Unison: A Rede Social do Futuro
12 - Festa de lançamento
Ambrose gritou durante todo o trajeto do conduto, que descia pelas paredes do edifício da UniCorp fazendo curvas imprevisíveis. Ele tentava manter a boca fechada, mas as mudanças bruscas de direção, somadas à velocidade perigosa através de completa escuridão, pareciam arrancar de seus pulmões gritos aterrorizados. Ainda assim, apesar da intensidade nauseante da viagem, ele manteve um pensamento bem claro: Len conseguira organizar uma força de segurança clandestina e minar os planos de seu próprio pai, mantendo o tempo todo sua fachada de Burocrata Perfeito. Ele havia arriscado – e perdido – tudo por Ambrose.
O conduto deu lugar a espaço aberto. Ambrose parou de deslizar e começou a cair.
Seu berro pairou no ar ao redor, e então sumiu conduto acima. O rapaz soltou um hrrrmmffff brusco ao aterrissar sentado em algo macio, mas não muito.
Espuma viscoelástica. Ele afundou entre suas dobras à medida que elas formavam um envoltório macio a sua volta. Então a espuma se abriu, depositando-o sobre uma pilha de cobertas e almofadas no piso de um cubículo, iluminado por uma única lâmpada. Ambrose se pôs de pé e respirou fundo algumas vezes, para acalmar o coração. Calculou velocidade e duração da queda e a altura aproximada do edifício e determinou que estava pouco abaixo do nível do solo, no mesmo nível da entrada privativa de Len.
Diante de si viu uma abertura estreita na parede. Um trajeto curto, por sorte desta vez em um túnel horizontal, e ele se viu em um espaço apertado, de paredes nuas e sem acabamento, contendo um carro preto da segurança da UniCorp. Ambrose demorou-se um pouco ao passar a mão pelo capô liso, que se curvava para trás até juntar-se ao chassi, formando uma única ponta reluzente. Abriu a porta deslizante.
– Obrigado, irmão mais velho.
Assim que se sentou, o teto da garagem improvisada abriu-se e expôs um amanhecer límpido e rosado sobre a Cidade Litorânea do Leste. A porta do carro se fechou. O console iluminou-se. Seu irmão tinha programado o piloto automático para uma rota pré-planejada.
Os propulsores iônicos de hélice tripla entraram em ação, e o carro projetou-se para cima, para fora do estacionamento subterrâneo, sincronizando perfeitamente o salto para inserir-se no fluxo mais baixo de trânsito. Ambrose deixou-se escorregar no assento, acomodando-se enquanto o carro se juntava ao primeiro estágio do Desfile Corpóreo. Seria a oportunidade perfeita para dormir, se seu corpo fosse capaz disso. Fechou os olhos e massageou as têmporas doloridas. Se conseguisse esvaziar a mente, talvez pudesse se desligar por alguns minutos. Talvez pudesse até aprender a simular os efeitos do sono, fazer uma espécie de calibragem para manter a sanidade.
Suas mãos se paralisaram quando ele tocou os fios. Uma dúzia deles, talvez, saindo da pele do rosto e serpenteando até seu colo. Ele se endireitou num repente.
– Reflexo – arquejou.
O vidro da janela se transformou em um espelho. Ele se olhou, pálido e abatido, as mãos segurando as faces. Não havia fio algum. Seu rosto era feito de carne humana normal.
O carro saltou para um nível superior de fluxo de tráfego. Ele se dirigia para o norte, cruzando a Expansão da Nova Inglaterra a grande velocidade. Ambrose sentou-se bem reto, respirando de forma profunda e pausada, tentando manter sob controle a mente rebelde. Assustava-o a ideia de que o tempo estava se esgotando; se não encontrasse um modo de se calibrar, o procedimento o transformaria em um lunático paranoico. Seria pior que morrer, porque em algum raro momento de lucidez poderia lembrar-se da pessoa sã que havia sido. Lembranças fugazes de uma trança azul, uma aventura na subcúpula, uma amiga em outra vida.
Ele atenuou o espelho e olhou pela janela para se distrair, a paisagem uma série de imagens velozes, banhadas na radiante luz da manhã.
O topo cintilante dos domos semissubmersos de apartamentos de luxo no Porto de Providence.
O imenso atmoedifício verde da sede do Conglomerado Fenway Sports, em Boston Heights.
O fluxo de tráfego incrivelmente veloz, embora esparso, do Corredor do Maine.
Por fim, ele viajava sozinho perto da fronteira com o Canadá, deixando para trás a triste periferia da Cidade Litorânea do Leste, antigos armazéns de concreto que se amontoavam à sombra de robustos edifícios residenciais de dez andares. O carro reduziu a velocidade ao passar diante de um denso pinheiral, e entrou de repente por um caminho orlado de árvores. Os ramos espinhosos arranharam as janelas à medida que o caminho se estreitava, até desaparecer.
O carro deteve-se em uma pequena clareira, onde emitiu um sinal e conectou-se a um receptor fora de vista. Um buraco abriu-se na terra, o veículo pairou sobre ele e depois desceu suavemente em seu interior. Ambrose saiu e se espreguiçou. Por cima dele, o solo se fechou. Uma luz mortiça acendeu-se.
Estava em um aposento subterrâneo feito com terra batida. Raízes retorcidas projetavam-se das paredes. Uma poltrona verde já bem gasta jazia em um canto.
Era seu próprio projetódromo pessoal, oculto ali nas profundezas da floresta, mas ainda próximo o suficiente do Corredor do Maine para pegar o sinal. Len compreendera que Martin e seus recursos ilimitados tinham total controle sobre o mundo material. Ambrose podia ter a sorte de escapar uma vez atrás da outra, mas seria sempre um rato em um labirinto. No Unison, ele ao menos estaria em uma posição de – como havia dito Len – fazer o impossível para evitar a atualização.
Ele se instalou em sua poltrona. Com os olhos fechados, começou a pensar em Mistletoe, onde estaria, se estaria bem. Relembrou como a garota o empurrara contra a lateral do elevador da subcúpula por insultar o lugar onde ela vivia.
Inspirou fundo. O odor úmido e terroso do aposento lembrou-lhe o perfume da trança da garota. Tão penetrante quando seu rosto se apertara de encontro a ela, enquanto Ambrose viajava na garupa da perigosa scooter! Se sua mente ia se degenerar em um amontoado desconexo de lembranças e alucinações, ele torcia para que algumas delas fossem de Mistletoe. Ele bateu palmas uma vez e se projetou.
A garganta coçou, mas ele não pôde tossir. Sentiu o travo forte e amargo do ácido de bateria. A luz mortiça se apagou e ele sentiu-se elevar no ar.
A euforia o percorreu; seus problemas se tornaram distantes e sem sentido. Ele estava em casa.
Emergiu da caverna nos limites irregulares da imagem em bitmap da Cidade Litorânea do Leste no Unison. Raízes se contorciam e ressoavam sob seus pés. Um pomar de maçãs surgiu à volta dele.
Algumas das árvores se curvaram e redesenharam-se como cadeiras e mesas de aparência peculiar. Entalhes elaborados emergiram na madeira. Ele passou a mão pelas espirais entalhadas nos lados de um banco muito estranho em forma de T. Numa das pontas da peça do alto havia uma portinhola com maçaneta na forma de uma coruja empoleirada.
Seu Feed dizia:
Caixa de correio de casa de subúrbio, meados do século XX.
Então não era um banco. Era uma daquelas antigas caixas de entrada de correspondência em papel. Ele ficou observando enquanto ela adquiria uma cobertura laqueada, o brilho se espalhando de cima para baixo. Era linda. Sempre tinha sido apaixonado por design de móveis, desde pequeno, e nunca pensou que seu amor pudesse aumentar. Era parte indissociável dele, como as mãos e os pés e o coração. Mas agora, pela primeira vez, cercado por toda essa beleza, todo seu ser repleto de...
Espera aí. Algo estava errado. Ele havia acessado seu Perfil.
Meu nome é Adam Trevor.
O garoto relaxou e caminhou pelo pomar, chutando as folhas secas que revestiam a trilha suave sob seus pés. Nada estava errado. Ele era Adam Trevor, e estava em casa. Mas ainda assim, tinha algo que o incomodava, uma ansiedade insistente, como se tivesse deixado de comparecer a um encontro.
Onde trabalhava?
Ele não trabalhava. Era impossível. Ele tinha quinze anos de idade, e gostaria de se tornar cantor algum dia, mas...
Checou seus amigos: Takashi Nakamura e Sonia Carter. Era bom ter amigos. Por que só tinha dois? Esse não era o espírito do Unison. Bom, agora que estava em casa, poderia dedicar algum tempo a Adicionar mais gente.
Contemplou as belas manchas de luz que salpicavam a trilha coberta de folhas. Era tão tranquilo ali. Teve a sensação de que podia deitar-se em um colchão de folhas secas e ficar ali para sempre. As árvores do pomar se tornaram mais esparsas. Um arco de entrada feito de madeira e coberto de flores de macieira assinalava o limite do pomar.
De repente ele sentiu um incômodo no fundo da mente. Foi desconfortável por um segundo, como uma coceira que não se pode coçar, e então seu Feed informou:
Takashi Nakamura está em Unison!
O Fluxo de Pensamento de seu Primeiro Amigo se acendeu.
Takashi Nakamura acaba de tornar-se General de nível 65 no RPG da Guerra Saturnina.
Adam Trevor sentiu a alegria da conquista de Takashi. Seu Primeiro Amigo estava orgulhoso, e ele sentiu os fragmentos da satisfação de Takashi como as manchas cálidas de luz através das árvores. Todos estavam tão felizes hoje! Ele riu alto.
Deteve-se bem na borda do pomar. Diante dele, fantasmas formavam fila por trás de um cordão de veludo vermelho. A balbúrdia intensa de seus Fluxos de Pensamento o pegou de surpresa: estavam todos desesperados para serem seus Amigos. A fila terminava sob a marquise de uma grande casa de espetáculos de paredes de tijolo. As letras vermelhas do anúncio luminoso informavam:
O AUDITÓRIO UNICORP APRESENTA:
UMA NOITE COM ADAM TREVOR
Não fazia muito sentido, mas ele parecia lembrar-se vagamente do exaustivo processo das audições, a decepção vinda da rejeição, as noites mal dormidas e as longas horas que passou com um instrutor vocal. Ele merecia isso, depois de todo o trabalho árduo. Tinha finalmente conseguido! Esse concerto era o meio de se transformar numa superestrela!
Uma porta simples abriu-se a pouca distância da entrada principal. Um fantasma de rosto rechonchudo e cabelo brilhante alisado para trás surgiu e disse:
– Psiu! Sr. Trevor! Estávamos esperando pelo senhor, venha por aqui.
Ambrose foi correndo até a porta identificada como entrada de artistas, e ao cruzá-la viu-se em um corredor sombrio nos bastidores. O fantasma, baixo e gorducho, vestia um smoking impecável. Fez uma reverência.
– É um grande prazer finalmente conhecê-lo. Se quiser me seguir, vou levá-lo para o palco para fazer o teste de som.
Ele afastou uma cortina de veludo bordô. O palco estava vazio, exceto por um piano e um microfone.
– Eu toco piano – constatou Adam.
– Mas é claro que toca. E a casa está lotada hoje, de modo que é melhor começar o aquecimento. Por favor – o homem estendeu a mão, indicando o auditório vazio. Adam atravessou o palco, os passos ecoando dentro do espaço cavernoso.
Sou Adam Trevor. Eu toco piano. Sou Adam Trevor. Eu canto.
Ele se sentou no banco de madeira e tocou uma tecla branca com um dedo da mão esquerda. A nota grave soou sinistra, um ribombar profundo. Dedilhou uma melodia de três notas agudas com a mão direita. Então combinou os sons, improvisando uma música sobre uma velha e mesquinha nuvem de tempestade que adiciona um esquilo como Amigo.
A mão de uma garota agarrou seu pulso antes que ele pudesse concluir uma progressão de acordes particularmente brilhante. Ele ergueu os olhos do piano. Ela era familiar – e bonita, apesar do senso de moda bem tosco –, talvez uma antiga fã, ou alguém que ele conhecera na escola de artes dramáticas?
– Não abandone seu emprego diurno para ser músico – ela disse.
Por algum motivo, a voz dela fazia-o recordar-se de um sonho recente: uma fuga alucinada, uma viagem rumo ao norte, um buraco no meio da floresta.
– Como você entrou aqui?
– Ambrose, o que há de errado com você? – ela perguntou.
Ao redor da garota, as sombras do auditório se aprofundaram e escorreram através do palco. Ele olhou para as fileiras de cadeiras vermelhas vazias, que as luzes redondas do teto abaulado mal conseguiam iluminar. Aquele lugar começava a deixá-lo inquieto.
– Sou eu, Mistletoe! – ela jogou uma trança azul macia por cima do ombro. Ele foi envolvido por uma onda intensa de aromas penetrantes e tossiu.
Teve a impressão de lembrar-se da primeira vez que se encontraram. Sim. Havia sido em um beco da subcúpula. Mas o que teria ele ido fazer num lugar como aquele?
Ela o sacudiu com força.
– Seu nome é Ambrose Truax. Escapamos juntos de dois policiais. Aqueles dois irmãos esquisitos nos pegaram. Magnus e Ivor, lembra? Então a gente se separou. Você é Ambrose.
Ele se ergueu do banco e recuou devagar, sacudindo a cabeça.
– Meu nome é Adam – murmurou. – Vou cantar esta noite. Tenho que fazer o aquecimento.
As palavras pareciam erradas, como se alguém estivesse falando por sua boca.
As luzes do auditório se apagaram. Sussurros ásperos vinham das poltronas.
– A gente tem que sair daqui – disse ela.
– Aqui é o meu lugar. Estou feliz aqui – ele retrucou, debilmente. Mas não acreditava naquilo. Ele não sabia qual era seu lugar.
Mistletoe puxou sua manga. Inúmeras vozes se ergueram das fileiras de assentos na escuridão.
– Canta!
– Qual é, Adam, toca pra gente!
– A gente te ama!
– Não dê atenção – disse Mistletoe.
Ela torceu o braço dele e puxou o garoto para longe do piano. Ele acenou para os fãs invisíveis enquanto ela o puxava através da cortina de veludo.
– Somos Amigos? – perguntou ele; tinha a crescente sensação de que ela não gostava muito dele.
– Não aqui.
Eles saíram pela porta de entrada de artistas. Lá fora o sol brilhava. Ele a seguiu para longe do Auditório da UniCorp e subiram uma colina coberta de grama alta, que ondulava ao redor de suas pernas. No topo da colina havia um grupo de pinheiros. Ela o levou até a sombra do arvoredo e ambos se sentaram sobre o toco de uma grossa árvore que fora serrada.
– Me escuta – ela segurou a mão dele. – Seu nome é Ambrose Truax. Você usa holoternos e tem cheiro de Bruxelas. A gente se conheceu na Pequena Saigon, onde você achou que tudo era velho demais. Tenho uma scooter chamada Nelson.
Uma tontura embaçou a vista dele. Sentia-se enjoado.
– A polícia perseguiu a gente, mas conseguimos escapar.
Ele fechou os olhos e viu a si mesmo na garupa de Mistletoe, que pilotava uma scooter decrépita. Eles rodavam por uma rua estreita e irregular, no alto de uma favela vertical. A superfície inferior da cúpula estava poucos metros acima de suas cabeças. A longa trança azul dela fazia cócegas em seu nariz. Ele envolvia a cintura quente dela com os braços, e estava feliz com essa proximidade. E então lembrou-se.
Ela salvou minha vida. Meu nome...
A cena mudou para um laboratório úmido, escuro e cavernoso, coalhado com as entranhas de maquinários pré-Unison. Um homem de cabelos brancos, com cheiro de mofo, debruçou-se muito perto dele e segurou-lhe o braço com força. O homem furou sua mão com um espeto pontiagudo. A dor subiu por seu braço.
O velho inseriu uma nova ID de código fixo, recordou-se. Meu nome é...
Mudança de cena. Ele estava escondido detrás do tubo de escaneamento, ao lado de alguém muito familiar, que empunhava um disruptor e que gritava para ele correr.
Mudança de cena. Uma bola de gude, suspensa no ar entre os atmoedifícios da Cidade Litorânea do Leste, girava eternamente ao redor de seu eixo.
Meu nome é Ambrose.
Ele se lembrou de tudo.
– Meu nome é Ambrose Truax! – disse quando sua mente retornou à clareira em meio aos pinheiros.
Olhou ao redor, arregalando os olhos.
– Uau! – exclamou. Respirou fundo – Tudo bem. A ID Adam Trevor estava em sincronia perfeita com o Unison. Ela ofuscou por completo minha consciência. E foi imediato; assim que eu me projetei pra cá, me perdi.
Ele se pôs em pé e fez uma rápida avaliação de sua mente. Ficou desapontado ao descobrir que o impulso de correr de volta para a sala de concertos e cantar para seus fãs ardorosos ainda estava lá em sua mente, tentador. Mas pelo menos ele podia reconhecer o impulso e tentar ignorá-lo. Ele andou de um lado para o outro, repetindo para si seu nome verdadeiro.
– Meu nome é Ambrose Truax. Meu nome é Ambrose Truax. Meu nome é...
– Você sabe que está dizendo isso em voz alta, né? – Mistletoe olhou ao redor, para os pinheiros perfeitamente desenhados pelo Unison. – Aliás, este lugar é sinistro. Bom trabalho.
Ocorreu a Ambrose que ele não sabia se este usuário era mesmo Mistletoe. Ela não era um fantasma, mas também não era sua Amiga. E ele não conseguia acessar nem o Perfil nem o Fluxo de Pensamento dela. De acordo com o Unison, ela não existia.
– Como você chegou aqui? A Mistletoe que conheço não tem nem acesso ao mundo de cima, quanto mais uma ID no Unison.
Ela se pôs de pé de um salto e espetou um dedo no peito dele. Isso foi suficiente para convencê-lo de que lidava com a garota certa.
– Primeiro, que tal Obrigado por livrar minha cara de novo? Quantas vezes desde que nos conhecemos, tipo um milhão? E segundo, legal te ver, também.
Ele ergueu as mãos.
– Tá legal, desculpa. Mas você tem que entender, não tenho conseguido pensar direito desde a última vez que nos vimos. Tenho visto coisas. Afastei-me de Magnus e Ivor para tentar me calibrar, mas... Falando sério, como você conseguiu chegar aqui?
– Professora Deirdre O’Hanlon.
– Quem?
– Acho que você se encontrou com ela quando ela era uma espécie de... – ela estalou os dedos, tentando pensar –... construtora de Aplicativos.
– Sonia Carter – disse ele, depois de algum tempo.
– O verdadeiro nome é Deirdre – disse Mistletoe. – Ela é professora dessas coisas do Unison na Universidade Litorânea do Leste. Descobri sobre ela nas notas de Jiri.
– Espera aí. Você esteve na ULL? Como você chegou ao lado de cima?
– Eu conheço um carinha... – ela se interrompeu, como se esperasse por uma reação. Ambrose não sabia bem o que ela esperava que ele dissesse.
– Hã...
– ...que conseguiu me fazer passar pela câmara estanque. E aí Deirdre me ajudou a logar.
– Ela implantou você – ele bateu com o dedo na palma da própria mão.
Ela sacudiu a cabeça.
– Quem me dera. Tive que engolir uma pílula gigante cheia de bichos.
Isso explica por que você está fora da grade, pensou ele.
– Você tem ideia do perigo que é fazer isso? Engolir um login biotecnológico de fundo de quintal? Esses bichos estão no seu cérebro agora. Você não pode fazer esse tipo de coisa. Eu não quero... – ele se calou.
– Não quer o quê?
– Não quero perder você de novo.
Apesar do atual funcionamento caótico de seu cérebro, ele tinha certeza de uma coisa, sua necessidade de pousar um dedo na lateral do pescoço dela, sentir a pulsação e a suavidade da pele ao mesmo tempo. Pele de verdade, pele do Unison, não importava.
Ela pareceu perplexa e surpresa.
– Ambrose, ninguém nunca... Eu nunca... – pela primeira vez desde que se conheceram, Mistletoe baixou a armadura forjada nas ruas da subcúpula. Seu sorriso triste parecia o de alguém muito velho. Ela tentou de novo. – Como queria ter te conhecido antes disso tudo.
O coração dele batia forte. E então seu Fluxo de Pensamento zuniu:
Takashi Nakamura está doido para ver seu Amigo cantar esta noite!
Ele podia sentir a presença de Takashi formigando em sua pele, esfuziante como se estivesse sob o efeito de alguma droga.
– Ah, não – exclamou. – Se prepara!
Takashi apareceu na clareira, sem fôlego e com o rosto vermelho. Ambrose esperou que ele mencionasse sua despedida estranha e abrupta no estádio. Seu Primeiro Amigo fez um gesto exuberante apontando para uma abertura entre as árvores.
– Por que você está escondido, Adam? Não viu como está lá fora? É lindo!
A EmotiSombra de Takashi enroscou tentáculos alaranjados inquietos em torno de suas pernas e cintura.
– Eca! – protestou Mistletoe, recuando.
– Prazer em conhecê-la – disse Takashi.
– Oi – ela conseguiu articular, olhando com repugnância os tentáculos da EmotiSombra que se retorciam.
Takashi Nakamura está
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Ambrose acenou uma das mãos diante do rosto de seu Amigo.
– Ei, Takashi?
Takashi olhava direto através de Ambrose para o outro lado da clareira. Então deu uma risadinha.
– Já notou como todas as camadas do mundo se encaixam? E como elas aparecem para todos seus Amigos e para você ao mesmo tempo? É como se você fosse o menor dos nanos, certo? – Ele juntou o polegar e o indicador para demonstrar o tamanho ínfimo. – E você está destinado a uma única função repetitiva... para a frente e para trás, para cima e para baixo... e ao mesmo tempo você é este... – ele agitou os braços, lutando para transmitir o entendimento sublime que percorria seu cérebro – ... carrossel de Amizade! – ele concluiu, triunfante.
Ambrose apontou para a EmotiSombra, que reagia à profunda felicidade de Takashi, subindo por seu peito e enrolando-se em seu pescoço.
– É normal isso acontecer? Quer dizer, você está...
– Eu finalmente sou eu mesmo, Adam! Sou tudo o que sempre quis ser.
Desconfiados, eles seguiram Takashi por entre as árvores, para a luz do sol. Junto ao sopé da colina havia um vasto campo que se estendia rumo à silhueta enevoada do bitmap da Cidade Litorânea do Leste. O campo estava tomado por milhões de usuários movendo-se juntos em grupos, como se fossem cardumes densos de peixes. Diante da cena, Ambrose tinha a impressão alarmante de estar olhando para o fundo de um oceano sem água. Demorou alguns minutos para perceber que os usuários deslocavam-se com um propósito, num lento avanço que os levava rumo a uma monstruosidade que se erguia imensa, ameaçando obscurecer o sol perfeito do Unison.
– Greymatter – constatou Ambrose.
– Eu disse que era lindo! – gritou Takashi por cima do ombro, enquanto corria colina abaixo.
A propriedade de Martin era do tamanho de uma cidade. Novas adições se espalhavam para ambos os lados; eram modernos atmoedifícios feitos de vidro e cromo entrelaçados, ao lado dos quais o palacete vitoriano parecia uma miniatura.
A expansão avançava ao longo do perímetro do campo, uma subdivisão cintilante, à moda do século XXI, rodeando a massa de usuários como duas garras gigantescas.
Quando os usuários atingiam a frente da propriedade, seus vultos se decompunham; meses de putrefação transcorriam em um horrível instante. Dos restos mortais de cada usuário, dados brutos fluíam em feixes coloridos que serpenteavam até as paredes da casa.
A propriedade estava consumindo informações dos Perfis.
– Isso é bom ou ruim? – perguntou Mistletoe.
O Feed de Ambrose berrou:
Parabéns! Você foi selecionado para participar do teste gratuito do Unison 3.0 (Versão Beta). Por favor, vá à nossa festa de lançamento em Greymatter!
Ambrose virou-se para Mistletoe, mas de súbito foi atordoado por lampejos ofuscantes de alegria, que penetraram cortantes em seu Fluxo de Pensamento. Em um instante, o Unison eliminou a distância entre seu próprio Fluxo de Pensamento e o dos outros usuários. Agora todos pareciam se originar do mesmo lugar, no fundo de sua própria mente, como uma ensurdecedora câmara de eco.
Lauren Jenkins ama seus Amigos mais que qualquer outra coisa no mundo! : )
Julia Pittman tornou-se fã de Adam Trevor.
Oscar Ward acha que a vida consiste em relaxar e CURTIR tudo!
Chris Riley está imaginando por que demorou tanto para perceber como é fácil ser feliz.
Mark SullivanE
Milhões de Perfis inteiros e detalhados começaram a invadir seu Feed. E todos o convidavam para o mesmo Evento: Festa de Lançamento em Greymatter.
Ia ser superdivertido.
Talvez ele pudesse até tocar algumas músicas para seus novos Amigos.
Ele começou a descer a colina. Alguém segurou sua manga: a garota do auditório. Ela tinha interrompido seu aquecimento prévio, e agora tentava impedi-lo de ir à Festa de Lançamento. Ele se soltou dela – stalker maluca! – e estava a ponto de dizer-lhe que o deixasse em paz, quando todo o corpo dela deu um tranco para trás, como se ela tivesse deixado cair uma faca e tentasse impedir que acertasse seu pé. O olhar dela ficou vago e perdido, o queixo caiu. Então ela tremeu e desapareceu num piscar de olhos.
Não era nenhuma grande perda. Ela não era sua Amiga, mesmo.
Ele se juntou aos outros usuários no campo e se encaminhou para a propriedade, assobiando feliz e curtindo a sensação do sol em seu rosto.