Unison: A Rede Social do Futuro

Andy Marino · Capítulo 6 de 19

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Unison: A Rede Social do Futuro

6 - Dentro do Unison

Novo usuário.

 

Ambrose concentrou-se nessas duas palavras como se fossem uma lembrança preciosa. Uma ansiedade boa ardia dentro dele. Apesar das circunstâncias, ele amava o Unison. Sempre o amaria. Não era um incômodo construir uma nova Conta partindo do zero; era maravilhoso. Nas palmas das mãos, o latejar nos pontos onde Ivor havia reinicializado implantes receptores atenuou-se, e agora era só uma dorzinha chata.

À sua volta, o ponto central do sinal rugia.

Sentiu o gosto de ácido de bateria, aguentou os sintomas familiares da projeção, e emergiu do lado de cima, numa manhã luminosa e perfeitamente calibrada do Unison. A subcúpula da Cidade Litorânea do Leste nunca havia sido mapeada, codificada e

transformada em um bitmap[11], e portanto nunca fora incluída no mundo do Unison. Assim, o mais provável era que ele estivesse num ponto da superfície logo acima da casa-túnel dos dois irmãos.

A cidade estava silenciosa e vazia. Sendo um usuário novo, não tinha nenhum Amigo. Atmoedifícios sem graça e sem cor erguiam-se ao redor. Seus passos ecoavam enquanto passava por lojas de fachadas vazias e imponentes saguões empresariais. No ar havia um leve cheiro de arroz. Lembrou-se da equipe de programação do Associado Garvey, discutindo semanas a fio as especificações exatas para o cheiro de usuário novo.

Depois de uma longa contemplação – o Unison nunca mais teria essa aparência ou daria essa sensação de paz –, Ambrose acessou seu Perfil. O espelho surgiu em sua mente, dividindo sua percepção do Unison em duas áreas distintas: a cidade vazia a sua volta, que ele podia tocar e cheirar, e os detalhes da nova Conta. De repente ele podia sentir as características da nova personalidade que Ivor implantara para evitar a detecção pelos escaners da UniCorp. Ele torcia para que essa máscara servisse. Voltou o espelho para dentro.

Agora ele era Adam Trevor, um cantor pop iniciante, em busca de uma grande oportunidade. Seus interesses incluíam música do século XXI, design de móveis e colheita de maçãs na Expansão da Nova Inglaterra.

Tudo bem.

Escolheu tornar pública essa informação e sentiu de novo um gostinho de ácido de bateria. Ao redor dele, a cidade começou a mudar. O leve cheiro de arroz ficou mais encorpado e de alguma forma mais próximo, como se estivesse sendo cozido ali perto. Sob seus pés, a calçada agitou-se. Raízes retorcidas emergiram, empurrando o calçamento para o lado. Dúzias de plantinhas brotaram em meio às raízes e cresceram acima de seus joelhos. Pétalas brancas se abriram, florescendo radiantes antes de caírem ao solo, cobrindo os trechos onde o pavimento não fora substituído por grama.

Ambrose caminhou por entre os troncos que engrossavam, enquanto seus galhos se projetavam agora acima de sua cabeça. De uma só vez, milhões de folhas verdes brotaram e se agitaram numa brisa que ele não sentia. O ruído – um leve farfalhar – soava errado, baixo demais e áspero. Ambrose fez uma nota mental de encaminhar o erro para um Associado de Design, e então lembrou que já não tinha acesso a sua Plataforma de Administração. Teria de ignorar todos os erros de sistema que encontrasse. Mas quem sabe o ruído de farfalhar tivesse sido projetado especificamente para os ouvidos de Adam Trevor? Seria preciso se acostumar à nova ID.

Parou, fechou os olhos, e respirou fundo. O cheiro de arroz fora substituído por outro, forte, doce e reconfortante. Abriu os olhos e descobriu que estava de pé no meio de um pomar totalmente formado. Por entre as camadas de folhas, podia ver manchas cinzentas e azuis, cidade e céu. Maçãs vermelhas maduras pendiam das árvores, em pencas, em pares, sozinhas.

Ambrose esticou-se, agarrou uma das solitárias e puxou. O galho envergou e depois saltou de volta quando a maçã se soltou. Ele deu uma mordida, e o sumo escorreu por seu

queixo. Perfeitamente deliciosa, melhor até que uma BetterApple[12]. De fato, nada podia substituir a comida Unison bem calibrada. Mastigando com gosto, ele foi até o limite do pomar e jogou o miolo da maçã numa pilha de pétalas brancas.

Deixando a sombra da última árvore, passou para a calçada. A cidade agora tinha uma população: milhares de Amigos em potencial – usuários com interesses, valores e padrões mentais similares – apareceram como fantasmas translúcidos caminhando pelas ruas. Moveu-se devagar no meio deles; o anonimato conferido pela nova ID. Nenhuma avalanche de pedidos de Amizade. Nem uma horda de desenvolvedores de Aplicativos lutando por sua aprovação. Viu, do outro lado da rua, um garotinho vaporoso correndo atrás de um Amigo ainda mais jovem. Graças ao Plano Família da UniCorp, até crianças podiam receber seu login. Tinham privilégios bastante limitados, mas era do interesse da UniCorp criar uma demanda para BetterLife o mais cedo possível. Pais obcecados com status costumavam gastar sem qualquer controle.

No mesmo espaço ocupado pelo Perfil no espelho interno, começou a piscar um Feed:

De Ambrose Truax para o Novo Usuário Adam Trevor: Em nome de minha família, quero desejar calorosas boas-vindas. Vida Melhor no Unison!

Chocado, Ambrose quase se projetou para fora, antes de se lembrar que Len insistira para que mensagens automáticas “personalizadas” fossem enviadas a cada novo usuário. Havia uma de Len, uma de Ambrose e uma do pai.

Lembrou-se do dia em que o irmão e ele tinham discutido os termos da mensagem de boas-vindas. Um detalhe tão bobo e sem importância, e tinham gastado horas nisso. Olhou para o céu azul que se entrevia em meio aos atmoedifícios. Tão pouco tempo havia se passado desde que ele deixara para trás a vida antiga, e as coisas a que antes costumava dar importância já pareciam absurdas. Então recordou os detalhes de seu antigo quarto – o closet cheio de holomoda, a mesa sintetizadora top de linha, a linda vista do prédio de pastagem vizinho – e uma dor surda se irradiou de seu peito. Nunca voltaria a ver essas coisas.

Reprimindo a onda de saudade, lembrou a si mesmo que a família, a carreira e as posses de Ambrose Truax tinham todas sido construídas sobre a grande mentira de sua criação, e que agora ele estava aqui no Unison para descobrir a verdade.

Magnus e Ivor tinham lhe mostrado as transmissões confidenciais e agora ele sabia o segredo de seu pai: Ambrose, assim como Mistletoe, tinha sido criado de acordo com as instruções das transmissões. Essa era uma informação irreal, difícil de assimilar. Ele não se sentia diferente, mas por outro lado ainda não vira os projetos específicos de sua criação. Já era bastante duro aceitar que não era humano de todo; ver diante de si, exposta friamente, a nanotecnologia intrincada de sua constituição celular seria demais. Mais tarde teria tempo para essas coisas estranhas e dolorosas.

Antes disso, ele aceitara a ajuda oferecida pelos dois irmãos para rastrear e localizar a fonte das instruções de sua criação. Não que confiasse neles ou em seus amigos anti-UniCorp, mas Magnus fizera uma pergunta irresistível: Quantas pessoas neste mundo têm a chance de investigar pessoalmente o mistério de sua própria existência?

Não muitas, Ambrose admitiu. Talvez ele fosse a única.

Seu Feed prosseguiu:

UniCorp apresenta: Maximize sua Felicidade! Fique mais tempo em BetterLife, faça muito mais Amizades e alcance seus objetivos com um revolucionário procedimento de cirurgia rápida. Pergunte-nos como!

Para cada item que ele absorvia, sua reação imediata de curti ou não curti era medida e registrada. Uma equipe de Fluxo de Processo da UniCorp havia criado um molde para o tipo de personalidade de Adam Trevor e iria preenchendo as lacunas à medida que recebesse mais informação. Em geral era agradável estar num mundo onde as coisas sempre se encaixavam com perfeição, mas habitar a Conta de Unison de Adam Trevor era perturbador. A experiência acolhedora e reconfortante, que trabalhara toda sua vida para manter e aperfeiçoar, estava toda deslocada, como se ele tivesse acordado dentro do sonho de outra pessoa.

Um garoto surgiu diante de Ambrose na calçada, o cabelo negro brilhante caindo sobre seus olhos. Ao contrário dos outros fantasmas, ele parecia sólido. Olhou para Ambrose com um misto de interesse e divertimento e em seguida estendeu-lhe a mão. Ambrose sorriu e apertou-a. Quando as palmas de suas mãos se tocaram, uma onda de Informação de Perfil invadiu o Feed de Ambrose.

O Unison lhe designara seu Primeiro Amigo.

Takashi Nakamura tinha 16 anos. Compartilhava com Ambrose o interesse pela música do século XXI. Além disso, os dois eram confiantes, mas tinham tendência a se acidentarem, eram alérgicos a mofo e transpiravam horrivelmente quando falavam com garotas.

Claro, o perfil de Takashi poderia ser totalmente falso, como o seu. Até onde Ambrose sabia, o Takashi bem poderia ser um príncipe bilionário do Polo Norte.

Ou um Associado da UniCorp.

– Oi – disse Takashi, abaixando a mão e fazendo um breve aceno com a cabeça. – Bem-vindo à BetterLife.

Ambrose ficou sabendo que Takashi tinha 42.578 Amigos e que a maior parte do seu tempo no Unison era passada no Centro de Imersão de Entretenimento de Massas.

– Como foi sua primeira projeção? – Takashi perguntou, sorridente.

– Meio esquisito – respondeu Ambrose, no papel de um novo usuário. – Teve um gosto ruim.

– É pra isso que servem as BetterMints, inteligência-rara. E então, por que demorou pra logar? Seus pais não queriam deixar você brincar? Você é religioso ou algo assim?

– Só agora a gente conseguiu grana pra uma ID de login. Meu pai arranjou um emprego novo. Antes a gente vivia... – quase disse na subcúpula, mas interrompeu-se a tempo. – Bom, foi meu presente de aniversário.

– Feliz aniversário, pop star. A gente precisa comemorar!

– Ah, é?

– Nunca fui um Primeiro Amigo antes! – Takashi estava eufórico.

Sua EmotiSombra, um dos Aplicativos mais populares do Unison, começou a dançar no chão entre seus pés. Ambrose riu. Ao curtir a EmotiSombra, abriu seu Feed para ofertas de outros Aplicativos:

Eventos demais? Você se sente sobrecarregado? Finja que deletou sua Conta com UniFui!

EmotiSombras são ótimas, mas serão adequadas no Workspace? Regule a sua com um EmotiTooth. 100% diversão, 0% distração.

E recebeu sua primeira atualização de Linha de Pensamento, que sentiu como o toque suave de um dedo atrás dos olhos:

Takashi Nakamura acha que Adam Trevor vai ter o melhor aniversário da vida.

– Bom, não tenho nada planejado... – disse Ambrose.

– Agora tem – interrompeu Takashi. – Vem comigo.

Acenou para que Ambrose o seguisse pela multidão de fantasmas. Ambrose hesitou.

– Estou esperando alguém.

– Boa desculpa. Eu sou seu único Amigo, lembra?

A EmotiSombra de Takashi cruzou os braços. Ambrose precisava esperar por Mistletoe no mesmo ponto em que chegara ao Unison. Ivor tinha prometido projetá-la logo que ela acordasse, e Ambrose não tinha como localizá-la até fazerem Amizade.

À sua volta, o Unison continuava mudando. O atmoedifício à esquerda deles era verde-limão, a cor favorita de Adam Trevor. O imponente saguão de mármore branco foi substituído por uma loja abarrotada com discos e roupas vintage. As enormes portas de vidro espelhado estavam cobertas de cartazes antigos de bandas que Ambrose não conhecia. Uma fina camada de sujeira cobria as ruas, e o lixo se amontoava ao longo do meio-fio. Adam Trevor preferia um ambiente urbano menos sofisticado. Ambrose arrepiou-se. Por que alguém iria querer sujar seu ambiente no Unison? Mas, pelo menos, os implantes de Ivor estavam funcionando. Até aqui, os escaners da UniCorp respondiam apenas às supostas ações e desejos de Adam Trevor.

– Ei, pop star – disse Takashi, impaciente, sua EmotiSombra socando o ar. – Você vem ou não?

No fim da rua apareceu um fliperama a céu aberto. Velhas máquinas de jogos eletrônicos alinhavam-se, com imagens perfeitas, sem qualquer falha.

– Na boa, não vai dar. Como já disse, eu...

– Está esperando um amigo misterioso. Eu ouvi. – Sua EmotiSombra baixou a cabeça.

– Desculpa. – Ambrose fez de tudo para parecer sincero. – Da próxima vez, quem sabe...

Takashi Nakamura acha que seu novo Amigo odeia se divertir ou algo assim.

Ambrose olhou para seus sapatos reluzentes, estampados de xadrez. Sentiu a decepção do novo Amigo como se fosse sua: um desânimo repentino, mesclado a uma tristeza enorme. Takashi é solitário, compreendeu. Ao mesmo tempo, veio a percepção de que Takashi sabia que Ambrose sabia que ele era solitário. Seus Fluxos de Pensamento tinham se mesclado. Ambrose torcia para que os novos implantes de Ivor estivessem configurados para não colocar muita informação nos seus. O Feed informou-lhe:

Jogue agora Guerra nas Luas de Saturno! Atualização de pulso disruptor gratuita para os primeiros 500 usuários!

Ocorreu-lhe que não haveria mal em relaxar e se divertir um pouco. As últimas 24 horas tinham sido puro stress, e se conseguisse aceitar totalmente a ID de Adam Trevor, o Unison se encarregaria de tomar todas as decisões. Poderia flutuar à vontade de uma distração a outra.

A EmotiSombra de Takashi se animou, reagindo a tais pensamentos positivos. Ambrose sentiu vontade de ser generoso e aberto. Parecia que conhecia Takashi a vida toda. A adrenalina da conexão com o Primeiro Amigo era algo que ele não sentia fazia muito tempo. Se relaxasse e seguisse Takashi, poderia manter o clima e, com cada novo Amigo, incrementar o Fluxo de Pensamento coletivo.

No entanto, lembrou a si mesmo, agora tinha uma missão, um propósito na vida que não era baseado em mentiras. Havia pessoas contando com ele. Não era difícil distrair-se naquele lugar.

Foco, Ambrose.

Ele imaginou que um detetive devia começar com as perguntas certas. E sem sua Plataforma de Administração, perguntas eram tudo o que ele tinha.

– Ei, Takashi, como é que este lugar funciona?

– Tem um tutorial. Se você quiser, te mostro onde...

– Não, eu quero saber como é que ele funciona na real.

Takashi apertou os olhos. Sua EmotiSombra encolheu os ombros.

– Não estou entendendo.

Ambrose acenou com a cabeça. Precisava ter cuidado. Olhou ao redor.

Um cachorro magro e marrom fuçava na sarjeta.

– Tipo aquilo – disse, apontando. – É meu cachorro, porque fizeram para mim, certo? Então, você vê um cachorro?

Takashi assentiu.

– A semelhança de percepções entre os Amigos não é como no mundo material, mas chega perto. Dizem que na Versão 3.0 vai ser perfeita.

– Então o que você vê não é um gato, um elefante ou sei lá o quê? Você também vê um cachorro?

– Vejo, mas a pergunta é, de que cor? – Takashi abriu um largo sorriso. – E de que raça?

– Não sei, hum... Labrador dourado, acho.

– Hummmm – fez Takashi, inclinando a cabeça.

Takashi Nakamura acaba de descobrir que prefere buldogues.

– Tá legal, beleza – disse Ambrose. – Mas tem alguém com quem eu possa falar que sabe como o Unison faz o cachorro que eu vejo ser diferente do cachorro que você vê?

Takashi riu.

– Você quer dizer um Associado de Programação? Você acabou de chegar, Adam. Na boa, tá, mas você não é ninguém. Tem tipo uns dois bilhões de pessoas na sua frente.

– Não, não quero dizer um programador do mundo material. Só alguém que... sabe das coisas.

Ambrose estremeceu. Ele teria que melhorar nisso.

Ficaram olhando enquanto o cão roía um retalho de couro. Fantasmas passavam por eles o tempo todo.

– Bom, tenho um Amigo que de repente seria legal você conhecer – disse Takashi, pensativo.

Era impressão ou algo tinha mudado entre eles? O entusiasmo de Takashi agora parecia permeado de cautela. Sua EmotiSombra se imobilizou, meio trêmula.

Takashi Nakamura recomenda uma Amiga: Sonia Carter.

Um vislumbre do Perfil de Sonia Carter invadiu seu Feed. Quinze anos. Ex-hacker que virou desenvolvedora independente autorizada de Aplicativos. Desenvolveu o UniPetz, serviço de animais de companhia customizáveis. Ambrose pensou em Lincoln.

– Bom... Tudo bem – disse Ambrose, fingindo timidez. – Acho que vai ser bom mesmo conhecer mais gente, né?

– A ideia é essa – disse Takashi. – Do contrário, você nunca vai ser nada aqui. Vai ser só... você mesmo.

Ambrose vasculhou a multidão fantasmagórica procurando alguém que pudesse ser Mistletoe. Magnus e Ivor tinham prometido que ela entraria logo depois dele.

Takashi agarrou seu braço.

– Precisamos ir ao CIDEM.

– O Idem? – Ambrose se fingiu de bobo.

– C-I-D-E-M. Centro de Imersão de Entretenimento de Massas. Foi onde conheci Sonia. Ela está sempre por lá.

Ambrose olhou em volta. Mais uma vez sentiu falta de sua Plataforma de Administração; com uma triagem simples ele teria podido limitar a busca, descartando milhares de possibilidades. Deveria ter dado a Magnus e Ivor instruções específicas para encontrar Mistletoe, mas com tantas novidades, não tinha pensado nisso.

– Tudo bem, só que... Minha amiga é nova, como eu. Ela não vai saber...

Takashi sorriu. Sua EmotiSombra jogou a cabeça para trás e deu uma risada silenciosa.

– Aaaah, então o “amigo” misterioso é uma garota. Escuta, quando conhecer a Sonia, vai se esquecer dela completamente. Vai por mim.

Ambrose pensou por um instante. Quem sabe Mistletoe ainda estivesse dormindo, recuperando-se dos efeitos da remoção dos rastreadores. Não podia ficar para sempre ali, esperando. Concordou com um aceno de cabeça, e Takashi o levou rumo ao fliperama.

Enquanto atravessava a multidão de fantasmas, Informações de Perfil inundavam seu Feed. Fluxos de Pensamento tagarelavam. Bilhões de emoções microblogadas, fugazes alegrias e dores do dia a dia roçaram os limites de sua percepção, como peixes se dispersando ante a chegada de um tubarão. Um ciclo interminável de transmissão de conexões humanas, que ele estava perdendo! Naquele exato momento, alguma coisa interessante ou hilariante ou emocionante estava sendo introduzida no fluxo por algum daqueles Amigos em potencial, ali mesmo, e tudo o que ele ouvia era um murmúrio abafado.

Passaram por um grupo de homens transparentes, sentados na varanda de uma casa antiga. Ao redor, o desfile fantasma prosseguia incessante. Tantos usuários, e esta era só uma porção minúscula da população logada. Ele poderia viver uma dúzia de vidas aqui, e nunca conhecer todo mundo. Sempre haveria algo rolando, do qual estaria excluído. A inserção permanente começava a parecer razoável. Por que não ficar, simplesmente? Podia fazer milhões de novos amigos e se esquecer por completo de seu pai, seu irmão, Magnus e Ivor.

Podia se esquecer totalmente de Ambrose.

Parou e olhou direto para o alto. O topo de um atmoedifício branco reluzente fazia um ângulo reto bem definido contra o céu azul contínuo. Reconheceu a nitidez familiar das bordas, a aparente falta de distância entre ele e o final da quadra, entre terra e céu. Não havia névoa, só perfeição e o conforto de chegar em casa depois de um longo dia. Respirou fundo: o ar tinha o cheiro de lençóis lavados. Sabia que por meio de Takashi poderia ter acesso a centenas de linhas de Amizade, e a partir daí a milhares, milhões, bilhões. Respirou fundo de novo e soltou o ar.

Com dificuldade, afastou o pensamento e se concentrou em acompanhar Takashi. Atrás deles, o cachorro ziguezagueou entre os fantasmas, nariz na calçada, seguindo o cheiro dos dois.