Um Defeito de Cor
Capítulo nove
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.
O Ayodele ficou em casa durante quase uma semana, e senti muita falta quando ele teve que voltar para o trabalho, pois com a sua alegria era mais fácil suportar os meus dias presos à esteira. Por não conseguir segurar a comida, eu estava fraca para permanecer de pé durante muito tempo, o que a íyd Kumani também desaconselhava, pelo menos até que os ibêjis se firmassem dentro de mim. Naqueles dias pensei muito na sinhá Ana Felipa, que passava meses e meses de
cama para, no final, sangrar até perder as crianças, os abikus dela. Mas para a sinhá Ana Felipa era mais fácil, pois tinha cama e colchão macio, muito mais confortável do que a esteira dura sobre o chão de terra batida.
Eu tinha vontade de comentar isso com a Nourbesse, mas não tinha coragem. Tinha medo que ela entendesse mal, que achasse que eu estava fazendo desfeita da hospitalidade, já que naquela casa ninguém dormia em cama. Minha sorte foi que a Conceição comentou sobre esse bom costume do Brasil e perguntou se eu não queria que o filho dela fizesse uma cama para mim.
Aceitei na hora, combinei o preço, e três dias depois a cama foi levada até em casa, seguida por uma multidão de curiosos como uma procissão segue um santo no andor. Boa parte dos retornados usava camas, mas elas ainda eram novidade para quem nunca tinha saído de África.
Foi também a Conceição quem, a meu pedido, comprou pano e palha para fazermos um colchão, que ficou pronto no mesmo dia da chegada da Aina. O Ayodele tinha se desviado um pouco do caminho e passado na aldeia onde ela morava, avisando que eu tinha voltado.
Foi muito bom revê-la, principalmente porque tínhamos várias coisas para conversar, e assim o tempo passava mais depressa.
Aina
A Aina estava envelhecida. Era um ano mais nova do que eu, mas parecia muito mais velha, principalmente por causa da magreza. Assim como o Ayodele, ela trabalhava muito, e passava por grandes dificuldades depois da morte do marido, havia mais de cinco anos. Quando se casaram, ele era bem mais velho do que ela, tinha cinqüenta e cinco anos e ela tinha dezesseis. Era a terceira esposa, e o marido até já tinha muitos filhos mais velhos do que ela, e depois da morte dele alguns
desses filhos ajudaram a Aina a manter as crianças, mas a família era grande e a terra era pouca para sustentar todo mundo.
Fiquei com pena e a apoiei quando ela comentou que estava pensando em voltar para Uidá, mas o problema era que as duas filhas casadas tinham que ficar na aldeia com os maridos. A menos que eles também quisessem se mudar, e era bem provável que não, a Aina não queria deixar as meninas por lá, passando necessidade. Elas se chamavam Hasina e Homa, tinham dezesseis e dezessete anos, e a mais velha tinha uma filha de um ano, chamada Jani. Os meninos, Aderonke e Adedayo, que eram solteiros e tinham ido com ela me visitar, tinham quatorze e doze anos. Eram as pessoas mais tristes que eu já tinha visto, sempre quietos a um canto, quando não ficavam agarrados aos braços da mãe, calados e distantes, com vergonha até de responder ao que perguntávamos. Quando respondiam, era cochichado no ouvido da Aina, mas ela comentou que eles não eram sempre assim, que logo se acostumariam. Somente uma semana depois da chegada foi que ouvi a voz de um deles, perguntando à Zira sobre mim. Mas comigo só falaram quase três meses depois, quando a Aina já tinha decidido ficar de vez.
Em uma das voltas para a fazenda, o Ayodele passou pela tribo e disse que ela não ia mais voltar, que ela e os meninos ficariam morando com a antiga família. Mais tarde, longe dela, ele me contou que por ela os selvagens nem ligaram, mas tinham ficado muito bravos pelos
meninos,
porque
queriam
que
os
dois
trabalhassem nas roças e se casassem com as primas, ficando responsáveis por elas.
As filhas, a Hasina e a Homa, ficaram tristes porque gostavam muito da mãe e não queriam aceitar a separação, mas o Ayodele conversou com elas e conseguiu convencê-las de que, apesar de a mãe
lamentar muito por ter que deixá-las, era o melhor a ser feito, que a mãe seria bem tratada em Uidá e estava feliz com a mudança. Ele comentou que viu nos olhos delas muita vontade de irem embora também, mas, com os maridos vivos, nada poderia ser feito. Se eu tivesse dinheiro e não estivesse pejada, teria pedido ao Ayodele que desse um jeito de roubar as meninas e levá-las para a casa que eu gostaria de alugar.
Eu gostava muito da Aina e percebia o quanto ela sofria por ter deixado as filhas e. principalmente, por tê-las obrigado a se casar cedo, pois não tinha condições de sustentá-las sozinha e achava que um marido facilitaria a vida delas.
Havia muito tempo que a Aina não ia a Uidá, desde a morte da Nilaja. Aliás, ela se lembrou de que as últimas três idas tinham sido por causa de mortes, primeiro a da Titillayo, depois a do Akin, e por último a da Nilaja.
Estava muito feliz por se encontrar em casa, e disse que havia muito tempo que não se sentia tão bem. Isso, com certeza, também era por estar longe da família do falecido marido, que, pelo que me contou, não se esforçava para facilitar a vida dela, muito pelo contrário.
O certo seria que algum dos irmãos dele a tomasse como esposa, mas eles não quiseram.
Devo dizer que a Aina não era uma mulher bonita, e se tornava ainda mais feia por estar tão magra, já que os homens africanos gostam de mulheres gordas. Quanto mais gordas, mais eles gostam. Mas isso era só com eles, pois eu gostava da minha amiga de qualquer jeito.
Trocando confidências, tive coragem de contar sobre o John, e ela disse para eu ter fé, para esperar, que tudo ia acontecer da melhor maneira possível. Mas meu coração dizia que ele não ia voltar, que eu tinha que dar um jeito de me levantar daquela cama o mais depressa possível e começar a trabalhar. A Aina lembrou que, por ser mãe de ibêjis, assim que eles nascessem eu poderia dançar
no mercado, como fazia a minha mãe.
Eu pensava muito nisso, mas chegava à conclusão de que seria uma das últimas alternativas, pois sentia vergonha. Não deveria, pois a minha mãe tinha muito orgulho daquele trabalho, mas, de certa forma, eu me sentia superior, mais capaz do que ela. Sabia muito mais coisas e tinha vivido situações diferentes, o que tornaria aquele
trabalho
muito
constrangedor,
um
reconhecimento de derrota ou a retomada de costumes que já não me diziam respeito. Se eu tivesse que dançar no mercado para sustentar meus ibêjis, com certeza o faria, mas seria apenas um trabalho e não um ritual de agradecimento aos deuses protetores dos ibêjis, como era para a minha mãe. A Aina não pensava assim, achava que dançar no mercado era uma honra, um presente que eu não poderia recusar.
Depois que eu confiei a ela o segredo sobre o John, ela também me contou que se arrependia muito de ter se casado. Quando conheceu o marido, ela, a Titilayo, a Nilaja e o Akin tinham ido visitar a Meni e a Sanja, que já estavam casadas e moravam em Cotonu. No caminho, pararam para descansar e comer em um lugar perto de onde o futuro marido estava pastoreando. Assim que viu a Aina, ele se aproximou da Titilayo, a mais velha, e pediu para ficar com a menina.
O pedido foi recusado, porque elas não o conheciam e porque ele era muito velho. Mas ele não desistiu e caminhou atrás delas por um bom tempo, até que aceitaram parar e conversar novamente. A Titillayo prometeu que pensaria, que na volta da viagem passaria pela tribo com a resposta, imaginando que até lá pensaria em alguma maneira de enganar o homem, voltando por outro caminho ou coisa assim. Ficaram uma semana em Cotonu e já tinham decidido que o Obioma e alguns amigos dele voltariam com elas e o Akin, conversariam com o homem e, se fosse preciso,
entrariam em guerra com a tribo dele, que poderia se ofender com a recusa. Foi na véspera da viagem que a Aina decidiu que não precisava de nada daquilo, pois queria se casar.
Ela gostava da idéia de ter uma casa, ter filhos e um marido, mesmo que tivesse que dividi-lo com outras. Ele tinha prometido uma casa só para ela e, por já estar velho, a Aina achou que morreria logo, deixando-a livre e com a possibilidade de encontrar outro marido, alguém de quem gostasse. Na volta, contra a vontade da mãe, da avó e do irmão, já ficou na tribo, nem foi até Uidá pegar as coisas dela, pois o marido disse que daria tudo novo.
Isso nunca aconteceu, nem a promessa de ter uma casa, pois assim que chegou foi para a casa onde já moravam as duas primeiras esposas e os filhos, e de lá nunca saiu.
Sempre que falava com o marido sobre as promessas não cumpridas, ele desconversava e dizia que não tinha condições, que já tinha muita gente de quem cuidar.
Como era a esposa mais nova, e mais nova até do que alguns netos e netas do marido, a Aina sempre trabalhou muito, quase como uma escrava deles.
Era obrigada a cuidar da casa, dos próprios filhos, dos filhos das outras e, de vez em quando, ainda ia para a roça. Eu tinha contado sobre a minha vida de escrava na Bahia e ela disse que até a preferia à vida que levava, pois teria pelo menos a oportunidade de ganhar algum dinheiro e comprar a liberdade, como eu tinha feito.
Choramos muito no dia em que tivemos essa conversa, e ela disse que queria ficar para sempre comigo, que muitas vezes tinha se lembrado de quando falávamos sobre o casamento dela com o meu irmão Kokumo, se ele ainda estivesse vivo.
Notícias e amigos
Escrevi para o Brasil, para a sinhazinha e o Tico, dizendo onde estava e para onde poderiam me mandar
respostas. Não contei muita coisa, apenas o essencial, mesmo porque precisava que a carta chegasse logo, antes da mudança da sinhazinha. Contei à Conceição que sabia ler e escrever em português e inglês e pedi a ela que espalhasse a notícia entre os retornados, oferecendo meus serviços para quem quisesse mandar cartas para o Brasil.
Eu pensava nisso como uma maneira de passar o tempo e também de ter notícias dos acontecimentos em África e no Brasil, ao ler as respostas que poderiam chegar. Fiz isso como trabalho enquanto permaneci com a Nourbesse, para poder contribuir pela minha estada na casa, pois a maioria das pessoas me pagava com comida.
Uma galinha, um pedaço de carne de carneiro, uma braçada de inhame ou um cesto de frutas. A Aina disse que nunca tinha visto tanta fartura, e comecei a acreditar que a magreza dela também era fome, e não doença, como ela dizia. A Nourbesse e a Zira se revezavam cuidando da barraca no mercado e quase sempre voltavam para casa com alguém que queria me conhecer, e que eu só não recebia quando estava passando muito mal. Nem conversavam muito, era apenas curiosidade mesmo, entravam no meu cômodo e ficavam alguns minutos olhando para mim e para a cama, e depois iam embora.
Em alguns dias eu sangrava um pouco e tinha dores, e corriam para chamar a lyá Kumani, que vinha, rezava, passava a mão sobre a minha barriga e dizia que estava tudo bem, que os ibêjis iam ficar bem. Era interessante que, quando tudo estava bem, eu pensava que seria melhor perdê-los, mas era só surgir algum problema que eu me apegava aos voduns e orixás, pedindo que não os tirassem de mim, pois eu não queria ser castigada pelos meus pensamentos. Eu estava pejada de três meses quando a barriga começou a crescer e chegaram novas visitas.
Ninguém tinha mandado, mas um mercador avisou ao Obioma que uma brasileira estava morando com os parentes dele em Uidá. O homem não soube dizer quem era, mas, assim que foi possível, o Obioma pôs a família na estrada e foram nos visitar. Fizeram a viagem em três dias, um dia de barco, através das lagoas e dos canais, e mais dois dias caminhando e parando muito. Revi o Obioma e a Meni, que já tinham por volta de cinqüenta anos, mais o filho solteiro deles, o Ojo, que tinha vinte e seis, e a filha de vinte e quatro, a Mene. A Mene era casada com um ijexá chamado Fatumã e já tinha duas filhas, a Negina, de quatro anos, e a Farana, de dois.
Eram crianças muito falantes, que ninguém na casa da Nourbesse conhecia, pois tinham nascido depois do último encontro deles. O Obioma disse que eu estava conseguindo reunir toda a família e por isso podia me sentir como se pertencesse a ela, e que assim que voltasse a Cotonu mandaria avisar a Sanja e a Anele em Porto Novo, para que elas também fossem nos visitar.
Era bom me sentir tão querida depois de tantos anos, e eles disseram que nunca tinham deixado de falar sobre mim, a Taiwo e a minha avó, e ficaram muito tristes ao saber o que tinha acontecido com elas.
Eu percebia que estavam curiosos em relação à minha vida de escrava, o que acontecia, o que faziam conosco, mas não tinham coragem de perguntar. Mais tarde eu percebi o motivo, pois, na cabeça deles, todos os retornados deviam se envergonhar de terem sido escravos algum dia, mesmo que no momento se encontrassem em condições muito melhores do que quem nunca tinha partido. A família do Obioma e da Meni ficou quase quinze dias, e por intermédio deles fiquei sabendo sobre os brasileiros que tinham se estabelecido em Cotonu, trabalhando nas plantações.
Acho que eles não se davam muito bem com os brasileiros, e muitas vezes paravam no meio de uma frase quando iam falar mal deles. Mas disseram que, se
eu quisesse, também poderia me mudar para lá, morar com eles e trabalhar nas plantações, que eles ajudariam a cuidar dos ibêjis.
Acredito que todos achavam que me faziam excelentes propostas e não sabiam como aquela possibilidade me angustiava, a de ter que trabalhar em plantações e morar em uma casa que não fosse a minha. Nem mesmo quando eu era escrava, na fazenda da Ilha de Itaparica, tive que fazer tal serviço, muito sacrificado. Mas é claro que eu dizia que ia pensar, e rezava para que meu coração estivesse errado quanto ao John, para que ele voltasse com o meu dinheiro e eu pudesse começar a fazer negócios.
Nas conversas que tive com o Ayodele, tentei tirar dele informações sobre os comerciantes de Uidá, quais eram os mais poderosos, quem era da Bahia, o que vendiam, o que falavam deles, essas coisas. Como eu já estava me sentindo melhor e a íyá Kumani disse que poderia me levantar, embora sem abusos, o Ayodele me levou para algumas voltas pela cidade, as primeiras desde a chegada. Como não senti nada depois que voltamos, a cada dia íamos um pouco mais longe, vendo mais coisas e conversando com um ou outro amigo dele ou com brasileiros que já sabiam quem eu era. Quando o Ayodele voltou para as plantações eu já saía sozinha, e bastava ficar sentada na praça para aparecer alguém querendo conversar. Eu gostava de ficar olhando o movimento ou a falta de movimento perto do Forte da Ajuda, onde tinha sido embarcada, e ao perceber a chegada de um navio, tinha esperanças de ser o Sunset, com o John.
Reconhecimento
Aos poucos fui conhecendo Uidá e ficando com mais e mais saudades da Bahia e de São Sebastião. Nela moravam alguns africanos que geralmente trabalhavam
com comércio, mas a grande maioria morava nos campos e só ia à cidade quando tinha alguma coisa para vender, fruto das pequenas plantações ou de pastoreio.
Tinham uma vida completamente separada dos brasileiros, que moravam quase todos na cidade, às vezes tomando ruas e bairros inteiros. Em algumas casas moravam até três ou mais famílias que geralmente tinham chegado no mesmo navio, do qual muito se orgulhavam. Quando um grupo de brasileiros se reunia, quase sempre havia comparações entre os navios nos quais tinham retornado, com cada um dizendo que o seu era o mais novo, o maior ou o mais bem equipado. Os brasileiros que retornavam no mesmo navio viravam quase uma família, e lamentei não ter passado por isso, ter viajado em um navio de carga e perdido o contato com a família do Juvenal, embora a Conceição soubesse onde eles estavam.
Em Uidá ouvia-se mais o eve, que logo recordei, mas também o iorubá, o fon e, de vez em quando, alguma outra língua africana, pois havia gente de vários lugares.
Os brasileiros faziam questão de conversar somente em português, e acho que isso acabava contribuindo para a fama de arrogantes, que aumentava a cada dia. Alguns já tinham construído casas que se pareciam o mais possível com as casas da Bahia, fazendo com que se destacassem muito das casas pobres, feias e velhas dos africanos.
Eu também queria uma daquelas, que eram o sonho de todo retornado e até de alguns africanos, embora eles não admitissem, por causa das rivalidades. Todos os retornados se achavam melhores e mais inteligentes que os africanos. Quando os africanos chamavam os brasileiros de escravos ou traidores, dizendo que tinham se vendido para os brancos e se tornado um deles, os brasileiros chamavam os africanos de selvagens, de brutos, de atrasados e pagãos. Eu também pensava assim, estava do lado dos brasileiros, mas, além de não
ter coragem de falar por causa da minha amizade com a família da Titilayo, achava que o certo não era a inimizade, não era desprezarmos os africanos por eles serem mais atrasados, mas sim ajudá-los a ficar como nós. Eu tinha vontade de ensinar a eles a maneira como vivíamos, como nos vestíamos, como cuidávamos das nossas casas, como comíamos usando talheres, e até mesmo ensinar a ler e a escrever, que eu achava importante. Mas a maioria dos brasileiros não pensava assim, principalmente os que não tinham encontrado suas famílias ou tribos, destruídas nas tantas guerras que aconteciam em África.
Os brasileiros faziam questão de se afastar ainda mais dos selvagens conversando sempre em português e dizendo que não cultuavam mais os deuses dos africanos, que professavam a fé dos brancos, o catolicismo. Gente que, no Brasil, provavelmente tinha orgulho de não se submeter à religião católica e fazia questão de conversar em línguas de África, como forma de dizer que não tinha se submetido aos brancos, mas que, de volta à terra, negava esses costumes. Quando algum brasileiro ia me visitar na casa da Nourbesse, muitas vezes eu não sabia direito o que fazer, em que língua conversar com ele, como me comportar. Embora me sentisse muito mais à vontade falando o português, achava um desrespeito com os donos da casa. Achei piada quando a Nourbesse me contou, quase em segredo, que a Sanja e a Anele tinham se casado com brasileiros. Aquilo me pareceu um segredo de família ou algo assim, uma situação que devia constrangê-los tanto quanto constrangia as duas irmãs, pois a família não sabia de que lado ficar, se dos africanos ou dos brasileiros.
Ela também disse que a Sanja e a Anele enfrentaram dificuldades para serem aceitas entre os brasileiros, mas que já estava tudo superado e eram muito felizes. As mulheres africanas gostavam de se casar com
brasileiros, que podiam dar a elas condições de vida muito melhores que os homens africanos. Africanas que se casavam com brasileiros tiravam a sorte grande ao mesmo tempo em que envergonhavam suas famílias, principalmente aquelas famílias que nunca tiveram ninguém vendido como escravo. Mas isso acontecia apenas nas cidades, porque nos campos a situação era bem diferente, como vou contar depois.
Alívio
Certo início de noite, uma bagunça na rua chamou nossa atenção e saímos todos, para entrar logo em seguida, com medo de nos machucarmos. Era época do entrudo no Brasil e, em alguns lugares da cidade, os retornados também faziam o seu. Os africanos não gostavam e saíam atrás deles, provocando brigas e confusões, causando muitas mortes. Mas aqueles que estavam na nossa rua não eram brasileiros, e sim africanos imitando brasileiros, bebendo cachaça e batendo tambor, sendo que alguns ainda usavam máscaras feitas com cabeças de carneiro. Contei para os da casa como eram os entrudos de São Salvador e de São Sebastião, onde eu tinha participado de um com o Piripiri.
E foi com a imagem dele na cabeça, do Piripiri, que demorei a reconhecer a pessoa que andava atrás dos africanos, naquela imitação de entrudo. Foi muito estranho, primeiro porque eu já não esperava mais, e depois porque não consegui relacionar imediatamente a imagem à pessoa, não consegui associar aquele rosto ao John, quase quatro meses depois que ele tinha me deixado em Uidá. Mas era ele que andava um pouco atrás dos africanos, prestando atenção às pessoas que saíam às ruas e olhando para dentro das casas, e se assustou com o grito que soltei da janela, chamando por ele.
O John se aproximou sorrindo, parou na minha frente e
ficamos nos olhando, sem saber o que dizer. Quero dizer, eu sabia, queria dizer que estava surpresa com a volta dele, que já não esperava mais, e me sentia muito feliz por ele ter cumprido a promessa. Mas aquela não era a hora nem o lugar. A Nourbesse perguntou se ele era meu amigo e eu respondi que sim sem tirar os olhos dele, e então ela o convidou para entrar. Como ela falou em eve, tive que repetir o convite em inglês, antes que ele se tornasse atração na rua, como estava começando a acontecer.
O John estava muito bonito e bem-vestido, e os africanos do entrudo já iam longe, fazendo com que a figura dele, à moda dos brancos, se destacasse no meio dos retardatários. Ele entrou e, finalmente, demos um abraço diante dos olhares curiosos da Nourbesse e da Hanna, que ainda não tinham ouvido falar dele. A Aina desconfiou e parecia ainda mais feliz do que eu, porque sabia das dificuldades que eu enfrentaria caso ele não voltasse, e também que, assim que tivesse dinheiro, eu alugaria uma casa e a levaria para morar comigo.
Eu não sabia se conversava com elas, explicando quem era o John, ou se conversava com ele, fazendo todas as perguntas que tinha vontade. Foi quando me lembrei dos ibêjis na minha barriga, notícia que precisava dar o quanto antes, mas não quis fazê-lo na frente de todo mundo. Mesmo que eles não entendessem nada do que eu e o John tínhamos para conversar em inglês, eu não queria dar aquela notícia na frente de ninguém, por não saber como ele reagiria. Convidei-o para dar uma volta e, quando estávamos saindo, chamei a Aina de lado e pedi que explicasse tudo aos outros, mas sem tocar no assunto do dinheiro. Caminhamos lado a lado, enquanto eu tinha vontade de pegar na mão dele, mas não tinha coragem, pois não sabia se ele de fato tinha voltado ou estava apenas de passagem, se tinha voltado por minha causa ou por causa do dinheiro.
Ele contou que tinham ido até Freetown e de lá até Capetown, para então retornar a Uidá, onde tinham chegado na noite anterior. Durante todo o dia tinha me procurado pela cidade, nos lugares onde sabia que os brasileiros moravam, sem me encontrar. O Sunset partiria dentro de três ou quatro dias, e se não me encontrasse, teria que ir embora sem falar comigo, mas antes tentaria de tudo para que isso não acontecesse, pois sabia da minha expectativa. À tardinha, tinha ido me procurar no mercado quando viu os africanos passando e se lembrou de que aquilo era uma festa de brasileiros, resolvendo ir atrás, porque eles poderiam levá-lo até outros brasileiros.
O John disse que tinha uma coisa importante para me contar sobre as mercadorias, e eu não sabia se pedia para ele falar logo ou se contava a minha novidade, que, aliás, já estava visível. Eu estava com a impressão de que ele já tinha olhado várias vezes para a minha barriga, sem ter coragem de perguntar. Eu disse que também tinha uma coisa importante para contar, mas ele preferiu dizer a dele primeiro, para se livrar de um problema, de algo que o incomodava muito, por não saber se eu iria concordar. Comecei a ficar preocupada, achando que ele tinha perdido o dinheiro ou as mercadorias, mas era bem mais simples, ele apenas tinha feito um negócio que não sabia se eu também teria feito.
Conseguiu vender minhas mercadorias em Freetown sem nenhuma dificuldade, e se tivesse mais também teria vendido, e usou o dinheiro para comprar pólvora e armas dos ingleses, principalmente as famosas espingardas de Birmingham, que estava negociando em Uidá com representantes do rei Guezo, com os quais se encontraria no dia seguinte. Tinha usado dinheiro dele também para adquirir uma boa quantidade, e teríamos um excelente lucro, mas estava com medo de que eu não concordasse com aquele tipo de comércio.
Comentei que provavelmente eu não teria coragem de comprar armas e pólvora, mas se ele garantia que era um bom negócio e que a venda estava garantida, por mim estava tudo bem. Ele me pareceu aliviado e até mais preparado para ouvir o que eu tinha para dizer, e falei sem mais rodeios. Disse que tinha descoberto logo depois de desembarcar e começar a passar mal, que já estava no quarto mês e eram ibêjis.
Ele não sabia o que eram ibêjis, e, quando expliquei, disse que então ficava alegre em dobro, que os filhos seriam muito bem-vindos e daria um jeito de ficar comigo o mais rápido possível, como tínhamos combinado na viagem. Ele receberia parte em dinheiro, que ia deixar comigo e parte em óleo de palma, que voltaria para vender em Freetown, mas, com a notícia dos ibêjis, precisava pensar melhor, porque não queria mais me deixar sozinha. Eu não sabia o que fazer de tanta felicidade, porque aquilo era muito mais do que esperava, o meu dinheiro de volta e ainda com o lucro de mais uma operação, e o John também de volta, dizendo que queria ficar comigo e com os filhos.
Ficamos juntos até tarde, conversando e combinando o que fazer, quando então ele me acompanhou até em casa e voltou para o Sunset. Meus amigos já estavam dormindo, mas não me livrei de contar tudo na manhã seguinte, quem era o John, o que tinha acontecido no navio, e, para minha surpresa, só então percebi que ninguém tinha perguntado antes quem era o pai dos meus filhos.
Naquela cidade as notícias corriam depressa e no início da tarde a Conceição me procurou para perguntar se a pessoa com quem eu tinha conversado também estava chegando do Brasil. Eu disse que não, que era um homem com quem eu tinha viajado e que íamos morar juntos, pedindo a ela que me ajudasse a alugar uma casa. A Nourbesse e a Hanna ficaram tristes com a
mudança, mas eu disse que daquele momento em diante teria uma família e precisava de uma casa só nossa.
Quando o John voltou, depois do encontro com os homens do rei Guezo, estava ainda mais feliz porque tinha feito ótimo negócio, recebendo metade em ouro e metade em barris de óleo de dendê, que precisava pegar nos depósitos do Chachá e embarcar para Freetown. Ele me perguntou se eu já sabia como comerciar por ali, porque achava complicado continuar fazendo negócio via comerciantes ingleses, como tinha sido aquele, e respondi que não, pois tive que repousar. Mas, em compensação, tinha encontrado uma casa, e quando a Conceição chegou com o nome e a morada de quem deveríamos procurar, o John ainda estava comigo. Ela disse que seria melhor eu mesma procurar o dono, que também era brasileiro, o que fiquei de fazer na manhã seguinte, pois naquela noite eu queria ficar novamente com o John, conversando e fazendo planos.
O pagamento que ele tinha conseguido era o equivalente a quase cinco contos de réis, muito dinheiro no Brasil e mais ainda em África. Achamos que o melhor seria guardar parte do ouro e trocar a medida que fôssemos precisando, inclusive para comprar uma casa. Quanto ao dinheiro da venda do óleo de palma, ia ser o nosso capital, o que usaríamos para nos estabelecer comerciando entre Uidá, Serra Leoa e São Salvador.
Fiquei muito animada com a presença dele, acreditando que tudo ia dar certo, que aquela volta à África ia ser muito boa.
Na manhã seguinte, um dos filhos da Conceição me levou até a casa, que era velha e pequena, com apenas um quarto, uma sala grande e um cômodo que serviria de cozinha, mas com um bom terreno. Não era nada do que eu esperava, mas estava bom para começar, principalmente porque não via a hora de ter um lugar só meu. Fomos conversar com o dono, um velho brasileiro
chamado Agenor, que tinha voltado havia mais ou menos dez anos, empregara todo o dinheiro na compra de casinhas e vivia dos aluguéis.
Foi muito rápido fazer negócio com ele, e como adiantei três meses do pagamento, naquela mesma tarde a casa estava disponível. Mas ainda não pude me mudar, pois algumas providências precisavam ser tomadas. Para começar, não dava para a Aina ir morar conosco porque não havia espaço, mas ela prometeu que iria lá todos os dias para me ajudar, e combinamos um salário. Quando o John viajasse, ela ficaria para dormir comigo e, se quisesse, também poderia levar o Aderonke e o Adedayo.
A Aina nunca tinha ganhado dinheiro só dela e ficou muito feliz, fazendo planos de um dia ter as filhas de volta, se fosse do gosto delas.
O John não queria mais viajar, mas o convenci a seguir no Sunset até Freetown, pois estava me sentindo bem, o que foi confirmado pela lyd Kumani. Seria melhor ele mesmo tratar da venda do dendê e conseguir mais alguma mercadoria, já que não queria mais trabalhar para o Mister Macaulay, e sem aquela fonte de renda, precisaríamos ter uma boa reserva até conseguirmos contatos comerciais em Uidá. Dessas viagens, uma das coisas de que eu mais gostava era quando o John voltava para casa, não só por causa da saudade, mas também porque sempre me levava lindos presentes, como caixas de música suíças, lenços de seda de Madras e do Cantão ou colares de marcassita.
O John queria me ajudar na mudança, marcada para um dia antes da partida do Sunset, mas não foi possível por causa das visitas de Porto Novo. Com a chegada delas, a casa da Nourbesse virou uma verdadeira bagunça, com todos querendo conversar, querendo saber de mim e da vida no Brasil, e adiei a mudança para o dia seguinte.
Não havia mesmo muita coisa a transportar, somente alguns daqueles antigos pertences do tempo da minha
avó, e todos disseram que o John podia viajar tranqüilo, pois me ajudariam sempre que fosse preciso. Eles tinham gostado do John, mesmo não conseguindo conversar diretamente com ele, que, quando partiu, prometeu voltar o mais rápido possível, mas sabendo que ficaria fora pelo menos dois meses.
Daquela vez eu fiquei descansada, porque além de ter deixado comigo o ouro recebido do rei Guezo, ele tinha provado ser de confiança. O John também foi em paz, sabendo que eu já tinha uma casa, tinha amigos e estava sendo bem-cuidada. Mesmo sem ter recebido resposta da sinhazinha à primeira carta, escrevi novamente, contando todas as boas novas.
Brasileiros
Os parentes de Porto Novo estavam curiosos para me conhecer, principalmente porque os homens eram brasileiros e queriam saber notícias da Bahia. A Sanja estava em seu segundo casamento, mas nem contava o primeiro, porque o marido tinha morrido menos de um mês depois, em uma briga. Três anos depois ela se casou com o Pedro, um brasileiro que tinha voltado para a África em um mil oitocentos e vinte e três. Ele e o irmão, o Jonas, tinham trabalhado como carregadores no cais de São Salvador e embarcaram escondidos em um navio de carga. Os trabalhadores do navio ajudaram a escondê-los, e só foram descobertos na hora do desembarque, quando apanharam muito sob as ordens do capitão.
Bastante machucados, foram abandonados na praia, e a Sanja foi a primeira pessoa que se aproximou deles, para ver se estavam vivos. Foi ela também quem avisou outros brasileiros que conhecia, dizendo que havia dois deles caídos na praia, quase mortos. Os brasileiros foram até lá, recolheram os rapazes e trataram deles.
Depois que se recuperaram, eles estavam andando pelo
mercado e foram reconhecidos pela Sanja, que cuidava da barraca da Titilayo. Ela se apresentou e disse que ficava feliz em saber que tinham sobrevivido. Eles agradeceram a ajuda e contaram que estavam de partida para Porto Novo, onde pretendiam ficar por uns tempos, antes de seguirem para uma aldeia perto de Pobé, onde tinham nascido.
O Pedro se enamorou da Sanja, perguntou se ela queria ir junto, e como também tinha gostado dele, ela aceitou.
Acabaram nunca saindo de Porto Novo e tiveram três filhos, todos com nomes brasileiros. A mais velha era a Maria Rosa, casada com outro brasileiro, Daniel, com quem já tinha dois filhos, o Emanuel e o Ricardo, com dois e três anos. A filha do meio era a Beatriz, casada com o Augusto, com quem tinha uma filha com pouco mais de um ano, a Ritinha. O filho mais novo, ainda solteiro, era o Manoel. Quando a filha mais velha da Sanja e do Pedro nasceu, a família da Titilayo foi visitá-los e a Anele acabou ficando em Porto Novo para se casar com o Jonas, o irmão do Pedro.
Eles também tinham três filhos, mas ainda eram todos solteiros, o Joaquim, a Domitila e a Teodora. Sei que é muita gente e que você não vai se lembrar do nome de todos, mas só quero deixar registrado, ou talvez só saber que ainda me lembro. Eles também disseram que havia muitos brasileiros morando em Porto Novo, e que por lá ocorriam os mesmos problemas que em Uidá. A Sanja e a Anele, para serem aceitas entre os brasileiros, tiveram que aprender a falar português, língua que os netos e os filhos já conheciam melhor do que elas.
Eu gostei da visita deles, principalmente porque pude conversar com o Pedro e o Jonas sobre a Bahia, enquanto os outros ouviam com atenção. Eles tinham saído de lá quando estavam acontecendo todas aquelas confusões da independência da Bahia, com os portugueses escondidos dentro dos navios ancorados no
porto. Naquela época, muitos escravos conseguiram fugir do mesmo modo que eles, aproveitando a falta de segurança para se esconderem entre as cargas.
Conversar sobre a Bahia foi um jeito de sentir menos saudade, embora eu já estivesse bastante animada depois da volta do John.
Na primeira noite depois da chegada deles, como a casa estava muito cheia, dividi o cômodo com a Aina, a Hanna, a Nourbesse, a Zari, a Sanja e a Anele, e alguns homens tiveram que dormir no quintal, ao relento. No dia seguinte, tratei de cuidar da mudança, mesmo de forma precária. Levei as coisas da minha avó, a minha cama e três esteiras para a Aina e os dois filhos dela, que ficariam comigo até o John voltar, e aos poucos fui comprando ou mandando fazer as outras coisas de que precisava.
As visitas ficaram em Uidá por dez dias, e sempre nos encontrávamos para conversar e fazer festas, mas eu voltava logo para casa porque não estava agüentando muito aquela confusão toda, aquele ajuntamento de gente, e para isso tinha a desculpa de estar pejada de ibêjis e precisar descansar.
Eu e a Aina nos dávamos muito bem, e ela estava maravilhada com as coisas que eu tinha levado do Brasil, principalmente com os vestidos, que eu nem tinha como usar por causa da barriga, que estava crescendo muito, bem mais depressa do que nas vezes anteriores. Aliás, tive que mandar fazer roupas novas, e a Conceição levou até a minha casa uma costureira brasileira, que entendeu o que eu queria. Roupas simples e confortáveis, mas do jeito que se usava na Bahia. Foi por essa costureira que novamente ouvi falar do tal amigo do Chachá, o que o Ayodele conhecia e que na verdade era primo do Chachá, o Alfaiate.
Ele era baiano, morava na freguesia de Womé e tinha
sido o primeiro alfaiate de Uidá, por isso a alcunha. A costureira disse que ele não exercia mais a profissão, que naquele momento se dedicava ao comércio e estava muito rico, mas mesmo assim resolvi ir atrás dele, com a desculpa de que tinha ouvido o apelido, achando que ele ainda era alfaiate, e queria encomendar um fato para o John. Por azar, ele estava viajando, mas não perdi a caminhada, pois vi uma casa que estava desocupada e era bem melhor e maior do que a minha.
Menos de duas semanas depois, pouco antes de acabar o período pelo qual eu tinha pagado adiantado, fiz nova mudança. Ainda adiei um pouco para ver se o John voltava, pois ele partira havia quase três meses, mas não pude esperar mais. Queria que os ibêjis nascessem na casa nova, e embora a Iyâ Kumani dissesse que eles iam esperar o tempo certo, preferi não arriscar. Quando o John chegasse e não me encontrasse na casa antiga, com certeza se informaria na casa da Nourbesse.
A casa
A casa nova também era antiga, mas já se parecia mais com as casas da Bahia, pois tinha pertencido a um brasileiro. O chão era de tábuas, gastas e arranhadas, e o teto era bem alto, o que a deixava fresca e arejada.
Tinha também mais janelas e mais portas, embora o terreno fosse menor, o que não tinha importância.
Continuei sentindo falta de um poço, mas não era o caso de fazer investimento tão grande em casa dos outros.
O bom era que tinha quatro quartos, além de duas salas e a cozinha, e a Aina e os meninos poderiam ficar morando comigo de vez, mesmo quando o John voltasse, pois com o nascimento dos ibêjis eu ia precisar de muita ajuda. Às vezes eu me sentia um pouco sem jeito de tê-la como empregada, mas a felicidade dela, principalmente quando recebia o dinheiro, desfazia qualquer remorso ou constrangimento. Com a primeira féria ela também
mandou fazer roupas novas para ela e para os meninos, uma mistura do que usavam os africanos e os brasileiros.
Quando o John voltou, em meados de maio, aprovou a casa nova e os poucos móveis que eu tinha mandado fazer, principalmente a cama grande. A que eu usava na casa da Nourbesse, em um cômodo pequeno, era uma cama de solteiro, que eu dei para a Aina. Também tinha mandado
fazer
cômodas,
sofás
e
armários,
encomendados com os filhos da Conceição, mas era tudo muito malfeito, muito simples, nada parecido com os móveis do Brasil. Mesmo eu tendo feito o desenho e explicado o que queria, como eles trabalhavam na casa deles e eu já não tinha condições de sair da minha para supervisionar, por causa da barriga pesada, da dor nas costas e do inchaço nas pernas, nada tinha saído como eu imaginava.
O John disse que aquilo tudo era temporário, que construiríamos a nossa casa e teríamos móveis bonitos, do jeito que alguns brasileiros e os comerciantes ricos tinham, nem que precisássemos mandar vir do Brasil.
Foi mais ou menos por essa época que recebi cartas do Tico e da sinhazinha, ele se queixando da solidão e da vida triste que levava em São Salvador, e ela contando que estava muito animada com a mudança para São Sebastião. Para ela eu tinha contado também que estava pejada, e me parabenizou por isso, alertando que não era mais para escrever para São Salvador, e que assim que estivesse instalada em São Sebastião daria a nova morada.
Mais uma vez o John tinha feito bons negócios, comprando mais armas e pólvora para vender ao rei Guezo, e tinha se demorado porque precisava apresentar as pessoas com quem costumava negociar ao funcionário que ficaria no lugar dele. Ainda voltaria a Freetown pelo menos mais uma vez para resolver
algumas pendências, como também a Capetown, para conversar pessoalmente com o Mister Macaulay, mas faria isso depois do nascimento dos ibêjis. Ele já me encontrou bastante gorda e cansada, querendo ficar na cama, de onde só me levantava quando a dor nas costas ou o calor eram fortes demais.
A Aina tentava me distrair e sempre apareciam brasileiros querendo conversar, mas eu já não agüentava mais aquele confinamento. Queria que as crianças nascessem logo para poder cuidar da vida, conversar com as pessoas certas e começar a fazer negócios, que era do que eu gostava. Pensava também na casa que queria construir e para a qual provavelmente logo teríamos o dinheiro, se soubéssemos economizar.
Por sorte, e talvez por sentirem a minha agonia, as crianças resolveram nascer um pouco antes do tempo, contrariando as previsões da Iyâ Kumani. O John teve que sair de casa no meio da noite, junto com um dos filhos da Aina, que sabia onde ela morava, e quando voltou, a primeira das crianças, ajudada pela Aina, já tinha colocado a cabeça para fora sem que eu precisasse fazer muita força. Foi bom eu estar descansada, porque a segunda foi muito difícil, com a Iyâ Kumani tendo que enfiar a mão lá dentro de mim e colocar a cabeça no lugar certo, pois a criança estava com o corpo atravessado. Eu já estava ficando com medo quando ela finalmente nasceu, depois de eu ter pedido muito a ajuda da minha avó e de Nana, que colocaram ao lado da minha cama.
Desmaiei depois de tudo terminado e, por ter perdido muito sangue, fiquei dormindo e acordando durante mais de três dias, deixando todos muito preocupados, principalmente o John. Apareciam muitos brasileiros para rezar por mim e de vez em quando eu ouvia as vozes deles, do lado de fora da porta, rezando as Ave-Marias e os Pais-Nossos que tinham aprendido no Brasil.
A Conceição chegou a fazer promessa, que depois tive que cumprir. Ela prometeu que, se eu sobrevivesse, batizaria os ibêjis na capela do Forte de São João Batista da Ajuda, que de vez em quando recebia padre de Portugal ou de São Tomé.
Maria Clara e João
Quando finalmente acordei quase sem febre, o John, a Conceição e a íyá Kumani estavam comigo, enquanto a Aina cuidava das crianças no quarto ao lado. Pedi para vê-los imediatamente, e de fato eram um menino e uma menina, como a Iyâ Kumani tinha falado, e minha maior preocupação foi saber se eram perfeitinhos, se tinham boa saúde, apesar do tamanho. A Aina disse que sim, que eram saudáveis, e só tinham nascido pequenos porque eram ibêjis e se adiantaram um pouco, mas que choravam forte e estavam sendo alimentados por uma brasileira que tinha filhos pequenos.
Quando ela falou nisso foi que percebi porque os meus peitos doíam tanto, tão cheios de leite. Segurei uma criança em cada peito, ajudada pela Aina, e deixei que sugassem até dormir. A Conceição perguntou os nomes e eu não soube dizer, ainda não tinha pensado neles, pois tinha deixado para decidir junto com o John. A Aina comentou que, como eram ibêjis e tinham nascido no Daomé, onde nem se dizia ibêji, mas sim hoho, deveriam se chamar Zinsu, a menina que tinha nascido primeiro, e Sagbo, o menino que tinha nascido por último. A minha mãe tinha dado a mim e à Taiwo nomes em iorubá, e não em eve, provavelmente em homenagem ao pai que nem cheguei a conhecer.
Mas eu não queria dar nomes africanos para meus filhos, pois gostava mais dos nomes brasileiros, achava bonito o modo de dizer. Isso também contradizia o que eu pensava antes, quando não quis ser batizada para conservar meu nome africano, usando o nome brasileiro
somente quando me convinha. Mas naquele momento, vendo a situação em Uidá e, pelo jeito, em vários lugares da África, um nome brasileiro seria muito mais valioso para meus filhos. Eu também ainda pensava em talvez voltar para o Brasil, e os nomes facilitariam a vida deles, não seriam tão diferentes, apesar de nascidos em África.
O John concordou, depois de discutirmos se não seria melhor pôr nomes ingleses, e acabamos nos decidindo por Maria Clara, em homenagem à sinhazinha, como ela tinha feito comigo, e João, em homenagem ao John e também ao padre Heinz.
A Maria Clara e o João não saíam dos meus peitos, e todos diziam que assim era bom, que eles cresceriam melhor e mais depressa. Mas aquilo acabava comigo, que estava ficando quase tão magra quanto tinha sido a Aina, enquanto ela engordava, feliz com a boa vida que estava levando, apesar de trabalhar bastante. Pensei em arrumar alguém para ajudá-la, mas ela não quis, dizendo que aquilo não chegava nem perto de todo o trabalho que tinha na tribo, onde não ganhava dinheiro e nem comida suficiente.
Relações
Pouco mais de um mês depois do nascimento dos ibêjis, que tinha sido quinze dias antes do aniversário do Banjokô, quando eu já estava me sentindo um pouco mais disposta, o John começou a procurar navio para ir até Freetown. Eu queria aproveitar a ausência dele para cuidar dos negócios em Uidá, ver com quem tinha que conversar, essas coisas. Preferia tomar a frente dos negócios ali, não deixando tudo sob a responsabilidade dele, pois me sentiria mais segura. A convivência com o seu pai tinha provado que eu estava certa quanto a não ficar na dependência de homem algum. Ele partiu em meados de agosto prometendo voltar logo com tudo resolvido, inclusive as pendências em Capetown, para que enfim pudéssemos nos estabelecer de vez em Uidá,
cuidando da construção da casa onde ficaríamos em definitivo.
A primeira providência que tomei foi ir até o forte ver como faria para cumprir a promessa da Conceição. O
Forte da Ajuda pertencia aos portugueses, tinha pavilhão português, mas durante muito tempo esteve entregue ao governador da Bahia. Foi por isso que o Chachá tinha se mudado para Uidá, mas depois conto a história dele, embora tudo na cidade girasse em torno do seu nome, dos negócios que ele fazia e permitia fazer, da amizade e do prestígio que ele tinha junto ao rei Guezo. Quando estava em Uidá, ele habitava um casarão no Quartier Brésil que já tinha chamado a minha atenção por causa do tamanho e da beleza. Naquele ano de um mil oitocentos e quarenta e oito, o forte estava sob a responsabilidade de um tenente de infantaria chamado José Joaquim Líbano, em concessão ao governo de São Tomé, e não mais ao da Bahia.
Ficamos amigos no primeiro encontro, e quando não estava bêbado demais para responder por si, o José Joaquim era excelente pessoa. Ele me disse que a igrejinha estava sem padre, mas que dentro de pouco tempo provavelmente mandariam algum pobre-diabo para lá, assim que achassem alguém merecedor de tal castigo.
O tenente odiava Uidá e odiava o cargo no forte, que disse ser apenas de ostentação porque, na verdade, quem continuava mandando era o Chachá, enquanto a ele só restava obedecer e se humilhar para não ser castigado. Ninguém queria ir para o Forte da Ajuda, para onde só eram mandados oficiais que precisavam ser punidos, geralmente por insubordinação. Em alguns dias sob as ordens do Chachá, o mais impertinente dos homens logo ficava sabendo qual era o seu lugar e o que aquela estada reservava, torcendo para que alguém merecesse a punição de substituí-lo.
O José Joaquim morava sozinho no forte havia mais de cinco anos, sem família, e talvez por isso se sentisse tão desgraçado. Logo percebi que poderia obter informações valiosas com ele, e o convidei para almoçar na minha casa na semana seguinte. Comprei um garrafão de bom vinho português, ensinei a Aina a preparar comidas da Bahia e fiquei pensando no que queria perguntar, já que tudo que era importante naquela cidade passava pelo forte ou pelo Chachá, com quem o José Joaquim tinha muito contato. De fato, a conversa foi produtiva, e fiquei sabendo exatamente o que fazer, a quem procurar e de que maneira. O tenente contou que em Uidá se comerciava muita coisa, mas o importante mesmo era o comércio de escravos, apesar de proibido.
Aportavam ali muitos navios do Brasil, principalmente da Bahia, com passaportes falsos como se estivessem indo para Cabinda ou Molembo, onde ainda era permitido pegar escravos. Eu não estava interessada naquele tipo de comércio, mas deixei que ele falasse, na esperança de que alguma informação fosse útil. Ele pareceu ter gostado da oportunidade de falar livremente, porque não concordava com os horrores que aconteciam em frente ao Forte. Eu me lembrava do que tinha acontecido comigo, mas naquele momento as coisas estavam muito mais organizadas, talvez porque fossem mais arriscadas.
Com a vigilância dos ingleses, somente os comerciantes mais ricos e mais importantes continuavam no negócio, e tinham métodos bastante eficientes. Quase todos os escravos saíam de África com comprador ou consignatário certo, e os navios ficavam esperando por eles em alto-mar, afastados da costa.