Unison: A Rede Social do Futuro
17 - Amigos
M istletoe perguntava-se se havia alguém em casa quando um pequeno retângulo abriu-se no centro da porta e um olho castanho olhou para fora. Ela achou que deveria tomar a iniciativa de apresentar-se, mas não sabia nem por onde começar a explicar a situação, e muito menos no degrau da entrada.
Então lhe ocorreu que não precisava explicar nada, e que talvez fosse melhor não fazê-lo.
– Oi – disse.
O olho se apertou.
– Meu nome é Mistletoe. Estou... – O quê? Cansada? Assustada? Confusa? – ... com sede.
O retângulo fechou-se. Um instante depois a porta se abriu. Era tia Dita. Suas feições eram mais angulosas, quase como um dos Chmura Dité, mas sem dúvida era ela. Estava até usando o cachecol amarelo. Mistletoe precisou morder o lábio por dentro para não pular em seus braços.
Dita examinou com o olhar a desconhecida lá de cima parada em sua porta.
– Você está longe de casa – disse secamente, com um leve traço de seu sotaque tão familiar. Não ficou de lado e nem convidou Mistletoe para entrar.
– Também estou perdida.
Dita riu.
– Como conseguiu vir de tão longe e chegar até aqui?
– É complicado – o coração de Mistletoe socava seu peito. Estou falando com Tia Dita, pensou, e ela não faz a mínima ideia de quem sou. Não parecia real.
Dita olhou por cima do ombro.
– Jiri! Traga água.
Mistletoe ouviu alguém resmungar dentro da casa, e em seguida o barulho de panelas e palavrões abafados. Dita deu um sorriso cauteloso.
– Então... você precisa de ajuda para voltar para casa?
– Não – respondeu Mistletoe, quase acrescentando Estou em casa!
Houve um longo intervalo. Jiri apareceu com um copo de líquido turvo.
– Água – disse, passando o copo para Mistletoe sem hesitação, como se desconhecidos com sede fossem algo comum por ali.
– Esta é... Mistletoe? – apresentou Dita.
Mistletoe confirmou com a cabeça, tomando a água. Tinha gosto de enxofre e parecia ter areia e era a melhor coisa que ela já tinha tomado.
– Mistletoe – repetiu Jiri. – Hunf.
Ela tomou a água até o fim. De fato estava com sede. Ficaram em silêncio um instante até que Jiri pediu licença erguendo um dedo. Mistletoe ouviu o ruído metálico de sua cusparada na pia da cozinha.
– Maj buhe – suspirou Dita. – Os hábitos desse homem...
– Eu sei – disse Mistletoe. – E obrigada pela água.
Ela ainda segurava o copo vazio. Dita estudou-lhe o rosto.
– Você gosta de chá? Já íamos fazer.
¬ ¬ ¬
Mais tarde, quando estavam terminando de beber o chá, algum outro visitante inesperado bateu à porta. Jiri e Dita se entreolharam.
– Isso aqui virou a estação do Oitavo Quadrante de Nova York – resmungou Jiri, erguendo-se.
– Estamos batendo algum recorde – concordou Dita.
– Esperem! Eu atendo – disse Mistletoe, levantando-se com uma pressa que surpreendeu até a ela.
Dita lançou-lhe um olhar furioso.
– Está esperando alguém?
– Não sei – respondeu Mistletoe. – Mais ou menos.
Antes que Jiri pudesse se adiantar, Mistletoe correu para a porta de entrada. Pousou a mão na maçaneta e parou, preparando-se. E se não fosse ele?
Toc, toc, toc.
Ela abriu.
– Eu disse que te encontraria – falou Ambrose. – Bonito corte de cabelo.
– Bonito rosto.
– Quem é? – gritou Jiri, da cozinha.
– Um velho amigo – disse Mistletoe, pegando na mão de Ambrose.