Unison: A Rede Social do Futuro
1 - A garota da trança azul
O novo nome dela era Mistletoe. Em seu aniversário de 15 anos, ela anunciou a seu tutor, Jiri, que estava cansada de ser chamada de Anna.
– Seu nome é Anna – grunhiu Jiri.
– Quem foi que escolheu?
– Seus pais.
– E onde eles estão?
Ele ergueu uma sobrancelha cerrada.
– Tudo bem. Como você vai querer ser...
– Mistletoe[1].
Ela leu o rosto dele: . Então acrescentou:
– O negócio é o seguinte: a partir de agora vou pensar em mim mesma como Mistletoe, então, quando você me chamar de Anna, não vou responder. Porque esse não é o meu nome.
Ela olhou feio quando ele, resignado, revirou os olhos, sinal de que ela tinha vencido. Jiri voltou a enterrar seus dedos grossos num emaranhado impossível de fios que algum dia fora um legítimo computador pré-Unison.
Mistletoe saiu para a varanda. Deitada de costas, olhou através das aberturas de ventilação na cúpula de aço plástico que impedia a Pequena Saigon de se abrir bem no meio da Cidade Litorânea do Leste, que a recobria. A jovem vivia com Jiri no topo de uma montanha de barracos que cascateavam por trinta andares até chegar à rua lá embaixo. A casa deles estava tão espremida por baixo da cúpula, que Mistletoe sempre tinha a impressão de poder sentir todo o peso da cidade sobre si enquanto dormia.
A garota mexeu a cabeça devagar para a frente e para trás, até que sua espessa e macia trança azul acomodou-a como se fosse um travesseiro.
As aberturas de ventilação não eram maiores que o punho de Jiri, mas se ela se deitasse no ponto exato podia ver os carros reluzentes passando, separados entre si por escassos milímetros. O murmúrio de um bilhão de motoristas conduzidos pelo sistema de controle de tráfego da Cidade Litorânea do Leste ressoava pelas aberturas e fazia seu corpo vibrar por dentro de um jeito bom, como as cadeiras de massagem pré-Unison que Jiri vendia em sua loja de velharias. À medida que, acima da cúpula, a tarde se transformava em um crepúsculo escarlate, ela mergulhou num sonho agitado...
O lugar era escuro e gelado. Ela estava atada a uma espécie de cama dura dentro de um tubo metálico do tamanho de uma geladeira. Tiros à moda antiga, secos e ressonantes, eram ouvidos no meio de uma gritaria ao longe. O som surdo de armas disruptoras deu lugar a passadas frenéticas.
– Não tenha medo, Anna – disse uma voz suave.
Corte para uma nova cena. Estava sendo sacudida para cima e para baixo. Uma serpente deslizava sobre seu ombro. Não, duas serpentes. Três! Ela gritou, mas o grito saiu abafado, e então notou que seu rosto estava enfiado nas dobras do casaco sujo e malcheiroso de um homem. Ela se contorceu e o homem a apertou com mais força contra o peito. Havia cobras por todo lado. Ela tentou morder a mão enorme. O homem soltou um palavrão em outra língua.
Ele corria mais rápido do que ela jamais teria imaginado, apertando-a junto ao corpo com uma das mãos enquanto a outra disparava uma pistola para trás, por cima do ombro.
Ela libertou um braço e agarrou uma das serpentes. Era lisa e metálica, como uma espécie de cabo. Deslizou a mão ao longo do cabo, até que chegou à própria testa.
Eram fios que saíam de seu rosto.
Mistletoe gritou e escapou das mãos de Jiri, e de repente estava se debatendo, solta no espaço. Acordou antes de bater no chão. Sentou-se ereta e ofegante na varanda, as mãos apertadas contra os lados da cabeça, da qual não saía fio algum.
Hoje, seis meses depois, Mistletoe estava sentada na varanda com as costas apoiadas em Nelson, uma scooter capenga que ela garimpara na loja de Jiri. Na cidade acima da cúpula, Nelson talvez fosse o brinquedinho que algum garoto rico jogara fora. Aqui embaixo, no bairro apinhado onde a jovem vivia, ele era um tesouro a ser protegido com a própria vida. Os quatro propulsores iônicos eletrostáticos por baixo do veículo eram um equipamento top de linha da Cidade Litorânea do Leste lá em cima. Seu amigo Sliv tinha trocado a transmissão barulhenta e alinhado a direção. Ela não costumava deixar a scooter fora de vista.
– Tive aquele sonho ontem de novo, Nelson.
A scooter continuou em silêncio. Não tinha componentes de I.A.[2] e não podia ouvir nem responder. As conversas entre Mistletoe e Nelson eram bem unilaterais.
Ela suspirou e olhou através da porta de acrílico transparente para Jiri, debruçado sobre um antigo manual de instruções caindo aos pedaços, enquanto apertava os olhos e repetia para si mesmo as palavras em voz alta. Ela já tinha visto outros estrangeiros lendo o Inglês Ocidental daquele jeito. Mas nunca vira ninguém fazer anotações como Jiri, como se estivesse copiando tudo de novo. O método dele parecia ridículo, mas ela jamais perguntou nada sobre aquilo, e só arquivou o assunto na categoria de assuntos em que nunca tocariam. Desde que os pesadelos tinham começado, fazia seis meses, essa categoria não parava de crescer. Segredos pareciam originar mais segredos. E a maneira como Jiri lhe falava era sempre meio apressada, nervosa, como se preferisse que ela guardasse as coisas para si. E isso era, portanto, o que ela fazia na maior parte do tempo.
Seu último segredo era o presente que Sliv lhe dera, uma gargantilha com um pingente prateado, na forma de três engrenagens interligadas. Ele nunca lhe dera nada antes, e ela tinha ficado tão surpresa que nem conseguiu agradecer. Mistletoe a guardava escondida por baixo da blusa. As engrenagens pequeninas aninhavam-se no oco onde as clavículas se juntavam à garganta.
Ela viu Jiri coçar o bigode e virar a página. Estava ocupado demais para notar que a garota passara o dia rodando pela cidade na scooter, sem dar notícias. Ela dobrou o joelho junto ao peito e tocou a canela, que machucara ao tentar se enfiar entre um ônibus quebrado e uma carroça de especiarias importadas. Doía, mas dava para aguentar.
Do outro lado da passarela que se estendia suspensa sob a cúpula, um casal de jovens alimentava uma fogueira. Mistletoe acenou, mas tampouco eles tinham tempo a perder com ela, e nem olharam em sua direção. Ela se deitou de costas, a trança azul lhe servindo de travesseiro, e olhou para cima, pelas aberturas de ventilação. Ficou imaginando quantos outros jovens estariam fazendo o mesmo. Sempre que pensava em outros jovens, ela os imaginava com exatamente os mesmos pensamentos e dúvidas que ela. Olhou, por cima da borda da varanda, para as multidões infinitas se acotovelando lá embaixo – a Pequena Saigon era uma uva madura cuja polpa suculenta era grande demais para caber na casca – e se angustiou. Afinal, o que importava o que pensasse sobre o que quer que fosse? Ela era um cisquinho, uma partícula minúscula, que ia viver e morrer olhando por um buraco, enquanto o mundo seguiria em frente, como se ela nunca tivesse nascido.
Como sempre fazia quando precisava mudar o rumo dos pensamentos, ela visualizou tia Dita, a única pessoa que a levava para fazer coisas legais. Foi tia Dita quem a ajudou a escolher o perfume certo para a trança, jasmime centeio, e a tingi-la de azul com raízes amassadas. E foi tia Dita que conseguiu que ela entrasse de penetra na Zona Recreativa Designada para Jovens, no Parque da UniCorp, lá em cima, onde havia rampas para scooters e uma simulação gratuita do Unison, que diziam ser igual ao verdadeiro.
Unison: o auge de todas as redes sociais humanas. BetterLife[3]. A Alucinação Coletiva. Como quer que fosse vendido e anunciado, Mistletoe não ligava a mínima. Ela
não tinha nem como obter a ID[4] de código fixo para ter acesso à Cidade Litorânea do Leste, quanto mais o tão desejado login para o Unison.
Imprecações furiosas soaram de repente dentro da casa. Ela voltou a cabeça. Jiri acertou dois tapas num telefone celular velho e depois atirou-o com força no chão. Como todos os moradores da subcúpula, ele tinha que testar um monte de celulares velhos e detonados para conseguir pegar um sinal muito fraco, e ela sempre assistia, meio se divertindo, meio perplexa, àquela cena: um homem grandalhão e frustrado contra um telefoninho minúsculo e indefeso. Ele pegou outro, apertou um botão e começou a berrar.
– Sim, mas... Sim. Foi o que eu disse. Claro que estou em casa, é onde... – Seus ombros descaíram, e ele baixou a voz. – Agora? Sim. Tudo bem. Entendi. Ma buh.
Jiri olhou através da porta, pálido, e pareceu não vê-la. Ela acenou. Tinha algo errado. Ela abriu a porta.
– Jiri?
Os olhos dele encontraram os dela.
– Vem para dentro. Fecha a porta. Fica aqui.
– Qual é o problema?
– Fica dentro, Anna.
Ele parecia tão perturbado que ela nem tentou corrigi-lo, e ficou só olhando enquanto ele se enfiava em seu casaco pesado, apalpando a pistola pré-Unison no bolso. Ele achava que ela não sabia da arma, mas ele ficava o tempo todo dando palmadinhas nela, sem perceber, através do tecido.
– Volto mais tarde.
– Aonde você vai?
– Depois explico. – Já na porta, ele se virou de novo para ela, abriu a boca, hesitou. – Se eu...
– O quê?
– Mistletoe. Sempre esqueço. Fica aqui dentro. Te vejo mais tarde.
A porta bateu detrás dele, e a garota ouviu o zumbido do elevador descendo. Mistletoe correu para a varanda e localizou o pontinho brilhante da careca dele no meio da multidão. Estava a pé. Então não ia longe. Ela ficou olhando enquanto ele abria caminho por entre três ciganos pintados de amarelo e laranja, empurrando um deles para o meio da massa compacta de buggies e scooters decrépitos que avançavam lentamente pelas ruas, o dia inteiro e a noite inteira. A maioria das pessoas daqui de baixo desarmava os alarmes de trânsito, mas alguns eram dificílimos de silenciar, e a Pequena Saigon estava sempre cheia de lembretes suaves, em mil línguas diferentes, de dirija devagar e com cuidado, como se houvesse alguma chance de correr nas ruas congestionadas.
Ela olhou para Nelson e depois voltou a observar a cena lá embaixo, bem a tempo de ver Jiri sumir por trás de uma pilha de barracos no fim do quarteirão, junto à atravancada pista de acesso por onde transportadores com os circuitos de I.A. reprogramados carregavam ferro velho para os reis da sucata. Em segundos ele sairia de vista por completo.
Mistletoe ergueu os óculos de motociclista laranja que trazia pendurados ao pescoço e os prendeu por sucção sobre os olhos.
– Nem sonhando a gente vai ficar aqui, Nelson.
A scooter estava fria, mas Mistletoe deu a partida e pulou nela, meteu as mãos nas alças do guidão e com o pé abriu um alçapão na varanda. Ela já tinha esquentado Nelson durante a descida antes; podia não ser uma boa ideia, mas impossível não era. Sentiu um colchão macio de energia debaixo de si quando os propulsores iônicos despertaram com um zumbido. O motor tossiu, mas ainda não havia pegado quando ela enfiou a frente do veículo pelo alçapão. Os propulsores mal conseguiram mantê-la afastada dos telhados dos vizinhos enquanto ela meio manobrava, meio despencava ao longo da encosta inclinada da favela vertical. Uma mulher que pendurava roupa se abaixou quando a frente da scooter arrancou do varal um monte de camisas brancas, espalhando-as pelos casebres abaixo.
– Cuidado! – Mistletoe gritou por cima do ombro.
Os propulsores entraram de vez em ação e ela sentiu o colchão se expandir sob o veículo. Perto da base da coluna de casebres ela fez um voo rasante sobre a rua apinhada, dando um chute forte e ligeiro na lateral da scooter. A eletricidade estática levantou mechas de cabelo enquanto ela sobrevoava a multidão. Então o motor pegou e ela desceu entre dois bêbados que cambaleavam, suas camisas manchadas com o verde do absíntio. Deu um cavalo de pau, abaixou-se para passar por baixo dos braços esticados e dobrou a esquina, ignorando os gritos com que a chamavam de volta.
Enquanto seguia pela pista de acesso, de repente percebeu que o som do motor velho da scooter parecia um trovão perto do silêncio sinistro dos transportadores de sucata. Os modelos antigos ainda faziam barulho, mas sem os palavrões, gritos e gargalhadas, toda a rua, que traçava o limite da Pequena Saigon, dava uma impressão de solene desolação que a aterrorizava. E não havia nem sinal de Jiri.
Obrigado por seu trabalho!, disse um dos transportadores.
Fiquem de olho na bola, crianças!, disse outro.
Mistletoe sentiu um arrepio. Seguiu em frente com cautela. Os transportadores eram recuperados das pilhas de sucata; depois de terem seus circuitos de I.A. recondicionados com programas incapazes de pensar, ficavam condenados a carregar, eternamente, montes e montes de lixo da subcúpula. Para onde ia tudo isso?
Logo adiante, ela ouviu uma troca abrupta de palavras ríspidas: Jiri e mais alguém.
– Devagar, Nelson – sussurrou, e reduziu ainda mais a velocidade.
A scooter ronronou. Mistletoe seguiu o som das vozes até uma via estreita e mal pavimentada, que corria entre a rua principal e a pista de transporte de sucata. Era um caminho abandonado, atulhado de garrafas e amontoados de coisas cinzentas e disformes, das quais ela preferia ficar longe. Desligou o motor, mas deixou os propulsores engatados, e espiou por cima de uma pilha de metais enferrujados. Lá, no meio da rua, estava Jiri, de costas para ela, apontando a pistola pré-Unison preta para um policial grandalhão da Cidade Litorânea do Leste, cujo braço metálico reluzente terminava numa ponta brilhante. Esta, por sua vez, mirava um garoto mais ou menos da idade de Mistletoe, mais bem vestido do que qualquer um que ela já tivesse visto. Ele usava holomoda, uma elegante projeção de um terno supertransado, como aqueles dos empresários poderosos lá de cima. O cabelo louro e fino brilhava, mesmo na sombra da subcúpula. Estava bem longe de casa, era óbvio, e tinha as mãos para cima. Seus olhos arregalados iam de Jiri para o policial.
– Eu levo ele – disse Jiri.
– Leva coisa nenhuma – retrucou o policial calmamente, e a ponta de seu braço assumiu um brilho alaranjado. Ele se voltou para o rapaz: – Você vai pra casa agora, garoto.
O rapaz não se mexeu nem falou nada. Mistletoe deixou a scooter em ponto morto. Sentia-se meio zonza. As ameaças de sujeitos como Jiri e aquele policial a incomodavam. Todos os dias ela percorria as ruas da Pequena Saigon e testemunhava toda a mesquinharia humana.
E seu sonho lhe dizia que Jiri e seus amigos eram assassinos. Ou sequestradores. Ou as duas coisas. Lá no fundo, ela acreditava nisso. Teve uma lembrança breve e sufocante do vento uivando em seus ouvidos, de estar apertada contra o peito de Jiri enquanto ele corria. Tiros, gritos, mortes. E qual o motivo? Ela refletiu que talvez nem os caras soubessem. Talvez fizessem aquelas coisas por fazer, pela adrenalina doentia, a subida vertiginosa antes da queda.
De repente ela viu a cabeça de uma policial aparecer devagar por cima da pilha de ferro velho, e viu que ela erguia o braço metálico – disruptor, lembrou-se Mistletoe –, apontando-o para Jiri. Com absoluta determinação, Mistletoe deu partida e fez a scooter saltar sobre a pilha enferrujada. Ouviu a si mesma gritar, um grito abafado e incompreensível. A lateral da scooter pegou de raspão a cabeça da policial, que, surpresa, tentou se abaixar e caiu.
Jiri não mexeu um músculo, mas o primeiro policial piscou os olhos e se virou para o monte de ferro velho. Jiri conseguiu disparar um rápido pam-pam-pam antes que o braço do guarda emitisse um brilho laranja. Por um breve instante, o crânio e a espinha dorsal de Jiri apareceram através da carne transparente, de células desestruturadas, e então ele pareceu normal de novo. Oscilou de leve enquanto via o policial desabar. Em seguida virou-se e fitou o olhar chocado de Mistletoe enquanto caía de joelhos.
Mistletoe sentiu a bile subir até a garganta. O que o disruptor tinha feito com Jiri? Horrorizada, ela ficou olhando enquanto ele abria a boca e levantava as sobrancelhas, implorando. A vida fugiu de seus olhos e ele caiu de bruços no chão.
A mente dela ficou vazia, exceto por um único pensamento muito claro: tia Dita é minha única proteção agora.
Uma série de tossidas tímidas a tirou do estupor. O garoto bem vestido estava de joelhos entre os três adultos caídos. Ela se deteve ao lado dele.
– Você pode andar?
Ele continuou olhando para o chão e sacudiu os ombros.
– A gente não pode ficar aqui – ela disse.
A arma ultrapassada de Jiri tinha feito um barulho ensurdecedor. Logo alguém viria investigar. Mais policiais chegariam e iriam encontrar os colegas feridos. Ela não queria estar por ali para ter que explicar.
– Sobe aqui – chamou ela.
Dessa vez o garoto olhou para Nelson, e depois olhou para ela pela primeira vez. Abriu a boca, mas nenhum som saiu. Ela entendeu a expressão dele: nessa coisa? A scooter era minúscula, enferrujada, de cem anos atrás. O Almofadinha ali talvez nunca andasse em nada menos chique do que um daqueles elegantes carros de chassi articulado que ela via pelas aberturas da cúpula.
– Sobe! – Ela o agarrou pela manga da camisa. Sua mão atravessou a projeção de tecido azul-marinho e tocou o material respirável e colante de seu traje moldável. A três metros de distância, a policial começou a se mexer. O garoto engoliu em seco – ela viu seu pomo de adão subir e descer – e subiu na garupa da scooter. O peso dos dois forçou os propulsores, e Nelson respondeu com um rrrrr raivoso. O garoto rodeou com os braços a cintura de Mistletoe, cauteloso, e espirrou quando a trança densa e perfumada pinicou seu nariz.
Eles ultrapassaram uma fileira contínua de transportadores descerebrados. Mistletoe invejou-lhes a falta de raciocínio – “seria tão ruim assim?” Será que lembravam algo de suas vidas antigas como unidades de I.A.? De repente ela se sentiu enjoada e deteve o veículo. Nos últimos segundos de vida, Jiri olhara para ela com olhos cheios de dor. Ela vomitou. A arma do policial tinha feito algo horrível às vísceras dele. Apoiou a mão no muro lateral do acesso e vomitou de novo.
– Você está bem? – o garoto perguntou.
Ela respondeu com uma fungadela entrecortada, limpou a boca com a mão e engatou a marcha da scooter. O veículo subiu a rampa de acesso até o nível da rua, onde um grupo de crianças maltrapilhas jogava holodados defeituosos contra um engradado vazio. No mesmo instante, os cheiros e sons caóticos da Pequena Saigon, tão familiares, mesclaram-se ao barulho do motor de Nelson. Ela acelerou, passando em meio aos jogadores de dados, e manobrou com destreza através da multidão, cruzando a rua. Desmontou da scooter ao pé de uma favela vertical, distante poucas quadras de onde ela morava. Ela tinha consciência de que estavam perto demais do local da morte de Jiri, e seus instintos de rua lhe diziam para subir, subir sempre. Também estava ciente de que, atrás dela, o garoto fazia tanta força para não chorar que seu corpo se sacudia todo. Ela não queria olhar, porque cairia no choro. Estava com os nervos abalados e sensíveis.
– Sinto muito – ele murmurou.
– Se algo acontecer a Jiri, devo ir para a casa de minha tia Dita – ela disse, com a maior calma que pôde. – Tive que prometer isso.
O garoto estremeceu de novo e ficou em silêncio. Ela o conduziu através da porta aberta do pequeno elevador quadrado e acomodou a scooter lá dentro.
– Sinto muito – ele repetiu. – Não sei o que mais dizer. Eu... Obrigado.
Havia uma mancha de graxa no rosto pálido do garoto. Fora isso, ele parecia ter
acabado de sair de uma wiki[5] de moda.
– Então, quem é você? – Mistletoe perguntou. Mas antes que ele pudesse responder, os olhos dela se encheram de lágrimas e ela começou a chorar. A porta fechou-se e o elevador subiu.
– Sou... – ele começou, então parou e seus olhos se fixaram na parede metálica do elevador, onde alguém tinha pichado uma flor murcha em cor laranja. – Hoje de manhã eu era uma outra pessoa.
Ela piscou até as lágrimas pararem, e firmou a voz.
– Você é lá de cima.
Ele fez que sim com a cabeça.
– Então o que está fazendo na Pequena Saigon?
O rapaz apoiou as palmas das mãos na parede e inclinou-se para diante, até a testa tocar o miolo da flor. As pétalas alaranjadas rodeavam seu cabelo reluzente. Ele inspirou fundo e depois soltou todo o ar.
– Tem sido um dia bem estranho.
Você terminou Unison: A Rede Social do Futuro
Andy Marino