Unison: A Rede Social do Futuro

Andy Marino · Capítulo 5 de 19

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Unison: A Rede Social do Futuro

5 - O horror

– Este lugar é diferente do que eu imaginava – disse Ambrose no mesmo sussurro forçado que vinha usando o tempo todo. – É que... – tamborilou no joelho, tentando encontrar as palavras. – Quer dizer, quando saí da câmara não tinha nenhum meio de descobrir nada. Acho que estou acostumado a acessar a informação, e aqui embaixo é como entrar numa máquina do tempo e voltar cem anos atrás. Não digo isso para te insultar, é só que... bom, sei lá. Saí andando sem rumo, e aí o seu... amigo Jiri me agarrou, e um segundo depois os policiais apareceram, e depois você.

 

Mistletoe ficou de olhos fechados e não respondeu. Desde que Ambrose descrevera o sonho – o sonho dela – a história que contava tinha virado ruído de fundo para seus próprios pensamentos alucinados. Se ele dizia a verdade, e a mulher da transmissão também, isso queria dizer que ela, Mistletoe, não era real? Que ela e Ambrose tinham o mesmo criador? Ela soltou a mão dele e esfregou os lados do rosto onde os fios do sonho haviam estado. Pele sem marcas. Feições humanas normais.

– Não é verdade – ela disse baixinho.

– Desculpe, não estou dizendo que aqui embaixo é ruim. Só que... é diferente.

– A mensagem, quero dizer.

Ambrose não disse nada. Mesmo no escuro ela podia sentir a explicação hesitante morrendo nos lábios dele. Ele não tem certeza, pensou.

– Pode ser que só pareça super-real porque foi o seu último sonho, ou algo assim.

– Então você acha que larguei minha vida por nada? – perguntou ele, com raiva.

– Psiu! – ela sussurrou. – Não sei. Pelo jeito você também não.

Ele baixou a voz até um sussurro rouco.

– Você não faz ideia do que eu acabo de abandonar.

No silêncio que se seguiu, ela abriu a boca duas vezes para contar sobre o sonho dela – o sonho que compartilhavam –, mas algo a impediu. Se contasse, teriam que conversar a respeito, e não estava pronta. Em vez disso, falou:

– Esse negócio que fizeram com você...

– A modificação hipotalâmica?

– É, isso. Você não vai mais dormir? Nunca? Só para poder trabalhar mais?

Ambrose inspirou fundo, depois expirou. Uma vez mais ela teve a impressão de que ele parecia estar tentando se comunicar com alguém mais jovem, apesar de terem a mesma idade. Ela apertou a mão dele com força para não estrangulá-lo.

– Eu tenho... eu tinha uma responsabilidade enorme. Uma pessoa poderia passar uma vida inteira navegando pela infraestrutura da UniCorp e nunca chegar ao fim. Mas imagine se fosse possível pegar todo o tempo desperdiçado dormindo e aplicá-lo de forma produtiva? A escolha era simples.

– Então era algo que você amava.

– O quê?

– As coisas que você fazia. Esse lance de Fluxo de Processo, seu trabalho.

Na escuridão, ela o sentiu dar de ombros a seu lado.

– É quem eu sou.

– É quem você era – ela o corrigiu.

– Pode ser – ele disse baixinho. – Mas você está certa, eu não sei.

Ele mexeu a mão e a libertou da mão dela. Ela sentiu uma ponta de decepção quando perderam contato, e então se repreendeu em silêncio por se importar.

– Desculpa – ela disse. – Acho que é impossível ter cem por cento de certeza sobre qualquer coisa.

– Não para mim. Essa é a questão.

De repente ela o sentiu imobilizar-se, e o corpo dele ficou tenso. Ele procurou a mão dela e a apertou. Ela ficou feliz por estarem de mãos dadas de novo.

– Que foi?

Ele continuou rígido por um instante e depois sua mão relaxou na dela.

– Achei que tinha ouvido algo.

– Não tem nada...

Um lampejo verde ofuscante iluminou o chão, e por um instante ela viu que não estavam sozinhos. A escuridão retornou. Duas esferas verdes brilhantes descreveram um arco na direção deles, deixando um rastro de estática branca.

– Corre! – ela berrou.

Tentou aflita pegar a mão que ele agitava em desespero. Uma das esferas cercou seu rosto antes que ela pudesse desviar. Mistletoe ficou paralisada, vendo tudo verde. Uma vibração grave, ressoante, encheu seus ouvidos e se estabilizou num zumbido de frequência média. Seus dentes batiam violentamente. Por detrás das costelas sentiu uma leve penetração, como um dedo que rompe a superfície da água e depois se afasta. Então seus ouvidos estalaram e a esfera verde sumiu. Ela desabou no chão, e no último pensamento consciente torceu para que Ambrose tivesse conseguido escapar.

Algum tempo depois, Mistletoe despertou sobre uma pilha de almofadas e cobertas cheirando a mofo. Estava zonza e com muita sede. Sentou-se devagar, tentando conter uma dor de cabeça, e olhou em volta. Estava num quarto escuro e sem janelas, repleto de amontoados de fios, cabos e antenas. Nelson e Ambrose tinham sumido.

Por instinto, apalpou-se. Corpo intacto. Roupas e gargantilha no lugar.

Pôs-se de pé devagar, como uma velhinha, apoiando-se nas entranhas em espiral de uma máquina quadradona, pré-Unison. Havia uma única porta de metal, com um olho mágico alguns centímetros acima de sua cabeça. Foi até lá e deu um pulo, mas a lente destinava-se a olhar para dentro e ela não pôde ver nada. Tentou a maçaneta. A porta se abriu.

Ma buh...

Piscou duas vezes, contraindo todo o rosto e esfregando os olhos para ter certeza de que não estava sonhando.

Diante dela estendia-se um zoológico subterrâneo. Bem lá no alto, aves de plumagem laranja e azul entravam e saíam de estranhas formações. Corvos se empoleiravam, sinistros, nas barras dos trapézios que pendiam do teto em forma de domo. Colmeias de abelhas e ninhos de tamanhos e formas variados estavam presos em grossos galhos. Sob eles, macacos balançavam-se, tranquilos, para a frente e para trás. Alguns metros à frente dela, o piso de concreto cinza dava lugar a uma planície gramada onde pastavam enormes animais cobertos por densa pelagem marrom. Mais além, dois bodes com os chifres entrelaçados mediam forças sobre uma enorme pedra cinzenta. No centro do recinto havia um lago onde descansavam patos e gansos.

O silêncio era total.

De súbito todo o recinto começou a vibrar, e depois a chacoalhar. Aves assustadas voaram aos bandos dos galhos quando do teto começaram a cair pedaços de reboco. Ela perdeu o equilíbrio e caiu no chão. Era a mesma vibração profunda que ouvira no trigésimo andar, só que agora sua fonte estava ali perto. Seria o Horror algum tipo de estouro de manada? Encolheu-se na grama macia e tampou os ouvidos, tentando lembrar se tinha visto algum elefante.

Um segundo depois o silêncio retornou e ela abriu os olhos. À sua frente estava o homem mais alto que já vira. Tinha cabelo branco desgrenhado, pele pálida e enrugada, e um magro pescoço que parecia comprido demais. Vestia uma feia túnica cinzenta, que caía solta até prender-se aos tornozelos. Ele sorriu com suavidade e estendeu para a garota a mão de dedos delgados.

Mistletoe ignorou o gesto, ficou de pé sozinha e recuou.

– Estamos felizes por você estar bem, criança – ele disse. Seus olhos irradiavam um brilho penetrante, que não combinava com sua voz tranquilizadora. – E peço desculpas pela recepção nada calorosa, mas infelizmente não tivemos escolha.

– O que vocês fizeram com a gente? Cadê Ambrose?

Ele deu um passo na direção dela e estendeu a mão de novo.

– Venha e veja por si mesma.

Mistletoe tornou a recuar. Ele aquiesceu com a cabeça e cruzou os braços. Detrás dele, um dos animais peludos moveu-se, pesado, olhou-a com grandes olhos negros e baixou a cabeça para comer capim.

– A situação desagradável pela qual vocês passaram foi necessária para remover qualquer rastreador que tivessem implantado.

Mistletoe lembrou-se da sensação de ser cutucada por dentro e esfregou o peito.

– A gente estava sendo rastreada?

– Ele estava, claro. Você não, mas precisávamos ter certeza.

Ela fez que sim. Isso explicava como os policiais tinham encontrado Ambrose assim que ele saiu da câmara estanque. Talvez por isso tivesse sido tão fácil para ele escapar do prédio da UniCorp: Martin Truax queria que ele fugisse, para que seus homens o seguissem. Ambrose era a isca, mas para quem? Jiri e tia Dita?

O rosto dela ficou neutro como uma máscara e ela cerrou os punhos.

– Quem é você? Que lugar é esse? Cadê Nelson?

– Nelson? – o homem franziu as sobrancelhas brancas.

– Minha scooter.

– Ah, sim. Escute, sei que não dei motivo algum para você confiar em mim, mas se me seguir prometo que lhe mostro tudo.

Mistletoe mordeu o lábio. Se ele quisesse matá-la, já teria feito isso, e se quisesse lhe fazer mal, tinha tido a oportunidade enquanto ela dormia. Ela acenou com a cabeça.

– Tudo bem. Mas não pegue na minha mão. Nunca.

Ele riu.

– Podemos apertar as mãos ao menos uma vez? Meu nome é Magnus. Este lugar é minha casa. Seu veículo está intacto.

– Não, não podemos. Meu nome é Mistletoe. Sua casa é esquisita pra caramba, e é bom mesmo que Nelson esteja bem.

Magnus deu de ombros e a conduziu pela planície que descia numa encosta suave. Passaram tão perto dos animais marrons que ela esperou sentir seu forte cheiro, mas nada. O lugar todo exalava um leve odor embolorado, como o da pilha de cobertas em que acordara. Com certeza aquele não era o cheiro de um recinto lotado de animais selvagens.

Perto do lago, desceram numa vala gramada que logo se transformou num túnel de cimento. Ela olhou para trás e viu o magnífico recinto ser eclipsado por uma breve escuridão antes de emergirem num túnel muito maior. Era escuro e úmido e tinha cheiro de meias sujas. A água pingava das vigas de ferro corroído lá em cima, formando pocinhas.

– Ande com cuidado, criança – alertou Magnus, indicando a grade de barras de aço dispostas sobre o piso a intervalos regulares. – O que você conhece da história de nossa cidade?

– Conheço a Lei de Divisão da Cúpula e as revoltas. Mas nunca estive aqui embaixo. Nem no trigésimo andar eu tinha estado antes. As pessoas entram mas não saem.

Os olhos de Magnus brilharam no escuro.

– É isso que dizem?

Ela fez que sim com a cabeça.

– Dizem que o Horror pega todo mundo que entra.

De repente é assim que você alimenta os animais, pensou.

– Ah, sim. O Horror.

Ela seguiu Magnus ao redor de um maciço muro de aço plástico que dividia o túnel ao meio e se enterrava no solo. Foram pela esquerda, onde uma luz fraca lançava longas sombras sobre as paredes azulejadas em mau estado. Sob a sujeira marrom que cobria tudo, ela percebeu um padrão que se repetia:

LEX 59 LEX 59 LEX

– Estamos no antigo sistema de metrô de Nova York – Magnus explicou. – A parte mais profunda da Cidade Litorânea do Leste, esquecida pela maioria, ignorada pelos demais. Meu irmão e eu vivemos aqui faz muito tempo.

Ela tinha ouvido falar dos velhos túneis de trem, mas o que se acreditava era que todas as entradas e saídas tinham sido bloqueadas muito tempo atrás.

– O caminho está fechado para todos, menos para meu irmão, para mim e para poucas pessoas mais – ele informou. “Será que podia ler seus pensamentos? Ela não teria ficado nada surpresa.”

Viraram uma curva e o túnel iluminou-se todo. Neste trecho a sujeira fora removida das paredes e os trilhos deram lugar a um caminho liso e azulejado. Diante dela, banhados pela luz de um enorme lustre, dois sofás de couro flanqueavam uma porta de ferro.

– Bem-vinda a nosso lar. No passado, entre nossos hóspedes privilegiados estavam seu tutor, Jiri, e a irmã dele, Dita.

Mistletoe estacou. Ao ouvir isso, um nó formou-se em sua garganta. Engoliu em seco e segurou o homem pela manga, torcendo o tecido macio.

– Você conhece a tia Dita? Ela está viva? Está aqui?

Magnus sacudiu a cabeça e empurrou a porta de ferro.

– Nós perdemos todo o contato – respondeu ele, sombrio.

Ela o soltou, seguindo-o até um recinto bem iluminado, com cerca da metade do tamanho do zoológico silencioso, abarrotado com enormes computadores pré-Unison, ao lado de equipamentos modernos de laboratório, que a fizeram se lembrar de seu sonho. Junto às paredes havia fileiras de tubos de escaneamento abertos, as vísceras mecânicas pendendo para fora. Diante de Mistletoe, Nelson apoiava-se a uma pilha de caixas que ela reconhecia. Fornos de micro-ondas, que Jiri tinha às dúzias em sua loja.

Quanto tempo levaria ela para pular na scooter, ligar os motores e os propulsores e disparar túnel afora? Quem dera ela soubesse usar aquele lance de Ambrose, previsão de fluxo, algo assim. O mais provável era ser agarrada por Magnus antes de alcançar a porta de ferro, que de qualquer maneira tinha se fechado atrás deles.

No centro do recinto, um tronco de grossos fios descia do teto e se espalhava pelo chão como se tivesse raízes. Os fios-raízes se ramificavam em várias direções e se conectavam ao maquinário híbrido ao redor. Parado ao lado do tronco havia uma versão ainda mais velha de Magnus, com cabelo e pele de um amarelado doentio, não tão alto e usando uma túnica igual. A seus pés estava deitado um grande cão labrador negro, de cujo crânio saíam o que pareciam ser os chifres curvos de uma cabra montês.

– Meu irmão Ivor – apresentou Magnus. O cão-cabra e o homem a olharam e acenaram com a cabeça ao mesmo tempo.

– Qual deles? – perguntou Mistletoe.

Ela se aproximou. O cão-cabra esfregou o nariz molhado na mão dela. Como os animais do zoológico, não produzia som algum, nem ao ofegar.

– Carpe somnium – saudou Magnus. – Relatório?

Ivor primeiro olhou para Mistletoe e depois para o irmão. Seus olhos eram duros, inexpressivos, num contraste com a mirada maliciosa de Magnus. Ela não conseguiu decidir de qual olhar gostava menos. Quando Ivor falou, sua voz soou distante e fria, como se ele relatasse um assunto tedioso.

– A remoção inicial da ID teve suas... dificuldades. – Seus olhos relancearam por um balde cheio de trapos sujos de sangue. – Não há dúvida de que o código fixo do jovem Truax foi implantado com a tecnologia mais avançada da UniCorp. E também deve ser levado em conta seu recente Nível Sete. Tive de proceder com muita cautela.

Virando-se para um conjunto de monitores pré-Unison, ele passou a teclar em vários teclados ao mesmo tempo.

– Tentamos ao máximo nos manter atualizados, mas a cada novo avanço, a UniCorp nos deixa mais para trás – disse Magnus a Mistletoe. – A inovação é rápida demais para acompanhar. É melhor você tapar os ouvidos.

– Os ouvidos?

Agarrando-lhe as mãos, Magnus fez com que as pusesse sobre as orelhas, retendo-as ali. Mistletoe resistiu por um instante, e então soou a mesma vibração profunda que ela ouvira no trigésimo andar e, mais intensa, no zoológico. Nesta sala, porém, onde o troar se originava, era insuportável. A garota caiu de joelhos, e Magnus se abaixou com ela, apertando-lhe as mãos ainda mais contra os ouvidos dela. Ela sentiu o estômago contrair-se e a garganta trancar, como se a imensidão do som envolvesse seu pescoço. A visão turvou-se e ela lutou para segurar a bile que subia, e então o silêncio voltou. Magnus ajudou-a a se erguer.

Os irmãos e o cão não tinham sido afetados em nada pelo barulho ensurdecedor. Ivor ainda teclava. O animal lambia as patas dianteiras.

Ela respirou fundo, de novo e de novo, e sentiu o som deixar seu corpo em ondas vibratórias.

– O Horror é esta sala? – perguntou, e sua voz soou distante e abafada. – As pessoas têm medo de um barulho?

– Um bônus não intencional – disse Ivor.

– Até onde sabemos, mantemos o sinal pirata mais sofisticado de toda a subcúpula – orgulhou-se Magnus. – Ele testa os limites de nosso equipamento quando exigimos demais dele, e o equipamento protesta com essa leve... reclamação.

– Pois então lhe deem um pouco de óleo vegetal e uns chutes bem dados – ela disse, tentando transformar seus pensamentos difusos em perguntas reais. – Afinal, quem são vocês? Como conhecem Jiri e tia Dita? Onde está Ambrose?

Os irmãos se entreolharam. Ivor deu de ombros, desinteressado, e desapareceu por trás do tronco de fios, mais largo que o barraco onde Mistletoe morava. O cão-cabra foi atrás dele, silencioso.

Magnus sorriu de novo, ou pelo menos tentou. Desde o encontro deles no zoológico, cada novo sorriso saía menos expansivo. Agora era uma linha fina e rígida. Ela contou mentalmente quantos passos precisaria para correr a toda até Nelson.

– O que você sabe sobre o Unison? – ele perguntou.

– O suficiente – ela mentiu. A verdade é que, como a maior parte dos moradores da subcúpula, não sabia quase nada.

Magnus ergueu as grossas sobrancelhas brancas e apertou os lábios. Assentiu de leve com a cabeça e disse:

– Hum. Bem, Ivor e eu fazíamos parte da equipe original de desenvolvimento da UniCorp. Projetamos a estrutura para a atualização do Unison 2.0, e logo depois que ele entrou em funcionamento, Martin Truax nos designou para um novo projeto altamente secreto. Fomos... muito bem pagos por nosso trabalho.

Havia em sua fala uma saudade mal disfarçada daquilo que Mistletoe imaginou ser sua antiga vida lá em cima. Por trás do tronco de fios, alguma coisa guinchou e parou com um baque. Ivor xingou.

– No começo, nossas instruções eram vagas – prosseguiu Magnus. – Martin Truax relutava em fornecer a menor indicação do objetivo do projeto. Recebíamos transmissões codificadas, acompanhadas por dados embaralhados e desconexos. Não sabíamos quem as enviava, nem de onde, e nossa ordem era decifrar seu conteúdo o melhor que pudéssemos. Quando reclamamos, e deixamos claro que saber a origem delas era vital para nossa tarefa, Martin ameaçou nos tirar do projeto. No dia seguinte, mudou de ideia e admitiu que as transmissões vinham de algum lugar dentro do Unison.

Magnus começou a andar pelo recinto enquanto falava, as mãos unidas atrás das costas como um cavalheiro passeando pelo jardim. Seus olhos se apertavam enquanto ele se concentrava nas lembranças. Mistletoe seguiu-o meio a contragosto, enquanto se afastavam cada vez mais de Nelson.

– Meu irmão e eu deciframos as transmissões o suficiente para perceber que, embora tivessem sido encontradas dentro do Unison, elas com certeza vinham de outro lugar. O Unison era só um meio de comunicação para os remetentes. Quando mostramos nossas conclusões a Martin, ele descobriu que as transmissões formavam uma espécie de... – Magnus fez uma pausa e mordeu o lábio inferior – ... manual de instruções.

– Instruções para quê?

Mistletoe esquecera por completo de Jiri e de tia Dita, dos policiais e do zoológico silencioso. Estava pensando sobre o sonho de criação que compartilhava com Ambrose. Tinha um horrível pressentimento de que sabia a resposta para sua própria pergunta.

– Um organismo híbrido – Magnus tossiu, nervoso. – Bom, dois organismos híbridos, para ser exato.

– Ambrose e eu. – O coração dela batia forte, e sua cabeça rodava.

Magnus deteve-se, olhando-a com piedade.

– Sim. Isso mesmo. Quem enviou as transmissões queria que os construíssemos... quer dizer, que construíssemos vocês.

– Quem? – ela conseguiu articular debilmente.

– Ivor e eu acreditamos que o remetente é algum ser parecido conosco, quer dizer, biologicamente próximo aos humanos, mas vivendo em um lugar totalmente diferente. Pense no universo como uma grande mansão com milhões de quartos. Em geral os quartos de uma extremidade da mansão estão completamente isolados dos quartos da outra. Mas às vezes um alçapão se abre e alguma coisa consegue passar de um lado a outro. Achamos que a transmissão era algo assim e que o Unison funcionou como alçapão.

Mistletoe sentiu a boca seca. Ela ficava repetindo para si: esse aí é o cara que me criou. Não parecia real. Era como se aquilo fosse algo que ela deveria descobrir dali a muitos anos e o mundo tivesse cometido um erro enorme, revelando cedo demais o segredo.

– Então por que estou aqui? – Sua voz estava rouca de repente. – Para que vocês me criaram?

O sorriso de Magnus virou uma linha ainda mais fina e rígida. O homem tocou de leve o ombro dela, que desta vez não se afastou. Ele abriu a boca e hesitou, olhando para o irmão, que surgira perto deles, limpando a mão num pano manchado de sangue.

– Não temos a menor ideia – respondeu Ivor, a voz monótona repleta de amargura. – Martin decidiu que sabíamos demais sobre seu precioso projeto secreto e revogou nossos privilégios de Administradores do UniCorp. Então fomos despedidos. Imaginamos que seria só uma questão de tempo antes que decidissem acabar conosco, e então viramos fantasmas. O motivo de sua existência é um mistério tão grande para nós quanto para você. – Ele apontou para o tronco de fios. – Mas não por muito tempo.

No lado de trás do tronco, os fios estavam afastados como cortinas. Ambrose estava lá dentro, as palmas das mãos viradas para cima e sustentadas por pequenas redes de finas fibras prateadas, que desapareciam tronco acima. As mãos estavam envoltas em bandagens. Ao redor dele, dançavam no ar informações externalizadas. O menino conseguia manter-se de pé sem apoio, mas seus olhos vidrados, fixos, não piscavam em meio às luzes coloridas e pulsantes que explodiam ao redor, ali dentro, da fonte do sinal.

Mistletoe voltou-se para Ivor, que agora tinha em mãos um bastão atordoador, como o que Ruivo usara nas ruas da Pequena Saigon. Detrás dele, Magnus fitava o chão.

– Temos de pedir-lhe que se junte a ele, Anna – disse Ivor.

– Esse não é meu nome! – ela berrou.

Seu grito foi abafado pelo estrondo do Horror.