Um Defeito de Cor
Capítulo nove
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.
Eu e o John tínhamos decidido adotar uma estratégia que acabou se mostrando acertada, que era quase não mexer com dinheiro neste tipo de comércio, preferindo trocar produtos por produtos e armazenar o excedente.
Dinheiro mesmo, ou ouro, tínhamos apenas o referente às vendas de armas e pólvora, mas o depósito de Uidá estava quase sempre cheio de fumo, cachaça, carne-de-charque, tecidos e outros produtos enviados pelo Tico.
Dessa maneira, escolhíamos a melhor época para vender, ou seja, quando acontecia algum problema com as encomendas de outros comerciantes e faltava produto no mercado, e então fazíamos o nosso preço.
Pensávamos também em produzir o óleo, comprando ou alugando uma fazenda, mas isso não era prioridade. Não para mim, pelo menos, que queria acompanhar a construção da casa, deixando a procura da fazenda para o John, quando ele estivesse em Uidá. A única coisa que eu não gostava de fazer quando ele viajava era lidar com as diversas moedas nas quais recebíamos, pois o rei comerciava com gente de vários países e nos pagava com cauris importados da índia e da parte mais oriental da África, onças mexicanas, dobrões americanos, libras
inglesas e dólares espanhóis. A conversão era complicada e só evitávamos os cauris, pois eles estavam desvalorizados e precisávamos cada vez de mais homens para carregar grandes sacas que não valiam quase nada.
Domingos José Martins
Infelizmente, o John estava viajando no aniversário de dois anos dos ibêjis, pois ele teria gostado de conversar com o senhor Domingos José Martins, que tinha uma história quase tão interessante quanto a do Chachá I, de quem tinha sido amigo. Depois que o rei Guezo tomou para si parte dos bens dos De Souza, o senhor Domingos se tornou o verdadeiro substituto do Chachá e o comerciante mais rico do Daomé, e talvez até de toda a África, pois diziam que a fortuna dele não dava para ser contada em uma vida.
Ele foi à festa que fiz acompanhando o Alfaiate e ficou pouco tempo, mas o suficiente para se mostrar um homem muito inteligente e esperto nos negócios. Até mesmo as casas comerciais francesas e inglesas estabelecidas em Uidá tinham que se submeter a ele para
conseguirem
adquirir
produtos
africanos,
principalmente o óleo de palma. A fazenda do senhor Nicolas já tinha sido vendida para ele, embora o velho ainda continuasse à frente dos negócios no armazém, talvez em consideração à amizade de anos entre os dois homens. Ele dizia que, durante muito tempo odiou os ingleses, mas que àquela altura da vida, depois de conseguir tanta riqueza em África, era grato a eles, e aceitou receber o John de muito bom grado para conversar sobre fazendas, quando ele retornasse de Freetown.
O senhor Domingos tinha chegado à África trabalhando em um tumbeiro do Chachá I que foi capturado pela marinha inglesa. Depois de ficar uns tempos em Uidá, sob a proteção do Chachá, ele resolveu comerciar em
Lagos, fundando uma sociedade chamada Dos Amigos, que rapidamente tomou conta de todo o comércio de escravos da região. Diziam que até por volta de um mil oitocentos e quarenta e cinco, quando ele retornou à Bahia para viver por lá durante dois anos, já tinha mandado para o Brasil pelo menos um terço dos escravos que tinham saído de Lagos durante todo o tempo da escravidão, mesmo o tempo anterior a ele.
Naquela volta à Bahia, aproveitou para estreitar os laços com alguém que talvez fosse o homem mais rico de lá, o senhor Pereira Marinho, que, mesmo antes de abrir um banco, já funcionava sozinho como um, além de ter uma enorme frota de navios, todos trabalhando no tráfico.
Essa amizade foi muito lucrativa para os dois homens, que faziam uso comum da influência exercida pelas duas enormes fortunas.
Depois desses dois anos em São Salvador, o senhor Domingos retornou à África, não mais para Lagos, mas para Porto Novo, Uidá e Cotonu, herdando todos os antigos contatos do Chachá I, mas também se dedicando à plantação e ao comércio de óleo de palma, com imensas fazendas no interior. O cônsul britânico, aquele que tinha ido a Abomé junto com o Chachá II, não gostava dele de jeito nenhum, pois o senhor Domingos sabia muito bem como influenciar o rei Guezo em função dos próprios interesses.
Ele era chamado para aconselhar quase todas as transações comerciais do rei e era recebido em Abomé com as honrarias de um Chachá. Se não me engano, também tinha o título de Cabeceira, como o Inácio, o irmão do Isidoro, pois tinha direito a pára-sol, assentamento de aparato e até tocadores de tanta. Isso sem falar que muitas vezes era recebido com vinte e um tiros de canhão, a mesma honraria concedida à rainha da Inglaterra, provavelmente porque presenteava o rei com pólvora e mosquetes, além de muitos barris de rum, que eram distribuídos ao povo em praça pública. Na
época em que o conheci, achei que era muito novo para tão grande fama e fortuna, pois aparentava não mais que quarenta anos.
Era alto, a pele um pouco amarelada, e permanecia sério durante a maior parte do tempo, mas não bravo ou mal-humorado, apenas reservado. Só usava roupas escuras, camisas cheias de bolsos e botas marrons parecidas com as dos batalhões de guarda, e sobre a cabeça sempre carregava uma boina de palha trançada. Era um homem interessante, daqueles que a gente procura com o olhar onde quer que esteja, principalmente quando andava pelas ruas anunciado por tocadores de tanta e seguido por inúmeros escravos cedidos pelo rei Guezo, que não sabia o que mais fazer para agradá-lo.
O senhor Domingos preferia ficar em Porto Novo, onde tinha se adaptado melhor e onde possuía uma casa imensa, indo a Uidá apenas quando precisava embarcar algum carregamento importante. Ele não era casado, mas tinha vários filhos e filhas na Bahia e na África, todos afilhados dos filhos do Chachá I. Foi o senhor Domingos quem confirmou a notícia, enviada da Bahia pelo senhor Pereira Marinho, de que estava proibida a entrada de escravos no Brasil, de qualquer procedência, e não apenas dos capturados ao norte da linha do Equador.
A notícia foi recebida com enorme apreensão pelos comerciantes da costa, que previram épocas muito difíceis e a inevitável falência de quem já não estivesse fazendo o comércio de outras mercadorias, ou de quem não tinha contatos nos Estados Unidos e em Cuba, onde o tráfico ainda era permitido. No entanto, entre os retornados que não dependiam do tráfico, a notícia foi motivo de comemorações, mesmo porque correu o boato de que todos os escravos que estavam no Brasil seriam libertados, com direito a voltar para a África com passagens pagas pelo governo brasileiro. Isso não era verdade, mas, nas cartas seguintes da sinhazinha e do Tico, que comentavam a repercussão da lei em São Salvador e em São Sebastião, eles disseram que no Brasil também se fazia essa confusão, motivo de muitas brigas por parte dos escravos que exigiam a liberdade. Na verdade, só não podiam entrar mais escravos no Brasil, mas os que já estavam por lá permaneceriam escravos, assim como os seus filhos, que podiam ser vendidos e revendidos de acordo com a vontade dos donos.
Esperança e medo
Eu me empolgo e fico contando detalhes de acontecimentos que não sei se vão te interessar, mas de agora em diante vou tentar ser mais breve e me ater ao que nos diz respeito, pois ao mandar servir nosso almoço, o capitão também mandou avisar que estaremos em terra dentro de cinco a sete dias, a depender do vento. E também já estou muito cansada e quero chegar logo ao final de tudo isso, de tudo mesmo. Já sabia que seria assim antes de partir de Lagos, e até deixei uma bonita serenata encomendada por lá, mesmo sem a minha presença. Sinto apenas por não rever a casa de Uidá, mas já não teria como, e vou dizer por que mais adiante, pois antes disso ainda há muitas coisas que você precisa saber.
Precisa saber, por exemplo, que comecei a receber relatórios muito claros e extensos a cada seis meses, explicando tudo o que estava sendo feito na sua busca e justificando todos os gastos. Mesmo que não justificassem, eu teria pago com muito gosto, deixando o Tico autorizado a não economizar quando o assunto fosse você. Em uma das cartas ele tentou me desanimar, dizendo que já fazia muito tempo e eu estava gastando uma pequena fortuna, mas nem dei importância. A lyá Kumani, depois de visitar um babalaô, tinha me garantido que você seria encontrado, e esta afirmação,
aliada à minha esperança, ao que sentia meu coração de mãe, dizia que eu estava no caminho certo, e nele iria até o fim, até não ter mais jeito.
Além do mais, eu e o John estávamos ganhando muito dinheiro, nos arriscando a fornecer armas para o rei Kosoko, de Lagos. Por lá, o ano de um mil oitocentos e cinqüenta e um começou com um bombardeio inglês a partir do mar, causando estragos no porto e nas construções costeiras, mas o pior ainda estava por vir.
Por causa das confusões, a comunidade brasileira de Lagos estava muito decepcionada, porque não teve como comemorar o Nosso Senhor do Bonfim, como nós novamente fizemos em Uidá. E foi tudo mais organizado, e principalmente mais protegido, para que os selvagens não estragassem a festa, como no ano anterior. Apesar das garantias recebidas de que a segurança ia funcionar, nós, os brasileiros mais importantes, ficamos em casa durante a saída da Burrinha, que percorreu as ruas de Uidá e parou nas nossas portas, onde entrava ou ficava em frente, cantando, tocando e dançando, enquanto servíamos comida e bebida aos participantes.
Acho que eles também preferiram desse jeito, os brasileiros mais simples, porque nunca tinham comido e bebido tanto quanto em cada parada daquelas andanças.
A partir daquele ano e até agora acontece desse jeito, e fomos
imitados
também
pelas
Burrinhas
das
comunidades brasileiras das outras cidades. Diziam que em Porto Novo já era assim, mas não acredito, acho que fomos nós que começamos. Entre a Burrinha do Senhor do Bonfim e o entrudo, muitas coisas aconteceram.
Pelo menos uns trinta homens já estavam trabalhando na casa, que eu queria pronta para a festa de aniversário de três anos dos ibêjis. Quatro carpinteiros fabricavam os móveis, que eu mesma desenhei de acordo com o que tinha visto na Bahia e nas melhores casas de Uidá, e
também com a ajuda do Abimbola, que se prontificou a fazer entalhes na madeira, tornando tudo muito mais bonito. Ele entalhou pássaros, rostos de gente, flores, árvores e até o Espírito Santo, igual a uma linda pomba que havia na capela do forte e que já estava bastante desgastada.
Aliás, o estado do forte era miserável, e só melhorou um pouco com o grande empenho do Chachá Isidoro em recuperá-lo.
O rei Guezo era inimigo do rei Kosoko, de Lagos, mas se uniam quando se tratava de defender a soberania africana contra os estrangeiros. O rei Guezo não se intrometia nos acontecimentos do reino vizinho, não mandou nenhum tipo de ajuda, mas se mostrou bastante hostil em relação aos ingleses que estavam em Uidá, talvez uma maneira de dizer que ali quem mandava era ele, avisando aos ingleses que não tentassem fazer em Uidá o que estavam fazendo em Lagos.
Muitos brasileiros que se dedicavam ao tráfico em Lagos estavam fugindo ou sendo expulsos de lá, estabelecendo-se em Uidá, Porto Novo e Aguê. Em represália, comerciantes brasileiros e portugueses estabelecidos nessas cidades tratavam de expulsar os ingleses, acusando-os de serem espiões. O John achou melhor se afastar por uns tempos, e apesar de preocupado com a minha segurança, foi para Freetown até que a situação se acalmasse um pouco. Achei que não teria problemas, mas menos de uma semana depois bateram na porta de casa de madrugada, em grande desespero.
Um pouco atordoada por ter sido acordada àquela hora, nem esperei que a Jacinta fosse até o fundo do quintal chamar um dos empregados que o John tinha deixado para nos proteger, e abri a porta. Um homem grande, sujo e bêbado nem esperou convite para entrar e foi dizendo, em inglês, que eu precisava escondê-lo, por
amor à rainha. Quando os empregados apareceram, pedi que o pusessem para fora, mas ele começou a fazer um grande escândalo, acordando as crianças e dizendo que não queria nos fazer mal, que eu pelo menos o escutasse. Mais por medo do que por qualquer outra coisa, concordei.
Bernasko
O nome dele era Bernasko, e me lembrei de já ter ouvido aquele nome antes em alguma conversa com o John. O
homem era um missionário protestante vindo de Freetown e estabelecido com a família em Uidá, e, segundo constava fazia as vezes de espião para os cruzadores britânicos. Ou seja, ele deveria observar a movimentação dos navios brasileiros que tentavam embarcar escravos clandestinos e denunciá-los aos britânicos que faziam a guarda da costa.
Mas não era bem isso que acontecia, pois, gostando de boa comida, boa bebida e de dinheiro, o Bernasko constantemente aceitava recebê-los dos comerciantes de escravos para que não fossem denunciados. Ou mais ainda, para confundir os cruzadores e enviá-los para um lugar distante de onde aconteceria o embarque. Isso era bem fácil, pois barqueiros experientes contratados pelos traficantes conduziam os escravos para outros portos com grande rapidez, através do sistema de lagunas, esteiros, rios e furos que corriam paralelos ao litoral.
Para que não fosse acusado de traidor pelos ingleses que enganava, o Bernasko tinha no vício da bebida uma boa desculpa. Os ingleses desconfiavam que ele ficava bêbado e se enganava, mas nunca que fazia o duplo serviço, visto que era pago para a função de espionar e denunciar.
Diziam que, para acalmar a ira dos ingleses mais revoltados, entregava as próprias filhas para que se deitassem com eles. Mas o Bernasko era invejado pelos
outros sarôs que moravam em Uidá e que, quando foram expulsos, resolveram denunciá-lo para os responsáveis pelos cruzadores ingleses. A inveja vinha do fato de o Bernasko sempre ter dinheiro, recebido dos ingleses e de traficantes portugueses, brasileiros e africanos, e também de não ter sido expulso como os outros, por causa dos serviços que prestava. Denunciado, ele estava sendo procurado pelos guardas da marinha britânica e, se fosse pego, seria condenado à morte pelo crime de lesa-majestade.
O homem estava mesmo desesperado e disse que faria qualquer coisa em agradecimento se eu concordasse em escondê-lo. Disse ainda que tinha batido à nossa porta porque sabia que entenderíamos a situação dele, por causa da procedência do John. Falou apenas isso, mas senti uma ameaça muito maior no tom de voz, no que não foi dito, o que também pode ter sido falsa impressão minha. Mas é claro que não pude deixar de pensar que vendíamos armas para o rei Kosoko lutar contra os ingleses, o que também seria considerado crime de lesa-majestade. Não sei se o Bernasko tinha conhecimento de alguma coisa, mas resolvi não arriscar e disse que ele podia se alojar no quintal naquela noite, e que no dia seguinte eu pensaria em um jeito de ajudá-lo.
Boas idéias
Não consegui mais dormir o resto da noite, preocupada e desejando que o John voltasse logo, principalmente para eu dizer a ele que não faríamos mais o comércio de armas, pois a situação estava ficando perigosa. Já tínhamos dinheiro suficiente para terminar a casa e viver confortavelmente por algum tempo, e ainda havia o comércio de dendê. Na manhã seguinte, outra alternativa muito do meu gosto foi apresentada pelo destino, antes mesmo que eu conversasse com o Bernasko. Muito cedo, a Jacinta bateu na porta do meu quarto e disse que tinha recebido um escravo do Chachá com um recado do senhor Domingos para que eu fosse até Singbomey, onde ele estava hospedado, pois queria falar comigo. No caminho, fui pensando que era aquele assunto das fazendas, e minha surpresa foi enorme.
O senhor Domingos disse que tinha ficado sabendo da casa que eu estava construindo, dos funcionários que eu tinha contratado, todos brasileiros e muito bons, e queria saber se não poderíamos construir uma casa para ele também. Ele tinha um terreno, presente do rei Guezo, ao lado da casa presenteada ao António de Souza, o Amigo do Rei, e foi informado do meu bom gosto e do meu jeito de lidar com os materiais e os funcionários, e por isso eu teria toda a liberdade e todo o dinheiro de que precisasse para construir uma casa digna de um comerciante na posição dele. E que, se gostasse, depois encomendaria mais uma casa em Aguê, onde também tinha negócios e passava temporadas.
Aquela era uma proposta interessantíssima e uma idéia na qual eu nem tinha pensado, mas deveria, principalmente depois de ver o quanto a obra chamava atenção. Achando o negócio tão bom e tão óbvio, menti para o senhor Domingos, dizendo que ele devia ter captado no ar os meus pensamentos, pois eu estava justamente tomando providências para buscar mais funcionários na Bahia e começar a construir sob encomenda, e que já tinha até conversado com um comerciante baiano que queria se estabelecer em Badagris. Tudo mentira, é claro, e quando ele quis saber quem era o comerciante para ver se conhecia, só consegui pensar no nome do senhor Amleto, aquele que comprava meus cookies no Terreiro de Jesus, de quem ele disse se lembrar vagamente. Durante muito tempo depois dessa conversa fiquei com medo de que a mentira fosse descoberta, mas isso não aconteceu, pois o senhor Domingos nem se interessou em confirmar a informação.
Aceitei prontamente a proposta dele e fomos juntos ver o terreno.
Com a cabeça cheia de planos, voltei para casa esquecida do saro que estava por lá, e encontrei a Jacinta bastante preocupada com a presença dele. Ela não quis dizer o motivo, mas comentou que não era seguro ele permanecer na casa. Depois eu percebi o motivo, pelo jeito como ele olhava para ela e para mim, como se a qualquer momento fosse nos jogar no chão e fazer como os guerreiros do Adandozan tinham feito com a minha mãe. Conversando com o Bernasko, concordamos que o melhor seria ele sair da cidade o quanto antes, e resolvi propor uma troca de favores na qual ele ganharia um bom dinheiro. Contei por alto a história da Aina, de quem eu não me esquecia, e disse que se ele fosse até a tribo e conseguisse pegá-la de volta, ela e toda a família, com todas as despesas pagas por mim, eu daria a ele dinheiro suficiente para levar a família para morar longe de Uidá, de Lagos, da África, tão longe quanto ele quisesse, e até mesmo no Brasil, que ele disse ter vontade de conhecer.
O homem pensou durante algum tempo e aceitou, dizendo que no Brasil não seria procurado pelos ingleses, e que precisaria de alguns dias para contratar uns selvagens que o acompanhariam até a tribo da Aina.
Mandei chamar o Ayodele e pedi que ajudasse, afinal de contas ele também era parte interessada, e ele disse que poderia levá-los até perto da tribo, desde que a Nourbesse não ficasse sabendo.
Tudo acertado com o Bernasko e o Ayodele, fui até a obra contar as novidades para o Felipe e o Rafiki, que ficaram muito felizes por terem o trabalho reconhecido.
Sabendo que sócios trabalham mais e melhor do que empregados, propus aos dois sociedade no novo negócio, dando dez por cento para cada um, visto que só entrariam com o trabalho. Os dois aceitaram, muito agradecidos, e ficaram de pensar em como faríamos para tornar aquilo realidade.
No dia seguinte, apareceram na minha casa dizendo que o Felipe partiria no próximo navio para São Salvador, onde
contrataria
mais
pedreiros,
marceneiros,
ajudantes, ferreiros, enfim, gente suficiente para tocar as obras que eu tinha certeza que apareceriam, principalmente quando os comerciantes ficassem sabendo que estávamos cuidando da construção da casa do senhor Domingos, o homem mais rico de toda a região. Se não fosse por necessidade, pelo menos para não se sentirem inferiores, os outros comerciantes também iriam querer uma casa tipicamente brasileira.
Nova família
Eu estava com medo de, quando o John voltasse, ser acusada de estar gastando muito dinheiro, o que era verdade. A obra estava em sua fase mais dispendiosa, mas eu não queria deixar de colocar os acabamentos mais bonitos ou de melhor qualidade só porque também eram os mais caros. O Felipe ia precisar de uma boa quantia para a viagem de ida e de volta, com os trabalhadores que conseguisse contratar. E o Ayodele e o Bernasko me apresentaram uma conta bastante alta, pois havia a fuga do Bernasko e da família, e, antes, a ida até a tribo da Aina.
Eles precisavam de dinheiro para pagar os selvagens, para os custos da viagem e para tentar comprar a Aina e família, pois pedi que tentassem essa alternativa antes de partirem para a briga. Talvez só a presença de homens armados já intimidasse os tribais a ponto de eles deixarem minha amiga ir embora, mas, levando em conta o que tinham sido capazes de fazer, como entrar na minha casa para raptar os meninos, eu achava que não seria tão fácil assim. Como segunda hipótese havia a compra, e se a Aina se recusasse a partir deixando alguém para trás, seriam seis pessoas, ela, os quatro filhos e uma neta, se não tivesse nascido mais ninguém.
Só em último caso eles usariam a força, e para isso eu contava com o Ayodele, que não chegaria até a tribo, mas ficaria por perto para garantir que os nossos selvagens não fossem mais selvagens que os da Aina.
Fiquei muito apreensiva depois que partiram, e só mesmo as conversas com o Rafiki e o Felipe tinham o poder de me distrair. Se por acaso os tribais reagissem, a Aina e os filhos correriam perigo.
Havia também a possibilidade, embora remota, de que ela não quisesse mais sair de lá, e foi o que achei que tinha acontecido quando, novamente durante a madrugada, ouvi as batidas na porta e fui correndo abrir. Do lado de fora estavam apenas o Bernasko, o Aderonke e o Adedayo, pois os homens tinham concordado em vender a família, mas tinha que ser toda a família mesmo. A Aina, as duas filhas e os filhos de cada uma delas, pois a Hasina tinha ficado pejada e dado à luz, mais os dois filhos e suas esposas, visto que eles também já tinham se casado. Eram nove pessoas, e o dinheiro que os homens tinham levado não dava para tanta gente, e por sorte não eram dez ou onze, porque já estavam planejando o segundo casamento do Aderonke, o filho mais velho, e a Hasina estava novamente pejada.
O Bernasko disse que esse foi o único ponto de conflito, se a criança na barriga da Hasina e a noiva do Aderonke também deveriam ser comprados. Quanto à criança, decidiram que não, pois ela ainda não tinha nascido e não sabiam se ia vingar, e quanto à moça, quando o Bernasko disse que o casamento ainda não tinha sido realizado, e portanto ela não fazia parte da família, eles disseram que a dariam assim mesmo, sem pagamento, e que eu precisava decidir se queria ou não ficar com ela.
Foi uma decisão bastante fácil, pois bastou olhar para o Aderonke para perceber que ele não queria ficar com noiva alguma, e talvez até não quisesse ficar com a esposa também, caso tivesse escolha. O que os tribais queriam era se livrar de bocas para alimentar,
entregando-as a um marido.
Quanto à Aina e às filhas, eles nem se importaram muito, porque seriam mulheres a menos para os homens tomarem conta, embora a Aina dissesse que trabalhavam muito mais do que qualquer um deles.
Alojei todos na minha casa, mas não havia a mínima condição de continuarem lá. As duas meninas da Aina e seus filhos foram para a casa da Nourbesse até que construíssemos mais um barracão para todos no terreno da obra, e pedi ao Felipe que apressasse tal construção, porque não gostava nem um pouco dos modos das esposas dos filhos da Aina, que se recusavam a vestir roupa, discutiam muito entre si e não queriam ajudar nos trabalhos da casa.
Ciúmes
O Felipe partiu para a Bahia mais ou menos quinze dias depois daquela primeira conversa com o senhor Domingos, e descobrimos que era muito comum os africanos ou brasileiros que moravam na África mandarem escravos ou empregados libertos para o Brasil, para aprenderem um ofício. Quem comentou isso foi o senhor Nicolas, pois ele mesmo já tinha feito isso quando precisou de um guarda-livros bem treinado, entendido de comércio, e se valeu da experiência de um preposto de São Salvador. Mas naquela época ele me desaconselhou a fazer o mesmo, pois, com a proibição total do tráfico, eu poderia ser acusada de mandar escravos ilegalmente para o Brasil, se fosse pega.
Fiquei também muito preocupada com o Felipe, pois sabíamos da proibição de africanos libertos entrarem no Brasil e não tínhamos pensado nisso, tão grande era a nossa euforia. A preocupação durou até que ele voltasse, quase quatro meses depois, acompanhado de vinte homens, todos nascidos em África e mandados como escravos para o Brasil, libertos e solteiros, relativamente
novos e com boa saúde, para que não tivéssemos problema algum. Muita gente estava querendo voltar para a África, e o Felipe disse que poderíamos conseguir muitos mais, se precisássemos. Achamos que precisaríamos e, por carta, comentei isso com o Tico, que se prontificou a arranjar tudo do lado de lá, entrevistar os interessados, selecionar e arranjar a documentação para embarcá-los no navio dos sarôs, junto com as mercadorias que ele já mandava normalmente. O John voltou de Freetown quase na mesma época da chegada dos brasileiros e achou que tinha sido uma atitude muito precipitada, que tínhamos mandado buscar aquelas pessoas sem ao menos saber se teríamos trabalho para elas, sem nem ao menos termos assinado um contrato com o senhor Domingos, por exemplo. Eu também estava preocupada com isso, mas o senhor Domingos tinha viajado pouco antes da partida do Felipe e ainda não tinha voltado.
O mais difícil foi explicar ao John os dois novos galpões que tinham sido construídos no terreno da obra, um para abrigar a família da Aina e outro para todos aqueles homens. Ele achava muito perigoso reunir grande quantidade de homens que não conhecíamos e que poderiam ser bandidos ou desordeiros. Na verdade, acho que o John estava com ciúmes ou com raiva por eu ter tomado decisões importantes sem consultá-lo. Pedi desculpas por isso, mas talvez não o suficiente, porque foi a partir daquele dia que ele começou a mudar comigo. A Aina disse que homem precisava se sentir útil, e tomando a frente dos negócios, eu mostrava ao John que não precisava dele. Mas quando nos conhecemos eu já era assim, tinha as minhas mercadorias para vender em África e começar vida nova, e apenas aceitei a ajuda que ele ofereceu.
Como ele também achava que estava ficando perigoso continuar comprando armas para revender ao rei
Kosoko, acabaram as constantes viagens para Freetown, pois já tinha por lá quem tratasse dos outros produtos, que eram menos perigosos e menos lucrativos. Paramos na hora certa, porque algum tempo depois os britânicos novamente bombardearam Lagos, mandaram o rei Kosoko e todos os seus homens para o exílio em Epe e colocaram no lugar dele o rei Akitoye, com quem tinham boas relações e de quem diziam que só tomava decisões depois de consultar o cônsul britânico, o interventor. O
rei Akitoye tinha prometido acabar com o tráfico, e de fato, dois ou três anos depois ninguém dava notícias de tumbeiros saindo da região de Lagos.
Obras
Voltei a encontrar o senhor Domingos em um jantar oferecido na casa do senhor Nicolas para o governador português das ilhas de São Tomé e Príncipe, que tinha sido convidado pelo Chachá para visitar a cidade com a intenção de estreitar os laços entre o governo português e o Daomé, reativando o forte de São João Batista da Ajuda. Desde a partida do José Joaquim, dois outros funcionários já tinham passado por lá, mas eram homens sem representatividade alguma, sem importância ou inteligência, com os quais nem fiz questão de travar contato. O jantar foi em comemoração aos bons acordos, e o governador deixou Uidá com a promessa de enviar uma milícia, já tendo inclusive dado ao próprio Chachá a patente honorária de tenente-coronel de infantaria da marinha.
Quando perguntei ao senhor Domingos se eu poderia passar na casa dele para assinarmos um contrato, ele se ofendeu, dizendo que a palavra dele valia tanto quanto a assinatura e que eu podia mandar os meus empregados ocuparem o terreno e começarem a obra. Ficamos de nos encontrar alguns dias depois para discutirmos os detalhes da casa, tamanho, tipo de construção, coisas assim, mas antes disso o Felipe já tinha mandado
construir um galpão para morada dos homens que fariam a obra e para guardar os materiais. Não gostei nem um pouco quando o senhor Domingos disse que queria uma casa igual à minha, e argumentei que ele faria uso diferente da casa dele, que não podia ser igual.
Ele não estava muito preocupado com isso e disse que eu então podia fazer o que quisesse, desde que ficasse bonita, arejada, confortável e desse a impressão de estar na Bahia. Ou seja, como a minha, que já estava quase pronta, faltando apenas alguns detalhes que achei que daria tempo de terminar antes do quarto aniversário dos ibêjis. Não deu, porque esperávamos alguns materiais de acabamento que chegariam de Portugal e o navio atrasou mais de uma semana. Eu ia à obra quase todos os dias, pois ter a Aina novamente em casa era uma tranqüilidade, cuidando de tudo como se fosse dela. Já era assim antes, mas depois que eu a comprei dos tribais, ela disse que nunca me abandonaria, porque nunca teria como pagar tudo o que eu tinha feito. E não falava em dinheiro, mas em gratidão somente.
A casa
Mesmo sem a casa estar completamente pronta, a festa de aniversário do João e da Maria Clara foi lá, um grande piquenique com comidas brasileiras. Conversei com o pessoal do comitê da Burrinha e eles concordaram em participar, e entre os operários da obra havia muitos músicos e três capueiras, que se apresentaram levando muita gente às lágrimas, com saudades de São Salvador. Compareceram todas as pessoas que convidei, e até o Chachá adiou uma viagem para prestigiar a minha festa, presenteando os ibêjis com dois cavalos. Mas a maior atração foi a casa, e tive que montar vários grupos para andar por dentro dela e contar todos os detalhes.
Como na casa da sinhá, a sala era dividida em três
ambientes separados por biombos e por lindos vasos de barro para flores, feitos pelo Abimbola. Tais vasos fizeram muito efeito, porque em África não era usual cultivar flores e muito menos tê-las dentro de casa, para enfeite. Era um costume nosso, dos brasileiros, e gostávamos de ter em nossos terrenos jardins bem-cuidados que, por si, já mostravam que ali morava um patrício. O Abimbola também tinha entalhado molduras maravilhosas para quadros que eu ainda não tinha, mas que mesmo assim fiz questão de pendurar na parede.
O engraçado foi que ouvi duas mulheres comentando que aquilo era moda na Bahia, que nas melhores casas somente as molduras estavam sendo penduradas na parede, sem desenho algum. A casa toda tinha amplas janelas e o teto de gesso trabalhado era bem alto, a quase treze pés do chão de tábuas largas, compradas no Brasil. Alguns móveis também tinham sido comprados no Brasil, mas outros foram feitos pelo Abimbola e pelo Aliara, como as mesinhas para decoração e a grande mesa de refeições com pés esculpidos.
Eu também tinha toalhas de linho, tapetes da China e da índia, duas poltronas inglesas, cadeiras estofadas, camas com baldaquino e muitas outras coisas escolhidas com cuidado e carinho entre as oferecidas pelos mercadores estrangeiros, lembrando-me de como era o solar da sinhá e tentando imitar cada detalhe de que eu gostava.
No andar de cima, onde ficavam os quartos, chamavam muita atenção as varandas com grades de ferro, muito bem trabalhadas sob a supervisão do Abimbola. Aliás, ele e a Conceição estavam morando juntos no barracão que eu tinha mandado construir para ele perto da obra.
Foi uma festa de aniversário muito bonita, e nos mudamos em meados de junho de um mil oitocentos e cinqüenta e um, depois da chegada de um carregamento de louças e enfeites que eu tinha encomendado da Inglaterra. Para as crianças, comprei lindas camas de
Goa, e quem já tinha visto disse que eram muito parecidas com a do Chachá, com baldaquino de colunas de ébano e cabeceira com medalhões de marfim. Sei a data porque foram exatos doze anos antes de sair de lá, para nunca mais voltar.
Os lugares de que eu mais gostava, embora não mostrasse a ninguém, eram o quarto dos voduns e o quarto dos orixás, do jeito que tinham que ser, montados e consagrados pelo bokonon Prudêncio e pela lyá Kumani. O Abimbola tinha feito estátuas e máscaras novas e outros objetos, como bengalas, vasos e pratos de dar de comer, também consagrados. Em um quarto ou no outro, tanto fazia, que ficavam nos fundos da casa e sem comunicação com o lado de dentro, com portas que se abriam para o quintal, era onde eu gostava de me trancar quando tinha que tomar alguma decisão importante, e uma vez por mês o Prudêncio e a lyá Kumani me ajudavam em rituais de pedidos ou agradecimentos.
A fazenda
O John estava cuidando de todo o comércio com a Bahia, que era coisa de que ele gostava e entendia muito bem, e resolvi me dedicar inteiramente às casas. Ele nunca se interessou por esse novo negócio, não sei se por não gostar ou por ter ficado bravo comigo, mas nunca quis opinar em nada, nunca quis tomar a frente de nada. De início eu até pedia opinião, mas parei quando percebi que não adiantava.
De vez em quando ele ia para o armazém, recebia e despachava as mercadorias quando os sarôs passavam por Uidá, e ficava muitos dias sem ter o que fazer.
Cheguei a acreditar que a tristeza naqueles momentos era porque sentia saudades do mar, mas, perguntado, ele respondeu que não, que já estava cansado de viajar.
As crianças eram muito mais apegadas a ele do que a
mim, e em muitas coisas isso me lembrava a relação entre você e seu pai, quando brincavam no quintal da nossa casa na Graça. Não estranhei muito quando o John voltou de uma viagem pelo interior, novamente junto com o Mister Forbes, e disse que tinha comprado uma fazenda, pois precisava de um negócio só para ele.
Por mais que me sentisse tentada, foi a minha vez de não dar palpites, de não sugerir o plantio disto ou daquilo, e por sorte a fazenda já tinha uma bela plantação de palma. Mas o John disse que não ia ficar só com a palma, pois tinha conhecido fazendas de brasileiros que aproveitavam para cultivar outras coisas no meio do palmeiral, que a cultura diversificada até fazia muito bem à terra. Depois de fechada a transação de compra, fui com ele visitar a fazenda, levando alguns dos operários para fazer uma reforma na casa principal.
Não era muito longe, pouco mais de cinco milhas de Uidá, em uma região com lagunas e de terra fértil. O
John estava muito orgulhoso da compra e tinha razão para isso, pois era bonito de se ver aquela fiada de palmeiras verdinhas plantadas muito em ordem, uma na linha da outra, até perder de vista. Era no meio delas, nos corredores, que ele queria plantar algodão, inhame, mandioca e milho. A casa ficava no alto de um morro e com muitas árvores de sombra e de frutas ao redor, sob as quais colocávamos esteiras para fazer piquenique.
Gostei de lá e os ibêjis gostaram mais ainda, principalmente quando mandamos um empregado buscar os cavalos que o Chachá tinha dado de presente para eles. Ficaríamos uma semana e ficamos duas, porque as crianças não queriam ir embora.
Eu não podia ficar mais tempo, pois tinha a obra do senhor Domingos em andamento, e o John queria que eu deixasse as crianças com ele, mas não confiei. Quando voltou a Uidá, ele mesmo tratou de arrumar uma ama de quem eu gostasse e em quem tivesse confiança para
cuidar dos ibêjis na fazenda, para onde iam com muita freqüência, ficando às vezes até um mês sem voltar para o sobrado de Uidá. Quando a saudade apertava eu ia até lá, mesmo porque era muito ruim ficar sozinha naquela casa enorme, construída e mobiliada do jeito que eu queria, para abrigar as pessoas de quem mais gostava.
Quanto a isso, fiquei um pouco aborrecida com o John.
Ele falava tanto em ter uma família, em ficarmos todos juntos; no entanto, permanecia mais tempo naquela fazenda do que em qualquer outro lugar. Até mesmo quando ele ia e voltava de Freetown, muito mais longe, ficava mais tempo comigo. Por sorte, eu tinha a companhia da Aina, da Jacinta, da Geninha e de mais alguns bons amigos que apareciam de vez em quando.
Casas da Bahia
Para compensar a falta do John e das crianças, eu trabalhava bastante, e mais ainda depois de encomendar da Inglaterra e da Alemanha alguns livros que ensinavam a fazer projetos de casas. Assim, o Felipe e o Rafíki olhavam meus desenhos e sabiam dizer mais ou menos o que iam gastar de material, quanto ia custar e o que dava e o que não dava para fazer. Antes mesmo que a construção da casa de Uidá chegasse à metade, o senhor Domingos comprou um dos desenhos para a construção de Aguê, querendo saber quando poderíamos começar.
E não foi só ele, pois eu era constantemente procurada por brasileiros que queriam saber quanto custava uma casa, e já tinha inclusive tratado mais uma construção em Uidá, para um comerciante baiano, e outra em Porto Novo, para um comerciante português. O negócio estava crescendo muito depressa e eu tinha medo de perder o controle. Em uma reunião com o Felipe e o Rafiki, decidimos que seriam no máximo quatro obras ao mesmo tempo, duas sob a responsabilidade deles e as
outras duas seriam dadas ao Dionísio e ao Crispim, que tinham partido da Bahia junto com eles. O Aliara era marceneiro, e portanto não tinha conhecimentos para tomar conta de uma obra sozinho. Mandei construir um escritório de dois andares no centro de Uidá, também com jeito de sobrado da Bahia, onde coloquei uma placa informando que ali era a sede da Casas da Bahia.
A construção era bem grande e ocupamos somente o andar de cima, alugando o de baixo para uma casa de comércio inglesa. Para que não precisássemos ficar deslocando empregados de um lado para outro, o que nem sempre era fácil ou perto, em cada uma das quatro equipes precisaríamos de pessoas especializadas em todas as etapas do trabalho. Escrevi ao Tico pedindo que mandasse mais homens de São Salvador, e foi uma agradável surpresa saber que eu já estava ficando famosa por lá também. Os marinheiros e comerciantes que transitavam entre as duas cidades comentavam que uma brasileira estava recrutando brasileiros para trabalhar em África, pagando muito bem.
O Tico disse que o difícil foi escolher, pois a todo momento alguém batia à porta da casa dele. Fizemos também reformas no terreno, deixando as casas apenas para os trabalhadores que tinham família, para que elas tivessem onde esperar por eles enquanto viajavam. Para os solteiros havia um alojamento longe do sobrado, para que tanto eles como nós, as famílias, ficássemos mais à vontade. Aquilo estava quase virando uma vila, com as famílias, as crianças, e até uma escola de artesãos que o Abimbola montou no galpão construído para ele.
Além dessas construções, mantivemos também o barracão que antes era usado pelos trabalhadores solteiros, onde guardávamos os materiais mais caros empregados em algumas obras, como madeira do Brasil, mármore, tecidos e pedrarias, além de ouro e prata, que muitas vezes eram usados para fazer enfeites ou
pequenos objetos, como puxadores de gaveta e de porta, detalhes em móveis, coisas assim. Para vigiar tudo isso, contratamos quatro guardas que também cuidavam da nossa segurança, pois de vez em quando sofríamos ataques dos selvagens invejosos que queriam nos roubar ou apenas assustar.
Perto da minha casa eram quinze casinhas e nove famílias, então sobraram algumas casas, que dei para os filhos da Aina, os quatro, cada qual com sua família.
Apesar de serem muito novos, os meninos estavam cuidando muito bem das suas mulheres, que, aos poucos, e no convívio com as brasileiras da obra, iam tomando jeito de gente. As duas ficaram pejadas com intervalo de poucas semanas uma da outra, estavam aprendendo a respeitar a Aina e até ajudavam em algumas coisas na nossa casa. O Aderonke tinha se interessado pelo ofício de marceneiro e estava aprendendo com os brasileiros, que comentaram que ele era muito esperto e logo poderia começar a trabalhar nas obras também. O Adedayo não tinha se interessado por nenhum trabalho na obra, mas gostava muito de animais, e em uma das estadas do John em Uidá, aproveitou para ir com ele para a fazenda e disse que era lá que queria trabalhar, no pastoreio, voltando para casa a cada dez ou quinze dias.
Relações
Eu ia para o escritório todos os dias e de lá coordenava as obras, separava e enviava os pedidos de material, comprava o que estava faltando, conversava com os proprietários e fazia novos contatos, para que as equipes nunca ficassem paradas. Pegamos muitas obras no interior, pois com a proibição do tráfico e a falência de muitos comerciantes de escravos, o litoral deixou de ser o local mais interessante para quem queria ganhar dinheiro em África. O negócio do John também ia muito bem e ele ficava cada vez mais na fazenda, que tinha
sido ampliada com um bom pedaço de terra, presente do rei intermediado pelo Chachá.
Ele também só empregava homens brasileiros, já que os selvagens não queriam saber de trabalhar. As suas mulheres sim, e trabalhavam duro na colheita dos cocos de palma e na feitura do azeite. Eu admirava e respeitava o John, e percebia que ele sentia o mesmo por mim, mas já tínhamos nos tornado apenas bons amigos, e não mais marido e mulher. De certa forma, eu até achava bom, porque quase não sentia mais desejo depois do nascimento dos ibêjis, e menos ainda depois que meu sangue parou de descer, muito cedo, segundo a lyd Kumani.
Ela, a Conceição e o Abimbola se entendiam muito bem, e muitas vezes ela dormiu na minha casa depois de passar horas conversando com os dois sobre o Brasil, os orixás, a África de antigamente e a que eles estavam vendo nascer. Nessas horas, eu gostava de me sentar ao lado deles, abrir algumas garrafas de vinho e ficar pensando na vida. Em muitas ocasiões, sentia grande saudade do Brasil, e cada passagem do navio dos sarôs por Uidá, com destino a São Salvador, era uma tentação a possibilidade de seguir junto com eles. A sinhazinha me incentivava, dizendo que sentia muitas saudades e queria conhecer os ibêjis, assim como tinha vontade de que eu conhecesse os netos dela também.
Ela já tinha quatro, dois da Mariana, um da Carolina, que já tinha voltado de Paris e se casado em São Sebastião do Rio de Janeiro, e um da Amélia, a terceira filha, que estava casada com um parente do novo marido da sinhá. Ela disse que a sinhá estava muito mudada e as duas já quase se consideravam amigas, passando temporadas uma na casa da outra. Nos dias em que a saudade era mais forte, eu pegava o baú onde tinha guardado aquelas coisas das quais não me separava, como a Bíblia, os livros do doutor Joaquim, o tabuleiro
do Francisco, o bastonete da confraria, a toalha da sinhá Romana e o lenço encarnado do Piripiri, eu pegava tudo isso e ficava à procura de alguém que quisesse me ouvir falar sobre cada um deles, sobre como tinham ido parar na minha mão. Eu não era infeliz em África, mas também faltava muito para dizer que era feliz. Faltava você, por exemplo.
Um acontecimento importante daquela época foi a grande festa que fizemos, com cerimônia na capela do forte, para celebrar o casamento do Rafiki com uma brasileira que ele tinha conhecido em Aguê, quando estava acompanhando a obra do senhor Domingos. Era uma boa moça, que tinha nascido em África, mas era filha de dois retornados de uma vila nas proximidades de São Sebastião do Rio de Janeiro. O Rafiki e o Felipe tinham comprado um terreno bem perto da minha casa e estavam esperando uma oportunidade, uma folga nas encomendas, para construírem as casas deles. Enquanto isso não acontecia, convidei a moça para morar comigo, já que o marido vivia viajando. O nome dela era Angelina, uma moça muito trabalhadeira que logo ficou bastante amiga da Hasina e da Homa, as filhas da Aina. Pouco tempo depois, o Felipe também se casou, ainda com mais pompa que o Rafiki, e a escolhida foi uma saro de Lagos chamada Karin, que ele também conheceu ao acompanhar uma obra. Quando ele pediu para a moça ficar morando comigo até que a casa deles estivesse pronta, do mesmo jeito que a do Rafiki, achei que era abuso e não deixei. Arrumei para elas uma das casinhas do terreno, da melhor maneira possível, e passei as casas deles na frente de duas encomendas que estavam esperando na fila.
Sempre tínhamos espera, que algumas vezes chegou a ser de três anos para o início da obra, o que valorizava o nosso trabalho, pois nunca montamos mais de quatro equipes, nunca confiamos em ninguém mais para
coordenar o trabalho, que queríamos bem-feito. Com o passar do tempo, os outros dois mestres-de-obras, o Dionísio e o Crispim, também ganharam participação na sociedade. O marceneiro, o Aliara, teria recebido uma parte se tivesse esperado um pouco mais, porque era um profissional muito bom.
Mas logo um brasileiro de Ilorin viu o sucesso que estávamos fazendo e resolveu abrir uma casa de construções também, que não foi para a frente. Ele conseguiu tirar mais alguns dos nossos homens, que devem ter se arrependido da traição, pois a empresa não durou nem dois anos. As pessoas preferiam esperar o tempo que fosse necessário para construir com a Casas da Bahia, porque não era só da construção que cuidávamos, mas também dos móveis e enfeites, entregando a casa pronta para morar. Para cuidar melhor dessa última parte, contratei um jimbanda que apareceu no escritório dizendo que era artista, que sabia tratar uma casa como se fosse uma obra de arte.
Achei o jeito dele bem estranho, mas o chamei para ir até a minha casa e mostrar o que sabia fazer. Ele mudou móveis de lugar, pegou alguns panos que estavam guardados no galpão, perguntou se eu conhecia uma costureira para fazer cortinas e almofadas novas, e em uma semana eu tinha uma casa muito mais agradável.
Foi contratado para cuidar de todos os enfeites das casas que construíamos, e também para fazer os desenhos de móveis e esculturas que eu comprava do Abimbola. A escola dele já tinha muitos alunos e uma boa produção, mas só fornecia para mim, não adiantava ninguém querer comprar nada dele, ao preço que fosse.
Van-Van
Acho que o nome do jimbanda devia ser Vicente, ou Vincent, não sei, mas ele gostava de ser chamado de Vin-Vin, escrito assim mas pronunciado à francesa, Van-Van.
Ele não dizia de onde era e nem a idade, e eu só sabia que tinha trabalhado alguns anos em São Sebastião do Rio de Janeiro com uma dançarina francesa, escravo dela, que, ao adoecer, voltou para a França e o levou junto. Passados alguns anos, a moça morreu e o Van-Van ficou pertencendo a alguns parentes dela, uma família que tinha uma fábrica de enfeites de vidro e cristal.
Ele também não contava direito a história de como tinha ido parar em Uidá, mas logo surgiram rumores de que tinha se apaixonado por um marinheiro e o seguira até lá, onde brigaram. O Van-Van era estranho, pois gostava de se vestir e se comportar como mulher, mas era uma pessoa de excelente coração, com muito bom gosto, trabalhador e honesto, e tive que ser bastante firme para defendê-lo de certos insultos e manter a decisão de trabalhar com ele. Os mestres-de-obras não queriam saber dele e ninguém o respeitava, embora todos ficassem admirados com a capacidade que ele tinha de fazer muitas belezas dentro de uma casa. Foi por isso que tivemos uma idéia, que começou como uma brincadeira, quando estávamos passeando pelo mercado de Uidá à procura de panos-da-costa e vimos um grupo de amazonas do rei Guezo. O Van-Van disse que adoraria ser uma delas, assim como eu também queria, forte e destemida, mas já que não tinha jeito mesmo, ele então gostaria de pelo menos ter algumas delas.
Foi o que fizemos; contratamos duas selvagens, fizemos para elas roupas parecidas com as roupas das amazonas, e elas andavam o dia inteiro atrás do Van-Van, protegendo-o de quem implicasse com ele. Era muito divertido ver o trio andando pelas ruas e nas obras, com as duas avançando para cima de todos os homens que tratassem o Van-Van de maneira desrespeitosa. Ainda bem que não éramos amazonas, pois ficamos sabendo coisas horríveis sobre elas, principalmente as que não eram parentes de sangue do rei, mas sim as jovens virgens musculosas que eram recrutadas nas aldeias e