Unison: A Rede Social do Futuro

Andy Marino · Capítulo 9 de 19

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Unison: A Rede Social do Futuro

9 - O relojoeiro

– M istletoe!

 

Ma buh! Ela se encolheu ainda mais na entrada escura da loja de velharias de Jiri. Não havia pior momento para ser reconhecida por um de seus vizinhos idiotas.

– Ei, Mistletoe!

O garotinho gorducho era chamado de Xampu, por causa do barulho que fazia quando espirrava. Tinha 8 ou 9 anos e parecia não ter pais. Ele era alérgico a quase tudo, e seu rosto estava coberto por estranhas manchas de sujeira permanente, como um dálmata. Às vezes Mistletoe lhe dava sobras de comida da casa de Dita.

Ela observou o garoto atravessar com passinhos miúdos o tráfego de pedestres da subcúpula. Não podia permitir que ele a encurralasse ali; quem quer que estivesse lá dentro podia sair a qualquer momento. Assim, começou a andar e passou pela frente da loja, sob a vitrine atravancada. Uma olhada rápida para dentro mostrou-lhe o facho de luz da lanterna indo de um lado a outro. Teria o ladrão ouvido Xampu gritar seu nome?

O menino deteve-se a seu lado, ofegando. O cheiro dele parecia o de uma fruta madura demais. Um longo rastro de meleca saía de seu nariz.

– Oi, Mistletoe, onde você estava?

– Vem aqui – ela disse, agarrando-lhe o braço de carne macia.

– Ai! O que você está fazendo... Isso dói!

Ela o fez dobrar a esquina e parou atrás de uma fileira de arbustos incrivelmente verdes e saudáveis. Guardou o atordoador e segurou o garoto contra a parede.

– O-o que...

– Me escuta, Xampu, você não me viu aqui. Você não sabe o que aconteceu comigo, mas não estou mais por aqui. Eu não moro mais na Pequena Saigon. Fui embora para sempre. Ninguém sabe pra onde. Entendeu? Faz que sim com a cabeça uma vez se você acha que entendeu.

Os olhos dele se encheram de lágrimas. Mistletoe pensou no passarinho que caíra em frente à sua scooter. Como era pequeno e delicado.

– Droga, só faz que sim, Xampu.

Ele acenou a cabeça freneticamente. As lágrimas escorriam por seu rosto, deixando na sujeira estrias mais claras. Ela o soltou. Ele secou o rosto com as costas da mão, espalhando toda a sujeira.

– Vem cá, deixa eu fazer isso – disse Mistletoe, e aproximou da face dele o punho da blusa, mas o menino se desviou e correu para o meio da rua apinhada. Ela resistiu ao impulso de ir atrás dele e explicar-lhe que naquele momento era perigoso ser amigo dela. Seria melhor para os dois se ele só tivesse medo dela, sem saber o motivo.

Ela dobrou a esquina e colou-se à parede da floricultura fechada. O policial do lado de cima que os perseguira antes, o do chapéu, segurava a porta aberta para seu parceiro, o Ruivo. Mistletoe se encolheu no chão; apenas mais uma criança sem casa, dormindo nas ruas da subcúpula.

Abrindo um olho, ela viu os policiais misturarem-se à multidão. Xampu talvez tivesse salvado sua vida: ela não imaginara que houvesse duas pessoas lá dentro; se tivessem aberto a porta enquanto ela esperava, estaria em desvantagem, apesar da arma.

Ela pensou no garotinho, encolhido em algum beco, imaginando por que a moça que sempre tinha sido tão boazinha tinha ficado tão violenta de repente. Fique longe de mim, ela pensou. Não sou quem você acha que sou.

Não sou nem quem eu achava que era.

Já fazia algum tempo que os policiais tinham sumido de vista, quando ela se sentou e vasculhou a multidão. Nenhum rosto familiar.

Voltou à loja e testou a maçaneta. Chapéu e Ruivo tinham trancado a porta depois de saírem. Ao lado dela havia um painel quadrado, um pouco mais escuro que o resto da parede. Ela o fez deslizar para o lado. Um teclado iluminou-se. Ela digitou a senha de Jiri, e então pressionou o polegar contra um pequeno quadrado de vidro. Jiri fora solitário e discreto, mas tinha confiado a ela sua loja.

A porta destrancou-se com um estalo e ela deslizou para dentro, imobilizando-se de imediato, à espera de que a movimentação horrenda acalmasse. O lugar estava infestado de baratas, que corriam por todo lado cada vez que um humano interrompia sua festa. Ela desejou que ao menos tivessem assustado os policiais.

Quando tudo silenciou de novo, ela percorreu apressada um corredor de torradeiras, passou por um barril de celulares e foi até um closet nos fundos da loja. Uma vez lá, abriu o painel de um segundo teclado. Jiri não lhe havia confiado, em absoluto, essa reserva especial, mas ela tinha fuçado e descoberto a senha. Ela esperou pelo clic e abriu com as duas mãos a porta pesada.

Uma luz mortiça na outra ponta do longo cômodo iluminava duas estantes bem ordenadas de armas de metal: bastões atordoadores curtos, como o que ela tinha surrupiado de Ivor; disruptores longos e ocos, que se amoldavam ao antebraço e formavam uma ponta afilada quando a pessoa cerrava o punho; pistolas em forma de L, com componentes pré-Unison.

Mistletoe examinou a fileira de disruptores até encontrar o menor deles. Toda sua superfície cinzenta exibia profundos arranhões, que revelavam o metal prateado por baixo.

Você combina com Nelson, pensou a garota, introduzindo a mão no tubo até que ele recobriu seu antebraço. Fechou a mão e a ponta alaranjada projetou-se para a frente, por sobre os nós dos dedos, na posição de disparo. Voltou a abrir a mão, e a ponta recolheu-se de novo; a arma toda ficou oculta sob a manga da blusa.

– Você precisa de um nome – sussurrou ela, mas nenhum lhe veio à mente.

Junto às prateleiras, Jiri havia empilhado caixas empoeiradas de balas. A garota movia-se ao longo da fileira de munição antiga quando seu sapato chutou um objeto metálico, que deslizou pelo piso e chocou-se contra a parede com um clanc. As baratas se alvoroçaram. Ela se ajoelhou e encontrou uma caixa metálica do tamanho e peso do dicionário velho que Jiri tinha em casa. Chacoalhou a caixa. O conteúdo moveu-se com um sussurro suave. Ela revirou a caixa entre as mãos, mas naquela penumbra não conseguiu achar o mecanismo de fechadura. E não havia juntas no metal; a caixa era inteiriça. Por que seria tão importante para Jiri, a ponto de ele tê-la trancado junto com as armas?

Com o disruptor sob a manga e a caixa na mão, Mistletoe saiu do closet, fechou a porta pesada e esperou que as baratas se reposicionassem na escuridão. Então arrastou-se devagar pelo corredor, passando pela cadeira de massagem que Jiri nunca deixara ninguém comprar só porque a garota a adorava. Depois de lançar um último olhar à loja, ela entreabriu a porta para observar a rua. Nem sinal dos policiais. Podiam estar escondidos em algum lugar, vigiando, mas esse era um risco que Mistletoe teria de correr. Ela saiu e fechou a porta atrás de si.

De volta ao espaço mal iluminado sob a varanda onde deixara Nelson, Mistletoe passou o dedo por cada milímetro da caixa, tentando encontrar alguma imperfeição no metal. Nada. Só havia uma coisa a fazer. Ela cerrou o punho, e o disruptor projetou-se de sua manga, envolvendo-lhe a mão. Com o polegar, destravou a trava de segurança. A vibração fez tremer seu braço e entorpeceu-lhe a nuca. Ela estremeceu, afastando a estranha sensação, e pousou o polegar na parte inferior do painel deslizante – o nível mais baixo de energia, pouco mais que uma fagulha. A vibração reduziu-se a um leve tremor. Fechou um dos olhos, mirou a caixa e recuou o ombro abruptamente.

O espaço sob a varanda iluminou-se como uma manhã do mundo lá de cima. A caixa voou, bateu no teto e abriu-se, pedaços de papel espalhando-se como as folhas tinham caído na rua diante da casa de tia Dita. Mistletoe apressou-se em recolhê-las enquanto caíam. As poucas páginas que não ficaram chamuscadas pelo disparo estavam cobertas com a letra ruim de Jiri. Ela apanhou as que ainda eram legíveis e arrastou-se de barriga até a beira da rua, onde havia alguma luz. Na primeira folha que ergueu, a parte superior, ainda intacta, dizia:

2230. Preparativos finais posicionados. Proceder à operação. 2300 Somos apenas quatro neste resgate – J, P, D, D. Mundo de cima em uma hora. Chegada ao hospital às 0200. Libertação dos alvos no laboratório às 0230. Sem tiros se a surpresa for bem-sucedida. Caso não seja, morreremos. Chega de preparativos. Só resta fazer. Carpe somnium.

Mistletoe pensou: J = Jiri. D = Dita. E o resgate só podia ser o dela mesma. Isso significava que aquelas notas tinham quinze anos de idade, como ela. Mas quem eram os outros, P e o segundo D?

Ela virou a folha. A letra de Jiri ficou ainda pior.

0530. Relatório da situação:

P morreu. Um só tiro em seu sistema nervoso. Alvo do sexo feminino libertado. Más notícias sobre o alvo do sexo masculino. Em outro hospital. Outro laboratório. Sem jeito de saber.

Mistletoe pensou no sonho que compartilhava com Ambrose. A segunda parte era só dela: segura de encontro ao peito ofegante de Jiri enquanto ele corria, atirando desesperadamente, os fios saindo da cabeça dela e caindo sobre os ombros.

Alvo do sexo feminino libertado.

Então eles tinham mesmo invadido um laboratório e conseguido arrancá-la de dentro de um tubo de escaneamento da UniCorp. Suas mãos tremeram. Várias páginas se desfizeram em fragmentos enegrecidos. Ela passou os olhos pelas restantes: gráficos detalhados de venda, fichas de inventário, recibos amarelados. Listas de palavras em Inglês Ocidental escritas na letra caprichada de tia Dita. Gato. Pássaro. Cachorro. Peixe. Ao lado de cada palavra, um desenho simples de cada animal. Material das antigas aulas de Dita.

Más notícias sobre o alvo do sexo masculino.

Ela pensou em Ambrose preso dentro do tronco de fios, as mãos ensanguentadas conectadas ao Unison. Talvez tivesse sido um erro abandoná-lo. Mistletoe desejou que ele estivesse ali com ela. Esmagando os restos carbonizados sob suas botas, pensou se deveria retornar ao laboratório dos irmãos. Puxou Nelson para fora do vão sob a varanda, e estava a ponto de colocar os óculos de motociclista quando viu algo: um relógio de pulso pré-Unison, vermelho, arremessado pela explosão para fora do local onde ela se escondera. Apanhou-o. Ainda estava quente, a pulseira torcida e queimada. O mostrador quadrado estava em branco, exceto por duas letras negras: UL.

Ela o virou. Como mostrava as horas? E seria mesmo para mostrar as horas? Havia cinco botõezinhos prateados alinhados na lateral. Mistletoe apertou-os, um a um. Não aconteceu nada. O relógio era sua única pista concreta, e ela o inutilizara antes que ele pudesse revelar seu segredo. Bateu-o de leve contra o painel que protegia a transmissão tão bem reconstruída de sua scooter.

– O que você acha, Nelson?

Ela tocou com um dedo as três engrenagenzinhas que pendiam de sua gargantilha, sob a blusa. Se Sliv conseguia consertar uma scooter lá de cima, com certeza podia dar um jeito numa coisa simples como um relógio de pulso.

– É isso mesmo, aquele cara – deu um chute em Nelson. – Eu sei. Cala a boca.

Meia hora depois, ela descia a toda velocidade ao longo de uma favela vertical, no centro de Rio II. Nelson chacoalhava sob ela, reclamando da velocidade insana. Ela abriu caminho, ziguezagueando, até a dianteira de uma caravana de scooters, todas tentando ganhar posições na via congestionada. As lentes de seus óculos se enchiam de borrões vermelhos e pretos, que ela tentava limpar com a manga da blusa. Rio II tinha um problema sério com mosquitos.

Ela disparou por uma viela que fedia a vísceras de peixe. Ao emergir, o velho Hospital dos Veteranos das Guerras Saturninas surgiu diante dela como uma aranha gigante, cada longa ala parecendo uma perna que se estendia a partir do domo central em ruínas. Não havia muita gente por perto; mesmo quem não acreditava em fantasmas preferia manter-se afastado do prédio abandonado. Segundo Sliv, era um esconderijo perfeito.

Um curto percurso acompanhando uma das pernas da aranha levou-a até o ponto onde ele, de surpresa, lhe dera a gargantilha – uma antiga porta de acesso no térreo, meio fora das dobradiças. Abaixo da abertura triangular, degraus de cimento desapareciam na escuridão.

Mistletoe desligou o motor de Nelson. O relativo silêncio – ao longe, vozes fundiam-se em um murmúrio distante, junto com o lamento abafado dos motores das scooters – relembrou-a da estrada dos transportadores de sucata. Ela desceu da scooter e com cuidado conduziu Nelson pelos degraus abaixo, usando o farol do veículo como lanterna. Sentia o peso reconfortante do atordoador dentro da manga.

O túnel estava vazio. Também estava muito limpo, sem nada da sujeira e dos escombros que se amontoavam em cada canto da subcúpula. Só o cimento liso e cinzento que se estendia a perder de vista. Mistletoe apoiou Nelson na parede e esperou. Sua presença não passaria despercebida por muito tempo.

Um som na escuridão à sua frente. Tuc-tuc. Tuc-tuc-tuc.

Ela prendeu a respiração e ficou escutando.

De novo, mais perto. Tuc-tuc-tuc-tuc.

Ela meio que esperava que um cego surgisse da escuridão e passasse reto por ela, a bengala tateando o piso diante dos pés. Em vez disso, um inseto metálico do tamanho de um cão pequeno apareceu nos limites da luz do farol. Suas pernas eram pistões de titânio, que deslizavam para a frente e para trás nas juntas dos joelhos. A cabeça era uma lente de câmera conectada por dois fios a algum tipo de bateria alcalina localizada nas costas. As lentes varreram Mistletoe de alto a baixo e voltaram a subir depois. Três engrenagens prateadas presas à bateria giravam em sincronia com os movimentos da câmera.

Mistletoe acenou.

– Oi, Sliv – saudou. Sua voz ecoou no túnel. O inseto pareceu encará-la por um instante antes de deslizar de volta para a escuridão.

Novamente a sós, ela cerrou o punho e a ponta do disruptor emergiu de sua manga. O inseto reapareceu, acompanhado por um disco circular de plástico, montado sobre rodas, que bateu em uma parede, mudou de direção, bateu na outra e veio por fim deter-se aos pés da garota. Um velho alto-falante amarrado em cima do disco soou, com uma chiadeira. Três engrenagens se moveram em sua lateral.

– Não esperava que fosse você, Anna – disse o alto-falante. Ela reconheceu a voz de Sliv por trás da estática.

– É Mistletoe.

– Hein?

– Meu nome.

– Eu tinha esquecido. Bem bacana seu canhão de braço. Andou fazendo compras?

– Mais ou menos – ela abriu a mão e a arma recuou. – Escuta, Sliv, preciso da sua ajuda.

O alto-falante soltou uma barulheira desconexa. Mistletoe estremeceu.

– Posso entrar pra gente conversar?

Mais estática. O inseto e o disco recuaram para a escuridão. Ela esperou alguns minutos por mais alguma orientação e, justo quando começou a avançar pelo corredor, ouviu os ecos de passos se aproximando.

Sliv apareceu à luz. Mistletoe tapou a boca com a mão para não gritar. A carne do braço esquerdo dele desaparecera, expondo um mecanismo interno de finos pistões de metal, como as pernas do inseto-câmera. No lugar da mão, três engrenagens prateadas reluzentes se encaixavam umas às outras, formando uma ponta oca.

– Também estou feliz em te ver – disse ele.

Ela percebeu que devia estar com os olhos arregalados pelo choque.

– Não é nenhuma novidade, eu sempre uso manga comprida quando saio – explicou ele, indicando com a cabeça a entrada do túnel.

– Mas a sua mão...

Ele apontou para uma série de grandes cápsulas que pendiam de seu cinto. Retirou uma e ajustou-a às engrenagens da ponta do braço. A cobertura abaulada deslizou, recolhendo-se, e revelou dedos revestidos de carne. Sliv agitou-os.

– Você fez isso? – perguntou Mistletoe.

– Ahã. Não foi difícil.

– Tecnologia lá de cima?

Ele se encostou na parede e afastou dos olhos o cabelo comprido castanho, prendendo-o atrás da orelha.

– Coisa de primeira – respondeu.

Mistletoe apertou os olhos para vê-lo melhor. Era a luz do farol que criava uma sombra sob o nariz de Sliv ou ele estava tentando deixar o bigode crescer?

– Toda essa pele é minha mesmo – ele disse, apontando para seu rosto.

Ela desviou o olhar e pensou em Ambrose, de terno, o cabelo loiro sedoso e dentes perfeitos, e então se deu conta de que, sem querer, havia acabado de comparar Sliv com ele.

– Desculpa – ela disse.

– Deixa pra lá.

Ela tirou do bolso o relógio de pulso queimado e estendeu-o para Sliv.

– Você faz ideia do que seja isto?

Ele limpou na camisa a fuligem preta, revelando o resto da etiqueta: ULL. Então ajustou outra das cápsulas do cinto nas engrenagens. Um conjunto de chaves de fenda e chaves de boca emergiu no lugar dos dedos.

Ele removeu a tampa do visor quadrado. Mistletoe inclinou-se para diante, curiosa.

– Você está fazendo sombra – reclamou ele, sem erguer o olhar. Ela recuou, encostando em uma parede, esperando enquanto ele atacava as entranhas do relógio com uma chave de fenda minúscula. Segundos depois, ele fechou a tampa e apertou um dos botões prateados.

Uma explosão como a de um flash pré-Unison preencheu todo o túnel com luz branca. Uma confusão luminosa de fagulhas cintilou e permaneceu congelada no ar entre eles. Sliv sacudiu o relógio e bateu-o uma vez contra a parede de cimento. As fagulhas reorganizaram-se em pequenos blocos de texto branco numa página externalizada azul-clara.

– ULL é a Universidade Litorânea do Leste – informou Sliv, banhado pelo brilho azulado. – E esta coisa é um banco de dados para um curso antigo. Um monte de material de pesquisa, dever de casa e porcarias desse tipo. Já tem alguns anos. Eles pararam de usar esses aparelhos quando a maioria dos estudantes implantou código fixo.

Mistletoe examinou a página. Havia um cabeçalho no alto:

CURSO E-56.8

NAVEGANDO NO MERCADO

FREELANCE DO UNISON

PROFESSORA DEIRDRE O’HANLON

Deirdre. Seria o segundo D que Jiri mencionava em suas notas?

A única coisa que Mistletoe sabia sobre a Universidade Litorânea do Leste era que ficava acima da cúpula.

– Preciso ir lá pra cima – disse.

Os dados do curso desapareceram. Sliv puxou uma mecha de cabelo de detrás da orelha e começou a enrolá-la entre o polegar e o indicador, pensativo.

– A gente está pensando em fazer uma expedição de busca amanhã à noite. Pode vir se quiser.

– Quem é “a gente”?

– Eu e minha turma.

– Você não tem turma.

– Tenho sim. A gente se chama... – ele olhou para Nelson, para Mistletoe e então para a base de dados do curso – ... Relojoeiros.

– Belo nome.

– Obrigado. É novo. Como o seu.

– Só que eu preciso subir agora.

Ele brincou com outra mecha de cabelo e olhou-a com curiosidade.

– Tudo bem, Anna Mistletoe.

– É só Mistletoe.

– Duas condições. Primeira: você vai me contar por que tem tanta pressa para subir. Segunda: seja lá o que vai fazer lá em cima, vai me levar junto.

– Primeira: não posso. Segunda: também não posso.

– Achei que ia dizer isso. Então é algum cara?

Isso a pegou de surpresa.

– O quê? Não, não é... Ma buh, Sliv, não tem nada a ver com... – Mistletoe suspirou. – Não tem cara nenhum. – Ficou pensativa um instante, mordendo o lábio inferior. – Você faz ideia de onde você veio?

Ele cruzou os braços. A mão mecânica repousava na curva do outro cotovelo. A camisa preta sem mangas deixava ver em seu ombro direito a tatuagem de um relógio escorrendo.

– Do mesmo lugar que você. Da Pequena Saigon.

– Ahã. E você sabe quem são seus pais?

– Mais ou menos.

Ela o encarou. Ele desviou os olhos.

– Tá legal – disse ele. – Você está procurando sua família.

Estou procurando a mim mesma, pensou ela, mas o que disse foi:

– É suficiente pra você?

– É sim – respondeu ele, depois de alguma hesitação.

 

¬ ¬ ¬

A entrada para a câmara estanque nos limites de Rio IIestava imunda, coberta de latas amassadas, cobertores ensebados e roupas sujas. Não era à toa que o lugar tinha problemas com mosquitos. Mistletoe apoiou a mão no guidão de Nelson e ficou ouvindo os sons familiares da subcúpula, isolando cada palavrão, cada risada, cada rugido de motor, para o caso de ser a última vez que ela os ouvisse. Ela não saberia dizer o que a assustava mais: o fluido de congelamento rápido ou a possibilidade de nunca mais ver de novo aquelas ruas. Pensou em Ambrose, na mesma situação, trocando a vida no lado de cima pela vida na subcúpula.

– A scooter fica – disse Sliv.

– Eu sei.

– Não vai caber – explicou ele.

– Eu já disse que sei.

Ela soltou o guidão, lembrando de todas as tardes em que saíra com Nelson pelo alçapão de sua varanda, descendo a toda ao longo da favela vertical e atingindo a rua. O dia em que Jiri trouxera o veículo para casa, ele reluzia, apesar da pintura descascada e do cromado sem brilho. Era como se estivesse dispensando seu melhor amigo.

– A gente vai cuidar dela – Sliv prometeu.

– Dele. E nada de desmontar ele para usar as peças.

– Palavra de Relojoeiro.

– Espera aí! Quer saber? Na Pequena Saigon tem um garotinho de rua chamado Xampu. Pergunta por lá que você encontra ele. Dá a scooter pra ele.

– Xampu?

– Diz que é um presente de Mistletoe. Ou nem diz. Não faz diferença.

Sliv a estudou, e então assentiu com a cabeça.

Eles observaram um grupo de pessoas lá de cima que estava junto à entrada. Usavam as jaquetas verdes do Conselho de Engenheiros da Cidade Litorânea do Leste. Os homens terminaram suas bebidas e jogaram as latas vazias no chão. Mistletoe apertou os olhos.

– Eles acham que isto aqui embaixo é uma lata de lixo gigante.

– Não esquenta – sussurrou Sliv, a mão sobre o ombro dela.

Um dos engenheiros olhou na direção deles, examinou-os por um instante, desconfiado, e então juntou-se a seus colegas na câmara estanque. A porta fechou-se detrás deles. Através do acrílico, Mistletoe podia ver o elevador subir até que a estrutura transparente se tornava um tubo sólido de aço plástico, penetrando na favela vertical acima deles. Ela seguiu seu avanço invisível através da favela, virando o pescoço para ver a cúpula. Acima daquilo, a câmara estanque se abria na Cidade Litorânea do Leste.

– Então, como faço para tomar o elevador sem uma ID? – perguntou. Se ela acionasse os gatilhos invisíveis da armadilha, o fluido congelante dispararia o alarme em uma guarita próxima; policiais e técnicos convergiriam para o local em poucos minutos. Ela já vira essa cena uma dúzia de vezes, da rua: câmara estanque fechada, corpo congelado. Então, enquanto a multidão de curiosos se formava, decidia-se se ele seria exibido ou destruído.

– Você não pode fazer isso, a menos que queira uma destas – Sliv ergueu sua mão de engrenagens.

– Nem pensar.

– Sabe, a câmara estanque de Rio II nunca funcionou direito. A gente conseguia passar pelos sensores sem ser detectado. Era bem prático.

– O que aconteceu?

– Ela foi consertada.

Sliv removeu um acessório prateado de seu cinto e o encaixou nas engrenagens. Mistletoe seguiu-o quando ele deu a volta à câmara estanque, e quase vomitou. Estavam no meio de uma pilha de sacos de lixo pretos. A maioria estava rasgada, vazando imundície. Ela sentiu no fundo da garganta o fedor úmido de podridão.

– Isso é nojento – reclamou, com voz apertada. – O que a gente tá fazendo aqui?

Sliv usou um dedo de verdade para abrir uma tampa deslizante do acessório. Três chaves de cobre emergiram da abertura. Ele se moveu entre os montes de lixo que chegavam à altura do peito até que pareceu satisfeito com algo que ela não conseguia ver. Ele enfiou a mão dentro de um dos sacos. Mistletoe tampou o nariz. Três estalos suaves, e ele abriu uma porta que estivera oculta pelos detritos.

Ele fez uma reverência meio séria, meio de brincadeira.

– Princesa, sua escada a espera.

Os olhos dela escalaram os trinta andares favela acima, até a superfície inferior da cúpula.

– Isso é um antigo poço de acesso para a manutenção da câmara estanque – informou Sliv. – Uma subida e tanto, mas é o que temos. Tem certeza de que não quer companhia?

Por um instante ela desejou que Sliv pudesse subir com ela. Seria legal estar com alguém que conhecia o território. Mas até mesmo começar a explicar o objetivo da jornada parecia impossível.

Acabo de descobrir que fui criada pela UniCorp. Meus pais são um tubo de metal e dois velhos esquisitos. Não faço a mínima de qual o motivo de minha existência. Aliás, é o que espero descobrir.

– Tenho que ir sozinha. Mas valeu.

Ela examinou por dentro o estreito poço de acesso. Degraus de metal enferrujado estavam presos à parede de cimento.

– Escuta – ele disse, fitando a gargantilha que tinha escapado pelo decote da blusa dela. – Não me esquece, tá?

Mistletoe tocou-lhe a mão mecânica.

– Não vou esquecer.

Dentro do poço, ela subiu no primeiro degrau e olhou para cima. Nem um raio de luz assinalando a saída. A garota respirou fundo e começou a escalada, as mãos agarrando um degrau depois do outro, em meio à escuridão absoluta. Daí a um instante, Sliv chamou-a.

– Ei!

– Que foi?

– Divirta-se na escola.