Um Defeito de Cor
Capítulo nove
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.
A estas pessoas ele demonstrou muita raiva, xingando, esbravejando e até rogando pragas, pois elas tinham feito alguma coisa que lhe desagradou. Quando não havia do que se queixar, o egum apenas dava conselhos, receitava ritos ou ebós e depois abençoava, fazendo gestos com o bantê. Às vezes havia mais de um egum no salão, e a cada entrada eram. feitas as saudações, eram respondidos e dançados os cânticos que o egum entoava, e só então ele fazia os atendimentos. Alguns nem atendiam, ficavam apenas conversando com outros eguns e saíam do salão, sempre muito aplaudidos e saudados.
Um egum muito bonito, filho de Oxum, fez questão de
presidir um ebó para uma menina que estava muito doente, carregada nos braços do pai. Esse egum gostava muito de crianças e só quis conversar com elas, rindo muito, pedindo que elas dessem pulos no ar, sorrissem, fizessem muita graça. Outro egum, dedicado a Oxalá, abençoou todos os presentes jogando muito axé, que foi disputado com grande alvoroço.
Esse parecia ser dos mais respeitados, pois todos os outros eguns e aparakás que estavam no salão o saudaram e cederam lugar para que ele se sentasse na cadeira do meio, a de maior destaque.
Outro egum entrou brandindo uma espada e logo percebi que era de Ogum, o orixá da guerra, o grande ferreiro, o que conseguiu fundir o metal para fazer ferramentas e armas. Depois de pelo menos oito horas de entra-e-sai de eguns, egunguns e aparakás, e depois de quase mais nada ser novidade para mim, eu já estava cansada de ficar presa ali dentro, onde, além de tudo, fazia muito calor. Percebi que lá fora o dia já estava amanhecendo e senti muito cansaço, sono e fome.
Recado
Se naquela época eu tivesse conseguido interpretar o que o egum disse, na certa não teria saído de lá tão arrependida de ter ido, mas eu não tinha como saber.
Não tinha. Os últimos eguns já estavam se despedindo quando a lyá Kumani percebeu meu desânimo. O que me levou a ficar lá dentro durante todo aquele tempo, ou melhor, a me conformar, visto que não era uma escolha, foi a esperança de que um dos eguns me chamasse, que tivesse algo para me dizer.
Por ter me levado até lá, a lyá Kumani também devia estar se sentindo um pouco frustrada, ou culpada, e falou alguma coisa para um atokun que estava perto dela. Ele olhou na minha direção e conversou com o
egum que invocava, que pareceu muito contrariado ao permitir que eu me aproximasse.
Fui com um pouco de medo, pois já tinha percebido que eles são bastante imprevisíveis. Mas o egum nem sequer se levantou, estava sentado e assim ficou quando moveu a cabeça na minha direção e disse que estava tudo bem com meus ancestrais. Foi a lyá Kumani quem traduziu a fala dele, pois entendi pouquíssimas palavras, e menos ainda quando ele disse que eu tinha um problema muito sério, mas que não era da competência dele, não era da competência de nenhum dos eguns cultuados ali. Eu quis saber se pelo menos ele podia dizer que problema era esse e ele respondeu que não, que um dia eu descobriria, mas não estava autorizado a falar.
Então recebi a bênção e me afastei, achando que a Mãezinha, da Ilha de Itaparica, tinha feito o certo, não permitindo que eu fosse com ela ao terreiro de eguns de lá. Aquilo não era mesmo para mim, e decidi fazer oferendas aos voduns, a Xangô e Oxum, assim que chegasse a Uidá. No caminho de volta, eu e a Conceição tivemos a companhia da lyá Kumani, que me pareceu preocupada e disse que aquilo era muito raro, os eguns não quererem se intrometer na resolução de um problema. Mas eu estava com raiva, achando que tinha perdido tempo e caminhada, e resolvi não levar a conversa adiante. Cheguei em casa exausta, vi que os ibêjis estavam bem e fui para a cama, disposta a esquecer aquilo tudo e tocar a vida.
Família
Alguns dias depois, o John voltou bastante animado da viagem com o inglês, contando dos lugares por onde tinham passado. Como o inglês era amigo do Alfaiate e do senhor Nicolas, que conheciam muitas fazendas e muitos comerciantes do interior, foram muito bem recebidos onde quer que resolvessem parar, ainda mais
por estarem acompanhados de alguns filhos do Chachá.
O John faria mais algumas viagens acompanhando o mesmo inglês, Mister Frederick Forbes, mas sempre vou me lembrar daquela primeira por ele ter me levado de presente uma máscara muito parecida com a que a lyá Kumani disse que eu precisava ter em casa. Foi comprada perto de Abeokutá, de um homem que montara uma barraca ao lado da estrada e tinha muitas delas para vender. O inglês comprou quase todas, dizendo que os amigos sempre cobravam presentes africanos quando ele retornava a Londres.
Perguntei se o John sabia o que esses amigos faziam com as máscaras e ele respondeu que nada de especial, que usavam como enfeites, do mesmo jeito que gostavam dos vasos e das panelas de barro ou metal. Ou seja, um uso muito diferente do que fazíamos, e até desrespeitoso com nossos ancestrais, pendurando os objetos de culto na parede da sala, como enfeite, sem saber o que representavam. Seria a mesma coisa que nós pegarmos os objetos que os padres usavam nas igrejas para enfeitar nossas casas.
A estada do John em Uidá, antes de partir novamente para Freetown aproveitando a passagem dos sarôs, coincidiu com uma visita do Ayodele. Eu já tinha falado com o John sobre a Aina e ele achava melhor eu não interferir mais, pois ela tinha feito uma escolha. O
Ayodele, não sei se convencido pela Nourbesse, tinha a mesma opinião, até porque os parentes de Porto Novo e de Cotonu nem se importaram em dizer se tinham ou não recebido o recado.
Achei covarde a atitude do Ayodele, mas entendia que, sozinho, ele não podia fazer muita coisa, e nem parecia querer, naquele momento em que o corte na cabeça já tinha sumido junto com a necessidade de defender a honra da família. Por falar em família, mais ou menos
naquela época chegou carta da sinhazinha, dizendo que talvez fosse a São Salvador ajudar a Mariana, que já estava para dar à luz. Era bem provável que eu também já estivesse me preparando para ser avó se o seu irmão Banjokô não tivesse morrido, mas ainda estava às voltas com duas crianças pequenas, filhos, e não netos. Para falar a verdade, eles não davam muito trabalho, menos ainda quando o John estava em casa, pois ele adorava cuidar deles, muito mais do que eu.
Ampliações
Em uma segunda-feira, o Felipe apareceu em casa dizendo que um homem tinha passado pela construção, um português de Lagos. Queria falar com o dono e disse que voltaria na quarta-feira de manhã para tratar de um assunto que poderia nos interessar. Como o John estava viajando, eu fui, e acho que nunca fechei negócio tão depressa na minha vida. Ele era o dono do terreno ao lado do nosso e queria vendê-lo por um preço bem convidativo. Não precisávamos de mais terreno, o da casa já era grande o suficiente, mas fiquei temerosa pelo tipo de gente que poderia ser atraída por preço tão baixo.
O homem parecia estar em dificuldades financeiras, pois paguei menos da metade do valor pago pelo meu, e por uma área que era três vezes maior, e ele aceitou receber um terço do valor em dinheiro e o restante em mercadoria, fumo que tinha acabado de chegar do Recôncavo.
Do terreno, fomos direto ao forte, nos últimos dias de estada do José Joaquim por lá, e ele rapidamente me ajudou a fazer os papéis de compra e venda, assinados por mim, pelo homem e por duas testemunhas. Depois fomos até o galpão que eu tinha alugado e, enquanto separavam a mercadoria, o homem foi até o mercado e voltou com quatro carregadores, partindo logo em
seguida.
Quando ele foi embora, fiquei com medo de ter sido enganada, comprando o que não lhe pertencia, mas, passados alguns dias de muita expectativa, o senhor Nicolas conseguiu confirmar que estava tudo certo.
Assim que tive certeza, fui até a construção e autorizei o Rafiki e o Felipe a construírem umas casinhas para eles morarem. Eles e os outros trabalhadores, que já eram mais de quinze e poderiam levar suas famílias.
Dessa maneira eu garantiria não só a fidelidade e a gratidão deles, mas também que trabalhariam mais rápido, morando tão perto. Terminadas as casinhas, o Rafiki deu a idéia de construirmos uma olaria para fabricar os tijolos e as telhas que seriam usados na obra, pois tinha recrutado dois trabalhadores que entendiam muito bem do processo, por terem trabalhado com isso na Bahia. Achei uma excelente idéia, por ser mais econômica e porque o Rafiki disse que assim teria certeza da qualidade do material.
Enquanto os dois oleiros saíram pelas redondezas procurando um bom lugar para retirar a terra, pois a do litoral era muito arenosa, os outros construíram o barracão e os fornos. Com as casinhas e a olaria, atrasamos a construção em quase dois meses, e já estávamos chegando ao fim do ano. Mas foi bom porque, sem ter muito o que coordenar, pude participar de todas as reuniões do Comitê Brasileiro, que se tornaram mais freqüentes por conta da festa do Bonfim, no início do ano seguinte.
Quase a casa
O mais importante era que chegasse padre novo na capela do forte português, para celebrar a missa do Senhor do Bonfim. O senhor Nicolas era um dos mais animados, por causa da filha, e se encarregou
pessoalmente de garantir que fosse mandado um padre de Portugal, ou das ilhas de São Tomé e Príncipe ou, se fosse o caso, até mesmo do Brasil. Para as outras providências foram montados diversos grupos, e cada um se encarregou de uma parte da festa. Todos queriam organizar a Burrinha, que prometia ser o ponto alto da festa, mas preferi ficar no grupo encarregado do piquenique.
Apesar de não ter visto Burrinha nenhuma na colina do Bonfim, em São Salvador, achei que era uma boa idéia, pois animaria a celebração. Naquele ano estávamos muito mais unidos, tanto que resolvemos preparar juntos uma ceia de Natal à brasileira, servida na casa do senhor Nicolas. Uma das filhas dele sabia puxar o rosário, e foi com gosto que rezamos todos juntos, principalmente quando percebemos que alguns criados, selvagens, olhavam com muita curiosidade para saber que tipo de culto era aquele.
Fez muito sucesso o cozido de carne-de-sol que preparei com os ingredientes que o Tico tinha mandado da Bahia.
Eu tinha ficado muito feliz com a última carta dele, dizendo que estava recuperando o ânimo e a graça de viver por conta dos contatos comerciais que estávamos fazendo. Disse inclusive que já tinha provocado inveja no Hilário, para quem as coisas não iam tão bem, o que de certa forma o deixava satisfeito, por causa da petulância do irmão e da cunhada. No dia seguinte à ceia, novamente nos reunimos para comer o que tinha sobrado, e depois alguns brasileiros quiseram me acompanhar ao terreno para ver a obra.
Infelizmente para mim também, que não me agüentava de ansiedade, não havia muita coisa para ver, somente a base onde as paredes seriam levantadas. Mas expliquei onde ficaria cada cômodo, e me disseram que aquele tipo de casa era novidade para grande parte dos selvagens, e que só mesmo brasileiros poderiam erguê-
la. Pude também mostrar algumas encomendas que tinham chegado, como portais e vidros, guardados em um cômodo construído para esse fim, e que mais tarde eu usaria para guardar a carruagem que sempre tive vontade de ter, igual à dos Clegg.
Todos elogiaram muito a minha iniciativa de construir casinhas para os trabalhadores, que o Rafiki fez questão de mostrar com muito orgulho, pequenas, simples, mas muito bem erguidas, dispostas em círculo e tendo no meio um terreno onde as crianças brincavam. Até parecia uma pequena aldeia, como uma de indígenas que eu tinha visto nos arredores de São Paulo, e fiquei espantada quando percebi que já havia mais de dez famílias morando lá. O Rafiki comentou que isso era bom, pois as mulheres cuidavam dos seus homens, não deixando que eles bebessem muito ou arranjassem confusão, além de trazê-los sempre bem-alimentados e dispostos para o trabalho.
Quando eles viam que aquela convivência com outras famílias, todas brasileiras, fazia muito bem às próprias famílias, se esforçavam mais ainda para fazer um bom trabalho e continuar ali, pois era grande o número de interessados. Percebi então que tinha resolvido alguns problemas, mas arranjado outro muito grande, que era tirá-los dali depois que a obra estivesse concluída.
O Bonfim de Uidá
O mês de janeiro foi corrido, com a olaria começando a funcionar e a Festa do Bonfim tomando grandes proporções. Os retornados mais antigos disseram que já tinham realizado muitas festas, mas nenhuma tão completa e animada como aquela, pois contávamos com a presença de pelo menos duzentos brasileiros. Inclusive alguns de Porto Novo, de Lagos e até de Aguê, que também realizavam suas festas por lá. Além das contribuições arrecadadas entre os que tinham
condições, o Isidoro de Souza mandou algum dinheiro, na certa tentando agradar aos brasileiros que tinham alguma influência sobre o rei Guezo, em campanha para ser o novo Chachá.
Aliás, aquela incerteza estava descontentando a todos, que ficavam sem saber se o reino de Abomé continuaria tendo um vice-rei brasileiro. O Isidoro estava triste porque a bela casa de Popo tinha sido destruída. Os foguetes disparados em desagravo à morte do pai provocaram um incêndio que ninguém conseguiu apagar, e tudo que estava lá dentro se queimou, inclusive papéis provando que ele tinha dinheiro aplicado na Bahia. Algumas pessoas estavam ajudando a recuperar esse dinheiro, e eu também me coloquei à disposição, dizendo que conhecia um advogado em São Salvador, o marido da Mariana, a filha da sinhazinha.
Seria bom se o doutor José Manoel ainda estivesse lá, mas eu tinha certeza de que, mesmo longe, em São Sebastião do Rio de Janeiro, ele teria condições de ajudar o genro. Na última carta da sinhazinha, ela tinha contado que sentia muita falta da Mariana, que tinha ficado em São Salvador com o marido, e da Carolina, que estudava na França, mas estava muito feliz em São Sebastião.
Tinha também visitado a sinhá Ana Felipa no belo casarão onde ela morava, na Cidade Imperial de Petrópolis, e as duas estavam tentando se entender, esquecendo as brigas do passado.
A Festa do Bonfim foi adiada por uma semana por causa do atraso na chegada do padre, e começou no sábado à noite, com o desfile da Burrinha pela cidade. Assim como todos os brasileiros, eu tinha mandado fazer roupas brancas para a família, como tinha visto na Bahia. O ponto de encontro foi no forte, onde estava montada uma mesa com comidas e bebidas do Brasil e
onde as figuras se preparavam para sair.
Todas elas eram novas e muito bonitas, o sinhô e a sinhá, que alguns chamavam de Papá e Maman Giganta, o leão, o avestruz, o elefante e a burrinha, que era a figura maior e mais bonita. Tinham a altura de mais ou menos um homem sobre o outro, por causa das armações de madeira e arame que davam forma aos tecidos coloridos.
As caras eram feitas de papel e madeira, pintados com muita perfeição. Algumas crianças ficaram com medo, mas os ibêjis ficaram fascinados, e mais ainda quando os músicos começaram a tocar, com as figuras dançando e rodopiando, os longos braços sendo lançados ao redor dos corpos.
Aquilo me lembrou os egunguns, mas o propósito era bem diferente, além de divertido. Os encarregados de montar a Burrinha tinham ensaiado com a banda muitas músicas que eu tinha ouvido na Bahia e em São Sebastião, e por um instante era como se estivéssemos de volta no tempo, de volta ao lugar de onde tínhamos saído. Alguns choraram de emoção, confessando que queriam voltar, eu quis que meus amigos do Brasil estivessem ali, festejando comigo, principalmente o Fatumbi, o Babalaô Gumfiditimi e a Adeola, com quem tinha ido à festa de São Salvador. Éramos muitos, todos vestidos de branco, inclusive os empregados da obra e suas famílias, para quem eu também tinha mandado fazer roupas. Não sei se já te contei que o Juvenal estava trabalhando lá e morava em uma das casinhas com os outros filhos, pois a Jacinta e a Geninha ficaram comigo, o que foi de enorme ajuda.
A agitação no forte já tinha chamado a atenção de muitos selvagens, que nos esperavam do lado de fora do portão. De início eles ficaram olhando, maravilhados, principalmente quando saíram as figuras e a banda formada por vários músicos tocando tambores, flautas e outros instrumentos, seguidos por todos nós.
Como já tinha escurecido, carregávamos tochas acesas, o que dava um efeito bonito, e foi por ciúme que começou toda a confusão. Apesar de estarmos acompanhados de muitos escravos, os selvagens nos atacaram com pedras quando já estávamos no meio da rua, sem termos para onde fugir. Eles começaram a gritar os muitos nomes de Oxalá, depois de saberem que, na Bahia, o santo e o orixá eram a mesma pessoa.
Oxalá é filho de Olorum, ou Olodumaré, tanto faz, o criador do mundo, e além dos nomes que eu já conhecia, Oxagiyan e Oxalufa, também aprendi que pode ser Obatalá, Ogbomosho e Adjagounan, entre outros.
Com a gritaria toda, e por eles serem muitos, já não dava mais para ouvir a nossa música, e os organizadores corriam de um lado para outro dizendo para não aceitarmos provocações, para continuarmos a festa como tínhamos programado. Bem que tentamos, mas quando os selvagens conseguiram atear fogo na roupa do Papá Giganta, a situação fugiu ao controle, e logo algumas facas foram mostradas de ambos os lados, as lâminas brilhando à luz das tochas.
Como ainda não tínhamos andado muito, voltamos correndo para o forte e trancamos o portão, deixando os escravos brigarem do lado de fora. Alguém comentou que podíamos continuar a festa em segurança, protegidos, mas já não havia mais clima nem vontade, e decidimos cancelar a lavagem da frente da capela do forte. Foi pena, porque tínhamos comprado muitas bilhas para carregar a água-de-cheiro. Não sei quem conseguiu sair e pedir a proteção dos escravos que estavam na Singbomey, e eles conseguiram dispersar os selvagens para que pudéssemos voltar para casa. Mas durante a noite várias casas de brasileiros foram apedrejadas, o que nos fez ficar com medo do que poderia acontecer no dia seguinte.
Fomos socorridos pelo Isidoro, que cedeu mais escravos,
que nos acompanharam durante a missa e o piquenique.
Eu tinha assistido a duas ou três missas em toda a minha vida, mas nenhuma delas e nenhuma outra que viria a assistir depois foi tão rápida quanto aquela, pois o padre, um português chamado Pedro da Anunciação, estava assustado com os acontecimentos e com medo que os selvagens invadissem a capela. Mas eles estavam sendo mantidos a distância, perto da praça, principalmente porque havia muitos brasileiros do lado de fora da capela, onde não havia espaço para todo mundo. Tínhamos nos preparado muito para aquela missa, com roupas novas e faixas cruzando o peito, nas quais se lia, abreviado, "N. S. do Bonfim".
As figuras, que seriam levadas para o piquenique, foram deixadas no barracão, para não provocarem mais problemas. O homem que estava usando a de Papá Giganta tinha se queimado bastante e ninguém quis se arriscar a ter o mesmo destino. Da igreja, sempre guardados pelos escravos, fomos para o piquenique em um dos galpões do senhor Nicolas, em procissão e respondendo aos cânticos puxados pelo padre. Todo o espaço estava decorado com bandeirinhas, tiras de papel colorido e folhas de plantas brasileiras. Eu não tinha cuidado dessa parte, apenas das comidas, que passamos quase dois dias preparando, eu e algumas brasileiras.
Usei muitas das mercadorias que tinha recebido do Brasil, e fizemos cozido, arroz, feijoada, peixe, pirão e doce de coco e de frutas cozidas com açúcar. Para beber, tinha muita cachaça, vinho, cerveja, sucos, alua e diversos licores.
O mais difícil foi conseguir talheres suficientes para todo mundo, pois queríamos fazer tudo como no Brasil, nada de comer com as mãos. Algumas pessoas emprestaram e tivemos sorte de um navio francês estar ancorado no porto, com diversas baixelas a bordo, para vender. Eram caras, de prata, mas decidi ficar com uma, o senhor Nicolas ficou com outra, e dois brasileiros abastados
também compraram, para que mais de trezentas pessoas pudessem comer em grande estilo.
Algumas delas com certeza não tinham nem idéia do quanto tinha custado aquilo, não sabiam que estavam comendo como verdadeiros reis e rainhas. O padre foi um dos que mais se divertiram, tendo que ser carregado para casa no fim do piquenique, de tanto vinho que bebeu. Não fiquei até o fim da festa porque os ibêjis estavam cansados e, para falar a verdade, eu também.
Mas, pelo que me contaram, muitas pessoas festejaram durante a tarde toda e parte da noite.
Quando cheguei em casa, um velho estava sentado à porta, e perguntou pelo John. Era um selvagem, e eu não tinha a mínima idéia de onde eles se conheciam, mas gostei dele e respondi que o John estava viajando e chegaria a qualquer momento; aliás, já deveria ter chegado.
Apoios
O John chegou a Uidá uma semana depois da Festa do Bonfim, tendo antes passado por Lagos. Quase briguei com ele ao saber o quanto tinha se arriscado, mas depois me acalmei. Afinal, ele estava em casa, a salvo, e ainda tinha conseguido muito dinheiro. Ainda em Freetown, tinha descoberto que o rei Kosoko, de Lagos, estava pagando muito mais pelas armas do que o rei Guezo, mas para lutar contra os ingleses, de quem o John deveria ser aliado. Não sei o que poderiam fazer com ele caso descobrissem, e por isso a situação era preocupante, pois em África não havia a mínima consideração com traidores. Havia a atenuante de o John estar traindo os ingleses, e não um rei africano, mas eles poderiam tornar a vida dele bem difícil, mesmo porque em Uidá se falava que o rei Kosoko estava para ser deposto em favor de algum rei aprovado pelo governo inglês.
Como eu já disse, a presença de ingleses era muito grande por lá, e com isso havia a pressão para se acabar de vez com o tráfico de escravos e fazer apenas o comércio de óleo de palma puro ou da vela e do sabão-da-costa feitos com ele, e de outros produtos que estavam sendo plantados em diversas fazendas do interior, planejadas pelos ingleses. Tinha sido até por isso, para conhecer melhor as fazendas de brasileiros, que aquele inglês chamado Frederick tinha feito a viagem que o John acompanhou.
Havia muito tempo que o rei Kosoko tinha perdido o apoio dos reinos vizinhos, principalmente quando brigou com o rei Guezo, tentando recuperar o poder que o povo dele tinha adquirido com o império iorubá. Sozinho e pressionado pelos ingleses, ele não resistiria por muito tempo, e por causa disso queria tanto as armas que o John tinha para vender, pelas quais pagou mais que o dobro do valor pago pelo rei do Daomé, onde a situação era bem mais tranqüila.
Foi no dia da chegada do John que o rei Guezo mandou chamar os irmãos De Souza em Abomé, para nomear o herdeiro do título de Chachá. Havia grande expectativa entre os brasileiros, mas já era quase certo que o título seria entregue ao Isidoro, que mesmo antes da morte do pai era considerado o mais rico, pelo menos até aquele incêndio na casa de Popô. Isto significava pagar maiores tributos ao rei. O Isidoro era também o preferido dos brasileiros, pois participava mais das atividades da comunidade brasileira no Daomé, talvez pelo fato de ter sido educado pela avó da Bahia. Embora alguns falassem que podia ser muito grande a influência do comerciante Domingos José Martins, que preferia o Inácio, e que o rei gostava muito do mais novo dos três irmãos que estavam na disputa, o António.
Sabendo disso e tentando reverter a situação, o Inácio e o Isidoro, ajudados pelos comerciantes brasileiros,
mandaram vários presentes caros para o rei. Com isso tentavam fazer valer a preferência de uma comunidade importante e o direito por herança, por serem mais velhos, sendo que o Isidoro era o primogênito. Mas isso nem era tão importante, porque o próprio rei Guezo não era o primogênito e só conseguiu subir ao trono depois de depor o Adandozan, com a ajuda do Chachá.
O Alfaiate e o senhor Nicolas acompanharam os integrantes da família De Souza que moravam em Uidá e se deslocaram até Abomé para ouvir a nomeação. Nós, os outros brasileiros, ficamos ansiosos esperando por notícias, e nos reuníamos em pequenos grupos na casa de um ou de outro para discutir a situação. Achávamos que nenhum dos filhos teria tanto poder quanto o pai, com quem o rei tinha feito o pacto, mas sem dúvida a posição dele seria importante, e ninguém queria deixar que se bandeasse para o lado dos ingleses, como tinha acontecido em Lagos, ou dos franceses, que eram numerosos em Uidá.
As casas comerciais francesas faziam um comércio considerável, o que começava a incomodar os brasileiros, principalmente os que comerciavam somente entre a África e o Brasil, o que, felizmente, não era o meu caso. Foi ao voltar de uma dessas reuniões políticas que eu e o John encontramos na porta de nossa casa aquele africano que já tinha procurado por ele quando estava viajando. Tive que traduzir a conversa inteira, pois o John não falava iorubá, e achei muito interessante o fato de ser aquele o homem de quem ele e o Mister Frederick Forbes tinham comprado as máscaras que pareciam gelédés, na estrada perto de Abeokutá.
Abimbola
O homem, chamado Abimbola, "nascido rico", era muito insistente. Ele achava que o John tinha ficado interessado em adquirir mais máscaras e só não o fez
porque o Mister Frederick comprou todas as outras.
Carregava um saco, do qual foi tirando várias delas, confesso que muito bonitas e bem-feitas, mas não estávamos interessados. O John, porque não tinham significado algum para ele, e eu, porque ainda estava com raiva por ter assistido ao culto egungum, que tinha resultado apenas em frustração e cansaço. Mas o homem não nos ouvia, continuava falando como se estivéssemos interessados nas máscaras, e finalmente conseguiu prender a minha atenção quando olhou para o meu pescoço e disse que poderia fazer outro pingente, já que o meu estava bastante gasto, em madeira ou metal, qualquer metal que eu escolhesse.
Perguntei se conhecia os rituais e ele disse que sim, que sabia que aquele era um pingente de ibêjis e podia consagrar toda a arte que produzia, pois tinha aprendido com o pai, que por sua vez tinha aprendido com o pai, e assim por diante. O Abimbola descendia de uma importante família de artistas, muito antiga, e seus ancestrais tinham sido os artistas preferidos dos oni de Ifé, quando do grande império iorubá.
O John não gostou muito porque já era tarde, mas eu o convidei a entrar e comer alguma coisa, pois gostava de ouvir histórias sobre o reino iorubá e estava interessada na minha Taiwo nova. Dei a ele uma boa refeição, e uma esteira que permiti colocar na cozinha, mas ele preferiu o quintal. Na manhã seguinte, fiz questão de tomar o desjejum com o Abimbola e perguntar muitas coisas que eu queria saber sobre os iorubás e, principalmente, sobre Ifé, a cidade a partir da qual as terras se espalharam sobre as águas, formando a África, o Brasil, a Europa e todos os lugares que existem. Ifé foi fundada por Oduduwa, ou Olodumaré, o Grande Deus Supremo, mas que os muçurumins chamam de Lamurudu, rei de Meca, e algumas outras pessoas achavam que era Nimrod, que está na Bíblia dos católicos.
Certo dia comentei isso com o padre Pedro da Anunciação, quando ele reclamou que em Uidá não havia cristãos verdadeiros, que ali os brasileiros iam à missa, queriam ser batizados e casados como mandava a religião, mas, no fundo, ninguém acreditava em nada.
Ele não gostou nem um pouco do meu comentário sugerindo que todas as religiões eram irmãs, ou pelo menos primas, e disse que talvez sim, bem no início, quando as pessoas ainda não conheciam o verdadeiro Deus, mas que na nossa época já estava mais do que certo que a Igreja Católica era a única aprovada e comandada por Deus, o único e verdadeiro. Fiquei com raiva de mim porque tinha muitas outras coisas para falar sobre isso, discordando dele, mas não consegui. Ele falava bonito, escolhendo bem as palavras e os pensamentos, com toda aquela autoridade que a batina lhe conferia, e me deixei Oni: rei de Ifé, chefe religioso das cidades iorubás.
A chefia política ficava com o alafin, rei da cidade de Oyó intimidar. Mais tarde, em casa, fiquei pensando se ele não era mesmo um dos escolhidos por Deus, se Deus não colocava as palavras na boca dele, mas depois achei que não, que ele apenas era mais preparado do que eu para discutir assuntos religiosos. A Agontimé, a Nega Florinda, o Fatumbi, o mala Abubakar, o padre Heinz, a Mãezinha, o Ogumfiditimi, o pai do Kuanza, o Maboke, o Mestre Mbanji, a íyã Kumani, todos tinham um jeito muito especial de falar sobre a própria fé, mesmo sendo tão distintas. Ninguém poderia dizer qual fé era mais forte ou mais verdadeira, pois Deus escutava a todos, desde que fosse do fundo do coração e em nome do bem.
Era assim que eu pensava, e logo percebi que o padre Pedro da Anunciação não se daria bem em Uidá, como de fato aconteceu. Poderíamos ter sido bons amigos, e tenho certeza de que foi ele quem saiu perdendo, pois eram poucos os brasileiros que gostavam de recebê-lo, ainda mais depois que ele passou a beber e fazer coisas bem inconvenientes, como açoitar as pessoas no meio da
rua, dizendo que estava tirando o demônio e a tentação do corpo delas.
Foi em Ifé que moraram os grandes onis, um após o outro, os chefes religiosos de todo o reino iorubá, formado por muitas outras cidades. Uma das cidades mais importantes do reino foi Oyó, fundada pelo filho de Oduduwa e durante algum tempo governada por Xangô.
Em Oyó morava o alafin, o chefe político das cidades iorubás. Na verdade, antes dessa Oyó de hoje existia uma outra, em outro lugar, que precisou ser abandonada depois de uma guerra. Foram também as guerras que acabaram com o império iorubá, do mesmo modo que acabaram com muitos outros impérios antes e depois.
O Abimbola sabia de quase tudo sobre aquela época e dizia que não valia mais a pena ser artista na África dos nossos tempos, pois ninguém sabia dar valor ao trabalho que ele tinha levado tanto tempo para aprender. Os ancestrais dele moravam no palácio do rei, tinham todo o conforto, todo o espaço, todos os aprendizes, todo o material, todo o dinheiro e todas as mulheres que quisessem. Somente assim eles podiam fazer um bom trabalho, que era o de perpetuar, por meio das esculturas e das máscaras de metal ou de barro, as imagens dos reis e das pessoas mais importantes de uma época.
Sem o trabalho deles, ninguém saberia como tinha sido o rosto de Oranmyan, pai de Xangô, ou de Obaloufon, de Eware e de Ogoulá. O Abimbola estava triste porque não respeitavam mais nada, e grandes artistas estavam sendo vendidos como escravos, como se fossem pessoas comuns. Eram poucos os reis e chefes de tribos que poupavam os artistas, como antigamente. Já tinha acontecido de um artista ser capturado e depois trocado por um exército inteiro, ou por seu peso em ouro, tamanha a importância e a consideração que ele merecia do seu rei.
Desde que as coisas tinham mudado, desde que tinha visto muitas barbaridades acontecerem, o Abimbola vivia sem reino e sem rei, sem casa e sem parada, andando pela África moldando as máscaras que vendia para qualquer pessoa na beira das estradas, como se fossem máscaras comuns. De vez em quando voltava a Ibadã, o lugar mais próximo do que ele podia chamar de sua terra, embora nem tivesse nascido lá. Depois de saber disso, gostei ainda mais dele e, pelo jeito, ele de mim, e o convidei para ficar morando comigo. Eu tinha muito espaço nos terrenos e podia mandar construir uma casa, um lugar para ele trabalhar e até mesmo ter alunos. Ele disse que ia ficando para ver se gostava, mas não queria se comprometer comigo, pois já estava acostumado àquela vida de andanças.
Chachá II
Três ou quatro dias depois que o Abimbola passou a morar conosco, chegou a notícia de que a comitiva com o novo Chachá estava a caminho de Uidá, e que o escolhido tinha sido mesmo o Isidoro, e rapidamente se formou o comitê para recepcioná-lo e preparar uma grande festa. Por coincidência, a cidade estava cheia de estrangeiros, inclusive o senhor Frederick Forbes, o inglês que já tinha até ficado amigo do John.
Todos queriam cumprimentar o novo Chachá e saber quais seriam suas atitudes dali em diante, se ia manter a mesma política do pai e apoiar a presença estrangeira no Daomé. Fazíamos várias reuniões por dia, conforme as notícias iam chegando de Abomé, e já tínhamos conhecimento de que o rei Guezo tinha se apossado de três quartos do que o falecido Chachá possuía, dividindo o restante entre os filhos, de acordo com o nível de importância de cada um deles. Comentavam que aquela tinha sido uma atitude muito inteligente do rei, que mantinha o pacto feito com a família do Chachá, mas, ao mesmo tempo, dava um jeito de tirar dela um pouco do
poder que tinha adquirido, garantido pela grande riqueza.
Como irmão mais velho, o Isidoro herdou o título de Chachá II, o Inácio recebeu o título de Cabeça, que é como se fosse um ministro, só que mais importante, e o António ficou sendo o Amigo do Rei. Desta maneira, os três filhos eram considerados oficiais do reino do Daomé, o que permitia ao rei a cobrança de três tributos independentes e não de apenas um, como era pago pelo pai deles. Como os títulos dos irmãos do Isidoro eram menos importantes e ele herdaria a concessão de Singbomey, o rei deu uma casa para cada um dos outros dois, sendo que a do Inácio ficava em Zomaí e a do António em Quendjé, freguesias de Uidá.
Mas o que importava era que os três irmãos estavam voltando para Uidá, onde, independentemente do que lhes foi tirado, mandavam mais que o rei, e onde receberiam honrarias reais, como príncipes. Isso porque na época em que o Chachá I morou em Anecho, ele tinha se casado com duas princesas do reino de Glidji. A mãe do Isidoro, que se chamava Djidjiabou e era filha do rei Akuê, morreu logo após o nascimento dele, que foi criado primeiro pela tia, em África, e depois pela avó paterna, na Bahia, até completar vinte e cinco anos, quando retornou.
O Inácio e o António eram irmãos também por parte de mãe, filhos da princesa Ahossi, sobrinha da princesa Djidjiabou. Era por isso que havia muitos representantes desse lado da família em Uidá, hospedados em Singbomey. A Tonha, junto com mais ou menos cem mulheres, foi chamada para trabalhar na cozinha e disse que a movimentação era enorme e estavam sendo esperados mais de mil convidados para os vários dias de comemoração, para a qual não se fez nenhuma economia.
A comitiva vinda do Abomé foi esperada na entrada de Uidá, onde o Prudêncio fez uma rápida cerimônia de saudação ao vodum da família De Souza que estava assentado lá. Fiquei espantada com a quantidade de gente, entre representantes do rei e dos chefes tribais, membros da família do Chachá, soldados e escravos. Da entrada da cidade até a concessão dos De Souza, o povo soltava fogos, entoava cânticos e saudações e batia tambores, enquanto o Isidoro era carregado com grande pompa por soldados e amazonas.
Não acompanhei todo o trajeto porque estava com as crianças, mas fiquei sabendo de tudo pelos vários arautos que circulavam pela cidade, anunciados por tambores, dando notícia da nomeação que tinha acontecido em Abomé e da entronização que seria feita em Singbomey, sob as bênçãos do primeiro Chachá. Fui a quase todas as cerimônias principais, que duraram quatro dias, menos à primeira, que foi realizada a portas fechadas no quarto onde D. Francisco tinha sido enterrado, com a participação apenas do Isidoro, do Prudêncio, do adjaho e de algumas mulheres que ajudavam no culto aos voduns da família.
Depois disso, o Chachá II foi para o pátio da concessão, onde recebeu a saudação dos seus escravos, dos soldados, dos membros da família e de parte do exército de amazonas. Os chefes tribais também participaram, enviando seu povo para apresentações de danças, cantos e lutas, muito aplaudidas por todos os presentes. Até então a festa tinha sido só africana, mas, à noite, a comunidade brasileira teve a oportunidade de homenagear o Isidoro com um jantar que ele disse ser tão bom quanto os que a avó preparava na Bahia, e depois com a apresentação da Burrinha. Este detalhe foi acrescentado na última hora e tivemos que repetir na noite seguinte, de tão animado que o povo ficou, dançando, cantando e se divertindo atrás das figuras gigantes. Nos outros dias ainda foram realizadas mais
algumas cerimônias reservadas, só para a família e amigos próximos, duas missas, sessões de oferecimento de presentes ao novo Chachá, almoços, jantares e bailes.
Meu presente foi uma máscara, que pedi ao Abimbola para fazer com as feições do Isidoro, o que deixou os dois bastante honrados, o presenteado e o artista. A cada dia eu tinha mais certeza de que o Abimbola ficaria, principalmente depois que percebi o interesse da Conceição por ele, plenamente correspondido.
Ibadã
Aquelas festas todas não prejudicaram a construção da casa, que me surpreendeu depois de mais de uma semana que fiquei sem ir lá. A olaria estava funcionando com barro feito da terra tirada de uma região de lagos perto de Cotonu, a algumas horas de viagem, o que encarecia e atrasava um pouco a obra, mas pelo menos eu tinha certeza de que estava sendo construída como as casas da Bahia, e para durar muito tempo.
A casa também foi uma atração para as pessoas que visitaram a cidade durante as festas do Chachá, e depois fiquei sabendo que mesmo nos lugares mais distantes já se comentava que estava sendo construída em Uidá uma casa tipicamente brasileira, no tamanho, nos materiais e no modelo. Mandei construir também a casa do Abimbola, com um galpão onde ele pudesse trabalhar, um pouco afastada de onde tinham sido erguidas as casas dos trabalhadores da obra. Quando ficou sabendo disso, ele resolveu ir até Ibadã buscar instrumentos e materiais que tinha deixado por lá, na casa de conhecidos. Convidada para ir junto, aceitei, pois queria muito conhecer aquela região, e o John estava em Uidá para ajudar a tomar conta dos ibêjis.
Comentando sobre a viagem com o senhor Nicolas, ele disse que achava um pouco perigoso ir para Ibadã justo no momento em que Abeokutá, no meio do caminho,
estava em guerra com o Daomé. Mas o Abimbola não quis desistir, dizendo que estaríamos seguros viajando sem nos identificarmos como pertencentes a qualquer das duas regiões.
Ele era bastante conhecido naquelas estradas e muitas pessoas poderiam nos ajudar em caso de necessidade. O
mais arriscado seria a volta, quando estaríamos com os objetos de trabalho dele e acompanhados de alguns carregadores, o que poderia chamar a atenção de ladrões, e mesmo para isso ele tinha uma solução, uma magia que seria feita em Ibadã. Não contei nada disso ao John, e partimos levando apenas o essencial e algum dinheiro escondido sob as roupas de andarilhos que optamos por usar, parecidas com as de sacerdotes.
Foi bom viajar com o Abimbola, pois tudo ele sabia, de tudo ele conhecia a história, e com a minha curiosidade acredito que levamos muito mais tempo do que o necessário, pois parávamos em muitos pontos da estrada para conversar e contemplar. Ele dizia que um verdadeiro artista precisava saber contemplar, que a natureza era a dona de toda a arte, apenas emprestada aos homens. Ficamos dois dias andando ao redor da região de Pobé, terra do Exu, onde o Abimbola me mostrou as diversas esculturas que homenageiam o poderoso mensageiro.
Havia membros de todos os tamanhos e materiais no meio dos matos, cercando a cidade, nas praças e nos mercados, todos louvando a fertilidade e a virilidade.
Mas também havia esculturas de casais se deitando e canteiros de palma, pois seu óleo está muito relacionado ao culto dos orixás da terra, como Exu, Omolu, Ogum, Iansã, Oxum e Xangô. O óleo de palma representa o líquido que sai dos membros dos homens e o sangue que alimenta o nosso corpo, pois é através dele que circula todo o axé, a força da vida, a energia. É por isso também que o óleo de palma não deve ser oferecido aos orixás da
temperança, da tranqüilidade e da calma, como é o caso de Oxalá.
De Pobé seguimos para Abeokutá evitando a estrada principal, e ficamos um dia na casa de conhecidos do Abimbola, às margens do rio Ogum, o que me fez pensar muito no Babalaô Gumfiditimi. A região estava mesmo em guerra, e tivemos que ficar na beira da estrada esperando companhia para seguir viagem, mais segura se feita em grupo. Acabamos nos juntando a umas quinze pessoas que tinham saído de Lagos com destino a Osogbo, entre as quais havia dois brasileiros. Ficamos três dias em Ibadã, e o Abimbola me levou para conhecer a região, que não tinha nada de especial.
Contratamos carregadores para levar o material dele e novamente ficamos esperando passar um grupo de viajantes para seguirmos junto com ele, e voltei quase o tempo todo calada, pensando muito na viagem que tinha feito com a minha avó e a Taiwo, de Savalu para Uidá.
Comentei isso com o Abimbola e ele perguntou se eu não tinha vontade de ir até lá. Respondi que tinha curiosidade, mas não vontade. Queria saber o que tinha sido feito da casa, se ela ainda existia, se tinha gente morando nela ou em alguma outra que poderia ter sido construída no mesmo terreno. Anos mais tarde, não aguentando ficar sem essas respostas, mandei três empregados até lá.
Não sei se eles não conseguiram encontrar o local com as poucas orientações que dei, mas disseram que não havia mais nada. Nem casa, nem as valas onde foram enterrados o Kokumo e a minha mãe, nem vila, nem mesmo a estrada que passava entre a casa e o rio, pois o mato tinha tomado conta de tudo, crescendo ao redor do tronco do iroco.
Acordos
Chegamos a Uidá na época certa, encontrando o John muito preocupado com a nossa segurança. O rei Guezo estava recrutando gente de todo o reino e formando um grande exército para arrasar Abeokutá. O Isidoro estava de partida para sua primeira viagem oficial a Abomé como Chachá. O John tinha que ir a Freetown esperar os sarôs que deviam estar voltando do Brasil, mas preferiu adiar a partida e participar da comitiva do cônsul inglês que também estava indo para Abomé, onde tentaria convencer o rei Guezo a acabar com o tráfico de escravos. Com certeza aquela não era uma boa hora, pois a guerra com Abeokutá tinha o propósito de aprisionar e escravizar muita gente.
O John comentou isso com um dos acompanhantes do cônsul e ele disse que iriam assim mesmo, pois levavam uma notícia que faria o rei Guezo pensar duas vezes antes de se negar a assinar um tratado proibindo o aprisionamento e a venda de pessoas no Daomé. Por mais que o John insistisse e por mais que eu o incentivasse a continuar insistindo, o inglês não quis dizer que notícia era aquela, e tive que esperar quase um mês para ficar sabendo.
Fui acompanhar a partida da comitiva, que era uma grande mistura de gente com os mais diferentes propósitos. Os ingleses com sua notícia misteriosa, o Isidoro que queria conversar sobre alternativas de comércio e a reativação do forte da Ajuda, além de levar novos soldados e amazonas para se juntarem às tropas do rei na guerra, e alguns comerciantes que também levavam presentes e escravos para o rei, o que dava, ao todo, umas quinhentas pessoas. O Isidoro comandava a comitiva como um grande chefe, e partiram fazendo imensa algazarra, ao som dos tambores e à sombra de imensos e coloridos pára-sóis, que o Chachá mandou abrir também sobre as redes que transportavam os ingleses. Era um jeito de agradá-los, pois sabia que voltariam decepcionados de Abomé depois de terem
falhado em sua missão. Na volta, o John me contou tudo, disse que foram muito bem recebidos em Abomé, o que provocou ciúmes no Chachá, pois muita coisa tinha sido feita para impressionar os ingleses e não para homenageá-lo, como acontecia com o pai.
Dentro das terras do palácio, o rei Guezo tinha mandado colocar um enorme bergantim sobre rodas, com mais de vinte pés de comprimento e todas as velas abertas, presente do Chachá I, o D. Francisco. Na popa estava escrito "Guezo, rei do Daomé" com letras feitas de ouro, e em um dos mastros havia uma enorme Union Jack. O
rei esperava por eles sentado em uma vistosa cadeira sob um pára-sol, comandando os músicos e os tocadores de tambor. Quando as pessoas mais importantes da comitiva já estavam do lado de dentro dos muros do palácio, o rei mandou parar a música e ordenou que ribombassem vinte e um tiros de canhão em honra de Sua Majestade a rainha da Inglaterra, e mais treze para cada um dos seus representantes diretos, o que deixou todos um pouco zonzos e surdos.
Durante todo o tempo o Chachá parecia contrariado, junto dos irmãos Inácio e António, ainda mais quando foi obrigado a entrar na fila para cumprimentar o rei, que provavelmente deu ordem para passarem os ingleses na frente. Mas depois ele deve ter se arrependido, porque chamou um dos seus homens e pediu que o bastão fosse entregue primeiro aos irmãos De Souza, e depois aos ingleses. Era esse o ritual para cumprimentar o rei; ele mandava entregar o bastão e a pessoa ia devolvê-lo, e assim até que o bastão passasse por todos que mereciam tal honraria.
Durante a estada deles em Abomé, o rei ainda recebeu os ingleses em outras ocasiões, e durante as conversas nunca falava se ia ou não atender às reivindicações deles, para quem providenciou muitos passeios pelas redondezas, para mantê-los ocupados, cansados e afastados do castelo. Enquanto isso, ele se reunia com os De Souza e os comerciantes brasileiros, que estavam lá com propósito contrário, ou seja, conversar sobre as vantagens do comércio de escravos. Mas conversaram também sobre a necessidade de aumentar o comércio de óleo de palma e outras mercadorias que estavam sendo cultivadas nas fazendas do interior do reino, a maioria pertencente a brasileiros. Ou pelo menos as mais bem-sucedidas.
O trunfo dos ingleses, que me matou de curiosidade até a volta do John, era a notícia de que o imperador brasileiro estava prestes a assinar uma lei proibindo o comércio de escravos, o que acabaria com a procura do principal produto oferecido pelo Daomé. Sem se importar com isso, o rei Guezo manteve a guerra, e o John disse que achou impressionante a disposição com que as amazonas se apresentaram ao rei antes de partirem para Abeokutá. Daquela vez também foram as mulheres mais importantes no reino, várias esposas e filhas do rei Guezo, esposas dos irmãos De Souza, e até mesmo a mãe do António e do Inácio. Elas faziam parte de um regimento especial que, em épocas de paz, saía à caça de grandes animais, como os elefantes, que ofereciam em homenagem aos parentes. Acho que se eu não tivesse saído do Daomé, mais que uma vodúnsi, eu gostaria de ter sido uma amazona. E por falar em vodúnsi, o John também ficou sabendo que, em segredo, algumas princesas do Daomé estavam sendo enviadas para o Brasil, provavelmente para a Casa das Minas, onde somente elas podiam se tornar vodúnsis-hunjaís.
Depois da volta do John e com as notícias que chegaram do Brasil dando como certo o fim do comércio de escravos, comecei a pensar melhor no óleo de palma, que estava tendo uma excelente procura. Principalmente porque, com o fim da venda de escravos, o comércio de armas sofreria uma queda, pois não haveria mais razões para declarar guerras que tinham a intenção exclusiva
de capturar escravos. Havia outros países para onde eles poderiam ser mandados, mas o comércio com o Brasil era o mais importante. Já tínhamos feito quatro viagens de ida e volta, e em cada uma delas a quantidade de óleo tinha dobrado, e o lucro também. As fazendas de palmeiras estavam produzindo cada vez mais com o retorno dos brasileiros que trabalhavam muito bem a terra, reduzindo o preço de compra. E no Brasil o óleo de palma estava ganhando vários usos novos e sendo muito procurado, aumentando o preço de venda. Ou seja, meu lucro aumentava nas duas pontas, e o comércio de fumo também estava bastante lucrativo, com o preço do produto brasileiro diminuindo por causa da concorrência com as plantações de Cuba, e se mantendo alto em África.