Um Defeito de Cor
Capítulo nove
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.
que se tornavam as "esposas-leopardo-do-rei".
Elas comiam carne crua, limavam os dentes, raspavam as cabeças e adoravam gritar que eram homens, e não mulheres. De certa forma, até agiam como tal, pois, tendo que permanecer celibatárias, faziam coisas com tropas de prostitutas que estavam sempre à disposição delas. Disso, nem eu nem o Van-Van gostamos. Eu adorava a companhia dele, que era divertidíssimo, e por isso fazia questão que ficasse hospedado em minha casa sempre que estivesse em Uidá. Isto é, quando o John não estava lá, pois ele também não gostava do Van-Van. O
Abimbola o suportava, mas a lyá Kumani e o Prudêncio me advertiram de que ele não deveria entrar nos quartos santos.
Quando a casa do senhor Domingos em Aguê estava quase pronta, resolvi acompanhar o Van-Van até lá, não só porque eu gostava de vê-lo trabalhando, mas também porque queria conhecer a cidade, onde sempre tínhamos obras e por ser um dos lugares com mais brasileiros em toda a África. Lembra que eu já te falei que na Bahia, mais especificamente na Igreja do Corpo Santo, na cidade baixa, havia a confraria do Senhor do Bom Jesus das Necessidades e Redenção dos Homens Pretos? E
que em Aguê eu tinha encontrado algumas pessoas que tinham feito parte desta confraria e levado uma cópia da imagem do santo para lá? Pois bem, essa imagem estava instalada em uma igrejinha mandada construir por um retornado de nome Joaquim D'Almeida, um dos homens mais ricos da região, comerciante de escravos.
As pessoas não gostavam muito dele, mas eu não tinha nada contra e até o achava generoso e amável com os amigos. Em Aguê, era protegido do rei Glidji Aloffa, para quem cobrava impostos de todos os navios que chegavam à região. Tinha lá uma bela casa, coberta com telhas portuguesas e cercada por um grande jardim à européia, que visitei muitas vezes para jogar partidas de
damas com ele.
Aguê era uma cidade bem pequena e, se não me engano, fundada pelos retornados. Naquela primeira viagem com o Van-Van, fiquei por lá pouco mais de uma semana, mas voltei sempre que tive oportunidade, principalmente por causa dos bons amigos que fiz. Além do Joaquim D'Almeida, havia uma mulher de quem eu gostava demais, a íyd Francisca, que era sogra de outro brasileiro muito importante, o Francisco Olympio. Mas não era só eu que gostava dela, porque era pessoa das mais caridosas, que gastou uma verdadeira fortuna, que não lhe fez falta, comprando e libertando muitos escravos, provavelmente por também ter sido escrava, privilegiada por uma sorte sem igual.
Ela era iorubá de Abeokutá, e ainda muito menina tinha sido capturada e feita escrava de um brasileiro de Aguê.
Não se sabe muito bem o que aconteceu com ele quando, estando bem de vida, com muitos escravos e propriedades foi para o Brasil e não retornou. O
brasileiro tinha um escravo de confiança, que foi deixado tomando conta dos negócios e que acabou se apossando deles quando percebeu que o dono não voltaria. Esse escravo se decretou liberto e desposou a íyd Francisca, que, ao ficar viúva, herdou tudo que ele tinha. Não sei como conseguiram isso, pois é costume em África que os bens dos súditos falecidos passem todos, ou quase todos, para o rei. Foi por isso que agora, ao sair de lá, passei todos os bens que estavam em meu nome para os seus irmãos e mais algumas pessoas de quem gosto muito.
Problemas e proteção
Por conta dessas viagens a Aguê e a outras cidades onde estávamos construindo, acabei me afastando um pouco do Comitê Brasileiro de Uidá. Dediquei-me bastante à Casas da Bahia nos primeiros cinco ou seis anos, e chegamos a encomendar quadros de artistas de São
Salvador e de São Sebastião do Rio de Janeiro mostrando as novas moradias que estavam sendo erguidas por lá, para nos inspirar. Enquanto isso, muita coisa mudava na vida em África, que continuava sendo muito maltratada pelas guerras e confusões entre os reinos, as tribos e as pessoas.
Entre os brasileiros e os africanos, por exemplo, até hoje ainda há graves problemas, principalmente para os que voltam agora, passado pouco tempo do fim da escravidão no Brasil. Sabe que imaginei que isso nunca fosse acontecer? Mas há um ou dois anos mais ou menos, perguntei a um retornado bastante esclarecido se não havia mesmo mais escravidão no Brasil e ele me disse que ainda havia sim. Não nas grandes cidades, onde os pretos e crioulos eram mais bem-informados, mas havia lugares mais para o interior do país, nas fazendas, onde as pessoas nunca ficariam sabendo que não podiam mais ser mantidas como escravas. A notícia não tinha chegado até elas, e talvez ainda fique assim por algumas gerações.
Mas voltando àquela época e aos problemas dos retornados, ainda havia mais um, causado primeiro pelo rei Kosoko, o que tinha sido deposto, e depois pelo rei Akitoyê. Menos pelo rei Akitoyê, que os ingleses conseguiram convencer de que a ida de brasileiros para Lagos faria a região evoluir. Mas às vezes o rei se esquecia disso, contribuindo para aumentar um temor que afastava muitos dos retornados, e que os ingleses estavam tentando reverter por intermédio do cônsul.
Além de cobrar altos impostos de todos que desembarcavam e se apossar dos bens que levavam, os reis ainda costumavam aprisionar alguns para revender como escravos. O retorno mais complicado era o dos iorubás do interior, para onde Lagos era o caminho mais curto. Estes, se desembarcassem em Uidá, corriam o risco de serem pegos pelo exército do rei Guezo, que sempre viveu em guerra com os antigos reinos iorubás.
A melhor opção para eles era chegar a Lagos e pedir proteção ao cônsul inglês, um simpático senhor chamado Benjamin Campbell, com quem tive o prazer de conversar algumas vezes e que tratou muito bem a mim e ao John, principalmente depois de saber que o John já tinha sido um dos homens de confiança do Mister Macaulay. Os brasileiros e os sarôs se apresentavam ao cônsul Campbell e ele os protegia dos desmandos dos reis e da raiva dos selvagens, mas desde que reconhecessem o rei Akitoyê como único e definitivo, porque ainda havia alguma resistência, que não se envolvessem com o comércio de escravos, que mantivessem no consulado uma lista atualizada com os nomes de todos os chefes das famílias, e que enviassem as crianças para as escolas que estavam sendo abertas pelos missionários protestantes.
As aulas eram dadas em inglês, porque ter mais gente falando essa língua, além dos sarôs e dos próprios ingleses, foi uma excelente maneira que os ingleses encontraram para se comunicar com mais tribos, aumentando a presença e a importância deles na região.
Os retornados aprendiam a falar inglês e serviam de intérpretes entre as pessoas das tribos de onde tinham saído e os ingleses, ajudando na aceitação do novo rei, Akitoyê, e do interventor inglês. Apesar dos problemas, os brasileiros que voltavam para Lagos estavam se organizando melhor que os brasileiros de Uidá, principalmente os comerciantes. Como em Uidá o tráfico não era tão controlado, muitos traficantes continuaram a comerciar ilegalmente com o Brasil, aproveitando para tirar o máximo proveito durante o tempo que ainda fosse possível. Enquanto isso, em Lagos já se pensava em muitas alternativas ao tráfico, e o cônsul Campbell tentava conseguir que o governo britânico estabelecesse uma linha regular de navios entre Lagos e o Brasil, para os que queriam retornar.
Eu gosto muito de política, desde quando ouvia
escondida as conversas do sinhô José Carlos, na Ilha de Itaparica, e sou capaz de ficar aqui, gastando o tempo e as forças falando disso, e ainda te aborrecendo.
Então, vamos voltar à nossa história. Conforme os ibêjis cresciam e queriam ficar mais tempo na fazenda com o John, comecei a viajar mais e mais, visitando as obras.
Não que precisasse, pois os nossos homens eram muito bons e não havia nada que eu pudesse fazer ou em que pudesse ajudar.
Mas além de achar muito divertido acompanhar o Van-Van, eu também não ficava sozinha naquela casa de que gostava tanto, mas que era muito grande sem a família, e ainda mostrava aos comerciantes que nos contratavam que aquele trabalho era muito importante para a empresa, a ponto de eu ir acompanhá-lo pessoalmente.
Muitos gostavam disso, e também era essa a justificativa que eu dava ao John, pois ele preferia que eu estivesse junto dele e das crianças naquele lugar onde nada acontecia. De vez em quando eu até ia até lá, mas depois de dois ou três dias, tudo que eu queria era estar em Uidá ou em qualquer outra cidade onde tivesse gente para conversar e coisas interessantes para ver.
Em Uidá havia muitas festas, como as programadas pelo Comité Brasileiro, mas uma das melhores daquela época aconteceu, se não me engano, em um mil oitocentos e cinqüenta e quatro, quando o Chachá I completaria cem anos se estivesse vivo. Quem organizou tudo foi o Isidoro, o Chachá II, e seus dois irmãos mais importantes, o Inácio e o António, e para prestigiá-los apareceu gente de quase toda a África, brasileiros ou não, comerciantes legais e traficantes. Foi nessa ocasião que conheci o senhor Francisco José de Medeiros, um rico comerciante português que falava tão bem o inglês que alguns diziam que ele tinha nascido nos Estados Unidos da América.
Aliás, ele enriqueceu muito mandando escravos para os Estados Unidos, e óleo de palma também, que produzia na sua fazenda de Aguê. Mas não foi bem ele quem mais atraiu minha atenção, mas um de seus protegidos, um fon retornado de nome Olipon, padeiro por ofício quando era escravo no Brasil e que abriu a primeira padaria em África, ou pelo menos em toda aquela região que eu conhecia. Quando fiquei sabendo que ele tinha feito isso, briguei comigo mesma por não ter tido tal idéia antes.
Mas depois de comentar com a sinhazinha e de ter a resposta dela, percebi que ela tinha razão, que eu gostava de inventar coisas para tomar conta, para me ocupar, quando já era quase hora de descansar e aproveitar tudo o que já tinha construído, que não era pouco.
O filho da Aina, o Adedayo, estava se tornando um excelente ajudante para o John, enquanto o outro, o Aderonke, já fabricava sozinho muitas das peças que mobiliavam nossas obras. As duas meninas estavam novamente casadas, com brasileiros meus empregados, e a Hasina inclusive já tinha outra filha. A sinhá também estava cheia de netos e somente uma das filhas dela ainda não tinha se casado. Só o Tico me preocupava, por não ter voltado a se casar depois da morte da Claudina, embora ele sempre dissesse, sem que eu tivesse motivo para duvidar, que não sentia falta de nova companheira e estava muito feliz com os nossos negócios, que davam um bom lucro para ele também. Mais ainda porque o óleo de palma que estávamos enviando para a Bahia era produzido na fazenda do John e, portanto, mais barato do que se tivéssemos que comprar de outros fazendeiros.
A busca por você continuava sem notícias, mas ainda com alguma esperança, principalmente quando eu conversava com a lyá Kumani e ela afirmava que o Ifá não erra, e que ele tinha dito que você seria encontrado e que isso não demoraria a acontecer. O bokonon
Prudêncio dizia a mesma coisa, e que eu deveria pedir a ajuda dos voduns, que nunca deixei de honrar no quarto destinado a eles. O padre Pedro da Anunciação tinha dito que eu devia ter fé em Deus, mas o Prudêncio não concordava, pois, segundo ele, Deus é grandioso demais para se importar com as pequenas coisas dos homens.
Ele não falava isso diminuindo a importância de Deus, mas me mostrando que Ele se ocupa apenas das coisas que beneficiam todos, e não só uma pessoa ou uma família. Tudo o que é do dia-a-dia, como ter o que comer, onde morar e saúde, por exemplo, deve ser pedido aos voduns, pois se fosse necessário e importante, eles mesmos pediam a Deus, ou ao Ser Supremo. O Abimbola e a lyá Kumani achavam a mesma coisa, mas em relação aos orixás, e por via das dúvidas eu saudava santos, voduns e orixás, e se conhecesse algum angola naquela época, também saudaria os nkices. E também Alá, com quem voltei a ter contato depois de uma viagem a Porto Novo.
Suleimane
Os muçurumins retornados iam quase todos para a região de Porto Novo, nem sempre porque eram de lá, mas por causa da presença de um príncipe iorubá de Iyê, que tinha sido vendido como escravo por problemas de família, disputas pelo trono. O príncipe foi mandado para a Bahia e lá ganhou o nome de José, antes de se converter à religião do profeta. Não me lembro do nome africano dele, para saber se já tinha um daqueles nomes próprios dos muçurumins. Na Bahia, o José aprendeu o ofício de barbeiro, e só por causa disso foi levado de volta para a África, depois que uma parenta dele de São Salvador contou ao comerciante Domingos José Martins que ele era um profissional muito bom. Como conhecia o dono do José, o Domingos José Martins pediu que ele fosse liberado para servi-lo em Porto Novo, onde não havia barbeiros.
O José era barbeiro apenas do Domingos José Martins, ficando o tempo todo ao lado dele, e à noite ainda trabalhava de vigia em uma concessão do comerciante em Ohum-Sémé. Estou me adiantando muito no tempo, mas não sei se vou me lembrar de voltar a essa história ou mesmo se terei tempo para isso, e também nem sei por que estou contando. Não tenho nenhum motivo especial para falar disso, a não ser a vontade de relembrar toda a minha vida, de pôr a memória à prova, de saber sobre quem e sobre o que ainda me lembro.
Depois da morte do senhor Domingos José Martins, quando eu já morava em Lagos, José, o barbeiro, herdou alguns de seus bens, tornando-se uma pessoa muito rica e influente, protetora e incentivadora dos muçurumins que voltavam à África. Quase todos já sabiam disso e tratavam de desembarcar em Porto Novo. Conversando, ele me confessou que gostaria muito de construir uma mesquita para que o seu povo, era assim que ele chamava seus protegidos, para que eles pudessem rezar para Alá em lugar apropriado.
Mas o que eu queria mesmo dizer era que, ainda antes de o José ter essa importância toda, já havia muitos muçurumins
em
Porto
Novo,
alguns
bastante
inteligentes, como tinha sido o Fatumbi. Os que não ficavam em Porto Novo se estabeleciam ao longo das rotas comerciais, e muitos outros também se tornaram caravaneiros bem-sucedidos, levando os escravos capturados no interior até os portos de comércio. Alguns iam buscar capturados até mesmo fora do Daomé, nos reinos vizinhos e, sem contar as guerras, eram os principais fornecedores do Chachá. Em Porto Novo fiquei sabendo de um que tinha experiência em ensinar, e perguntei se ele não queria ir comigo para Uidá, pois os ibêjis precisavam aprender a ler e a escrever e eu já não tinha mais paciência para isso.
O muçurumim, que se chamava Salif, aceitou e fiquei
mais feliz ainda quando descobri que, além do português, ele também conhecia um pouco de inglês, por já ter trabalhado para alguns ingleses. Os ibêjis falavam um pouco também, por causa do convívio com o pai, e seria bom que fossem educados nas duas línguas.
Havia uma escola no forte português, mas quase nunca professores disponíveis.
Eu imaginava para eles um futuro letrado, e muitas vezes já tinha pensado em me mudar para Lagos e colocá-los na escola dos missionários protestantes. Mas o John sempre foi contra, já que por nada no mundo largaria aquela fazenda e nem queria ficar longe dos filhos, pois era muito apegado a eles. Acho que não fui boa mãe para os ibêjis como acredito que fui para o Banjokô e para você. Isto é, nos momentos em que estivemos juntos, antes que eu me tornasse a pior mãe que você poderia ter tido, antes de eu te deixar aos cuidados do seu pai e da Claudina. Talvez tenha sido por isso a minha mudança para Lagos depois da morte do John, só para desafiá-los, só para não dizer que deixei de fazer algo que queria.
Aliás, já está quase na hora de começar a falar disso e encerrar a penúltima parte dessa história, mas antes preciso contar algumas coisas e mais uma vez vou tentar ser breve, como tenho prometido desde o início, sem cumprir. Sempre que eu estava em casa na hora das aulas dos ibêjis, fazia questão de ficar por perto. Não só por gostar de estudar, de ler, de aprender, pois as crianças ainda eram muito novas e não havia nada que o Salif falasse que eu não soubesse. Mas para vigiá-lo, pois ele era daquele tipo de muçurumim que achava que só a religião dele estava certa, que só Alá era o Deus verdadeiro, e não perdia uma única oportunidade de dizer isso para quem quisesse ouvir.
Eu não queria que o João e a Maria Clara pensassem assim, e apesar de já ter proibido o Salif de dizer
qualquer coisa de religião para eles, não havia como.
Algumas vezes, quando eles estavam aprendendo a escrever, eu o peguei ditando trechos do Alcorão, e quando protestei, ele disse que era apenas um livro, que eram apenas letras. O Alcorão dele era em português, igual ao de muitos pretos do Brasil que não tinham tido oportunidade ou capacidade para aprender aquela língua estranha.
O senhor Mongie, dono da livraria que eu freqüentava em São Sebastião, tinha me dito que o Alcorão era um dos livros que ele mais vendia, todos para os pretos, que compravam para pagar em muitas vezes e nunca deixavam de fazê-lo, mesmo que ficassem sem dinheiro para comprar comida, pois achavam que aquela era uma compra sagrada, as palavras do profeta. Eu só não dispensava o Salif porque ele gostava do que fazia e tinha muita paciência com a falta de interesse das crianças.
O João gostava um pouco mais que a Maria Clara, que me lembrava a sinhazinha. Aliás, essa não era a única semelhança entre as aulas dadas pelo Salif e pelo Fatumbi, pois em Uidá também havia outra pessoa tão ou mais interessada do que eu tinha sido, que é exatamente esta que está aqui comigo, pondo no papel todas essas palavras, a Geninha, a filha da Jacinta. Eu me lembro dela, toda envergonhada, assistindo às aulas da porta, sem ter coragem de entrar. Ninguém proibia, mas acho que, por não ter sido convidada, ela não entrava. E também porque tinha um pouco de medo da mãe, que gostava de mantê-la por perto, ao alcance dos olhos. Desde aquele acidente com a faca, a Jacinta não deixava a menina sozinha, e achei um absurdo quando começou a carregá-la amarrada às costas, mesmo dentro de casa e mesmo quando a menina já estava tão grande que arrastava os pés no chão.
Agora, na minha frente, ela sorri e diz que também se
lembra disso e até gostava, mas se preocupava com o esforço da mãe, levando-a de um lado para outro enquanto cuidava dos afazeres. A mão esquerda da Geninha já era muito bem treinada e ela logo aprendeu a escrever, muito mais depressa que as minhas crianças.
Por falar em escola, em certa época a minha casa se parecia demais com uma, pois para lá também foram cinco filhas do senhor Domingos José Martins, a pedido dele e por indicação do cônsul Campbell, de Lagos. As moças e meninas nunca tinham saído da África e o pai ia mandá-las para serem educadas e para se casarem na Bahia, mas antes queria que recebessem algumas orientações, para que não chegassem ao Brasil parecendo as selvagens que verdadeiramente eram.
Tive imenso gosto e imenso trabalho, pois precisei ensinar quase tudo a elas, desde o jeito certo de se vestir com roupas brasileiras, o jeito de andar, de sentar, de comer usando talheres, de se portar em festas e em casas alheias. Ensinei coisas que já sabia por prática ou por ter visto a sinhá Ana Felipa ou a sinhazinha fazendo.
Aliás, a sinhazinha foi de grande ajuda, e em cartas me lembrou e explicou muitas coisas que eu tinha que ensinar às meninas, e ainda indicou uma amiga em São Salvador que poderia recebê-las em uma casa de muito respeito e continuar a educá-las, encaminhando também para o casamento. Passei a sugestão para o senhor Domingos, mas não sei dizer se ele a aceitou.
Esqueci-me também de perguntar isso à sinhazinha, porque assim que as meninas foram embora de casa, onde ficaram mais de quatro meses, com destino a Lagos e de lá para a Bahia, começaram as confusões. É sempre assim, como já falei, um período de calmaria e outro cheio de problemas.
Vida e mortes
O primeiro problema que apareceu foi uma criança, um bebê, deixado na porta da minha casa e encontrado quando eu, a Jacinta e a Aina voltávamos da serenata da lyd Kumani. Quero dizer, o bebê foi o segundo problema, pois é claro que o primeiro foi a falta que sentiríamos da lyd Kumani. Fomos alcançadas ainda no meio da rua por um dos seguranças da vila, que era como já chamavam o lugar onde ficava a casa.
O terreno era cercado, e ao redor já havia surgido uma série de casas de brasileiros, formando quase uma vila mesmo. Nós três estávamos na companhia de mais brasileiros que moravam por ali, e voltávamos felizes pela homenagem que tinha sido prestada à lyd Kumani, uma boa recordação para tudo de bom que ela tinha feito em sua longa vida. Quando chegamos na casa dela, já estava tudo preparado, o corpo, que mais parecia estar dormindo do que morto, a casa enfeitada, os músicos, as comidas e as bebidas providenciados por uma multidão de pessoas que queriam participar e demonstraram gostar muito dela.
Tinha morrido em paz, durante o sono, e, pelo jeito, sem sentir dor alguma, por causa da tranqüilidade das feições. Só não havia ainda cauris para serem distribuídos aos participantes, mas mandei buscar no escritório da Casas da Bahia em grande quantidade, para que houvesse fartura e porque ela merecia. No quintal da casa foram montadas mesas, onde as pessoas se serviam à vontade, e os netos e bisnetos dela ficaram à porta, distribuindo os cauris a quem chegasse e a quem ia pedir esmola. Teve também tocador de atabaque, clarinetista, flautista, tocador de violão e um eve dizendo orikis, e vários babalaôs e ialorixás que fizeram a cerimônia de tirar o adoxu da cabeça dela.
Acho que já contei que o adoxu é um preparado de ervas que é colocado debaixo do couro cabeludo de quem tem a cabeça consagrada ao orixá, como era o caso da lyd Kumani. Na cerimônia, o cabelo do morto é raspado e o adoxu é retirado, deixando um buraco que deve ser muito bem lavado com outro preparado de ervas, o amassi.
Isso deve ser feito para que o axé do orixá seja liberado e não se perca para sempre, enterrado dentro da orla do morto, da cabeça, e volte para o universo, onde fica disponível para ser usado na feitura de outra cabeça.
Era assim na Bahia e acho que assim foi feito, guardando-se também a água da lavagem para fazer o despacho do corpo, a que nós não assistimos por ser permitido somente aos iniciados.
Antes de o corpo ser levado para o quarto dela, onde seriam realizadas as outras cerimônias, cantamos e dançamos muito. Confesso que fiquei um pouco inibida, principalmente porque havia muitos selvagens e eu não estava mais acostumada àquele tipo de festa, mas logo fui notando a presença de um e outro brasileiro, todos cúmplices naquela violação de comportamento. Ficamos todos juntos, afastados dos selvagens, mas não deixamos de fazer quase tudo que eles faziam, tendo a desculpa de que era para honrar a lyá Kumani. Até mesmo o Prudêncio apareceu, fez algumas orações ao lado do corpo e foi embora.
Quem se recusou a ir dar a bênção foi o padre Pedro da Anunciação, dizendo que aquilo tudo era profano, mas já não contávamos mesmo com a presença dele, o que não estragou em nada a nossa felicidade. Ela tinha tido uma vida longa e feliz, e era só isso que importava. O
Abimbola e a Conceição também tinham ido, mas voltaram cedo para casa, e fiquei conversando com o Ayodele e família, pois fazia muito tempo que não nos víamos. Eles contaram da serenata do Obioma, em Porto Novo, outra festa muito bonita, pois o Obioma tinha sido uma pessoa feliz.
Depois de dançar, comer e beber bastante, fomos embora, e estávamos muito cansadas quando o homem da segurança se aproximou e pediu que eu corresse para ver o que tinha sido deixado na escada que subia para a varanda da minha casa, sem que ele tivesse percebido qualquer movimentação suspeita ou algum estranho andando pelas redondezas. De longe já ouvimos o choro, e a Jacinta saiu correndo na frente e voltou até nós com o bebê, um menino, enrolado em um pano-da-costa.
Levamos o bebê para dentro da casa, para examiná-lo melhor. Muitas crianças já tinham sido levadas até a minha porta, mas sempre acompanhadas do pai, da mãe ou de algum outro parente. Geralmente eles queriam dar a criança para que eu a criasse e educasse, com certeza em melhores condições do que podiam fazer com parcos recursos. Eu nunca aceitei, e, infelizmente, tinha até que me negar a dar qualquer outro tipo de ajuda, por conselho da Conceição, porque corria o risco de eles se acostumarem. Aquele era um menino saudável, parecendo ter por volta de dois ou três meses, a quem a Jacinta logo se afeiçoou.
O que não era difícil, pois ele realmente tinha um jeito que pedia proteção. Não era dos mais magros ou descuidados, como muitas crianças dos selvagens, e isso foi uma das coisas que mais me chamaram a atenção, ou seja, alguém já tinha cuidado dele, e com muito jeito.
Mas mesmo assim, com toda a vontade de manter aquele menino, eu tinha dúvidas se devia ou não ficar com ele, até que o John voltou da fazenda e ficou com pena de mandá-lo embora ou de arrumar outro lugar para ele ficar. Até hoje tenho dúvida se ele sabia ou se foi apenas instinto, e acho que prefiro assim, pois não gostaria de ter certeza de que ele estava me enganando. Aliás, acho que não estava, e esse foi seu castigo, pois adorava os filhos.
Alguns meses depois, batizamos o menino com o nome de António Andrade da Silva, os mesmos apelidos que eu
e seus irmãos tínhamos, mas não constando nome de pai ou de mãe na certidão de batismo. De início fiquei com um pouco de pena por fazer isso, mas depois me lembrei de que a mesma coisa tinha acontecido com você, e ainda com o agravante de você ter pai e mãe conhecidos, o que não era o caso daquele menino, que ainda teve a mim e ao John como madrinha e padrinho.
Mas antes do batizado, que teve que ser adiado exatamente por causa disso, houve a morte do senhor Joaquim, de Aguê, e fui até lá prestar uma homenagem a ele. Antes não tivesse ido e me guardado um pouco, pois logo em seguida, tendo começado com a morte da lyd Kumani, teve início uma série de mortes, algumas mais sentidas que as outras. Para meu grande espanto, recebi uma longa carta da sinhazinha contando da morte do doutor José Manoel, que muito me entristeceu. Eu me lembrava dele como um homem jovial, forte, alegre e saudável, o que não combinava com a morte. Ele morreu como a lyd Kumani, enquanto dormia e sem demonstrar sofrimento, e este era o único consolo da sinhazinha, que disse não mais saber o que fazer da vida sem ele, ainda mais porque ainda tinha uma filha para casar.
Daquela vez fiquei bastante tentada a passar alguns dias com ela em São Sebastião, o que ela chegou a pedir. Mas duas das obras que estavam em andamento pertenciam a portugueses que só aceitavam tratar comigo, até mesmo os assuntos menores, e eu não podia me ausentar de Uidá por muito tempo. Portanto, estava lá quando o Chachá II faleceu e foi enterrado em uma cerimônia que nem de longe lembrou a do pai.
Estranhamos a presença de tão poucas pessoas de Abomé, e o Alfaiate disse que era por causa da saúde do rei Guezo, que não estava muito boa e o impedia de estar à frente de algumas decisões.
Falavam até em não esperar a sua morte para substituí-lo no trono, mas como ele era bastante querido e
respeitado pelos chefes tribais, tinham medo de que isso abalasse a união do reino. Mas nem tiveram que esperar muito tempo, pois logo em seguida ao Chachá II, o rei Guezo também faleceu, e pensei se a Agontimé ainda vivia, se ela teria como ficar sabendo da morte do filho.
Eu acho que sim, bastava perguntar aos voduns, mas eu esperava que ela não fizesse isso, pois não merecia a tristeza de perder um filho, mesmo tendo ficado tanto tempo sem vê-lo. Conheço essa dor e não a desejo a ninguém.
Rei e Chachá
Fui às festas do funeral do rei Guezo acompanhando a comitiva organizada pelo senhor Domingos, e durante toda a viagem o assunto foi sobre quem seria o próximo Chachá. O título ainda era bastante disputado dentro da família, embora já não significasse grande poder, e até mesmo o forte português, onde o Chachá II tinha sido ordenado tenente, estava no maior abandono. Quase todos os homens da família De Souza foram ao funeral, muito mais interessados em ganhar a simpatia do novo rei do que em homenagear o rei morto.
Quem levou um belo presente para que fosse enterrado com ele, para ser desfrutado no Orum, foi o Domingos José Martins, uma enorme bandeja de prata sobre a qual havia muitos dólares e uma imitação perfeita de uma árvore, que tinha penduradas em suas folhas algumas argolas que prendiam dezenas e dezenas de charutos de Cuba. Foi o presente que mais chamou atenção, e antes o senhor Domingos o tivesse dado ao rei Glèglè, que, por ciúme, não lhe dedicaria nem metade da consideração que teve o rei Guezo. Não vou me alongar na descrição da cerimônia porque me preocupa o tempo que nos resta, mas devo dizer que foi muito grande a quantidade de escravos sacrificados, mais de oitocentos. Deveriam ter sido dois mil, mas não encontraram tal quantidade em tempo hábil, prova de que as coisas realmente não
iam bem, mesmo porque o rei de Lagos, incentivado pelos ingleses, estava ajudando o rei de Abeokutá a lutar contra os exércitos daomeanos, atrapalhando a captura de escravos. Em um dos pronunciamentos, o rei Glèglè deixou bastante claro que não daria muita importância aos portugueses e nem mesmo aos brasileiros, colocando-se ao lado dos franceses, e sua escolha do Chachá III também não agradou a muita gente. Aliás, não agradou a ninguém.
O novo Chachá indicado pelo rei Glèglè foi o António, aquele que era o preferido do rei Guezo. O António de Souza era um inquieto, um polemico, que vivia viajando e até já tinha morado por vários anos em Portugal.
Adorava andar pela cidade montado a cavalo e portando uma espada enorme, com a qual ameaçava todos que encontrava pelo caminho, tendo imenso gozo nessa brincadeira perigosa. Era também muito cruel e adorava fazer maldades com os escravos, ao contrário dos irmãos e do pai, bebia demais e tinha inúmeros filhos, mesmo sem nunca ter se casado, e entre as mulheres com as quais se deitava estavam inclusive suas irmãs, primas e até mesmo filhas, ato muito criticado e repelido por nós, os católicos.
O senhor Nicolas não gostava nem um pouco dele, e dizem que a inimizade entre as famílias De Souza e Oliveira ajudou muito a apressar uma nova escolha, pois o rei Glèglè também gostava de ouvir as opiniões do senhor Nicolas, que continuou sendo seu sogro pelo fato de ter herdado a esposa do antigo rei.
Quem substituiu o António foi o Inácio, o terceiro daqueles que estavam disputando o título quando da morte do primeiro Chachá. Mas o Inácio também não ficou
por
muito
tempo,
tendo
desaparecido misteriosamente depois de denunciar aos ingleses um navio que estava partindo do porto de Uidá com um imenso carregamento de escravos. Quem assumiu o
cargo novamente vago foi outro Francisco Félix de Souza, que tinha o mesmo nome do pai mas era chamado de Chachá Chicou, e que, enfim, conseguiu manter o título até a morte natural, muitos anos depois.
Mas isso tudo, da posse do António até a do Chicou, aconteceu em menos de dois ou três anos, quando muitas coisas também mudaram na política da região.
Vou tentar resumir tudo e depois volto um pouco no tempo para contar o que aconteceu ao John e o que nos levou a Lagos.
Oo franceses
Com a morte do Isidoro, o Chachá II, o forte da Ajuda foi definitivamente abandonado pelo governo de Portugal e das colónias, até que foi solicitado, acho que em um mil oitocentos e sessenta e um, por aí, pelos missionários franceses. A presença francesa no Daomé era cada vez maior, enquanto os ingleses, depois de tentarem sem sucesso uma dominação política, compraram Lagos e estabeleceram um protetorado. Não tenho certeza, mas acho que o rei de lá nessa época já não era mais o Akitoyê, e sim seu filho Docemo. Talvez depois eu conte essa história melhor, já de Lagos, mas desde muito antes do estabelecimento do protetorado inglês já se falava que logo aconteceria o mesmo em Uidá, com os franceses.
Primeiro eu duvidei, achando que isso nunca seria possível, mas comecei a acreditar quando os missionários franceses se instalaram no forte e, junto com os comerciantes e militares franceses que já moravam em Uidá, visitaram todas as pessoas importantes da região, falando mal dos ingleses e da religião protestante. Diziam também que, se não nos uníssemos, Uidá teria o mesmo destino de Lagos, cairia nas mãos dos ímpios. Eles perderiam a posse do forte em um mil oitocentos e sessenta e cinco, depois que os portugueses ficaram sabendo que tudo tinha sido feito
sem a permissão deles e de terem mandado uma missão para tratar da reintegração com o rei Glèglè. Os missionários provocaram muita confusão, mas eu gostava
da
presença
deles,
que
também
foi
imediatamente aprovada pelos brasileiros mais pobres.
Os mais ricos, entre os quais eu deveria me incluir, temiam que os franceses se fortalecessem e fizessem com o comércio de Uidá o que os ingleses tinham feito com o de Lagos, acabando com o tráfico.
Receando serem hostilizados pelos brasileiros, os missionários pediram proteção ao cônsul, que tinha acabado de estabelecer um protetorado francês em Porto Novo, atitude que foi muito contestada pelas autoridades e pelos comerciantes franceses de Uidá, que acharam que isso poderia indispô-los com o rei Glèglè.
Eles achavam que os missionários deveriam se ater às questões religiosas, sem saber que eram as questões religiosas que faziam com que perdessem a simpatia de grande parte dos brasileiros, inclusive a do Chachá Chicou. Isso porque, em se tratando de religião, eles eram muito rígidos, criticando e punindo as atitudes dos brasileiros que não levavam o catolicismo muito a sério. Demoraram um pouco para aprender que não deviam ser assim, que pelo menos no início precisavam se adaptar ao tipo de religião que já praticávamos, com as nossas festas e tudo o mais.
Quando resolveram se estabelecer seriamente em Uidá, os missionários instalaram a Société des Missions Africaines de Lyon, e acabaram ganhando a simpatia dos brasileiros quando novamente foram de casa em casa, fazendo uma lista de todas as pessoas da família e querendo saber a quantidade de crianças, pois pretendiam montar uma escola, como os ingleses tinham feito em Lagos.
Para mim não havia melhor notícia, pois o Salif já tinha ensinado às crianças tudo o que sabia e eu tinha medo
de mandá-las para o Brasil, como me aconselhavam. O
Tico tinha se oferecido para cuidar dos dois em São Salvador, assim como a sinhazinha em São Sebastião do Rio de Janeiro, mas desde o acontecido com você eu tinha prometido que nunca mais confiaria a ninguém o meu papel de mãe.
Como os missionários franceses perceberam o grande interesse dos pais brasileiros, convocaram uma reunião e deixaram que resolvêssemos questões importantes sobre a nova escola, sendo que uma delas foi que as aulas seriam dadas em português, e não em francês. O
mais graduado dos missionários, com o cargo de superior do Vicariato Apostólico do Daomé, era o padre Borghero, de quem me tornei grande amiga.
Acho que foi em troca de terem aceitado lecionar em português,
língua
que
tiveram
que
aprender
rapidamente, que aceitamos contribuir com muito dinheiro para a construção e a instalação da escola e de outras obras da Missão. O padre Borghero disse que nunca, em toda a sua vida de missionário, tinha encontrado gente tão generosa quanto nós, e ficou tão convencido disso que anos depois foi esmolar no Brasil, sem grande sucesso. Na Escola Missionária estudavam somente os brasileiros, pois o rei proibiu os selvagens de instruírem seus filhos, o que me dava imensa pena.
Mas fiz questão de matricular todas as crianças filhas de empregados das obras, da fazenda e, é claro, os ibêjis e a Geninha. Era uma escola muito boa, onde ensinavam trabalhos domésticos, orações, acompanhamento de missas e até a usar talheres, além de leitura, escrita, gramática, geografia, aritmética, ditado e declamação.
Com o sucesso da escola em Uidá, logo foram abertas outras, em Porto Novo, que já era protetorado francês e onde as aulas eram dadas em francês, e em Lagos, onde se cogitava dar aulas em inglês, para fazer com que os alunos sarôs se transformassem em católicos,
abandonando a religião dos ingleses.
Ciclo
Enquanto a educação das crianças recebia uma enorme colaboração, era excelente que a escola não fosse paga, pois o comércio estava cada vez pior. Isso não nos atingia no negócio das casas, pois todos queriam manter as aparências e ostentar os lugares onde moravam, algo muito parecido com o que acontecia no Brasil e completamente diferente do que acontecia entre os selvagens, que não davam a mínima importância às suas casas. Depois que a proibição do tráfico de escravos no Brasil levou alguns comerciantes à falência, foi a vez de o comércio do óleo de palma começar a dar problemas. Os estrangeiros estavam entrando cada vez mais longe em território africano e negociando direta-mente com os fazendeiros, deixando de fora os comerciantes do litoral.
Isso era bom para os chefes tribais, que podiam cobrar mais impostos dos produtos vendidos diretamente em suas terras. Mas era ruim para os comerciantes do litoral, excluídos do negócio, que foram se queixar ao rei Glèglè, querendo que ele convencesse os chefes tribais a obrigar os fazendeiros de suas regiões a fazerem negócios com eles. Mas este tipo de convencimento nunca era por meio de conversa, e sim de guerras.
Entrando em guerra, o rei perdia guerreiros, que eram capturados e transformados em escravos, mas que, segundo uma tradição do Daomé, tinham que ser comprados de volta. Como pagamento para devolver os capturados, os tribais inimigos aceitavam somente óleo de palma, que podia ser vendido aos estrangeiros ou trocado por armas.
Para conseguir o óleo de palma, o rei Glèglè
simplesmente o tomava de qualquer pessoa, até mesmo dos próprios comerciantes que tinham pedido a guerra contra os tribais. Ou seja, era uma situação que não tinha muito jeito e que, de acordo com o John, tendia a piorar.
Era por isso que ele estava pensando em abandonar o óleo de palma e se dedicar a um tipo de plantação que muito interessava ao Chachá Chicou, a de cacau da Bahia. Eu tinha pedido ao Tico que pusesse o John em contato com o sogro do Hilário, que eu sabia ter plantação de cacau na região de São Jorge dos Ilhéus, mas não deu tempo, porque o John adoeceu.
Fatalidades e segredos O John e o Adedayo deveriam ter voltado a Uidá para a festa de noivado da Rosinha, a filha mais velha da Jacinta e do Juvenal, mas não apareceram. Nem na semana seguinte, e então mandei alguém até a fazenda e tomei conhecimento de que o John estava doente. Assim que soube, sem ao menos me pedir permissão, o João se pôs a caminho, concluindo que cuidar do pai era uma boa desculpa para faltar à escola por alguns dias.
Isso foi no início de um mil oitocentos e sessenta e dois, quando os ibêjis estavam com quase quatorze anos e começavam a achar que eu já não tinha mais autoridade sobre eles.
O João tinha uma personalidade muito forte, parecida com a da Carolina, a filha mais velha da sinhazinha, com quem eu trocava muitas impressões sobre filhos em idade de começarem a se achar adultos. Depois de cinco filhos, um que nem tinha chegado a nascer, aqueles dois eram os únicos que eu realmente via crescer, e confesso que às vezes me sentia bastante temerosa de que eles também me faltassem.
Eu imaginava que você seria um excelente irmão mais velho, ajudando na educação deles, e que você também me entenderia e estaria ao meu lado em todas as situações difíceis, o que já não acontecia mais com o John. Estávamos casados, mas cada um levando a vida que tinha escolhido, ou a mais próxima disso.
Como o John não melhorava e não havia nada que fizesse o João voltar para Uidá, mesmo depois de eu ter mandado vários recados, resolvi ir até a fazenda. Deixei a Maria Clara com a Aina e parti na companhia de quatro empregados, da Geninha e da Jacinta, que queria ver o filho. O que eu sabia era que uma vaca tinha pisado no pé dele, mas não imaginava encontrá-lo tão mal. O pé tinha sido quase esmagado e estava ficando escuro, inflamado, do jeito que a Esméria e a Antônia tinham me contado sobre o membro do sinhô José Carlos.
Fiquei muito preocupada quando o vi deitado, com a perna levantada e apoiada em uma pilha de panos, gemendo de dor ao menor movimento.
As mulheres dos empregados da fazenda estavam cuidando dele e da casa, e me disseram que já tinham feito tudo o que sabiam para tentar melhorar aquilo, sem efeito. Fui com duas delas procurar uma rezadeira para ver se ela conseguia fazer alguma coisa de longe mesmo, já que o John não acreditava nisso, mas a mulher disse que seria muito difícil.
Dei a ela dinheiro para algumas oferendas e levei comigo um preparado de ervas para alisar a ferida. Ao cabo de uma semana, como nada adiantou, resolvi levar o John para Uidá, mesmo sob protestos. Durante todo o trajeto até a cidade, deitado na rede carregada por alguns empregados, que iam se revezando, ele reclamou o tempo inteiro, dizendo que adoeceria mais ainda se ficasse longe da fazenda.
Naquela época não havia médico em Uidá, e depois de muito insistirmos, principalmente os filhos, o John concordou em receber o bokonon Prudêncio, como se fosse dele e não do Prudêncio tal reverência. Os dois ficaram sozinhos no quarto, de modo que não sei direito o que aconteceu, apesar da enorme vontade de perguntar. Mas não o fiz em respeito ao Prudêncio, e dois dias depois as feridas começaram a secar e parecia que tudo ia ficar bem, tanto que o John já queria chamar os empregados para que o carregassem de volta à fazenda.
Achávamos que o pior já tinha passado, mas certa noite acordei com os gemidos dele e percebi que estava muito quente, com febre altíssima. Chamei a Jacinta preparamos chá, rezamos, mas o John só piorava.
Novamente mandei chamar o Prudêncio, e ele disse que já tinha feito o que era permitido, não podia repetir o trabalho, e que a cura ou não do John já não dependia mais de nenhum de nós, pois o destino estava sendo decidido do outro lado, no Orum.
Voltei para casa muito perturbada, imaginando se podia compartilhar isso com alguém, e só consegui conversar com a sinhazinha, por carta. Eu achava que o John ia morrer logo, e foi difícil confessar que, apesar de sentir pena, tinha quase certeza de que não ficaria como a sinhazinha, que se dizia inconsolável, sem motivos para continuar vivendo. Depois que a carta partiu, me arrependi de tê-la escrito, pois não sabia qual seria a reação dela àquelas minhas confissões e nem como ela se sentiria revendo a própria situação, já que eu tinha feito uma série de comparações.
Enfim, já não havia mais o que fazer, a carta já estava cruzando os mares e eu teria que esperar a resposta.
Enquanto isso, havia dias que o John passava sem dor para em outros quase desfalecer, aceitando receber visitas de curandeiros, bruxas, vodúnsis, babalaôs,
ialorixás, enfim, de qualquer um que fizesse algo para tentar ajudar.
Acho que muitos deles souberam e não quiseram me dizer, e foi a Conceição quem primeiro chamou a minha atenção para a possibilidade de aquilo ser um feitiço.
Perguntei ao Prudêncio e ele confirmou, dizendo que era um feitiço tão forte que nem ele poderia desfazer, até porque não sabia com a ajuda de quem ou do que aquilo tinha sido feito, podendo afirmar apenas que não eram voduns. Tentei conversar com o John sobre isso, mas ele dizia que não acreditava, que tinha sido azar, que a única coisa que tinha feito mal a ele se chamava vaca.
Não vou me alongar muito em histórias tristes, como eu até gostaria, para saber se realmente fiz tudo que estava ao meu alcance ou se até estava gostando da idéia de me tornar viúva, embora estimasse muito o John. Mas aconteceu que ele nunca mais melhorou. Primeiro, teve que cortar fora o pé avariado e depois pedaços e mais pedaços da perna, que ia apodrecendo.
Eu nem quis saber dos detalhes, porque me remetiam a lembranças muito tristes, como você já sabe, da época vivida em Itaparica. Nós, inclusive os ibêjis, já estávamos conformados, e até mesmo o John dizia que queria parar de sofrer, que já não aguentava mais.
Quem mais cuidava do John era o Ayodele, que não estava mais trabalhando nas fazendas, mas ainda tinha força suficiente para virá-lo na cama, colocá-lo sentado e cuidar das necessidades dele. O John faleceu no dia quinze de novembro de um mil oitocentos e sessenta dois, e nos esforçamos para dar um funeral digno dele, celebrado pelo padre Borghero. Mais do que tristes, estávamos aliviados com o fim do sofrimento. Na mesma noite tive um sonho com a minha avó, e novamente só consegui contá-lo para a sinhazinha. Queria contar para outras pessoas, mas tinha vergonha, pois no sonho a
minha avó revelou o que tinha acontecido ao John, e acredito que ele tenha morrido sem saber.
Ele se deitava com as mulheres da fazenda, muitas, inclusive as mulheres dos empregados, com as quais teve alguns filhos ilegítimos. Uma delas se apaixonou e queria que ele me largasse para ficarem juntos, mas ele recusou. A mulher foi embora da fazenda e, estando pejada, depois do nascimento da criança, seguiu até Uidá para deixá-la na minha porta, para eu cuidar.
Depois fez um feitiço para que o John morresse de morte bem doída. Ela conseguiu as duas coisas, pois quando o John morreu eu já tinha me afeiçoado bastante ao António, a quem tratava quase como se fosse um filho.
Meu consolo, e uma vingança contra o John, foi que ele, que gostava tanto de crianças, nunca se importou muito com o menino, nunca soube ser cria dele. Hoje sei que, embora por caminhos tortos, por meio de outras mãos, a morte
do