Unison: A Rede Social do Futuro

Andy Marino · Capítulo 3 de 19

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Unison: A Rede Social do Futuro

3 - Não olhe para trás

– Espera aí! – disse Mistletoe.

Até aquele momento, ela deixara Ambrose contar sua história sem interrompê-lo, as palavras ecoando dentro do elevador. Estavam parados no alto de uma favela vertical, distante poucas quadras da sua, mas ele parecia não ter notado. O garoto tentava entender as últimas horas. Mistletoe sabia como ele se sentia. Num momento ela estava sonhando acordada na sacada; no instante seguinte estava vendo Jiri morrer.

– A mulher no seu ouvido, fone, sei lá, disse Carpe somnium? Tem certeza?

Ambrose deslizou um dedo pelo caule da flor pichada.

– Tenho. O segurança também disse isso. Significa...

– Aproveite o sonho. Em latim. Não sou uma mané ignorante. Dita e Jiri dizem isso o tempo todo.

Ela apertou o único botão na parede. As portas se abriram, rangendo em protesto. Ambrose olhou, assombrado.

– Tudo aqui é tão velho! – comentou.

Ela lhe deu um empurrão. Foi mais forte do que pretendia. As costas de Ambrose chocaram-se contra a parede e seu queixo caiu quando a menina lhe barrou a saída. Mistletoe teve vontade de rir da cara assustada que ele fez. Pelo visto, aquele menino não estava acostumado a ser empurrado. Ela o encarou de frente.

– Jiri era meu amigo, tá legal? E ele morreu tentando te salvar. – Não tinha certeza de nenhuma das duas coisas, mas soava dramático. – Lembra disso da próxima vez que for dizer que meu bairro é velho, ou fedido, ou barulhento, ou que tem gente demais, se bem que é tudo isso mesmo, só porque você vem de lá de cima e...

Ela chegou mais perto e o cheirou. Ele recuou o máximo que pôde.

– Você tem cheiro de salada de fruta.

Ele engoliu em seco.

– É uma colônia de essência cítrica sintética. De Bruxelas.

– De onde?

– Bruxelas, uma cidade na...

– Tá, esquece. Cala a boca. Vamos.

Ela tirou Nelson do elevador e esperou que Ambrose pulasse na garupa. O menino se acomodou devagar, cauteloso, como se Nelson fosse algum transportador defeituoso que a qualquer momento iria jogá-los longe.

– Ele não morde não, viu?

Tomaram um caminho estreito e esburacado que percorria o alto da favela vertical, paralelo a uma feia parede cinzenta onde enfileiravam-se janelas sem vidros ou bloqueadas por tijolos e tábuas. A superfície inferior da cúpula, a pintura cor creme toda descascada, estendia-se pouco acima de suas cabeças. Centenas de casebres iguais ao que ela dividira com Jiri amontoavam-se sob eles, encosta abaixo até o asfalto. Vielas parecidas com córregos preguiçosos dividiam em platôs aleatórios a massa de casinhas.

– Que lugar é este? – perguntou Ambrose.

Mistletoe olhou em volta, confusa, até lembrar-se de que ele nunca estivera na subcúpula. Era impossível para ela colocar-se no lugar dele e imaginar como seria ver pela primeira vez os lugares familiares de seu dia a dia. Quando tia Dita a levara escondida ao lado de cima para visitar a Zona Recreativa Designada para Jovens, sentira-se desamparada sem a cúpula sobre sua cabeça, como se fosse flutuar para longe da superfície terrestre e nunca mais parar de subir. Talvez Ambrose tivesse a sensação oposta, de estar aprisionado.

– Sabe aqueles prédios enormes de escritórios e apartamentos que vocês têm? – perguntou.

– Os atmoedifícios. Eu moro num deles.

– Já esteve na parte de baixo deles?

– Claro que sim. Meu restaurante favorito está no térreo, onde eles servem um...

– Não, não o térreo, cabeção. Na parte de baixo.

Mesmo ansiosa para chegar à casa de tia Dita, ela reduziu a velocidade para que Ambrose pudesse absorver aquilo tudo. De novo notou como o motor da scooter soava barulhento quando estava longe das ruas da Pequena Saigon. Como ela gostaria de poder comprar um silencioso para o escapamento.

Ambrose roçou a mão ao longo da parede, deixando na sujeira o rastro tênue dos dedos.

– A parte de baixo...

Mistletoe achou que ele externaria o resto de sua súbita compreensão, mas o garoto não disse mais nada. Ela então contou a história da vida sob a cúpula, na versão resumida que construíra a partir de conversas com Jiri e tia Dita.

– Primeiro inventaram o aço plástico. Então os prédios começaram a chegar até as nuvens. Ninguém com grana para viver no alto queria ficar na parte baixa. Daí os andares de baixo ficaram para gente como eu e Jiri, mas depois de um tempo gente como você decidiu que era muito perigoso ter ricos e pobres no mesmo prédio. Evacuaram os primeiros trinta andares e encheram tudo com vigas extras de suporte de aço plástico para ninguém voltar. No fim todos ficaram assim. A gente construiu casas subindo encostadas nos prédios de vocês, e aí vocês instalaram a cúpula. Foi tudo um enorme toma lá dá cá.

– Houve revoltas – disse Ambrose com suavidade, como se corrigisse uma criança bem-intencionada mas equivocada.

Mistletoe pensou em meter o cotovelo na cara dele e empurrá-lo barranco abaixo. Em vez disso apertou o guidão até os nós dos dedos ficarem brancos e manteve os olhos no caminho à frente. Tentou afastar a imagem mental do policial ensanguentado e da agonia muda de Jiri, mas a cena estava gravada a fogo em sua memória. Uma onda de náusea apertou-lhe a garganta e o coração. Estou chegando, tia Dita, pensou.

– Já não era uma sociedade civilizada – continuou Ambrose. – Era o caos. A Lei de Divisão da Cúpula da Cidade Litorânea do Leste foi necessária porque as pessoas estavam se matando. Está tudo nos arquivos. Veja, posso mostrar o vídeo da coletiva de imprensa.

Ele pôs a mão perto do rosto dela e virou a palma para cima. Nada aconteceu.

Ela ergueu uma sobrancelha quando ele virou a mão de novo.

– O que você está fazendo?

– Não consigo entrar online. Não tem sinal.

– Você usa a mão pra isso?

Ela continuou olhando para a frente e colou na parede quando três scooters velhíssimas passaram a toda no sentido oposto, deixando um rastro fedorento de fumaça de óleo queimado.

– Como assim? Todo mundo... – Ele se interrompeu e depois recomeçou. – Tudo está implantado no alto da minha espinha dorsal. Receptor com código fixo, transmissor, etiquetas de ID. Posso externalizar a informação pela palma da mão. Lá em cima isso não é nada... estranho.

Mistletoe lembrou-se de já ter visto cenas de telejornal em que as pessoas viravam a mão. Externalizando. Montes de informação surgindo na palma da mão e sumindo em pleno ar com a mesma rapidez.

– Aqui embaixo a gente usa celulares. E o sinal é sempre fraco, isso quando tem – explicou.

– Mas o sinal é gratuito. E tem em todo canto.

Ela deu de ombros.

– Lá em cima, pode ser.

Passaram por uma fila de cachorros de rua deitados junto à parede. Os que estavam acordados olharam para eles com preguiça, línguas rosadas pendendo da boca. Ambrose apertou a cintura de Mistletoe com mais força.

– Duvido que ataquem.

O rapaz engoliu em seco.

– Então essa parede cheia de janelas quebradas é a lateral de um prédio de apartamentos?

– O trigésimo andar. O mais alto que alguém consegue empilhar uma casa.

Passaram diante de uma janela desimpedida, aberta para o interior escuro do edifício.

– O que tem lá dentro? – ele perguntou. – Apartamentos vazios? Quanto espaço existe entre as vigas de suporte? Com certeza milhares de pessoas ainda podem viver aí. Nunca fizeram uma reforma?

– Não. Ninguém entra aí. – Ela estremeceu.

– Por que não?

– Quero dizer, ninguém que entra aí consegue sair.

– Ridículo.

– Você também não ia entrar, se soubesse o que rola. Não ia nem chegar perto de uma janela dessas.

O caminho mergulhou de repente, levando-os a uma ponte caindo aos pedaços, feita de tábuas atadas com arames velhos. Nelson ajustou-se ao ritmo dos solavancos.

– Se soubesse o quê? – Ambrose indagou, as palavras ecoando estridentes quando, sob a ponte, as casas deram lugar ao vazio.

– Nada, não. – Ela não queria falar sobre o Horror, nem agora, nem nunca. – Estamos quase chegando à casa da tia Dita. Ela vai saber o que fazer.

– Quem é ela?

– A irmã de Jiri.

– Não, quero dizer, o que ela faz na vida? Qual a contribuição dela para a sociedade?

– Contribuição para a sociedade?

Ambrose era o cara mais estranho que ela já encontrara. Quanto tempo teria durado nas ruas da Pequena Saigon se ela não o tivesse achado? Uns dois minutos, e olha lá. Que será que Jiri queria com ele?

Ela acelerou a scooter para terminar de cruzar a ponte, e derrapou no caminho do alto de outra favela. Os propulsores protestaram com um zumbido agudo. Os braços de Ambrose apertaram-na com tanta força que ela ficou sem ar. Ela deu uma cotovelada no estômago dele e o abraço afrouxou.

Tia Dita morava alguns níveis mais abaixo. A garota desacelerou e saiu do caminho superior quase deserto para entrar numa rua tortuosa, entupida de gente e cães sem dono.

Entraram atrás de uma carroça de ciganos, lenta de doer e lotada com xales coloridos e sacas onde se lia CAFÉ; Mistletoe sabia que deviam conter armas ou a última droga da moda na Pequena Saigon. Um transporte capenga carregado de material de refugo – cabos de eletricidade e monitores queimados – surgiu detrás deles, e eles ficaram imprensados. Mistletoe sentiu a paciência se esgotar enquanto se arrastavam como lesmas. Mordeu o lábio para não gritar.

– Quantas pessoas moram numa casa dessas? – perguntou Ambrose, apontando um barraco amarelo minúsculo, espremido entre dois feios casebres marrons. Um sanduíche de pêssego, pensou Mistletoe.

– Deve ser uma família inteira.

Como se fosse de propósito, uma mulher veio até a porta, ninando um bebê nos braços. Logo depois um garotinho saiu correndo do barraco, passou entre as pernas dela e disparou em meio à multidão. A mulher olhou ao redor com um tédio desinteressado, cheirou o ar, fez uma careta e voltou para dentro.

– Onde eles guardam as coisas?

– Que coisas?

– As coisas deles.

– Você é o espertinho mais mané que eu já vi. Não dá pra você usar aquele lance de Fluxo de Processo que te dá tanto orgulho pra responder suas próprias perguntas?

– Não funciona assim. Um Fluxo de Processo é um processo. Ele se baseia em uma extensa pesquisa e análise.

– Pra mim parece puro chute.

– Não é chute, e não é mágica. Não posso prever o futuro. Posso apenas aplicar o que sei sobre os hábitos das pessoas para ajudar os programadores do Unison a criar uma série de resultados satisfatórios, baseando-me nos hábitos de gastos e nos Amigos de um usuário. – Era indisfarçável o orgulho em sua voz. – Ajudo a melhorar a vida das pessoas sem que elas precisem pedir.

– Tá, tá – ela suspirou. – Eles não têm nada, Ambrose.

– Quem?

– Aquela mulher, as crianças. Todos aqui embaixo. Não ter espaço em casa não é uma preocupação quando você não tem grana pra comprar coisas que ocupem esse espaço.

A carroça cigana virou à esquerda. Mistletoe percorreu mais três quadras, costurando através de uma procissão de scooters, e virou à direita numa rua tranquila cheia de arbustos em forma de lágrima. Tia Dita dizia que morar naquele lugar significava que todos tinham que fazer sua parte para torná-lo mais bonito. Ela cuidava dos arbustos todos os dias, regando-os e podando a folhagem, mas ainda assim havia áreas secas e marrons. Mesmo dotada de ultravioleta, a iluminação da cúpula não substituía por completo a luz do sol.

– Bonita rua – disse Ambrose, com animação. Mistletoe reconheceu uma tentativa exagerada de compensar as críticas.

De repente ela jogou Nelson para fora da rua e desligou o motor. Desta vez ficou aliviada por Ambrose estar grudado nela como um carrapato, do contrário talvez ele tivesse se esborrachado no chão. Manteve os propulsores engatados e se escondeu atrás de um arbusto, avançando um pouco para poder ver a casa de tia Dita.

– O que você está... – protestou Ambrose.

– Psiu! Tem algo errado.

Havia dois homens parados no degrau diante da porta azul de tia Dita. Eram altos e magros, com roupas que pareciam lá de cima: ternos castanhos, não holo como o de Ambrose, mas ainda assim bons demais para aquela vizinhança. Um deles tinha cabelo ruivo curto e carregava um pequeno bastão de metal. O outro usava um chapéu marrom amorfo e tinha uma mão de metal, como a do policial que matara Jiri. Outros três homens sumiram de vista pela viela estreita entre a casa de Dita e a da vizinha.

– Ma buh – Mistletoe sussurrou. – E agora?

– Não sei – Ambrose respondeu. Ele parecia chocado por dizer aquilo. Mistletoe lembrou-se de que o tal Fluxo de Processo se atrapalhava em situações fora do comum. Bolas, então para que servia?

– Usa o seu treco de código fixo – disse. – Descobre quem são esses caras.

– Como é que vou entrar online? Todos vocês aqui embaixo são tão desplugados!

Mistletoe deixou passar o “todos vocês”.

– Bom, não podemos só ficar sentados aqui.

– Liga pra ela. Avisa ela.

– Ligar como? Jiri detonava quase todos os celulares, e de qualquer forma eu não trouxe nenhum. Ninguém nunca liga pra mim.

– Isso é ridículo! Como é que você não... O que você está fazendo?

Ela acelerou Nelson, que saltou para fora do esconderijo e seguiu, a toda, direto para a porta de Dita. Ambrose apertou os braços com força em torno da barriga dela e berrou. Tudo bem. O plano era mesmo fazer barulho. Ela ajudou, com um grito estridente, e se jogou em cima dos homens.

Ruivo puxou Chapéu para trás pelo ombro e apontou a scooter que avançava para eles. Chapéu ergueu o braço reluzente e Mistletoe desviou. O facho incandescente de um pulso eletrostático errou o alvo por centímetros. Ambrose enfiou a cara na trança dela. O homem disparou mais um pulso, alto demais, e em seguida Mistletoe estava quase em cima dele. Os sujeitos se jogaram para fora do caminho. Quando ela desviou de novo para não bater contra a porta entreaberta, pensou ter visto um movimento frenético dentro da casa.

– Se segura! – berrou, como se Ambrose precisasse do aviso.

A rua de tia Dita terminava na lateral de um bar de absíntio, e estavam a ponto de se chocar contra ele. Mistletoe esticou as pernas, acionando com os calcanhares o freio de emergência de Nelson. Quando começou a derrapar, ela puxou o guidão para a esquerda com toda a força que pôde e segurou. Os propulsores iônicos agitaram-se e estalaram. Ambrose e Mistletoe se inclinaram paralelos à rua. A parede ainda se aproximava. O tempo desacelerou o suficiente para ela ler um pôster desbotado: NÃO ACREDITE. Não acredite em quê? De repente Ambrose agarrou o guidão por cima da mão dela e puxou. Nelson rodou, engasgou e parou, o para-choque traseiro a centímetros da parede.

Mistletoe soltou o ar sem nem notar que estava prendendo a respiração, e olhou para a rua de Dita. Estava deserta agora, a não ser pelos arbustos em forma de lágrima, num dos quais haviam esbarrado. Folhas finas e quebradiças caíam no rastro deles. Hipnotizada e assustada, ela viu a última folha chegar ao chão. O ar estava carregado de uma forma estranha, e não apenas por conta do canhão de braço de Chapéu.

O silêncio persistiu por menos de um segundo. Então uma explosão arremessou a porta de tia Dita rua afora, rodopiando, com um rastro de chamas alaranjadas e fumaça negra. O barulho veio logo após o clarão, um estalo forte nos ouvidos e uma pancada surda no peito. Por toda a rua, o tilintar de vidro estilhaçado. Nelson foi jogado contra a parede.

– O que foi isso? – guinchou Ambrose.

Mas Mistletoe só podia contemplar, anestesiada, o telhado da linda casinha de tia Dita desabando sobre quem estivesse lá dentro, sobre a pilha de cobertores onde ela se aninhava quando estava cansada, sobre a prateleira cheia de frutas secas de verdade, sobre a miniestufa autor-regante que ambas tinham comprado no Novo Mercado Egípcio. A única coisa que a estufa produzira foram umas cenourinhas raquíticas, e tinha virado a piada favorita delas: fome, nunca mais!

Ela viu tudo isso num segundo.

Então saiu do transe e apertou o acelerador de Nelson.

– Precisamos descobrir se ela está lá dentro!

– Não podemos só...

Ela deu uma brecada seca no instante em que, da densa nuvem de fumaça que engolia a rua diante da casa de Dita, Ruivo e Chapéu emergiram montados em elegantes scooters negras do Departamento de Polícia da Cidade Litorânea do Leste, equipados com os diminutos giroscópios estabilizadores que permitiam deter veículos em alta velocidade.

– Polícia – ela sussurrou.

– A polícia não tenta te matar sem um motivo.

– Lá onde você mora, pode ser que não.

Mistletoe olhou para a esquerda: mais parede. Mas à direita havia uma viela muito estreita, meio escondida por um grande pedaço de reboco verde que se desprendera da parede do bar.

Acredite, pensou, e dirigiu Nelson direto para a parte inferior da passagem, onde o reboco ainda não se soltara. Outro pulso eletromagnético chamuscou-lhe a trança.

– Cotovelos para dentro! – berrou, torcendo para que Ambrose ainda tivesse uma cara.

Ela chegou à passagem a toda e não desacelerou. As pontas do guidão de Nelson arranharam as paredes, produzindo uma chuva de faíscas. Se o beco estreitasse mais, eles parariam de supetão e sairiam voando sem a scooter. Ela passou por cima de um amontoado de roupas imundas que bem podia ser alguém morto.

Mais adiante a viela se alargava e desembocava na rua atrás da casa de Dita. Quase lá! Só que agora um vulto escuro bloqueava a saída. Recortada contra a claridade diurna vinda da rua, a silhueta de um dos policiais montado em sua scooter que, com o motor ligado, balançava de leve para cima e para baixo. Como chegara ali tão rápido? Ela podia distinguir o contorno de seu...

– Chapéu! – berrou Ambrose.

Pela primeira vez, Mistletoe apertou com o polegar o botão marcado HP, torcendo para que, da vida anterior de Nelson, tivesse restado nos hiperpropulsores combustível suficiente para impulsionar o salto.

Sim, restara o suficiente.

Com um rugido, a scooter disparou direto para cima enquanto o policial atirava, e o pulso estourou muitos metros sob eles. Mistletoe teve a sensação de que seu estômago tinha sido puxado para as pernas. Apertou os dentes e tentou controlar o veículo, que ultrapassou o alto do beco e continuou subindo. Pelo jeito, Sliv também dera um trato nos hiperpropulsores. Ela imaginou se teria cometido um grande erro, mas Nelson desacelerou e pareceu imobilizar-se em pleno ar, no ponto mais alto do salto. Enquanto pairavam, ela olhou por sobre a superfície dos telhados irregulares, apertados uns contra os outros como uma boca com excesso de dentes, e viu a nuvem de fumaça negra rodopiando no local onde estivera a casa de tia Dita. Acima deles, a cúpula se estendia a perder de vista.

Então eles caíram.

Ambrose apertou-a tão forte que Mistletoe ficou com medo que lhe quebrasse as costelas. Tentou dirigir a scooter para um telhado plano, mas os hiperpropulsores roubavam potência dos propulsores iônicos, e sem eles Nelson era um peso morto. Ela aplicou um chute rápido na lateral da scooter, como fazia ao descer em sua própria favela vertical. A queda ia ser violenta.

Deu outro chute furioso.

Os propulsores pegaram. A scooter quicou no colchão estático justo antes de colidirem. De imediato Mistletoe calculou a próxima ação. Seu cérebro se movia numa sequência de cenas rápidas, seus atos controlados por algo que não era o pensamento consciente.

Vá para cima, esse algo lhe dizia. Sempre para cima.

Atrás dela, Ambrose expirou longamente.

– Aposto que você adoraria viver aqui embaixo – ela disse sobre o ombro, enquanto saltava para o telhado vizinho.

– Você faz muito isso?

Ela sacudiu a cabeça.

– Primeira vez.

Sempre subindo, percorreram um labirinto de varais, casas de cachorro e caixas receptoras de sinal que entulhavam os telhados da Pequena Saigon. Poucos quarteirões abaixo do topo da favela, ela deslizou pelo telhado inclinado de um chalé até a rua, terminando atrás da mesma carroça cigana de antes.

– Essa porcaria chata de novo, não – protestou Mistletoe, e dobrou uma esquina.

Na mesma rua, lá adiante, Ruivo seguia devagar, examinando a multidão.

Quem são esses caras?, ela pensou. Como é que conhecem todos os atalhos?

– Atrás! – alertou Ambrose. Ela se virou a tempo de ver Chapéu surgir virando a esquina. Ele vinha o tempo todo na cola deles.

– Continua subindo! – o garoto gritou. Ele estava certo: era melhor arriscar com Ruivo do que com Chapéu e seu braço-canhão, mesmo que a pontaria dele não fosse lá essas coisas. Até aqui tinham tido sorte. Ela acelerou Nelson, fazendo os pedestres se jogarem para os lados. Ruivo virou-se para encará-los e mirou neles o bastão de metal. Mistletoe guinou para a esquerda, derrubando um garoto de sua bicicleta. O bastão pareceu se estender numa sequência rápida de lampejos. Uma mulher que, por infelicidade, passou bem onde eles estavam antes, caiu de joelhos na hora, mãos para trás e cabeça baixa, em dócil submissão. Mistletoe esbarrou na lateral de uma carroça de absíntio, e o líquido verde-neon voou na cara do Ruivo. Ele deixou cair o bastão – um atordoador de uso policial – e colocou as mãos no rosto, contorcendo-se na scooter.

Vai queimar pra burro, pensou a garota, num repente de euforia, quando passaram por ele rumo à rua de cima.

– O outro ainda está atrás de nós – informou Ambrose.

Mistletoe não saberia dizer como o plano se formou em sua mente, ou por que não pensou em nada mais aceitável. Mas ali estava ele, pronto, como se tivesse sido elaborado durante dias.

– Ele não vai seguir a gente no lugar aonde vamos – avisou ela, enquanto deixaram a borda da multidão e passaram para a rua de cima.

– Que lugar?

– Este – disse ela, indo direto para uma janela vazia na parede do trigésimo andar.

– Achei que você tinha dito...

Mas o silêncio se fez tão de repente ao entrarem no prédio que Ambrose engoliu as palavras antes que pudessem ecoar. A escuridão os envolveu.

Mistletoe desacelerou e deu um cavalo de pau, à espera, ofegante. O mundo agitado para além da janela parecia distante, fora de foco, como se tivessem atravessado um sem fim de câmaras estanques. Segundos depois, a silhueta de Chapéu surgiu na janela, oscilando para cima e para baixo na scooter estacionária. Ela prendeu a respiração e se encolheu na escuridão. Ambrose apertou mais suas costelas doloridas. Chapéu permaneceu tanto tempo ali que ela teve vontade de gritar. Então se foi.

Ela penetrou mais no edifício, apesar dos sons da scooter soarem como um terremoto ali dentro. Mas ela não podia abandonar Nelson. Algo provocou um estrondo, muitos andares para baixo. O prédio pareceu estremecer, as entranhas de aço plástico chacoalhando como ossos.

O Horror.

Ela desligou o motor. O ruído cessou. Temerosa demais para ligar o farol, ela se soltou de Ambrose e desmontou com cautela, pondo-se de pé no chão duro. Tateou até encontrar uma parede, ou talvez uma das imensas vigas de aço plástico.

– Vem pra cá – sussurrou. Ambrose juntou-se a ela. Nelson detectou a ausência de passageiros e silenciosamente adormeceu.

A mente de Mistletoe deu voltas à medida que as cenas rápidas começaram a se suceder. Jiri. Ambrose. Dita. Os policiais. E agora? O que viria a seguir? Não podiam ficar sentados na escuridão para sempre.

Tia Dita. Não queria pensar nela. Estendeu a mão e agarrou a mão bem cuidada de Ambrose, o que de imediato a fez pensar em seus próprios calos e cortes. Juntos sentaram-se em silêncio, apoiados na parede. Ela ouviu seus corações se acalmarem aos poucos. Esse garoto era estranho e irritante, mas ela tinha que admitir que era bom encostar em seu corpo quente depois daquela fuga alucinada.

– Me conta o resto – ela murmurou afinal.

– O resto...

– Você resolveu ignorar a mensagem da mulher. Carpe somnium, Ambrose Truax. Foi se encontrar com seu pai.

– Não sei se... Quer dizer, agora?

– Preciso ouvir o resto, tá bom? Preciso ouvir alguma coisa ou vou pirar.

Os olhos suplicantes de Jiri. A casa de tia Dita explodindo.

– Tudo bem – ele disse. – Ignorei a mensagem. Parecia maluquice, e eu precisava ir andando. Meu pai estava esperando na cobertura.

Mistletoe fechou os olhos.

A escuridão era a mesma.