Um Defeito de Cor
Capítulo nove
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.
Quando havia número suficiente para o embarque, o capitão era avisado e já encontrava os escravos, prontos para embarcar nas pirogas que os levariam até o navio.
Antes, eram marcados a ferro esquentado em fogueira e
mergulhado em óleo de palma quente, para que o ferro não grudasse na pele e o machucado não desandasse muito. Assim, os comerciantes podiam controlar a quem pertenciam as peças mortas durante a viagem, prejuízo com o qual cada dono tinha que arcar separadamente.
Muitas vezes, as peças eram trocadas por mercadorias da Bahia, e o José Joaquim disse que dez pipas de cachaça valiam seis bons homens jovens, enquanto quatro mulheres poderiam ser trocadas por oito caixas de açúcar ou de melaço, que valiam menos. No comércio em sentido contrário, além do fumo, também tinham boa saída as armas e a pólvora, as espoletas de fuzil e a carne salgada, e algumas mercadorias mais finas, como veludos, damascos, lãs, sedas e vasilhames de cobre ou latão, que também podiam ser trocadas pelo óleo de palma, pela noz-de-cola, o sabão preto, as ervas e os temperos diversos, muito procurados pelos pretos do Brasil.
Era isso que me interessava, e quando perguntei se tinha que pedir permissão ao rei Guezo, o José Joaquim me instruiu a falar diretamente com o Chachá, porque o rei aceitava o que ele decidisse. Ele também me falou dos comerciantes mais influentes, com quem eu deveria ter boas relações, sendo que de alguns nomes eu já tinha ouvido falar. Aqueles nossos almoços se tornaram hábito mesmo depois da volta do John, que também gostava de uma boa conversa, e com o passar do tempo começaram a ser freqüentados também por muitos brasileiros e comerciantes de Uidá e da região.
O primeiro comerciante que procurei foi o Alfaiate, que na verdade se chamava José Francisco dos Santos, mas tinha incorporado o Alfaiate como apelido, que acabou passando para os filhos. Eu já sabia quase tudo sobre ele, contado pelo Ayodele e pelo José Joaquim, e foi fácil abordá-lo com boa educação para perguntar se ele sabia da próxima visita de um padre à capela do forte, para batizar os meus filhos.
Usei o melhor vestido, e isso também deve ter impressionado o homem, pois o José Joaquim tinha me contado que ele gostava das coisas boas, coisas finas, que constantemente encomendava do Brasil e da Europa, como caixas com pares de meias, cortes para roupas, charutos, chinelos, papéis, perfumes, caixas de música, bebidas, pacotes de chá e de café, espelhos, relógios e muitos outros produtos que não eram encontrados em África. Ou que até se encontrava, mas que não eram de boa qualidade. O Alfaiate era viúvo de uma das filhas preferidas do Chachá, com quem teve um filho, e o casamento deles tinha sido o primeiro celebrado na capela do Forte por um padre português, chamado especialmente para a cerimônia.
Depois, tendo negócios também em Aguê, o Alfaiate tinha se casado com uma brasileira de lá, com quem teve outro filho, que na época estava com oito anos. Em Uidá, ele se dedicava principalmente ao comércio de escravos, mas também tinha fazendas de palma e galpões onde era fabricado o óleo. Dei um jeito de entrar nesse assunto e ser convidada para conhecer um de seus galpões, dizendo que meu marido tinha bom relacionamento com ingleses interessados no produto.
Acho que ele nem se interessou por essa informação, pois em nenhum momento tirou proveito dela, visto que já tinha todos os contatos de que precisava. Deve ter me mostrado o galpão por orgulho mesmo, porque era um rico estabelecimento que vendia o óleo de palma a granel para quem fosse até lá comprar, ou em imensos barris que seguiam para o estrangeiro junto com as nozes-de-cola que ele também plantava.
O pátio do galpão estava sempre cheio de gente, compradores ou os próprios escravos do Alfaiate, que passavam o tempo todo contando os cauris que recebiam. Eu já tinha aprendido a fazer a conversão de shillings para réis e precisava aprender a de shillings
para cauris, que me pareceu muito mais complicada, pois eram muitos cauris para poucas libras (Na época, um shilling equivalia a aproximadamente 144 caurís.
Portanto, uma libra equivalia a 2.880 cauris). O Alfaiate era muito duro no trato com os negócios e com os escravos, mas uma pessoa muito cordial e gentil com os amigos. Ele ainda tinha mãe na Bahia, em São Salvador, de quem cuidava muito bem, enviando para ela os melhores escravos e não deixando que nada lhe faltasse.
Como soube que eu tinha vindo de lá, fez muitas perguntas, principalmente porque estava pensando em mandar um dos filhos para ser educado junto da avó.
Falei tudo o que sabia das escolas de São Salvador, lembrando do que tinham me contado o padre Heinz e o doutor Jorge, e a partir daquele dia, o Alfaiate sempre pedia a minha ajuda quando queria resolver alguma questão sobre os filhos ou sobre a vida da mãe em São Salvador.
Às vezes eu ficava um pouco constrangida por me relacionar com mercadores de escravos, mas logo esquecia, já que aquele não era problema meu. Eu não conseguiria resolvê-lo mesmo se quisesse, e também não poderia ficar com muitos escrúpulos depois de fornecer armas para o rei Guezo, sabendo que seriam usadas em guerras que fariam escravos, quase todos mandados para o Brasil. Muitas vezes vi passar os exércitos tribais ou os reais, indo para as guerras ou voltando delas.
Dava para saber se eram vencidos ou vencedores pelas caras, pela quantidade de sobreviventes e também pelo que carregavam. Em fuga, os perdedores pegavam apenas os bens mais valiosos e punham fogo no resto. Os vencedores se apossavam de tudo que podiam, o que restava nas casas, nos celeiros e nas lavouras, além das cabeças dos guerreiros mortos, que eram compradas pelo rei, assim como os capturados vivos, que seriam feitos escravos, obedecendo a uma interessante divisão.
Parte deles era doada para os chefes militares e
ministros, outra parte era reservada para o rei, para servi-lo ou para serem usadas em sacrifícios, e o restante era trocado por mercadorias ou vendido aos tumbeiros. Como bem dizia o Fatumbi, infelizmente a vida era assim mesmo e cada um que cuidasse de si, já que diretamente eu não estava fazendo mal a ninguém.
Se eu não vendesse as armas, outras pessoas venderiam e as guerras iam continuar existindo, como sempre tinham existido. Eu só não tinha coragem de comprar e vender gente, porque já tinha sentido na pele como era passar por tal situação, embora muitos retornados fizessem isso sem remorso algum. Mas o comércio com armas, que só era menos lucrativo que o de escravos, eu e o John fizemos por um bom tempo, enquanto buscávamos outros tipos de negócio. O bom era que tínhamos pagamento garantido, pois o rei não podia correr o risco de perder seus fornecedores. Duas ou três vezes por ano o John ia até Freetown, se abastecia com o que os ingleses tinham para vender e voltava, acompanhando o carregamento até Abomé. Ele não gastava mais que dois meses em cada viagem, e tínhamos um lucro maior que em um ano inteiro vendendo outras mercadorias.
Uma coisa que também me consolava ao vender armas era que havia muitos escravos aprisionados sem guerra nenhuma, vendidos ou doados pelas próprias famílias.
Alguns desses embarcavam felizes, como algumas vezes presenciei. Eles eram saudados e incentivados por aqueles que tinham retornado contra a vontade, os que tinham sido expulsos da Bahia depois das rebeliões.
Alguns retornados à força morriam de saudade e dariam a vida para voltar, e não eram poucos os que trocavam uma vida de liberdade em África por outra de escravidão no Brasil.
Quando eu estava de repouso, tanto na casa da Nourbesse como na minha, recebi visitas de brasileiros
que gostavam de contar suas histórias. Muitos dos que foram obrigados a retornar, principalmente os que já eram libertos no Brasil e viviam em boas condições, tinham raiva da África. Geralmente eram mais instruídos e não tinham se conformado com a condição de escravos, lutando até conseguirem sair dela, e se viam de volta a um lugar atrasado, ao qual não conseguiam mais se acostumar. Em muitos casos, antes de serem mandados para o Brasil, tinham pertencido a boas famílias africanas, pelas quais tinham sido traídos, e por isso não pensavam em procurá-las na volta. Ou até pensavam, para se vingar. Era muito comum serem embarcados filhos de reis ou de chefes tribais que poderiam ameaçar o trono de algum herdeiro menos conceituado e mais ambicioso. Para que não criassem problemas na sucessão, os meninos ou rapazes eram vendidos ou dados aos mercadores de escravos, que não faziam qualquer distinção entre nobres e súditos. Essa também era uma boa maneira de uma tribo se livrar dos maus elementos, os que tinham costume de roubar, matar, enganar, mentir, se deitar com mulher alheia ou não pagar dívidas.
Também eram doadas para seguirem como escravas as crianças de casais que tinham muitos filhos e nenhuma condição de alimentá-los, principalmente nas épocas de crises e de guerras, quando se produzia muito pouco.
Portanto, escravos não eram apenas os de guerra, não eram apenas os capturados quando se fazia uso das armas ou da munição que eu e o John vendíamos para o rei. Em muitas tribos do interior, os pais ficavam sabendo das boas condições de vida de muitos dos retornados e faziam muito gosto quando os tangomaus apareciam por lá, pois tinham oportunidade de fazer com que seus filhos também se tornassem brasileiros.
O José Joaquim me contou casos de pais que viajavam vários dias só para abandonarem os filhos na porta do forte, para que fossem capturados. Quando não havia
ninguém por perto, ele tentava convencê-los a não fazer aquilo, mas muitos não acreditavam na palavra dele e insistiam, dizendo que durante muito tempo tinham economizado dinheiro para fazer a viagem da aldeia onde moravam até Uidá, e queriam mandar os filhos para que eles retornassem cheios de riquezas e cuidassem deles na velhice.
Colônia
Foi também nas conversas com o José Joaquim que percebi que a presença de brasileiros em Uidá era muito maior do que eu imaginava. Apesar de ter nascido em África, eu também era considerada brasileira, assim como muitos outros que nem tinham vivido no Brasil.
Comerciantes portugueses, de escravos ou não, também eram considerados brasileiros, junto com suas mulheres africanas ou retornadas e seus filhos mulatos, legítimos ou não. Alguns capitães de navios de qualquer nacionalidade, desde que falassem português, também eram considerados brasileiros, assim como os escravos africanos que pertenciam a essas pessoas e aprendiam os hábitos dos brancos, todos eram considerados brasileiros.
Até os escravos retornados de Cuba eram incluídos entre os brasileiros, bastando que soubessem um pouquinho de português e que, como todos os outros brasileiros, falsos ou verdadeiros, se dissessem católicos. Era a religião que unia esse povo todo, mesmo que não houvesse igreja para freqüentar, mesmo que o forte passasse muito tempo sem a presença de um padre.
Quem mais reclamava da falta de padres eram os capitães de navios, que, se não tivessem sacerdotes na tripulação, tinham que partir sem a missa que abençoava a viagem. Os brasileiros de Uidá faziam questão de preservar as festas de santos do Brasil, mesmo não tendo participado delas quando estavam lá.
Os que tinham participado contavam como era, e assim
muitas coisas eram preservadas.
Eu já tinha recebido vários convites para participar dessas festas, sempre na casa de um ou de outro, mas ainda não tinha ido. Mas fazia questão de, aos domingos, dia de guarda no Brasil e entre os brasileiros de Uidá, ir para a praça do mercado vestindo as melhores roupas e levando a Maria Clara e o João. Aquela era uma boa maneira de conhecer os retornados e saber notícias recentes do Brasil, passadas de boca em boca depois de recebidas por carta, ouvidas de marinheiros ou lidas em jornais brasileiros, que muitos faziam questão de continuar recebendo. Os retornados mais antigos diziam que éramos o novo povo africano, que formaríamos um novo país dentro da África, porque éramos da África e do Brasil, uma imensa família que não tinha nem tribo nem rei.
Sob os olhares curiosos e mesmo irados dos africanos, os brasileiros se reuniam e liam juntos as cartas recebidas de amigos e parentes dando notícias dos conhecidos e dos acontecimentos, cantavam músicas brasileiras, principalmente modinhas e lundus, e arrumavam casamentos para os filhos. De vez em quando, alguns aceitavam a provocação de um grupo de africanos e logo se formava uma grande confusão, acabando com a festa. Mas desde que descobri aqueles encontros, procurei nunca mais faltar, também porque neles se faziam negócios e se recebiam convites para festas e jantares reservados, nas casas dos brasileiros mais importantes.
Mesmo as famílias dos comerciantes mais ricos saíam aos domingos, misturando-se às outras, o que era uma forma de demonstrar que formávamos um grupo unido, que tinha seus próprios interesses e seu modo de viver.
A Aina gostava de me acompanhar, mas só foi bem recebida quando se vestiu à brasileira, abandonando as roupas africanas. O John, quando estava em Uidá, não
tinha nenhum problema para ser aceito, mesmo não falando quase nada de português e apesar de as pessoas saberem que ele mantinha relações com os ingleses.
Entre os brasileiros, os ingleses não tinham presença muito forte e nem eram bem-vistos por causa do combate ao tráfico, a maior fonte de renda dos comerciantes.
Mas acho que a venda das armas para o rei Guezo provou que o John não era um inglês tradicional, tendo inclusive se estabelecido em Uidá, pois a maioria dos ingleses e dos escravos que tinham pertencido a eles morava em Badagris ou em Lagos, onde tinham melhor relação com o rei. Em Uidá, embora ainda não fossem muitos, havia mais franceses que ingleses, porque os franceses tinham melhor relação com o rei Guezo. Foi em um desses domingos que reencontrei a família do Juvenal, que já estava bem instalada, e o encontro se deu em boa hora, pois eu estava pensando em começar a construir a casa e ele dividia a morada com um brasileiro que tinha sido pedreiro em São Salvador.
O John se esforçava para aprender português e exigia que em casa eu só falasse português com a Maria Clara e o João. Até a Aina e os dois filhos dela estavam aprendendo algumas palavras, o que era bom para eles, porque nossa casa vivia cheia de brasileiros e portugueses, quase não convivíamos com os africanos, a não ser com a família. Sempre que estava em Uidá, o Ayodele fazia questão de nos visitar, já que as mulheres não gostavam de ir sozinhas.
Eu convidava, mas elas não queriam, acho que tinham vergonha. Naquela época, eu até me esqueci um pouco de você, perdoe a sinceridade, mas os ibêjis davam muito trabalho e não sei o que teria feito sem a ajuda da Aina. Mais que uma amiga ou uma empregada, ela era como uma segunda mãe para eles, sempre muito atenta e carinhosa. Isso fazia com que eu confiasse plenamente
nela quando precisava visitar alguém ou fazer compras.
Sempre que saía, aproveitava para ir até o cais ou o forte, pois estava ansiosa pela chegada da próxima carta da sinhazinha, com a morada dela em São Sebastião do Rio de Janeiro, o que só aconteceu em meados de outubro.
Ela se dizia maravilhada com a cidade, com os teatros, as lojas e os cafés, e inclusive tinha ido até a Rua do Ouvidor, onde viu muitas coisas das quais eu já tinha falado e conversou com pessoas que se lembravam de mim. Também perguntou se eu queria que ela fosse até a casa de cômodos da dona Balbiana e eu respondi que não, que o melhor era deixar todo aquele tempo onde ele já estava, no passado. Na carta em que mandei essa resposta, também pedi que conversasse com o doutor José Manoel sobre as buscas que eu tinha pedido que continuassem fazendo, tentando te encontrar. Escrevi também ao Tico, listando alguns produtos que eu gostaria de negociar, para que ele procurasse fornecedores e esperasse uma ordem minha, para então comprá-los e fazer o embarque para a África. Antes eu teria que cair nas graças do Chachá, e ainda não tinha conseguido falar com ele, embora soubesse que poderia ser por intermédio do Alfaiate.
Adaptações Foi também em meados de outubro que compramos um terreno para construir a casa. Era na praia, um pouco afastado do centro de Uidá, indo para Cotonu, mas eu me encantei com o lugar. Foi o José Joaquim quem avisou que estava à venda, pois pertencia a um português conhecido dele que tinha tentado se estabelecer em Uidá, mas sem sucesso. Ele também possuía uma casa na cidade, que já tinha sido vendida porque a mulher e os filhos não se adaptaram em Uidá e voltaram para Portugal.
Sozinho, o homem ficou mais alguns meses e depois foi embora, desfazendo-se de tudo que possuía, mas não daquele terreno. Ele tinha esperanças de voltar para morrer ali, mas depois de refazer a vida em Portugal, não quis mais saber da África. Era um lugar maravilhoso, muito parecido com um canto da Ilha dos Frades, na Bahia. Um terreno que saía da praia e continuava terra adentro, com coqueiros e muitas outras árvores de frutas. Achei que seria o lugar ideal para construir uma bela casa e criar os ibêjis, que estavam ficando cada dia mais espertos. Também imaginei que aquele era um lugar do qual você gostaria, caso um dia se juntasse a nós.
Mandamos uma proposta por intermédio do José Joaquim, e enquanto esperávamos a resposta, fomos até lá várias vezes, imaginando o local onde a casa seria construída, o tamanho dela, as horas alegres que passaríamos lá. Foi quando decidimos que o John continuaria com as viagens, pois do contrário não teríamos dinheiro suficiente. Era vender armas ou vender escravos, e a segunda hipótese nunca foi considerada.
Eu e o John éramos grandes amigos, acima de tudo.
Gostávamos da companhia um do outro, de conversar ou de apenas ficar lado a lado, em silêncio, pensando na vida. Éramos homem e mulher um para o outro apenas uma ou duas vezes por semana, mas isso não importava, pois não era o que nos unia, muito diferente do que tinha acontecido comigo e com o Francisco, ou com o Piripiri, por exemplo. Com o John eu sentia que estava segura, eu e os ibêjis, além de ele ser um homem que sabia conversar sobre diversos assuntos, que já tinha viajado para vários lugares do mundo, que gostava de ler e sabia conversar com todas as pessoas. Um tipo de homem que eu já tinha admirado no padre Heinz e no Fatumbi, e que naquele momento tinha para mim.
Ele era reservado, e quem não o conhecia tinha a imagem de um homem arrogante, como eu também tive na primeira vez que me dirigiu a palavra. Mas era bastante simples no trato e nos modos, e isso foi muito bom para que os brasileiros de Uidá o aceitassem, porque a situação dele não era das mais simples. Na verdade ele não era brasileiro, sendo que a única ligação dele com o Brasil era por meu intermédio. Também não era inglês, embora tivesse nascido em uma colônia inglesa, em Serra Leoa.
Nunca tinha sido escravo e não era um dos retornados, o que não fazia dele um saro (Sarô ou salô: corruptela de
"Serra Leoa", como eram chamados os africanos que tinham sido libertados pelos ingleses no tráfico clandestino para o Brasil ou para Cuba. Como libertos, eles viviam algum tempo em Serra Leoa. Sendo de maioria iorubá, normalmente voltavam depois para Lagos, mais perto das cidades do interior onde tinham sido capturados), embora soubesse falar aquela língua deles, misturada com o inglês, e também se dizia quase protestante. Isso da religião o John não contou para ninguém além de mim, e sempre frequentou comigo as festividades católicas. Era melhor para ele, que poderia ser chamado de espião caso não se mostrasse totalmente convertido, como na história que vou te contar depois.
A Aina começou a ficar preocupada quando, em uma visita, o Ayodele contou que tinha visto gente da tribo do marido dela rondando a fazenda onde ele trabalhava.
Tinha reconhecido por causa do tipo de enfeite que usavam, e fugiram quando se aproximou para falar com eles. Isso tinha acontecido mais de uma vez e o Ayodele não sabia do que se tratava, por isso precisávamos tomar cuidado. Tentei tranqüilizar a Aina, dizendo que não deixaria que nada de mau acontecesse a eles, que os selvagens não teriam coragem de ir a Uidá e levá-los à força. Mas ela disse que eu não sabia do que eles eram capazes, e que temia muito mais pelas filhas que tinham
ficado na tribo do que por ela e pelos meninos.
Eu entendia essa preocupação dela longe das filhas, pois tinha passado por tudo isso quando não sabia o seu paradeiro, só me acalmando um pouco, pelo menos, por saber que você não tinha sido maltratado, quando descobri onde e para quem tinha trabalhado, naquela pensão em São Paulo. Naquele momento eu só queria te encontrar, mas fiquei contente pela sua inteligência e por você ter fugido, sabendo-se liberto. Você ia se safar, disso eu não tinha dúvida, mas também achava que seria muito mais fácil estando perto de mim, com os recursos de que eu dispunha.
Você nunca precisaria trabalhar se não quisesse, e até poderia correr o mundo estudando, já que aquele moço, o da pensão, contou que gostava tanto de livros. Você merecia isso por tudo que passou, e se mais coisas me pedisse, mais ainda eu teria dado, na tentativa de diminuir um pouco a culpa que sentia, ou melhor, ainda sinto, por ter abandonado você aos cuidados do seu pai.
Em uma das cartas, comentei isso com a sinhazinha, e ela me respondeu que eu estava sendo muito severa comigo, que se o seu pai quisesse mesmo te vender, teria dado um jeito, eu estando por perto ou não. Na mesma carta, que chegou quase no fim do ano, uma notícia me causou muita pena, a de que os parentes do doutor José Manoel em Portugal ainda não tinham recebido aquela história do Padre Voador, enviada por navio pouco tempo depois que eu saí do Brasil, havia mais de um ano.
Já era tempo suficiente para darmos a correspondência por perdida. Ela pedia muitas desculpas por isso, e nem sei por que, como se tivesse alguma responsabilidade pelo navio. Mas confesso que fiquei triste, pois tinha empregado muito tempo e esforço para recordar e escrever toda a história, em cumprimento à promessa feita ao Kuanza. Pensei até em escrever de novo, mas depois desisti, achando que era aquilo mesmo que o destino queria. Se aquela história tivesse que ser contada novamente, algum dia um nkisi trataria de soprá-la no ouvido de alguém.
Novos amigos
No mês de novembro, recebi convite para participar de uma reunião que os brasileiros estavam organizando no forte para tratar de assuntos da comunidade. O próprio José Joaquim foi entregar o convite e disse que estavam sendo convocadas apenas as pessoas mais importantes, e que ele tinha dado um jeito de incluir o meu nome. Eu sabia que ainda não era importante; afinal, tinha chegado havia pouco e não estava muito integrada, até por causa do tempo que tinha que passar com os ibêjis.
Eu me lembrava da Esméria falando que crianças tinha que pegar no peito até por volta de três ou quatro anos para crescerem fortes, e não queria arrumar nenhuma ama-de-leite.
Os
brasileiros
eram
muito
mais
organizados do que eu imaginava e já tinham uma espécie de associação, na qual eram discutidos os assuntos de interesse comum, principalmente sobre como conservar os hábitos brasileiros, as pequenas e grandes festas que nos manteriam ligados ao Brasil.
Mais do que isso até, que nos manteriam afastados dos africanos, que não entendiam nosso modo de viver, ao mesmo tempo que nós não queríamos viver, ou voltar a viver, como eles.
Os brasileiros promoviam almoços em que eram servidos pratos do Brasil, como feijoada, doces de frutas em calda e cocada. Eles também organizavam uma festa para o Senhor do Bonfim, com Burrinha e tudo, para São Cosme e Damião e para alguns outros santos. Também faziam questão de batizar os filhos, como eu precisava fazer com os meus, e, acima de tudo, dar a eles um apelido, como faziam todos os brancos e brasileiros.
Na verdade, todos os brasileiros, mesmo que não o fossem, eram considerados brancos, porque aos olhos dos africanos, nós agíamos como brancos, morávamos em casas diferentes, tínhamos hábitos diferentes, como o de usar talheres e ter móveis como a mesa e a cama, que não eram usuais em África. Pelo menos não eram até os comerciantes brancos europeus se instalarem por lá, sendo que antes disso não eram nem conhecidas. Em iorubá, eve ou fon, por exemplo, não existiam palavras como garfo, faca, mesa, camisa e muitas outras, porque elas não tinham nada para significar.
Eu ainda não sabia que apelido dar aos meus filhos e tinha até pensado em dar o do sinhô José Carlos, que tinha sido usado para o seu irmão Banjokô, que a sinhá Ana Felipa chamou de José, e para você, registrado pelo seu pai-Mas aquele apelido não tinha dado sorte, talvez até tenha atraído desgraça, e decidi que seria melhor esquecê-lo. O apelido do John era Stuart, como tinha sido o do pai, herdado do dono dele, mas também não queríamos aquele, pois seria melhor um brasileiro.
Muitas pessoas em África inventavam apelidos, como tinha acontecido com o Alfaiate, e havia o caso bastante curioso do velho Justino Bandeira, que conheci em Aguê.
Eu e o Justino nos tornamos bons amigos e talvez até fôssemos parentes, pois ele também era maí de Savalu, de uma aldeia chamada Mokpa. Depois de uma briga qualquer na família, por causa de herança ou de poder, não sei, os parentes mais velhos do Justino o levaram até Aguê e o deram de presente aos comerciantes de escravos. Chegando no Brasil, o Justino foi escravo das forças armadas, e durante muitos anos trabalhou na frente de pelotão, carregando bandeira. Por causa disso era chamado de Justino Bandeira, e quando voltou para a África, deu o mesmo apelido aos filhos e formou uma grande família de brasileiros, todos Bandeira.
Outro caso interessante era o da família do senhor
Nicolas Oliveira, que ele mesmo me contou na confraternização que aconteceu depois da reunião no forte, aquela primeira em que fui. O senhor Nicolas já tinha certa idade e a família dele era uma das mais antigas famílias brancas de Uidá, quiçá da África. O avô dele tinha se instalado em Uidá ainda muito moço, por volta do ano de um mil seiscentos e vinte e quatro ou vinte e cinco, ele não sabia ao certo. Era um francês chamado François Nicolas Olivier de Montaguère, e ganhou muito dinheiro comprando e vendendo escravos, para depois se tornar também o comandante do forte francês, que ficava perto do forte português, junto do forte inglês.
O avô dele se casou com uma mulata e teve dois filhos, sendo que um desses, chamado Nicolas, era o pai desse Nicolas sobre quem estou contando. O senhor Nicolas, o meu amigo, tornou-se o representante da casa comercial francesa estabelecida em Uidá, por onde passavam todos os negócios feitos com os franceses. Para conseguir isso, a exclusividade, a casa comercial tinha escolhido muito bem o senhor Nicolas, porque ele era amigo do Francisco Félix de Souza antes que ele se tornasse o Chachá, e do rei Guezo, quando ele ainda era príncipe. Nesse meio tempo, como era interessante para ele se passar por um brasileiro em uma época em que apenas um apelido em português já servia para abrir muitas portas, o senhor Nicolas abandonou o Montaguère e trocou o Olivier por Oliveira. Deu tão certo que uma das filhas dele até se tornou uma das esposas do rei Guezo, e foi por causa dela que ele conversou comigo na confraternização.
Eles haviam pedido que as pessoas que tinham voltado da Bahia recentemente falassem das últimas festas de que tivessem participado, para se atualizarem. Mesmo não sendo tão recente, falei muitas coisas daquela festa do Senhor do Bonfim, que eu tinha freqüentado com o Fatumbi. Como já deu para perceber, gosto de contar
histórias, e o senhor Nicolas ficou muito impressionado com a minha narrativa, cheia de detalhes, e perguntou se eu não poderia conversar com a filha dele. Alguns anos antes, um capitão de tumbeiro tinha presenteado o rei Guezo com uma imagem do Senhor do Bonfim, uma cópia da que estava na Bahia, que, por sinal, tinha sido levada para lá por um português, cumprindo promessa por conta de uma viagem auspiciosa.
O rei Guezo não sabia o que fazer para honrar esse novo deus dos brancos, porque as mulheres dele só sabiam cultuar os voduns, e então pediu ao senhor Nicolas que lhe desse a filha em casamento, para que ela cuidasse do culto ao Bonfim no palácio de Abomé. No palácio, ela tinha reservado uma sala somente para o Senhor do Bonfim, com altar e tudo o mais, e o senhor Nicolas quis saber se eu não poderia ajudá-la a montar algumas celebrações. Aceitei sem ao menos pensar direito, pois seria uma oportunidade de conhecer o palácio e cair nas graças do rei, além de fazer um grande favor ao senhor Nicolas, que saiu da confraternização muito agradecido, dizendo que marcaria uma audiência minha com o Chachá.
O John se dizia admirado com a minha sorte e com a maneira como eu logo me tornava amiga das pessoas. Se fosse só por ele, nós provavelmente teríamos ficado no comércio de armas, ou teríamos nos mudado imediatamente para Lagos. O rei de lá, o rei Kosoko, era muito mais simpático aos ingleses que o rei de Uidá, mais inclinado aos franceses. Os brasileiros eram bem recebidos e bem tratados em qualquer lugar, e quanto a isso devíamos muito ao Chachá. Comentava-se em Uidá que logo a Inglaterra conseguiria tomar posse de Lagos e região, por meio de um acordo que estava sendo tratado com o rei Kosoko. A França, para não ficar atrás, investia muito na amizade com o rei Guezo, e até por isso o senhor Nicolas era muito importante, tanto para os franceses como para os africanos e os brasileiros.
Afinal, ele era um descendente de franceses, com apelido brasileiro e amigo do vice-rei e do rei africano.
Aos franceses interessava estabelecer boas relações com Uidá, já que o rei Kosoko, de Lagos, estava causando sérios problemas para eles, não pagando pelas mercadorias que recebia e coisas assim. Em contrapartida, para saldar as dívidas, os comerciantes franceses estavam tomando de assalto navios com mercadorias destinadas ao rei Kosoko e se refugiando em Uidá, onde elas eram compradas pelo rei Guezo.
Tanto a um rei quanto a outro interessava estar sob as graças da Inglaterra e da França, que podiam ajudar nas guerras entre os dois reinos e as tribos submetidas a eles. Entende agora a situação complicada do John em Uidá? Se ele não estivesse comigo, se não fosse aceito como um brasileiro, provavelmente seria expulso.
Quanto a fazer comércio, nem pensar, a não ser que continuasse mesmo com as armas, porque elas não tinham nacionalidade. As armas faziam os reis africanos vencerem as guerras, que resultavam em escravos, que eram vendidos para os comerciantes portugueses e brasileiros, que pagavam por eles o dinheiro ou a mercadoria que eram usados para comprar mais armas, e assim por diante, enriquecendo muita gente no meio do caminho. Mas sabe quem eu acho que mais ganhava com isso tudo? Os ingleses. Justo eles que diziam querer acabar com o comércio de escravos, eram os que mais se beneficiavam dele. Mas vou deixar para contar isso quando falar da minha mudança para Lagos, já sem o John, porque agora quero contar sobre o meu tão esperado encontro com o Chachá.
Chachá
O encontro não durou nem dois minutos, mas foi suficiente para que eu entendesse quem era aquele homem que tinha uma das histórias mais interessantes que já ouvi. Na minha frente estava o Chachá em pessoa, que me chamou pelo nome, perguntou pelo John e pelos ibêjis, depois falou duas ou três frases sobre a Bahia e disse que eu poderia comerciar o que quisesse, desde que pagasse uma pequena porcentagem, como acontecia com todo o comércio feito naquela região sobre a qual ele tinha controle.
Só isso, nada mais. E eu, que tinha pensado em tantas perguntas para fazer, em uma reunião com muitas pessoas sentadas em torno de uma mesa, deixei a suntuosa sala onde ele tinha me recebido, eu de pé e ele sentado em uma cadeira com jeito de trono. Parecia que ele era o verdadeiro rei do Daomé, e não estava longe disso, pois com certeza foi por causa dele e de outro comerciante brasileiro que tinha se estabelecido em Cotonu, de quem vou falar mais tarde e que se chamava Domingos José Martins, foi por causa dos dois que o rei Guezo permaneceu tanto tempo no trono. E não apenas permaneceu como também foi colocado, e para explicar isso eu vou te contar a história desde o começo.
O homem que conheci já tinha noventa e dois ou noventa e três anos, mas ainda era muito lúcido, além de sério e agradável. Usava calças largas e camisa de um tecido claro, próprio para o calor abafado que fazia naquele dia, e tinha uma das mãos, onde se destacava um vistoso anel, apoiada em uma bengala. Na cabeça, usava uma espécie de gorro bordado em ouro e com pedras coloridas. Estava descalço e tinha uma longa barba, como eram também longos os cabelos que às vezes cobriam os olhos minúsculos e vivos por entre as pálpebras enrugadas.
Olhos como se fossem cabeças de lagartos que se moviam de um lado para o outro, acompanhando tudo que acontecia à sua volta. Fora assim, com muita atenção, que ele tinha conseguido controlar durante anos e anos tudo o que acontecia em Uidá e região e se
tornado um dos homens mais importantes de todo o mundo, pois se dizia que as suas promissórias eram honradas até mesmo em Nova York, Baltimore e Marselha, sem que ele nunca tivesse estado nesses lugares.
Quem me contou a história dele foi o tenente do forte, o José Joaquim, que convidei para jantar assim que soube que o senhor Nicolas tinha marcado a minha audiência com o Chachá. Mandei comprar vinho e cerveja e ensinei a Aina a fazer alguns pães, receitas da Saudades de Lisboa. O homem comeu e bebeu à vontade, e não poupou palavras para me contar tudo o que sabia sobre o Chachá, que ouvira das mais diferentes pessoas que já tinham passado pelo forte.
O nome dele era Francisco Félix de Souza e tinha nascido na Bahia, filho de pai português e mãe indígena.
Era por isso que a pele dele não era tão escura, o que o salvou da morte imediata e deu tempo para que fizesse amizade com o príncipe Gakpé. Sim, o José Joaquim falou isso mesmo, príncipe Gakpé, e eu o fiz repetir várias vezes para ter certeza de que não era efeito da bebida. Mas não era, e se eu tivesse parado para pensar, já teria concluído que o rei Guezo era, na verdade, o filho da Agontimé. Eu já tinha ouvido falar do rei Adandozan e do rei Guezo, e de nenhum outro rei entre eles, e já deveria saber que, ao subir ao trono, os príncipes trocam de nome. Guardei a surpresa para comentar mais tarde com o John, e deixei que o José Joaquim continuasse a história.
O Francisco Félix de Souza tinha trabalhado como escrivão no Forte São João Batista da Ajuda muitos anos antes, quando o forte inglês e o francês também estavam ocupados, e o governo do Brasil, que na época era a sede do Império, achava importante manter muita gente lá, para não perder a concessão e a prioridade na compra de escravos. Quando as coisas começaram a
ficar mais difíceis, muitos comerciantes, principalmente baianos e portugueses, se mudaram para Uidá, de onde podiam cuidar melhor dos seus interesses. Dessa maneira, a manutenção do forte deixou de ser importante para o governo de Portugal, que se fazia representar e defender pelos próprios comerciantes, e não mais pelos funcionários do forte.
Bom funcionário, o Francisco Félix de Souza acabou ficando sozinho por lá, passando de escrivão a comandante não nomeado, mas de fato, e teve que arrumar um jeito de pagar as despesas, pois a coroa portuguesa tinha deixado de mandar provimentos. Vendo a quantidade de dinheiro que os comerciantes de escravos ganhavam, o Francisco começou a se dedicar a tal comércio, de início apenas para cobrir as despesas do forte, mas depois tomou gosto e mostrou tanto tino que muitos comerciantes o contrataram como representante.
Quando começou a ficar rico, o Francisco abandonou o trabalho no forte e se mudou para Anecho, onde se tornou um dos comerciantes mais prósperos da região.
Era ele quem também fornecia armas e cachaça para o rei Adandozan, que nem sempre pagava o que devia.
Como não concordava com essa atitude do rei, diante da qual os outros comerciantes se calavam por medo, o Francisco resolveu ir até a capital, Abomé, cobrar o devido e dizer que não forneceria mais nada se o rei não honrasse a dívida. Na verdade, eles faziam uma troca, armas e cachaça por escravos, e o rei sempre entregava bem menos escravos do que valia a mercadoria recebida.
O rei Adandozan achou que o Francisco Félix de Souza era muito impertinente por ter coragem de cobrar a dívida de um soberano e resolveu castigá-lo. Antes de matá-lo, o rei decidiu que ele tinha que ficar preto, porque acreditava que era por causa da cor que o Francisco teve a audácia de cobrar a dívida. Encheu
alguns tonéis com índigo e mandou os escravos mergulharem o Francisco lá dentro várias vezes ao dia durante vários dias, dando tempo para o príncipe Gakpé descobrir quem era o Francisco, o que estava acontecendo, e fazer um trato com ele, muito interessante para os dois.
Na verdade, o rei Adandozan estava ocupando o trono contra a vontade do pai, o antigo rei e marido da Agontimé, que tinha pedido a ele que apenas tomasse conta do trono até o irmão ter idade para governar.
Lembra-se disso? Pois isso não aconteceu, e o Adandozan disse que não cederia o trono, que já estava sendo muito generoso ao permitir que o Gakpé ficasse em África, pois poderia matá-lo ou vendê-lo como escravo. Mas o Gakpé descobriu que era o Francisco quem fornecia a maior parte das armas para o irmão e fez um pacto com ele. Um pacto de sangue, que, em África, vale muito mais que qualquer outra coisa, que qualquer contrato ou palavra, porque misturar o sangue de uma pessoa com o de outra é a mesma coisa que fazer com que essas pessoas nasçam novamente, como irmãs de sangue.
Então o Gakpé deu fuga ao Francisco, que, por sua vez, se comprometeu a fazer comércio somente com ele, abandonando qualquer negócio com o rei Adandozan.
Quando percebeu que o prisioneiro tinha fugido, o rei Adandozan mandou cercar todos os caminhos que saíam de Abomé. Para passar com o Francisco, os homens do príncipe Gakpé tiveram que enrolá-lo dentro de uma esteira de junco grande e grossa, que em África é usada como colchão e chamada de chachá. Daí o nome dele, ou melhor, o título que recebeu e que passou a valer como título de príncipe, ou de ministro, ou coisa assim.
Em importância valia muito mais, porque ele era o irmão do rei, o vice-rei do Daomé, chamado de Chachá apenas
porque, na fuga, quando os soldados do Adandozan pararam os homens do príncipe Gakpé e perguntaram o que estavam carregando, eles responderam que era um simples chachá. Acho que tal título também serviu para provocar o rei Adandozan depois que o plano deu certo.
Livre do Adandozan, protegido pelos homens do príncipe Gakpé e por seus próprios escravos bem armados, e eram muitos, o Chachá voltou para Anecho e tratou de cumprir sua parte no trato, fazendo, inclusive, muito mais que o prometido. Como tinha influência e dinheiro, e comerciava em quase todos os portos da região, o Chachá parou de fazer negócios com o rei Adandozan e conseguiu que os outros comerciantes fizessem o mesmo.
Raramente o rei Adandozan mandava seus próprios homens saírem na captura de escravos. Homens é modo de dizer, porque mais valentes do que eles era o exército de amazonas do rei do Daomé, temido e respeitado até muito longe do reino, formado por suas esposas, filhas, mães e qualquer mulher que tivesse algum tipo de ligação sentimental com o rei, para que assim lutassem bravamente para defendê-lo. Mas o que o rei fazia para capturar escravos era manter boas relações com todos os chefes das tribos que compunham o reino e armá-los para que lutassem entre si ou com as tribos vizinhas, de outros reinos.
Esses chefes tribais eram pessoas muito interesseiras, que se vendiam em troca de armas, cachaça, fumo, tecidos e outros produtos que conseguiam com o rei Adandozan. Não recebendo tais produtos por causa do Francisco Félix de Souza, o rei Adandozan não tinha mais como repassá-los aos chefes tribais, e eles começaram a ficar descontentes, já que também estavam sendo cobrados pelos súditos.
Muito inteligente, o Francisco viu aí uma grande oportunidade de ajudar o príncipe Gakpé, enviando para
ele todo o necessário para conquistar os chefes tribais.
O príncipe então começou a dar grandes festas, com fartura de comida, bebida e presentes, que também eram distribuídos para que os chefes levassem para suas tribos. Não demorou muito para que todos estivessem do lado dele e contra o rei Adandozan, que foi facilmente deposto, o que transformou o príncipe Gakpé no rei Guezo.
Como prêmio e agradecimento, e porque o Francisco tinha se tornado seu irmão de sangue, o rei deu a ele o título de Chachá I. Foi nessa época que o meu amigo Nicolas Oliveira, a pedido do rei Guezo, de quem já era amigo, foi até Anecho e convenceu o Chachá a voltar para Uidá, onde se tornou vice-rei e assumiu o controle de todo o grande comércio legal ou ilegal que passava por aquele porto. O Chachá também construiu uma ampla casa ao lado do forte, de onde controlava tudo que acontecia em Uidá, tornando-se cada vez mais rico, mais poderoso, quem de fato governava o reino, com amplos poderes sobre o que ou quem entrava e saía dele.
Como estive apenas no salão do Chachá, fiquei muito curiosa de conhecer toda a casa, mas o José Joaquim me disse para desistir da idéia, a menos que me tornasse uma das suas muitas esposas. Como todo grande chefe africano, o Chachá tinha muitas mulheres, não se sabia quantas ao certo, apenas que ele era muito inteligente para escolhê-las. Isto é, quando precisava escolher, porque ganhava algumas de presente. Em Necho, por exemplo, antes de se mudar para Uidá, ele se casou com duas princesas e teve muitos filhos com várias outras mulheres que fazia questão de reconhecer e registrar.
Isso criava laços entre ele e as várias tribos que compunham o Daomé, porque os chefes não queriam se desentender com o marido das filhas e pai dos netos.
Naquela época, falava-se em mais de cem filhos homens
vivos, espalhados por várias cidades, e não se sabia quantas filhas. Aliás, ele não dava muita importância às filhas, a não ser quando queria prestigiar algum chefe tribal, presenteando-o com uma delas, dada em casamento. Ele vivia cercado de mulheres e eram elas que controlavam a casa perto do forte, onde qualquer homem que não fosse da família estava proibido de entrar nas dependências particulares. Os homens que ele recebia na sala ficavam fascinados com a quantidade de mulheres bonitas que serviam ao Chachá, entre as quais seis eram encarregadas apenas de provar todas as refeições dele.
Ostentação
Na casa, ele recebia os capitães dos tumbeiros e os comerciantes do interior, oferecendo cama e mesa farta.
Para alguns jantares também eram convidados comerciantes de Uidá e às vezes os responsáveis pelo forte, e o José Joaquim já tinha participado de muitos deles. Mas quem me contou mais detalhes foi o John, que, logo em seguida àquela minha audiência, foi convidado para um jantar do qual participaram alguns ingleses de passagem por Uidá. O John disse que já tinha visto luxo e riqueza, principalmente na casa do Mister Macaulay, mas nunca como na casa do Chachá.
A imensa mesa de refeições tinha os pés trabalhados com entalhes tão delicados na madeira escura que mais pareciam renda salpicada com pedrarias. Alguém disse ao John que a madeira era do Brasil e os tapetes que cobriam toda a sala eram da índia ou da China, já não me lembro, talvez de Goa. Pendurados nas paredes e no teto, e também sobre a mesa, estavam espalhados candelabros de ouro e de pedrarias, iguais aos que Se usavam nas igrejas mais ricas. As toalhas eram de puro linho de seda e toda a louça, que o John disse nunca ter visto igual, era de ouro ou prata, entalhada com o monograma dele. Pratos, talheres, baixelas, jarras e
taças para vinho, tudo era de ouro ou prata. Menos os copos, de um cristal tão fino que podia ser confundido com papel transparente. E isso para setenta, oitenta pessoas, ou até mais. O José Joaquim contou que o Chachá encomendava a louça na Inglaterra, e não era por peças, mas por onças. Centenas de onças de ouro ou prata em baixelas, de uma única vez.
Quando o John chegou à casa, foi recebido por uma mulher vestida à moda dos brancos e levado para um salão onde já havia uns cinqüenta homens. Ali estavam misturados os capitães de tumbeiros, os comerciantes de Uidá e redondezas, e os ingleses, que, para espanto do John, eram da esquadra real, da frota de Sua Majestade, os mesmos que tinham por função combater o comércio de escravos. Mas ninguém se importava, e, animados pelos vinhos portugueses, o rum cubano, a cachaça brasileira, as cervejas inglesas, todos conversavam e se divertiam jogando nas muitas mesas de bilhar e nos tabuleiros de jogos de damas e xadrez espalhados pelo ambiente.
Quando foram levados para o salão onde o jantar foi servido, a mesa já estava pronta, com fartura de tudo o que se podia imaginar, os vinhos mais caros, como o Château Margaux, as mais finas iguarias, e o Chachá majestosamente sentado à cabeceira. Um a um, os homens foram passando por ele, cumprimentando-o respeitosamente e se sentando nos lugares indicados pelas mulheres que iriam servi-los, uma mulher para cada dois convidados. Elas não deixavam os pratos ou copos vazios, e, animados pelo que já tinham bebido antes, os homens faziam imensa algazarra. O Chachá quase não conversava, e todos já deviam saber disso, porque ninguém lhe dirigia a palavra.
Ele permaneceu sério e sóbrio em seu lugar durante o tempo necessário para comer, e depois se retirou fazendo uma saudação geral. As mulheres continuaram a
servir, e quando todos estavam satisfeitos, foram convidados a voltar ao salão de jogos, onde havia diversas mesinhas arrumadas com café, chás, licores e diversos charutos de Havana e da Bahia. Antes que eu me esquecesse de tudo isso, no dia seguinte escrevi contando à sinhazinha, e também falei das festas que o Comitê Brasileiro estava organizando. Escrevi ao Tico dizendo que já tinha conseguido a permissão para comerciar
e
perguntando
se
ele
conseguiria
compradores para o óleo de palma que eu poderia comprar facilmente do senhor Nicolas. Ele só comerciava com a Inglaterra e com a França e gostou muito da idéia de vender para o Brasil. Eu disse também que estava pensando em construir em Uidá e que talvez precisasse que alguns materiais fossem enviados do Brasil, como portas, janelas, maçanetas e coisas assim.
Luísa Andrade da Silva
Quase todos os comerciantes estabelecidos em Uidá tinham navios próprios e davam prioridade ao comércio de escravos, que rendia mais, e este era um dos nossos problemas. Mas naquele jantar do Chachá, os oficiais ingleses sugeriram que o John contratasse navios em Freetown, de propriedade dos muitos africanos que estavam enriquecendo por lá. Por sorte, ao deixar Uidá eles estavam indo para Serra Leoa, e ficou combinado que o John iria com eles para se informar melhor.
No dia da partida do John, o José Joaquim foi até a nossa casa e disse que tinha recebido uma resposta positiva quanto à compra do terreno, e percebi que teria muito com que me ocupar enquanto estivesse sozinha, pois queria começar a construir o mais depressa possível. Ou seja, tudo estava indo bem, menos para a Aina, já que o Ayodele foi nos procurar e disse que os homens continuavam rondando a fazenda, e inclusive achava que fora seguido até Uidá, não tinha certeza.
Naquele fim de ano as festas não foram muito boas, pois o Comitê ainda estava se organizando. Tivemos apenas uma ceia de Natal na casa do senhor Nicolas, com pratos típicos da Bahia, e uma missa quatro dias depois, porque o padre mandado vir de Portugal se atrasou para as festividades. Os representantes do Comitê logo disseram que fariam de tudo para que ele não fosse mais embora, e o José Joaquim era dos mais entusiasmados, pois teria companhia naquela imensa ruína em que o forte estava se transformando. Não pude ir à missa porque a Maria Clara amanheceu com febre, chorando muito, e no fim da tarde o João já estava do mesmo jeito.