá e voltar dentro de poucos dias.
Quando dormi, foi como se já estivesse em África, com o navio chegando ao porto de Uidá, onde havia uma grande festa me esperando, com quase todas as pessoas que eu conhecia, até mesmo as que nunca tinham estado lá, como a sinhazinha, o doutor José Manoel e as meninas, o padre Heinz e a dona Maria Augusta, e até o Banjokô. Havia também muitas pessoas com máscaras
gelédés, e, no meio delas, um rapaz que, no sonho, eu sabia ser você. Acordei pensando que aquele era um aviso, que, em vez de ir até a Bahia, você poderia ter resolvido ir para a África, talvez pelo mesmo motivo que tinha feito o Tico ter vontade de conhecer o lugar onde eu tinha nascido, as histórias que eu também te contava.
Não sei de onde tirei essa idéia, não sei como você conseguiria, mas eu não podia duvidar dos sonhos, não depois de tudo que tinha aprendido com a sinhá Romana.
Na manhã seguinte, fui até o cais e pedi para falar com o capitão do Sunset, um inglês, dizendo que gostaria de voltar para a África e poderia pagar a viagem, e ele me informou dos documentos que eu precisava, que pedi ao doutor José Manoel para providenciar. De início ele achou que eu estava brincando, mas logo se convenceu e pediu à sinhazinha que conversasse comigo e me alertasse de que, saindo do Brasil, eu nunca mais poderia voltar. Eu sabia disso, e era a única coisa que me preocupava, mas também sabia que, com algum dinheiro e usando os mesmos artifícios dos homens que faziam entrar escravos mesmo sendo proibido, conseguiria desembarcar em qualquer porto que quisesse.
Apesar de ter ficado triste com a minha partida, o Tico disse que não pretendia ir, que estava apenas fantasiando, e que tomaria todas as providências caso você aparecesse na casa dele, mandando me avisar ou providenciando a sua ida, se você assim preferisse.
Apesar de achar que não resultaria em nada, já que você tinha fugido, assim que chegasse a São Sebastião o doutor José Manoel continuaria as buscas por lá, publicando de vez em quando algum anúncio em jornal, e um amigo dele ia fazer a mesma coisa em São Paulo.
Mas ele me disse para não ter esperanças, pois um escravo que quisesse se esconder do dono jamais responderia a um anúncio, pois o anunciante poderia ser
um capataz em busca de recompensa.
Achei que tinha razão, mas mesmo assim pedi que mantivesse o trato, acredito que mais para ter a sensação de estar fazendo alguma coisa. Tenho todos estes recortes comigo, pois a sinhazinha fazia questão de enviá-los, já que eu pagava por eles. Por mim não precisava, pois tinha plena confiança nela, mas aprendi que era assim que devia ser com os negócios, sempre separados das amizades. A mudança deles estava programada para logo depois do casamento, e por mais que tivessem pedido que eu esperasse pela festa e embarcasse em um próximo navio, não cedi. Não era apenas a viagem, mas eu tinha gostado do Sunset e sabia que era nele que tinha que partir, embarcando na noite quente e abafada de vinte e sete de outubro de um mil oitocentos e quarenta e sete.
O doutor José Manoel fez questão de me levar até o cais e me recomendar ao capitão, e aproveitei para deixar com ele os escritos, que tinha terminado um dia antes, sobre aquela história do Padre Voador, pedindo que, por intermédio dos parentes que ainda tinha em Portugal, ele os fizesse chegar até o Convento de Mafra, onde o padre Bartolomeu tinha vivido.