Um Defeito de Cor
Capítulo nove
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.
Fiquei um pouco decepcionada quando soube que ficaríamos na casa do Chachá, nas cercanias de Abomé, e não no palácio real. Mas pelo menos eu o conheceria, pois o senhor Nicolas disse que seríamos recebidos em audiência.
Não deu para ver a estrada toda, pois logo escureceu, mas não era das piores. Em alguns trechos eu até diria que era muito boa, larga, ladeada de árvores que davam sombra, livre de pedras e de mato, acompanhada por plantações de sorgo, milho, feijão, inhame, palma e carité. O pior trecho ficava entre Savi e Cana, onde atravessamos uma floresta e um grande pântano que se chamava Lama.
Ao longo da estrada, vi também várias casas de culto, de onde saíram alguns sacerdotes para nos abençoar. Se estivesse por minha conta, teria feito aquela viagem com
mais calma e parando de vez em quando, mas meus acompanhantes tinham pressa de chegar. Parávamos apenas para trocar animais e carregadores cansados por outros que estavam à nossa disposição nas várias casas do rei espalhadas de longe em longe. O Alfaiate preferia viajar dentro de uma rede carregada por escravos, e também tentei, mas aquilo sacolejava demais. Andamos a noite inteira e chegamos no fim da manhã seguinte, depois de quase vinte horas de caminhada apressada ou no lombo dos lindos cavalos emprestados pelo Isidoro de Souza. Ele os criava na casa de Popô, aquela que eu queria conhecer, e por onde passaríamos para devolvê-los.
Abomé é uma grande fortaleza, cercada por um fosso largo e fundo, coberto de espinheiros e atravessado por algumas pontes de madeira guardadas de um lado e do outro por soldados em armas, entre os quais havia muitas mulheres. A cidade é formada por vários conjuntos familiares, ou seja, conjuntos de casinhas de barro e palha onde moram as mulheres e seus filhos, e outra maior, com varanda, onde mora o homem, e cada conjunto é cercado por um muro alto.
A cidade é bastante movimentada, principalmente por causa de várias mulheres que carregam cântaros na cabeça e com os quais apanham água em um riacho que fica a algumas léguas dali, deixando uma enormidade de crianças à solta, brincando e chorando. Em quase todos os conjuntos há muitas hortas, pomares e plantações que abastecem três grandes mercados, onde também é vendida a produção das mulheres do rei, as únicas que podem exercer o trabalho de poteiras e de pintoras de tecidos. Não há somente um palácio real, mas vários, pois cada rei tinha construído o seu, formando um enorme conjunto de palácios ligados entre si e com os cemitérios reais e as casas das rainhas-mães, todos ao redor de imensos pátios.
Tudo isso é cercado por um muro com mais ou menos a altura de oito homens em pé um sobre o outro, com alguns portões de acesso ladeados por caveiras, que também formam grandes pilhas ao lado das portas.
Dizem, inclusive, que as salas de audiência de alguns reis são completamente calçadas de caveiras dos inimigos derrotados.
Passamos o resto do dia da chegada descansando no singbo do Chachá, que não é tão luxuoso quanto o singbo de Uidá. Mesmo assim é bastante confortável e grande, e cada um de nós recebeu um quarto e dois escravos. Achei muito divertidas as roupas que os escravos usavam, e depois soube que eram parte dos figurinos de óperas montadas no Brasil, comprados pelo Chachá e dados de presente ao rei Guezo. Reencontrei meus amigos em um dos salões quando serviram o jantar, e fomos dormir cedo, pois no dia seguinte visitaríamos o palácio das mulheres do rei, onde morava a filha do senhor Nicolas.
O Alfaiate não poderia entrar lá, pois o acesso de homens era permitido somente aos parentes das esposas reais, como pais, irmãos e filhos, e aos eunucos, que eram muitos. A filha do senhor Nicolas era muito simpática e bonita, uma verdadeira rainha. Ela elogiou muito a roupa que eu estava vestindo, feita pela Tonha, mostrou seus vestidos comprados na França pelos embaixadores do rei Guezo. Eram lindos, mas ela os achava um pouco sem graça, sem cor, e eu disse que teria o maior prazer em recebê-la em Uidá e ceder minha costureira. Passamos o dia conversando, sobre Uidá, sobre Abomé, onde ela se sentia bastante sozinha, sobre o Brasil e, principalmente, sobre a Festa do Bonfim.
Contei em detalhes a festa de São Salvador e ela ouviu com muito interesse, junto com duas acompanhantes que pareciam ser escravas pessoais. Passamos o
segundo dia na varanda usada por ela e pelas outras esposas, onde ensinei a fazer os [doces, os licores e os salgados que foram servidos dentro da igreja, dizendo
[que também poderia mandar comprar para ela, em São Salvador, os ingredientes necessários. Por conta de mais esse encontro, com o qual eu não contava, perdi a audiência dos homens com o rei Guezo, mas a minha amiga disse que conversaria com o marido e daria um jeito de ele me receber.
O rei Guezo
No terceiro dia, estávamos novamente na varanda, junto com várias esposas, quando ouvimos os tambores que anunciavam a presença do rei. As mulheres pararam o que estavam fazendo e se jogaram ao chão, e não tive como permanecer de pé. Primeiro surgiram os escravos tocando tambores, cantando e entoando aos quatro ventos todos os títulos do rei Guezo. Depois entrou o arauto, bateu três vezes a bengala no chão e o anunciou.
O rei Guezo, seguido por uns cinqüenta escravos e muitas amazonas, era carregado em uma rede por quatro mulheres enormes. Estava deitado em meio a almofadas de damasco e sendo abanado com leques de penas coloridas que eram bem maiores do que os anões que os carregavam.
Ele vestia um bubu bordado a ouro e usava sandálias com presilhas também de ouro e tiras de prata, e um chapéu de abas largas enfeitado com plumas de avestruz que eram lançadas para cima a cada baforada que ele dava no longo cachimbo. Passado o espanto inicial, fiquei olhando para o rosto dele, que de fato me lembrava muito a Agontimé, e, contrariando o que eu tinha planejado, foi a primeira coisa que falei quando fomos apresentados pelo senhor Nicolas. Ainda bem que não a chamei de Maria Mineira Naê, pois senão teria que dar muito mais explicações. Todos ficaram surpresos quando eu disse o nome dela, mas principalmente o rei,
que fez um sinal para que providenciassem cadeiras para nos sentarmos.
Quando percebeu que ele ia permanecer na varanda, o séquito que o acompanhava tratou de se acomodar.
Anões e alguns corcundas e albinos se colocaram ao lado dele, abanando-o com flabelos, espantando as moscas com rabos de cavalos presos em bastões de ouro e segurando escarradeiras e pára-sóis. Minha cadeira foi colocada de frente para a dele, enquanto as outras, para a esposa e o sogro, o senhor Nicolas, foram colocadas mais atrás. O rei Guezo se dirigiu a mim diretamente, o que era uma grande honra. Geralmente ele falava por intermédio de intérpretes, ou então cochichando no ouvido de uma velha senhora que cochichava no ouvido do intérprete, que então se comunicava com o convidado. Isso acontecia mesmo quando recebia quem falava a mesma língua que ele.
Escolhendo muito bem as palavras e falando em fon e eve, contei aquele meu primeiro encontro com a Agontimé em São Salvador, e que depois tinha perdido o contato. Ele me pareceu muito emocionado, o que acabou provocando o choro histérico de vários escravos, que gritavam o nome da Agontimé e faziam saudações aos voduns cujos cultos ela presidia. Ele fez muitas perguntas, como ela estava, se tinha comentado sobre os lugares onde tinha vivido, se estava liberta, se falava sobre ele. Contei tudo o que podia e ainda inventei algumas coisas para deixá-lo feliz, e depois de mais de meia hora de interrogatório, ele saiu da varanda me convidando para almoçar no palácio pessoal dele dentro de dois dias.
Era tudo que eu queria, mas não pude ir por causa da notícia que chegou a Abomé na noite de oito de maio de um mil oitocentos e quarenta e nove. Uma notícia pela qual todos já esperavam, mas que comoveu todo o reino do Daomé, a da morte do Chachá, em Uidá. Do palácio
real conheci apenas o salão onde nos despedimos do rei Guezo, que me decepcionou pela simplicidade, diante do que o John tinha falado sobre os salões do Chachá. Além de uma poltrona, que não devia ser o trono principal, havia sofás, cadeiras, esculturas espalhadas pelos cantos e diversas imagens de santos católicos e objetos de cultos de voduns dispostos em pequenas prateleiras que enfeitavam as paredes. Pelo menos as molduras eram bonitas, de ouro trabalhado. Nada mais. E nem tive muito tempo para olhar direito, pois precisávamos partir junto com a comitiva que faria as honras do rei Guezo no funeral do seu irmão de sangue. Ele próprio não pôde ir, mas mandou algumas de suas mulheres, inclusive a filha do senhor Nicolas, e dois filhos homens. Também não tive tempo de perguntar pelo pai do Kokumo, o Babatunde, que tinha sido ministro do reino do Daomé.
Ao assumir, o rei Guezo tinha trocado todos os ministros que serviam ao Adandozan, mas podia ser que ele ainda estivesse por lá se fosse vivo, porque, na verdade, tinha sido ministro do pai do rei Guezo, o rei Agongolo, o marido da Agontimé.
A comitiva
Éramos um grupo grande, mais de trezentas pessoas, e pelo caminho o senhor Nicolas e o Alfaiate foram conversando sobre o quanto a morte do Chachá era preocupante para todos os brancos, referindo-se não apenas aos brasileiros, mas também aos ingleses, franceses e portugueses, porque a permanência e a segurança deles na costa africana tinham sido garantidas graças à influência do Chachá junto ao rei.
Para o rei Guezo e todos os reis africanos, os brancos serviam apenas para fazer negócio, para comprar escravos e vender armas, e o senhor Nicolas disse que o Chachá conseguiu convencê-lo de que era importante para o reino de Abomé que os brancos se estabelecessem lá, que tivessem casa e família, que possuíssem terras e negociassem outros produtos, Á
porque só assim a África poderia se tornar um Brasil ou mesmo uma Europa.
Eles estavam preocupados com o que aconteceria a partir de então e com quem seria o novo Chachá, já que três filhos do Francisco tinham condições de herdar o título. Mais tarde falo sobre eles, pois agora quero contar da nossa viagem. O rei nos autorizou a usar pára-sóis, pois estávamos indo representá-lo nas cerimônias de despedida do seu melhor amigo, do homem com quem tinha feito o pacto de sangue e de quem recebeu ajuda essencial para assumir o trono, como queria o pai, o rei Agongolo.
Diziam que o rei Guezo era justo e preocupado com o povo, e muito bom para seus escravos, o que teria deixado a Agontimé bastante feliz. Mas ela preferiu continuar no Brasil, preferiu levar o culto dos voduns aos daomeanos que, como ela, foram viver na nova terra. Sendo assim, era melhor mesmo que o rei Guezo não soubesse do paradeiro dela, principalmente depois que eu o enganei, escondendo o que sabia.
O mais interessante daquele cortejo foi viajar ao lado do famoso exército de amazonas do Daomé, do qual a filha do senhor Nicolas e outras esposas e filhas do rei também faziam parte. Tal exército era composto por mais de quinhentas mulheres e tinha fama de ser invencível, conseguida na longa sucessão de reinados daquela dinastia dos protegidos de Dan. Rei após rei, o exército se renovava com as mulheres que tinham alguma ligação real, e era temido e respeitado em toda a África por sua coragem e fé. As guerreiras andavam vestidas com calças curtas e camisas longas, sem mangas, e exibiam com muito orgulho o cinto em que ficavam presos uma maça (Maça: arma com cabo comprido que tem em uma das pontas uma pesada bola de ferro dentada), e um facão.
As cabeças eram cobertas por gorros bordados ou pintados com figuras de diversos animais sagrados no Daomé, como crocodilo, elefante ou tubarão, de acordo com o batalhão a que pertenciam. Não foi o exército inteiro, mas umas cem mulheres, acompanhando dois dos filhos do rei Guezo, os príncipes Dako Dubo e Armuwanu.
Elas montadas em seus vistosos e valentes cavalos e eles deitados em redes carregadas por escravos. Na frente seguiu uma banda formada por escravos batendo tambores e tocando clarinetas, comandados por um arauto,
que,
quando
cruzávamos
com
alguma movimentação na estrada ou passávamos por uma aldeia, anunciava a morte do Chachá e exortava os súditos do reino a nos acompanharem.
Aos que não podiam seguir viagem, era pedido que realizassem algum tipo de cerimônia. Atrás da banda iam as amazonas, que também faziam a segurança dos príncipes, e então íamos nós, os enviados de honra, com nossos escravos e serviçais. Acho que no meio daquela gente toda só eu não tinha escravos, mas o senhor Nicolas me emprestou dois para carregarem a minha bagagem e o pára-sol. Atrás de nós seguiam os escravos do rei Guezo, carregando a bagagem da comitiva e os diversos presentes para o Chachá e seus filhos. Para cada filho vivo o rei enviava, entre outras coisas, um pano-da-costa comemorativo, com uma estampa que a partir daquele momento só seria usada para lembrar a morte do Chachá.
Fiquei brava porque os presentes eram apenas para os filhos homens, mas o Alfaiate disse que não era por economia, mas sim porque as mulheres não eram consideradas descendência de verdade, pois passavam a pertencer à família do marido quando se casavam. Os escravos ainda carregavam provisões que dariam para a comitiva e os convidados comerem e beberem durante
muitos dias, pois esse tipo de cerimônia dura pelo menos uma semana. O Alfaiate disse que estava surpreso com aquela homenagem ao Chachá, digna de um rei.
Entre os soldados caminhavam umas quinze pessoas vestidas de branco, todas muito jovens, quase crianças, que seriam sacrificadas em honra ao Chachá. Parecia que estavam indo para uma grande festa, a não ser pelos semblantes, que me impressionaram não por estarem de todo tristes ou desesperados, como eu achava que deveriam estar, mas pela resignação. Como não estava acostumada com aquilo, achei uma barbaridade absurda, justificando a alcunha de selvagens que nós, os brasileiros, dávamos aos africanos.
Mas nem o senhor Nicolas nem o Alfaiate, também brasileiros, pareciam se importar, e quando perguntei o que achavam, responderam que eram costumes, apenas costumes, que sempre existiram e sempre existiriam. Eu parecia muito mais desesperada que as próprias vítimas, que apenas caminham em direção ao destino. Ainda hoje sou capaz de me lembrar de alguns dos rostos daqueles jovens que morreram para homenagear a morte, e sempre rezo por todos. Havia apenas duas meninas, as mais jovens de todo o grupo e também as que caminhavam com maior altivez, quase com orgulho, como as amazonas.
Chegada e funeral
Fomos recebidos na entrada da cidade por um grupo de escravos do Chachá, tendo à frente dois dos seus filhos, em consideração aos dois filhos do rei Guezo. Houve troca de presentes e saudações, e atravessamos Uidá sob os olhares festivos e curiosos dos moradores, que estavam nas ruas apreciando o movimento. Era enorme a concentração de pessoas no forte e em Singbomey, onde o corpo estava sendo velado.
Uma multidão de escravos estava espalhada pelo pátio, chorando e rolando no chão de terra, que pegavam com as mãos e atiravam sobre as próprias cabeças quando algum representante real ou algum filho do Chachá passavam por eles. Os filhos estavam todos vestidos da mesma maneira, com roupas brancas, uma faixa colorida cruzando o peito e chapéu panamá, sempre seguidos por dois ou três escravos, e às vezes pelas famílias numerosas, que vestiam roupas alegres e coloridas e faziam festa ao se encontrarem com as famílias dos outros irmãos.
Vi o Isidoro conversando com os filhos do rei Guezo e depois soube que ele estava tentando evitar os sacrifícios humanos, alegando que o pai era branco e católico, que aquelas coisas não eram necessárias. Vi de longe o bokonon Prudêncio, que estava muito atarefado e nem pôde falar comigo. O Isidoro conseguiu salvar dois ou três, mas os príncipes não quiseram desistir daquele costume, dizendo que seria uma desfeita ao rei, que queria prestar uma homenagem ao irmão de sangue. Eu não vi, mas disseram que foi enorme a quantidade de gente na praia, naquele mesmo dia, onde três homens foram sacrificados, além de alguns animais.
As cerimônias foram presididas pelo Prudêncio, que também fez sacrifícios para os voduns, e por um sacerdote que tinha viajado conosco e portava o título de adjaho. Esta é a mais alta função entre os sacerdotes voduns, pois, além de presidir os cultos mais importantes, o adjaho também é uma espécie de ministro de culto do rei e chefe da polícia secreta do reino.
O primeiro adjaho tinha recebido esse cargo depois de assentar um dos voduns mais poderosos do Daomé, o filho do rei Abaka, o rei que assentou o reino sobre as entranhas de Dan, o chefe de todos os outros voduns, o vodum que guiou o destino da Agontimé, o Zomadonu.
Não tenho certeza, mas acho que no Daomé só o adjaho
pode cultuar Zomadonu, pois ele é o chefe dos voduns da família real, cujo culto fica sob a responsabilidade do sacerdote real.
As pessoas iam passar a noite toda em Singbomey, mas como eu estava muito cansada e preocupada com os ibêjis, fui para casa. Ainda bem que fiz isso, pois ao chegar lá encontrei a Jacinta desesperada, se desdobrando para cuidar de três chorões, a Geninha, a Maria Clara e o João, porque as outras mulheres que se dispuseram a ajudar tinham ido para as cerimônias, e a Aina, aproveitando a confusão e o fato de que estava um pouco melhor, tinha fugido. A Jacinta estava furiosa com ela, dizendo que era uma ingrata, que depois de eu tê-la ajudado tanto fugia daquele jeito, abandonando meus filhos.
Fiquei sem saber se concordava com ela ou tentava compreender a Aina, que só podia ter ido atrás dos próprios filhos. Eu não tinha condições de ir procurá-la nem de mandar alguém, pois naqueles dias todos estavam muito ocupados com as cerimônias, com hóspedes, ou querendo aproveitar o movimento e ganhar um pouco de dinheiro vendendo qualquer coisa.
Participei de poucas cerimônias, porque a Geninha ainda exigia cuidados e a Jacinta tinha que dar prioridade a ela, deixando os ibêjis comigo. Mas fui a uma parte da cerimônia do enterro, realizada em duas etapas, a primeira na praia, assistida por todo mundo, e a segunda no cômodo reservado para guardar o corpo. Ainda bem que não assisti à primeira, pois, de acordo com os costumes africanos, um moço e uma moça foram decapitados para serem enterrados junto com o Chachá.
Só vi quando entraram no cômodo com os três corpos enrolados em bandeiras, e não consegui evitar os tristes pensamentos que me acometeram. Eu tentava adivinhar quais dos jovens tinham sido oferecidos em sacrifício, e se as cabeças deles, mesmo separadas dos corpos,
conservavam
toda
aquela
determinação
que
demonstravam no caminho. Aproveitei que ninguém estava prestando atenção nos convidados e fui embora, enquanto o Prudêncio, o adjaho e algumas sacerdotisas davam andamento à cerimônia, que durou muitas horas.
O Chachá já estava morto mesmo, mas os meus problemas ainda eram bem reais, e eu me preocupava com a Aina. Voltei a Singbomey apenas para me despedir da filha do senhor Nicolas, e soube que a comitiva de Abomé estava se preparando para ir embora. As homenagens ainda continuaram por vários meses, com mais de trezentas dançarinas se apresentando na praça de Uidá, com sacerdotes imolando animais, e os selvagens e escravos do Chachá bebendo muita cachaça e dando gritos desesperados que competiam com o estrondo de vários tiros para o ar.
Uma verdadeira selvageria, se me permite dizer.
Arrependidos
Como o senhor Nicolas, o Alfaiate e o José Joaquim estavam muito ocupados, aproveitei uma ida até o terreno para conversar com o Rafiki e o Felipe, para que eles me ajudassem a decidir o que fazer em relação à Aina. Eles não queriam opinar, pois não conheciam nada da África, mas depois acabaram dizendo que era melhor não fazer nada. Eu também pensava assim, que aquele problema era para ser resolvido pela família, mas gostava muito da Aina e tinha imensa consideração por ela. Além da sinhazinha, ela era minha amiga de infância. Eu rezava por ela todos os dias, e achei melhor esperar pela volta do Ayodele para tomar qualquer providência.
Enquanto isso, a casa começava a ter os traçados mais definidos, atraindo cada vez mais gente. Não só para olhá-la, mas também para pedir emprego, e essas pessoas eu mandava falar com o Rafiki. Talvez ele até
aproveitasse alguns daqueles homens, quase todos brasileiros,
que
tinham
voltado
achando
que
encontrariam a África das lembranças que tinham deixado ao partir. Não só naqueles dias, mas durante todo o tempo desde que voltei, ouvi histórias muito tristes de gente que tinha tentado voltar para aldeias que não existiam mais, de gente que procurava por parentes que tinham morrido ou se mudado, de gente que queria voltar para o Brasil a qualquer custo. Ouvi também muitas histórias antigas, que provavelmente continuarão a ser contadas através dos anos, sabe-se lá até quando.
Ouvi, por exemplo, a história de um nagô chamado João de Oliveira, que, quando ainda era quase uma criança, foi capturado e levado para o Brasil, Pernambuco, onde viveu por muitos anos como escravo de uma família de que gostava muito e que também gostava dele. Ao receber a alforria como prêmio por bons serviços, o João de Oliveira resolveu voltar para a África e se estabeleceu na região de Porto Novo e Onin, pois era esse o nome de Lagos naquela época.
Até hoje os africanos mais antigos e alguns estrangeiros a chamam assim. Não dizem que o João de Oliveira enriqueceu com o tráfico de escravos para que ele não perca o heroísmo, mas desconfio que não pode ter sido de outra maneira. Conta-se que ele falava muito bem dos ex-donos e de como o tinham salvado, fazendo com que se tornasse um verdadeiro cristão. Era muito grato a eles e fez questão de enviar, sem que tivessem solicitado, o valor da alforria e mais algum dinheiro, que continuou enviando constante-mente.
A fortuna do João de Oliveira tinha se tornado muito maior que a deles, e quando soube que sua ex-dona tinha ficado viúva e passava dificuldades, não poupou esforços e meios para ajudá-la, enquanto também mandava dinheiro para ajudar na construção da Igreja
de Nossa Senhora da Imaculada Conceição. Além disso, o João também contribuía para várias irmandades brasileiras. Ele era muito bem-visto em África, pois ajudou a construir muitos dos portos instalados pela costa com seu próprio dinheiro, e era também considerado um grande amigo dos comerciantes portugueses e baianos que faziam negócios naqueles portos.
Principalmente os comerciantes de tabaco, e por isso a minha quase certeza de que ele comerciava escravos, porque naquela época o tabaco era a principal moeda de troca. Quando os reis africanos queriam prejudicar algum comerciante, o João de Oliveira intercedia por ele e quase sempre conseguia resolver a contenda.
Como as que aconteciam quando algum rei mandava roubar a carga que tinha comprado, tentando se livrar do pagamento, ou quando queria entregar menos escravos do que valia o tabaco, e então cobrava taxas tão altas para a autorização de desembarque, que compensava mais deixar a carga mofar no navio, causando enorme prejuízo.
Quando estava muito velho, o João de Oliveira quis retornar ao Brasil, para morrer em solo católico e ter um funeral cristão. Vendeu tudo o que tinha, conservando alguns escravos que o acompanhariam, comprou muitas mercadorias africanas e até escolheu o navio, o Nossa Senhora da Conceição e Almas, nome da sua protetora.
Ele esperava ter uma boa recepção no Brasil, em recompensa pelos bons serviços prestados também à Coroa, protegendo os comerciantes portugueses e brasileiros em África.
Mas não foi isso que aconteceu, e quando o Nossa Senhora da Conceição e Almas aportou em São Salvador, o João de Oliveira foi preso por ordem do chefe da Alfândega, que não acreditou que todas aquelas
mercadorias pertenciam a um ex-escravo e o acusou de ter se apropriado indevidamente das mercadorias a bordo. A carga foi confiscada, inclusive os escravos, e o João de Oliveira passou alguns meses na cadeia até conseguir provar que tudo era dele. Dizem que só conseguiu reaver parte da mercadoria, e mesmo assim depois que alguns comerciantes que o conheciam foram pedir ajuda na corte.
Histórias como essa eram contadas para fazer com que muitos perdessem a vontade de voltar para o Brasil, ainda mais naquele momento em que estava proibida a entrada de africanos no território brasileiro. Mesmo assim, conheci muitos arrependidos, que iam apenas se agüentando, vivendo de tristezas e saudades, dizendo que no Brasil tinham sido felizes sem saber.
Festas e cerimônias
Quando os ibêjis fizeram um ano, em junho, aproveitei que o John estava em casa e dei uma grande festa. Nós já tínhamos bastante dinheiro, muito mais do que eu tive no Brasil, em espécie, em ouro ou em mercadorias guardadas em um pequeno armazém que aluguei do senhor Nicolas. Mas o John queria mais, para que ele pudesse parar com aquele comércio de Freetown o mais depressa possível.
Eu só pensava na casa, na minha casa, do jeito que sempre sonhei. Era pena não ser no Brasil, mas eu ainda não tinha perdido a esperança de um dia voltar e ter uma bela casa onde você também morasse, em qualquer cidade que você escolhesse. Quando comentei isso com o John, ele disse que eu era muito mais brasileira que africana, pois o africano não se preocupa muito com casa, não se apega a ela e está constantemente de mudança, a não ser que tenha laços muito fortes com a aldeia onde nasceu. Mas comigo também tinha sido assim no Brasil, onde morei em várias casas e vários
lugares, embora muitas mudanças tenham sido contra a vontade ou ao sabor das circunstâncias.
Em África, finalmente eu teria o meu lugar, onde criaria meus filhos, e isso era muito importante. A cada dia eu acrescentava novos itens à lista de encomendas para o Tico, como janelas trabalhadas, grades rendadas para as portas, enfeites em forma de pombos para o telhado, telhas, maçanetas, esculturas de estuque, vidros e vitrais coloridos, e também mandava embarcar cortes de tecido, comida, bebida, charutos, perfumes e roupas, para nosso uso e para presentear.
A festa de aniversário dos ibêjis serviu como festa de despedida do José Joaquim, que estava muito feliz por ser substituído em suas funções no forte. Aproveitando a oportunidade, o padre José Maria também ia pegar o mesmo navio que ele, e disse que mandariam alguém para tomar conta da capela. Desde o batizado, eu tinha me encontrado com ele poucas vezes, pois era bastante recluso. O José Joaquim disse que ele passava dias e noites rezando, jejuando e se flagelando, pedindo salvação para nossas almas pagãs. Deve ser mesmo difícil para um padre de fé verdadeira ver tantos cristãos de fé dividida, entre os quais me incluo. Por exemplo, depois da festa de aniversário, a que o padre compareceu e fez belas orações para as ibêjis, tratei algumas cerimônias com a lyd Kumani, que ficou de sacrificar dois carneiros para Xangô e me apresentar a um sacerdote egungum, que deveria fazer cultos para os meus mortos. Eu queria fazer aquilo desde o retorno à África, pois estava devendo uma homenagem a eles, principalmente à minha mãe e ao Kokumo. Mas também queria aproveitar para lembrar a minha avó, apesar de ela ser vodúnsi, a minha mãe, a Taiwo e o Banjokô, e resolvi incluir a Esméria, o Sebastião e a Claudina.
Aproveitei uma viagem do John para acompanhar os cultos egunguns, pois tinha um pouco de vergonha de
que ele soubesse que eu me envolvia nessas coisas, não sei. Mas também porque a viagem dele ia ser demorada, não para Freetown, mas junto com o Alfaiate e um inglês chamado Frederick Forbes, que andava pela África já fazia algum tempo e queria conhecer o interior.
Depois fiquei sabendo que alguns membros da família De Souza, a do Chachá, tinham ido com eles. Não os principais, os que estavam cotados para substituir o pai, pois o sucessor ainda não tinha sido escolhido e eles precisavam ser facilmente encontrados, caso o rei Guezo quisesse fazer isso a qualquer momento. Também foi bom que o John estivesse fora de Uidá naquela época por causa de uma notícia que provocou algumas confusões na cidade, causando a morte de dois ingleses.
Era gente sem muita importância, o que evitou o agravamento da situação.
A algumas milhas do porto de Uidá, um tumbeiro carregado com mais de quatrocentos escravos foi perseguido por um navio da esquadra britânica e, para não ser pego em flagrante, lançou todos os capturados ao mar. A culpa foi atribuída aos ingleses e havia protestos sempre que algum corpo, mutilado, comido e inchado ia dar na praia. Não sei se era verdade, mas dizem que dois homens conseguiram chegar vivos, deixando-se levar pela correnteza até as lagoas perto de Popô.
Eguns e egunguns
Quem me acompanhou na visita ao terreiro de egunguns, onde seria realizada uma grande festa, foi a Conceição, que também mandou a esposa de um dos filhos para ajudar a Jacinta com os ibêjis. Ficaríamos fora durante dois dias, mas o pior foi ter que viajar com sol forte, com aquele calor todo, e sorte que a Conceição tinha me sugerido não ir vestida à brasileira, para não chamar muita atenção na estrada. Viajar à noite seria
perigoso para duas mulheres sozinhas, que com uma simples palavra demonstrariam não ser selvagens, o que nos tornava ainda mais desprotegidas.
Arrumei um pano e amarrei na altura do pescoço, como fazia a minha avó, porque não tinha coragem de andar como a maioria das africanas, com os peitos à mostra e, algumas vezes, com o corpo todo. Eu tinha pudores que preferia não ter, porque o corpo pegava fogo mesmo debaixo do pano fino, e no meio do caminho tirei o véu que tinha amarrado na cabeça para não ser reconhecida ao deixar a cidade.
Quando chegamos à aldeia, da qual não me lembro o nome, vimos milhares de pessoas que tinham ido participar da festa que acontece ali uma vez por ano, até os dias de hoje. Não foi difícil encontrar a lyá Kumani, que tinha ido uma semana antes e era conhecida de todos, por ser uma sacerdotisa muito importante nos cultos gelédés. Foi com a Iyá Kumani que aprendi a história inteira das lyámis Òsòròngá, da qual a Mãezinha não conhecia nem metade. A história toda não vem ao caso, mas acontece que antes de a fúria das lyámis ser apaziguada, elas tinham provocado um grande terror em toda a África desafiando o poder do próprio soberano dos orixás, Olodumaré. Elas comiam tudo o que era quizila para os outros orixás e destruíam o que encontravam pelo caminho, casas, templos e pessoas, comiam fetos, faziam as mulheres pararem de sangrar ou sangrarem demais e lançavam doenças horrendas sobre todo mundo.
O povo fez grandes oferendas de ouro e enfeites a Oxum, por ela ser a dona da fertilidade, a guardiã da cabaça do ovo, mas nada adiantou. Resolveram pedir ajuda ao Ifá e ele ensinou Ode a fazer um ebó na entrada de uma floresta, o que tirou o poder de uma das lyámis.
Outras três foram mandadas para um lugar que não é o ayê e nem o Orum, e onde ninguém mais esteve,
restando apenas três, que exigiram que Olodumaré cumprisse pelo menos parte do pacto feito com elas. Ele então teve que reservar as árvores de Ketu para elas, pedindo que todo o povo de Ketu as reverenciasse. Caso contrário elas poderiam fazer o que quisessem com eles e suas aldeias, desde que não tocassem nas árvores, que seriam para sempre protegidas de Odé.
A Mãezinha não sabia de nada disso, só da outra parte, quando as lyámis pousaram sobre as árvores do bem e do mal. Isso também acontecia com muitos cultos feitos no Brasil, que ficavam só pela metade. Os pretos de lá esqueciam ou não tinham condições de fazer como era feito em África, mas o contrário também podia acontecer. Alguns cultos ficaram muito mais bonitos e completos no Brasil, como alguns rituais de vodum que vi na Casa das Minas, porque as vodúnsis responsáveis por eles em África tinham sido capturadas e vendidas como escravas, deixando apenas suas discípulas para trás.
Esse não era o caso do culto gelédé, que tinha nascido em Ketu, onde ainda estão as árvores das lyámis e grande parte das mulheres responsáveis pelos cultos, sendo que algumas delas estavam ali, naquela aldeia, participando do encontro de egunguns. Havia também um encontro de gelédés feito em Ketu, é claro, e para onde também iam quase todos que encontrei naquele dia, o que fazia deles uma grande família, que sempre se encontrava para ocasiões especiais.
Havia gente de muitas partes da África, de lugares que ficavam a muitos dias de viagem e dos quais eu nunca tinha ouvido falar, mas nenhum outro povo era maior que os iorubás de Ketu, Oyó, Ijexá, Ifan e Ifé. Cada povo ficava mais ou menos separado, pois cada um tinha os próprios egunguns e eguns para honrar. Uma das coisas que aprendi foi que há diferenças entre eles, pois para mim eram a mesma coisa. Os eguns são os grandes
ancestrais, os grandes senhores e mestres, os fundadores de uma família ou de uma nação, e os egunguns são os outros mortos, os que são importantes somente para as famílias nas quais nasceram, e não para todo o povo.
Para o Brasil foram levados eguns e egunguns, junto com seus familiares, e a lyá Kumani me apresentou a um homem que tinha ensinado o culto para dois brasileiros que queriam honrar o egum Agboulá no Brasil, em uma ilha perto da cidade da Bahia, que muito bem podia ser Itaparica. Pai e filho tinham seguido como escravos para o Brasil, conseguido a liberdade e voltado à África apenas para aprender a cultuar Agboulá, um dos mais importantes eguns para o povo iorubá, um dos seus primeiros ancestrais. Eu também já tinha visto muita gente no Brasil falar que Exu é um egum, ou egungum, apenas porque ele também transita pelo reino dos mortos, mas não é bem assim. Exu é um mensageiro entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos, e também foi ele quem ajudou a construir muitas coisas antes de os orixás descerem à terra, como o peji Ojugbó Ifá, para o orixá Ifá, o da adivinhação, e o peji Ojugbó Orun, o local de adoração dos mortos. Naquele encontro foram feitas várias homenagens a Exu, ao redor de grandes esculturas em forma de membros, para que ele deixasse tudo acontecer em paz e harmonia, e para que continuasse a haver fertilidade e virilidade sobre a terra.
No culto aos eguns e egunguns, a lyá Kumani era uma íyâegbé, o segundo cargo mais importante que pode ser ocupado pelas mulheres, a que comandava todas as outras. Acima dela só havia uma íyálode, que era quem recebia as ordens dos homens e passava às mulheres. A lyâ Kumani trabalhava junto com um alabã (Alabá: chefe de terreiro egungum), chamado Amusan, "devoto que mostra lealdade e amor aos ancestrais". Acho que aquela aldeia era ocupada apenas para aquele tipo de festa, e cada alabã tinha instalações separadas para fazer seus
cultos, que eram chamadas de Igbo Iygbale.
Antes de entrarmos em um Igbo Iygbale, a lyá Kumani disse que eu e a Conceição devíamos beber água, comer alguma coisa e fazer as necessidades, porque de lá não poderíamos sair até o fim da cerimônia, que não tinha prazo determinado.
Amarrou também tiras feitas com folhas de palma nos nossos pulsos, para nossa proteção, e falou para termos muito cuidado, para não deixarmos que nada dos egunguns e eguns encostasse em nós, nem a roupa, porque senão nos tornaríamos assombradas e teríamos que passar por vários rituais de purificação para afastar doenças e até mesmo a morte. Comecei a ficar assustada, principalmente por me lembrar daquela estranha sensação no dia em que tentei ir ao terreiro egungum em Itaparica, com a Mãezinha e o Zé Manco.
A lyá Kumani disse que não havia grande perigo, pois muitas pessoas estariam atentas para tomar conta, e ainda pediu a uma conhecida dela que ficasse comigo e a Conceição, pois ela estaria ocupada. Perguntei sobre meus ancestrais, o que seria feito, e ela disse que já tinha conversado com a íyálode e que talvez aparecesse algum deles, ou alguém que os conhecia, levando recados.
Quando comecei a entender melhor como o culto funciona, percebi que seria muito difícil a presença dos meus antepassados, a não ser que também fosse antepassado de alguém que já tivesse providenciado assentamento para ele. A lyá Kumani disse que era difícil, mas não impossível, e eu saberia se por acaso acontecesse, pois é impossível não sentir a presença de antepassados. Mas, de qualquer forma, eles já seriam homenageados apenas com a minha presença na cerimônia.
Prefiro saber o que vai acontecer e o que posso esperar de ocasiões como aquela e, por sorte, a mulher com quem a lyá Kumani havia nos deixado entendia bastante do culto. O nome dela era Ayomide, uma nagô de uma aldeia próxima àquela em que estávamos e que participava dos cultos havia muitos anos. Fiz todas as perguntas que se podia esperar de alguém que não entende muito do assunto, e muitas respostas foram completa novidade. Fiquei sabendo, por exemplo, que naquele dia veríamos vários tipos de manifestações, incluindo as de aparakds, uma espécie de eguns não muito evoluídos que ainda não têm luz e podem até se materializar, mas ainda não foram assentados e não têm cultos. Com o passar do tempo, eles podem evoluir ou não, tudo vai depender de como se portam, se estão inclinados ou não a fazer o bem.
Ainda do lado de fora do salão, passou por nós um homem com ares de muito importante, e eu perguntei quem era. A Ayomide disse que era um alapini, o chefe de todos os sacerdotes daqueles cultos e o dono do terreno onde estávamos. Existiam também muitos outros cargos ou títulos, como o de alagbd, que eram chefes de um determinado terreiro e deviam obediência apenas ao alapini. abaixo do alagbá ficava o ojé-agbá, um sacerdote bem preparado e que mandava em um ojé, um simples sacerdote. Quem ainda estava começando era chamado de amuixã, ou portador do ixã, pois ainda não tinha poderes para invocar os ancestrais e apenas ajudava o ojé. Além deles, os cultos ainda contavam com os alagbês, os músicos, e podiam ter os ijoyês, pessoas que são apenas incorporadas dentro da sociedade, sem exercer função alguma. Para que entendêssemos melhor tudo aquilo, a Ayomide contou uma historinha que explica a origem do culto.
Em Oyó, a grande cidade dos iorubás, havia um poderoso fazendeiro chamado Alapini, pai de três filhos.
Um dia, ele viajou e deixou os filhos tomando conta da
plantação. Eles deveriam colher e armazenar a safra, mas não podiam comer um determinado tipo de inhame que provocava muita sede. Curiosos, os filhos resolveram experimentar e gostaram muito, comendo até se fartar. Como castigo à desobediência, acabaram morrendo, pois não conseguiram parar de beber água.
Quando o pai voltou para casa, ficou desesperado com a desgraça e resolveu pedir a um babalaô que consultasse o Ifá para ver o que poderia ser feito, pois ele queria ver os filhos pelo menos mais uma vez. O babalaô mandou que, passados dezessete dias da morte dos filhos, o Alapini fosse até um riacho que ficava em um bosque e fizesse um certo ritual ensinado pelo Ifá. Depois de fazer alguns sacrifícios e oferendas, ele deveria pegar um galho de uma árvore sagrada, a atori, preparar um bastão, que foi chamado de ixã, e bater com ele três vezes no chão, às margens do riacho, chamando pelos filhos. Assim que o Alapini fez tudo isso, os filhos apareceram, mas seus corpos estavam muito feios, muito deformados. O fazendeiro queria mostrá-los às outras pessoas, mas tinha certeza de que elas se assustariam, por causa do estado dos três rapazes.
Pediu que os filhos esperassem na floresta e foi conversar com algumas mulheres, que fizeram roupas e máscaras muito bonitas para eles, e assim eles foram apresentados e honrados por toda a cidade. As roupas deveriam ser guardadas em um ojubô, um buraco feito perto do lugar onde eles apareciam, para que pudessem encontrá-las facilmente sempre que fossem chamados pelo pai.
A Ayomide disse para prestarmos atenção às roupas, pois, assim como cobriram os corpos dos três filhos do Alapini, também cobririam os corpos dos eguns e egunguns, isto é, se eles tivessem corpos. Quando ela começou a falar das roupas, contando que as dos aparakás são bem mais simples, formada apenas por
dois pedaços quadrados de pano pregados um ao outro, ouvimos uma gritaria e logo um grupo de pessoas passou correndo por nós, em desespero, seguido justamente por um aparaká. Ele já estava sendo controlado por amuixãs que batiam o ixã na frente e ao redor dele, evitando que tocasse nas pessoas. Mas a Ayomide nos empurrou para o barracão onde a lyá Kumani tinha entrado pouco antes e disse que lá estaríamos mais seguras, pois não era recomendado ficar no terreiro depois do início de algumas cerimônias, já que os espíritos rondavam todo o ambiente.
O salão já estava bem cheio e era um grande espaço sem uma única janela e com duas portas. A porta pela qual tínhamos entrado e outra que, segundo a Ayomide, dava para o Igbo Iygbale, o lugar sagrado onde os espíritos são invocados. Ela disse também que lá dentro havia mais divisões, sendo que uma delas estava reservada aos ojés, os iniciados, e na outra estavam os assentamentos dos eguns, os idiegunguns, que podiam ser vistos apenas pelos ojé agbds, os alabds e os alapinis, sacerdotes mais elevados, e os atokuns, que faziam as invocações.
Sabendo que era um culto somente de espíritos masculinos, eu me espantei quando a Ayomide disse que no Iygbale também estavam os assentamentos de Oyá, mas isso acontecia porque ela era cultuada não só pelos adeptos, mas também pelos próprios eguns. Achei isso interessante, porque os espíritos ali cultuados continuavam fazendo seus próprios cultos, assim como muitos voduns cultuavam outros voduns e alguns santos católicos.
Além de Oyá, eles cultuavam os orixás que tinham sido donos de suas cabeças quando vivos, ou seja, um egum ou egungum, que em vida pertencia a Xangô, continuava pertencendo ao mesmo orixá depois de morto.
Incorporado, o egum pedia para ouvir nos tambores o toque de Xangô e dançava para ele, fazia ou encomendava oferendas e usava roupas com as cores
consagradas a Xangô, o branco e o vermelho. Parte desses cultos era feito lá no Igbo Iygbale, só com a presença dos sacerdotes, quando eles escolhiam diretamente no assentamento o egum ou egungum que queriam invocar naquele dia. É no assentamento que está o awo, ou seja, o segredo do egum, que é a mistura do seu próprio poder de ancestral com o axé, o poder universal, que só pode ser acordado com os toques do ixã, como tinha feito o Alapini com seus três filhos mortos. É lá no Igbo Iygbale que a roupa de egum é preenchida pelo espírito invocado, porque é só por meio dela que nós podemos vê-lo, já que ele não tem corpo.
Aparições
As portas do salão foram fechadas e nos preparamos para a longa cerimônia. Todos se acomodaram da melhor maneira possível, sentados no chão ou de pé, sendo que as mulheres e as crianças ficavam de um lado e os homens do outro. Um grande espaço na frente do salão era considerado sagrado, e ali ficavam os alagbês e seus tambores, e algumas cadeiras para os eguns se sentarem, se quisessem. Separando esse lugar da parte onde ficávamos, havia uma série de ixãs fincados no chão, formando uma espécie de cerca, servindo de proteção entre o mundo dos mortos e os que estavam preparados para circular entre eles, e nós, que estávamos apenas assistindo, representantes do mundo dos vivos.
Algumas mulheres podiam andar por todo o salão, e entre elas estava a lyá Kumani, que parou do nosso lado e explicou que elas eram ojés e só estavam ali, participando do culto, porque representavam a própria Oyá, a quem todos respeitavam. Elas também tinham muitas obrigações, costuravam as roupas usadas pelos espíritos, mantinham a ordem no salão durante o culto, puxavam cânticos especiais que só elas tinham o direito de cantar e respondiam aos cânticos iniciados pelos
eguns. Também tinham que conhecer todos os assentados na casa, suas preferências e manias, e zelar para que nada lhes faltasse, além de saber interpretar tudo que falavam, o que às vezes não era compreensível para muitas pessoas. Alguns deles já tinham morrido havia muito tempo e falavam palavras e termos que ninguém mais usava fora dos cultos, ou até línguas que tinham morrido junto com determinados povos.
As mulheres chamaram a e formaram uma grande roda para cantar e dançar para vários orixás. Principalmente para Exu, pois, sem o consentimento dele, nenhum ritual acontece sem problemas, e para Ossain, o orixá das ervas, sem as quais nada é feito. Sabendo quais os eguns que seriam invocados naquela noite, elas começaram a bater palmas para Xangô, acompanhadas pelos tambores em um ritmo chamado alujd, o preferido do antigo rei dos iorubás. A porta do salão se abriu de repente e deu passagem à imponente figura do primeiro egum, que provocou muita agitação. Eu já esperava a aparição dele a qualquer momento, mas fiquei impressionada pelo modo como ele tomou conta de todo o ambiente, e aquele ainda brandia no ar o osé, o machado de duas pontas de Xangô. Estava bastante animado e foi seguido de perto pelos amuixãs, pois a todo momento ele ia na nossa direção, causando grande tumulto. Às vezes os ojés tinham que encostar os ixãs no peito do egum e segurá-lo à força, até conseguirem levá-lo para aquele espaço sagrado, por trás dos ixãs fincados no chão. O
seu atokun, o sacerdote que o invocava, quase teve que interferir, pois os eguns respeitam bastante esse tipo de sacerdote, porque é ele quem os traz para o contato com a vida, com os vivos.
A Ayomide disse que já tinha visto muitos atokuns dando verdadeiras broncas em eguns mais afoitos, e eles ouviam como se fossem crianças tomando reprimenda dos pais. Ela disse também que aquele era um egum poderoso, pois vestia a roupa completa, que é chamada de eku e feita com várias tiras de pano de mais ou menos sete a oito polegadas de comprimento, que o cobria da cabeça aos pés. Ou o que deviam ter sido a cabeça e os pés quando em vida, porque o que estava ali embaixo era apenas o espírito, que andava como se estivesse flutuando pelo salão, a grande velocidade.
No caso daquele egum, as tiras eram principalmente brancas e vermelhas, em homenagem a Xangô, e elas pendiam de uma espécie de chapéu, chamado abala, e da túnica que terminava em luvas e sapatos de pano, para esconder as mãos e os pés. Essa túnica é chamada de kafí, na qual também fica presa uma faixa chamada banté, que identifica o egum que está ali por baixo e que também está impregnada com o axé, a energia com a qual o egum abençoa as pessoas com quem fala.
Pude ver isso mais tarde, enquanto ele falava com um grupo de pessoas que parecia conhecer havia um bom tempo, provavelmente descendentes dele, em cuja direção balançava o banté, jogando no ar a energia que as pessoas faziam o gesto de pegar. Naquele dia vi roupas de vários tipos, e a Ayomide disse que elas dependiam muito dos eguns e da região onde eles tinham nascido pela última vez.
Alguns usavam as máscaras gelédés sobre o alabá, e outros colocavam peles de animais entre o alabá e o kafo, e ainda outros se enfeitavam com conchas, contas coloridas, espelhos, presas de animais e outros ornamentos. Aquele primeiro egum, depois de muito dançar no meio do salão, foi se sentar em uma cadeira e conversou com o grupo do qual já falei, e então se calou
para esperar a entrada dos outros eguns.
A Ayomide me disse para prestar atenção na voz dele e tentar dizer com o que se parecia, mas não fui capaz, por não conhecer. Era uma voz que até daria medo se fosse ouvida fora de um culto, muito aguda e estridente, como se fosse produzida por metais que ele tivesse na garganta. Ela me explicou que aquele som também tinha um nome, séegi ou apenas sé, e era muito parecido com o barulho emitido por um macaco chamado ijimerê. Só os egunguns e eguns falam, e os aparakás, como aquele que tínhamos visto do lado de fora, são mudos porque ainda estão evoluindo e têm poucos poderes.
O segundo egum ou egungum que entrou, depois de fazer e receber muita festa, começou a chamar os nomes de várias pessoas que estavam ali, e algumas eram convidadas a se aproximar. O encontro era de grande alegria, mas não foi de todo calmo, com o egum ficando bastante nervoso em algumas partes da conversa. Não dava para entender tudo o que ele falava, e muitas vezes precisou ser interpretado pelo atokun, que também teve que interferir quando ele quis avançar sobre algumas pessoas.