Um Defeito de Cor

Ana Maria Gonçalves · Capítulo 11 de 12 · parte 4/8

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Um Defeito de Cor

Capítulo nove

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.

Era sempre assim, e o mesmo acontecia comigo e a Taiwo, nós duas adoecíamos juntas. Pedi que o Aderonke saísse à procura da Iyã Kumani, mas ela estava viajando, e então me lembrei de um bokonon (Bokonon: sacerdote de culto aos voduns), sobre quem o José Joaquim tinha me falado, bastante respeitado por atender o próprio Chachá. Ele morava em uma casa construída ao lado da propriedade do Chachá e atendeu prontamente ao meu chamado, principalmente porque já tinha ouvido falar de mim e da minha estada na Bahia. Ele tinha estado lá com o Chachá e gostou muito, e inclusive foi batizado com o nome de Prudêncio. Olhou os ibêjis, que chamava de hoho, como os daomeanos, e disse que eles não tinham nada grave, apenas coisa de crianças. Mas tivemos uma conversa longa e agradável, quando contei que a minha avó tinha sido uma das vodúnsis do Daomé e que eu mesma tinha começado a me preparar para seguir a tradição. Quase falei sobre meus encontros com a Agontimé, que ele com certeza conhecia pelo menos de nome, pois tinha vivido com o rei Guezo em Abomé, antes de ser dado ao Chachá e de ter se casado com uma das filhas dele, para poder honrar melhor os voduns da família De Souza.

Achei isso estranho, porque o Chachá era brasileiro, católico e, portanto, não tinha como ter voduns no

Daomé. O Prudêncio disse que era uma longa história, muito bonita, por sinal, e que me contaria em outra oportunidade, quando eu fosse visitá-lo.

Ele deixou a nossa casa dizendo que eu deveria fazer um altar para os voduns da minha avó e para o meu, se já o conhecesse, e saiu batendo a bengala três vezes na porta da frente e três vezes na porta dos fundos, para nos proteger. Era uma bengala bonita, de madeira esculpida, com um desenho de um homem que dava comida a um caimao. Ele percebeu que fiquei olhando e disse que aquele era o Adjakpa, que representava o próprio vodum do Chachá. Depois daquela visita do Prudêncio, resolvi acrescentar mais um cômodo à nossa casa, para os cultos.

Todo o negócio da venda do terreno foi feito rapidamente por intermédio do José Joaquim, e dois dias depois já estava tudo em meu nome. O John achou melhor assim, para evitarmos problemas caso o reino do Daomé se tornasse inimigo da Inglaterra, o que era bem improvável em relação ao Brasil. Foi naquela ocasião que mudei meu nome, não sem antes perguntar ao Prudêncio se isso me traria algum problema.

Ele respondeu que não, que eu podia ter um nome brasileiro e outro africano, que um não atrapalhava o outro, e até o próprio Chachá tinha um nome africano secreto, que não revelava a ninguém. Mantive o Luísa, com o qual já estava acostumada, e acrescentei dois apelidos: Andrade, que a sinhazinha tinha herdado da mãe dela, e Silva, muito usado no Brasil.

Então fiquei sendo Luísa Andrade da Silva, a dona Luísa, como todos passaram a me chamar em África, os que já me conheciam e não estranharam a mudança, e os que me conheceram a partir daquele momento. Alguns também me chamavam de sinhá Luísa, a maioria dos retornados,

e

eu

achava

muita

graça

nisso,

principalmente quando, ao tomar conhecimento, a sinhazinha passou a me chamar assim nas cartas, de brincadeira. Ela era a sinhazinha e eu era a sinhá, e acredito que nós duas pensamos em uma coisa que nem precisou ser dita, pois não era de bom tom, mas eu, a sinhá, tinha sido mãe de um filho do pai dela, o próprio sinhô.

Preparando o terreno

Quando o John voltou de Freetown, no fim de fevereiro, eu tinha a casa toda planejada, e o grande problema era a falta de gente para construí-la. Eu já tinha falado com o Juvenal e o amigo dele, e os dois concordaram em trabalhar para mim, e também contratei dois conhecidos da Conceição que sabiam um pouco do ofício. Mas era pouca gente e não havia mais homens que soubessem fazer uma casa igual às de São Salvador, como eu queria, muito parecida com o solar da sinhá.

O John sugeriu procurarmos entre os sarôs, mas eu sabia que não era a mesma coisa, e nessa época recebi carta do Brasil. Nela, o Tico disse que o Felipe e o Rafiki continuaram a visitá-lo depois da morte do Sebastião e, ao ficarem sabendo que eu estava em África e pensando em construir uma casa, mandaram perguntar se eu não queria pagar a passagem deles, pois na Bahia se falava muito da boa vida dos libertos que retornavam. Nem me dei ao trabalho de dizer que não era bem assim, que a grande maioria não se dava bem, pois queria que eles embarcassem. Terminado o trabalho, se quisessem eu pagaria as passagens de volta, ou poderia ajudá-los a se estabelecerem, caso preferissem ficar. Na mesma hora escrevi de volta, dizendo que se houvesse algum marceneiro que também quisesse viajar, eu poderia empregá-lo, e mandei dinheiro suficiente para quatro passagens. Depois de fazer algumas contas, o John achou que deveria voltar a Freetown, pois precisaríamos de muito dinheiro.

A viagem anterior tinha dado bons resultados, inesperados, mas muito melhores do que tínhamos imaginado. Chegando em Freetown, logo encontrou três conhecidos, três recaptives, que eram os emancipados do tráfico pela esquadra inglesa, e eles tinham acabado de comprar um navio leiloado e queriam trabalhar em sistema de aluguel. Já tinham uma viagem contratada por um inglês, de Freetown a Lagos, e depois passariam em Uidá para falar conosco. Conversei com o senhor Nicolas e ele separou uma boa quantidade de óleo de palma para nós, que o Tico disse que venderia facilmente no Recôncavo.

Eu também mandaria obis e orobôs, comprados de fazendeiros que forneciam para a Nourbesse vender no mercado, assim como outros produtos usados nos cultos de orixás, que o Tico ia oferecer aos conhecidos da Claudina com os quais ainda mantinha contato. Ou seja, o negócio era um pouco arriscado, pois teríamos que bancar o custo dos produtos, pagos à vista em Uidá porque ainda não tínhamos crédito, e com o frete do navio que, se não enchesse, eu pretendia ceder espaço para outros comerciantes. Mas resolvemos seguir em frente, porque, se tudo desse certo, ganharíamos muito dinheiro, e eu tinha certeza de que daria, principalmente depois de ler que o Tico estava muito animado por voltar a trabalhar, pois tinha sido afastado de vez dos negócios com o Hilário.

Ele ainda recebia uma pequena porcentagem por causa de clientes antigos, mas não participava de nenhuma decisão. Para a volta da Bahia, o Tico ia comprar fumo e cachaça no Recôncavo, e ainda veria se dava tempo de encomendar carne salgada no sul do país. O John queria estabelecer alguém de confiança em Freetown, talvez a pessoa que tinha ficado trabalhando para o Mister Macaulay no lugar dele, e continuar arrematando os produtos dos leilões. Desse modo, ao sair de Uidá para o Brasil, o navio passaria em Freetown e completaria a

carga com as mercadorias apreendidas e leiloadas, que poderiam ser revendidas para os próprios comerciantes da Bahia de quem tinham sido tomadas.

Como o John daria um jeito de comprá-las muito barato, poderíamos vendê-las abaixo do custo de mercado. Na volta da Bahia para Uidá, além dos produtos que o Tico embarcasse, o navio novamente passaria por Freetown, onde compraria armas e pólvora dos ingleses. Ou seja, com um desvio de caminho que nem era tão significativo, dobraríamos a possibilidade de lucro.

Antes de o John partir para Freetown, sem data para voltar, resolvemos aproveitar a presença do padre no forte e batizar as crianças. No dia em que fui conversar com ele, um velho português chamado padre José Maria, levei minha Bíblia para benzer. Achei que assim seria mais bem recebida, e de fato fui, pois ele se surpreendeu por haver alguém ali que conhecia um pouco melhor a Igreja Católica. Falei da minha amizade com o padre Heinz e ele quis saber como era a vida dos pretos católicos no Brasil.

Conversamos bastante e ele estava disposto a ficar, embora achasse que não teria muita serventia. Mostrou o estado em que se encontrava a capela, abandonada havia muito tempo, e eu disse que levaria o problema para a próxima reunião do Comitê, deixando-o entusiasmado diante da possibilidade da reforma, ainda mais quando falei que tinha contatos no Brasil que poderiam mandar algumas peças de lá, iguais aos ricos ornamentos que enfeitavam as igrejas da Bahia.

Marcamos os batizados para o domingo seguinte, mas na sexta-feira tive que procurá-lo novamente e pedir que fossem adiantados, pois o John partiria no sábado à tarde, de boleia em uma fragata da marinha inglesa.

Foi tudo feito às pressas, porque eu pensava ter o sábado para organizar um almoço para os padrinhos e

alguns convidados, e tive que servir apenas bolo com vinho e refrescos na própria capela, onde estávamos eu, o John, a Nourbesse, a Hanna, a Aina e os meninos dela, o José Joaquim e os padrinhos. Para a Maria Clara convidei o senhor Nicolas e a Conceição, e para o João, uma das filhas do senhor Nicolas e o Alfaiate. Só para ser simpática, convidei também o Chachá, embora soubesse que ele não iria, pois estava bem doente e quase não saía mais de casa. Eu não esperava nenhuma retribuição ao convite, mas no domingo à tarde ele mandou à nossa casa um prato e uma colher de ouro para cada um dos ibêjis, gravados com os nomes deles.

Os recaptives

O John partiu para Freetown e fiquei encarregada de receber os donos do navio que ele tinha fretado, que viriam de Lagos, e cuidar para que nossas mercadorias fossem embarcadas. Se eu tivesse pensado antes, teria escrito para o Rafiki e o Felipe esperarem, mas depois até fiquei feliz por não tê-lo feito, porque a ansiedade era grande, queria que os dois chegassem logo e começassem a trabalhar. O John ia demorar, pois o navio dos recaptives iria até a Bahia e voltaria por Freetown, para pegá-lo junto com um carregamento de pólvora, armas e o que mais valesse a pena.

Enquanto esperava, não havia muito o que fazer, e nos dias em que a temperatura não estava tão quente, pegava os ibêjis, a Aina, os meninos dela, e de vez em quando a Nourbesse e a Hanna, e passávamos o dia no terreno da casa. Era um lugar agradável, com muitas árvores, sob as quais ficávamos conversando e comendo, enquanto eu pensava em como queria usar o terreno, que tipo de construção ocuparia cada pedaço dele. Na frente, separando a terra da areia, eu queria manter a cerca de coqueiros, porque me lembrava a Bahia. Aliás, com tantos contatos feitos com a Bahia, era enorme a saudade que eu começava a sentir de lá.

A vida não era tão ruim em Uidá, havia a construção da casa, que me animava, havia alguns amigos e muitos brasileiros, mas não parecia o suficiente. Se continuássemos com o aluguel do navio, »eu pensava em aproveitar uma das viagens, quando os ibêjis estivessem mais crescidos, para matar a saudade. Durante a ausência do John, levei os ibêjis até a casa da lyá Kumani, que fez uma cerimônia do nome para eles, como eu tinha feito para você e para o Banjokô. Encomendei também o sacrifício de dois carneiros para Xangô, um para cada, e mandei fazer um ebó para Nana, a mãe de todos, agradecendo por ter corrido tudo bem no período em que eles estiveram dentro da minha barriga e no nascimento, e pedi que continuasse olhando por eles.

Quando chegou o navio alugado pelo John, os sarôs foram até a nossa casa, e eram três simpáticos iorubás de Abeokutá, chamados Sebastian, George e Sam. Anos depois, quando paramos de fazer comércio com eles, soube que tinham me enganado, que não eram pessoas tão corretas quanto eu imaginava. Coisa pequena, mas com a qual eu não teria concordado. Soube que, além das mercadorias legais, eles também faziam um pequeno tráfico de escravos, encomendas especiais para pessoas que ficaram conhecendo na Bahia e que queriam escravos que já soubessem um determinado ofício, como ourives que soubessem trabalhar jóias à africana, carpinteiros e artesãos que soubessem talhar desenhos em madeira, ou quituteiras especialistas em acarás e outras

comidas

africanas.

Aceitavam

também

encomendas de libertos que queriam escravos que soubessem falar as suas línguas, como ijebus que queriam escravos ijebus, hauçás que queriam hauçás, e assim por diante.

E mesmo de brasileiros que queriam escravos ladinos, ou seja, que já soubessem falar português, como era o caso dos retornados que tinham sido feitos escravos novamente ou dos escravos dos retornados, que

aprendiam a língua dos seus donos. Naquele nosso primeiro encontro, pedi que entrassem e comessem alguma coisa enquanto conversávamos sobre o embarque das mercadorias e sobre Freetown.

Tínhamos quartos sobrando e eu disse que podiam dormir por lá, mas eles não aceitaram e disseram que preferiam dormir no navio, que estavam acostumados, provavelmente porque tinham percebido que não havia homens na casa, apenas o João e os moleques da Aina, que não contavam. Achei bom assim, porque realmente tiraria a nossa liberdade, mas antes tivessem ficado, porque foi naquela noite que os selvagens apareceram.

Talvez até ficássemos acordados boa parte da noite, porque eu estava adorando conversar com eles e saber que, também em Freetown, os comerciantes mais prósperos eram os africanos, principalmente os da região de Aku.

Eles contaram que os colonos ingleses e outros brancos estabelecidos em Freetown eram muito preguiçosos para o comércio, e passavam os dias dentro de suas lojas esperando que as pessoas fossem até lá procurá-los.

Enquanto isso, os africanos compravam as mercadorias e partiam para o interior da ilha e regiões vizinhas, vendendo tudo o que podiam carregar e por preços bem mais baixos do que os cobrados pelos comerciantes estabelecidos.

Os

produtos

dos

comerciantes

estabelecidos eram caros porque eles tinham que comprar direto da Inglaterra, por causa de algum tipo de acordo, e o valor que pagavam, ainda sem contar o lucro e os gastos com a viagem e a alfândega, já era maior que o valor pelo qual os africanos vendiam para seus clientes. Isso fazia com que os comerciantes oficiais ficassem muito endividados com seus parceiros da Inglaterra, pois não conseguiam vender para pagar as remessas e ficavam obrigados a comprar somente deles, fazendo milagres para pagar as dívidas antigas aos

poucos, enquanto faziam dívidas novas.

Com os africanos não era assim, eles não tinham compromissos com comerciantes ingleses e compravam as mercadorias em Freetown mesmo, nos leilões ou de quem participava deles, e vendiam pelo preço que quisessem. Alguns já tinham verdadeiras fortunas, de milhares e milhares de libras em ouro, dinheiro, mercadorias e até frotas de navios. Este ainda não era o caso dos três, mas eu achava que enriqueceriam logo, pois arriscaram todas as economias na compra daquele navio, que estava relativamente novo, e gostavam de trabalhar. Tinham feito algumas dívidas, mas dava para pagar com o que receberiam pelo aluguel, e tinham planos de continuar adquirindo mais navios, que funcionariam do mesmo jeito. Estavam com pressa de partir, para poderem fazer mais viagens, e me pediram para apressar o embarque. O sonho deles era adquirir um vapor, que viajava mais rápido e levava mais carga, além de não depender da vontade dos ventos.

Invasores

Eu e a sinhazinha trocávamos pelo menos uma carta por semana, pois não agüentávamos esperar mais de dois meses entre o envio e o recebimento da resposta. Então, escrevíamos toda semana, e quase toda semana tínhamos carta nova para ler, mesmo que as notícias fossem velhas. Eu estava escrevendo para ela naquela noite, depois que os sarôs foram embora, quando ouvi os gritos da Aina. Corri para ver o que estava acontecendo e a encontrei na sala, tentando impedir que quatro homens levassem o Aderònke e o Adedayo. Eram dois deles para cada menino, um segurando pelos pés e outro pelo tronco, para que eles não se debatessem. Mas nem precisava, pois eles pareciam desmaiados e não moviam um só músculo, enquanto a mãe, deitada no chão, levava muitos chutes ao tentar segurar os homens pelas pernas.

Fiquei parada, sem saber o que fazer, e minha primeira

reação foi correr até o quarto dos ibêjis e ver se estavam lá.

Não precisei chegar à porta do quarto para ouvir o choro de um e depois do outro, mas, mesmo assim, resolvi dar uma olhada e confirmar que estavam sozinhos e bem. Quando voltei para a sala, os homens já tinham ido embora e a Aina estava deitada no chão, chorando e sangrando muito, por conta de um corte logo acima de um dos olhos e outro na boca. Ela não conseguia me contar o que tinha acontecido, e logo imaginei que eram os homens da tribo do ex-marido dela, sobre os quais o Ayodele já nos tinha alertado.

Mas nunca pensei que pudessem entrar na minha casa sem fazer barulho e levar os meninos daquele jeito.

Depois a Aina contou que era feitiçaria, que eles sabiam rezas que faziam as pessoas não acordarem por nada.

Mas a Aina também sabia rezas que anulavam isso, e tinha acordado sentindo a presença deles no quarto ao lado, o quarto dos meninos, pois ela dormia com os ibêjis.

A Aina tentava se levantar e caía, e eu já estava ficando atordoada com o choro dos seus irmãos, não sabendo a quem socorrer. Por sorte, os vizinhos começaram a chegar, atraídos pelo barulho, e a Aina pediu que fossem atrás dos raptores, mesmo sabendo que já deviam estar longe. Ela também queria ir, mas era só se mexer um pouco para gritar de dor, colocando as mãos de um lado do tronco, logo abaixo do peito.

Deixei que ela ficasse na companhia das mulheres, pedindo que tentassem acalmá-la, e fui tentar fazer os ibêjis pararem de chorar. Com todo aquele barulho eu não conseguia pensar direito, além de estar apavorada por saber que aqueles homens tinham entrado na minha casa e que, no lugar dos filhos da Aina, poderiam ter levado os meus.

Quando voltei para a sala, a Aina já estava mais tranqüila e confirmou que aqueles eram os filhos de um irmão do ex-marido dela, e tinha medo do que fariam com os meninos. Na hora pensei que iriam vendê-los ou dá-los para os comerciantes de escravos, mas não falei nada, e mandei um dos vizinhos ir até o forte para pedir que o José Joaquim vigiasse todos os embarques dos próximos dias e que, se fosse possível, desse uma olhada no barracão do Chachá, o mesmo onde eu tinha ficado e onde ainda ficavam quase todos os escravos embarcados em Uidá.

A notícia do rapto correu a vizinhança e logo chegou a Conceição com um dos filhos, que foi chamar a lyá Kumani. Assim que chegou, ela deu uma olhada na Aina, falou sobre ossos quebrados e foi buscar umas ervas para tirar a dor. Antes, disse para a Aina se mexer o mínimo possível, para que os ossos não furassem nada por dentro do corpo, e me pediu que amarrasse um pano em volta do tronco dela. Eu ficava correndo de um cômodo ao outro, providenciando o que me pediam e vigiando os ibêjis, pensando que o dia seguinte não ia ser nada fácil, sem dormir e com muitas providências a tomar para a viagem dos sarôs.

Acidente

No dia seguinte, deu quase tudo certo. A notícia correu a cidade e logo cedo apareceram a Nourbesse e a Hanna, que ficaram com a Aina e os ibêjis enquanto fui tratar do embarque das mercadorias. Falei com o senhor Nicolas e ele mesmo acompanharia o embarque dos tonéis de óleo de palma e das mercadorias dos fornecedores da Nourbesse, que também estavam guardadas em seu galpão havia três dias. Fui até o forte e conversei com o José Joaquim, que tinha dado busca no barracão do Chachá, sem encontrar os moleques. Ele disse que vigiaria cada embarque e mandaria me chamar se tivesse qualquer suspeita.

De lá fui até o lugar marcado para encontrar os sarôs, e os levei para serem apresentados ao senhor Nicolas.

Voltei para casa, dei o peito aos ibêjis e fui atrás da Jacinta para ver se ela podia passar alguns dias na nossa casa, para me ajudar a cuidar da casa, dos ibêjis e da Aina, que, com certeza, ficaria um bom tempo de cama.

A Jacinta podia, mas teve que levar com ela a Geninha, a filha mais nova, por não ter com quem deixá-la. Os outros dois filhos, a Rosinha e o Tomé, já estavam maiores e quase se cuidavam sozinhos, com a ajuda do Juvenal e das pessoas que dividiam a casa com eles.

A Jacinta era despachada, chegou e tomou logo conta da casa, deu banho nos ibêjis e os colocou para dormir junto com a Geninha, fez café e serviu para as pessoas que estavam visitando a Aina, e me senti um pouco mais tranqüila para sair novamente, sabendo que todos ficariam bem cuidados. Fui falar com os sarôs e fiquei sabendo que o navio estava sendo carregado e ficaria pronto para partir naquela mesma noite, como eles queriam. Quando me lembrei de que tinha deixado em casa coisas que queria mandar para o Tico, principalmente algumas instruções por escrito, voltei para pegar.

Fiquei espantada quando dobrei a rua e vi que havia um ajuntamento em frente à casa, e quanto mais eu me aproximava, mais tinha a certeza de que era algo muito grave. Algumas selvagens estavam sentadas ou rolando no chão, chorando, e as crianças delas foram correndo ao meu encontro, gritando que a menina ia morrer. A primeira menina de quem me lembrei foi a Maria Clara, e então comecei a correr, só parando, com muito alívio, quando a vi no colo da Nourbesse. Ouvi um choro forte vindo do quintal e fui até lá, para encontrar a Jacinta sentada no chão com a Geninha no colo.

A menina estava desfalecida e tinha um pano ensangüentado enrolado em uma das mãos, que estava

apoiada com todo o cuidado sobre a mão da mãe. Em volta das duas, algumas mulheres rezavam e outras choravam, e quase fui derrubada por outra que saiu da cozinha carregando uma pá cheia de cinzas.

Fiquei ainda mais atordoada quando a mulher desenrolou o pano e vi que faltavam quatro dedinhos, que a mão da Geninha tinha sido decepada bem na metade da palma. A mulher pegou o que tinha restado da mão da menina e colocou dentro da pá, onde ainda havia brasa misturada às cinzas. Por uns instantes ela ameaçou chorar, mas logo em seguida desfaleceu novamente. As mulheres em volta tinham feito silêncio e pude ouvir claramente o chiado da carne em contato com a brasa, e depois senti o cheiro de queimado.

Na hora veio a vertigem, ao lembrar o que o sinhô José Carlos tinha mandado fazer com o Lourenço, e me encostei à parede, para vomitar quase em cima de uma mulher que estava sentada ali perto. Depois, escureceu tudo e só me lembro de acordar na sala, com a cabeça no colo da Hanna. Eu não tinha ficado desmaiada por muito tempo, pois ainda ouvi o choro no quintal, e perguntei à Hanna o que tinha acontecido.

Ela respondeu que a Jacinta estava na cozinha, esquentando água, quando ouviu o grito da menina atrás dela e se virou só a tempo de ver a faca caindo no chão, seguida pelos dedinhos. Tinham mandado chamar a lyá Kumani, mas ela não estava em casa. Ninguém soube dizer se havia outro curandeiro nas redondezas e então pedi que mandassem alguém até a casa do bokonon Prudêncio, dizendo que era para mim e perguntando se ele poderia fazer o favor de atender a menina. Eu me sentia responsável por aquela tragédia, pois tinha ido atrás da Jacinta, sem o que nada daquilo teria acontecido. Portanto, estava disposta a fazer qualquer coisa para salvar a Geninha. Já tinha feito isso uma vez, no Sunset, quando pedi remédio ao capitão, e senti que

a vida dela estava novamente em minhas mãos, e seria capaz de levá-la a qualquer lugar onde houvesse alguém que não a deixasse morrer. Então me lembrei do doutor Jorge, da Bahia, e de que precisava mandar as coisas do Tico, que entreguei a alguns dos moleques que estavam por ali, prometendo dar dinheiro se eles fossem e voltassem sem mexer em nada e o mais depressa possível.

O bokonon chegou carregando uma caixa e me pediu que o levasse até um quarto vazio onde pudesse ficar a sós com a menina, sem ser incomodado por ninguém, em hipótese alguma. Desocupamos o quarto dos meninos da Aina, onde já não tinha muita coisa mesmo, e pedi que a Nourbesse mandasse as pessoas embora, pois elas não tinham mais nada para fazer ali. Mas ninguém queria sair, principalmente porque tinham visto que lá dentro estava o bokonon do próprio Chachá, que não atendia ninguém que não fosse da família ou por uma solicitação dele.

A Nourbesse e a Hanna puderam ficar, pois eram da família da Aina, do Aderonke e do Adedayo, e precisavam decidir o que fazer, já que o Ayodele não estava em casa naqueles dias. A Aina ficou desesperada quando as duas decidiram que iam esperar pela volta dele, e só se acalmou quando prometi que mandaria alguém até as plantações de algodão para pedir que voltasse logo. Enquanto conversávamos, tentávamos acalmar a Jacinta, que estava desesperada com os gritos que ouvíamos como se estivéssemos no quarto junto com a Geninha e o Prudêncio. Ouvir o choro da menina era um suplício, mas também um alívio, quase um aviso de que ela ia sobreviver e estava bem, pois quem chorava naquela altura só podia estar bem.

Nunca soubemos o que o Prudêncio fez lá dentro, e antes de ir embora ele ainda deixou umas ervas para a Jacinta fazer pomada e disse que precisava muito falar

comigo, que eu fosse até a casa dele no dia seguinte.

Naquela noite dormi muito mal, e nos breves períodos de sono entrecortado sonhei com a minha avó e com a Nega Florinda. As duas estavam conversando, mas não consegui entender o que diziam. Achei que o Prudêncio poderia me dizer, que aquele sonho tinha alguma relação com a conversa que ele queria ter comigo.

O bokonon

Eu estava certa, e assim que entrei na casa ele disse que os voduns da família estavam bravos comigo, pois, mais de um ano depois da volta à África, eu ainda não tinha feito nada para honrá-los. O bokonon se prontificou a me ajudar na montagem de um quarto dos voduns na casa nova, onde eu deveria ter um altar igual aos muitos que havia na casa dele. Além dos próprios voduns, ele também honrava o do Chachá e os da família do Chachá, que eram muitos. A casa do Prudêncio era simples e ampla, mas de uso particular dele só havia uma sala e três quartos. O resto era todo dedicado aos cultos, com altares, objetos de culto, objetos dos voduns, pinturas nas paredes, alguns vasos de plantas e, com destaque, os vasos dos assentamentos.

O vodum da família do Chachá se chama Dagoun e é da mesma família de Dan, o vodum da família real do Daomé. O Dagoun é um vodum da água, ligado às cobras, mas também é o mensageiro do vodum Xelegbatá, o das pestes, e tem uma forte ligação com o Heviosso, o das tempestades. Ou seja, o Dagoun é um vodum muito importante, talvez o segundo em importância em todo o Daomé, depois de Dan. Mas também é o vodum mais diferente de que já ouvi falar, porque ele foi criado especialmente para o Chachá, não é nenhum ancestral dele. O Prudêncio disse que talvez a mãe do Chachá, que era uma índia do Brasil, soubesse alguma coisa sobre voduns, pois tinha dado ao filho um anel com o desenho de uma cobra, o vodum da família

do rei Guezo. Ele não tirava esse anel por nada, provavelmente a conselho da mãe, e é bem provável que isso tenha influenciado o presente do rei Guezo, os voduns, dados junto com o título de Chachá.

Além do Dagoun, seu vodum pessoal, o Chachá ganhou mais dois voduns para proteção da cidade de Uidá, um para ser assentado na entrada e outro na saída. Dizem que muitas crianças morriam na família do Chachá antes de ela ter o próprio vodum, e isso parou de acontecer quando o Dagoun também ganhou uma família de seis voduns, um convento, uma cerimônia e uma hierarquia no culto. Além de muitos adeptos, que são todos os voduns dos milhares de escravos do Chachá.

Quando entrei em um dos quartos de voduns da casa do bokonon, tinha havido algum culto recente, pois ainda pairava um forte cheiro de sangue no ambiente, e mesmo o altar não parecia estar de todo seco. Sobre a cama de terra na qual repousava o vodum assentado havia alguns objetos de metal que tinham sido alimentados com óleo de palma e galinhas. Os ossos delas estavam lá, junto com os ossos de carneiros.

Quando sacrificamos um carneiro para o vodum, podemos comer a carne e dar o sangue para ele, que também gosta dos ossos, que ficam guardados como uma espécie de lembrança.

Havia ainda outros objetos, mas não pude olhá-los direito, pois o Prudêncio tinha pressa de sair de lá. Acho que não queria que ninguém soubesse que tinha me deixado entrar na sala onde se cultuavam os voduns mais poderosos de Uidá. A riqueza e a saúde do Chachá com certeza vinham dali, assim como a esperteza para fazer negócios, muito própria de quem cultua os voduns da família de Dan, os voduns pítons.

Providências

Ao sair da casa do Prudêncio, passei pelo forte, e o José Joaquim achava que os meninos não tinham sido postos à venda, pelo menos não em Uidá. O mais certo era que tivessem sido levados para a tribo da família, com o que também concordava a Aina. Para ela, os meninos seriam feitos escravos sim, mas dos parentes, como tinha acontecido com ela. O José Joaquim achou melhor não se fazer nada, esperar pelo Ayodele e ver o que ele decidia, porque, em África, um simples desentendimento em família podia se transformar em uma guerra entre tribos.

Não era o caso, pois eu, a Nourbesse, a Hanna, a Zira, o Ayodele e a Aina não éramos uma tribo, mas mesmo assim achei que ele tinha razão, que eu deveria ajudar dentro das minhas possibilidades. Talvez tenha sido um pouco covarde, porque tive medo do que os selvagens poderiam fazer comigo ou, pior ainda, com os ibêjis.

Você foi uma criança mais bonita do que seus irmãos, mas devo confessar que eles eram mais engraçadinhos.

Não havia quem não gostasse deles, que também não passavam um dia sem receber presentes, principalmente por causa da condição de ibêjis.

Quando voltei para casa, naquele mesmo dia, comecei a pôr em prática o que o bokonon tinha dito, e isso acalmou um pouco os voduns, que esperariam até a construção da casa nova. Também escrevi uma carta para o Tico, pedindo que ele procurasse na Bahia três bons presentes, um para o Chachá, em agradecimento por ter liberado o Prudêncio para ir até a minha casa socorrer a Geninha, outro para o próprio Prudêncio, de quem eu começava a me tornar amiga, e outro para o Isidoro de Souza, um dos filhos do Chachá, de quem eu queria me aproximar. Eu o tinha visto caminhando pela rua, seguido por vários escravos, e achei que devia ser uma pessoa interessante. Vestia-se de maneira diferente e tinha inclusive um uniforme do exército francês, o que irritava os ingleses e até mesmo alguns portugueses e

brasileiros, por causa de um episódio que no Brasil já estava esquecido, a expulsão da família real de Portugal, mas que em Uidá era bastante lembrado, e com muita raiva.

Entre todos os filhos do Chachá, o Isidoro era o mais rico e provavelmente o que herdaria o título depois da morte do pai. Tinha uma belíssima casa em Popô, que não cheguei a conhecer, mas que o senhor Nicolas disse superar a do pai, pelo menos em bom gosto. Por causa da ascendência francesa, que o senhor Nicolas tentou renegar ao assumir o apelido brasileiro, o Isidoro gostava de conversar com ele, principalmente quando o assunto era Napoleão Bonaparte.

A casa do Isidoro era muito bem mobiliada, com tudo importado da Europa, mas o grande destaque eram as paredes, onde várias gravuras de Napoleão estavam enquadradas em riquíssimas molduras. Havia Napoleão para todos os gostos, seja em batalhas com seu exército, na Ilha de Santa Helena, onde se refugiou, e no enterro que fizeram para ele na França. Ao contrário do pai, que depois de se estabelecer no Daomé raras vezes saiu de lá, o Isidoro gostava de viajar e tinha sido educado no Brasil. A maior parte da fortuna dele estava na Bahia, onde também havia se tornado ferreiro.

O John e o Ayodele voltaram a Uidá com um dia de diferença, e certa noite nos reunimos para decidir sobre o Aderonke e o Adedayo. O John não quis saber daquela história, dizendo educadamente, e concordei com ele, que, na qualidade de estrangeiro, não tinha a mínima idéia de como as coisas funcionavam; portanto, nem poderia opinar. Eu também teria preferido me manter de fora, mas não pude em consideração à Aina, pois a família dela tinha sido muito boa para mim nas duas chegadas a Uidá. E também porque eu entendia o que ela estava sentindo, por causa do meu problema com você. Pensando bem, eram situações muito parecidas, e

se eu estivesse no lugar dela, sabendo para onde você tinha sido levado, não pensaria duas vezes antes de sair atrás.

Mas ainda havia o agravante de ela estar presa a uma cama, imobilizada e com muitas dores, tendo que confiar que outras pessoas fariam o que só uma mãe seria capaz de fazer. Ou talvez não, talvez permanecer em casa tenha sido melhor e mais seguro para ela. A Aina teria sido capaz de qualquer coisa para ter os filhos de volta, assim como os selvagens seriam capazes de qualquer coisa para mantê-los, por uma questão de honra.

O Ayodele resolveu reunir três amigos e ir até lá, para ver se os meninos estavam mesmo com a tribo e tentar pegá-los de volta. Eu dei a ele algum dinheiro e disse que poderia dar até mais, se fosse dinheiro o que os homens queriam. Mesmo achando que não era só isso, ele levou dois sacos de cauris, para o caso de estar enganado. Aquela confusão toda ajudava o tempo a passar depressa, ajudava a pensar menos no Brasil e na Bahia, ajudava a sofrer menos de preocupação com você. Não vou ficar falando mais disso para não te cansar e para não parecer que passo o tempo todo querendo me justificar, querendo mostrar a você todo o esforço que fiz.

Mas entre as instruções que mandei ao Tico estava a ordem de pegar uma parte do dinheiro que eu teria a receber pela venda das mercadorias no Brasil e reservar para pagar as buscas. Ele daria um pouco ao genro da sinhazinha, que ficou cuidando do escritório em Salvador e mandaria outra parte para o doutor José Manoel, em São Sebastião do Rio de Janeiro, que se encarregaria de enviar também ao conhecido que estava fazendo o mesmo trabalho em São Paulo. Não sei direito o que faziam, mas pedi que continuassem com a publicação de anúncios nos jornais, visto que você sabia ler, e fizessem o que mais fosse necessário, pois eu

pagaria todos os custos e honorários. Era o que eu podia fazer, e hoje me parece pouco.

A nossa casa estava uma grande confusão desde o acontecido com a Geninha, e pedi à Jacinta que continuasse por lá, pois eu queria ter certeza de que a menina estava sendo bem cuidada. Exceto pela dor, que às vezes a fazia chorar por horas seguidas, ela estava se recuperando bem, recebendo visitas diárias da lyd Kumani, que rezava a ferida, passava pomadas e voltava a enrolar com um pano limpo o resto da mãozinha dela.

A Aina também sentia dores, tinha quebrado algumas costelas, mas sua única reclamação era em relação aos meninos.

Tive que arrumar mais uma empregada, a filha de uma brasileira indicada pela Conceição, pois não conseguia cuidar da casa e dos negócios, principalmente porque estava para chegar um navio do Brasil com o Felipe, o Rafiki e provavelmente mais duas pessoas. A Nourbesse, a Hanna e a Zira tinham que cuidar da vida, da barraca do mercado, e não podiam me ajudar em quase nada.

Elas estavam bravas com a Aina, pois não queriam que o Ayodele se envolvesse diretamente com o problema dela, porque tinham medo do que poderia acontecer a ele, e eu não sabia de que lado ficar quando as três começavam a discutir.

Principalmente quando, alguns dias após a partida do Ayodele, a Nourbesse entrou em casa feito um raio, dizendo que era para a Aina pedir que o seu homem se afastasse daquilo tudo. Depois de muito brigar, ela finalmente se acalmou e contou que o Ayodele tinha voltado da tribo e estava machucado. Ele e os amigos tinham tentado conversar com os homens, que os puseram para correr debaixo de uma chuva de pedras depois de roubarem tudo o que tinham, inclusive o dinheiro.

O Ayodele não quis contar, mas um dos amigos disse à Hanna que os homens avisaram que só estavam deixando que eles partissem vivos para que contassem à mãe que os meninos estavam na tribo e de lá não sairiam. O mesmo amigo disse que não voltaria, como o Ayodele estava planejando, pois eles não entregariam os meninos sem muita luta, porque era grande a falta de homens nas aldeias. Por causa das guerras, eles estavam morrendo ou sendo capturados, e naquela aldeia, especificamente, eram todos velhos, e os filhos da Aina estavam em idade de casar para tomar conta das mulheres.

Mesmo muito novos, eles já podiam ser pais, ajudando a aumentar a população, além de serem filhos de um homem que tinha sido importante para a tribo, e cuja descendência deveria ser continuada. As meninas não contavam para isso, porque o sangue que prevalecia era o do homem. Chorando muito, a Aina concordou que o Ayodele não deveria voltar lá, mas não tinha como ir falar com ele, presa à cama. O Ayodele não ia ouvir a Nourbesse, que então pediu que eu fosse no lugar da Aina. Encontrei-o em casa, furioso, dizendo que tinha passado por uma grande humilhação e se vingaria.

Eu disse que os amigos não queriam mais acompanhá-lo e achava eles que estavam cobertos de razão, e consegui convencê-lo de que, já que era assunto de família, os outros parentes também deveriam ser consultados, os de Porto Novo e de Cotonu, para os quais mandamos recado explicando o problema e pedindo uma opinião.

Enquanto isso, ganharíamos tempo para pensar na melhor solução e, principalmente, para o Ayodele se recuperar, porque ele já não era tão novo e tinha um corte bastante feio na cabeça.

Retornados

O Rafiki e o Felipe chegaram no fim de março, poucos

dias depois de uma carta em que a sinhazinha avisava que em breve seria avó, pois a Mariana estava pejada de cinco meses. Como sabíamos da chegada do navio, fomos até o desembarcadouro, e me espantei com a multidão que estava esperando pelos passageiros. Eu já tinha ouvido falar nisso, que os retornados iam à procura dos parentes e conhecidos que também poderiam estar retornando, mas nunca tinha visto.

Como o navio da minha volta, o Sunset, era apenas um navio de carga, não tinham sido muitas as pessoas que souberam que alguns passageiros iam desembarcar. Mas daquela vez parecia que o mercado tinha se mudado para a praia, lembrando muito os portos da Bahia e de São Sebastião, com muita gente vendendo e muita gente comprando, e falando dos lugares e das pessoas que conheciam no Brasil. Não sei como eles ficavam sabendo, mas essas chegadas também serviam para reunir os poucos brasileiros que não viviam nas cidades, que deixavam as fazendas e as aldeias e passavam um dia de festa em Uidá.

Não importava se iam encontrar alguém conhecido ou não, mas sim o fato de estarem ali para conversar com os que retornavam, oferecendo casa, comida, roupa e amizade em troca de notícias recentes. Além das notícias, os que chegavam geralmente tinham fumo, cachaça, carne e farinha, do que muitos sentiam falta, e a festa da recepção durava até dois ou três dias. Mas nem sempre a recepção era feliz, como tinha acontecido no caso de um navio em que o capitão se esqueceu de repor a água no porto de embarque, causando a morte de mais de metade dos passageiros durante a travessia.

No navio do Rafiki e do Felipe tinham morrido três, mas talvez eles já tivessem embarcado doentes.

Acho que não entenderam nada quando, assim que os vi descendo do escaler, corri na direção deles e dei um abraço como se estivesse há anos esperando por aquele

momento. Não era só a felicidade de finalmente poder começar a casa, e entendi por que tanta gente estava ali, à procura da mesma emoção. Foi muito bom saber que eles estavam chegando do Brasil, da Bahia, que as últimas coisas que seus olhos tinham visto, antes de muita água e dos canais de Uidá, foram aquelas paisagens de que meus olhos tinham tanta saudade. Eles cheiravam diferente, e era bem possível que eu estivesse enganada, mas, ao abraçá-los, pude sentir cheiro de frutas e peixes que só existiam daquele outro lado do mar.

Eu não me cansava de olhá-los e de fazer perguntas, até que o John lembrou que o sol estava muito forte para o João e a Maria Clara e que provavelmente os viajantes estavam cansados para ficarem parados ali por mais tempo, rodeados por aquela multidão. Foi então que me apresentaram ao Dionísio e ao Aliara, um pedreiro e o outro marceneiro, que tinham viajado junto com eles, e ao Crispim e à Tonha, um casal que conheceram no navio e que queria colocação em Uidá, sendo que ele também sabia serviço de pedreiro e ela era lavadeira.

Eu disse que os dois podiam ir para a nossa casa e que eu arrumaria trabalho para eles, e saímos logo depois que o John conseguiu pegar a bagagem, antes que a euforia inicial terminasse e fôssemos seguidos por pessoas que queriam saber das novidades. Naquele momento as atenções ainda estavam divididas, pois eram pelo menos uns quarenta retornados para serem olhados e interrogados, principalmente sobre onde moravam e se conheciam tal ou tal pessoa. Confesso que olhei muito bem o rosto de cada rapaz, querendo reconhecer você em um deles. Eu já estava acostumada aos alça-pés do destino, e te ver ali naquele porto seria apenas mais um deles. O mais agradável, é certo...

Eles não tinham levado muita coisa, e o mais volumoso eram alguns instrumentos de trabalho, pois o Rafiki

tinha ouvido falar que não se encontrava muita coisa em África. Por sorte ele tomou essa iniciativa, porque eu realmente não teria me lembrado disso. O Dionísio e o Aliara me pareceram muito experientes, fazendo perguntas sobre o terreno, o tipo de casa que eu queria construir, essas coisas, e me contaram que também tinham conhecido o Sebastião, pois faziam parte da mesma confraria. Os dois já eram libertos havia muito tempo, dois nagôs, da região de Ijebu-Ode.

O Crispim e a Tonha eram crioulos, também libertos, e ela tinha sido convencida por ele a ir para a África, terra de onde tinham partido seus pais e onde diziam que os brasileiros estavam enriquecendo, ganhando grandes fazendas no interior. Expliquei que alguns reis estavam mesmo distribuindo terras, mas que era muito arriscado andar pelo interior, onde poderiam ser novamente capturados e mandados como escravos para o Brasil, para Cuba ou para os Estados Unidos da América.

Eles não sabiam onde ficavam Cuba e os Estados Unidos, e confesso que nem eu sabia direito, mas a palavra "escravo" serviu de alerta. Naquela primeira noite, dormiram todos na minha casa, mas no dia seguinte fui conversar com o Agenor, aquele que tinha alugado a minha primeira casa, e consegui dois cômodos nos quais eles se dividiram. O Rafiki queria ir logo até o terreno e montar uma casinha lá, onde eles morariam durante a construção.

Planejando

A Aina continuava de cama, chorando dia e noite, e já fazia mais de dez dias que tínhamos mandado um homem a Porto Novo e outro a Cotonu para falar com os parentes. O Ayodele tinha melhorado e estava de volta à fazenda, e a Aina sabia que logo ia começar o período da colheita e tinha medo de que o problema fosse esquecido. Prometi a ela que esperaríamos mais um pouco e, se não tivéssemos notícias dos parentes, pensaríamos em outra solução. Enquanto isso, o Rafiki e os outros já tinham construído dois cômodos de barro e palha no terreno e se mudado para lá.

Era bom que houvesse uma mulher com eles, a Tonha, pois assim eu só mandava alimentos e ela preparava, além de cuidar da roupa deles e até da nossa. Quando descobri que ela também sabia costurar, comprei tecidos e mandei fazer algumas roupas do jeito que estava acostumada a usar no Brasil. Os homens começaram a fundação da casa e o Rafiki achou muito engraçado como juntava gente para observá-los trabalhando, principalmente brasileiros que, vendo o riscado no chão, tentavam adivinhar o que ia ser cada cômodo. Os selvagens não entendiam quase nada, mesmo porque as casas deles quase não tinham divisões, quando muito umas separações, como na casa da Nourbesse. Muitos brasileiros se ofereceram para trabalhar e autorizei o Rafiki a contratar quem ele quisesse, pois queria ver aquela casa de pé o mais depressa possível.

O navio com o Sebastian, o George e o Sam chegou do Brasil e de Freeton cheio de mercadorias que vendemos rapidamente, algumas para o Chachá e o rei Guezo, no caso das armas. No dia da chegada dos sarôs, dei uma grande festa e servi comidas feitas com ingredientes mandados do Brasil, e chamei o pessoal da construção e mais alguns brasileiros.

A Tonha ajudou e fizemos arroz, feijão e carne-de-sol cozida com legumes, tudo que o Tico tinha mandado em grande quantidade, junto com charutos e cachaça, além de açúcar. Como era muita coisa e eu sabia que continuaria recebendo remessas regulares a cada três meses, dividi com alguns amigos, que agradeceram e retribuíram com muitos presentes para mim e para os ibêjis. Mandei também um pouco de comida para o Chachá, junto com duas caixas de madeira enfeitadas

com ouro e cheias do melhor charuto do Recôncavo.

Pelos sarôs, mandei para o Tico uma nova lista de compras, o dinheiro da venda dos produtos em Uidá e uma extensa lista de materiais para a casa, que levei vários dias fazendo, sob a orientação do Rafiki. Andamos juntos por Singbomey (Singbomey: singbo quer dizer sobrado, e o do Chachá foi um dos primeiros a serem construídos em Uidá), a concessão do Chachá no Quartier Brésil, o mais antigo dos bairros brasileiros, observando alguns detalhes que eu queria repetir no meu sobrado. O do Chachá também foi construído por brasileiros, escravos que ele tinha mandado buscar no Brasil e que depois ganharam a liberdade e viviam entre nós, em consideração ao bom trabalho. Aliás, dizia-se que o Chachá e seus filhos sempre trataram muito bem os próprios escravos, que eram sempre em maior número do que eles realmente necessitavam, ficando na indolência o tempo todo. De fato, quando eu passava pela concessão, via-os às maltas, sempre sentados ou deitados à sombra, jogando, conversando ou dormindo.

Eu disse ao senhor Nicolas que estava pensando em fazer uma pequena viagem até Popô, para entregar o presente do Isidoro de Souza, e o convidei para ir junto.

Ele não podia, pois estava com viagem marcada para Abomé, onde ia visitar a filha e tratar de negócios com o rei Guezo. Quando se lembrou de que eu tinha prometido ajudá-la com o culto do Bonfim, perguntou se eu não queria ir junto, e na volta poderíamos passar por Popô. Adorei a idéia, mas não pude dar a resposta até confirmar que a Aina já tinha condições de cuidar dos ibêjis, pois a viagem era longa e não dava para levá-los, e o John estava em Freetown. A Jacinta disse que eu podia partir tranqüila, pois ela, a Conceição e a nova empregada cuidariam da casa e ajudariam a Aina.

Abomé

Partimos no início da tarde, pois o senhor Nicolas e o Alfaiate, que se juntou a nós na última hora, não tinham direito a usar pára-sol. No Daomé, somente os reis, alguns ministros, alguns chefes de culto voduns e o Chachá tinham essa honra, e como os dias estavam muito quentes, era preferível viajar à noite. Para evitar o perigo de sermos atacados ou algo assim, fomos acompanhados por um enorme séquito de escravos, que também carregavam muitos presentes para o rei.

Além disso, portávamos a bengala do Chachá, o que queria dizer que éramos uma comitiva oficial levando um recado do Chachá para o rei. É claro que não era a bengala de uso pessoal do Chachá, mas um modelo que só ele podia usar e que conferia ao portador o direito de andar livremente e em segurança por todo o reino, como enviado e protegido. Era muito aconselhável que todo estrangeiro que se aventurasse pelo interior levasse uma bengala oficial, caso contrário os selvagens poderiam tornar a viagem bastante difícil, ou até impossível.

Continuar: parte 5 de 8